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Falando de Música

Enviado por Osvaldo Colarusso, 17/02/17 2:12:28 PM

Monumento a Carlos Gomes em São Paulo pichado

Monumento a Carlos Gomes em São Paulo pichado


“Compositor nacional”: muitas nações possuem um

Ao chegar de trem em Praga, capital da República Tcheca, me chamou a atenção de que os avisos sobre saídas e chegadas dos trens são sempre prefaciados pelas quatro primeiras notas do poema sinfônico “Vyšehrad” do compositor Bedřich Smetana (1824-1884) (ouça e veja aqui). Smetana foi o primeiro compositor nacionalista tcheco e sua luta pela independência de seu país, que na época fazia parte do Império Austríaco, lhe custou alguns anos de exílio na Suécia. “Vyšehrad” é o primeiro poema sinfônico do ciclo de seis poemas sinfônicos “Minha pátria”. “Vyšehrad” é um penhasco mítico para os tchecos (bem perto do centro de Praga), e acredita-se que lá está a essência do povo tcheco. Os notáveis tchecos estão todos enterrados lá, inclusive os maiores músicos do país como Smetana, Dvořák e Rafael Kubelik . A lógica da escolha da vinheta foi mesmo genial e deixa pouco espaço de dúvida: Bedřich Smetana é o compositor nacional tcheco. Outro claro exemplo de um compositor nacional amado por seu povo é o finlandês Jean Sibelius (1865-1957). Ele foi um intelectual ativo para a independência da Finlândia que só aconteceu em 1917 (fazia parte do Império Russo) e utilizou em diversas de suas obras a inspiração da Kalevala, a epopeia nacional de seu país. Até que a Finlândia aderisse ao Euro em 2002, sua figura aparecia nas cédulas de 100 marcos finlandeses, e em 2015, quando se comemorou os 150 anos de seu nascimento, uma multidão de milhares de pessoas foi ao centro de Helsinque, mesmo com um frio congelante, cantar a melodia central do poema sinfônico “Finlândia”, composto por Sibelius nos anos de luta pela independência (veja aqui). Não há dúvida: Sibelius é o compositor nacional finlandês. Sem ser exaustivo no assunto encontramos exemplos similares (mesmo que não tão explícitos), na Noruega (Grieg), na Itália (Verdi), na Romênia (Enescu), na Dinamarca (Nielsen) e na Espanha (de Falla). Em certos países fica difícil definir apenas um compositor nacional, como na Rússia, que tem pelo menos três candidatos fortes para ser seu compositor nacional: Glinka, Mussorgsky ou Tchaikovsky. A pergunta relevante para nós brasileiros sobre o assunto: existe nosso “compositor nacional”?

Villa-Lobos teria destronado Carlos Gomes?

Villa-Lobos teria destronado Carlos Gomes?

O Brasil tem um “compositor nacional”?

Em uma sociedade como a nossa que, em geral, vive e convive com hábitos que nos afastam de uma plena cidadania, e que não resolve problemas básicos de educação e cultura, parece soar estranha a ideia de existir um “compositor nacional”. Até mesmo, do jeito que o brasileiro pensa e age, dar o título de compositor nacional a alguém pode fazer com que este criador seja mesmo visto como suspeito (ganhou propina para ocupar este “cargo”?). Chegamos à pergunta básica: como termos um sentimento cívico frente a um compositor se o civismo é enxergado com estranheza? Na primeira metade do século XX havia um “compositor nacional brasileiro”: Antônio Carlos Gomes (1836-1896). Motivos não faltavam: um compositor de família humilde nascido no interior de São Paulo (Campinas) conseguiu fama e respeito em importantes centros musicais europeus, e sua obra mais famosa, O Guarany, retratava um nativo brasileiro. Não é à toa que quando Getúlio Vargas instituiu em 1938 a “A voz do Brasil” (aquela tradicional rede radiofônica diária das 19 horas, lembram?) a vinheta era, e permanece, a abertura da famosa ópera de Carlos Gomes. Ele teria sido destronado por Villa-Lobos ? Talvez sim. Mas a reverência que se vê em diversos países decididamente não existe aqui. Sinal disso é que nem Carlos Gomes e nem Villa-Lobos estiveram presentes na abertura da Olimpíada do Rio em 2016, e numa sondagem feita por um telejornal a maioria das pessoas nem tem ideia de que Carlos Gomes foi um compositor. Num país corrupto e sem auto estima creio mesmo que a questão de existir um “Compositor nacional” soa, para a maioria, tão aborrecida e distante quanto o programa “A voz do Brasil”.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 04/02/17 12:17:46 PM
O compositor Camargo Guarnieri

