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Falando de Música

Enviado por Osvaldo Colarusso, 17/01/17 11:25:04 AM
Teatro Guaíra: o futuro incerto de seus corpos estáveis

Teatro Guaíra: o futuro incerto de seus corpos estáveis

Depois do absurdo cancelamento da 35ª Oficina de Música de Curitiba o Paraná sofre com mais uma ameaça às suas atividades culturais: os corpos estáveis do Teatro Guaíra, isto é a Orquestra Sinfônica do Paraná e o Balé Teatro Guaíra, enfrentam neste início de ano um enorme imbróglio para manterem suas atividades. Tentarei neste texto ser o mais didático possível para explicar esta situação complicada que esbarra em incontáveis deslizes administrativos que acabam resultando numa explosiva situação, decorrência de décadas de descuidos. O que já adianto é que a situação é grave e que, infelizmente, nenhuma solução será completamente perfeita, mas que pelo bem da vida cultural do Estado uma solução definitiva necessita ser adotada para que não percamos o pouco que ainda temos de atividade cultural no Paraná.

Anos de improvisações e descasos

Os corpos estáveis do Teatro Guaíra contaram por muitos anos com Concursos públicos para preencherem suas vagas. O primeiro concurso público do Balé Teatro Guaíra aconteceu no início de 1969 e o primeiro concurso público da Orquestra Sinfônica do Paraná aconteceu no início de 1985. Os artistas eram concursados, mas contratados em regime de CLT, o que dava maior flexibilidade aos organismos. No entanto em 1992 o então governador Roberto Requião transformou todos os celetistas admitidos por concurso em estatutários, o que dava uma estabilidade definitiva aos funcionários. Percebendo-se uma certa incongruência na modificação de regime funcional os concursos foram se tornando cada vez mais raros. Creio eu que o último Concurso Público para instrumentistas da Orquestra aconteceu em 1995 e as vagas remanescentes eram preenchidas com contratos temporários de curta duração. Com a volta de Requião ao governo do Estado, no ano de 2003 ficou acertado que os músicos e bailarinos que deveriam preencher vagas existentes seriam contratados como “cargos comissionados”, isto é, “cargos de confiança”, com poucos direitos trabalhistas, salário menor do que de seus colegas estatutários e nenhuma estabilidade. O improviso estava assim “institucionalizado”, e logo instituições como o Tribunal de contas, o Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) e o Ministério Público do Estado (MPPR) arguiram a inconstitucionalidade da ação. Vejam bem, 14 anos de embates sobre a validade jurídica dos cargos em comissão para instrumentistas e bailarinos e nada feito de concreto. O prazo final para a extinção dos cargos foi proferido no último mês de dezembro: no próximo dia 4 de março todos os cargos comissionados serão extintos. Com isso serão demitidos 27 músicos da Orquestra e 22 bailarinos do Balé. No caso da orquestra serão desligados um terço dos músicos. No caso do Balé todos os bailarinos do grupo. Entre os músicos que serão demitidos estão alguns dos melhores instrumentistas do país, músicos absolutamente essenciais para a manutenção de um bom nível técnico da orquestra.

Soluções imperfeitas, mas necessárias

Mônica Rischbieter, diretora-presidente do Centro Cultural Teatro Guaíra, num quixotesco esforço, tenta organizar um teste seletivo no mês de março para que o Serviço Social Autônomo Palcoparaná contrate os artistas em regime CLT. A esperança dela é que a partir do mês de abril seja possível preencher as vagas remanescentes dos corpos estáveis. Creio mesmo que esta seria a melhor solução, mas não podemos esquecer dos problemas que permanecem: os salários oferecidos a quem fizer este teste seletivo é até 50% menor do que dos colegas estatutários. Isto significa que no caso da orquestra dois músicos exercendo a mesma função terão vencimentos muito diferentes. O outro problema é que o teste seletivo não pode ser dirigido apenas a quem está sendo demitido. Qualquer interessado, de todo o país, pode fazê-lo. Isto significa que há a chance de um músico ou um bailarino que participa dos corpos estáveis do Teatro Guaíra há anos ser alijado definitivamente. Realmente o improviso, o descaso e os deslizes administrativos têm um preço. Que este preço seja o menor e menos doloroso.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 28/12/16 9:55:11 AM
Nadja Michael interpretando Fosca no Municipal de São Paulo

Nadja Michael interpretando Fosca no Municipal de São Paulo

O ano que está acabando não foi dos mais tranquilos para o país. Crise política, crise econômica, crise ética. Com certeza esta situação acabou permeando a cena musical no país, que assistiu ações inéditas que foram tratadas muitas vezes não em cadernos culturais, mas em páginas policiais (corrupção galopante no Theatro Municipal de São Paulo e bloqueios financeiros na Orquestra Sinfônica Brasileira). Já tratei aqui sobre as crises que abalaram as atividades ligadas à música clássica no país (vide texto aqui), mas o ambiente conturbado não impediu de acontecerem também coisas muito boas. Uma delas foi a montagem da ópera Fosca de Carlos Gomes no Theatro Municipal de São Paulo que contou no soberbo elenco com uma cantora de fama internacional no papel título: Nadja Michael. Há muito tempo Carlos Gomes não era interpretado por alguém do primeiro time internacional do canto lírico. A temporada de 2016 do Theatro Municipal do Rio de Janeiro também é digna de inúmeros elogios. Em meio à mais severa crise financeira do país foram apresentadas óperas e ballets de alto nível. Lamentável que não foi possível evitar o cancelamento das apresentações da ópera Jenufa do theco Leoš Janáček em novembro, que seria apresentada no país pela primeira vez no idioma original. Está prometida para março. A conferir.

