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Falando de Música

Enviado por Osvaldo Colarusso, 12/06/16 4:23:33 PM

Na revista inglesa “Gramophone” do último mês de maio um artigo de capa (“What lies behind the renewed appeal of vinyl”) destaca a volta do LP no combalido comércio de gravações. O artigo destaca que enquanto o comércio de Cds decai ano a ano o comércio de LP registra uma discreta alta. Outros artigos apareceram inclusive na imprensa brasileira e aqui mesmo na Gazeta do Povo, mas em todos os artigos, inclusive no da revista inglesa, não se tocou no espinhoso assunto do preço e nem há algo mais específico a respeito das notáveis qualidades do LP para as gravações de música clássica. Vamos a estes pontos.

O proibitivo preço dos novos LPs

Algumas gravadoras importantes de música clássica (Deutsche Grammophon, Warner, Universal para citar algumas) vendem atualmente alguns títulos de seu catálogo no formato de LP. Existe a limitação do tempo de gravação comparando-se o CD e o LP, pois enquanto o CD aguenta 80 minutos com tranquilidade, o LP não consegue uma boa qualidade acima dos 50 minutos. Por isso os itens são lançados em LP com menos conteúdo do que o CD equivalente. O que mais salta aos olhos é a diferença de preço. Na campeã de comércio on line, a Amazon (amazon.com), o preço de um LP de música clássica custa de duas a três vezes mais do que o equivalente em CD. Os mais baratos saem por U$ 30 sendo que o envio para o Brasil, por se tratar de um produto mais delicado, custa muito mais caro. A média de preço do site brasileiro cdpoint.com.br cobra em média 280 reais por LP, mais o envio, que também é mais caro do que o envio de CDs. Sair atrás de LPs usados em sebos nem sempre é uma boa saída. Os LPs clássicos prensados no Brasil antes do surgimento do CD tinham uma qualidade sofrível. Os LPs importados em boas condições estão tão valorizados nos nossos sebos que seu preço chega a assustar. Os LPs que vem sendo prensados no exterior apresentam uma qualidade excepcional e pelo que sei não há prensagens novas de LPs clássicos no Brasil. Em resumo, o LP seja ele novo ou usado, quando está em boas condições é um artigo de luxo.

As muitas qualidades e os diversos defeitos do LP

O LP apresenta uma reprodução sonora muito superior ao CD. Fiz uma vez o teste junto a um amigo, quando comparamos três gravações em LP e em CD dos mesmos registros: de Richard Strauss “Assim falou Zarathustra” com a Sinfônica de Chicago regida por Fritz Reiner. De Smetana poemas sinfônicos (Hakon Jarl, Ricardo III, etc.) com a Orquestra da Rádio Bávara regida por Rafael Kubelik. Finalmente de Wagner “O crepúsculo dos deuses” com a Filarmônica de Viena regida por Georg Solti. O resultado foi surpreendente. A gravação de Fritz Reiner soava achatada na versão em CD enquanto que no velho LP (ainda monaural) soava com profundidade, com riqueza e sutilezas. Os poemas de Smetana apresentaram uma diferença ainda maior: em LP uma tomada de som excepcional, com profundidade e equilíbrio. Em CD um som metálico e estridente distorcia a bela execução da orquestra alemã. Mas a surpresa maior veio ainda na ópera de Wagner. Em CD a voz de Birgit Nilsson (grande soprano dramático) e de Wolfgang Windgassen (um dos maiores tenores de sua geração) soavam de maneira indigna quando comparadas à versão em LP, e a Filarmônica de Viena em CD perdia uma parte considerável de suas incontáveis qualidades. Especialmente os sons agudos (violinos, flautas) soam de maneira bem ruim em CDs em geral. Ao que parece há um acerto maior nos sons graves, mas as conduções melódicas nos naipes de violinos soam de forma sofrível. A conclusão foi mesmo de que a qualidade de registro é infinitamente superior no LP do que no CD. No entanto é importante lembrar dos problemas que o LP apresenta: ocupa muito mais espaço do que o CD, risca e suja com facilidade e não é prático em diversas situações. Quando fizemos a comparação entre as gravações em CD e LP meu amigo tinha uma máquina de lavar LPs japonesa (caríssima) sem a qual seria difícil ouvir os exemplares mais antigos. Voltando às questões práticas do LP, ninguém é capaz ouvi-lo no carro por exemplo e no caso de uma ópera existe a necessidade de um “senta levanta” contínuo para virar de lado (sim o LP tem Lado A e Lado B).

Uma máquina de lavar LPs japonesa

Uma máquina de lavar LPs japonesa

CD ou LP: uma solução pessoal

Minha decisão pessoal é continuar no CD. Comprar um bom toca-discos de vinil, uma máquina de lavar LPs e a falta de praticidade do LP em minhas atividades como professor, me levam a esta opção. O preço é uma questão importante também. Sem contar que baixar músicas é algo inevitável nos dias de hoje e passar um download para LP é impraticável. Talvez um dia mude de ideia. Por enquanto me conformo com as limitações do Compact Disc.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 04/06/16 9:00:41 AM
Luigi Nono, Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen em Darmstadt, 1956

Luigi Nono, Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen em Darmstadt, 1956

