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Enem no AM será realizado em 23 e 24 de fevereiro
Incapazes de enfrentar o lobby da educação, MEC e presidente Jair Bolsonaro praticamente pedem desculpas diante de acusações de interferência no Enem.| Foto: Henry Milleo/ Gazeta do Povo / Arquivo

O tema da redação do Enem deste ano, “Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil”, é o exemplo perfeito de tudo o que há de errado não só com o exame como também com a educação tupiniquim. E o mais curioso é que vi conservador celebrando o fato de não ter sido uma pauta explicitamente progressista como, sei lá, linguagem neutra ou outras quimeras. Para se ter uma ideia do nível a que chegou a doutrinação por aqui.

Nem vou falar da rima evidentemente indesejada no enunciado do tema. Afinal, estamos muito, muito, muito distantes (distantes mesmo, caso você tenha ficado em dúvida) de formar professores capazes de entender e repudiar esse tipo de problema, quanto mais de admirar quando o escritor faz malabarismos para criar uma frase sem ecos ou outros vícios de linguagem. O interessante é que é esse mesmo grupelho de sempre que exalta a genialidade de uns escritores que vou te contar, hein?

O primeiro problema de verdade que vejo no tema da redação do Enem, bem como no Enem em si, é a aposta do país, enquanto sociedade, numa educação planificada e igualitária – e, por consequência, nivelada por baixo. Quando o Enem foi criado, lá no remoto ano de 1998, me lembro de ver educadores enchendo a boca para falar numa verdadeira revolução educacional no Brasil. Eles até tinham razão, mas por outros motivos. Como toda revolução, essa também deixou para trás um cenário de terra arrasada.

Tecnocrata, quando dá para sonhar, acontece isso. O Enem é a concretização tecnoideológica de uma educação utilitarista, que vê no diploma o ápice a que pode chegar o intelecto humano. Perversamente, os defensores dessa ideia reduzem as possibilidades dos indivíduos, condicionando-os a pensarem dentro de limites bem estabelecidos. É como se nada houvesse para além da educação formal de um currículo desenvolvido pelo Estado a fim de criar dóceis cidadãos. Não seres humanos; cidadãos.

Daí porque muitos nem percebem que, ao se associar a falta de um registro civil à invisibilidade e propor que o aluno resolva esse “grave problema social”, o Enem está contaminadíssimo pela ideologia progressista que limita a capacidade de raciocínio das pessoas. Aliás, o próprio objetivo da redação do exame – propor que o aluno resolva um problema de interesse social – está carregado de ideologia. Afinal, ele pressupõe que problemas complexos podem ser facilmente resolvidos, desde que bem argumentados, em 30 linhas. Trinta linhas!

Não se pode sequer contestar a existência do problema – e é justamente o que eu faria se fosse o jovem rebelde de cabelos fartos que já fui um dia. Porque não passa pela cabeça de quem elaborou a prova (e, pelo jeito, também de quem a aplicou – o Ministério da Educação da administração de Jair Bolsonaro) a possibilidade de um aluno com alguma inteligência não enxergar na “invisibilidade cidadã” necessariamente um problema, e sim uma escolha. Que tal, hein?

Eu, se obrigado a escrever essa redação, iria por esse caminho. E, já me alertou uma colega especialista no assunto, isso provavelmente resultaria numa nota zero. Afinal, o examinador (provavelmente um professor entediado, cria dessa mesma educação limitante) não está minimamente preparado para se deparar com um argumento que derrube o castelinho de cartas erguido ao longo de anos e anos de educação esquerdista. Na alminha dos corretores, até por causa das dimensões gigantescas da prova, não há espaço para a contestação ou a dúvida mais sincera: e se o problema proposto não for um problema?

Pastelão

Ah, agora vai me dizer que é fato dado que um ser humano não existe se não for reconhecido pelo Estado! Há um enorme potencial metafísico e até de filosofia política por trás da ideia de que o homem só é um ser político se o Estado o reconhecer como tal. Por acaso não existe existência (sic) sem o reconhecimento do Estado? Por acaso é um pedaço de papel que determina quem sou e minhas possibilidades de agir no mundo? E por que a alternativa “abdicar da cidadania” não está sobre a mesa?

Poderia ficar aqui por horas e horas brincando com a ideia de que o problema proposto pela redação do Enem não é um problema. E, no entanto, minha recompensa por isso seria provavelmente um zero. Meu acesso ao ensino-oh-superior seria impedido. Porque é da natureza das políticas planificadas e igualitárias eliminar o diferente. Por mais que vivamos na Era da Inovação (pelo menos é o que me garantem os coaches), o Enem mostra que, enquanto sociedade, optamos pelo conformismo. Dá menos trabalho, né?

Pior ainda é ver o ministro da Educação quase implorando desculpas e negando enfaticamente que tenha havido qualquer interferência na prova do Enem. Que me perdoem os moderados mais exaltados, mas uma das plataformas da campanha de Jair Bolsonaro não dizia respeito justamente ao fim da doutrinação nas escolas? Por que, então, a vergonha de impor uma política de educação neutra – tão neutra quanto pode ser uma educação orientada pelo Estado?

(Em tempo, e antes que algum espertinho venha me passar uma rasteira retórica, não estou propondo que as questões do Enem substituam o olhar progressista pelo reacionário. Combater a doutrinação esquerdista na educação não significa substituir as menções ao “golpe militar” por “revolução gloriosa” ou outra cafonice do tipo).

O Enem é uma desgraça. Uma tragédia. Um câncer cujos efeitos nesse organismo naturalmente debilitado chamado “educação” um dia ainda serão estudados com espanto pelos acadêmicos do futuro. Que, como numa coreografia de filme pastelão, levarão a mão à testa e dirão em uníssono: “Mas o que foi que nós fizemos, hein?!”.

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