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"E então, Galileu, foi você que escreveu isso aqui?" "O quêêê, eu? Não, isso é intriga da oposição!"
"E então, Galileu, foi você que escreveu isso aqui?" "O quêêê, eu? Não, isso é intriga da oposição!"| Foto:

Saiu no site da Nature, semana passada: um pesquisador italiano tinha ido a uma biblioteca britânica para pesquisar sobre comentários feitos por leitores em obras de Galileu Galilei, resolveu dar uma olhada no catálogo on-line de documentos do arquivo, e descobriu lá o original (que se julgava perdido!) de uma carta de Galileu. E não uma carta qualquer, mas uma das que iniciou o episódio que entraria para a história como a grande narrativa do paradigma do conflito entre ciência e fé. Em 1613, Galileu escreveu a Benedetto Castelli, matemático da Universidade de Pisa, explicando seus argumentos em favor da teoria heliocêntrica, mas também defendendo sua interpretação da Bíblia a respeito das passagens que descrevem fenômenos astronômicos. Essa controvérsia escriturística esteve no centro do primeiro processo contra Galileu na Inquisição, em 1616. Daí a importância da carta achada em Londres.

Acontece que havia duas versões dessa carta, uma com linguagem mais pesada quando se refere às passagens bíblicas, outra com linguagem mais atenuada. A Inquisição tinha uma versão hard, por meio de uma cópia (prática comum à época) feita pelo frade dominicano Niccolò Lorini. Em uma outra carta, desta vez ao amigo Piero Dini, em 1615, Galileu reclamou de uma “fraude”: seus adversários tinham carregado nas tintas ao fazer a tal cópia enviada à Inquisição, para distorcer a opinião de Galileu e prejudicá-lo diante do tribunal eclesiástico. Junto com a carta a Dini, Galileu enviou a versão soft da carta a Castelli; era essa versão a correta, dizia o astrônomo, pedindo a Dini que fizesse chegar o texto à Inquisição. Ambas as cartas (a Castelli e a Dini) estão no volume da Unesp que resenhei em 2015. A carta a Castelli é a versão “suave”. Na página 28, Galileu escreve a Dini: “começo a suspeitar que quem a transcreveu [Lorini] talvez possa ter mudado inadvertidamente algumas palavras (…) esta mudança, unida com um pouco de inclinação para as críticas, pode fazer as coisas aparecerem muito diferentes da minha intenção (…) pareceu-me não ser fora de propósito enviar a Vossa Senhoria Reverendíssima uma cópia desta exatamente da maneira como a escrevi” (grifo meu). Num pós-escrito na página 32, Galileu, que havia afirmado que “talvez” o autor da cópia “possa ter mudado inadvertidamente algumas palavras”, é bem mais enfático e critica “esta fraude que se apresenta sob o manto do zelo e da caridade”.

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Por muito tempo, havia controvérsia sobre qual das versões seria a correta, mas a descoberta de Salvatore Ricciardo acaba com as dúvidas. Depois de achar a carta original, ele trabalhou com seu orientador e outro historiador em um artigo científico sobre a carta. A conclusão do trio, examinando o texto e as anotações feitas pelo próprio Galileu (comparando a caligrafia com outros documentos escritos pelo astrônomo para garantir a autenticidade) é a de que a versão original enviada por Galileu a Castelli era mesmo a mais dura. A cópia enviada por Lorini à Inquisição era fiel. Galileu, depois, rasurou a carta original (que lhe havia sido devolvida por Castelli) para suavizar a linguagem e a enviou a Dini em 1615, ainda por cima sugerindo que ele jamais havia escrito o que realmente escreveu…

A matéria da Nature (ignorem as tosquices sobre “a doutrina da Igreja segundo a qual o Sol gira em torno da Terra”) traz detalhes curiosíssimos sobre como a carta ficou “escondida” dos pesquisadores por quase dois séculos e o espanto de Ricciardo ao se deparar com esse documento enquanto fazia uma pesquisa sem maiores pretensões.

Pequeno merchan

Além de editor e blogueiro na Gazeta do Povo, também sou colunista de ciência e fé na revista católica O Mensageiro de Santo Antônio desde 2010. A editora vinculada à revista lançou o livro Bíblia e Natureza: os dois livros de Deus – reflexões sobre ciência e fé, uma compilação que reúne boa parte das colunas escritas por mim e por meus colegas Alexandre Zabot, Daniel Marques e Luan Galani ao longo de seis anos, tratando de temas como evolução, história, bioética, física e astronomia. O livro está disponível na loja on-line do Mensageiro.

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