Imagem cheia de contradições da CNN mostra que Kenosha é uma prova da integração bem-sucedida entre os povos.
Imagem cheia de contradições da CNN mostra que Kenosha é uma prova da integração bem-sucedida entre os povos.| Foto: Reprodução

Mais um dia de protestos violentos em Kenosha, Wisconsin. Tudo começou por causa de outro caso de violência policial, depois que um homem de 29 anos chamado Jacob Blake foi atingido por sete tiros durante uma abordagem. Até onde se sabe, o episódio é de fato sórdido. Acionada por conta de uma disputa doméstica, Blake levou tiros pelas costas e na frente de um dos filhos. Ele tinha uma faca no carro.

O despreparo e/ou crueldade policial fomentaram manifestações incendiárias. A gente se escandaliza e tal, mas é assim desde que o mundo é mundo. O fogo tem essa coisa de ser visto como um elemento purificador. Como se das cinzas de Kenosha fosse emergir uma nova sociedade racialmente plural. E, com alguma sorte, pacífica.

O detalhe que chamou minha atenção é que Kenosha, apesar da tragédia de Jacob Blake, poderia muito bem ser vista como um exemplo dessa utopia racial tornada realidade – e com enorme sucesso. A cidade-dormitório de pouco menos de 100 mil habitantes, às margens do Lago Michigan e que tem como seu filho mais ilustre ninguém menos do que Orson Welles, é uma enorme mistura de raças e origens que, até semana passada, viviam em razoável paz e prosperidade.

Prova disso é a imagem algo cômica (e com um quê de icônica) de uma reportagem da CNN que mostrava, ao vivo, os protestos “ardentes, mas pacíficos” em Kenosha. A imagem roda o mundo desde quarta-feira (26) como um símbolo da manipulação da realidade por parte de uma imprensa de claro viés progressista. Mas, se você reparar bem nos detalhes, vai ver que a imagem se contradiz não apenas ao insistir em dizer que os protestos são pacíficos e mostrar uma cidade em chamas. Ela mostra que a convivência de diferentes raças, etnias, origens (chame como quiser) é mais do que possível. Ela já é uma realidade.

Canto superior esquerdo

Comecemos pelo canto superior esquerdo da imagem, que nos diz que ela está sendo transmitida do epicentro dos conflitos: Kenosha, Wisconsin. São dois nomes indígenas. O primeiro é um nome dado pela tribo Pottawatomi e que significa “lugar do lúcio” – em referência ao peixe de nome estranho que habita os rios e lagos da região. Wisconsin também é um nome indígena (ou nativo, se você preferir) cujo significado ninguém sabe direito.

Wisconsin é um daqueles casos incríveis de colonização multiétnica que só a descoberta do Novo Mundo pôde nos proporcionar. Originalmente, a região foi colonizada por franceses, no século XVII. Os franceses caçavam e comercializavam peles com os nativos. No século XVIII, os britânicos se apoderaram do lugar. Nesta época, negros livres, fugidos do sul escravocrata, já viviam em Wisconsin.

Aí veio o maravilhoso século XIX e o lugar se tornou etnicamente ainda mais diverso, com a chegada de alemães, suecos, noruegueses e irlandeses. Os “antirracistas” discordarão e dirão, não sem um toque de incoerência que eles insistem em não perceber, que branco é tudo igual. Mas vale lembrar que Frank Sinatra ganhou até um Oscar especial por um curta-metragem feito nos anos 1940 e que pregava o fim do preconceito racial entre os brancos de várias origens.

Personagens

Os próprios personagens da reportagem são um sinal de que, apesar de todo o discurso purista e eugenista, a mistura de cores é uma força incontrolável e benéfica para a Humanidade. Ela não deixará de ocorrer porque uma turba minoritária, mas ruidosa, quer ver sua origem racial prevalecer sobre as demais – repetindo um dos muitos erros daqueles que já foram declaradamente opressores.

A vítima da brutalidade policial, por exemplo, é um homem negro de nome judaico e sobrenome romântico. Na Bíblia, Jacó é o irmão gêmeo de Esaú – e o restante dessa história você lê no Gênesis. Blake é um nome irlandês ou nórdico ou inglês, e se refere a uma tribo, um vilarejo norueguês ou a uma grafia antiga de “blac”, palavra usada para se referir às pessoas de cabelo escuro.

Aqui faço uma gracinha provavelmente sem graça em homenagem ao poeta romântico William Blake – cujas pinturas me agradam mais do que os versos. Blake, aliás, é o autor de uma daquelas frases publicadas com frequência em velhos almanaques: “Você só sabe o que é suficiente depois que sabe o que é mais do que suficiente”. Ou seja, você tem que saber o que é extravagância, luxo e privilégio para saber o que é o essencial.

Por fim, o repórter que transmite os protestos “fogosos, mas pacíficos” da cobertura completamente enviesada é um jovem negro (e nem poderia ser diferente, infelizmente) de 26 anos, com prenome árabe e sobrenome latino.

Ápice

Pedindo perdão pela obviedade algo sentimental, ouso constatar que foi a mistura de todos esses povos, cada qual com sua cultura e tecnologia, o que deu origem a Kenosha, uma cidadezinha tipicamente americana, numa das regiões mais ricas e privilegiadas do mundo. Ela representa, de certa forma, o ápice da civilização – daí o incômodo e enganoso ar de decadência nessa história toda.

Conflitos entre essas pessoas de origens distintas sempre existiram e é provável que continuarão existindo – até porque eles transcendem a questão racial. E não há fogo ou paralisação da NBA capaz de mudar isso. A questão não é como reparar uma injustiça cometida por canalhas, e sim como criar instrumentos que impeçam que canalhas de quaisquer raças possam voltar a cometer injustiças.

O que não deixa de ser curioso. Porque o apocalipse racial nos Estados Unidos (e que em breve deve estar nas ruas brasileiras, porque adoramos importar uma ideologiazinha norte-americana) se contradiz ao usar a abundância necessariamente miscigenada para pregar o fim de uma convivência nem sempre pacífica e bem distante do ideal (se é que existe um ideal alcançável), mas inegavelmente virtuosa e bem-sucedida.

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