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Leandro Knopfholz, o nome por trás do Festival de Curitiba.
Leandro Knopfholz, o nome por trás do Festival de Curitiba.| Foto:

Prestes a completar 18 anos, Leandro Knopfholz não queria saber de baladas ou programas próprios da idade. Mal saído da adolescência, ele não se conformava com o fato de Curitiba não ter atrações teatrais frequentes como outras grandes cidades do país. A inquietação era compartilhada com alguns amigos e foi aí que surgiu a ideia de criar um festival de teatro na cidade, que trouxesse para cá as peças que gostariam de ver sem ter que pegar a estrada ou o avião e, assim, agitar a então acanhada cena cultural local.

Recém-chegado de Israel, onde havia passado uma temporada em um kibutz, ele se juntou aos amigos de infância Cássio Chameki, Victor Aronis, Carlos Eduardo Bittencourt e Cesar Heli Oliveira, todos estudantes à época, para criar aquele que viria a ser o maior evento teatral do país e um dos maiores da América Latina. Trinta anos e 28 edições depois, descontados os dois últimos anos, 2021 e 2020, em que a pandemia fechou cortinas mundo afora, o festival fez de Curitiba a capital das artes cênicas brasileiras. Desde 2009 virou apenas Festival de Curitiba ao incorporar outros eventos paralelos, como o Gastromomix.

Aos 48 anos, mas com a mesma cara de piá curitibano, que ainda não abandonou a bermuda e a camiseta, praticamente seu traje oficial, Leandro se transformou numa personalidade do teatro brasileiro devido ao prestígio que o evento adquiriu ao longo das três últimas décadas. Filho do casal Ester Troib e Davi Knopfholz, ambos de tradicionais famílias da comunidade judaica de Curitiba, ele é casado com a dentista Thatiana Espírito e tem um filho, Guilherme, de 7 anos.

Em 1991, os cinco amigos decidiram que era hora de quebrar o marasmo da agenda cultural local. “Naquela época só tinha um espetáculo em cartaz na cidade. Não acontecia nada antes da sexta-feira”, conta. E não era por falta de espaços porque a cidade possuía mais de 100 salas entre teatros e auditórios que poderiam muito bem receber uma peça, mas viviam às moscas.

Partindo dessa percepção, ele procurou o então prefeito Jaime Lerner, amigo da família, para pedir apoio à ideia. Leandro conta que a inspiração para criar o evento foi o festival de cinema da gaúcha Gramado. Enquanto o ouvia falar, Lerner puxou um guardanapo de papel e lhe mostrou um desenho da Ópera de Arame, então em fase de conclusão junto ao distante Parque das Pedreiras, no Pilarzinho, e disse: “Fiz este teatro pra você”. Além disso, autorizou que o festival invadisse o prédio do futuro Canal da Música, nas Mercês, que ainda estava desocupado e nem nome tinha.

Com os dois lugares garantidos, eles saíram em busca de patrocínio. A primeira empresa a apostar na ideia foi o Boticário. Em seguida entrou em cena o Bamerindus. O então diretor de marketing do banco paranaense, Sergio Reis, se entusiasmou com o festival logo de cara. Com patrocínio garantido, eles começaram a procurar os produtores teatrais de Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte para montar a grade da primeira edição, realizada de 19 a 29 de março do ano seguinte, coincidindo com os 300 anos de Curitiba.

Com a cara e a coragem, o quinteto começou a buscar informações sobre os maiores sucessos comerciais em cartaz nos palcos do país para trazê-los a Curitiba. A tarefa não foi nada fácil, pois não haviam as facilidades de hoje proporcionadas pela internet, como WhatsApp e Google. “Nossa maior aquisição foi um aparelho de fax”, recorda. Era por ele que se comunicavam com diretores, produtores e atores.

Leandro e os quatro amigos procuraram os grandes encenadores do momento, gente como Gerald Thomas, Cacá Rosset, Gabriel Villela, Antunes Filho, Beth Lopes, José Celso Martinez Corrêa e Moacyr Góes. Todos eles foram convidados para uma visita técnica a Curitiba a fim de conhecer os espaços para apresentar seus espetáculos. O grupo foi levado à Ópera de Arame, “um banhado”, lembra Leandro. Para convencê-los, disseram que ali estava sendo erguido um teatro para o festival. Cacá Rosset havia acabado de levar sua polêmica montagem shakespeareana “Sonho de Uma Noite de Verão” a Nova York, que em São Paulo havia sido censurada. Foi o espetáculo escolhido para inaugurar o festival e a própria Ópera de Arame, ainda não totalmente concluída, o que causou alguns pequenos transtornos durante as apresentações.