O compositor Camargo Guarnieri

Poucas pessoas lembraram que no último dia 1 de fevereiro completaram-se 110 anos do nascimento de um dos maiores músicos nascidos no Brasil: Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993). Sejamos claros e sinceros: a obra dele mereceria sim ser mais conhecida, mais executada. Em termos formais Guarnieri foi o mais importante compositor brasileiro. Apesar de ter escrito menos Sinfonias que Heitor Villa-Lobos as de Guarnieri, sobretudo as de número 2,3,4 e 6, são as mais bem estruturadas e orquestradas entre as sinfonias de autores nacionais, e arrisco mesmo a dizer que Guarnieri foi o nosso maior sinfonista. De Camargo Guarnieri temos a mais importante Sonata para piano de um autor nacional, sua Sonata, de 1972. É obra de uma originalidade impressionante, que alia atonalismo (para aqueles desavisados que acham que o compositor é reacionário) com um forte sotaque nacional com uma sensacional fuga final, uma fuga atonal, e com uma escrita pianística digna dos maiores compositores. Se suas Sinfonias ganharam gravações exemplares da OSESP e sua Sonata para piano já foi registrada e defendida por importantes pianistas (Max Barros, Rosângela Yazbec Sebba, Belkiss Carneiro de Mendonça, Antonio Vaz Lemes) inúmeras obras primas de Guarnieri continuam mofando esquecidas em estantes e gavetas. Os exemplos são inúmeros, mas cito apenas o que acredito ser o mais escandaloso: Guarnieri compôs em 1970 “O caso do vestido” obra para canto e orquestra com admirável texto de Carlos Drummond de Andrade. Linha de canto excepcionalmente expressiva, com elementos de canto-falado (Sprechgesang) e orquestração primorosa (como sempre). Quem já ouviu falar desta obra? Poucas são as pessoas que tentam reverter estes absurdos e cumpre aqui fazer justiça e evocar o trabalho quase solitário feito pelo Maestro Lutero Rodrigues que, com imenso esforço redescobriu obras primas de Guarnieri, como os Concertos para Violino e orquestra do mestre, obras sensacionais.

Mário de Andrade, o maestro Lamberto Baldi e Camargo Guarnieri

Mário de Andrade, o maestro Lamberto Baldi e Camargo Guarnieri

Guarnieri versus Villa-Lobos

Não há dúvida, a produção de Guarnieri é menos sedutora que a produção de Villa-Lobos, e acaba “vendendo” menos no exterior (o grande violonista brasileiro Fabio Zanon chegou a afirmar numa conversa que Guarnieri “vende” mal na Europa), mas não há dúvida que quando Villa-Lobos se aventura em formas clássicas ele não é tão feliz como Guarnieri. Se comparamos não só as Sinfonias, mas os Concertos para piano e orquestra e as Sonatas para violino e piano, as de Guarnieri são infinitamente superiores. No entanto Guarnieri possui também algumas obras em formas livres que são geniais, sobretudo seus 50 Ponteios para piano e sua belíssima Suíte Vila Rica para pequena orquestra, originalmente trilha sonora do filme Rebelião em Vila Rica de 1957. Com coragem podem ser obras apresentadas com sucesso no exterior.

Retrato de Guarnieri pintado por Portinari

Retrato de Guarnieri pintado por Portinari

Guarnieri: existência amargurada

Conheci mais de perto Camargo Guarnieri a partir de 1982. Na época ele era Diretor musical da Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo (OSUSP) e frequentei diversas vezes seu estúdio na Rua Pamplona em São Paulo. Já nesta época ele me confidenciava sua frustração por não ter o tipo de reconhecimento que ele esperava merecer. Mas a coisa piorou demais em fevereiro de 1990, quando seu filho Daniel Paulo, que na época tinha 18 anos de idade, sofreu um grave acidente automobilístico. As imensas despesas revelaram que um de nossos maiores artistas possuía uma situação financeira extremamente modesta. Com muita dor acabou vendendo para um colecionador japonês seu bem mais valioso, um retrato que Candido Portinari fez dele. Eu o encontrei pela última vez um ano antes de sua morte, e aos prantos falava: “será que Deus esqueceu de mim? Não vai me chamar nunca? ” Ao ver sua amargura e pobreza lembro de um pequeno trecho de um livro de conversações entre o compositor Igor Stravinsky e o maestro Robert Craft em que o compositor russo ao ver uma foto dos compositores austríacos Alban Berg e Anton Webern, que morreram na miséria disse: “Eu comparo o triste e miserável destino destes homens que não cobraram nada deste mundo mas que criaram uma música que será sempre lembrada quando falamos da primeira metade do século (XX) e com as “carreiras” de maestros, pianistas, violinistas, vãs excrescências. Daí vejo esta fotografia de dois grandes músicos, dois seres de espírito puro,””herrliche Menschen”, e fica restabelecido em mim um senso de justiça no mais profundo nível”. O mesmo penso ao falar de Camargo Guarnieri: nunca teve fortuna, nem contas na Suíça, mas, ao contrário de “excrescências vãs”, a música clássica brasileira não seria a mesma sem ele.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 01/02/17 11:44:57 AM
Sígrido Levental, em sua "estratégica" escrivaninha

Sígrido Levental, em sua “estratégica” escrivaninha

O pianista e professor Sígrido Levental, que faleceu em São Paulo no último domingo aos 75 anos de idade, foi um dos poucos idealistas verdadeiros que tive a oportunidade de conhecer. Pessoa de trato pessoal difícil, tinha a capacidade de aglutinar em torno de si verdadeiros seguidores da sua causa maior: a formação musical. A concretização deste ideal se deu principalmente através da fundação de uma das melhores escolas de música que o Brasil já teve: o Conservatório musical Brooklin Paulista. Lecionei nesta escola por mais de 8 anos, na época em que a instituição ficava na Rua Álavaro Rodrigues no Brooklin Paulista, bairro da zona sul da capital paulista. A escola, que ainda tem seu nome utilizado por uma instituição bem diferente, mudou de endereço, mas sobretudo mudou de gestor e seu credo maior:a importância da música na vida das pessoas. Apesar de sua origem judaica a sua verdadeira religião era a música.

