Durante um dia, fui Rebeca. E sofri transfobia, recebi incentivos dos meus colegas, participei da revolução trans!
Durante um dia, fui Rebeca. E sofri transfobia, recebi incentivos dos meus colegas, participei da revolução trans!| Foto: Pixabay

Eu, que não sou absolutamente nada, decidi aderir à moda da transexualidade hoje. Só hoje. Para ver como é que é. Comuniquei ao meu editor, aos meus colegas, à minha mulher e família que, por um dia apenas, me identificaria como um trans não-binário. Da mesma forma que Ellen/Elliot Page.

É o transexualismo mais “puro”. Mais político. E não tem risco nenhum. Você não precisa tomar hormônios nem se mutilar. Não precisa usar roupas do sexo oposto. No caso de quem desmunheca naturalmente e lê poesia, como eu, não é preciso nem adaptar a sexista linguagem corporal e as preferências culturais. Facinho.

Basta dizer que você acordou se sentindo um legítimo membro do sexo oposto. Que a natureza humana não significa nada para você. Que tudo é uma construção social. E que, como Homo politicus, você não pode ficar alheio ao sofrimento de zilhões de pessoas que estão presas no sexo errado, para as quais o simples ato de fazer xixi em pé ou sentado é um drama existencial.

Ninguém entendeu minha experiência antropológica. Meu pai desligou o telefone na minha cara. Minha mãe disse que “esse mundo tá perdido mesmo”. Minha irmã riu. Minha mulher revirou os olhinhos. Meu editor disse que sou louco. E alguns colegas de trabalho disseram que já estava na hora de eu dar vazão ao meu lado feminino. Expliquei que não tinha nada de lado feminino ou masculino, que eu seria um trans não-binário. E só por hoje.

Para comunicar minha transexualidade temporária, convoquei uma coletiva de imprensa logo cedo. Ninguém apareceu. O que, pensando bem, foi ótimo. Porque antes mesmo das 9h da manhã eu já sentia na pele a incurável transfobia do mundo. Me senti mártir, vítima da incompreensão do patriarcado. Foi bom.

Depois de me declarar um trans não-binário que prefere os pronomes femininos, passei a me chamar de Rebeca. Na prática, nada mudou. Continuei usando cuecas. Continuei careca e com a barba por fazer. Continuei com pelo pelo (maldita reforma ortográfica) corpo. Não mudei o sexo na identidade nem fiz qualquer comunicado à empresa. Meu único incômodo ao longo do dia foi ter de corrigir todos que me enviavam mensagens por WhatsApp e insistiam em me chamar de Paulo ou usar os abjetos pronomes masculinos.

Logo depois do almoço, vieram as benesses da minha decisão sapientíssima. Pessoas que não gostavam do meu lado conservador se aproximaram para dar uns tapinhas nas costas e exaltar a minha coragem revolucionária. Recebi três ofertas de emprego em empresas que valorizam a diversidade – e só não aceitei porque o salário trans não-binário era, na verdade, feminino. Ou seja, menos do que ganho como homem.

Durante algumas horas, meu celular não parou de tocar. Recebi convites para escrever livros, dar palestras e até gravar uma entrevista com um YouTuber da moda. O YouTuber, aliás, me confidenciou que estava pensando em fazer a transição racial e se identificar como negro. “Afinal, eu tenho todos os discos da Motown”, disse ele. Achei o argumento convincente e dei o maior apoio.

Já no fim da tarde, contudo, estava exausto. Fazer as unhas dá trabalho. Além disso, percebi que havia muito mais demanda por opiniões de trans não-binários, como Rebeca, do que pela opinião de homens cis, como Paulo. Por uns cinco minutos, senti a Rebeca tomar conta do meu ser. Avaliei os riscos de me declarar ela, mas aí percebi que não havia risco algum. E me senti tentado a, no dia seguinte, acordar Rebeca de novo. Afinal, era tão bom ser o centro das atenções!

Ainda à noite, porém, dei por encerrada a experiência. E voltei a ser o simplão, quando não simplório, Paulo. O Yang dessa binaridade ancestral absurda. E, já no dia seguinte, novamente me deparei com olhares de reprovação por ter cedido à tentação cotidiana de dar vazão aos meus cromossomos XY. De acatar a natureza opressora. De não me empenhar o bastante no esforço revolucionário de heroínas como Ellen Page.

Apesar desse revés, considerei a experiência bastante proveitosa. Afinal, entendi que o prazer dos trans não-binários não tem nada a ver com a sexualidade. É um lance assim mais cabeça, entende? É a sensação de estar na vanguarda, na cúspide da revolução trans! Durante um dia, fui considerado melhor do que sou neste exato momento – e só porque me declarei aleatoriamente Rebeca.

De volta à binaridade retrógrada, contudo, sou agora alvo de xingamentos. Para todos os efeitos, sou um transfóbico incurável, responsável pelo genocídio dessa minoria incompreendida. Em compensação, meu pai me ligou para dar bom dia, minha mãe perguntou se eu já tinha recuperado o juízo, minha mulher suspirou aliviada e meu editor... Bom, meu editor continua dizendo que sou louco.

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