Apesar de um ano difícil, ainda há muito o que celebrar a cada volta da Terra ao redor do Sol. Nem que seja o nada simples fato de se estar vivo.
Apesar de um ano difícil, ainda há muito o que celebrar a cada volta da Terra ao redor do Sol. Nem que seja o nada simples fato de se estar vivo.| Foto: PIxabay

Curioso. Os dois momentos mais importantes na vida de uma pessoa, o nascimento e a morte, só podem ser revividos em imaginação. Nunca como lembrança, obviamente. Por isso nos é impossível refletir na totalidade sobre o que seremos e o que fomos – a não ser que você acredite em regressões ao útero e em reencarnação. Mas aí é outra história.

Uma pena. Queria muito poder me lembrar com exatidão do que aconteceu naquela manhã de quinta-feira em que vim ao mundo, no remotíssimo ano de 1977. Qual teria sido a primeira coisa que enxerguei? Que gosto tinha o ar ao invadir pela primeira vez meus pulmões? E, ao me aconchegar no colo materno, o que teria passado pela minha cabecinha desprovida de referências?

O mesmo serve para a morte, cuja espera trago comigo desde o dia em que deixei o ventre da minha mãe para explorar os descaminhos do mundo. Tá. Nem tanto. Desde os 7 ou 8 anos. Por mais que na hora agá eu tenha comigo um laptop e forças o bastante para martelar as teclas, o máximo que conseguirei descrever daquele instante será o momento t – 1. Daí porque ninguém jamais soube narrar o que se passa naquele último suspiro.

Sobre o nascimento e suas celebrações anuais, e ao contrário da morte, como se verá adiante, não tenho nenhuma esquisitice nem superstição. Mas me esforço para manter algum resquício da alegria infantil – os chapeuzinhos cônicos, a língua-de-sogra, a Marta Rocha, as balinhas de coco e os canudinhos de maionese. Sem falar nas velinhas que as décadas foram avolumando sobre o bolo que agora tem que ser bem light – mas não é. O que, pensando bem, alguém pode considerar uma baita esquisitice.

Nisso sou bem diferente dos meus amigos de cabelos grisalhos, quando há cabelos, bolsas escuras sob os olhos, muitas rugas e o cansaço inequívoco de quem sofre para aprender, mas não necessariamente aprende. E por isso me sinto, reconheço, um tanto quanto patético. (Nada mais patético do que um velho de All Star – diria um velho que usa All Star todos os dias). O que você está celebrando?, me perguntam eles. Mais uma volta ao redor do Sol? O fato de você ter sobrevivido por mais um ano? A inexorável decadência do seu corpo?

Celebro tudo isso. Hoje mesmo acordei bem cedinho, fui para a sacada, fechei os olhos e, quando o Sol despontou no horizonte, imaginei o planeta distraído em sua órbita e subitamente se lembrando de dar um cavalo de pau no astro. Na minha imaginação os pneus até cantavam. Também celebro o fato de estar vivo – o que, no meu caso, e a depender da luz e da música que está tocando, chego a considerar um milagre. E a decadência do corpo eu celebro com uma boa olhada no espelho, na expectativa de enxergar nos meus olhos miúdos demais uma lasquinha microscópica do gordinho careca de 43 anos atrás.

Ainda celebro a família que, aos trancos e barrancos, chegou até aqui razoavelmente unida. E os amigos, tanto os presentes quanto os ausentes & distantes. Amigos que, em algum lugar desse mundão véio sem porteira e por algum motivo insondável, hão de olhar para o calendário hoje e se lembrar rapidamente da criança, do jovem, do semiadulto que fui para eles. (Pelo menos é assim que me lembro dos amigos quando consulto o calendário e levo um susto: hoje é aniversário de Fulano).

Este ano o aniversário ganhou contornos que Galvão Bueno descreveria como dramááááticos e que o tornarão inesquecível até o momento em que eu receber o beijo da Indesejada. Primeiro por causa da maldita pandemia que me impede de inundar a Marta Rocha com minha baba involuntária e cheia de vírus ao assoprar as velinhas. Depois porque ele marca a metade exata da minha vida, de acordo com uma esquisitice na qual acredito a contragosto, ao lado da esquisitice maior ainda que é acreditar que, por desgosto, e não sem antes comer um tira-gosto, por mais que isso possa vir a soar como mau gosto, morrerei num dia 15 de agosto.

Hoje, pois, celebrarei a possibilidade de estar cercado pelos meus, ainda que só em pensamento. O bônus disso é que, se eu me esforçar um pouquinho, serei capaz até mesmo de celebrar com aqueles que já se foram (Dona Olívia, Seu Roque, tio João) e com os que ainda estão por aí, mas distantes e silenciosos, como convém aos ex-amigos. Celebrarei ainda a deliciosa oportunidade que é admirar esse céu carregado e curitibanamente sisudo, que é pagar uma conta, que é levar o alimento (nem que seja um McDonald’s) à boca, que é rir, que é passar raiva, que é escrever diariamente, que é achar que nada tem conserto para, no segundo seguinte, descobrir a solução daquele e de tantos enigmas.

Que é poder dormir imaginando que, em 2021, se muitas coisas derem certo e outras tantas derem “errado”, estarei celebrando o primeiro ano da segunda metade da minha vida na companhia física e muitíssimo palpável dos que amo e, com alguma sorte, descobrindo que não tenho mais energia para passar uma hora saltando na cama elástica.

E assim, ano após ano após ano, até o dia 15 de agosto de 2064.

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