Depois da morte do compositor Pierre Boulez (1925-2016) no início do ano, praticamente se encerrou uma dinastia de compositores que no final da Segunda guerra mundial pretendia reinventar a linguagem musical. Um grupo de criadores musicais que, pela primeira vez na história da música, tinha um sério propósito de serem compositores de vanguarda. Eles tinham consciência de que uma revolução musical aconteceu no início do século XX, antes da Primeira guerra mundial, aquela cujos protagonistas eram Debussy, Schoenberg, Bartók, Stravinsky, Webern, Berg, e em outro contexto Varése e Charles Ives. Mas esta revolução do início do século foi “engolida” por uma visão muito mais conservadora a partir dos anos 1920, que viu o domínio de correntes ecléticas e passadistas: o neoclassicismo, o Grupo dos Seis, o Retorno a Bach, etc. Esta nova vanguarda, que surge por volta de 1948, tinha o sério propósito de repelir qualquer traço de ligação com o passado. Seus ídolos maiores eram o compositor austríaco Anton Webern (1883-1945) e o compositor francês Olivier Messiaen (1908-1992), e o interesse maior estava em novas maneiras de se expandir o serialismo proposto por Schoenberg. A obra para piano de Messiaen “Modos de intensidade e valores” de 1949, se tornou a bússola destes novos autores. Por mais de dez anos, a partir de 1950, um grupo de compositores, de diversas nacionalidades, se reuniam durante o verão no Instituto Kranichstein em Darmstadt (Alemanha) para refletir, discutir e praticar soluções novas. Além de Pierre Boulez o grupo era formado pelos italianos Luigi Nono (1924-1990), Bruno Maderna (1920-1973) e Luciano Berio (1925-2003), pelo compositor alemão Karlheinz Stockhausen (1928-2017), pelo belga Henri Pousseur (1929-2009) e pelo argentino Mauricio Kagel (1931-2008). Posteriormente (1956) se reuniria ao grupo o húngaro Györgi Ligeti (1923-2006) e o grego, naturalizado francês Iannis Xenakis (1922- 2001). A produção musical deles era tão radical que era executada para públicos específicos (festival de Donaueschingen na Alemanha por exemplo) e por instrumentistas e maestros também específicos (o duo pianístico dos irmãos Kontarsky , o violoncelista Siegfried Palm, o violinista Saschko Gawriloff, e os maestros Hans Rosbaud e Hermann Scherchen). É deste período que surgem obras primas como “Kontrapunkte” e “Zeitmasse” de Stokhausen, “Le marteau sans maître” de Boulez e as primeiras obras da série “Sequenza” de Berio. A ideia de uma vanguarda radical se expandirá para novas fontes sonoras: a música eletrônica (praticada por Stockhausen e Nono entre outros) e a música concreta (sons captados e manipulados pelos franceses Pierre Schaeffer (1910-1995) e Pierre Henry, nascido em 1927). Muitas obras vinham atreladas com uma novidade tecnológica que hoje já está obsoleta: a fita magnética.

Stockhausen em Darmstadt, 1954

Stockhausen em Darmstadt, 1954

Esta arte radical, distante da vida musical corriqueira, fez com que a maioria destes compositores se tornasse hoje ilustres desconhecidos. Algumas posturas se tornaram tão datadas que hoje quase se tornam caricatas. Luigi Nono, por exemplo, vai associar uma linguagem musical bem radical a uma ideologia política muitas vezes histérica em obras comprometidas com causas revolucionárias como “A floresta é jovem e cheja de vida” que usa texto de guerrilheiros africanos contra a guerra do Vietnam e “Como una ola di fuerza y luz” que exalta um operário morto pelas tropas de Pinochet no Chile. Não há dúvida que Nono foi um grande compositor, e prova disso é sua obra para piano e fita magnética “…Sofferte onde serene…”, uma belíssima e poética partitura, mas a maior parte da produção dele permanece esquecida. Percebemos que poucos compositores deste grupo, que ficou conhecida como “Escola de Darmstadt”, conseguiram ultrapassar o correr do tempo. Quem conseguiu? Em primeiro lugar citaria Györgi Ligeti, cujas obras vêm sendo executadas e gravadas regularmente. Seguem Luciano Berio, cuja Sinfonia de 1968 já foi gravada mais de dez vezes e que já foi apresentada em todo o mundo (inclusive no Brasil, em Manaus, São Paulo e Rio de Janeiro) e que foi autor de uma série fundamental para a música instrumental moderna, as 14 “Sequenza” para instrumentos solo. Pierre Boulez conseguiu impor suas obras principalmente pela defesa que fazia delas como maestro excepcional que era. “Marteau Sans Maître”, “Sur Incises” e “Répons” são obras maravilhosas, mas só a primeira, junto com as duas primeiras Sonatas para piano que são executadas com frequência. Pouco a pouco as “Klavierstücke” de Stockhausen encontram uma receptividade nos repertórios dos pianistas, mas seus gigantescos painéis sonoros (com horas de duração) como “Sirius” (inspirados nos planetas), “Licht” (inspirados nos dias da semana) e “Klang” (enorme partitura inspirada nas horas do dia), apesar de terem sido festejados em suas estreias, tornaram-se rapidamente esquecidos. Pousseur, Kagel, Xenakis e Maderna não possuem nenhuma obra que permaneceu no repertório ou que seja regularmente executada. Devemos lembrar que no ocaso da “Escola de Darmstadt” aparece outra corrente vanguardista na Polônia, dominada por dois grandes compositores: Witold Lutosławski (1913-1994) e Krzysztof Penderecki (nascido em 1933). O último mudou radicalmente de estilo nas últimas décadas, tornando-se extremamente conservador, mas suas obras escritas por volta de 1960 parecem mesmo reacender o espírito iconoclasta de Darmstadt.
Negar a importância desta “Escola de Darmstadt” seria algo completamente errôneo. Mesmo com a questão da dúvida da permanência esta corrente, com seu ideal de ruptura e de reconstrução, aparece hoje como algo extremamente importante e necessário, frente a uma tendência cada vez mais frequente de valorizar o já visto, passar por caminhos já traçados, de uma produção musical que, lamentavelmente, ignora que já houve um espírito inovador. Ser de vanguarda está decididamente fora de moda.