O maestro Nikolaus Harnoncourt. Uma das grandes perdas do ano

O maestro Nikolaus Harnoncourt. Uma das grandes perdas do ano

2016 – Ano de muitas perdas

Foram muitas mortes de expoentes musicais neste ano. Logo no início de 2016, no dia 5 de janeiro, falecia um dos mais importantes compositores nascidos no século XX, Pierre Boulez. Se a música moderna perdia um ícone, em 5 de março o mundo perdia o homem que redescobriu a sonoridade original da música barroca e que nos ensinou a reouvir a arte musical com mais profundidade, Nikolaus Harnoncourt. Além de Boulez mais dois compositores muito importantes faleceram em 2016: o inglês Sir Peter Maxwell Davies (faleceu em 14 de março) e o finlandês Einojuhani Rautavaara (faleceu em 27 de julho). Alguns instrumentistas excepcionais também nos deixaram: o flautista suíço Aurèle Nicolet (faleceu m 29 de janeiro), o pianista e maestro húngaro Zoltán Kocsis (faleceu em 6 de novembro) e o violoncelista austríaco Heinrich Schiff (faleceu há pouco, dia 23 deste mês). Muito triste também a morte do maestro inglês Sir Neville Marriner (faleceu dia 2 de outubro).

O saudoso Nicolau de Figueiredo

O saudoso Nicolau de Figueiredo

Entre os brasileiros de fama internacional duas perdas irreparáveis: o grande cravista e maestro Nicolau de Figueiredo que faleceu em 6 de julho (tinha apenas 56 anos de idade) e o percussionista Naná Vasconcelos que nos deixou em 9 de março, pouco tempo depois de se apresentar aqui em Curitiba na 34ª Oficina de Música. E por falar em Oficina de Música, a 35ª faleceu antes de nascer. Outra morte lamentável.

A música brasileira em três gravações exemplares

Em 2016 foram realizadas três gravações absolutamente antológicas que ampliam a visão da boa produção musical clássica do país. Inicialmente o fantástico CD “Sonata brasileira” gravado pelo selo americano Odradek mostra o pianista brasileiro Antonio Vaz Lemes executando sonatas de André Mehmari, Camargo Guarnieri, Marcelo Amazonas e Edmundo Villani Cortes. CD que teve enorme repercussão internacional (veja o que escrevi sobre ele aqui) e que colocou a música brasileira em evidencia mundial. Em lançamentos brasileiros destacaria a importantíssima gravação integral de todos os quartetos de Radamés Gnattali pelo quarteto Radamés Gnattali (veja o que escrevi a respeito aqui) e de um belíssimo CD com obras do compositor carioca Ricardo Tacuchian para dois pianos, piano a quatro mãos e piano solo com as pianistas Miriam Grosman e Ingrid Barancoski (o CD se chama Água Forte) , revelando a mais importante produção pianística no país nas últimas décadas. Prometo para breve analisar de forma mais detalhada este CD, que não canso de ouvir.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 23/12/16 11:47:23 AM

Na página do Facebook do MBL (Movimento Brasil Livre) de Curitiba foi divulgada a imagem reproduzida acima que reputo pelo menos como equivocada. Lembro ao pessoal do MBL que a Oficina de Música de Curitiba não é um simples evento, ou, como muitos pensam, uma festa, e lembro também que seria tosco pensar que uma rubrica de Cultura poderia ser usada em Saúde. O equívoco é portanto duplo.

Quanto á palavra “evento” lembro pela enésima vez que a Oficina de Música de Curitiba é principalmente um curso de três semanas que atende centenas de alunos vindos de todo o continente. Um curso no qual alunos têm contato com professores de alto nível, e com muito dos quais não poderiam ter contato pelo fato de que estes professores moram na Europa, na Ásia ou nos Estados Unidos. Outro fato que muitos parecem desprezar é o enorme trabalho social que a Oficina de Música faz em hospitais, asilos e orfanatos. Mas pior do que a opinião equivocada do MBL são os comentários colocados abaixo da foto na mesma página do MBL. Escolhi quatro. Vou omitir os nomes de quem escreveu para evitar qualquer tipo de incômodo. Os erros de português, no entanto, estão mantidos…

Comentário Nº 1 : “Orgulho em dizer que votei nele , a cidade está dizandada , sem saúde, as ruas viradas em buracos e querem porra de música ?”. Este cidadão (ou cidadã) se refere a música como “porra”. Muito “elegante” eu diria. Não sei o que quer dizer “dizandada”, mas esclareço que no orçamento da prefeitura existem verbas especificadas e que não é tirando verba da cultura que se tapam buracos

Comentário Nº 2 : “Isso é governar para os mais pobres”. Discordo totalmente: a Oficina de Música atende muitas pessoas que não possuem meios para terem aulas com grandes mestres. O cancelamento da Oficina penaliza também muita gente menos favorecida

Comentário Nº 3 : “Super certo…..Arte que não se sustenta tem de sumir, parasitas….” Educação, segundo nossa constituição, é obrigação do Estado. Centenas de alunos recebem orientação de grandes mestres durante um curso como a Oficina de Música de Curitiba. Arte é educação, e o Estado deve promove-la sim. É lei.