A festa de lançamento foi realizada ainda em dezembro de 1991 na extinta casa de shows Aeroanta. A apresentação da peça foi um sucesso retumbante. Estavam programadas apenas três sessões, mas foi preciso providenciar mais duas às pressas. A programação incluía mais 11 espetáculos em outras locais da cidade, além de dois de rua, do grupo mineiro Galpão. Todos os 25 mil ingressos colocados à venda para as sessões pagas se esgotaram. “Éramos cinco outsiders e piás de teatro numa cidade da periferia da produção cultural do país”, relembra, para acrescentar: “Só queríamos agitar a cidade e trouxemos logo um espetáculo de peso”. E a façanha ganhou ainda mais relevância porque o Brasil vivia uma espécie de apagão cultural naqueles anos Collor. O governo acabara com a Embrafilme, levando o cinema brasileiro à lona sem possibilidade de reação por um bom tempo. O Festival de Teatro de Curitiba era uma luz que se acendia no fim do túnel. Até a pandemia entrar em cena, experimentou um sucesso atrás do outro. Em 2021, houve uma edição online.

Em 2007, só restavam na sociedade Leandro, Victor e Cássio. Ele comprou a parte dos dois e seguiu como único realizador do festival, à frente da Parnaxx (derivação da palavra êxito em hebraico), empresa que sucedeu a Calvin Entretenimento. O nome parece ter sido uma escolha do destino. Mas o êxito experimentado desde o começo não livrou os cinco empreendedores e especialmente Leandro de alguns perrengues.

Entre os locais escolhidos paras as apresentações estavam uma ala em obras da penitenciária estadual de Piraquara e a Casa Vermelha, no Largo da Ordem. Nesta, as personagens da peça encenada, do dramaturgo Plínio Marcos, eram prostitutas. Ao ver as atrizes vestidas como tal um comerciante da feira dominical disse que lá não era lugar delas e puxou uma arma para intimidá-las. Leandro teve que chamar a polícia para esclarecer que as moças eram atrizes e que estavam participando do festival. Ele também já teve que pagar hospedagem para cachorro de vizinho que morava ao lado de um lugar onde acontecia uma encenação. Os latidos tiravam a concentração dos atores.

Mas o perrengue mais notório se deu com a diva Fernanda Montenegro, em 2017. A atriz, então com 87 anos, fez a abertura do festival, no Guairão. A peça era um monólogo em que ela lia cartas de Nelson Rodrigues aos amigos. Terminada a cerimônia de abertura, o público, que lotava o teatro, esperou por longos 40 minutos pela entrada em cena da convidada de honra. A tensão era visível no ambiente com a demora para o início da apresentação. Até que uma assistente dela revelou a Leandro o motivo do atraso: A veterana atriz tivera uma crise de pânico ainda no quarto do hotel, localizado nas proximidades do teatro, e não conseguia sair de lá. “Só me restou ir para o camarim tomar cerveja e esperar”, conta. Depois, ele e a atriz riram da situação.

Naquela mesma noite ele voltaria a ter mais uma dor de cabeça. Ao final da apresentação, começou a festa para os convidados no próprio palco do Guaíra. Já perto da meia-noite, quando a maioria já tinha ido embora, inclusive o próprio Leandro, sobraram alguns festeiros mais animados. Com o teor alcoólico elevado, alguns deles tiraram a roupa completamente e começaram a fazer performances. Tudo devidamente registrado por celulares. “Foi uma lição pra gente. Depois daquilo colocamos hora pra acabar a festa”, diz Leandro, que só soube do ocorrido no dia seguinte.

Nestes 30 anos, a vida de Leandro Knopfholz foi movimentada. Seu nome hoje está na cabeça de toda a classe teatral brasileira. Mas o festival não é seu único negócio. Ele é sócio da cervejaria Way Beer, em Pinhais, e do bar Quintal do Monge, no Largo da Ordem. Sua empresa, a Parnaxx, produz, além do evento, o festival de humor Risorama e conteúdos para a internet e TV. Sob sua batuta atuam pelo menos 400 pessoas, número que já foi maior.

Neste ano, a mostra principal do festival ganhou o nome de Lucia Camargo em homenagem à jornalista curitibana, ex-secretária da Cultura do Paraná e ex-diretora do Theatro Municipal de São Paulo, que morreu em 2020, aos 76 anos. Grande amiga de Leandro e com trânsito livre nos meios culturais do país, Lucia foi curadora do festival por quase 20 anos, ajudando a selecionar os espetáculos da mostra que agora passa a ter seu nome em definitivo.

Ao criar o festival, a intenção dos cinco amigos era ter opções em sua própria cidade para ver os principais espetáculos em cartaz no país. Leandro conta que não consegue assistir a todas as peças e outras atrações que o evento oferece. “Não trago só o que eu gostaria de ver”, justifica. Além disso, ele invoca a ansiedade e o tempo curto como desculpas para não ir a todas as apresentações. Alguns espetáculos são produzidos por sua empresa e Leandro prefere não estar na plateia para evitar um possível estresse. O caso Fernanda Montenegro ficou gravado em sua memória. Mas ele não abre mão de almoçar e jantar com atores e diretores, antes ou depois das apresentações. É quando estreita as relações com o povo do teatro. O Festival de Teatro de Curitiba foi o sonho de uma noite de verão – ou de qualquer outra estação, não se sabe – daqueles cinco piás que só queriam agitar a cidade. Bota agitação..

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