Vídeos relacionados:

De Messiaen “Modos de valores e intensidades” Segundo de seus estudos de ritmo numa bela versão de Elina Christova

Kontrapunkte de Stockhausen na bela execução regida por Jean-Philippe Wurtz

Uma obra afastada das preocupações políticas de Luigi Nono: …. sofferte onde serene … para piano e fita magnética

Enviado por Osvaldo Colarusso, 23/05/16 11:13:17 AM

A grande pianista argentina Martha Argerich completa 75 anos de idade no próximo dia 4 de junho. Para festejar a data o selo Deutscge Grammophon acaba de lançar um CD duplo com gravações teste da pianista efetuadas no ano de 1960, isto é, quando a artista tinha apenas 19 anos de idade, 5 anos antes dela ganhar o Concurso Chopin de Varsóvia. Algumas obras que estão incluídas nestas gravações a pianista gravará de novo 14 anos depois, mas algumas obras aparecem aqui pela primeira vez numa gravação comercial e com um som excelente.
Entre as obras que Martha Argerich gravaria posteriormente temos duas de Maurice Ravel: Sonatine e Gaspard de la nuit. Em 1974 Martha Argerich gravou estas obras de forma tão arrebatadora que os registros permanecem como referência absoluta até hoje entre as inúmeras gravações que existem destas obras. Mas é muito interessante ouvir Marta Argerich executá-las 14 anos antes, em 1960. Sem dúvida há uma selvageria e uma impetuosidade que devem ter assustado os executivos da gravadora (talvez a razão destas gravações não terem sido lançadas na época), mas não podemos ignorar a genialidade da então jovem pianista. Sim, há mais controle na gravação de 1974, mas talvez haja mais genialidade nesta gravação que permaneceu inédita por 56 anos.
As obras que nunca apareceram em gravações comerciais da pianista convertem-se em itens absolutamente valiosos. Inicialmente duas obras do classicismo musical, também gravadas em 1960: de Beethoven a Sonata Nº 7 em Ré maior opus 10 Nº 3 e de Mozart a Sonata Nº 18 em ré maior IK 576. Versões rápidas, leves e ao mesmo tempo expressivas, sobretudo no andamento lento da Sonata de Beethoven. Do compositor russo Sergei Prokofiev aparecem três obras primas, mais uma vez em gravações inéditas: a Tocatta opus 11 (numa gravação anterior daquela lançada comercialmente), e duas obras nunca antes lançadas comercialmente: a Sonata Nº 3 e a Sonata Nº 7 (a única gravação de 1967 no álbum).

Martha Argerich no início dos anos 1960

Martha Argerich no início dos anos 1960

Decididamente Martha Argerich é uma das maiores pianistas de sua geração, e podemos constatar que ela já era uma musicista excepcional aos 19 anos de idade. Nas obras de Mozart e Beethoven o “humor clássico”, citado pelo pianista e musicólogo Charles Rosen, surge de forma clara e espontânea. Os mistérios da escrita de Ravel se aproximam da loucura e do frenesi na visão da então jovem pianista, e raramente as ideias magicamente articuladas de Prokofiev foram tão valorizadas e evidenciadas. A pianista faz aniversário, mas quem ganha um presente somos nós: quase citando James Joyce, um belíssimo “Retrato de uma pianista quando jovem”.

Serviço: Martha Argerich – Early recordings. Obras de Mozart, Beethoven, Ravel e Prokofiev. Selo Deutsche Grammophon.2 Cds. Lançamento internacional no último dia 16 de maio. Para baixar em mp 3 (com o libreto incluso) no iTunes: U$ 7,99. No site Presto Classical (http://www.prestoclassical.co.uk/) em MP 3 U$ 5,25 e em flac U$ 6,50 (com libreto incluso nos dois formatos). Para quem quer o disco físico é encontrável no site brasileiro CD Point (www.cdpoint.com.br), e você deverá desembolsar R$ 148,39.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 16/05/16 3:35:54 PM
A pianista e professora Henriqueta Garcez Duarte

A pianista e professora Henriqueta Garcez Duarte

A pianista e professora Henriqueta Garcez Duarte realizou um trabalho que qualifico como dos mais importantes já realizados entre nós. Discípula de Magda Tagliaferro, depois de um período vivendo na Europa iniciou seu trabalho pedagógico em Curitiba no início da década de 1960. A revolução que ela operou no ensino de piano foi radical: novas edições das partituras que eram trabalhadas (versões urtext, na época uma novidade no Brasil), amplitude do repertório e excelência técnica. Posteriormente foi Diretora da EMBAP (Escola de Música e Belas Artes do Paraná) quando expandiu sensivelmente o quadro de professores e quando, pela primeira vez por aqui, foram oferecidos cursos da maior parte dos instrumentos de orquestra. Toda uma geração de instrumentistas paranaenses, não apenas pianistas, se originou neste trabalho estafante e vitorioso que ela realizou à frente da mais tradicional Escola de Música do Paraná. Como professora de piano é impressionante a quantidade e a qualidade de seus discípulos que, infelizmente, pouco se apresentam aqui em Curitiba. Poder revê-los e escutá-los é uma das principais razões para que se prestigie o Concerto em homenagem aos 90 anos de Henriqueta Garcez Duarte, que acontecerá nesta terça feira, 17 de maio às 20 horas na Capela Santa Maria em Curitiba. Na realidade a Professora Henriqueta completou 90 anos no último mês de novembro (eu dediquei a ela um concerto que estava regendo frente à Camerata Antiqua exatamente no dia) mas os afazeres de seus discípulos espalhados pelo mundo só permitiram uma homenagem agora.
Destaco três artistas que muito estranhamente não se apresentam há muitos anos por aqui e que participarão deste concerto:

Vania Pimentel

Vania Pimentel,

Vania Pimentel, esta extraordinária artista que hoje em dia vive no Estados Unidos, Roberto Domingos,solista e camerista excepcional que é professor na Hochschule für Musik de Karlsruhe na Alemanha
e José Henrique Martins, instrumentista de técnica fulgurante, atual professor na Universidade Federal da Paraíba.

Roberto Domingos

Roberto Domingos

Eles atuarão junto a outros discípulos da Professora Henriqueta e que têm uma intensa atividade por aqui: Carmen Celia Fregoneze, Daniela Tsi Gerber, Larissa Boruschenko, Alexander Ribeiro de Lara, Renata Bittencourt, Carlos Assis e Eduardo Knob. Haverá ainda uma divertida surpresa da pianista Doris Warrentin. No programa só música de alta qualidade: Debussy, Schubert, Liszt entre outros e considero um destaque no repertório uma obra do compositor brasileiro Liduíno Pitombeira dedicada ao pianista José Henrique Martins.