Comentário Nº 4 : “Parabéns, foi muito feliz tomando esta atitude, só está infeliz quem sempre mamou nas tetas estatais através destas coisas do povo, das quais o povo nunca participou”. Que bom que este cidadão (ou cidadã) ficou feliz, mas lembro a ele (ou ela) que o povo participa sim. Só na oficina passada o público das apresentações superou o expressivo número de 15.000 pessoas. Aliás a redação do comentário é sofrível: diz que é do povo, mas que o povo não participa. Creio que tiraram verba da educação, na época dele (ou dela) para tapar buracos.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 22/12/16 8:52:34 AM

Creio ser difícil responsabilizar apenas um fator na série alarmante de más notícias em torno da atividade musical no país, e não creio que há um plano articulado contra a música como um todo. A crise é global. No entanto a catastrófica crise econômica que assola o Brasil nos últimos tempos veio se agregar a algo já muito conhecido quando nos referimos a instituições públicas voltadas à atividade musical: péssima gestão. A lista de hecatombes nacionais recentes (crise econômica, política e alta corrupção) se soma às toscas e ineficientes práticas administrativas.

Um evento cancelado

Um evento cancelado

Curitiba

Aqui no Paraná o anunciado cancelamento da realização da 35ª Oficina de Música de Curitiba demonstra uma junção de uma arrecadação cambaleante da prefeitura com deslizes sérios de gestão, tanto da administração que está saindo, por ter prometido uma verba que não existe, como da administração que está entrando e que lança uma artificial disputa entre saúde e cultura (que é vista pelo novo prefeito como “secundária”). A meu ver nada justifica o cancelamento de um evento cultural que há 35 anos acontece na cidade, ainda mais depois que os aportes necessários foram oferecidos por diversas secretarias do Estado, mas se revelaram ineficientes frente à obstinação do novo prefeito em cancelar o evento.

A Orquestra do Teatro Nacional de Brasília tocando em lugares impróprios

A Orquestra do Teatro Nacional de Brasília tocando em lugares impróprios

Brasília

Caso já antigo é o da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro de Brasília, que há três anos vem se apresentando em locais totalmente desprovidos de mínimas condições acústicas pelo fato de sua sede, o Teatro Nacional, estar fechado para reformas, reformas essas que ainda estão longe de começar. A má novidade é que a recessão galopante faz da próxima temporada da orquestra ser uma incógnita pois cortes consideráveis já foram anunciados. Lembro que os músicos desta orquestra recebem os mais altos salários de músicos de orquestra do país. Em resumo: músicos bem pagos tocando para um pequeno público em lugares impróprios. Desperdício?

A Sinfonica de Porto Alegre sempre se apresentando em Igrejas com péssima acústica

A Sinfonica de Porto Alegre sempre se apresentando em Igrejas com péssima acústica

Porto Alegre

Outra crise de gestão aguda e antiga acontece também com a OSPA – Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Sem sede há muitos anos (sua sede foi “desalugada” pela governadora Yeda Crusius) toca em igrejas com acústicas sofríveis para um público declinante. A diferença com Brasília é que os salários, que já não são grande coisa, entraram no sistema de parcelamentos no falido Estado do Rio Grande do Sul. Vale ressaltar que no programa de contenção de custos o Governo do Estado extinguiu a Rádio Educativa do Rio Grande do Sul.

Banda Sinfônica de São Paulo: à beira da extinção

Banda Sinfônica de São Paulo: à beira da extinção

São Paulo

Em São Paulo a queda de arrecadação advinda da crise econômica levou o Governo do Estado a praticamente extinguir a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo. Aliás o governo de São Paulo pensa seriamente (através da OS “Instituto Pensarte”) em cessar a atividade da Jazz Sinfônica e da Orquestra do Theatro São Pedro. Mesmo a OSESP, uma instituição que parece viver ao largo da catastrófica situação econômica do país, tem perspectiva de alguns cortes no seu orçamento. Mas como a OSESP tem um apoio forte de um conceituado banco, e como os bancos são os únicos a lucrarem no caos econômico brasileiro, existe chance de ela sair menos chamuscada da recessão. A crise de corrupção que aconteceu no Theatro Municipal de São Paulo, com notícias de que o dinheiro desviado chegaria a 130 milhões de reais. Roubalheira, baixa arrecadação e má gestão: tudo junto.

Artistas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro em recente manifestação

Artistas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro em recente manifestação

Rio de Janeiro

No Theatro Municipal do Rio de Janeiro (que apesar do nome é administrado pelo governo do Estado) foram canceladas as apresentações de uma ópera (Jenufa do tcheco Leoš Janáček) dois dias antes da estreia no último mês de novembro pelo atraso de mais de um mês de pagamento dos salários dos músicos e demais funcionários do teatro. A penúria carioca faz com que os salários continuem a ser parcelados para todos os funcionários do Estado, inclusive os músicos (cantores e instrumentistas) do teatro. E por falar em Rio de Janeiro, a péssima gestão acrescida à recessão levou mais uma vez ao impasse a existência da Orquestra Sinfônica Brasileira. O Estado do Rio de Janeiro, cujas finanças estão para lá de arruinadas, parece prometer mais crises. No que tange o Theatro Municipal e todo o funcionalismo do Estado o parcelamento dos salários será uma constante durante o ano, o que faz prever mais cancelamentos.

