Expedição Safra

Trigo pode ser principal vítima do ‘império da soja’

Sem remuneração adequada, o Paraná, principal produtor de trigo do Brasil, vê área de plantio reduzir ano a ano

Albari Rosa/Gazeta do Povo Em 2017, a área de plantio no Paraná caiu 13% e a produção 37% comparado a 2016, de acordo com o Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Agricultura do Estado. | Albari Rosa/Gazeta do Povo

Em 2017, a área de plantio no Paraná caiu 13% e a produção 37% comparado a 2016, de acordo com o Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Agricultura do Estado.

Guarapuava (PR) |

  • Giorgio Dal Molin e Gabriel Azevedo, enviados especiais

Se por um lado o plantio de verão de soja e milho está normalizado em Guarapuava, a região acende um alerta para o próximo inverno: o trigo está ameaçado. E o problema não é o clima. “O produtor está desgostoso, não por produtividade e qualidade, mas porque não tem preço”, afirma o presidente do Sindicato Rural de Guarapuava, Rodolpho Werneck Botelho.

“Um valor sustentável poderia ser algo perto dos R$ 800 [por tonelada produzida] para incentivar o cultivo”, opina Ubiratan Wendler, gerente agrícola da cooperativa Agrária, que atua na região.

O problema é que, no caso do trigo, o mercado dita as regras: o preço, neste ano, variou entre R$ 630 e R$ 650 a tonelada, segundo dados da Cooperativa Agrária. Com valores que muitas vezes não pagam o custo de produção, ano a ano o trigo vem sendo menos cultivado.

Ouça opinião de Botelho sobre as vendas de trigo aos moinhos brasileiros:

Em 2017, a área de plantio no Paraná caiu 13% e a produção 37% comparado a 2016, de acordo com o Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria de Agricultura do Estado. Em 2016, a área de cultivo já tinha reduzido 18% comparado a 2015, com queda de 6% na produção.

Desequilíbrio de preços

Rodolpho Botelho critica a concentração de mercado, alegando que os poucos moinhos que existem no País buscam produto no mercado externo, principalmente da Argentina e Paraguai. “O que falta é uma política agrária definitiva de médio e longo prazo. Seria melhor esse dinheiro girar aqui mesmo”, sugere.

Algumas apostas podem equilibrar o jogo. A própria Agrária estuda garantir um preço mínimo para compras em seu moinho. Além disso, Wendler e Botelho destacam a importância de manter a cultura: “Do ponto de vista técnico e agronômico é muito importante para a cultura de inverno, mas o produtor trabalha como empresário rural, e realmente o valor pago tem desestimulado. Mas estamos prevendo a mesma área de trigo para 2017”, afirma o gerente da cooperativa. “As culturas de inverno são importantes para rotação, produção de palhada e cobertura de solo”, completa o presidente do sindicato.

Monocultura?

Botelho destaca o risco da desistência do trigo para antecipar o plantio de soja. “As variedades da soja estão cada vez mais precoces e precisam ser plantadas cada vez mais cedo”, explica. Esse período pode coincidir com a colheita do trigo, que corre o risco de ficar de lado por conta da lucratividade obtida pela soja.

O milho também perdeu espaço. Tradicionalmente, ele não é produzido no inverno na região de Guarapuava - justamente pelo plantio de cereais como o trigo e cevada - e agora na safra de verão seu cultivo também vêm reduzindo. “No ciclo anterior plantamos 75% soja e 25% milho. Agora essa proporção caiu para 20% entre os cooperados da Agrária”, revela Ubiratan Wendler.

A explicação também está na baixa de preços do cereal, trazendo um novo risco: “O milho é um agregador de matéria orgânica de palhada muito grande [para o solo]. A soja plantada em cima da área do milho cultivado na safra anterior sempre produz mais. Temos que ter cuidado de não deixar virar uma monocultura: o ideal era ter o terço da área de milho na safra de verão”, recomenda Rodolpho Botelho, referindo-se à rotação de culturas.

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