José Henrique Martins

José Henrique Martins

Para quem conhece as agruras pelas quais passa atualmente a EMBAP é importante se aquilatar um trabalho que foi vitorioso naquela instituição. Muitos dos seguidores da Professora Henriqueta, e que estarão se apresentando neste concerto, lutam incessantemente para que a instituição não morra. Não tenho dúvida que esta apresentação, que se aproveita do magnífico piano que está na Capela Santa Maria, será um marco na vida musical da cidade.

Serviço: Concerto em Homenagem à pianista e professora Henriqueta Garcez Duarte. Capela Santa Maria. Dia 17 de maio de 2016. 20 horas. Entrada franca

Enviado por Osvaldo Colarusso, 13/05/16 4:11:46 PM
Erik Satie

Erik Satie

Satie: para rir e sonhar

Mesmo 150 anos depois de seu nascimento o compositor francês Erik Satie ainda permanece jovem, iconoclasta e questionador. Precursor da harmonia impressionista, do surrealismo, do minimalismo e até mesmo do Teatro do absurdo (talvez o pai espiritual de John Cage) foi dos raros compositores que teve uma existência marginal, fora de qualquer padrão burguês. Nenhum compositor importante teve uma vida boêmia como ele, nos padrões do famoso atelier “Bateau Lavoir” no bairro de Montmartre em Paris, que serviu de refúgio para artistas que eram ainda alternativos no final do século XIX, como Picasso, Modigliani, Max Jacob, Apollinaire e Derain. Ele vivia numa casa modesta a poucas quadras do “Bateau Lavoir” (uma fábrica de pianos abandonada) e conviveu assumidamente este tipo de vida excêntrica. Stravinsky, que conheceu Satie em 1911, se referia a ele como o ser mais diferente e incomum que conheceu em toda a sua vida.

Debussy e Satie. Foto tirada por Stravinsky

Debussy e Satie. Foto tirada por Stravinsky

Do canto gregoriano ao cabaré

Nascido na Normandia em 17 de maio de 1866 teve ainda como menino uma educação musical bastante afastada do corriqueiro: foi aluno de um certo Monsieur Vinot que baseou seu trabalho com o jovem apenas no canto gregoriano. Isso sem dúvida explicará o modalismo de sua linguagem e um tipo de misticismo secreto do qual nunca se afastará: ele próprio fundará uma igreja mais tarde, a “Igreja metropolitana da Arte de Jesus dirigente”, da qual ele será o único adepto… Sua madrasta tenta colocá-lo num tipo de formação musical mais convencional, mas ele escapa do conservatório se engajando voluntariamente…no exército. Sua saúde frágil o fará renunciar à carreira militar e em 1887 compõe suas primeiras obras importantes, todas visivelmente influenciadas por esse ideal sonoro que poderíamos chamar de arcaico. Suas Quatro Ogivas para piano, com seus cantos gregorianos acordes paralelos e sem compassos definidos, encarnam a atitude mais rebelde possível ao Conservatório de Paris, templo da educação musical rígida e conservadora. Suas Três Sarabandas de 1887 traçam definitivamente o tipo de harmonia que compositores como Debussy e Ravel utilizarão.

Debussy e Stravinsky em foto tirada por Satie

Debussy e Stravinsky em foto tirada por Satie

É desta época sua obra mais popular, as Três Gymnopédies também para piano. Assim como suas Três Gnossiennes, escritas na mesma época, temos aqui uma música absolutamente “zen”, que revela caminhos originais e inusitados. O experimentalismo mais radical de Satie se manifesta nesta época em sua obra Vexations, uma curta partitura de piano que deve ser executada 840 (!) vezes, algo que deve levar entre 9 e 10 horas. Mesmo tocando todas as noites em cabarés famosos como “Le divan japonais” e “Le chat noir”, sua situação financeira vai ficar tão ruim que é obrigado a abandonar Montmartre e passa a viver num subúrbio da capital francesa (Arcueuil). Mas vai todas as noites a Montmartre e quando volta para casa de madrugada a pé (cerca de 5 quilômetros) caminha sempre com um “ameaçador” martelo para espantar os ladrões… Em 1905 decide aprimorar sua formação musical entrando na Schola Cantorum tendo sido aluno de Albert Roussel e Vincent D’Indy. É depois deste período, em 1915, que Satie conhece Jean Cocteau. Junto a ele Satie abre o caminho para o surrealismo. Prova disso é a genial música que ele escreve para o Ballet “Parade” em 1917, cujo argumento era também de Cocteau.

Pano de boca para "Parade" pintado por Picasso

Pano de boca para “Parade” pintado por Picasso

Junto à orquestra máquinas de escrever, um revólver e globos giratórios de loteria ajudam a contar a história de uma garota americana, dois acrobatas e um Prestidigitador chinês. A estreia com cenários e figurinos de Picasso e regência de Ansermet foi um escândalo tão grande ao que aconteceu em 1913 com a criação de “Le sacre du printemps”. O surrealismo anunciado nesta obra terá 7 anos depois uma sequência fantástica: Relache, trilha sonora para um curta do cineasta René Clair. O compositor chamava esta obra de “Ballet instantanéiste”. Ele falece em julho de 1925. Satie, que desde jovem tinha um aspecto de idoso, chega a nós como o mais iconoclasta e juvenil dos grandes compositores. 150 anos depois de seu nascimento se apresenta ainda como alguém que nos faz rir e sonhar.

Frases de Satie:

“Quando eu era jovem, me disseram “Você vai ver quando você tem cinquenta anos”. Agora eu tenho cinquenta e eu ainda não vi nada”.

“A experiência é uma das formas de paralisia”.

“O músico é talvez o mais modesto dos animais, mas ele é o mais orgulhoso. É ele que cria a arte sublime de arrasar a poesia”.

“Ela canta como um rouxinol com dor de dente”.

“Antes de compor uma peça, eu passeio em volta dela acompanhado por mim mesmo”.

“Não busco ser um mestre: isso é muito ridículo”.

“Fisicamente o crítico tem um aspecto grave, do tipo de um contrafagote”.