As "mágicas" do Maestro Carlos Prazeres para manter a Sinfônica da Bahia viva e atuante

As “mágicas” do Maestro Carlos Prazeres para manter a Sinfônica da Bahia viva e atuante

Salvador e outros lugares

Em Salvador a Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA), mantida pelo Governo do Estado, não para de tirar coelhos da cartola para se manter viva. É lógico que a recessão só piora a situação do conjunto, que talvez sofra por ter sido apoiada por Antônio Carlos Magalhães e não aparece simpática à atual administração. Mera hipótese. Mas a crise é real. Há a promessa de uma OS (Organização social) salvar o conjunto. Ainda não soube de nada mais definido a respeito das atividades musicais em Belo Horizonte, mas, ao que tudo indica, problemas acontecerão, pois, o Estado de Minas Gerais decretou Catástrofe Econômica. Ainda não obtive notícias de Goiânia, Manaus, Belém e Recife.

Futuro sombrio e nebuloso

Para mim a equação é simples: a música de qualidade é uma atividade que depende principalmente do poder público e as finanças públicas estão numa crise profunda, advinda principalmente de uma recessão nunca vista por aqui, alimentada por uma infindável crise política. E quem administra esta verba declinante não tem demonstrado capacidade técnica de fazer com que esta verba produza algo de bom. Esta crise política me parece estar longe do fim e como consequência a crise econômica permanecerá, infelizmente, por um longo tempo. Não há mais nenhuma garantia, e mesmo os funcionários estatutários não sabem do dia de amanhã e se perguntam: haverá recursos para se pagar salários e aposentadorias para eles? Creio mesmo que a atividade musical, mesmo com todas as dificuldades, deverá aos poucos se desenvolver fora do meio governamental. O futuro, do jeito que as atividades culturais vêm sendo feitas, me parece mesmo extremamente sombrio e nebuloso.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 19/12/16 11:01:37 PM
O prefeito eleito de Curitiba Rafael Greca definiu nesta tarde o cancelamento da 35º Oficina de Música de Curitiba

O prefeito eleito de Curitiba Rafael Greca definiu nesta tarde o cancelamento da 35º Oficina de Música de Curitiba

O jornal “Gazeta do povo” em uma matéria assinada pelo jornalista João Frey, postada no site eletrônico às 20H03 minutos deste dia 19 de dezembro (veja aqui), com o título “Greca marca nova data para anúncio do secretariado e fala em “transição sôfrega””, afirma de maneira clara que o futuro prefeito, recém diplomado na tarde de hoje, definiu o futuro da 35ª Oficina de Música. Diz o texto: “Rafael Greca também voltou a afirmar que não realizará a Oficina de Música de Curitiba, prevista para acontecer já no mês de janeiro. O motivo do cancelamento do evento é a falta de recursos financeiros. “Enquanto a saúde correr riscos não haverá música”, afirmou”. Creio que, infelizmente, com isso fica definida a situação. Logicamente que muitas dúvidas ficam no ar. E o dinheiro já disponibilizado pelo atual prefeito? E as passagens aéreas que já foram compradas? E as agendas de professores que viriam da Ásia, Europa e América do Norte? E os alunos que planejaram passar semanas por aqui? Ao que parece todos terão que mudar de planos. A credibilidade do evento ficará irremediavelmente comprometida, e o suposto adiamento para o mês de novembro, numa aludida junção com um festival de ópera é algo que beira o grotesco: qual aluno poderia vir fazer um curso num mês que não é um mês de férias? E mais uma vez se faz uma artificial disputa entre saúde e cultura. Lamento dizer, mas cultura é educação, e educação é também algo prioritário. Com certeza 2017 começa mesmo com o pé esquerdo, para a cidade, para os alunos, para todos.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 15/12/16 10:58:18 AM
Inscrições para a oficina já se tornaram uma peça de ficção

Inscrições para a oficina já se tornaram uma peça de ficção

A crise que envolve a realização da 35ª Oficina de música de Curitiba se iniciou no começo do presente mês com a publicação na página do Facebook do prefeito eleito de Curitiba, Rafael Greca, solicitando o cancelamento (ou adiamento) do evento. Eu mesmo comentei o assunto aqui no blog (pode ver aqui) e confesso que naquele momento achei que o principal culpado deste cancelamento seria o futuro prefeito. Apesar de ainda estranhar a maneira como o Sr. Rafael Greca colocou o assunto, enfatizando apoio à saúde em detrimento a um evento cultural, me penitencio por ter naquele momento colocado toda a responsabilidade nos ombros do futuro prefeito. O que pude perceber nestas duas semanas, desde que o assunto veio à baila, é que a atual gestão é tão ou mais responsável pelo caos completo em que se encontra a realização da Oficina de música do próximo ano.
Já foi divulgado pela imprensa que a dívida que o atual prefeito deixará para a próxima administração é de 400 milhões de reais. Até aí, pela baixa na arrecadação de impostos causada pela recessão econômica, seria até previsível. Mas não custa lembrarmos do inflamado discurso feito pelo prefeito Gustavo Fruet em 27 de janeiro deste ano, no encerramento da 34ª oficina no Teatro Guaíra, garantindo que todos os recursos já estavam plenamente garantidos para a Oficina de 1017. Na ocasião Fruet afirmou que havia dotação orçamentária, além de uma nova parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), para organizar a Oficina em 2017. Isto eu e muitas outras pessoas ouviram, e ficou na minha memória o “plenamente garantido”. O que se percebe é que este “plenamente” é algo bem relativo e que vem se tornando a retórica usual de nossos administradores.
Depois de algumas semanas em que as inscrições de alunos ficaram suspensas o Sr. Marino Galvão Jr, presidente do ICAC, pessoa pela qual tenho a maior admiração, vem a público hoje, a 20 dias do início do evento, dizer que já estão liberados 420 mil reais para a chamada pré-produção do evento. Lembro, no entanto, que o custo total da oficina é de 1,7 milhão de reais. A diferença é grande e assustadora.

