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A italiana de Bologna é apaixonada pelo Brasil e pela cidade que acolheu sua família em 1963.
A italiana de Bologna é apaixonada pelo Brasil e pela cidade que acolheu sua família em 1963.| Foto: Rodrigo Pierrot/Gazeta do Povo

Não foi fácil encerrar a conversa com Erminia Caliceti. A vontade era passar o resto do dia ouvindo suas histórias contadas com a ênfase afetiva e os gestos que só os italianos têm. A italiana de Bologna é apaixonada pelo Brasil e pela cidade que acolheu sua família em 1963. O sotaque ainda é forte, o que a torna uma autêntica mamma, mesmo não tendo se casado. Aos 72 anos, a primogênita dos Caliceti reina absoluta no pequeno enclave gastronômico do alto da Alameda Dr. Carlos de Carvalho.

Mima, como é chamada pelos mais próximos e funcionários, comanda com passione a cozinha do restaurante Caliceti di Bologna, um dos mais requintados e tradicionais de Curitiba, e a loja de massas prontas, pães, doces e bolos, tudo produção própria. Ali é seu território sagrado, onde nada acontece sem sua participação. Ela e os irmãos Alberto, 70 anos, e Pompeo, de 63, são a alma da casa. Dos três é a única que mora no sobrado anexo, tendo como companheira Frida, uma pastora alemã. Até janeiro de 2017 dividiu o apartamento com sua mamma Onelia Caliceti, de quem herdou os refinados dotes culinários. “Ela era uma mamma especiale”, diz sobre a mãe, que trabalhou até os 86 anos, dez antes de morrer. Com a morte da matriarca, Mima assumiu em definitivo seu lugar e se tornou a madre superiora do empreendimento familiar. Ela mesma se define como tal ao falar de suas responsabilidades no restaurante, que completará 50 anos no dia 30 de outubro de 2022. “Preciso manter uma certa disciplina, somos 30 pessoas aqui, mas não sou tão drástica. Piano, piano, elas me agradecem”, fala.

Erminia Caliceti e os irmãos Alberto e Pompeo com a mamma Onelia na foto ao fundo.
Erminia Caliceti e os irmãos Alberto e Pompeo com a mamma Onelia na foto ao fundo.| Rodrigo Pierrot/Gazeta do Povo

Mima abriu mão de um grande amor – um executivo italiano de uma conhecida multinacional também italiana – para se dedicar integralmente à família. A paixão deu lugar a uma amizade duradoura. Até hoje manda semanalmente para a casa do ex-amado, já idoso e assistido por cuidadoras, seu prato preferido. Pergunto se há espaço para um novo amor. “Deixe quieto o que está quieto. Vivo muito bem”, responde convicta. Antes de colocar o avental de cozinheira em tempo integral, trabalhou durante seis anos no escritório da Alitalia em Curitiba, na esquina das Marechais. Fez curso de chefe de cozinha em Bologna, mas não gosta de se intitular chef. Prefere ser chamada de cozinheira.

A saga dos Caliceti começou com a chegada de Onelia e os três filhos ao porto de Santos no final de 1963. Vieram ao encontro do patriarca Francesco, que chegou ao Brasil quatro anos antes para tocar uma transportadora junto com um sócio italiano. De lá tomaram o rumo de Curitiba, sem falar uma palavra de português. Dona Onelia já tinha em mente abrir um restaurante por aqui com o marido, sabendo que o negócio dele não ia lá muito bem das rodas. Mal colocou os pés na cidade, lhe propuseram arrendar a cantina da Sociedade Duque de Caxias, na Rua José Loureiro, em frente ao Diário do Paraná, jornal que dava as cartas na imprensa local à época. Ela aceitou na hora e colocou os filhos mais velhos para trabalhar. Trouxe na bagagem todas as receitas familiares, à base de massas artesanais, que foram conquistando os curitibanos aos poucos. Logo os Caliceti assumiram o restaurante do antigo Hotel Braz, então o mais chique da cidade, na movimentada Rua XV de Novembro, que ainda não havia virado calçadão. Três anos depois conheceram um italiano que arrendara a Churrascaria Querência na Praça Osório. O conterrâneo quis voltar para a Itália e ofereceu o negócio para os patrícios recém-chegados. Nascia ali, oficialmente, o Ristorante Bologna, que apresentou aos curitibanos a verdadeira pasta italiana, al dente. Seu torteloni de ricota, o capelleti de carne e a lasagna verde conquistaram rapidamente o público mais exigente. O então jovem arquiteto e prefeito Jaime Lerner começou a frequentar o restaurante, ajudando a espalhar sua fama para além da colônia judaica.