“Não existe “Escola Satie”. O “satiesmo” não saberia existir. Me achariam hostil. Na arte não deve haver escravidão”.

“Sabe como limpar o son? É muito sujo”.

“O piano, assim como o dinheiro, só é agradável àquele que o toca”.

Vídeos

A mais famosa obra: Gymnopédie 1 tocada por Alexandre Tharaud

Relache: Música de Satie para um curta metragem de René Clair

Pequena cena do Ballet “Parade”

Vexations completa. Mais de 9 horas de música

Enviado por Osvaldo Colarusso, 24/04/16 8:46:10 AM
Mathilde Wesendonck em retrato pintado por Ferdinand Sohn em 1850

Mathilde Wesendonck em retrato pintado por Ferdinand Sohn em 1850

Ao ver o preconceituoso título do artigo saído na semana passada na revista “Veja” sobre a esposa de Michel Temer, lembrei-me imediatamente de duas mulheres “Belas, recatadas e do lar”, casadas com homens ricos e mais velhos, que por sua postura estoica frente a paixões avassaladoras de grandes artistas acabaram por inspirar duas importantes obras primas da história da música ocidental. Mulheres que, por serem casadas, preferiram ter uma atitude recatada, recusando que um “affair” se consumasse. Nestes casos ser “Bela, recatada e do lar” foi lucrativo para nós, os amantes da arte.

Wagner na época de seu exílio na Suíça

Wagner na época de seu exílio na Suíça

Mathilde Wesendonck e Richard Wagner

Richard Wagner (1813-1883), o tempestuoso compositor alemão, envolveu-se na Revolução de Dresden em 1848. Inspirado por ideais republicanos teve que fugir para a Suíça para não ser preso e mesmo enforcado. Em Zurique “comeu o pão que o diabo amassou”, mas não perdeu a pose: dava palestras e chegou mesmo a dirigir concertos. Em 1852 um casal assistiu a uma de suas preleções, Otto e Mathilde Wesendonck. Ele, 15 anos mais velho que ela, era um rico comerciante de sedas, e ela, extremamente bela e culta, e que com o tempo seria mãe de cinco filhos, se interessava em artes e mesmo em culturas orientais. Um de seus requintes era dominar diversos idiomas, inclusive o sânscrito. Com o tempo Otto começou a colaborar financeiramente para os custeios do compositor de forma considerável e acabou convidando o compositor e sua esposa para morarem na edícula de seu palacete. Wagner acabou se apaixonando por Mathilde, a tal ponto que até o suicídio passou em sua mente. Eu estive nesta “Villa Wesendonck” em Zurique e acho bem difícil concordar com os historiadores de que o caso de amor não se consumou, já que a tal da edícula fica a poucos metros da casa principal (hoje lá funciona um museu pouco conhecido). Wagner ficou encantado com os poemas de Mathilde e os transformou em belas canções, as “Wesendonck Lieder”. Todo o sofrimento de uma relação impossível deu ao mundo a ópera “Tristão e Isolda”, um hino a um amor ao mesmo tempo forte e impossível, afinal Isolda era casada com o pai adotivo de Tristão, o Rei Marke, seu tio. Por causa do escândalo feito pela esposa de Wagner, este acabou se separando dela, e abandonou Zurique. Interessante sabermos que a segunda esposa de Wagner, Cosima Liszt, sentia arrepios ao ouvir falar de Mathilde Wesendonck pois com certeza sabia da força do amor que Wagner sentira por ela. Depois de viver em Dresden e Berlim Mathilde faleceu em 1902, seis anos depois de seu marido.

A bela e recatada Hanna Fuchs-Robertin

A bela e recatada Hanna Fuchs-Robertin

Hanna Fuchs-Robettin e Alban Berg

Alban Berg (1885-1935) foi um dos compositores da assim chamada Segunda escola de Viena. Em 1925 o compositor tornou-se bem conhecido pelo êxito da estreia de sua ópera Wozzeck em Berlim. Casado com Helene Berg desde 1911 é sabido que teve incontáveis casos, mas logo após o sucesso de Wozzeck acabou conhecendo em uma viagem Hanna Fuchs-Robettin, 11 anos mais nova que ele, e pelo que se conta uma mulher de excepcional beleza. Ela era na época cunhada de Alma Mahler (viúva do compositor). Hanna era casada com Herbert Fuchs-Robetin, um rico industrial, e com ele tinha dois filhos. Alban Berg se apaixonou imediatamente e resolveu abrir seu coração para ela. Hanna foi muito firme, dizendo que estava totalmente fora de qualquer possibilidade abandonar seu marido e seus filhos. Berg deu um jeito para voltar a visitá-la mais algumas vezes até que ela exigiu que ele desaparecesse definitivamente. Logo em seguida a esta recusa de Hanna, Alban Berg deu início à composição de uma obra para quarteto de cordas, a Suíte Lírica. Com a morte de Hanna em 1964, sua filha descobriu entre seus pertences pessoais uma partitura da Suíte Lírica toda anotada por Alban Berg. Ela passou esta partitura para um especialista sobre o compositor, o americano George Perle. Foi ele que compreendeu a linguagem cifrada das anotações e escreveu o importante artigo “O programa secreto da Suíte Lírica de Alban Berg” para uma revista especializada na área (Musical Quaterly).