Prefeito Fruet quando assumiu o cargo

Prefeito Fruet quando assumiu o cargo

Sinto-me um pouco constrangido de ocupar este espaço para tratar deste assunto pois faço parte do corpo de professores da Oficina de música, mas como cidadão sinto-me indignado frente à falta de seriedade com que este tipo de assunto é tratado. O que era “plenamente garantido” revela-se agora como uma nebulosa promessa de realização. Difícil acreditar que seria uma atitude cômoda de um prefeito que não mais ocupará o cargo quando da realização do evento. Nesta discussão toda até a vereadora Julieta Reis, autora da lei que insere no calendário oficial da cidade a Oficina de Música de Curitiba, lavou as mãos e nada fez a favor do evento. Mas que o estrago já está feito, disso não tenho dúvida A suspensão das inscrições de alunos, mesmo que tenha sido momentânea, já é por si só extremamente nociva. Ocorra ou não, a 35ª Oficina de Música de Curitiba revelou que, mais uma vez, nem sempre as promessas e garantias vindas de nossos administradores públicos podem ser levadas a sério.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 14/12/16 9:59:03 AM
Villa-Lobos e sua inesgotável coletânea O guia prático

Villa-Lobos e sua inesgotável coletânea O guia prático

O Guia prático em uma nova visão

O Quarteto Radamés Gnattali, especialmente através de sua fundadora, a venezuelana Carla Rincón, vem colaborando de forma decisiva para a divulgação da música brasileira. Além de uma agenda bastante intensa já são feitos notáveis do conjunto as primorosas gravações em CD e DVD que o grupo realizou, sobretudo as gravações integrais dos Quartetos de cordas de Villa-Lobos, Ricardo Tacuchian e Radamés Gnattali. No âmbito das atividades didáticas do grupo se destaca o projeto para educação musical infantil que tem o nome de “Brasil de Tuhu”. Lembrando, “Tuhu” era o apelido de infância de Heitor Villa-Lobos, nosso maior compositor, e através de oficinas desenvolvidas pelo quarteto em diversas regiões do país, uma musicalização acessível e brilhante se utiliza do “Guia prático”, monumental coleção de melodias folclóricas infantis compiladas por Villa-Lobos na década de 1930. Foi a partir daí que se pensou na gravação de um CD que, decididamente, rompe as barreiras entre a música clássica e a música popular. Junto ao Quarteto Radamés Gnattali atuam músicos, instrumentistas e cantores, famosos e excepcionais. Vale a pena citar que estes artistas, alguns deles muito conhecidos, participaram deste projeto apenas por um engajamento idealístico, nada mais. O CD apresenta 14 canções que Villa-Lobos coletou em seu “Guia Prático” em belíssimos arranjos de Leandro Braga.

Elba Ramalho, emprestando sua fama a um projeto ousado

Elba Ramalho, emprestando sua fama a um projeto ousado

Elba Ramalho, a híper conhecida cantora e atriz, interpreta “Que lindos olhos” e “Você diz que sabe tudo”. Joyce (Joyce Moreno), outra estrela da MPB, interpreta “Senhora viúva” e a lenda viva, Zeca Pagodinho, dá uma visão bem expressiva de “Nesta rua”. Ao lado destas estrelas da MPB atuam junto ao Quarteto Radamés Gnattali a pianista Maria Teresa Madeira (que gravou toda a obra de Ernesto Nazareth) na melodia “Xô! Passarinho” e o sanfoneiro Marcelo Caldi numa estonteante versão de “O castelo”. Destaco ainda as participações do francês que se tornou o mais brasileiro dos rabequistas, Nicolas Krassik, que dá um ar bem regional à melodia “Pombinha rolinha” e do saxofonista Mauro Senise que coloca toda a sua arte a serviço da melodia “Sôdade”. Enfim, o Quarteto Radamés Gnattali se cercando de “feras” dão um novo ar à coletânea de Villa-Lobos. Mas este novo ar não estaria completo se não fosse um detalhe essencial: a gravação foi realizada tecnicamente (engenharia de som, mixagem e masterização) por Ulrich Schneider, “tonmeister” de selos internacionalmente famosos como BIS e NAXOS. Portanto a qualidade técnica do CD é tão alta quanto os resultados musicais.

