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Livro da semana – “A morte de Ivan Ilitch”

Reprodução/Internet
Tolstoi: homem religioso de ideias polêmicas.

O conde Leon Tolstoi era um sujeito aflito, atormentado por pensamentos morais. É famosa a história de que publicou um livro defendendo a abstinência sexual de todos (mesmo sabendo que isso causaria a extinção da humanidade) no mesmo ano em que teve seu décimo terceiro filho. Não conseguia viver integralmente tudo aquilo que defendia. Mas, falando sério, quem consegue?

“A morte de Ivan Ilitch” é justamente um livro sobre como podemos desperdiçar nossas vidas. Tolstoi, acho, quis mostrar como nos preocupamos com o que não é importante e acabamos deixando de fazer algo que realmente interesse. O tema pode parecer banal, e talvez seja, mas o modo como ele faz para contar essa história é que impressiona.

Ivan é um funcionário da burocracia imperial russa. Tem um casamento que de começo vai bem, mas depois desanda. Não se interessa de verdade pelo seu trabalho, mas tem posição e prestígio. Não tem nenhum interesse verdadeiro pela vida. Apenas vai tocando tudo do modo que se espera que ele faça. Tem filhos. É promovido. E chega assim aos 45 anos.

Um dia, porém, cai e bate numa tranca da janela. Não se sabe o que acontece (ah, a medicina do século 19!) mas ele começa a adoecer e logo a definhar terrivelmente. Em pouco tempo, todos percebem que aquele deve ser o fim dele, ele vai morrer de algo que nem se sabe o que é: será um problema no apêndice ou no rim? Em nenhum caso os médicos sabem o que fazer (ah!, que bênção termos nascido no século 20).

A história da longa agonia do burocrata é recheada pelos pensamentos dele sobre a vida. Pode ser só isso mesmo? E se for, o que fazer? E se já não fez, o que resta? E por que não fez, e acabou simplesmente fazendo o que os outros desejavam? O que poderia ser o tema de um livro tolo de auto-ajuda, nas mãos de Tolstoi se torna uma dolorosa reflexão sobre a vida, sem concessões, sem tentar fazer com que você se sinta bem consigo mesmo. A vida é dura e temos é que fazer algo dela, diz o conde.

Ao lado de Ivan, todos são incompreensivos. A mulher e a filha querem levar a vida de gala que sempre tiveram, e quase o consideram um incômodo. Os médicos o tratam como um rim, ou um apêndice. Os colegas só pensam em que posição vão ganhar se a vaga dele for aberta. É um mundo de hipocrisia.

Só duas pessoas entendem o moribundo. Um camponês, empregado da família, que faz questão de ajudá-lo a todo custo (Tolstoi insistia que os camponeses são mais sensíveis para a vida real do que nós, citadinos) e o menino mais novo da família. O filho de 12 anos sabe do que o pai fala, e sofre com ele. Ainda não chegou à idade de perder esse contato com a bondade, parece que quer dizer Tolstoi.

É um livro curtíssimo, quase um conto longo, forte e duro com o leitor. Ao mesmo tempo, quase ingênuo na denúncia de algo que todos já vimos em algum lugar. Mas bonito, e importante. Todo mundo morre duas vezes, disse Dalton Trevisan, e a primeira é quando lê Ivan Ilitch. Ai, que o vampiro esteja certo.

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