Alban Berg

Alban Berg

Em resumo, são seis movimentos. Nos dois primeiros a felicidade do encontro, nos dois próximos a impossibilidade e a dor. E nos dois últimos o desespero e a separação. No final da Suíte Lírica há uma citação de Tristão e Isolda de Wagner. Qual amor impossível Berg citava? Tristão e Isolda ou Mathilde e Richard? Como conclusão final a esta reflexão Isolda, da ópera, talvez fosse bela, mas nesse imbróglio todo foi a única que nem era “recatada e do lar”.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 20/04/16 3:16:47 PM
Yehudi Menuhim: grande músico e notável pensador

Yehudi Menuhim: grande músico e notável pensador

Venturas e desventuras de um virtuose

Lembrar de Yehudi Menuhim no centenário de seu nascimento (ele nasceu em 22 de abril de 1916 em Nova York) nos leva a uma profunda reflexão sobre a existência de um grande instrumentista, excepcional e brilhante numa época, criativo frente às limitações que surgiram. Criança prodígio já dava recitais aos 7 anos de idade, e aos 10 tocava a complicadíssima Sinfonia Espanhola de Éduard Lalo para violino e orquestra. Nesta época procurou o grande músico romeno Georges Enescu para ter aulas. Ao ouvi-lo Enescu prontificou-se a dar alguma orientação, mas imediatamente o convidou para tocar e gravar com ele o Concerto para dois violinos de Bach. Aos 13 era solista da Filarmônica de Berlim atuando junto ao grande maestro Bruno Walter e durante a Segunda Guerra Mundial tocou diversas vezes para as tropas aliadas, sendo acompanhado ao piano pelo compositor inglês Benjamin Britten. O auge de sua carreira como violinista acontece nos anos que seguiram a Segunda Guerra, especialmente suas atuações com o maestro alemão Wilhem Furtwängler. A partir daí a grande surpresa: Menuhim vai se tornando cada vez mais um instrumentista instável e inseguro, chegando mesmo a realizar apresentações sofríveis. Muito se discute a respeito desta transformação de Menuhim, um violinista perfeito que se torna um instrumentista imprevisível, e há quem afirme que, na tentativa de conscientizar o que era instintivo, acabou perdendo a perfeita espontaneidade. Adaptando-se a esta nova realidade Menuhim se dedica mais à música de câmera e à regência de orquestra, e começa a se interessar por outros tipos de expressão musical. Desde 1952, bem antes dos Beatles tornarem a coisa como um modismo, se interessa pela cultura indiana através do citarista Ravi Shankar e do professor de yoga Bellur Krishnamachar Sundararaja Iyengar, e na década seguinte passa a atuar com o violinista francês de Jazz Stéphane Grappelli. Neste período de ocaso como solista investe fortemente na educação musical fundando a Yehudi Menuhin School na Inglaterra, hoje em dia presidida por Daniel Barenboim. Yehudi Menuhim, que no final da vida tornou-se cidadão inglês, falecerá no ano de 1999 em Berlim.

Humildade e boas ações

Vou me ater a três passagens na vida de Menuhim que demonstram a grandeza de espírito deste músico que foi muito além de um instrumentista unicamente atento à sua carreira:

Yehudi Menuhim e Bela Bartók

O grande compositor húngaro Bela Bartók (1882-1945) emigrou para os Estados Unidos em 1939, fugindo da conturbada situação da Europa frente à Segunda Guerra Mundial. Nos Estados Unidos a leucemia que acometia Bartók se associou com o desprezo generalizado que o compositor encarou no continente americano. Chegou mesmo a passar fome. Admirador da obra do compositor húngaro Menuhim o procurou em 1944. O instrumentista era jovem, tinha apenas 28 anos de idade, mas confessou à sua família que não achava justo ele próprio ter caches altíssimos enquanto um gênio passava fome. Do próprio bolso pagou uma soma considerável para que Bartók escrevesse para ele uma Sonata para violino desacompanhado. Não só colaborou para a subsistência do compositor e sua esposa como deu destaque à Sonata em um recital no Carnegie Hall, uma das poucas ocasiões felizes nos últimos anos da vida do compositor.

Menuhim e Furtwängler em 1947

Menuhim e Furtwängler em 1947

Yehudi Menuhim e Wilhelm Furtwängler

O maestro alemão Wilhelm Furtwängler (1886-1954) permaneceu atuante frente à Filarmônica de Berlim durante o regime nazista. Isso lhe valeu inúmeras acusações de ter sido um colaborador de Hitler e que deveria enfrentar um tribunal internacional. Yehudi Menuhim, que era judeu, mas que sempre demostrou um comportamento crítico frente à ocupação israelense dos territórios palestinos, resolveu defender abertamente o maestro alemão abrindo mão de qualquer tipo de cache para atuar junto ao maestro quando todos o condenavam. Menuhim via que Furtwängler permaneceu na Alemanha nazista por amor à música e não para dar suporte a um partido político. As apresentações conjuntas do violinista com o maestro começaram em 1947 em Berlim, tendo se repetido em Salzburg, Viena e Lucerna até 1953. Executaram juntos os concertos de Beethoven, Bartók, Mendelssohn e Brahms. As gravações que realizaram mostram o ponto mais alto de Menuhim como violinista.

Yehudi Menuhim e Glenn Gould

Em 1965 Yehudi Menuhim procurava compreender uma das últimas composições de Arnold Schoenberg (1874-1951), a Fantasia para violino e piano opus 47. Com muita humildade foi até o Canadá e procurou um dos mais renomados intérpretes de Schoenberg naquela época, o pianista canadense Glenn Gould (1932-1982). A conversa entre os dois, documentada em vídeo, é uma das mais admiráveis trocas de ideias entre dois grandes artistas. Mesmo com visões conflitantes a execução da obra pelos dois é magnífica. O nível da conversa é de altíssimo nível, e vemos até que ponto a curiosidade de Menuhim, já um nome consagrado, o levava à descoberta de novos repertórios.

Menuhim junto a Ravi Schankar

Menuhim junto a Ravi Schankar

Legado

Além de ter encomendado a Sonata para violino desacompanhado de Bela Bartók e de ter atuado de maneira forte em termos de ensino interação cultural (Ravi Shankar e Stéphani Grapelli) Menuhim legou algumas gravações que permanecem como referências até hoje. As gravações que realizou ainda como adolescente em 1932 e 1933 junto a Georges Enescu mostram um impecável instrumentista. Destaque para a Sinfonia Espanhola de Éduard Lalo que ele gravou em Paris em junho de 1933. Todas as gravações que realizou com Furtwängler são soberbas sobretudo o Concerto de Beethoven gravado em Lucerna em 1947. Como maestro o grande destaque é a integral das Sinfonias de Paris de Joseph Haydn que ele gravou com a Orquestra do Festival Menuhim (Bath) entre 1971 e 1973.

