Teocracia em Vertigem: só não dá para escrever que é engraçado, porque aí seria pedir demais.
Teocracia em Vertigem: só não dá para escrever que é engraçado, porque aí seria pedir demais.| Foto: Reprodução/ Youtube

Só há uma forma de sair da mesmice ao escrever sobre o Especial de Natal do Porta dos Fundos, que estreou há poucas horas no Youtube: é dizer que ele é estupendo, extraordinário, maravilhoso, genial. Sim, porque de análises apontando os problemas religiosos, morais, estéticos e políticos do filme as redes sociais estarão cheias nos próximos dias. Só não dá para escrever que é engraçado, porque aí seria pedir demais.

Em “Teocracia em Vertigem”, e pelo terceiro ano, a turma do Porta dos Fundos usa o Evangelho para fazer crítica social e política. Neste ano, contudo, uma novidade: o filme com quase uma hora de duração não estará disponível para os assinantes da Netflix. Christian Rôças, CEO do Porta dos Fundos, disse que foi uma decisão de comum acordo, que o Youtube vem para somar, blá-blá-blá o DNA do time, estamos confiantes nos três pontos, etc. Mas para bom entendedor cinco minutinhos de “Teocracia em Vertigem” bastam.

A “desplataformização” do filme adiciona um elemento interessante a essa análise. Porque muita gente justificava assistir aos especiais de Natal do grupo dizendo que ele estava facilmente disponível na Netflix. Ao toque de um botão, portanto. Agora, não. Agora você precisará entrar no Youtube. Pesquisar. Assistir a alguns segundos de anúncio. Maximizar a tela, talvez. Para só então, com toda a intenção do mundo, assistir ao filme. Foi o que eu, por dever profissional, fiz.

E Maomé?

Narrado pela soporífera Clarice Falcão, e contando com o reforço dos humoristas do Choque de Cultura, do ex-Casseta Hélio de La Penã e até de Petra Costa, aquela, “Teocracia em Vertigem” usa novamente o recurso cansado de transpor os Evangelhos para o presente. Acredito que Porchat realmente se considere capaz de tornar a Palavra de Cristo mais relevante se acrescentar a ela um bocado de política partidária-eleitoral regada a crítica social. As risadas são de menos.

Há quem ficará revoltado, como todos os anos. Há quem pedirá a cabeça dos humoristas. Há quem dirá “quero ver fazer piada com Maomé”. Aliás, parece que o Porta dos Fundos não é tão surdo assim aos clamores dos que apontam a hipocrisia do grupo. Tanto que eles incluíram, no comecinho, uma referência pequena, tímida e até acovardada a Maomé. Já é alguma coisa.

De resto, o filme é um amontoado de xingamentos, palavrões e aquele estilo de interpretação que se pretende a hiper-realista, mas só consegue ser histriônica mesmo, com as palavras ditas aos borbotões, sem qualquer preocupação em contar uma piada devidamente estruturada. Para Porchat & Cia., a graça está em despir Jesus de sua divindade, chamando-o de vagabundo, bandido, mentiroso, estelionatário e promíscuo. Há quem ria. Prefiro Leandro Hassum.

Nem fazer sátira com alguma lógica clara o grupo consegue. Confuso, encadeando referências quase que a esmo, no filme Jesus ora é Dilma sofrendo impeachment, ora é Bolsonaro se transformando em mito, ora é Lula preso injustamente. Daqui a dois anos, para entender “Teocracia em Vertigem” serão necessárias várias notas de rodapé. Por enquanto, são necessários apenas um Engov e 51 minutos de paciência.

Contradição e cabotinagem

Um detalhe que me chamou a atenção é que os espectadores que porventura não estejam familiarizados com os Evangelhos ficarão perdidinhos da silva. E é aí que está a maior contradição de “Teocracia em Vertigem”: para que haja possibilidade de você esboçar uma risada ao menos, terá de conhecer os Evangelhos com alguma profundidade.

O que me leva a crer que o público-alvo do Porta dos Fundos não sou eu nem você que reclama que este texto é uma perda de tempo, que corre para xingar Porchat & seus amiguinhos amestrados, que insiste em argumentar “Quero ver ter coragem para fazer piada com Maomé?!”.

Não. O público-alvo de “Teocracia em Vertigem” é aquela gente que usa o riso falso, amarelo, quase constrangido, para marcar posição – política, claro. É um filme feito da esquerda para a esquerda, de ateus para ateus, de adolescentes tardios para adolescentes tardios. É, sobretudo, um filme feito para a intelligentsia tupiniquim, munida da certeza cabotina da própria genialidade, trocar elogios e exaltar a autoimportância, na crença infundada de que estão lutando pela liberdade, pela democracia, pela tolerância ou por qualquer outra palavra vazia de sentido, mas que fica tão bonita numa hashtag, não é mesmo?

Já no fim do filme, depois de zombar da Ressurreição, “Teocracia em Vertigem” evoca o Retorno de Jesus. É neste momento que Petra Costa dá o ar da sua graça, falando rapidamente que Jesus foi um revolucionário à la Che Guevara. A esse momento segue-se um número musical no qual um Porchat dublê de compositor reforça essa imagem, dizendo coisas como “Já voltei como homem, negro e travesti e me mataram. Se voltar de novo vai ser para destruir”.

O que só prova que, de mansidão, bondade, generosidade, perdão e redenção, valores que nos irmanam ainda mais no Natal, essa turma infelizmente não entendeu absolutamente nada. Ainda.

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