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Demonstrações de cordialidade são péssimas para consciências carcomidas por um desejo inconfessável de sangue.
Demonstrações de cordialidade são péssimas para consciências carcomidas por um desejo inconfessável de sangue.| Foto: Agência Brasil

Idiota (e não imbecil) que sou, ao assistir às imagens do abraço do presidente Jair Bolsonaro no ministro Alexandre de Moraes durante uma cerimônia no TST imaginei que no dia seguinte todo mundo só falaria disso. Afinal, este foi, para mim, um dos gestos definidores de um quatriênio marcado pelo antagonismo psicótico, pelo medo infundado e pela vaidade farisaica.

Mas não. O gesto foi absolutamente desprezado. Só vi um jornalista usar o selinho azul para chamar Bolsonaro de “tchuchuca”. Talvez ele esperasse que o presidente desse um soco na cara do ministro. O que é compreensivo. Demonstrações de cordialidade são péssimas para consciências carcomidas por um desejo inconfessável de sangue. E aí está outro motivo para termos dado as costas para o supremo abraço presidencial: ele contraria um espírito do tempo que confunde truculência com coragem e qualquer uma das sete virtudes capitais com covardia.

Outra coisa que ajudou a ofuscar aquele que um príncipe Michkin consideraria o acontecimento político do ano foi a visita do bilionário Elon Musk. Mas só porque Musk, muito mais do que um abraço, fomenta contendas virulentas. Digo, tão virulentos quanto conseguem ser os memes e os “debates” das redes sociais. Outro importante sinal dos tempos, ou melhor, do estado geral da nossa alma: preferimos chafurdar na miséria do debate político a contemplar duas pessoas se esforçando para agirem como seres humanos dignos.

Por fim, o desprezo pelo abraço do presidente no enfant terrible do STF (e vice-versa) parte de uma escolha consciente e maquiavelicamente pragmática daqueles que controlam a narrativa: ignorar qualquer coisa que o presidente Jair Bolsonaro diga ou faça e que possa ser prejudicial ao esforço de retratar o chefe do Executivo como um monstro. Ou seja, para alguns a realidade terá de se ajustar à opinião de iluminados. Na marra. E, para tanto, alguns estão dispostos a comprometer o que lhes resta (se é que resta algo) da esperança.

Deixa de frescura

Tudo na cena é digna de apreciação, análise e, como pretendo afirmar em seguida, admiração. Bolsonaro chega com aquele sorriso mezzo carioca, mezzo joão-sem-braço, envolve com uma curiosa efusividade dois pachecos cujo nome não vou me dar o trabalho de pesquisar e, ao avistar o reizinho Alexandre de Moraes carrancudamente sentado no trono, faz um gesto desses que a gente faz no bar para os amigos. Algo do tipo “levanta aí, cara, deixa de frescura!”.

Alexandre de Moraes, que para mim parece constrangido como um menino mimado que ouve da mãe a ordem de “não quero saber quem começou o quê! engole o choro e abraça teu irmãozinho! quero ver vocês dois fazendo as pazes agora!”, se levanta e recebe um aperto de mão. Era para ter ficado nisso, mas por algum motivo Alexandre de Moraes se empolga e coloca as mãos no ombro e no cotovelo de Bolsonaro - que agora parece reticente em se aproximar demais.

Claro que você pode usar as lentes do cinismo, do maquiavelismo, do cientificismo político, do niilismo e do identitarismo para ver a cena como um duelo e daí atestar que um deles se saiu vencedor e o outro morreu ou está mortalmente ferido. “Foi uma demonstração de masculinidade tóxica”, dirá alguém. Muito provavelmente alguma. “Foi um cálculo político que antecipa um golpe”, dirá outro em letras garrafais. “Jesus foi traído com um beijo”, evocará um terceiro, meio que cantarolando aquela música da Legião Urbana.

Mas vou convidá-lo agora a beber da escassa fonte da ingenuidade intencional a fim de assistir à cena como um sinal de que, apesar de todos os pesares que estampam as capas dos jornais ou nossas timelines, apesar de toda a retórica belicosa e todos os pontos de exclamação em demasia, apesar de todos os absurdos jurídicos e de toda essa nossa sensação de impotência, apesar disso e daquilo dois inimigos, por alguns segundos, se deram as mãos, cada qual sentindo do outro a presença viva e se reconhecendo como um indivíduo que existe para além do personagem político.

Sem nenhum medo de perder todas as minhas economias nesta aposta, arrisco dizer que assistimos a um milagrezinho: por alguns segundos, o teatrinho macabro do poder (ou teatrinho do poder macabro) foi interrompido para apreciarmos a manifestação da cordialidade (a palavra correta é “amor”) que nos irmana. O fato de no átimo seguinte Bolsonaro e Alexandre de Moraes terem voltado a seus respectivos papeis políticos é um detalhe que opto por ignorar hoje. Só por hoje.

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