O Quarteto Radamés Gnattali

O Quarteto Radamés Gnattali

Brasil de Tuhu

Vale a pena conhecer os sites deste projeto didático com foco na musicalização para crianças, Brasil de Tuhu. O site principal é www.brasildetuhu.com.br mas há a possibilidade também de se acessar as ideias do projeto na página www.facebook.com/brasildetuhu . O próprio encarte do CD propõe brincadeiras lúdicas para crianças. O CD pode ser adquirido pela simbólica quantia de R$ 10,00 no site do quarteto, http://www.quartetoradames.com.br ou diretamente no email do quarteto contato@quartetoradames.com.br

Uma pequena mostra do projeto:

Enviado por Osvaldo Colarusso, 05/12/16 8:18:23 AM
Pintura anônima e fantasiosa do século XIX descrevendo o suposto enterro de Mozart

Pintura anônima e fantasiosa do século XIX descrevendo o suposto enterro de Mozart

Creio que a morte do compositor Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), acontecida há 225 anos, em 5 de dezembro de 1791, é o falecimento de um compositor mais cercado de fantasias e inverdades de toda a história. A quantidade de lendas e mentiras é tão grande que fica difícil até mesmo questiona-las, não só porque a grande maioria das pessoas torce para que elas sejam verdadeiras, mas pelo fato de estarem já impregnadas no imaginário coletivo. As lendas vão de um suposto envenenamento (cujo causador teria sido o compositor Antonio Salieri, músico injustiçado pela hostória) até uma detalhada teoria de um plano conspiratório elaborado no século XX por uma “sensitiva” alemã, Mathilde Ludendorff. Não há dúvida de que Mozart morreu cedo demais, completaria 36 anos no mês seguinte de sua morte, mas a tragédia tem aspectos muito mais de uma consequência de sua vida pregressa do que de uma fatalidade causada por uma incompreensão coletiva. Mozart nunca teve uma saúde excelente, e durante sua vida “colecionou” uma série de doenças: Varíola, tonsilite, bronquite, pneumonia, febre tifoide, reumatismo e problemas graves das gengivas. Ter contraído uma infecção séria que o levou à morte prematura não é, portanto, algo inesperado para alguém que conviveu com tantos problemas de saúde.

Gravura da imagem de Mozart realizada em 1789

Gravura da imagem de Mozart realizada em 1789

As últimas obras de Mozart: mais alegria do que tristeza

Ao conhecermos as obras que Mozart escreveu em 1791, último ano de sua vida, vemos que há uma contradição enorme frente ao lento e progressivo calvário que muitos acreditam que o compositor teria vivido. Em janeiro deste ano Mozart escreveu a mais alegre de suas canções, “Sehnsucht nach dem Frühling” IK 596 (Ansiando pela primavera) e em abril deste mesmo ano escreve sua última obra prima de música de câmera, seu Quinteto para cordas em Mi Bemol Maior IK 614, obra das mais alegres e bem-humoradas de toda a sua produção camerística. Sua ópera “A flauta mágica”, de setembro deste ano, contém algumas das páginas mais alegres de toda a história da música, e o Concerto para clarinete e orquestra IK 622, composto no final de outubro de 1791, é uma obra recheada de paz e alegria. A única obra que pode ser vista como trágica e mórbida é seu inacabado Requiem IK 626, e sobre esta obra vale a pena tentarmos também desmistificar sua concepção.

Manuscrito inacabado do Requiem de Mozart

Manuscrito inacabado do Requiem de Mozart

O Requiem de Mozart: uma obra cercada de lendas

Não há dúvida que uma Missa de Requiem ser esboçada junto à morte de seu autor é um combustível bem eficaz para lendas fantasiosas. A realidade dos fatos é, no entanto, muito menos glamorosa. Mozart foi procurado em maio de 1791 por um nobre, o Conde Franz von Walsegg, que financiava obras que ele fazia passar como sendo de sua autoria. Ele encomendou para Mozart uma Missa de Requiem para sua falecida esposa (que morreu aos 20 anos de idade), e lhe pagou um adiantamento bastante substancioso. A ansiedade de Mozart em completar o Requiem era muito mais uma questão financeira do que uma razão de cunho místico, e a própria pressa da viúva de Mozart de fazer com que a partitura fosse completada após a morte do compositor tem a ver com a expectativa de receber a última parte do pagamento de Walsegg. Não há dúvida de que o Requiem de Mozart poderia se tornar sua maior obra sacra, mas da forma apenas esboçada deixada pelo compositor não há uma coerência típica de uma obra prima. Apenas o primeiro movimento do Requiem foi composto integralmente por Mozart. Todo o resto foi completado por um discípulo e amigo do compositor, Franz Xaver Süssmayr (1766-1803), que além de completar os esboços compôs movimentos inteiros. O Santus, o Benedictus e o Agnus Dei não contem uma nota sequer de Mozart, e mesmo o famoso “Lacrimosa” tem apenas 8 compassos de Mozart. É um pouco melancólico pensar que na prática o Requiem em Ré menor IK 626 é menos da metade do próprio Mozart.

