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Richa acusa servidor de querer “privilégios”; veja a vida privilegiada do governador

Beto Richa. Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo.
Beto Richa. Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo.

Beto Richa tem um novo discurso. Em todos os eventos de que participa, o governador tem explicado a situação do estado com o mesmo roteiro, decorado a ponto de as sentenças saírem iguais em todas as ocasiões:

  1. O Paraná hoje tem uma posição privilegiada porque foi o primeiro a perceber a crise e fazer os ajustes necessários. Por isso tem bilhões para investir enquanto outros estados estão quebrados.
  2. Sua gestão fez o ajuste fiscal necessário de maneira corajosa, mesmo estando “sob ataque” (expressão particularmente curiosa no discurso de quem comandou o 29 de abril) de sindicatos e da oposição.
  3. Apesar dos bons resultados, é preciso continuar sempre em estado de alerta, porque há servidores com “demandas infinitas e insaciáveis” que podem levar o Paraná à falência, jogando fora todo o esforço já feito.

A primeira parte do discurso esquece de maneira conveniente que a primeira gestão do próprio Beto tem grande parcela de culpa na crise que ele mesmo diz ter corrigido. Entre 2011 e 2014, Richa concedeu reajustes e aumentos loucamente, como ele mesmo admite, tirou aposentados do Fundo de Previdência, fez o que podia e o que não podia.

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Em nome da reeleição em 2014, apelou para o mesmo truque de Dilma: fingiu que as finanças estavam uma maravilha e se recusou a tirar o pé do acelerador. Passado outubro, garantido mais um mandato de quatro anos, descobriu-se o tamanho do caos que a irresponsabilidade tinha gerado. E veio a conta.

Massacre no Centro Cívico. Foto: Bruno Covello/Arquivo Gazeta do Povo.

Nem é preciso dizer que é uma farsa a história de que o governo estava sob ataque. Sob ataque estavam os professores e manifestantes. Beto Richa, com auxílio de Fernando Francischini, gastou o arsenal da PM nas testas e gargantas dos funcionários que perdiam o dinheiro da sua previdência. Foram 213 feridos num massacre jamais visto antes no estado.

Regalias

Mas o que tem sido realmente chocante no discurso do governador é a ideia de que os servidores querem privilégios. Foi o que disse nesta quinta em encontro com o prefeito paulistano, João Doria, por exemplo. Os repórteres Fernando Martins e Euclides Lucas Garcia registraram o fato.

Segundo a reportagem, no encontro o governador também se posicionou contra a concessão de “direitos” para determinadas categorias de servidores. “Se não é pra todo mundo, é privilégio.”

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De fato, os servidores têm várias reivindicações. Com os salários que ganham, no entanto, dificilmente se poderia falar que estão tentando ter privilégios. Pelo menos se falarmos do grosso do funcionalismo, formado por professores da rede pública, enfermeiras, policiais etc.

Faz parte da luta política um grupo tentar conquistas salariais e melhores condições de trabalho. Chamar isso de busca por favorecimentos já seria estranho. Vindo de quem vem é praticamente um escândalo.

Os verdadeiros privilégios

Escândalo porque o governador, que escolheu o funcionalismo como alvo, parece cego aos privilégios de seus pares, de seus nomeados, de seus parentes. Não há registro de que Beto Richa tenha em algum momento, por exemplo, criticado os juízes que se autoconcederam um auxílio-moradia de R$ 4,3 mil mensais mesmo já tendo casa e recebendo salários altos.

Não se ouve um pio do governador em relação aos gastos dos deputados estaduais. Não só o próprio Beto se beneficiou da estrutura da Assembleia, que oferece 23 assessores para cada parlamentar (cada gabinete é uma empresa de porte médio), como dá todas as condições para que o político se perpetue no poder usando dinheiro público.

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Beto não fala nada sobre os titulares de cartório que não fizeram concurso. Sobre os conselheiros do Tribunal de Contas que também estenderam para si o auxílio-moradia – cargo para o qual Beto já nomeou três amigos do peito desde que assumiu o governo.

Não se ouve Beto falar sobre os luxos dos tribunais, os lanchinhos pagos com verbas públicas, os lanchinhos gourmet encomendados pelo seu secretário de Cerimonial, Ezequias Moreira, que ele tirou da fila de julgamentos criminais para colocar em um posto (esse sim privilegiado) de um secretário que tem salário e foro especial, mas cujo trabalho é absolutamente invisível e desnecessário.

Jatinhos e Paris

Mas principalmente é um escândalo pelos privilégios que Beto concede a si próprio e à sua família, ou que deixa que se conceda aos seus. O governador que reclama das demandas insaciáveis é o mesmo que arranjou cargos públicos de primeiro escalão para a mulher e o irmão. Que coloca o filho para ser secretário na prefeitura já pelo segundo mandato. Que contesta outras aposentadorias pagas pelo Estado, menos a da própria mãe.

Richa é o governador que fala em privilégios de assalariados enquanto viaja fazendo escalas técnicas em Paris, num hotel à beira do Arco do Triunfo, gastando diárias absurdas ao mesmo tempo em que arrocha salários. E que quando é contestado judicialmente afirma que viajar direto, sem essa pausa para compras nos Campos Elíseos, seria desumano.

Hotel em que Beto Richa e a esposa Fernanda fizeram “parada técnica” em Paris. Nada de privilégios.

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Beto viaja de jatinho pago pelos privilegiados paranaenses, se locomove de helicóptero emprestado por empresário, tem motorista pago – assim como grande parte de seus parentes, todos vivendo nas delícias do primeiro escalão. E do alto do Palácio que já foi ocupado pelo pai e que pretende um dia repassar ao filho, vê os servidores pedindo respeito a direitos adquiridos.

Lá de cima, parece que são privilégios. É que o distanciamento da vida real causa, de fato, essas ilusões de ótica.

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