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Relações étnico-raciais na escola

Roberto Custódio/ Jornal de Londrina
Crianças de Londrina lembram Dia da Consciência Negra, em 2009
Roberto Custódio/ Jornal de Londrina

Crianças de Londrina no Dia da Consciência Negra, em 2009

Com a proximidade do controverso feriado do Dia da Consciência Negra, é interessante fazermos uma reflexão sobre relações raciais na escola. Como o Brasil é um país no qual há um altíssimo grau de miscigenação, é comum as pessoas pensarem que o racismo é algo ultrapassado ou superado. Que aqui no Brasil somos todos iguais e que todos têm as mesmas oportunidades de acesso às instituições de promoção da cidadania, como é o caso da escola. Mas será que isso é verdade?

Sabemos que de acordo com o Censo 2012, o número de negros ou pardos e brancos no país é praticamente igual, no entanto, as crianças e adolescentes negros são os que ainda mais apresentam problemas na relação com a escola no que tange à evasão, reprovação ou retenção – itens associados ao fracasso escolar. Durante a vida escolar, é maior o número de crianças e jovens que vão “ficando pelo caminho” e atualmente, mesmo com o sistema de cotas, são poucos os negros que entram no ensino universitário. Muitos tentam justificar essas questões essencializando características biológicas, argumentando que todos (negros e brancos) tiveram acesso à escola, mas os primeiros não aproveitaram, não se esforçaram ou que são preguiçosos. Tais argumentos são rasos e equivocados.

Sabe-se que há uma clara relação entre a cor da pele e nível socioeconômico. Os negros ocupam as camadas mais baixas na pirâmide social e a explicação para isso não é falta de capacidade dos agentes, mas as poucas oportunidades e o racismo, que não está em um ou em outro indivíduo, mas na sociedade como um todo. O racismo faz parte da mentalidade da nação, está nas piadinhas, na naturalização das desigualdades, nos números de adoções realizadas de crianças brancas e negras (essas últimas são as que sofrem mais rejeição), na resistência de vários professores em trabalhar os temas relativos à cultura africana, etc. Por isso, dizemos que no Brasil o racismo é estrutural!

Então podemos nos perguntar, em que medida a escola pode contribuir para superar essa face vergonhosa da nossa história?

1) Primeiramente precisamos mudar o pensamento hegemônico de que vivemos numa sociedade de direitos e não de deveres. Os professores precisam ser parte da mudança que querem ver no mundo e para isso precisam compreender que há uma clara violação de direitos, principalmente da população negra.

2) A escola deve promover não só saberes, mas práticas educativas que promovam respeito à diversidade.

3) Inclusão no seu currículo de temáticas que discutam a diversidade sociocultural (gênero, raça, etnia, religião, orientação sexual, idosos, pessoas com deficiência) com vistas a desnaturalizar relações e desigualdade.

4) Valorizar as diversas manifestações culturais.

5) Privilegiar o exercício do diálogo como forma de resolver pequenos conflitos.

6) A tarefa de educar para/em DH impõe à escola processos de qualificação de seu corpo docente.

7) O educador precisa ser um agente promotor e disseminador da cultura de direitos humanos.

8) A escola pode propor e sistematizar situações-problemas que envolvam atividades coletivas nas quais os alunos possam discutir, avaliar e se posicionar.

9) Uma educação em DH não está em voltar-se aos valores tradicionais, mas em buscar um referencial atual, comum, reconhecidamente aprovado pelas diversas culturas.

10) E, por fim, é importante a escola compreender que a ética não dever ser uma disciplina a ser dada por um professor específico (os PCNs já apontam isso). Piaget já alertou para a necessidade de uma educação moral por meio da construção de valores através das interações sociais.

>>Artigo escrito por Joyce K. Pescarolodo, psicóloga educacional do Instituto Não-Violência

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