Num imóvel tão simples uma das melhores escolas de musica do país

Num imóvel tão simples uma das melhores escolas de musica do país

Uma escola despojada e grandiosa

Na época em que lecionei no Conservatório musical Brooklin Paulista as instalações eram muito simples. Um imóvel que ocupava a parte superior de diversos estabelecimentos comerciais tinha 6 salas de aula, sendo uma maior, usada como auditório. Nenhum piano de cauda, mas todos os 5 pianos de armário perfeitamente afinados, salas extremamente limpas e todo material de apoio oferecido prontamente. Ganhávamos mal (quando recebíamos…) mas todos os professores eram absolutamente assíduos e só tínhamos hora de chegar pois a hora de ir embora era sempre uma incógnita. A crença maior de Sígrido era de que a música era algo a ser praticada e por isso insistia em que semanalmente alunos e professores se apresentassem em audições que chegavam a durar mais de duas horas, com o auditório “explodindo” de gente. Sem nunca ter recebido um tostão do poder público (talvez isso explique o êxito ideológico da empreitada) a escola, ao contrário de muitas instituições oficiais, oferecia cursos de quase todos os instrumentos orquestrais (violino, violoncelo, flauta, oboé, clarinete, fagote, trompa, trompete, trombone, tuba e percussão) além de cursos de alto nível de violão e piano. Sígrido Levental, que tinha uma excelente formação musical, supervisionava tudo o que era feito na escola. Lembro de pedir para que eu levasse até ele as harmonizações feitas por alunos em minhas aulas, e dava “puxões de orelha” quando um aluno demonstrava desleixo. Deficiente físico, ele observava tudo de sua escrivaninha que era estrategicamente colocada para tudo observar.

As audições de alunos do Conservatório: prática incessante

As audições de alunos do Conservatório: prática incessante

Uma editora dos sonhos

No início da década de 1980 Sígrido Levental resolveu expandir seus ideais musicais para outra área além da escola: uma editora que divulgasse a produção musical brasileira. Criou a “Novas metas”, um verdadeiro oásis editorial que não tinha como objetivo maior o lucro. Partituras e livros, que, apesar de serem difíceis de achar hoje em dia, são verdadeiras referências. Alguns poucos títulos que atestam a altíssima qualidade do que essa editora realizou: “O Som Pianístico de Claude Debussy” de José Eduardo Martins, “Garimpo Musical” de Régis Duprat, “Estética” de Koellreutter, “O Caminho para a Música Nova” de Anton Webern em tradução de Carlos Kater, “Percussão, visão de um brasileiro” de Cláudio Stephan, entre outras publicações. E por falar em percussão foi no Conservatório musical Brooklin Paulista que surgiu o primeiro Grupo de percussão do país que era dirigido pelo grande timpanista Cláudio Stephan. Sim, Sígrido Levental fez história. Mas quase me esqueço: a “Novas metas” editou além de livros importantes partituras de compositores brasileiros que não encontrariam quem publicasse suas obras como Sérgio de Vasconcelos Corrêa, Carlos Karter, Aylton Escobar e Mário Ficarelli. Idealismo puro!

Exemplo do alto nível da Editora "Novas Metas"

Exemplo do alto nível da Editora “Novas Metas”

O fim de um sonho

Minha impressão é de que pelas inúmeras bolsas de estudo que Sígrido Levental oferecia aos menos favorecidos e seu investimento a “fundo perdido” na editora é que levaram, depois de mais de 20 anos, a empreitada para seu fim. Mergulhado em dívidas e com sérios problemas de saúde Sígrido abandonou tanto a escola (que vendeu) como a editora (que faliu). Deste idealista permanece a lembrança de uma instituição de ensino musical absolutamente exemplar, e que me orgulho de ter feito parte antes de me transferir para Curitiba. Muitos músicos que hoje ocupam posições de destaque no país e no mundo atuaram como mestres ou alunos no Conservatório musical Brooklin Paulista. Fica para mim a sensação de gratidão e a certeza de que naqueles anos em que trabalhei com Sígrido Levental tive contato com um verdadeiro idealista. Era profissionalmente feliz e sabia disso.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 28/01/17 8:11:05 AM

