Além de lotação reduzida e distanciamento, algumas outras atitudes ajudam a ter cerimônias religiosas mais seguras em tempo de pandemia.
Além de lotação reduzida e distanciamento, algumas outras atitudes ajudam a ter cerimônias religiosas mais seguras em tempo de pandemia.| Foto: Matthias Böckel/Pixabay

Amanhã o Supremo Tribunal Federal vai decidir se e como governos estaduais e municipais podem restringir completamente cerimônias religiosas com a presença física de fiéis. O que temos, por enquanto, é o ministro Kassio Nunes Marques dizendo que o poder público não pode vetar completamente a participação das pessoas em missas, cultos, o que for, desde que as regras de prevenção sejam obedecidas; e o ministro Gilmar Mendes mantendo os decretos do governo paulista que proíbem atividades religiosas com a presença dos fiéis.

Mas, independentemente do que houver amanhã, fato é que a ciência já descobriu informação suficiente sobre o coronavírus para nos ajudar a termos celebrações mais seguras e podermos ampliar ao máximo possível de fiéis o direito de participar dos atos de culto de sua religião. Como sou católico e o que faz parte do meu cotidiano é a assistência à missa, as observações que farei aqui serão focadas nas cerimônias católicas, embora algumas dicas muito provavelmente possam ser observadas também por outras confissões religiosas.

Para os católicos, como muitos sabem, a missa tem uma importância toda especial, a ponto de haver a obrigação de participar dela aos domingos e alguns outros dias santos ao longo do ano. Por causa da pandemia, no entanto, praticamente todos os bispos de que tenho notícia suspenderam o preceito dominical, com razão: para pessoas dos chamados “grupos de risco”, estar com outras pessoas poderia ser uma ocasião perigosa de contágio; para os demais, as restrições de capacidade máxima das igrejas tornariam muito difícil que todos conseguissem cumprir a obrigação todo fim de semana. Mas, ao contrário do que diz a nossa secretária de Saúde, para um católico não é a mesma coisa estar presente à missa ou ficar em casa assistindo a uma transmissão pela internet. Por isso, para os padres e bispos dispostos a proporcionar ao maior número possível de fiéis a possibilidade de ir à missa com o mínimo possível de risco, seguem as minhas observações.

Dependendo das possibilidades do celebrante, e desde que haja tempo hábil para higienizar a igreja entre uma celebração e outra, mais missas dariam a mais pessoas a chance de ir à missa a cada domingo

Graças a Deus, nos locais onde as celebrações presenciais não foram vetadas, pudemos ver a criatividade dos sacerdotes em ação para garantir ambientes mais seguros aos fiéis, como missas drive-in, em igrejas com estacionamentos grandes ou onde é possível usar alguma outra área ampla. Mas o local por excelência para a celebração da missa continua sendo a igreja. E obviamente as regras de capacidade máxima, distanciamento, uso de máscaras etc. estabelecidas pelos governantes precisam ser obedecidas. Discordo da argumentação de que é preciso proibir tudo porque há quem abuse, como ocorreu no domingo de Páscoa em uma megaigreja evangélica em São Paulo. Que se multem os responsáveis, que sejam enquadrados no artigo 268 do Código Penal, mas, como diz o adágio, “o abuso não tolhe o uso”.

E, para além do básico – regras de distanciamento, preferir igrejas amplas e ventiladas etc. –, o que mais pode ser feito?

Mais horários de missa. Foi a primeira resposta adotada na Polônia, por exemplo, assim que a pandemia estourou, há um ano. Não sei se lá o preceito dominical foi suspenso ou não, mas o raciocínio era bem simples (e oposto ao dos gênios que resolveram limitar os horários e dias de abertura de supermercados, por aqui): havendo mais missas, as pessoas vão se dispersar e cada missa terá menos gente. Dependendo das possibilidades do celebrante, e desde que haja tempo hábil para higienizar a igreja entre uma celebração e outra, mais missas dariam a mais pessoas a chance de ir à missa a cada domingo. A maneira de controlar a lotação máxima fica a cargo da paróquia.

Sem cantoria. Sei que vou atrair a ira dos grupos de canto com essa, mas não é obrigatório haver música na missa. Claro que é bonito, eu mesmo sou fã de canto gregoriano, mas cantar joga mais partículas no ar que a fala normal. Em um dos primeiros bons textos sobre o contágio a viralizar (“The Risks – Know them, avoid them”), o imunologista Erin Bromage conta o episódio de um coral nos Estados Unidos onde um único infectado assintomático passou Covid-19 para 45 dos 60 membros, com duas mortes. Eliminar os cantos ainda tem um efeito colateral benéfico: a missa fica mais curta, reduzindo o tempo em que as pessoas estarão no ambiente da igreja.

Sem comunhão, se a situação estiver muito grave. Agora eu vou atrair a ira geral, não só dos cantores. Sei muito bem o valor de receber a Eucaristia, de comungar o Corpo de Cristo. Mas a única comunhão estritamente necessária para a validade da missa é a do sacerdote. Se a situação epidemiológica for muito grave, ou se houver um receio muito fundamentado de que a distribuição da comunhão possa espalhar o vírus, que apenas o padre comungue. É ruim ficar sem a comunhão? Claro que é, mas antes ter a missa sem ter a comunhão que não ter nem mesmo a missa. Mas creio que essa seria uma situação muito extrema. Havendo muito álcool em gel à disposição, acho bastante possível garantir que todos os que estiverem em estado de graça possam comungar.

Fico muito entristecido ao ver bispos vetando a presença de fiéis nas igrejas naqueles lugares em que o poder público não impôs esse tipo de proibição. Também lamento quando bispos acatam sem reclamar a intromissão do poder estatal mesmo quando eles sabem que há meios de celebrar com segurança. Mas não sou eu que vou dizer que lhes falta fé ou coisa do tipo; isso é com a consciência de cada pastor, que vai prestar contas a Deus. E agradeço por haver muitos bispos e padres dispostos a fazer o que for possível para permitir que o máximo possível de católicos tenha acesso presencial à missa. Sei que ela tem um valor infinito, independentemente de haver ali apenas o padre sozinho ou de ser celebrada em um santuário enorme e lotado. Mas, sendo a Eucaristia “fonte e centro de toda a vida cristã”, como diz o Concílio Vaticano II, o povo cristão tem necessidade dela, e por isso vale a pena empregar todos os meios possíveis para não privar os fiéis desse dom. Se o conhecimento proporcionado pela ciência nos ajuda a ter celebrações mais seguras, não há por que não aproveitá-lo.

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