Vídeos e áudio

Menuhim aos 17 anos tocando de maneira impecável a Sinfonia Espanhola de Lalo. Gravação de 1933

A histórica discussão entre Menuhim e Glenn Gould sobre a Fantasia opus 47 de Schoenberg. Legendas em inglês e alemão.

Menuhim se aproximando da cultura indiana através de Ravi Shankar

Enviado por Osvaldo Colarusso, 31/03/16 10:49:25 AM
Ferruccio Busoni, em fotografia de 1895

Ferruccio Busoni, em fotografia de 1895

Nascido em primeiro de abril de 1866 Ferruccio Busoni tornou-se, 150 anos depois de seu nascimento, apenas o sinônimo de alguém que realizou transcrições para piano de obras de Johann Sebastian Bach. Uma grande injustiça, pois, ao mesmo tempo em que foi um dos maiores pianistas de sua geração, foi um importante compositor e sobretudo um dos maiores professores de composição musical de seu tempo. Seu nome de batismo completo, citando três grandes artistas do passado italiano, já parecia prenunciar uma vida rica do ponto de vista intelectual: Dante Michaelangelo Benvenuto Ferruccio Busoni. Nascido na cidade italiana de Empoli (próxima a Siena e Florença, na Toscana) teve em seu pai o seu primeiro professor de música. Criança prodígio explorada ao extremo (declarou certa vez, com mágoa, que não teve infância) já aos 12 anos tinha composto mais de 100 obras, tocado como solista ao piano em dezenas de concertos, e dominava completamente quatro idiomas: italiano, alemão, francês e inglês. Apesar de ser italiano sua formação musical e humanística foi muito mais alemã e se deu principalmente na Áustria (Viena e Graz). Teve boas relações pessoais com Franz Liszt, Johannes Brahms e Gustav Mahler e uma marcante troca de ideias com músicos tão diferentes como Jean Sibelius e Arnold Schoenberg. Depois de ter vivido brevemente em Moscou, Helsinque e Boston fixou-se em Berlim em 1894, só vivendo fora desta cidade nos anos da Primeira Guerra Mundial, época em que viveu na Itália e na Suíça. É em Berlim que Busoni vai falecer, em 1924.

Compositor de alto nível

Como compositor Busoni dominou uma série enorme de formas e estilos. Autor do mais longo e extravagante Concerto para piano e orquestra (uma hora e 20 minutos, tendo ainda a participação de um coro masculino), escrito em 1906, tem obras que realmente valem a pena serem conhecidas pela beleza, ousadia e originalidade. Suas Sonatinas, especialmente a segunda (1912), que revela uma forte relação com o atonalismo e com a liberdade rítmica (não tem indicação de compassos), mostram que Busoni tinha uma mente especialmente aberta. Seu Prelúdio e Estudos em arpejo de 1923 demonstra um fascínio por Debussy e sua ópera inacabada Doktor Faust deixa bem claro que Busoni era muito mais do que apenas um virtuose. Esta obra, cujo libreto é do próprio compositor, é testemunho de um orquestrador refinado, um compositor sofisticado, e um poeta de grande envergadura. Se suas transcrições de Bach se tornaram muito conhecidas até hoje vale a pena lembrar que Busoni realizou transcrições geniais também de obras de Mozart e de Schoenberg. Deste último fez uma transcrição mais “pianística” da segunda das Três peças opus 11. Não mudando uma nota sequer demonstra o respeito que tinha pelo compositor austríaco, discutindo e questionando apenas aspectos instrumentais. Vale a pena lembrar que Schoenberg sucedeu Busoni na cadeira de Composição Musical que Busoni ocupou até sua morte, na Academia de Berlim. Entre os alunos que Busoni teve destacaria Kurt Weill e Edgard Varése.

Mahler, na época em que regeu a estreia de "Berceuse elegíaca" de Busoni

Mahler, na época em que regeu a estreia de “Berceuse elegíaca” de Busoni

Uma obra prima

Há uma obra de Busoni, escrita em 1909, que demonstra a grandeza deste músico. Trata-se da Berceuse Elegíaca para orquestra, cujo subtítulo é “Canção de ninar de um homem diante do caixão de sua mãe”. Esta obra, cujo início inspirou o famoso Concerto para violino “Em memória de um anjo” de Alban Berg (1935), foi estreada no último concerto que Gustav Mahler regeu em 21 de fevereiro de 1911. A originalidade da orquestração (cordas reduzidas no agudo e reforçadas nos graves) demonstram um estilo único, longe de Richard Strauss, Schoenberg ou Debussy. Definitivamente uma obra que demonstra um tipo de maturidade que se manifesta de forma altamente individual. Realmente uma obra prima.

Vídeos relacionados:

Um bela execução da Berceuse elegíaca

A mais ousada obra de Busoni, a Segunda Sonatina

O longuíssimo Concerto para piano e orquestra na vertiginosa versão de Marc-André Hamelin

Enviado por Osvaldo Colarusso, 15/03/16 11:54:14 AM

Lançado no início deste mês, o mais novo CD de Nelson Freire, todo voltado a obras de Bach, nos remete à discussão de se executar compositores barrocos em instrumentos modernos.O grande pianista e teórico americano Charles Rosen (1927-1912), em sua obra “A geração romântica”, afirmava que Chopin amava a obra de Bach pela ótica do piano romântico, onde o uso do pedal ressonante e o possível destacamento de uma voz secundária distorciam e alteravam as ideias do compositor barroco. No entanto esta visão romântica de Bach, segundo o próprio Rosen, deu origem a obras primas incontestáveis do compositor polonês, especialmente seus Prelúdios opus 28 (escritos em 1839), obra estruturada nas 24 tonalidades existentes como Bach fez em seu “Cravo bem temperado”.

