Você que está se sentindo impotente, agradeça. Porque, se lhe fosse dada a oportunidade de consertar o mundo, você usaria todo o seu poder para isso.
Você que está se sentindo impotente, agradeça. Porque, se lhe fosse dada a oportunidade de consertar o mundo, você usaria todo o seu poder para isso.| Foto: Reprodução/ Wikipedia

Só faltava essa agora. Uma equipe de especialistas em serem especialistas da Universidade dos Especialistas, chefiada pelo especialista alemão Wunder Spezialist, descobriu que o coronavírus causa impotência. E pior: o sintoma se manifesta até mesmo em quem está isolado em casa e não foi nem pretende ser infectado pelo vírus.

Não, não é nada disso que você está pensando. A impotência a que se referem o especialista Wunder Spezialist e sua equipe não é essa que assusta os homens que só pensam naquilo. Trata-se da impotência que assusta os homens e mulheres que só pensam naquiloutro. Pessoas que, neste exato momento, devem estar pensando na terrível enrascada moral que essa maldita doença nos meteu.

A impotência de que fala o fictício dr. Spezialist é aquela de não se poder fazer absolutamente nada para resolver essa situação toda. É uma impotência que, ouso dizer, resvala até numa espécie de covardia obrigatória, imposta pelo Estado e passível de prisão, ainda mais se você se sentir impotente à beira-mar. É aquela dor de encarar o mundo pela manhã, ver as ruas desertas e os pais idosos isolados, umas pessoas andando de máscaras nas ruas e outras nem aí, ler palavras e mais palavras de especialistas em qualquer coisa, e não conseguir chegar a nenhuma conclusão.

Ou pior: chegar a conclusões adversas que serão desprezadas como heresias. E, assim, se sentir ainda mais afundando na impotência, sem conseguir agir de outro modo que não pela imobilidade e pelo silêncio. E pela abençoada resignação, mesmo sabendo ou intuindo que há algo de muito podre no reino da Dinamarca.

Aproveitando a referência, vale notar que o jovem Hamlet sentiu algo parecido quando voltou à Dinamarca para encontrar o pai morto e o trono real usurpado pelo próprio tio. O problema é que, impelido por um espírito de vingança e por um desejo juvenil de “consertar o mundo”, ele supera a impotência nobre e muito reta do luto legítimo e causa uma carnificina. Entre o ser e o não ser, o coronavírus nos obriga à passividade que pode até ter lá seu quê de sabedoria, mas, ah, que vontade que dá de fazer alguma coisa!

Não raro, ou melhor, quase sempre, ou melhor ainda, sempre o uso do poder tem como consequência algum tipo de carnificina. Porque é próprio do poderoso (em maior ou menor grau) tentar, ainda que inconscientemente, moldar o mundo à ideia que faz dele. E isso só é possível por meio do convencimento – um caminho pouco trilhado, com mais armadilhas do que filme do Indiana Jones, frio num passo, quente no outro e demoradíssimo – ou da força. E acho que nem preciso dizer aqui que o ser humano tem predileção especial pela força, não é mesmo?

Estão aí os poderosinhos (e aqui estou pensando naquelas pessoas que, diante da impotência inegável, vivem num estado permanente de indignação) e a crise do coronavírus que não me deixam mentir. Repare como todos que vencem a impotência causada pela pandemia fazem como Hamlet: respiram fundo e, munidos de palavras e geralmente um celular e uma conta numa rede social, tentam consertar o mundo, moldando-o a uma ideia sempre muito particular de perfeição.

Como resultado, o que eles conseguem produzir é mais caos, mais ruído, mais atrito, mais desordem, mais pânico, mais indignação, mais revolta, mais desejo de vingança. É, portanto, um ato que se traveste de heroísmo, mas que se revela diabólico. Até porque é um poder ilusório, mentiroso mesmo. Minha palavra não vai resolver nada. A sua, eu apostaria que também não.

E assim o dr. Spezialist faz um alerta: você, homem ou mulher que está aí, se sentindo impotente diante do coronavírus, agradeça. Porque, se lhe fosse dada a oportunidade de consertar o mundo e resolver tudo isso, tenho certeza de que você (eu, nós) usaria de todo o seu poder para isso.

E talvez pagasse com a própria alma.

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