Conquistados os clientes, estava na hora de pensar em se mudar para um espaço melhor. Um imóvel estava vago no começo da Carlos de Carvalho, entre a Alameda Cabral e a Voluntários da Pátria, a alguns passos de distância. Acertado o aluguel, algumas modificações foram feitas e a nova sede do Ristorante Bologna estava pronta para receber os clientes. Logo na entrada, uma vitrine decorada com o brasão da família mostrava as massas feitas à mão e, ao fundo, Onelia e Erminia pilotando o fogão assistidas pelos demais cozinheiros, à vista dos fregueses, uma novidade absoluta para a época. Os móveis vindos da Itália tornavam o local acolhedor. Tudo pensado com muito carinho pela exigente mamma, que prezava pelo trabalho impecável em tudo onde colocava as mãos.

“Ela tinha um olhar aguçado, nos entendíamos pelo olhar”, descreve Mima com semblante saudoso.

Quando recorriam às palavras, a mãe lhe dizia: “Fale baixo senão vão pensar que estamos brigando”. Ela conta que a mãe ensinou os curitibanos a comer massa. “Quando alguém reclamava que o talharim ou o fettuccine estava cru ela dizia que estava al dente e sempre colocava a colher na mesa para que não cortassem o macarrão”, diz. No salão, o patriarca Francesco, típico italiano bonachão, ia de mesa em mesa com sua taça de vinho sempre à mão cumprimentando a todos.

Mima diz que comanda com passione a cozinha do restaurante Caliceti di Bologna
Mima diz que comanda com passione a cozinha do restaurante Caliceti di Bologna| Rodrigo Pierrot/Gazeta do Povo

Com a boa fama da comida da família, o restaurante começou a ficar pequeno. Depois de vários anos no número 150 da Carlos de Carvalho, Pompeo encontrou um antigo imóvel não muito distante, na mesma rua. Assessorado pelo arquiteto Washington Fiuza, fez da esquina com a Alferes Ângelo Sampaio a nova e definitiva casa dos Caliceti di Bologna. O restaurante abriu as portas em 1992. Na entrada, uma enorme fotografia em preto e branco da elegante mamma Onelia e de Mima plotada na parede ainda dá as boas-vindas aos clientes. Seu Francesco não chegou a conhecer o novo Bologna. Com a mudança, Dona Onelia passou a direção da cozinha à filha, que seguiu à risca a cartilha da mamma. Com sua morte, Mima se tornou referência para os clientes assíduos do Bologna. “Dona Onelia era uma pessoa espetacular e a Mima sempre me ajudou e me apoiou para permanecer lá. É uma pessoa muito boa”, diz Lori Francisco da Silva, 71 anos, único negro da equipe de garçons, que trabalhou com a família durante 44 anos e se aposentou recentemente. “Ele é o nosso tesouro”, devolve a ex-patroa.

Apesar de não ser naturalizada, assim como os irmãos, Mima diz que seu lugar é aqui. Adora viajar, principalmente para sua amada Itália, onde vai uma vez por ano, mas diz que quando está lá sente falta do Brasil e de Curitiba, “uma terra que nos recebeu com tantas possibilidades”. Toda terça-feira, único dia que o restaurante não abre, os três, mais as cunhadas e os sobrinhos, almoçam juntos. Tudo preparado por ela e acompanhado por um bom vinho italiano. “Às vezes me olho no espelho e pergunto o que eu vejo, o que vou fazer hoje. Aí, pego o elevador e desço para trabalhar”. E conclui com uma expressão italiana: “Non mollo mai” (nunca desisto). Grazie mille, Mima.

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