A produção pianística brasileira já legou inúmeras obras primas. Desde as obras ecléticas de Ernesto Nazareth até as sofisticadas estruturas de Villa-Lobos, Mignone, Camargo Guarnieri e Almeida Prado, entre outros, a obra para piano de autores nacionais enriquece de forma decisiva o repertório deste instrumento. O compositor carioca Ricardo Tacuchian, nascido em 1939, dá uma sequência muito bem-vinda a esta notável tradição musical. Sem ser nacionalista a música de Tacuchian apresenta um indisfarçável sotaque brasileiro (vide a valsa lenta na seção central da obra “Tapeçaria”). No recente CD “água-forte” são apresentados momentos daquela que me parece ser a mais importante produção pianística brasileira composta nos últimos anos. A versatilidade do autor nos leva a algo parecido com alguns Estudos para piano que o compositor húngaro Gyorgi Ligeti escreveu no final do século passado: a dificuldade de se definir se a obra é tonal ou não. Na obra “Estruturas gêmeas” para dois pianos, de 1978, e dedicada à compositora Esther Scliar, temos uma inédita mescla de minimalismo com atonalidade. Aliás nesta obra há uma eficiente escrita de “clusters” que se desmancham, algo de uma originalidade que impressiona. Já na obra que dá nome ao CD, “água-forte”, de 2011, este pan tonalismo dá lugar a algumas seções que lembram até o jazz mesclada a uma escrita contrapontística sofisticada. O que surpreende é que esta variedade de meios não compromete nunca a unidade da obra e nem ao prazer da escuta. Ao que parece em alguns momentos o compositor teve a intenção de transpor em música algumas artes visuais, o que levou a títulos como “Grafite” (piano a quatro mãos), “Tapeçaria” (piano solo), “Azulejos” (também piano solo) e a já citada “água-forte” (dois pianos). Estruturas audaciosas e eficientes, criatividade inesgotável. E para completar o CD a mais importante obra brasileira inspirada na infância desde a “Prole do bebê” de Villa-Lobos: “Este verão eles chegaram”, 10 pequenas peças explorando o imaginário infantil, dedicadas ao neto do compositor que é inserido num universo de respeito ao mundo animal.

O compositor Ricardo Tacuchian

O compositor Ricardo Tacuchian

Interpretações de alto nível

Estas composições de Ricardo Tacuchiam são executadas por duas excelentes pianistas que são grandes defensoras da produção musical brasileira, aqui e no exterior. A curitibana Ingrid Barancoski, discípula de Ingrid Müller Seraphin e Vânia Pimentel, se doutorou na Universidade do Arizona e desde 1998 é docente na UNIRIO. Tem feito recitais em diversas cidades europeias (Viena, Roma, Heidelberg, etc) sempre apresentando obras de autores brasileiros. Vale a pena destacar que o grande compositor paulista José Antônio de Almeida Prado (1943-2010) dedicou a ela diversas composições e é considerada mesmo uma das maiores intérpretes de sua obra. Tacuchiam dedicou a ela a obra “Azulejos”. Já a carioca Miriam Grosman se doutorou na Universidade Católica de Washington e é Professora Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Membro do Trio Francisco Mignone que é formado por ela e por Afonso Oliveira – flauta e Ricardo Santoro – violoncelo (aclamado pela revista francesa Diapason) é das raras instrumentistas capazes de executar os 6 Estudos transcendentais de Mignone. A obra “Tapeçaria” de Tachchian é dedicada a ela. Estas duas grandes artistas colaboram com a perpetuação de duas glórias nacionais: a excelência de nossos pianistas e a importância da produção pianística de compositores brasileiros. Este CD por enquanto pode ser comprado por R$ 28,00 (mais as taxas de envio) pelo site Tratore. O Link está aqui.
Em breve estará à venda nas livrarias Saraiva e Cultura.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 17/01/17 11:25:04 AM
Teatro Guaíra: o futuro incerto de seus corpos estáveis

Teatro Guaíra: o futuro incerto de seus corpos estáveis

Depois do absurdo cancelamento da 35ª Oficina de Música de Curitiba o Paraná sofre com mais uma ameaça às suas atividades culturais: os corpos estáveis do Teatro Guaíra, isto é a Orquestra Sinfônica do Paraná e o Balé Teatro Guaíra, enfrentam neste início de ano um enorme imbróglio para manterem suas atividades. Tentarei neste texto ser o mais didático possível para explicar esta situação complicada que esbarra em incontáveis deslizes administrativos que acabam resultando numa explosiva situação, decorrência de décadas de descuidos. O que já adianto é que a situação é grave e que, infelizmente, nenhuma solução será completamente perfeita, mas que pelo bem da vida cultural do Estado uma solução definitiva necessita ser adotada para que não percamos o pouco que ainda temos de atividade cultural no Paraná.

Anos de improvisações e descasos

Os corpos estáveis do Teatro Guaíra contaram por muitos anos com Concursos públicos para preencherem suas vagas. O primeiro concurso público do Balé Teatro Guaíra aconteceu no início de 1969 e o primeiro concurso público da Orquestra Sinfônica do Paraná aconteceu no início de 1985. Os artistas eram concursados, mas contratados em regime de CLT, o que dava maior flexibilidade aos organismos. No entanto em 1992 o então governador Roberto Requião transformou todos os celetistas admitidos por concurso em estatutários, o que dava uma estabilidade definitiva aos funcionários. Percebendo-se uma certa incongruência na modificação de regime funcional os concursos foram se tornando cada vez mais raros. Creio eu que o último Concurso Público para instrumentistas da Orquestra aconteceu em 1995 e as vagas remanescentes eram preenchidas com contratos temporários de curta duração. Com a volta de Requião ao governo do Estado, no ano de 2003 ficou acertado que os músicos e bailarinos que deveriam preencher vagas existentes seriam contratados como “cargos comissionados”, isto é, “cargos de confiança”, com poucos direitos trabalhistas, salário menor do que de seus colegas estatutários e nenhuma estabilidade. O improviso estava assim “institucionalizado”, e logo instituições como o Tribunal de contas, o Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) e o Ministério Público do Estado (MPPR) arguiram a inconstitucionalidade da ação. Vejam bem, 14 anos de embates sobre a validade jurídica dos cargos em comissão para instrumentistas e bailarinos e nada feito de concreto. O prazo final para a extinção dos cargos foi proferido no último mês de dezembro: no próximo dia 4 de março todos os cargos comissionados serão extintos. Com isso serão demitidos 27 músicos da Orquestra e 22 bailarinos do Balé. No caso da orquestra serão desligados um terço dos músicos. No caso do Balé todos os bailarinos do grupo. Entre os músicos que serão demitidos estão alguns dos melhores instrumentistas do país, músicos absolutamente essenciais para a manutenção de um bom nível técnico da orquestra.

