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Gravura do Livro das Horas do duque de Berry mostra Gregório I em procissão para combater a peste em Roma, no século 6.º.
Gravura do Livro das Horas do duque de Berry mostra Gregório I em procissão para combater a peste em Roma, no século 6.º.| Foto: Reprodução/Google Books

(Atualizado às 19h15 de 16 de março para incluir a visita do papa Francisco a duas igrejas romanas)

Só vi anteontem um texto publicado em 26 de fevereiro no site italiano La Nuova Bussola Quotidiana em que Stefano Fontana analisa os comunicados dos bispos italianos a respeito do surto de coronavírus. Àquela altura, já havia suspensão de missas no norte da Itália; a proibição governamental estendida a todo o país, bovinamente acatada pela conferência episcopal, viria apenas dias depois do artigo. Fontana chama a atenção para o fato de os bispos normalmente pedirem orações para que os doentes se recuperem e para que os profissionais de saúde continuem trabalhando com coragem. Até aí, tudo bem. O problema é que pouquíssimos estavam se lembrando de pedir orações pelo mais “simples”: para que Deus intervenha e livre a Itália e o mundo da pandemia.

A mentalidade implícita nessa omissão, argumenta Fontana, é a convicção de que o surto só pode ser contido por causas naturais e humanas (ainda que sob inspiração divina, no caso de cientistas e profissionais de saúde); nega-se, ou pelo menos nem se considera, a possibilidade de uma ação direta de Deus que transcenda a ordem natural das coisas. O articulista atribui essa mentalidade a teólogos contemporâneos como Karl Rahner, para quem Deus não poderia agir contrariamente às leis naturais que Ele mesmo criou, pois assim se tornaria uma “causa natural” como qualquer outra. De certa forma, Rahner dá uma roupagem teológica e um verniz cristão às ideias de iluministas como Voltaire e David Hume, que negavam totalmente a possibilidade do milagre.

Pedir o milagre – e um dos grandes – é perfeitamente razoável

O pensamento de Rahner, explica Fontana, bate de frente com a teologia tradicional, refletida nas ideias de São Tomás de Aquino. Para ele, Deus, que é a “causa primeira” de tudo o que existe, normalmente age por meio das “causas intermediárias” ou “causas segundas”, mas, ao contrário do que postula Rahner, não está preso a elas, como se, uma vez estabelecidas as leis da natureza, Deus se visse impossibilitado de agir diretamente. Afinal, “como não pode haver nada que não tenha sido criado por Deus, não pode haver nada que não esteja sujeito a seu governo”, afirma o santo. A chave, aqui, é o “normalmente”: como padrão, Deus trabalha por meio das “causas intermediárias”, que no caso do coronavírus podem ser os cientistas e profissionais de saúde, os mecanismos imunológicos de cada pessoa que colaboram na sua recuperação etc. Mas isso em nada impede o milagre, que pode ocorrer de três maneiras, segundo São Tomás: quando Deus realiza algo que a natureza é incapaz de fazer; quando realiza algo que a natureza pode fazer, mas não naquele sujeito específico; e, por fim, quando realiza algo que a natureza pode fazer, mas não da maneira ordinária. A erradicação global e imediata do coronavírus, suponho, entraria na terceira categoria.

Pedir o milagre – e um dos grandes – é perfeitamente razoável. C.S. Lewis se debruçou sobre o tema e escreveu um livro apenas sobre isso. Ainda não li Milagres, mas o escritor também expôs sua visão sobre o assunto em outros escritos, como em dois ensaios que estão em Deus no banco dos réus. Em “Religião e ciência” e “As leis da natureza”, Lewis usa o exemplo de alguém que atrapalha um lance de bilhar para mostrar que o universo não é um sistema fechado, mas algo sujeito à interferência de seu Autor: “as leis [da natureza] preveem o que acontecerá se nada interferir, mas não são capazes de prever se algo vai interferir”. Não há, portanto, violação das leis da natureza, na famosa definição de David Hume; afinal, as leis da natureza seguem como sempre, não foram desrespeitadas nem temporariamente suspensas; o que houve foi a interferência de um Alguém.

Em um livro curto, chamado Ciência e milagres, o professor da Escola Politécnica da USP Jorge Pimentel Cintra oferece uma perspectiva complementar à de Lewis, também contestando a velha ideia de Hume. “O milagre supera ou contradiz as leis da natureza?”, pergunta. E passa a explicar que, se um fenômeno existe e “não pode ser explicado pelas leis da natureza, então é preciso explicar a sua existência por outras causas ou por outras leis diferentes, mesmo que estas sejam desconhecidas no momento presente”. Ora, se Deus criou o mundo e tudo o que existe, diz Cintra, seria absurdo crer que Ele não pudesse agir sobre o universo. E, por fim, o autor ainda desmonta a tese de que o milagre seria absurdo por ser contraditório: “o milagre contraria alguma lei natural, no sentido de que constitui uma exceção ao curso natural das coisas; mas não a contradiz, porque não incorre numa contradição metafísica”, afirma.

A essa altura, já circulou muito por aí o episódio envolvendo o papa São Gregório I, o Grande, que enfrentou um surto de peste carregando um ícone da Virgem Maria por Roma (o ícone passou a ser venerado com o nome de Salus Populi Romani e está na basílica – fechada, por enquanto – de Santa Maria Maior) e, após uma procissão, viu o arcanjo Miguel com sua espada no topo do antigo Mausoléu de Adriano, que é hoje o Castelo Sant’Angelo (daí vem a imagem de São Miguel que fica no topo da construção), sinalizando o fim do surto. Claro, 2020 não é 590; não dá nem para comparar os conhecimentos médicos atuais com os recursos à disposição da população medieval. Mas podemos comparar a maneira como as pessoas de fé e os líderes cristãos respondem aos surtos.

Em 15 de março, o papa Francisco foi a duas igrejas romanas, incluindo a de San Marcello al Corso, onde se venera um crucifixo usado em procissões pelo fim da peste, para rezar pelo fim da pandemia de coronavírus. (Foto: Vatican Media/AFP)
Em 15 de março, o papa Francisco foi a duas igrejas romanas, incluindo a de San Marcello al Corso, onde se venera um crucifixo usado em procissões pelo fim da peste, para rezar pelo fim da pandemia de coronavírus. (Foto: Vatican Media/AFP)| AFP

Felizmente, também hoje temos herdeiros de Gregório, como o padre que percorreu as ruas de uma cidade italiana com um ostensório, acompanhado apenas de um acólito; ou o sacerdote maronita libanês que sobrevoou Beirute levando o Santíssimo Sacramento num helicóptero. Nos Estados Unidos, pelo menos um bispo – Joseph Strickland, de Tyler, no Texas – já aderiu à ideia de realizar procissões eucarísticas. No domingo, 15 de março, também o papa Francisco realizou orações pelo fim da pandemia, visitando primeiro a basílica de Santa Maria Maior e, depois, em uma procissão solitária pela Via del Corso, foi à igreja de San Marcello al Corso, onde se venera um crucifixo usado nas procissões de 1522 para pedir o fim da peste.

Deus quer que façamos nossa parte para não nos contaminarmos – correr riscos desnecessários não é uma demonstração de fé, é tentar a Deus, além de ser uma enorme irresponsabilidade para com as pessoas que estão sob nosso cuidado –, quer que rezemos pela recuperação dos doentes e pelo trabalho dos cientistas e dos profissionais de saúde, mas também quer que não percamos de vista que Ele pode fazer muito mais por nós.

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