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"Sociedade dos poetas mortos", filme de Peter Weir (1989)
"Sociedade dos poetas mortos", filme de Peter Weir (1989)| Foto:

“A mais completa falta de vida, de realidade, de espírito pedagógico, de compreensão das necessidades e destinos do magistério na escola elementar, de todos os meios de desenvolvimento da inteligência, da vocação e do gosto, faz desses institutos oficiais, na capital do império, um simples mecanismo de diplomar a incapacidade, perpetuando na educação popular o grosseiro automatismo, cuja extinção deve ser o primeiro intuito da reforma, e que tem como resultado acanhar e esterilizar as gerações na sua primeira flor”. (Rui Barbosa, Parecer para a reforma do ensino primário, 1882)

Sempre considerei Sociedade dos Poetas Mortos um filme medíocre. Talvez por também não gostar do ator Robin Williams, mas aquilo sempre me pareceu algo afetado e artificial; e, diga-se de passagem, com um resultado pouquíssimo louvável. Mas, quando tornei-me professor, passei a considerá-lo não só medíocre, mas nocivo.

Um professor idealista e inconsequente, um bando de adolescentes de classe média, entediados em suas vidas sem sentido, e está preparado o cenário para a desgraça: subverter a ordem natural das coisas em sinal de rebeldia libertadora; trocar a formalidade pela informalidade – nas palavras de Eugen Rosenstock-Huessy, uma das principais características da revolução na linguagem; rejeitar o velho, o “batido”, a fim de instaurar o totalmente novo (e totalmente desconhecido); trocar a interpretação tradicional, consagrada, por intuições românticas – revolucionar, portanto; eis o trunfo do professor John Keating, cuja impetuosa e descontraída maneira de seduzir seus pupilos não passou incólume, mas levou ao fim a que toda exaltação revolucionária leva: a morte. Keating teve suas mãos sujas de sangue por achar que poderia moldar o mundo à sua maneira, por pregar que, para substituir algo considerado antiquado, não basta simplesmente aderir à novidade, mas é preciso destruir o antigo – o alvo simbólico, nesse caso, é J. Evans Pritchard, PhD., literato ficcional cujo livro tem as páginas arrancadas pelos alunos.

O professor Keating é motivado pela estupidez pretensiosa de que fala o escritor Robert Musil (em Da Estupidez), e seduz seus alunos, que são movidos pela estupidez singela. Diz Musil:

“A primeira [honesta] é, sobretudo, a uma fraqueza geral do entendimento, a segunda, de uma fraqueza deste em relação a um objeto particular”; ou seja, “esta estupidez [pretensiosa] é menos uma falta de inteligência do que uma abdicação desta perante tarefas que pretende cumprir e que se lhe não adequam […] Pode conter todos os caracteres negativos de um entendimento fraco, mais os que implicam uma afetividade desequilibrada, contrariada, irregular, numa palavra, doentia […] A estupidez de que se trata aqui não é uma doença mental; nem por isso deixa de ser a mais perigosa das doenças do espírito, pois ameaça a própria vida.”

John Keating seduz facilmente aqueles jovens, sedentos que estavam por alguma emoção em suas existências vazias; para esses tipos inquietos (comuns na juventude), a incapacidade de perceber o tempo apropriado para as coisas só pode ser apaziguada por uma educação capaz de lhes “refinar as consciências”, como disse Viktor Frankl, diante de um mundo no qual o “sentimento de vazio” se propaga com intensidade alarmante. O mote do professor Keating, Carpe Diem – colha o dia, aproveite o momento –, retirado de um poema de Horácio, é a isca para que seus discípulos desprezem qualquer construção ordenada do conhecimento, abandonem a lenta e, às vezes, tortuosa estrada em direção à verdade, e se deixem levar pelo sentimentalismo, num estetismo vazio e utópico – e mortífero.