Soluções imperfeitas, mas necessárias

Mônica Rischbieter, diretora-presidente do Centro Cultural Teatro Guaíra, num quixotesco esforço, tenta organizar um teste seletivo no mês de março para que o Serviço Social Autônomo Palcoparaná contrate os artistas em regime CLT. A esperança dela é que a partir do mês de abril seja possível preencher as vagas remanescentes dos corpos estáveis. Creio mesmo que esta seria a melhor solução, mas não podemos esquecer dos problemas que permanecem: os salários oferecidos a quem fizer este teste seletivo é até 50% menor do que dos colegas estatutários. Isto significa que no caso da orquestra dois músicos exercendo a mesma função terão vencimentos muito diferentes. O outro problema é que o teste seletivo não pode ser dirigido apenas a quem está sendo demitido. Qualquer interessado, de todo o país, pode fazê-lo. Isto significa que há a chance de um músico ou um bailarino que participa dos corpos estáveis do Teatro Guaíra há anos ser alijado definitivamente. Realmente o improviso, o descaso e os deslizes administrativos têm um preço. Que este preço seja o menor e menos doloroso.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 28/12/16 9:55:11 AM
Nadja Michael interpretando Fosca no Municipal de São Paulo

Nadja Michael interpretando Fosca no Municipal de São Paulo

O ano que está acabando não foi dos mais tranquilos para o país. Crise política, crise econômica, crise ética. Com certeza esta situação acabou permeando a cena musical no país, que assistiu ações inéditas que foram tratadas muitas vezes não em cadernos culturais, mas em páginas policiais (corrupção galopante no Theatro Municipal de São Paulo e bloqueios financeiros na Orquestra Sinfônica Brasileira). Já tratei aqui sobre as crises que abalaram as atividades ligadas à música clássica no país (vide texto aqui), mas o ambiente conturbado não impediu de acontecerem também coisas muito boas. Uma delas foi a montagem da ópera Fosca de Carlos Gomes no Theatro Municipal de São Paulo que contou no soberbo elenco com uma cantora de fama internacional no papel título: Nadja Michael. Há muito tempo Carlos Gomes não era interpretado por alguém do primeiro time internacional do canto lírico. A temporada de 2016 do Theatro Municipal do Rio de Janeiro também é digna de inúmeros elogios. Em meio à mais severa crise financeira do país foram apresentadas óperas e ballets de alto nível. Lamentável que não foi possível evitar o cancelamento das apresentações da ópera Jenufa do theco Leoš Janáček em novembro, que seria apresentada no país pela primeira vez no idioma original. Está prometida para março. A conferir.

O maestro Nikolaus Harnoncourt. Uma das grandes perdas do ano

O maestro Nikolaus Harnoncourt. Uma das grandes perdas do ano

2016 – Ano de muitas perdas

Foram muitas mortes de expoentes musicais neste ano. Logo no início de 2016, no dia 5 de janeiro, falecia um dos mais importantes compositores nascidos no século XX, Pierre Boulez. Se a música moderna perdia um ícone, em 5 de março o mundo perdia o homem que redescobriu a sonoridade original da música barroca e que nos ensinou a reouvir a arte musical com mais profundidade, Nikolaus Harnoncourt. Além de Boulez mais dois compositores muito importantes faleceram em 2016: o inglês Sir Peter Maxwell Davies (faleceu em 14 de março) e o finlandês Einojuhani Rautavaara (faleceu em 27 de julho). Alguns instrumentistas excepcionais também nos deixaram: o flautista suíço Aurèle Nicolet (faleceu m 29 de janeiro), o pianista e maestro húngaro Zoltán Kocsis (faleceu em 6 de novembro) e o violoncelista austríaco Heinrich Schiff (faleceu há pouco, dia 23 deste mês). Muito triste também a morte do maestro inglês Sir Neville Marriner (faleceu dia 2 de outubro).

O saudoso Nicolau de Figueiredo

O saudoso Nicolau de Figueiredo

Entre os brasileiros de fama internacional duas perdas irreparáveis: o grande cravista e maestro Nicolau de Figueiredo que faleceu em 6 de julho (tinha apenas 56 anos de idade) e o percussionista Naná Vasconcelos que nos deixou em 9 de março, pouco tempo depois de se apresentar aqui em Curitiba na 34ª Oficina de Música. E por falar em Oficina de Música, a 35ª faleceu antes de nascer. Outra morte lamentável.

