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Mil dias se passaram desde que Bolsonaro tomou posse. O país não acabou. E a vida seguiu seu curso à revelia das palavras e decisões palacianas.
Mil dias se passaram desde que Bolsonaro tomou posse. O país não acabou. E a vida seguiu seu curso à revelia das palavras e decisões palacianas.| Foto: Agência Brasil

No mundo ideal, os mil dias da administração de Jair Bolsonaro seriam vistos com a devida parcimônia. Acertos seriam avaliados pelo que são; erros, idem. Ninguém jamais pressuporia perfeição ou desastre total. Mas não vivemos num país ideal, longe disso. O que significa que, provavelmente, para a oposição todos os acertos serão ignorados e os erros ganharão proporções catastróficas. Enquanto a situação exagerará nos acertos e ignorará os erros. Como convém.

Arriscando-me a ouvir uma reprimenda por “fugir ao debate”, digo que a avaliação dos mil dias da administração de Jair Bolsonaro está de tal modo contaminada pelas afeições políticas que é impossível, hoje, beber dessa água sem ter dor de barriga. Ajudaria e muito se tivéssemos fomentado em nós e nos políticos o espírito crítico cristão, humilde, silencioso, de fora para dentro, e não o ruidoso espírito crítico pregado por Paulo Freire, revolucionário, arrogante e de dentro para fora. Mas agora a Inês é morta, tadinha.

Não é, porém, o Estado que me interessa, e sim o indivíduo. Eu e você, separados por uma conjunção falsamente aditiva. Nunca nós. Nunca eles. Quando se pensa os últimos mil dias do ponto de vista do indivíduo, ah, tudo se descortina numa miríade de cores e tons. Nada é monolítico. Nada é definitivo. Nada pode ser expresso num discurso presidencial ou num artigo pedindo o fim disso tudo que está aí.

Aliás, se houvesse sociologia nas universidades brasileiras, bem que alguém poderia se debruçar sobre esse assunto que, por no máximo cinco minutos, ou até o fim deste parágrafo, considero fascinante: a mania de recomeço do brasileiro. É algo que está entranhado em nosso espírito – hoje mais até do que a falsa alegria de que fala Moacyr Scliar em seu esclarecedor “Saturno nos Trópicos”. Repare que, para o brasileiro, basta um impeachment, uma nova Constituição, um golpe ou até a eleição de um outsider para que a esperança seja renovada. Até a próxima decepção, isto sim.

De volta ao indivíduo, contudo, convido o leitor a entrar comigo no DeLoren e voltar para aquele dia 1º de janeiro de 2019, quando teve início a “aventura bolsonarista”. 55 % do país acreditavam que era um recomeço, uma nova forma de fazer política, um jeito diferente de as autoridades se relacionarem com o cidadão e de os cidadãos se relacionarem com o Estado. Enquanto 45% temiam por fogueiras de livros e massacres de LGBTs e velhinhas portando fuzis nas ruas das cidadezinhas do interior.

Ira & parcimônia

Naquele 1º de janeiro de 2019, eu estava na praia. Muito provavelmente preocupado com algum prazo de tradução. Se me lembro bem, e não me lembro, estava um bocado entorpecido de esperanças que não tinham muito a ver com a política. No meu horizonte estavam um casamento, livros a serem escritos, o retorno à Igreja e até um emprego na Gazeta do Povo – objetivos que se realizaram à revelia das decisões palacianas. E não é sempre assim?

E tenho certeza de que cada um dos leitores, ao se lembrar de como era a vida há mil dias, perceberá que os casos e acasos que se sucederam tiveram pouco ou nada a ver com o que disse ou fez Bolsonaro. Ou com o que os analistas disseram que Bolsonaro disse ou fez. Se a vida é uma sucessão de sonhos ora realizados, ora abandonados (e é), isso tem mais a ver com as batalhas que escolhemos travar e com os obstáculos que decidimos enfrentar ou tangenciar do que com o que é publicado no Diário Oficial.

Mil dias se passaram. Meu filho, antes uma criança, hoje está um homão! As tardes que se arrastavam por laudas e mais laudas a serem traduzidas em silêncio se transformaram num cotidiano bem mais agitado e que se move no ritmo lânguido e assim meio blasé da Catota. Houve uma pandemia – e não foram poucas as vezes em que optei por dar uns murros em ponta de faca, escrevendo textos e mais textos contra a insanidade dos lockdowns. Até que minha indignação deu lugar à resignação sábia dos que contemplam os loucos em seu estranho ritual de bater cabeça.

Fiz amigos. Perdi amigos. Tirei a máscara do rosto para brindar à saúde dos demais presentes àquela mesa. Li menos do que gostaria – mas provavelmente estou sendo duro demais comigo mesmo. Acertei e errei em meus textos e atos. Comecei a nadar, deixei de nadar, emagreci, engordei. Mudei de casa e até passei a dar a cara a tapa em vídeo. E teve ainda aquela vez em que fiquei paralisado no meio da rua ao me dar conta de que um dia morrerei. Esse dia foi louco.

Enquanto vivíamos esses mil dias de sol ou chuva, frio ou calor, granizo ou névoa, uns caras lá em Brasília falavam umas coisas e tomavam umas decisões que nos chegaram (e ainda chegam) como se fossem determinantes para a nossa felicidade ou tristeza, para nossa esperança ou medo. Não são.

Que venham outros mil e mais mil e mais mil. Que venham, ora bolas!, os mesmos ou outros caras falando isso e aquilo e tomando decisões. Porque, enquanto houver mil dias disso e daquilo a analisarmos com nossa abundante ira e cada vez mais rara parcimônia, inspirando num dia e causando indignação noutro, é sinal de que estamos vivos. O que, por mais óbvia que pareça, é uma constatação incrível.

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