As melhores piadas estão na boca dos velhos barbeiros, que não deixam de ressaltar o ridículo dos transgêneros, do “limite do humor” e até do MMA.
As melhores piadas estão na boca dos velhos barbeiros, que não deixam de ressaltar o ridículo dos transgêneros, do “limite do humor” e até do MMA.| Foto: Reprodução/ Amazon Prime

Avisei minha mulher na véspera. Meu plano para sexta-feira (5) era acordar mais cedo do que o de costume, tomar um café apressado, me sentar diante da televisão e assistir a “Um Príncipe em Nova York 2”. Sim, era desse tamanhão minha expectativa para a sequência de um filme a que assisto praticamente todos os anos, há 30 anos, e do qual evidentemente gosto mais do que é considerável saudável gostar.

E foi o que fiz, morrendo de medo de me frustrar. Afinal, vivemos tempos em que Hollywood paga um pedágio caríssimo ao politicamente correto e à cultura do cancelamento. Como ficariam as piadas com a cultura africana em que se baseia o primeiro filme? Eddie Murphy correria o risco de ser linchado por seu suposto autorracismo? Seria ele ousado o bastante para repetir personagens como o pastor sexista (de Arsenio Hall) ou o cantor da banda Sexual Chocolate?

Cinco horas mais tarde (sou filho do meu tempo e vejo filmes a conta-gotas), ao ouvir John Legend interpretando magistralmente o falsetto clássico de Paul Bates em “She's Your Queen”, estou aliviado. “Um Príncipe em Nova York 2” pode não ter o frescor do original, mas o pedágio que Eddie Murphy paga à geração woke não é o bastante para comprometer a história e muito menos para arruinar o legado cultural do filme original.

Mas reconheço que assisto a “Um Príncipe em Nova York 2” com olhos de velho. E um velho generoso que se confessa fã do original e está disposto a deixar passar certos pecadilhos. Não sei como assistem ao filme os jovens que já cresceram sob os auspícios do “tiburismo sistêmico”. Nem os velhos-mais-velhos do que eu, que certamente enxergarão comunismo e identitarismo onde eu enxerguei apenas piadas e boas referências ao inegável progressismo do original.

Sim, porque “Um Príncipe em Nova York” sempre foi um filme progressista. Só que ninguém chamava assim antes. E, se o filme se tornou motivo de culto até para conservadores como eu, é justamente porque podemos perceber nele o quanto a pauta progressista se radicalizou nas últimas três décadas, abandonando valores que antes eram inegociáveis dos dois lados dessa “disputa”, como a família, a separação óbvia entre os sexos e a defesa de ao menos algumas instituições.

Ração industrializada, mas não-vegana

UPENY2 (não é assim que os jovens escrevem?) começa rindo de veganos. Depois, tira sarro da masculinidade frágil do homem que não sabe como agir diante da possibilidade de se banhar com 3 mulheres e vai pedir conselhos para a mãe. E consegue rir até mesmo dos meninos-soldados dos conflitos africanos – como não admirar uma coisa dessas? As melhores piadas, contudo, estão na boca dos velhos barbeiros, todos interpretados por Hall e Murphy, e que não deixam de ressaltar o ridículo dos transgêneros, do “limite do humor” e até do movimento #Metoo.

Se há algum discurso político mais evidente no filme é o do feminismo. Que, convenhamos, já ditava o tom do original. Mas não é nada de fazer o espectador conservador arrancar os cabelos. Longe disso. No filme as mulheres ainda são lindas e independentes, gostam de joias, vestidos e gentilezas masculinas, às vezes são até barraqueiras geniosas –  30 anos mais tarde, elas só continuam querendo ser reconhecidas também pela inteligência, o que é mais do que justo, e poder assumir o trono de Zamunda.

O senão de UPENY2 fica mesmo por conta das músicas – o que também é compreensível. Seria ingênuo de minha parte esperar ouvir Stevie Wonder num mundo que ouve um tal de Davido. Alguém mais sensível e chato também pode sentir uma dorzinha no peito ao ver como o tempo agiu sobre Eddie Murphy, Arsenio Hall, Shari Headley e principalmente John Amor (Cleo McDowell) e Louie Anderson (Maurice). O tempo é impiedoso.

Ah, sim, e já ia me esquecendo de falar da cena que dá título a este texto. Nela, o príncipe Lavelle Junson, filho bastardo do agora Rei Akeen, tem de provar seu valor cortando bigodes de um leão adormecido. É uma cena que talvez se alongue mais do que deveria e que ri ou tenta rir do ridículo de certos ritos de passagem.

Mas a cena serve também como metáfora para os artistas, sobretudo os mais velhos, que ainda ousam produzir algo engraçado em tempos tão mal-humorados. Por mais que o rito pareça ultrapassado, é preciso respeitá-lo, temer as feras e demonstrar sempre mais inteligência do que coragem. E principalmente saber que as feras, por maiores e mais cruéis que pareçam, só querem mesmo poder se deliciar em paz com um potinho de ração industrializada. De preferência não-vegana.

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