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Um diálogo à toa da série “Big Bang Theory” me fez perceber que, cada vez mais, cultura e identidade se misturam, de modo que a crítica a uma obra se torna uma crítica ao fã.
Um diálogo à toa da série “Big Bang Theory” me fez perceber que, cada vez mais, cultura e identidade se misturam, de modo que a crítica a uma obra se torna uma crítica ao fã.| Foto: Divulgação

Tenho mais de 20 anos de experiência como jornalista. Os primeiros dez anos dessa história foram praticamente todos dedicados à crítica cultural. E, no entanto, até hoje não consigo entender por que as pessoas se ofendem tanto quando você questiona o valor estético de uma obra. No meu texto sobre o trabalho dos Gêmeos no Museu Oscar Niemeyer, por exemplo, sobraram insultos e até mágoas dos leitores.

Minha primeira experiência com esse tipo de reação exagerada, quando não violenta, foi ainda no século passado, falando de Paulo Leminski para uma plateia curitibana. Depois falei de um artesão local metido a artista e teve até escritor pedindo minha cabeça para o dono do jornal. Quando critiquei a poesia concreta dos irmãos Campos e Décio Pignatari, a coisa ficou séria – tanto quanto pode ser séria uma discussão sobre poesia concreta. E por aí vai.

E não adiantou nada repetir à exaustão que o objetivo da crítica cultural não é destruir nem a obra nem o artista, até porque a obra é uma realidade e o artista é só uma pessoa digna, no mínimo, de reconhecimento pelo esforço. Tampouco adiantou explicar que na figura repugnante do crítico que aspira a algo além da polêmica está alguém que vê virtude na dúvida constante. Pelo menos esse era o meu caso.

Sigo sem entender direito o que leva alguém a comprar certas dores, mas obtive um esboço de resposta assistindo a um episódio da série “Big Bang Theory”. Não, não sou fã da série nem nada. (Embora tenha vontade de dizer que “Big Bang Theory” explica direitinho como e por que a ciência tratou a pandemia de uma forma quase inumana). É que, nessa de trabalhar em casa, preciso de algum tipo de ruído branco para conseguir criar. Às vezes é uma música que toca o dia inteiro, às vezes é um filme que já vi trocentas vezes, às vezes é uma série ruim ou medíocre como “Big Bang Theory”.

De vez em quando, tiro os olhos do computador para ver o que está passando na televisão. E foi numa dessas horas que acompanhei com indisfarçável enfado o diálogo entre Sheldon e Amy. Ela tinha acabado de destruir “Os Caçadores da Arca Perdida” para ele, mostrando que o roteiro tem uma falha enorme. Para se vingar, Sheldon buscou nos produtos culturais de que Amy gosta falhas capazes de causar nela a mesma decepção acachapante.

Cultura como uma forma de identidade

Na hora me lembrei da Grande Crise Pessoal de 2008, quando me olhava no espelho e, apesar das boas intenções, só conseguia ver um espírito de porco em estágio avançado de calvície. Não foram poucas as vezes em que me arrependi de ter querido pôr um ponto de interrogação na cabeça das pessoas. Tampouco faltou ocasião em que perguntei aos céus por que gostava tanto de conversar sobre livros, filmes e música a ponto de, naquela época, transformar essas conversas empolgadas em meio de vida.

Até então, não tinha percebido uma mudança muito profunda no sistema de valores que orienta o consumo de produtos culturais, desde a poesia neoparnasiana até o funk. Isto é, não tinha notado que, de repente (ou sem que o idiota aqui se desse conta), determinado autor ou obra passaram a fazer parte da identidade das pessoas. Dessa forma, até uma série como “Big Bang Theory” acaba por se confundir com a personalidade do espectador, a ponto de ele ver na crítica, por mais bem-humorada que se pretenda ela, uma ofensa pessoal.

O produto cultural, portanto, não tem a ver com a obra e o autor em si, e sim com o sentimento do espectador/ouvinte/leitor em relação à obra ou ao autor. Ao dizer, por exemplo, que Bukowski é ruim, é como se você dissesse que os sentimentos que o leitor nutre em relação ao texto de Bukowski são ruins. E, bom, você já sabe: na contemporaneidade todo e qualquer sentimento, até mesmo os flagrantemente abjetos e reprováveis, devem ser respeitados, quando não exaltados.

A identificação com o autor, cantor, diretor ou até pichador é tamanha que um admirador de, sei lá, Woody Allen, se sente pessoalmente atingido quando você diz que o palhaço envelheceu mal, muito mal, e que os últimos filmes dele não servem nem como ruído branco. É como se o espectador, para continuar no exemplo de Woody Allen, se sentisse coautor do filme e tivesse investido toda a sua alma para coproduzir “Meia-Noite em Paris”.

Quando, na verdade, o crítico, o bom crítico (o crítico excelente e extraordinário e modesto que fui e às vezes ainda sou), só quer apontar elementos e características que talvez tenham passado despercebidos ao fã mais ardoroso e que (pretensão das pretensões) o ajudarão a compreender melhor não só a obra como a si mesmo. Se ele conseguir fazê-lo rir no meio disso tudo, tanto melhor.

Mas aí é que está: num mundo viciado em certezas, quem se interessa por dúvidas, ainda mais quando as dúvidas dizem respeito às próprias escolhas? Quem está disposto a reconhecer que passou anos ouvindo certa banda não porque gostasse das músicas, e sim para agradar os amigos? E, por fim, que está disposto a abrir mão de sua excentricidade e, pela primeira vez em anos, encerrar um texto com ponto de interrogação?

No caso da última pergunta, eu não.

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