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O senhor Eliseu Martins segura terra seca em Cândido Mota, interior de São Paulo | Albari Rosa/Gazeta do Povo
O senhor Eliseu Martins segura terra seca em Cândido Mota, interior de São Paulo| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

Os agricultores têm um longo e sensível relacionamento com o solo. Como todo bom especialista em cultivo sabe, você pode avaliar a qualidade da terra com as mãos. É preciso verificar se ela é escura e fria, se existem minhocas e besouros, se a terra é úmida, e se quando você a cheira há um agradável aroma de terra pura.

Todos esses sinais são tranquilizadores, e foram utilizados através dos tempos. Contudo, eles são meros indicadores de algo maior e infinitamente misterioso: um universo escondido abaixo de nossos pés.

Esse mundo subterrâneo está sendo revelado apenas agora, como resultado de descobertas científicas baseadas em imagens microscópicas e análises de DNA. Ainda há muito o que aprender, mas tudo converge para uma conclusão: as plantas nutrem as criaturas do solo, que, em troca, alimentam e protegem essas mesmas plantas, e especialmente as árvores.

Já ouviu falar em agricultura regenerativa? Veja como funciona

É uma comunidade oculta que inclui minhocas, insetos, ácaros e outros bichos artrópodes dos quais você pode nunca ter ouvido falar, de amebas a protozoários. Os organismos dominantes são bactérias e fungos. Todos esses seres vivos trabalham juntos, às vezes devorando uns aos outros.

A consciência dessa biosfera deve mudar a maneira como agricultores enxergam seus cultivos e aumentar a compreensão de todos sobre a natureza. Em outras palavras, você nunca mais vai encarar esses seres vivos como ‘sujeira’.

A flexibilidade de tudo isso é reveladora: uma colher de chá de argila pode conter bilhões de bactérias, incontáveis filamentos de fungos e milhares de protozoários, segundo Jeff Lowenfels, escritor especializado no tema e co-autor do livro “Teaming With Microbes” (Jogando com os Micróbios, em português).

Basicamente, é assim que tudo funciona: as plantas produzem carboidratos através da fotossíntese, mas não apenas para ‘consumo próprio’. Elas liberam açúcares de carbono no solo, o que faz com que bactérias e fungos possam se alimentar. As bactérias se amontoam no entorno da raiz, e os fungos formam uma cadeia que liga uma planta à outra. A bactéria converte nitrogênio em outros nutrientes que as plantas podem utilizar, geralmente sendo ingeridas por outros micróbios.

Os fios fúngicos (conhecidos como micélios) aumentam sua massa em até mil vezes na planta hospedeira. O objetivo: transportar uma série de ‘presentinhos’ às plantas, o que inclui fósforo, cobre, cálcio e zinco. Há também evidencias de que as árvores utilizam essa ligação para enviar sinais umas às outras, informando sobre a chegada de pragas devoradoras de folhas.

Em palestra, o micologista (profissional que estuda fungos) Paul Stamets classificou os micélios como “A Internet da Terra”.

Ainda que algumas doenças em plantas (e em seres humanos) sejam causadas por essa colônia de fungos e bactérias do solo, a maioria deles são benéficos e mantém essas ameaças distantes. Os organismos auxiliam uns aos outros de diferentes maneiras, aumentando o número de partículas do solo, o que melhora a capacidade de absorção de água e ar.

O submundo das cidades

Até mesmo no meio de uma cidade o mundo subterrâneo de micro-organismos está prosperando.

Central Park de Nova York: mundo subterrâneo do parque é parecido com florestas tropicais e desertos de geloEric Thayer/AFP

Cientistas coletaram 600 amostras de solo ao redor do Central Park de Nova York e descobriram uma surpreendente e rica diversidade. Foram identificados mais de 120 mil tipos de bactérias e 40 mil tipos de fungos, protozoários e artrópodes.

Entre as descobertas inesperadas, as espécies de micróbios encontradas eram mais ou menos as mesmas de outras partes do mundo com clima e flora completamente diferentes de Nova York, incluindo os desertos de neve da Antártida, florestas tropicais e pastagens.

Existem fortes semelhanças entre esses organismos. “Desvendar essas relações será essencial para desenvolvermos uma compreensão integrada da ecologia subterrânea”, opinam pesquisadores em artigo publicado pela British Royal Society. “Nosso trabalho destaca que a maioria da diversidade do solo permanece desconhecida”.

Agricultura regenerativa

Sabe-se o suficiente, contudo, para criar um subsistema do século 21 chamado de agricultura regenerativa. Os produtores rurais já descobriram que, fortalecendo essa bioesfera, não é necessário utilizar fertilizantes caros, pois os micro-organismos levam os nutrientes necessários às plantas. Os agricultores, por razões óbvias, evitam o uso de pesticidas que podem matar essa vida subterrânea.

Nesse processo, os agricultores buscam escavar menos o solo para evitar que as redes de fungos e de micro-organismos sejam comprometidas.

Os defensores dessa forma de cultivo de baixo impacto afirmam que essa maneira de produzir alimentos é capaz de restaurar o carbono do solo, perdido devido à conversão de áreas florestadas em agrícolas, o que também ajudaria a minimizar a emissão de gases do efeito estufa.

Nos anos 1990, a pesquisadora Sara Wright, do Serviço de Pesquisa de Agricultura de Betsville, no estado de Maryland, nos Estados Unidos, descobriu filamentos de fungos que seriam uma grande reserva de carbono.

O pesquisador Jeff Lowenfels afirma que este é o momento para agricultores adotarem práticas que auxiliam na nutrição da bioesfera do solo. Dizer que Jeff “reflete profundamente” neste mundo subterrâneo é mais do que um trocadilho. Em seu último livro, “Teaming With Fungi” (Jogando com os Fungos), ele destaca os tipos de fungos que se conectam às plantas. Jeff diz que adora buscar esses fungos e tentar conectá-los às plantas, seja por spray ou por pó especial, aplicando direto no cultivo.

“Isso funciona. Meus tomates são maiores, a plantação gera mais frutos e todos são saudáveis”, afirma. “Minhas cenouras também estão incríveis”, completa.

Alguns agricultores utilizam chá de compostagem para construir a rede de micro-organismos no solo. Isso é feito por meio de compostos e ácidos húmicos com água sem cloro, pulverizada nas plantas e no solo. Outros ainda não estão convencidos de que isso seja necessário, embora concordem que é uma maneira de fomentar a rede de nutrientes necessários para o solo a partir de material orgânico.

James Nardi, um biólogo da Universidade do Illinois, tem um conselho: “Trabalhe com seus colegas agricultores que não são humanos. Eu nunca utilizo fertilizantes sintéticos, nem pesticidas”. Ele é autor do livro Life in the Soil (Vida no Solo), uma boa introdução ao assunto.

No outono, Nardi realiza misturas de esterco de cavalo com folhas caídas, aplicando como uma espécie de adubo para o solo. “Na primavera tenho um solo lindo e esponjoso”, diz. Já Lowenfels utiliza folhas do outono em seu gramado para permitir que a biosfera as utilize durante o inverno.

O mantra da agricultura orgânica nunca foi tão apropriado: “alimente o solo, não a planta”.

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