Mas a estupidez maligna do professor Keating não é algo que só existe na ficção – e é exatamente por isso que passei a odiar o filme após tornar-me professor. Seus maneirismos, suas evasivas românticas (desprovidas de sentido concreto) – “Mas só nos sonhos um homem pode ser livre” –, podem ser encontrados em muitos pedagogos e educadores que surgiram no último século. Para esses arautos do “ensinar a ensinar”, o notório saber não significa nada, é mero esnobismo burguês. São esses os portadores do “canto do cisne” da nova pedagogia, da pedagogia libertadora, os “professores de espanto” das ideologias revolucionárias disfarçadas de educação.

Esse tipo de “intelectual proletaroide” (termo cunhado por Alain Besançon), atraído pela pedagogia moderna, deseja vingar-se da sabedoria clássica, a fim de fazer valer seu ideal socializante de igualdade. Para isso, não se furta de usar os mais sórdidos subterfúgios e falsificações da realidade. Um deles é a afirmação de que a palavra aluno, criada na Idade Média, significa sem luz. A primeira vez que ouvi esse absurdo – e já o ouvi muitas vezes – irritei-me tanto que passei um bom tempo tentando rastrear sua origem. Não sei se encontrei, mas, curiosamente, Gilberto Dimenstein, criador do portal Catraca Livre, e Rubem Alves – aquele teólogo que enveredou para o delírio pedagógico após visitar a famosa Escola da Ponte, em Portugal –, dois baluartes dessa onda de educação que não educa, e que são lidos em profusão por professores e burocratas do ensino, mostraram-me, talvez, de onde tenha se espalhado essa mentira.

A dupla escreveu um livro cujo título é a própria exaltação dessa maledicência pedagógica moderna: Fomos maus alunos. Ao lê-lo, percebemos que o título não é metafórico. Em determinado momento, Dimenstein, em aparente tom de indignação, diz: “A palavra alumni vem de sem luz. Isso é o aluno, não é isso? Alumni, não tem luz. Então, essa é a visão que se tem do aluno” (p. 56). Uma mentira deslavada que não tem outra finalidade senão a de ajudá-los a propagar sua ideologia de “professor que não ensina nada”, como disse Rubem Alves em entrevista repetida ad nauseam em reuniões de planejamento pedagógico.

Alumnus vem de alumni, que significa “criança de peito”, “pupilo”, “discípulo”. Alumni deriva de alere, que significa “alimentar”. Luz é lumen, e não tem absolutamente nada que ver com a história; mesmo porque o “a” não é privativo no latim como o α (alfa) é no grego. Portanto, não tem sentido dizer que a-lumen (que é o nome de um minério) significa sem luz. Esse é o tipo de produto de uma estupidez doentia. E os professores, em sua maioria estúpidos honestos, propagam essas pedagogias ideológicas que nos levaram às últimas posições nos testes internacionais. Os alunos não são mais incentivados a estudar, são proibidos de memorizar informações, são desestimulados a tirarem as melhores notas e não podem ser submetidos a disciplina alguma – muito pelo contrário, já são frequentes os casos de agressão a professores cujo agressor fica totalmente impune.

É tempo de despertar e lutar pela verdadeira educação de qualidade, que passa por uma revisão completa da Constituição, do ECA e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Sem isso, estaremos fadados ao fracasso.

Cumpre extirpar toda a ideologização com a qual oportunistas revolucionários envenenaram tão nobre atividade. Cumpre aos pais assumirem a responsabilidade de tornar seus filhos cidadãos civilizados. E cumpre aos verdadeiros professores, cuja vocação – não a empolgação juvenil com o magistério e nem o oportunismo da estabilidade estatal – move os passos, respirar fundo e assumir novamente a tarefa de construir o futuro da nação.

É urgente refletirmos a máxima de C. S. Lewis: “O dever do educador moderno não é o de derrubar florestas, mas o de irrigar desertos”.

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