A música brasileira em três gravações exemplares

Em 2016 foram realizadas três gravações absolutamente antológicas que ampliam a visão da boa produção musical clássica do país. Inicialmente o fantástico CD “Sonata brasileira” gravado pelo selo americano Odradek mostra o pianista brasileiro Antonio Vaz Lemes executando sonatas de André Mehmari, Camargo Guarnieri, Marcelo Amazonas e Edmundo Villani Cortes. CD que teve enorme repercussão internacional (veja o que escrevi sobre ele aqui) e que colocou a música brasileira em evidencia mundial. Em lançamentos brasileiros destacaria a importantíssima gravação integral de todos os quartetos de Radamés Gnattali pelo quarteto Radamés Gnattali (veja o que escrevi a respeito aqui) e de um belíssimo CD com obras do compositor carioca Ricardo Tacuchian para dois pianos, piano a quatro mãos e piano solo com as pianistas Miriam Grosman e Ingrid Barancoski (o CD se chama Água Forte) , revelando a mais importante produção pianística no país nas últimas décadas. Prometo para breve analisar de forma mais detalhada este CD, que não canso de ouvir.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 23/12/16 11:47:23 AM

Na página do Facebook do MBL (Movimento Brasil Livre) de Curitiba foi divulgada a imagem reproduzida acima que reputo pelo menos como equivocada. Lembro ao pessoal do MBL que a Oficina de Música de Curitiba não é um simples evento, ou, como muitos pensam, uma festa, e lembro também que seria tosco pensar que uma rubrica de Cultura poderia ser usada em Saúde. O equívoco é portanto duplo.

Quanto á palavra “evento” lembro pela enésima vez que a Oficina de Música de Curitiba é principalmente um curso de três semanas que atende centenas de alunos vindos de todo o continente. Um curso no qual alunos têm contato com professores de alto nível, e com muito dos quais não poderiam ter contato pelo fato de que estes professores moram na Europa, na Ásia ou nos Estados Unidos. Outro fato que muitos parecem desprezar é o enorme trabalho social que a Oficina de Música faz em hospitais, asilos e orfanatos. Mas pior do que a opinião equivocada do MBL são os comentários colocados abaixo da foto na mesma página do MBL. Escolhi quatro. Vou omitir os nomes de quem escreveu para evitar qualquer tipo de incômodo. Os erros de português, no entanto, estão mantidos…

Comentário Nº 1 : “Orgulho em dizer que votei nele , a cidade está dizandada , sem saúde, as ruas viradas em buracos e querem porra de música ?”. Este cidadão (ou cidadã) se refere a música como “porra”. Muito “elegante” eu diria. Não sei o que quer dizer “dizandada”, mas esclareço que no orçamento da prefeitura existem verbas especificadas e que não é tirando verba da cultura que se tapam buracos

Comentário Nº 2 : “Isso é governar para os mais pobres”. Discordo totalmente: a Oficina de Música atende muitas pessoas que não possuem meios para terem aulas com grandes mestres. O cancelamento da Oficina penaliza também muita gente menos favorecida

Comentário Nº 3 : “Super certo…..Arte que não se sustenta tem de sumir, parasitas….” Educação, segundo nossa constituição, é obrigação do Estado. Centenas de alunos recebem orientação de grandes mestres durante um curso como a Oficina de Música de Curitiba. Arte é educação, e o Estado deve promove-la sim. É lei.

Comentário Nº 4 : “Parabéns, foi muito feliz tomando esta atitude, só está infeliz quem sempre mamou nas tetas estatais através destas coisas do povo, das quais o povo nunca participou”. Que bom que este cidadão (ou cidadã) ficou feliz, mas lembro a ele (ou ela) que o povo participa sim. Só na oficina passada o público das apresentações superou o expressivo número de 15.000 pessoas. Aliás a redação do comentário é sofrível: diz que é do povo, mas que o povo não participa. Creio que tiraram verba da educação, na época dele (ou dela) para tapar buracos.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 22/12/16 8:52:34 AM

Creio ser difícil responsabilizar apenas um fator na série alarmante de más notícias em torno da atividade musical no país, e não creio que há um plano articulado contra a música como um todo. A crise é global. No entanto a catastrófica crise econômica que assola o Brasil nos últimos tempos veio se agregar a algo já muito conhecido quando nos referimos a instituições públicas voltadas à atividade musical: péssima gestão. A lista de hecatombes nacionais recentes (crise econômica, política e alta corrupção) se soma às toscas e ineficientes práticas administrativas.

Um evento cancelado

Um evento cancelado

Curitiba

Aqui no Paraná o anunciado cancelamento da realização da 35ª Oficina de Música de Curitiba demonstra uma junção de uma arrecadação cambaleante da prefeitura com deslizes sérios de gestão, tanto da administração que está saindo, por ter prometido uma verba que não existe, como da administração que está entrando e que lança uma artificial disputa entre saúde e cultura (que é vista pelo novo prefeito como “secundária”). A meu ver nada justifica o cancelamento de um evento cultural que há 35 anos acontece na cidade, ainda mais depois que os aportes necessários foram oferecidos por diversas secretarias do Estado, mas se revelaram ineficientes frente à obstinação do novo prefeito em cancelar o evento.

