Não é preciso ter uma imaginação sofisticada para se perguntar como seria o mundo hoje se certos eventos históricos não tivessem ocorrido.
Não é preciso ter uma imaginação sofisticada para se perguntar como seria o mundo hoje se certos eventos históricos não tivessem ocorrido.| Foto: Pixabay

Por sugestão do meu amigo Ricardo Sabbag, fui assistir à primorosa adaptação do romance “Complô Contra a América”, de Philip Roth, para a televisão. A minissérie em seis episódios imagina uma realidade paralela em que, na década de 1940, o aviador Charles Lindbergh derrota Roosevelt nas urnas e se aproxima do fascismo europeu.

Seria apenas mais uma deliciosa narrativa do gênero “e-se”, ao estilo de outras belas obras, como “O Homem do Castelo Alto”, de Philip K. Dick, ou “Associação Judaica de Polícia”, de Michael Chabon, não fossem as recentes tentativas dos ativistas progressistas (olha o eco!) de apagar a história que tanto os incomoda – e com a qual eles teimam em não aprender absolutamente nada.

Quero crer, embora não creia, que essas pessoas que derrubam estátuas e pedem pelo fim da exibição de um filme como “...E o Vento Levou” façam isso com a melhor das intenções, porque são ingênuas o suficiente para acreditar na possibilidade de um futuro imaculado por eventos abjetos como as guilhotinas, a escravidão, o Holocausto, os gulags e a Revolução Cultural, por exemplo.

Neste futuro, a realidade seria uma espécie de concretização de “Imagine”, aquele manifesto comunista disfarçado de música tisti. Sem Paraíso ou inferno, sem países, as pessoas vivendo o hoje, sem propriedade, sem ambição, sem fome. E sem passado. Ou melhor, com um passado que começasse agorinha mesmo, em 2020. Uma nova era a.C. e d.C. – antes e depois da Covid-19.

E tudo seria reescrito de modo a não ferir quaisquer suscetibilidades, até que não houvesse mais suscetibilidades a serem feridas (imagem que deve ter ocorrido a John Lennon, mas é mesmo difícil encaixar “susceptibilities” naquela melodia proibida para diabéticos). A pré-história seria tudo o que aconteceu até aqui, como se tivéssemos descido das árvores ontem mesmo e encontrado a Civilização já prontinha para o nosso desfrute.

Aí lá pelo meio do primeiro episódio de “The Plot Against America” me dei conta de que o gênero “e-se” está nada menos do que na base de todo o pensamento progressista talibã, esse que quer apagar a história. Não à toa. Se você parar para pensar, e a despeito da dificuldade de execução de um livro como “Complô Contra a América”, o “e-se” é um gênero quase infantil, beirando o primitivo.

Não é preciso ter uma imaginação das mais sofisticadas para, num dia qualquer, talvez sob uma macieira, se perguntar como seria o mundo hoje se certos eventos históricos não tivessem ocorrido. Se os negros não tivessem sido vendidos como mercadoria. Se Colombo tivesse afundado no meio do Atlântico. Se Hitler tivesse virado pintor. Se aquela bola de Pelé contra o Uruguai na Copa de 70 tivesse entrado. Se, num dia qualquer da remota década de 1920, o velho Staff Polzunov não tivesse arrumado suas trouxas e entrado com a família num navio rumo ao selvagem Brasil-sil-sil.

Na vida muito real do coronavírus e das estátuas quebradas, contudo, o “e-se” não leva a nada de bom. Simplesmente porque é uma lógica macabra, que desafia a própria noção de tempo. O “e-se” catastrófico de “Complô Contra a América”, assim como o “e-se” perversamente otimista de “Imagine”, são uma espécie de “nostalgia do que não vivi” (apud Neymar Jr.) que leva a um beco-sem-saída escuro e sujo onde um presente muito real e palpável luta contra si mesmo, contra tudo o que ele poderia ter sido e não foi.

Aplicada à realidade, a narrativa normalmente divertida e estéril do “e-se” se converteu em ideologia, que por sua vez se transformou em desejo revolucionário. Os jovens (ah, os jovens! – sinto todo o peso da idade ao falar nos jovens como um grupo que não me inclui mais) quebram as estátuas e condenam livros e filmes ao ostracismo porque não suportam a ideia de que seu conforto atual é consequência da ação de incontáveis pessoas que foram felizes e sofreram, que oprimiram e foram oprimidas, que tiveram voz ou viveram a vida toda em silêncio, que dormiram e acordaram, que sorriram e choraram.

Pessoas que um dia à mesa, com fome e tendo diante de si uma sopa rala de batata, ou com as costas fustigadas por um chicote, ou ainda com os dedos calosos de tanto contar dinheiro, olharam para o futuro e pensaram: “O que me consola é saber que o futuro dos meus bisnetos será melhor”.

E é. Apesar dos pesares.

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