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Estudos identificam o pangolim, animal silvestre vendido em mercados na Ásia, como o “elo” que permitiu ao coronavírus passar de morcegos para o ser humano.
Estudos identificam o pangolim, animal silvestre vendido em mercados na Ásia, como o “elo” que permitiu ao coronavírus passar de morcegos para o ser humano.| Foto: Jimin Lai/AFP

Semanas atrás, várias autoridades religiosas de vários credos convocaram para esta quinta-feira um dia de oração e jejum pelo fim da pandemia do coronavírus. Também o papa Francisco aderiu ao pedido – não dá para dizer que ele não tem feito a sua parte, realizando cerimônias para pedir que Deus livre o mundo da Covid-19 e falando sobre o tema quando tem oportunidade. Uma dessas ocasiões recentes foi a “telecatequese” de 22 de abril – as catequeses das quartas-feiras na Praça de São Pedro ainda estão suspensas, e o papa tem transmitido sua mensagem da Biblioteca do Palácio Apostólico. Francisco aproveitou a coincidência com o 50.º Dia Mundial da Terra para fazer algumas reflexões que vão na contramão de algumas maluquices ditas por aí, e que chegam a usar até mesmo o ensinamento do papa para tentar convencer os incautos de coisas que de cristãs não têm absolutamente nada.

Queria me debruçar sobre uma ideia em especial, a de que “a Terra reage”. Francisco afirma, por exemplo, que “tragédias naturais” como a pandemia do coronavírus são “a resposta da Terra aos nossos maus-tratos”. Como entender essas expressões? Certamente Francisco não está antropomorfizando o planeta, nem tratando-o como um ser vivo de vontade própria, como faz Leonardo Boff quando diz que o coronavírus é uma “represália” da Terra (que ele chama de Gaia), ou que a pandemia ocorre quando “a própria Terra se defende contra a parte rebelada e doentia dela mesma”. Basta olhar o texto da catequese papal (e também da encíclica Laudato Si’) para perceber que Francisco não entende o planeta desta forma, mas como o que ele realmente é: casa comum, confiada ao ser humano, que deveria bem cuidar dela e viver em harmonia com o restante da criação, tarefas nas quais temos falhado.

Não precisamos que a Terra esteja “viva” e tenha vontade própria; as leis da natureza explicam perfeitamente as consequências de situações que nós provocamos

O fato é que a Terra realmente “responde”, e o faz de acordo com as leis naturais que o próprio Deus estabeleceu. Não precisamos ver o planeta como um ente vivo; qualquer biólogo saberá explicar o que acontece quando a urbanização avança sobre áreas até então selvagens, aproximando o ser humano de outros animais e privando-os de seu habitat; qualquer especialista em vírus saberá explicar que tipo de situação pode ocorrer quando se colocam vários tipos de animais em contato uns com os outros e com o homem em locais como os tais mercados chineses; e quase todos nós, independentemente de formação profissional, já sabemos o que ocorre quando entupimos córregos com lixo ou quando desmatamos as margens dos rios. Não precisamos que a Terra esteja “viva” no sentido lovelockiano da coisa e tenha vontade própria; as leis da natureza explicam perfeitamente as consequências de situações que nós – aí, sim, com nosso livre arbítrio – provocamos. É justamente por causa dessa previsibilidade das leis naturais que Francisco pode invocar o tal dito espanhol segundo o qual “Deus perdoa sempre; nós, homens, às vezes; a Terra, nunca”.

Essas tentativas de capturar o pensamento do papa Francisco para defender ecologias malucas não passam de desonestidade intelectual pura. A “ecologia integral” de Francisco está muito mais próxima da “ecologia humana”, desenvolvida especialmente por Bento XVI na encíclica Caritas in veritate, que dos delírios de um Leonardo Boff. Trata-se de reconhecer o lugar especial que o homem tem na criação, como seu guardião, e não de igualá-lo ou subordiná-lo ao restante da natureza. Como afirmou Bento XVI na mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010, “uma correta concepção da relação do homem com o meio ambiente não leva a absolutizar a natureza nem a considerá-la mais importante que a pessoa mesma”. Francisco, no conjunto do seu pontificado, efetivamente trata muito mais do tema que seus predecessores, mas não se afasta desta “correta concepção”.

A pandemia é uma oportunidade para refletirmos sobre o impacto das nossas ações sobre a natureza, sobre a necessidade de redobrarmos nosso cuidado com a casa comum, mas sempre tendo em vista que há uma hierarquia na criação; ninguém precisa de Mães Gaias para entender a nossa responsabilidade nas tragédias que nos acometem.

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