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Cinco pontos para entender a batalha do Centro Cívico

Crédito: Daniel Castellano/Gazeta do Povo
Crédito: Daniel Castellano/Gazeta do Povo

O que aconteceu ontem em Curitiba é mais complexo do que um acidente de avião. Uma manifestação que acaba com 200 feridos nunca ocorre por um só motivo. Mas fatos e análises de especialistas ajudam a chegar a pelo menos cinco razões para começar a esboçar um diagnóstico:

1) PALCO DE GUERRA
Especialistas defendem que é correto que a polícia exponha supremacia numérica para inibir confusões em manifestações. A questão é que o cerco à Assembleia Legislativa começou no sábado, cinco dias antes da votação. Era um recado claro que de que havia acabado a “colher-de-chá” das manifestações de fevereiro, quando a polícia havia sido extremamente paciente e evitou o confronto ao máximo. O clima de “ocupação” foi um péssimo sinal tanto para os manifestantes, quanto para a população em geral, mas principalmente para tropa, que se sentiu garantida para usar essa supremacia.

2) EXAGERO NAS ARMAS
Todas as armas não-letais utilizadas pelos policiais durante o confronto estão previstas em uma cartilha elaborada no ano passado para segurança em manifestações na Copa do Mundo – balas de borracha, gás, jato d’água, cães e cavalaria. Desde as manifestações de junho de 2013, no entanto, há um consenso de que as balas de borracha devem ser usadas apenas no momento em que os policiais são atacados e os tiros devem ser direcionados sempre abaixo da linha da cintura (o que não ocorreu no Centro Cívico). O uso de cães também foi banido nas manifestações há anos em São Paulo, o estado com mais experiência nesse tipo de situação – a informação é do ex-secretário Nacional de Segurança Pública e coronel da reserva da PM de São Paulo, José Vicente da Silva Filho. O volume de opções de armas, diante de manifestantes praticamente desarmados (a polícia apreendeu meia-dúzia de coquetéis molotovs e pedras) também colaborou para o “ânimo” dos policiais no momento em que a tensão subiu.

3) BALAIO DE GATOS
Para reunir o contingente de 2.856 policiais que passaram pelo Centro Cívico nos cinco dias de ocupação (ontem à tarde eram 1.600), o comando da polícia precisou improvisar. Trouxe tropas de todos os cantos do estado, incluindo grupos que trabalham na fronteira com o Paraguai e a Argentina, a mais de 600 quilômetros da capital. Muitos policiais vieram de cidades cuja população é menor que o número de 25 mil manifestantes que estavam na praça ontem. Houve ainda a desmotivação pela falta de pagamento da diária de R$ 180 dos policiais que vieram de fora.

4) CADEIA DE COMANDO
As tropas foram convocadas pelo presidente da Assembleia Legislativa, Ademar Traiano (PSDB), para obedecer uma ordem judicial. O governador Beto Richa (PSDB) avalizou a conduta da polícia, mesmo depois do saldo de 213 feridos. O secretário estadual de Segurança Pública, Fernando Francischini, é ex-policial militar e esteve pessoalmente envolvido na operação do camburão que levou deputados estaduais governistas à Assembleia, em fevereiro. Na terça-feira, foi escalado o então corregedor-geral da PM, coronel Arildo Dias (que ocupava justamente o cargo responsável por apurar desvio de conduta dos policiais), para comandar a operação. Todos os sinais eram claros de que os policiais podiam fazer o que quiserem que teriam respaldo. Além disso, 17 PMs que se negaram a integrar o cerco acabaram presos.

5) CULTURA DA VIOLÊNCIA
Especialista em segurança pública, o cientista político Antonio Flávio Testa, da Universidade de Brasília, diz que, até os protestos de 2013, as polícias brasileiras só conheciam a estratégia da violência usada desde a ditadura para lidar com esse tipo de situação. Dois anos é muito pouco tempo para querer que essa cultura mude (no Paraná ou em qualquer estado). Além disso, há um recrudescimento na sociedade de setores que incentivam a violência. O secretário estadual da Segurança Pública tem usado as redes sociais para celebrar operações que acabam em confrontos com morte de criminosos. Ontem havia também um clima de revanche e de valorização da autoridade e do “medo da polícia”. Afinal, se parecesse que eles tinham “amarelado” com os professores, como eles ficariam ao lidar com bandidos?

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