Gravura de 1882 absurdamente fantasiosa

Gravura de 1882 absurdamente fantasiosa

Enterro de indigente: outra grande mentira

Muito tem se falado que Mozart foi enterrado anonimamente numa vala comum como indigente. Robbins Landon em seu livro “1791- o último ano de Mozart” desmente completamente esta lenda. O funeral foi custeado pelo Barão Gottfried van Swieten e acompanhado por músicos da estatura de Salieri e Süssmayr. A lenda de um cachorrinho ter sido o único a acompanhar o féretro de indigente é de um tal de Joseph Deiner, num fantasioso texto de 1856 publicado num jornal de Viena no dia do centenário do nascimento do compositor que, infelizmente, acabou sendo incluído em diversas biografias de Mozart. Um desserviço. Mozart foi realmente um dos maiores músicos de todos os tempos. Sua morte prematura é uma perda irreparável, mas não há necessidade alguma de torna-la mais patética às custas de mentiras. Por si só já é uma tragédia.

Vídeos

O Concerto para clarinete e orquestra, pleno de alegria e paz, que Mozart escreveu um mês e meio antes de sua morte

“Sehnsucht nach dem Frühling” IK 596, a alegre canção que Mozart escreveu em 1791

O alegre primeiro movimento do Quinteto para cordas em Mi Bemol Maior IK 614

Enviado por Osvaldo Colarusso, 01/12/16 2:47:40 PM
Um evento cancelado???

Um evento cancelado???

Através de sua página no “facebook” o prefeito eleito de Curitiba, Rafael Greca, acaba de propor o cancelamento da 35ª Oficina de música de Curitiba, que deve (ou deveria) acontecer em janeiro de 2017. Sua postagem aconteceu por volta das 11 horas deste dia primeiro de dezembro. Esta postagem inicia da seguinte forma: “Estou pedindo ao prefeito Gustavo Fruet que cancele a 35ª Oficina de Música de Curitiba – prevista para janeiro próximo – sem fonte de recursos para sua realização”. Alegando suas razões o prefeito afirma: “a Prefeitura de Fruet não nos informou este provisionamento, nem qualquer outro dado sobre o quadro econômico da administração municipal”. Eu particularmente fiquei chocado, e sei bem o que significa cancelar um evento desta magnitude 40 dias antes de seu início. A Oficina de música de Curitiba atrai para cá alunos de todas as partes do mundo e um grupo fantástico de músicos que atuam como professores dos cursos. Para quem não sabe, a Oficina conta com professores que, além dos brasileiros, vêm para cá da Europa, da Ásia e da América do Norte. Muitos deles possuem uma agenda carregadíssima, e há muitos meses tem datas reservadas para virem a Curitiba. O cancelamento sumário do curso atrelado com a Oficina de Música incorre primeiro num descrédito enorme frente à organização do evento. Pessoas de nível internacional acabam vindo a Curitiba pelo prazer do excelente clima do evento, já que seus caches são, para eles, uma pequena parte do que costumam ganhar. Estes grandes artistas, um mês antes do evento, serem desconvidados é um motivo bem forte para que não retornem. O mesmo se refere aos alunos, cujo nível vem ficando mais elevado de ano para ano, que já se planejaram e que, com certeza, se sentirão frustrados.

Perguntas que necessitam ser respondias

Perguntaria de início ao pessoal da Fundação Cultural de Curitiba: é verdade que não há verba “provisionada” para o evento, como afirma o prefeito eleito? Pelo que eu sei 90% das passagens internacionais já foram compradas. E perguntando ao prefeito eleito: a ideia é cancelar ou adiar? Faço esta pergunta pois nos comentários chega-se a afirmar isso, apesar de que no texto principal só se fala em cancelamento. Para mim um adiamento é tão desastroso quanto um cancelamento. O adiamento seria para julho? A Oficina de Música de Curitiba competiria com o Festival de Campos do Jordão? E o planejamento de alunos e professores? Não sei se seria uma boa ideia. De qualquer maneira o atual prefeito mantém a ideia de realizar a oficina como planejado. Aqui você poderá ver a nota publicada pela prefeitura. Mas não podemos esquecer que a Oficina acontece já no período da gestão do novo prefeito.

Saúde versus cultura

Na página do prefeito eleito vem a seguinte afirmativa: “Como pretendo priorizar o atendimento à Saúde Pública a partir de janeiro não tenho outra saída senão adiar a despesa com a Oficina de Música, estimada em R$ 1,7 milhão”. Será que R$ 1,7 milhão de reais resolveria o problema de saúde da cidade. Jogar a “inutilidade” da cultura com a “imprescindível” saúde não parece, no meu ver, ser a saída. Outra frase me causou espanto: ”… buscando a eficiente satisfação da Saúde Pública. Isto para que a Música possa harmonizar a vida saudável dos curitibanos e não seja apenas uma triste pavana, lamento de missão não cumprida”. Esta argumentação propiciou diversos comentários no facebook dando razão ao prefeito eleito. Algumas pérolas: “Excelente iniciativa! Não podemos gastar com eventos que não salva vidas! Tudo ao seu tempo! Priorize a vida”! “Parabéns prefeito, saúde é prioridade, música pode esperar”. “É isso aí! Só gastava em coisas desnecessárias. Agora vamos priorizar coisas realmente importantes. Muito bem Rafael”. Decididamente, foi aberta a Caixa de Pandora.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 20/11/16 11:46:19 AM
O compositor Johann Sebastian Bach

O compositor Johann Sebastian Bach

A obra conhecida como Variações Goldberg de Bach comporta uma série de mistérios e enigmas e seu título original nos dá algumas pistas deles: “Ária com diversas transformações para cravo a dois manuais”. Composta por volta de 1740 a pedido de um nobre, o Conde Hermann-Karl von Keyserling (1697–1764), que adorava ouvir música ao cravo em suas noites de insônia. Seu cravista particular, Johann Gottlieb Goldberg, teria sido o primeiro a executar a obra, e a história o homenageou associando-o à composição, apesar de que o fato dele na época ter apenas 14 anos de idade faz com que muitos questionem a veracidade deste fato. Foi uma das raras obras de Bach a ser publicada durante sua vida e um dos poucos trabalhos que lhe renderam um bom pagamento.