A Orquestra do Teatro Nacional de Brasília tocando em lugares impróprios

A Orquestra do Teatro Nacional de Brasília tocando em lugares impróprios

Brasília

Caso já antigo é o da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro de Brasília, que há três anos vem se apresentando em locais totalmente desprovidos de mínimas condições acústicas pelo fato de sua sede, o Teatro Nacional, estar fechado para reformas, reformas essas que ainda estão longe de começar. A má novidade é que a recessão galopante faz da próxima temporada da orquestra ser uma incógnita pois cortes consideráveis já foram anunciados. Lembro que os músicos desta orquestra recebem os mais altos salários de músicos de orquestra do país. Em resumo: músicos bem pagos tocando para um pequeno público em lugares impróprios. Desperdício?

A Sinfonica de Porto Alegre sempre se apresentando em Igrejas com péssima acústica

A Sinfonica de Porto Alegre sempre se apresentando em Igrejas com péssima acústica

Porto Alegre

Outra crise de gestão aguda e antiga acontece também com a OSPA – Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Sem sede há muitos anos (sua sede foi “desalugada” pela governadora Yeda Crusius) toca em igrejas com acústicas sofríveis para um público declinante. A diferença com Brasília é que os salários, que já não são grande coisa, entraram no sistema de parcelamentos no falido Estado do Rio Grande do Sul. Vale ressaltar que no programa de contenção de custos o Governo do Estado extinguiu a Rádio Educativa do Rio Grande do Sul.

Banda Sinfônica de São Paulo: à beira da extinção

Banda Sinfônica de São Paulo: à beira da extinção

São Paulo

Em São Paulo a queda de arrecadação advinda da crise econômica levou o Governo do Estado a praticamente extinguir a Banda Sinfônica do Estado de São Paulo. Aliás o governo de São Paulo pensa seriamente (através da OS “Instituto Pensarte”) em cessar a atividade da Jazz Sinfônica e da Orquestra do Theatro São Pedro. Mesmo a OSESP, uma instituição que parece viver ao largo da catastrófica situação econômica do país, tem perspectiva de alguns cortes no seu orçamento. Mas como a OSESP tem um apoio forte de um conceituado banco, e como os bancos são os únicos a lucrarem no caos econômico brasileiro, existe chance de ela sair menos chamuscada da recessão. A crise de corrupção que aconteceu no Theatro Municipal de São Paulo, com notícias de que o dinheiro desviado chegaria a 130 milhões de reais. Roubalheira, baixa arrecadação e má gestão: tudo junto.

Artistas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro em recente manifestação

Artistas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro em recente manifestação

Rio de Janeiro

No Theatro Municipal do Rio de Janeiro (que apesar do nome é administrado pelo governo do Estado) foram canceladas as apresentações de uma ópera (Jenufa do tcheco Leoš Janáček) dois dias antes da estreia no último mês de novembro pelo atraso de mais de um mês de pagamento dos salários dos músicos e demais funcionários do teatro. A penúria carioca faz com que os salários continuem a ser parcelados para todos os funcionários do Estado, inclusive os músicos (cantores e instrumentistas) do teatro. E por falar em Rio de Janeiro, a péssima gestão acrescida à recessão levou mais uma vez ao impasse a existência da Orquestra Sinfônica Brasileira. O Estado do Rio de Janeiro, cujas finanças estão para lá de arruinadas, parece prometer mais crises. No que tange o Theatro Municipal e todo o funcionalismo do Estado o parcelamento dos salários será uma constante durante o ano, o que faz prever mais cancelamentos.

As "mágicas" do Maestro Carlos Prazeres para manter a Sinfônica da Bahia viva e atuante

As “mágicas” do Maestro Carlos Prazeres para manter a Sinfônica da Bahia viva e atuante

Salvador e outros lugares

Em Salvador a Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA), mantida pelo Governo do Estado, não para de tirar coelhos da cartola para se manter viva. É lógico que a recessão só piora a situação do conjunto, que talvez sofra por ter sido apoiada por Antônio Carlos Magalhães e não aparece simpática à atual administração. Mera hipótese. Mas a crise é real. Há a promessa de uma OS (Organização social) salvar o conjunto. Ainda não soube de nada mais definido a respeito das atividades musicais em Belo Horizonte, mas, ao que tudo indica, problemas acontecerão, pois, o Estado de Minas Gerais decretou Catástrofe Econômica. Ainda não obtive notícias de Goiânia, Manaus, Belém e Recife.

Futuro sombrio e nebuloso

Para mim a equação é simples: a música de qualidade é uma atividade que depende principalmente do poder público e as finanças públicas estão numa crise profunda, advinda principalmente de uma recessão nunca vista por aqui, alimentada por uma infindável crise política. E quem administra esta verba declinante não tem demonstrado capacidade técnica de fazer com que esta verba produza algo de bom. Esta crise política me parece estar longe do fim e como consequência a crise econômica permanecerá, infelizmente, por um longo tempo. Não há mais nenhuma garantia, e mesmo os funcionários estatutários não sabem do dia de amanhã e se perguntam: haverá recursos para se pagar salários e aposentadorias para eles? Creio mesmo que a atividade musical, mesmo com todas as dificuldades, deverá aos poucos se desenvolver fora do meio governamental. O futuro, do jeito que as atividades culturais vêm sendo feitas, me parece mesmo extremamente sombrio e nebuloso.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 19/12/16 11:01:37 PM
O prefeito eleito de Curitiba Rafael Greca definiu nesta tarde o cancelamento da 35º Oficina de Música de Curitiba

