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O que é preciso para que as pessoas questionem a realidade em que vivem, em vez de cederem ao impulso da sinalização da virtude em busca de aceitação?
O que é preciso para que as pessoas questionem a realidade em que vivem, em vez de cederem ao impulso da sinalização da virtude em busca de aceitação?| Foto: Bigstock

Rede social é um vício inconfessável que só confesso mesmo para compor a crônica de hoje. Pois eu estava lá todo alegre e contente no sábado, fumando um charuto matutino, ouvindo “música de comunista” num volume bem acima do recomendável e dando aquela olhada no espelho preferido do Narciso contemporâneo, a que damos o nome de Instagram, quando três publicações seguidas me chamaram a atenção por seu conteúdo comum.

Eram fotos de pessoas recebendo a vacina contra a Covid-19. A mesma pose. O mesmo ângulo. Se duvidar, a mesma luz e até o mesmo posto de vacinação. O mesmo olhar de alívio ou de esperança ou daquela sensação indefinível (embora certamente tenha uma palavra alemã para ela) de “estar fazendo o certo pelo bem comum”. Uma mistura de orgulho com arrogância, sabe? E o mais importante: todas as fotos com a mesma legenda: “Viva o SUS! Chega de negacionismo! Pela ciência e as vacinas!”.

Tiro os fones de ouvido nos quais, coincidentemente, Van Morrison, um “comunista” rebelde antilockdown, grita que quer “abalar minha alma cigana”. E fico ali, olhando o pica-pau que recentemente se instalou na araucária aqui perto de casa e pensando no quanto deve ser bom agir assim, obedientemente, instintivamente, bovinamente, e ainda receber coraçãozinho na foto. De repente, porém, o pensamento dá um passo à frente, sobe no parapeito da sacada e quase se joga numa espiral de melancolia. Ainda bem que tem rede de proteção.

Contra o SUS

Confrontado com a passividade com que muitas pessoas ao meu redor encaram a realidade político-sanitária, isto é, com que encaram as consequências de toda essa discussão sobre Estado, ciência e vacinas na vida pequena, miúda mesmo, me perguntei se era possível convencer aquelas pessoas de que, por exemplo, o SUS é uma porcaria. Sim, você leu certo: uma porcaria.

Desobedecendo minha mulher que me proíbe de trabalhar nos finais de semana, fui sorrateiramente até o quarto, peguei o computador e comecei a digitar uns argumentos anti-SUS. A começar pela ineficiência do sistema, que só uma fé cega no Estado seria capaz de negar. Apressadamente, escrevi ainda sobre uma questão mais profunda envolvendo o SUS, que é a do conflito entre a caridade voluntária e a estrutura de imposição e coerção que o Estado precisa criar para dar a ilusão de estar oferecendo saúde universal (e gratuita, hahahaha) aos cidadãos. Por fim, escrevi sobre a óbvia suscetibilidade do SUS à corrupção, por causa do próprio gigantismo do Estado.

Digo, é plenamente possível se posicionar contra o SUS e não ser nenhum monstro por causa disso - muito pelo contrário. É possível até negar o que quer que se negue hoje em dia sem ser um monstro por causa disso - embora, cuidado!, você pode passar atestado de estupidez. E é possível rejeitar a vacina ou as vacinas ou questionar a segurança e eficácia delas sem ser um monstro por causa disso - ainda que essa postura venha a lhe custar, claro, um ou outro like, quando não o ostracismo absoluto.

Voltando aos meus argumentos anti-SUS, porém, de imediato apago o texto que escrevia às escondidas. Afinal, quem disse que aquelas pessoas clicariam numa crônica intitulada “Contra o SUS. Em defesa do negacionismo. Abaixo as vacinas!” para terem acesso aos meus brilhantes argumentos? E mais importante: mesmo que tivessem acesso aos meus argumentos que, repito, são brilhantes, quem diz que se deixariam convencer? Ainda: o que é preciso para convencer alguém de que, apesar de encontrar eco na multidão, a certeza dessa pessoa nem sempre encontra respaldo na realidade?

Em defesa do negacionismo

Uma coisa leva a outra e, agora ao som do também comunista Cat Stevens me dizendo que “é difícil seguir adiante só com um sorriso no rosto”, me pergunto se vale a pena. Vale a pena?! Assim cabisbaixo, me levanto para, pé ante pé, devolver o computador ao escritório, de onde ele jamais deveria ter saído, quando pego no ar o que julgo ser apenas um tufo de pelos da Catota, mas que na verdade é a contradição palpável dessa gente que enche a boca para falar em “negacionismo”, embora seja incapaz de aderir a um dos princípios básicos da ciência que tanto dizem amar e obedecer.

Até onde me lembro das aulas da professora Lucinha, a teoria dialética pressupõe a existência de uma tese (“Viva o SUS!”) que, uma vez confrontada com a antítese (“o SUS é ineficiente e dá margem à corrupção”), gera uma síntese – a ser devidamente transformada, nos dias de hoje, num tuíte espertinho, meme ou textão como este que você generosamente lê agora.

Apesar de todo o discurso antinegacionista, racionalista e iluminista, porém, o que mais vejo são pessoas que já acordam assim cheias de sínteses que não passaram pela necessária (e, por que não?, desagradável) exposição à antítese. Como se as sínteses fossem espontâneas e surgissem do éter. Ou melhor, da prazerosa sensação já mencionada de “estar do lado certo” – o que não tem necessariamente a ver com a Verdade.

Abaixo as vacinas

Já me vacinei. E aguardo apenas a boa-vontade do maravilhoso e eficiente e “do bem” SUS para tomar a segunda dose. Sempre acreditei que a vacinação fosse a melhor (embora não a única) forma de nos livrarmos tanto da pandemia quanto do blá-blá-blá cientificista por trás de medidas como lockdowns. E bola pra frente!

Mais importante do que isso, não concordo com o discurso de que as vacinas nos transformam em cobaias de um produto feito às pressas e pouco seguro, embora o considere legítimo. Meu argumento para os temerosos da vacina é o mesmo que uso para me contrapor aos temerosos da Covid-19: medo não é virtude. Essa é uma síntese a que cheguei depois de me expor a várias antíteses, algumas delas publicadas aqui na Gazeta do Povo.

Mas, talvez porque pelos fones de ouvido eu comece a ouvir a voz anasalada de Bob Dylan dizendo que “os tempos estão m-mudando”, me permito contemplar uma fantasia doidivanas: e se a mais ridícula das teorias da conspiração envolvendo a vacina contra a Covid-19 se revelasse verdadeira? E se a gente se transformasse mesmo em jacaré? Ou se a vacina fosse mesmo só uma desculpa para os chineses implantarem um chip na gente?

Será que, diante de uma realidade absurda como essa, as pessoas que hoje exibem com orgulho sua submissão voluntária aos slogans da utopia sanitária mudariam de ideia? Apagariam as fotos? Rejeitariam os coraçõezinhos? Se olhariam no espelho e se repreenderiam pela obediência irracional e preguiçosa?

O que me traz de volta à pergunta inicial deste texto: o que é preciso para que as pessoas não neguem, mas questionem a realidade em que vivem, em vez de cederem ao impulso da sinalização da virtude em busca de aceitação? Serve para a pandemia. Serve para Bolsonaro (tanto contra quanto a favor). Serve para Cuba (idem). Serve até para este texto de título rebeldezinho e com um quê de humor autodepreciativo – e que, como sempre, certamente vai me render condenações (sínteses) apressadas e indubitavelmente equivocadas.

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