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Caim matando Abel, em tela de Peter Paul Rubens: nada de bom nasce da violência, ainda que ela encontre justificativa numa visão deturpada de justiça.
Caim matando Abel, em tela de Peter Paul Rubens: nada de bom nasce da violência, ainda que ela encontre justificativa numa visão deturpada de justiça.| Foto: Wikipedia

Desde Caim, o mal do mundo é procurar justificativas para erros cometidos conscientemente. O personagem bíblico, no caso, matou o irmão Abel por inveja. Uma vez confrontado, foi logo colocando a culpa na suposta “predileção” de Deus pelo outro. Condenado a errar pelo mundo, Caim continua em seu périplo eterno, disseminando não só crimes, mas sobretudo o ímpeto de fazer de si uma exceção às leis morais que regem a vida.

O que se viu ontem, durante e depois da invasão do Capitólio por manifestantes pró-Trump, foi um festival de cainzices. Todo mundo reconhecendo o erro da violência política que resultou na morte de ao menos uma pessoa, mas também todo mundo procurando (e encontrando) justificativas para a violência. A eleição foi fraudada, Joe Biden vai destruir os Estados Unidos, a imprensa é parcial e ecoa o discurso esquerdista. Etc.

Tudo isso é ou pode ser verdade. Assim como, por insondáveis motivos, talvez a preferência de Deus por Abel fosse verdade. No entanto, é justamente diante dessas situações de conflito que o certo deve se sobrepor. E o certo nunca é recorrer a alguma forma de violência real ou simbólica só para ver prevalecer um conceito muito particular (e torto) de justiça.

Vingança

Já há alguns anos me esforço cotidianamente para me abster da noção de justiça que norteia a vida pública e privada contemporânea. Não é fácil. E tudo por causa de um simples post de Facebook escrito por um autor com o qual, infelizmente, nunca me dei muito bem. O parágrafo escrito por César Miranda me foi enviado por um amigo ainda no turbulento ano de 2016. E diz o seguinte (grifos meus):

“A grande inimiga da paz é a justiça. O senso de justiça avilta o senso de perdão e fecha as portas ao amor. Para haver paz é preciso, primeiramente, esquecer a justiça. Quando não se dispõe da justiça, o amor é o que resta. Institua a justiça como primeiro item de um processo de paz e o ódio vem à tona. O mundo só vai sair desse lamaçal quando o homem tiver “orgulho de perdoar”. A Justiça dos homens não é justiça, é vingança. No paraíso haverá bilhões de almas que foram para lá ‘injustamente’, ganharam a eternidade da bem-aventurança por obra e graça da bondade divina. No inferno não, para o inferno só vai quem merece, todos os habitantes do inferno estão lá por justiça. O inferno é o reino da justiça, o paraíso é o reino do amor e do perdão”.

Não espero que você concorde com a mensagem. Até porque sei que ela é incômoda demais. Quase contraintuitiva, sobretudo numa época em que evocamos a todo instante a justiça, com suas promessas de reparação (vingança) a qualquer preço. Eu mesmo tive de lê-la e relê-la e treslê-la, e ainda hoje ela me desce arranhando a garganta, quase como uma heresia. Afinal, somos todos descendentes simbólicos de Caim e, diante do que entendemos como injustiça, sentimos que precisamos fazer alguma coisa – a justificativa a gente dá um jeito de encontrar depois. É na justiça reparadora (vingativa) dos homens que estão todos os males do mundo.

Depois de assimilar essa incrível lição dada por uma pessoa que nunca vi pessoalmente e com a qual troquei meia dúzia de palavras, três delas provavelmente ríspidas, minha vida mudou. Para melhor. Não que eu espere do leitor epifania parecida. Infinitas foram as circunstâncias que me levaram a abdicar do senso muito mundano de justiça e, assim, seguir com a minha vida. Fica aqui, porém, o testemunho, não com a esperança de convencer, e sim de fazer o leitor refletir.

Coragem e covardia

Ainda que não tenhamos, ainda bem, o impulso assassino de Caim, agimos como ele o tempo todo. Nossa violência, seja ela em atos ou palavras, é sempre sucedida por justificativas as mais estapafúrdias. Argumentos e mais argumentos, muitos deles desavergonhadamente falaciosos, são evocados na hora de prestar conta de nossas ações e palavras a nós mesmos. Foi ele quem começou. O PT também fazia isso e ninguém falava nada. Se eu não fizer alguma coisa, a esquerda vai destruir tudo o que eu lutei para construir. Etc.

Complica ainda mais a situação quando adicionamos a esse caldo noções bastante superficiais de coragem e covardia. Grosso modo, corajoso (e admirável) é aquele que vai lá e faz alguma coisa. Qualquer coisa. Invade o Capitólio. Bloqueia o amigo bolsonarista/petista/isentão. Dá uma “voadora retórica” no adversário e o bota “em seu devido lugar”. E assim por diante.

E associamos a covardia à inação, mesmo quando virtuosa, e ao perdão. Daí a ideia, muito presente no espelho do mundo que são as redes sociais, de que é preciso se sublevar a fim de restaurar a ordem. Discurso contraditório, principalmente quando dito por quem se considera um conservador. De passagem, vale mencionar aqui como contraponto os inúmeros objetores de consciência nas guerras recentes – tratados todos como covardes e, alguns, condenados à morte.

Quanto ao perdão, acreditam os guerreiros virtuais que perdoar é para os fracos. Já escutei muito também que quem perdoa hoje amanhã acabará num pelotão de fuzilamento ou campo de concentração. É sempre uma possibilidade. Mas não seria justamente esse medo o que definiria o covarde?

Vivemos dias de Caim. De um lado, há os ressentidos e invejosos, também chamados de oprimidos e desprivilegiados, que, incapazes de perdoarem a si mesmos por sua inveja e temerosos das consequências de uma predileção divina que só existe na cabeça deles, recorrem à justiça dos homens em busca de reparação, na forma diabólica de vingança. De outro estão os guerreiros que se consideram ungidos e que, levados ao confronto pelo medo herético de que o mal vença o conflito eterno, acabam por destruir a si mesmos e a tudo de bom e belo que seus antepassados foram capazes de criar – na expectativa de ver triunfar um ideal de justiça que também só existe em suas cabeças.

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