A Ária

A base da obra é uma Ária escrita em forma binária. A primeira parte comporta uma frase de oito compassos em Sol Maior e uma frase de oito compassos em Ré maior. Esta primeira parte de 16 compassos deve ser tocada duas vezes. A segunda parte tem uma frase de oito compassos em mi menor e mais uma frase de oito compassos em Sol Maior, e também deve ser repetida. No total o texto tem 32 compassos, com 4 frases de 8 compassos. São muito raras as formas binárias tão simétricas como esta, sendo que em geral em Bach a primeira parte é muito mais curta do que a segunda. Esta ária tem todos os aspectos de duas danças: a sarabande e a chacona. Como o baixo da Ária é mantido em todas as variações a obra pode ser lida também como uma Passacaglia.

Manuscrito da Ária

Manuscrito da Ária

Uma Ária 32 vezes ampliada

O fato da Ária ter 32 compassos e a obra ter 32 seções (Ária, 30 variações e a volta da Ária) faz com que notemos que a ideia de Bach é ampliar 32 vezes o tema a ser transformado. As evidências são claras pois a finalização de cada uma das 4 frases tem um equivalente na obra: ao final da oitava seção (variação 7) há o ritmo de uma giga, dança que Bach utiliza para concluir a maioria de suas suítes. Esta oitava seção se refere ao fim da primeira frase do Tema. A décima sexta seção (variação 15) é a primeira variação a não ser em Sol Maior: é em sol menor. Ora, a primeira seção da Ária (segunda frase) termina em outro tom, Ré Maior. Não só Bach termina num tom diferente esta sessão, mas a nota final é um ré agudo!!! Para deixar bem clara a divisão da obra em duas partes (como a ária original) ele faz a Variação 16 (que abre a segunda metade da obra) ser uma Abertura Francesa. A variação 23 (equivalente ao fim da terceira frase da ária) termina de forma bem conclusiva com claros movimentos contrários. A Ária termina exatamente com o mesmo intervalo do início. Daí a razão maior do compositor repetir a Ária no final. O fim é igual ao início. A segunda seção da Ária tem muito mais compassos em modo menor do que a primeira. Por isso a segunda parte da obra tem mais variações em menor. Quando observamos a Ária vemos que ela inicia com poucas notas mas vai se tornando cada vez mais complexa. As variações também cumprem este mesmo roteiro. No entanto este retrato ampliado possui mais riquezas inseridas, verdadeiros caminhos cruzados com uma complexidade crescente. Há uma série de cânons a cada três variações (3,6,9,12,15,18,21,24,27) e há uma série de variações que forma uma família de Prelúdios com cruzamento de mãos (1, 5, 8, 11,14, 17,20,23,26, 28 e 29). Outras pequenas séries: invenções (2,4,19), duas novas Árias lentas (13 e 25) e duas fugas (10 e 22). Enfim, cada uma das 30 variações cumpre uma função definida. Essa multiplicidade de leituras e o ineditismo desta ampliação fazem com que esta seja uma das mais originais obras de Bach.

Glenn Gould, o pianista canadense que tornou a obra mais conhecida

Glenn Gould, o pianista canadense que tornou a obra mais conhecida

Uma obra esquecida por 200 anos

Como muitas obras escritas por Bach, as Variações Goldberg foram raramente tocadas até o século XX. Apesar de grandes pianistas terem eventualmente apresentado a obra na primeira metade do século XX (Arrau, Kempff) foi o canadense Glenn Gould (1932 – 1982) que tornou a obra mais conhecida, principalmente através de suas duas gravações da obra (1955 e 1982). Glenn Gould não respeitava as repetições e raros eram os artistas que o faziam. Daniel Barenboim e Rosalyn Tureck foram os primeiros pianistas modernos a executar a obra com todas as repetições previstas por Bach. Com o surgimento do CD e a ampliação da minutagem da mídia os artistas se viram livres para respeitar integralmente o texto original. Os cravistas embarcaram na fama que a obra obteve no piano, e artistas do nível de Pierre Hantaï e Mahan Esfahani nos fazem lembrar que a obra revela todas as suas belezas neste instrumento. Aliás este cravista iraniano, Mahan Esfahani, que gravou recentemente a obra, fez com que se reacendesse a questão sobre o instrumento mais adequado para se executar as Variações Goldberg. Mas mesmo admirando demais esta gravação não consigo deixar de lado as leituras instigantes de Igor Levit e András Schiff ao piano.

Vídeos

A obra tocada genialmente por András Schiff ao piano

A obra bem tocada ao cravo de dois manuais por Pierre Hantaï (sem as repetições)

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