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Baviera, a cinquentona que continua a mesma
| Foto: Fernando Zequinão

Estranhei o toldo de plástico, pela primeira vez ali, e o senhor sorridente guarda-chuva na mão. Escorreguei da camionete, um pé no meio-fio e o outro já na calçada protegida. Agradeci e entrei apressada fugindo do frio e da garoa. Era o aniversário de 50 anos da Baviera. Fui recebida por Marco Antônio Bertoldi, sempre ali, ao lado do imponente e valioso alambique de cobre e latão, martelado à mão. Subi a escada acompanhada dos rangidos da madeira esperando encontrar o eterno galã curitibano Giovanni Muffone, filho de um italiano do Piemonte, protagonista da história da cantina que nasceu junto com uma famosa rua da cidade, a XV de Novembro, quando virou Rua das Flores, fechada para pedestres, em 1972.

Sabia dos ensaios dele para fechar, que quando divulgado lotou a casa de ávidos clientes querendo guardar os sabores de uma vida degustados naquele lugar. Pensei que Muffone havia vencido o cansaço da idade. Não. Levei um susto. No lugar de honra estava um jovem casal de empreendedores, também frequentadores do espaço tradicional curitibano, soube depois. Disfarcei a surpresa e parabenizei Márcio Borges e Thayana Hey. Jurei secretamente ser mais atenta. Sonho quase impossível. Tratei de sentar e engatar uma conversa com eles na tentativa de entender como aconteceu a compra negociada por longos quatro anos. Márcio foi contando animado sobre a ideia de dar o fôlego merecido ao porão da mansão da tradicional família Hauer. Fãs agradecem.

Assumiram o compromisso com as portas fechadas. Pandemia no segundo round, aproveitaram pra reformar e ampliar a cozinha, a comida agora também chega até Quatro Barras, em outro empreendimento deles. O casal jura não mexer nas receitas dos pratos, muito menos na decoração, palavra empenhada por ela, que é arquiteta. Espero. Alteração só o nome no contrato social.

  • Foto: Fernando Zequinão
  • Foto: Jussara Voss
  • Foto: Fernando Zequinão
  • Foto: Jussara Voss
  • Foto: Fernando Zequinão

Herança

Risadas e histórias acumuladas nas paredes disputam espaço com a estrutura “fachwerk”, ou enxaimel, o enchimento de madeira escura usada na estrutura das casas de estilo alemão. As velas acesas nas garrafas vestidas por uma capa branca de cera são testemunhas.

Por ali, já circularam litros de sopa de cebola fumegante; quilos de pizzas e calzones, além dos clássicos filés, sem falar da farofa com ovos. Cozinheiros meio escondidos, Miguel e Valdo Gogola e José Renato da Mota, são conhecidos, estão anos na mesma função. Garçons quase invisíveis, mas sempre atentos, patrimônio do local, andam guiados discretamente pela luz original e elegante que vem da Tiffany – a luminária que o design de interiores norte-americano Louis Comfort Tiffany criou. O trabalho manual com vidro teve inspiração no movimento Art Noveau e deixa a austeridade do ambiente mais tímida. É como um vitral único com estampas florais, árvores e pássaros que me levam direto aos corações entalhados nos pés das mesas que passam desapercebidos, desconfio que despertem paixões, como Eros aprontando das suas. Vieram da loja de antiguidades que Muffone possuía.

Por muitos anos foi programa de domingo de muita gente que eu conheço, eu inclusive e até para Muffone, que tinha uma mesa cativa. “O patrão não vem hoje, podem sentar”, era a senha para ocupar a mesa dele, cobiçada e meio escondida. Imediatamente, lembro de outro Giovani, o maitre mais elegante da cidade, que circulava entre as mesas como um nobre. Sabia receber. A casa ficou triste quando se foi. Mais tarde, substituído pelo simpático Ademar, que assumiu o posto e ficou até falecer também. Parece outra sina da casa, difícil abandonar o rinque. O time quase não muda há 40 anos. Bom sinal. Muffone continua frequentando o lugar, escolhido por ele até para comemorações.

Mais história

Não confirmei a lenda do porão de que foi casa dos empregados da mansão no começo do século passado, sei que foi mesmo uma garagem. Muffone conta que havia até um buraco no centro da sala principal, como os existentes nas oficinas, onde o patriarca Hauer conseguia engraxar o carro depois de uma viagem.

Gerações Y, millenials,  e Z, centennials, talvez, na maioria, não tenham ainda andado naquele local meio underground, acostumado a receber artistas, intelectuais, boêmios e gente comum. Lembro certa vez de ter enfrentado a vergonha pra falar com o ídolo Caetano Veloso, apesar da determinação da casa de manter o sossego das celebridades. Não resisti.

É meio mágico ali, principalmente se a temperatura já caiu e a névoa invadiu a ruela na fronteira da trincheira da Augusto Stellfeld. Tudo meio cult no endereço. Vale a ida. Passada a porta, a cidade se apaga.

O nome Baviera veio de um sonho do idealizador da casa, um russo chamado Victor. O cardápio inicial foi montado pelo pizzaiolo Machado, infelizmente, não descobri o sobrenome dos dois. Muffone, que não sabe cozinhar, mas tem uma biblioteca especializada no tema e é um viajado gourmet, bon vivant, deu seus pitacos. A cantina, por exemplo, não servia carnes, só para ele, até que uma cliente apontou para o prato e sentenciou “quero um igual”, por isso o nome “filé do patrão”.

Novidades

Desde que o casal assumiu o controle, a Baviera tem um novo sistema de pedidos online, um site atualizado, com sistema de reservas integrado, garçons com palmtops, tudo para ter agilidade e atender melhor, e, opa, até um bartender apresentando uma carta de drinks moderna. Apenas uma outra novidade, um menu em três tempos com ambientação romântica que pode incluir “flores, pétalas de rosa, talheres dourados, espumantes especiais”. Fiquei pensando o que cupido vai achar disso tudo.

Os banheiros e a fachada também passam por revitalização. O banheiro precisava, a fachada não sei não. Borges também pensa em algum conforto extra para quem vai de carro, quer desmistificar a má fama e o aspecto sombrio da região, que nunca afastaram a clientela. A intenção da dupla no comando é completar os 100 anos da Baviera. Oxalá consigam. A torcida é grande.

Já imagino antigos clientes comemorando a retomada e novos querendo conhecer a Baviera. Mas desconfio que Muffone será o “eterno dono”, como lembra o jornalista e escritor, colunista do Bom Gourmet, Dante Mendonça, nas suas escritas sobre nossas origens e na crônica “Os donos do bom paladar”, listando os nomes que fizeram a história da gastronomia de Curitiba. Tradição eterniza. Às vezes o melhor é não mudar.

Baviera 50 Anos

Endereço: Rua Augusto Stellfeld, 18 – Centro

Horário de funcionamento: todos os dias das 18h às 0h

Telefone: (41) 3232-1995

Site com cardápio completo: https://www.cantinabaviera.com.br/cardapio

Instagram: @cantinabaviera

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