O prefeito eleito de Curitiba Rafael Greca definiu nesta tarde o cancelamento da 35º Oficina de Música de Curitiba

O jornal “Gazeta do povo” em uma matéria assinada pelo jornalista João Frey, postada no site eletrônico às 20H03 minutos deste dia 19 de dezembro (veja aqui), com o título “Greca marca nova data para anúncio do secretariado e fala em “transição sôfrega””, afirma de maneira clara que o futuro prefeito, recém diplomado na tarde de hoje, definiu o futuro da 35ª Oficina de Música. Diz o texto: “Rafael Greca também voltou a afirmar que não realizará a Oficina de Música de Curitiba, prevista para acontecer já no mês de janeiro. O motivo do cancelamento do evento é a falta de recursos financeiros. “Enquanto a saúde correr riscos não haverá música”, afirmou”. Creio que, infelizmente, com isso fica definida a situação. Logicamente que muitas dúvidas ficam no ar. E o dinheiro já disponibilizado pelo atual prefeito? E as passagens aéreas que já foram compradas? E as agendas de professores que viriam da Ásia, Europa e América do Norte? E os alunos que planejaram passar semanas por aqui? Ao que parece todos terão que mudar de planos. A credibilidade do evento ficará irremediavelmente comprometida, e o suposto adiamento para o mês de novembro, numa aludida junção com um festival de ópera é algo que beira o grotesco: qual aluno poderia vir fazer um curso num mês que não é um mês de férias? E mais uma vez se faz uma artificial disputa entre saúde e cultura. Lamento dizer, mas cultura é educação, e educação é também algo prioritário. Com certeza 2017 começa mesmo com o pé esquerdo, para a cidade, para os alunos, para todos.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 15/12/16 10:58:18 AM
Inscrições para a oficina já se tornaram uma peça de ficção

Inscrições para a oficina já se tornaram uma peça de ficção

A crise que envolve a realização da 35ª Oficina de música de Curitiba se iniciou no começo do presente mês com a publicação na página do Facebook do prefeito eleito de Curitiba, Rafael Greca, solicitando o cancelamento (ou adiamento) do evento. Eu mesmo comentei o assunto aqui no blog (pode ver aqui) e confesso que naquele momento achei que o principal culpado deste cancelamento seria o futuro prefeito. Apesar de ainda estranhar a maneira como o Sr. Rafael Greca colocou o assunto, enfatizando apoio à saúde em detrimento a um evento cultural, me penitencio por ter naquele momento colocado toda a responsabilidade nos ombros do futuro prefeito. O que pude perceber nestas duas semanas, desde que o assunto veio à baila, é que a atual gestão é tão ou mais responsável pelo caos completo em que se encontra a realização da Oficina de música do próximo ano.
Já foi divulgado pela imprensa que a dívida que o atual prefeito deixará para a próxima administração é de 400 milhões de reais. Até aí, pela baixa na arrecadação de impostos causada pela recessão econômica, seria até previsível. Mas não custa lembrarmos do inflamado discurso feito pelo prefeito Gustavo Fruet em 27 de janeiro deste ano, no encerramento da 34ª oficina no Teatro Guaíra, garantindo que todos os recursos já estavam plenamente garantidos para a Oficina de 1017. Na ocasião Fruet afirmou que havia dotação orçamentária, além de uma nova parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), para organizar a Oficina em 2017. Isto eu e muitas outras pessoas ouviram, e ficou na minha memória o “plenamente garantido”. O que se percebe é que este “plenamente” é algo bem relativo e que vem se tornando a retórica usual de nossos administradores.
Depois de algumas semanas em que as inscrições de alunos ficaram suspensas o Sr. Marino Galvão Jr, presidente do ICAC, pessoa pela qual tenho a maior admiração, vem a público hoje, a 20 dias do início do evento, dizer que já estão liberados 420 mil reais para a chamada pré-produção do evento. Lembro, no entanto, que o custo total da oficina é de 1,7 milhão de reais. A diferença é grande e assustadora.

Prefeito Fruet quando assumiu o cargo

Prefeito Fruet quando assumiu o cargo

Sinto-me um pouco constrangido de ocupar este espaço para tratar deste assunto pois faço parte do corpo de professores da Oficina de música, mas como cidadão sinto-me indignado frente à falta de seriedade com que este tipo de assunto é tratado. O que era “plenamente garantido” revela-se agora como uma nebulosa promessa de realização. Difícil acreditar que seria uma atitude cômoda de um prefeito que não mais ocupará o cargo quando da realização do evento. Nesta discussão toda até a vereadora Julieta Reis, autora da lei que insere no calendário oficial da cidade a Oficina de Música de Curitiba, lavou as mãos e nada fez a favor do evento. Mas que o estrago já está feito, disso não tenho dúvida A suspensão das inscrições de alunos, mesmo que tenha sido momentânea, já é por si só extremamente nociva. Ocorra ou não, a 35ª Oficina de Música de Curitiba revelou que, mais uma vez, nem sempre as promessas e garantias vindas de nossos administradores públicos podem ser levadas a sério.

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