Em Ethel & Ernest, a história e a política nunca estão em primeiro plano. Até na guerra elas estão subordinadas ao cotidiano.
Em Ethel & Ernest, a história e a política nunca estão em primeiro plano. Até na guerra elas estão subordinadas ao cotidiano.| Foto: Reprodução/ Netflix

Também eu cresci com aquela história de “homem não chora”. Mas nunca dei muita bola para isso. Eu chorava ao cair de bicicleta e chorava quando apanhava. E chorava no último dia de aula, escondido dos amiguinhos. E chorava quando o Brasil era eliminado da Copa do Mundo. E chorava quando acontecia alguma coisa que eu sabia que era uma tragédia, ainda que não entendesse direito a dimensão daquilo: a morte de Tancredo Neves, a explosão da Challenger e até o tiozinho da mercearia preso por aumentar o preço do frango em dez centavos.

Pensando bem, agora me dou conta de que passei boa parte da minha infância chorando. Chorei com a morte do Zé das Medalhas, com a partida de E.T. e me esvaí em lágrimas quando as abelhas atacaram Thomas J em “Meu Primeiro Amor”. Depois, continuei chorando, passando vergonha e até perdendo as namoradinhas em potencial que levava ao cinema para assistir a comédias românticas tristíssimas.

Conto isso porque ontem, e depois de muito tempo, o velho jornalista aqui verteu hectolitros pelos olhos ao assistir à animação “Ethel & Ernest”, disponível na Netflix. A tal ponto que, nas cenas finais, mal conseguia enxergar o que se passava na tela. Meus olhos pequenininhos aparentemente são um problema para o fluxo adequado das lágrimas. E fazia tempo que eu não chorava um choro bom assim, desses que se confundem com gargalhada quando você se dá conta do ridículo que está passando.

Só, somente, apenas

O filme conta a história de... Ethel e Ernest, pais do renomado (mas, para mim, desconhecido) desenhista Raymond Briggs, dono dos traços que conferem uma emoção ainda maior a uma história que, de extraordinária, tem a simplicidade do traço e do roteiro. Briggs conta a vida dos pais, desde que eles se conheceram até a morte. Isto é, o cotidiano de um leiteiro e de uma dona de casa. Sem sobressaltos, espírito revolucionário, vontade de melhorar o mundo. É só o cotidiano de dois ingleses ao longo de cinco décadas.

Só, somente, apenas, meramente. É uma vergonha perceber como os advérbios se infiltram na frase para menosprezar o cotidiano. Como se ele fosse menor do que a história, com seus vultos e decisões grandiosas e cheias de consequências. Quando, na verdade, uma das coisas que “Ethel & Ernest” mostra é justamente que o cotidiano não está nem aí para a história. E vice-versa.

Essa perspectiva miúda dos acontecimentos diários, aliás, é algo que nos escapa atualmente. Cada fala do presidente de qualquer país é vista, ouvida ou lida como se aquilo fosse transformar nossa vida – sempre para pior. Decisões tomadas em Brasília ou Washington nos chegam como verdadeiras sentenças de morte. Enquanto isso, o fato importantíssimo de ontem eu ter acordado e ido dormir em relativa paz não acelera nem retarda a rotação da Terra.

Tinha uma guerra no meio do caminho

Ficaria aqui horas comentando cenas, diálogos e aspectos do filme. Mas está difícil. Porque vou lembrando e chorando e chorando e pensando e pensando e escrevendo e... E já está começando a dar pinta. Vou me ater, portanto, a uma cena e uma observação geral sobre “Ethel & Ernest”.

A cena é a da compra da casa. Que jamais se pretende a uma mansão, e sim a um lar. Uma casa que vem até com fiação elétrica pronta para receber lâmpadas! Com banheiro e descarga! Com um jardinzinho e janelas amplas. Mas sem móveis nem eletrodomésticos. Sem projeto arquitetônico by Arquiteto da Moda. Uma casa a ser paga pelos próximos 25 anos. Uma casa digna e simples num bairro idem, com vizinhos ora incômodos, ora solidários.

É essa a cena. Não dura mais do que cinco minutos. E nela estão contidos tantos dos valores caros que estamos perdendo por puro desleixo. A noção do que é comodidade e do que é luxo. A sensação de vida comunitária, de fazer algo que vá além do indivíduo. A possibilidade de fazer planos realizáveis nas próximas décadas.

Já a observação geral que não posso deixar de mencionar é a de que a história (aquela que muitos gostam de escrever com “H”) e a política estão presentes ao longo de todo o filme. Não poderia deixar de ser assim. Afinal, tinha uma guerra no meio do caminho e um jornal entregue diariamente na soleira da casa – jornal que Ernest lia sempre com uma indignação falsa, alvo de críticas ferinas de Ethel.

Mas em nenhum momento do filme a história e a política estão em primeiro plano. Pelo contrário, até na guerra elas estão subordinadas ao cotidiano. Enquanto as bombas nazistas caem sobre Londres, por exemplo, a preocupação de Ernest é com a família, não com os “destinos da Europa”, o “totalitarismo” ou qualquer outro conceito abstrato.

A briga pelo poder entre Conservadores e Trabalhistas, as medidas dos tecnocratas que num belo dia decidem que quem ganha menos de seis libras é pobre e os discursos dos poderosos estão presentes apenas como mais um aspecto da rotina, e não como grandes encruzilhadas ou bifurcações que exigem que Ethel e Ernest assumam uma posição. E o curioso é que os dois têm opinião sobre tudo, mas é a opinião pequena e inconsequente, não raro cômica, de duas pessoas que sabem que uma opinião é uma opinião é uma opinião.

Ao mostrar que o mundo se sustenta nos ombros dos heróis anônimos, “Ethel & Ernest” se revela como uma ode à vida comum, prosaica, simples e discreta. À vida de sacrifícios feitos sem nenhuma promessa de recompensa. À sucessão de dias deliciosamente esquecíveis. Ao cotidiano que se sobrepõe à história, que vence a história, que trata a política com um fato incontornável, mas risível, da vida. E, por fim, ao silêncio que, sabiamente, se sobrepõe à opinião ruidosa.

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