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Apegado ao cargo, Guedes é o Delfim Netto de si mesmo
| Foto: Washington Costa/Ascom/ME

Ainda em 2018, surgiu uma piada entre economistas: quem seria o Delfim Netto desta vez? Previa-se que Bolsonaro abandonaria a agenda de reformas e ajuste fiscal, com Paulo Guedes tendo o mesmo fim de Roberto Campos e Otávio Bulhões. A dupla Campos-Bulhões tentou ajustar as contas públicas no início do regime militar e terminou demitida. Delfim Netto, um economista menos preocupado com o controle do déficit público e da inflação, foi escolhido para liderar a política econômica de 1967 em diante. Quando surgiram as piadas sobre um novo Delfim Netto, ninguém foi capaz de imaginar o fim dessa história: Paulo Guedes topou ser o Delfim Netto de si mesmo.

O abandono do ajuste fiscal não é uma novidade, apenas foi escancarada nos últimos tempos. Em maio de 2020, escrevi uma coluna cujo título era “Agenda de Paulo Guedes é mais uma vítima da pandemia”. A aproximação entre Bolsonaro e o Centrão, e o contexto das eleições de 2022, já estavam entre os fatores citados.

Na época, uma pesquisa da InfoMoney indicava que 70% dos analistas políticos consultados viam como baixa a probabilidade de Guedes permanecer no cargo. A hipótese era que, apesar de concordar com a suspensão das regras fiscais em 2020, Paulo Guedes insistiria na defesa do ajuste fiscal e o teto de gastos quando a pandemia passasse, entrando em conflito com os interesses eleitorais de Jair Bolsonaro.

Ao invés de renunciar para defender seus valores, como se imaginava, o ministro se apegou ao cargo. Na discussão sobre o orçamento de 2021, no início deste ano, Guedes correu para normalizar o recorde de emendas parlamentares, a contabilidade criativa e o orçamento paralelo. Não combateu a irresponsabilidade fiscal – pelo contrário, endossou o que jurou combater.

Nas últimas semanas, quando os precatórios entraram em debate, já estava claro o objetivo: abrir espaço para gastos eleitoreiros. Guedes tentou desconversar, disse que apenas se adaptava a um evento inesperado. Nos últimos dias, Bolsonaro decidiu que o Auxílio Brasil seria ainda mais generoso do que o previsto. Já não se trata de mudar o teto para se adaptar a decisões de terceiros: o objetivo é criar novos gastos por iniciativa do governo. Guedes aceitou.

Quem supôs que o ministro renunciaria em caso de rompimento do teto cometeu dois erros. Primeiro, imaginou que ele se guia por valores e defende a própria honra. O segundo erro foi supor que o fim do teto de gastos seria chamado pelo nome. A todo custo, o governo tenta negar e garante que o teto continuará em vigor a longo prazo. Como bem sabia Orwell, autor recentemente reeditado por esta Gazeta, políticos mentem muito – sim, Guedes é um político.

Em palestra esta semana, o ministro cogitou até mudar o indexador do teto – o índice que determina o crescimento do limite de gastos. Outra possibilidade cogitada é abrir uma exceção para que o novo programa social seja mais generoso em 2022 – curiosamente, um ano eleitoral.

Noutros tempos, os liberais costumavam apontar que nada é mais permanente do que um gasto transitório. Alguém realmente acredita que o novo benefício diminuirá após 2022? É mais provável que, em meio às eleições, Bolsonaro e Lula se vejam obrigados a prometer ainda mais. A competição já começou e Lula cogita um benefício de R$ 600.

É interessante lembrar o que aconteceu quando o governo militar substituiu a dupla Campos-Bulhões por Delfim Netto. No âmbito privado, a troca foi ótima para os responsáveis. Costa e Silva teve sucesso em conter as demandas por novas eleições e seu grupo político continuou no poder com Médici. Delfim Netto se tornou um dos homens mais poderosos do país, com uma vida próspera, confortável e repleta de homenagens públicas.

E o brasileiro comum? Muitos apoiaram a ditadura enquanto a economia crescia, acreditavam que os militares eram homens honrados. O problema é que a espiral inflacionária ficou descontrolada e só parou após o Plano Real. Quando isto aconteceu, os militares perderam o apoio da população e caíram.

O fim do teto tem custos frequentemente esquecidos. Eles são maiores a longo prazo, mas aparecem desde já. Dólar, juros futuros e expectativa de inflação subiram nos últimos dias – o que impacta o cidadão comum por diversas vias, seja pela despesa pública com pagamento de juros ou pelo preço da gasolina. Na batalha de populismo macroeconômico que deve marcar 2022, ainda não sabemos quem vai vencer, mas sabemos quem já perdeu.

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