A discussão estilística

Quando progressivamente, a partir de 1950, houve a revalorização dos instrumentos de época houve sempre a discussão sobre se a música de Bach para cravo deveria ser tocada nele ou num piano, e muitos viam como um verdadeiro crime tocar Bach ao piano fazendo uso do pedal ressonante. Não há dúvida que muitos pianistas souberam fazer uso inteligente dos recursos de seu instrumento e foram mesmo mais fiéis ao que acreditamos ser o estilo barroco adequado do que muitos cravistas. Exemplo máximo disso foi o pianista romeno Dinu Lipatti (1917-1950), que ao executar a Partita Nº 1 de Bach (existem duas gravações) conseguiu unir a beleza de toque a um rigor admirável. Com um toque mais agressivo marcaram época o canadense Glenn Gould (1932-1982) e o russo Sviatoslav Richter (1915-1997). O exemplo mais notável nos dias de hoje acontece com o pianista húngaro András Schiff, para muitos o maior interprete vivo de Bach ao piano nos dias de hoje. Curiosamente um dos mais rigorosos pianistas em termo de estilo atuaimente é o pianista de Jazz Keith Jarrett. Isso não impede que excelentes pianistas cultivem uma visão mais romântica do compositor alemão, alcançando resultados altamente satisfatórios do ponto de vista instrumental e muito questionáveis do ponto de vista estilístico. É o caso da argentina Martha Argerich, do americano Murray Perahia e do russo Mikhail Pletnev. Ouvir Bach com eles é muito prazeroso para muitos, mas causam um arrepio nos mais exigentes em termos musicológicos.

Um grande pianista romântico toca Bach

Nelson Freire em seu último CD, dedicado a obras de Johann Sebastian Bach, se revela um pianista maravilhoso entre estas duas maneiras de se encarar a música de Bach. Sua visão da Partita Nº 4 em ré maior se afasta de qualquer rigor musicológico (ignora uma boa parte das repetições solicitadas por Bach) e o uso generoso do pedal, especialmente na Allemande, cria uma aura muito mais próxima a Chopin de que a um compositor barroco. Ao contrário, ao executar a Suíte Inglesa Nº 3 em sol menor mantém um rigor estilístico de fazer inveja aos mais exigentes cravistas. Esta alternância se mantém na Fantasia Cromática em ré menor, que ele executa de maneira austera e na Tocatta em dó menor, um item que ele executa de maneira acentuadamente romântica. Nas transcrições feitas de chorais realizadas por Busoni, Silotii e Myra Hess a opção é mesmo um Bach bem “derramado”. No entanto qualquer que seja a visão de estilo a arte de Nelson Freire continua a nos fascinar. Ele permanece como um dos grandes pianistas da atualidade.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 06/03/16 11:21:45 AM
Nikolaus Harnoncourt, grande músico falecido ontem

Nikolaus Harnoncourt, grande músico falecido ontem

Nikolaus Harnoncourt, grande maestro, violoncelista e escritor alemão, faleceu ontem, aos 86 anos de idade em Viena. Harnoncourt era descendente de famílias ligadas à nobreza austríaca e de 1952 até 1969 atuou como violoncelista da Orquestra Sinfônica de Viena, atuando com grandes maestros do passado como Herbert von Karajan, Karl Böhm, Bruno Walter e Otto Klemperer. Apesar da fama destes maestros se irritava com frequência com a maneira que eles executavam obras barrocas e do período clássico. Neste aspecto acabou desenvolvendo inimizade com eles ao fundar o grupo Concentus Musicus Wien, onde os músicos usavam instrumentos de época e executavam as obras dos séculos XVII e XVIII bem longe de uma ótica romântica. Entre as revelações máximas de seu trabalho com este grupo podemos destacar as primeiras gravações completas e com instrumentos de época das óperas de Monteverdi e a primeira integral das Cantatas de Bach que Harnoncourt realizou junto ao grande cravista e maestro holandês Gustav Leonhardt. Nas décadas de 1960 e 1970 executou e gravou de forma radicalmente correta em termos musicológicos as grandes obras sacras e orquestrais de Bach. Nesta época foi severamente criticado, e um exemplo disso é o fato de Karajan ter proibido a entrada dele no Festival de Salzburg, chamando-o de amador e insano. Nikolaus Harnoncourt passou a ser maestro convidado das mais importantes orquestras do mundo a partir de 1980: Orquestra do Concertgebow, Orquestra Filarmônica de Viena, Orquestra Filarmônica de Berlim, Staatskapelle Desden,etc. Seu repertório se expandiu para o século XIX, sendo que suas apresentações (e gravações) das Sinfonias de Beethoven com a Orquestra de câmera da Europa (que usa instrumentos modernos) deu início a uma pratica que mudou completamente a execução de obras tanto de Beethoven como de Mozart e Haydn: a assim chamada execução historicamente informada. Ao utilizar conjuntos de instrumentos modernos Harnoncourt os ensinou a se aproximarem a uma forma “autêntica” de execução. A influência de Harnoncourt neste aspecto é tremenda, e ouvimos seus hábitos e pesquisas nas execuções de grandes maestros como Claudio Abbado, Simon Rattle, Ricardo Chailly, entre outros. Nos últimos anos expandiu ainda mais seu repertório, chegando a reger óperas de Verdi, sinfonias de Bruckner e até mesmo a ópera Porgy and bess de George Gershwin. Mas não há dúvida: seu legado maior é a acurada visão das partituras de Monteverdi, Bach, Mozart, Haydn e Beethoven.

Leituras obrigatórias

Entre os livros de Nikolaus Harnoncourt um é considerado de leitura obrigatória para quem se interessa por música e arte: “Musik als Klangrede”, lançado no Brasil pela Zahar em 1987 como “O discurso dos sons”, na magnífica tradução do cravista Marcelo Fagerlande. Nele fala do afastamento do ser humano de valores espirituais, e discute o empobrecimento de nossa sociedade pelo intenso consumismo. A maneira como justifica os valores musicológicos que defende demonstra que Harnoncourt fez uma extensa pesquisa para realizar o que fez. O livro demonstra que ele foi um intérprete que decididamente sabia o que fazia. Outro livro interessante lançado no Brasil é “Der musikalische Dialog”, em português “O diálogo musical”. Na realidade este livro é uma coletânea dos comentários que ele escreveu nos livretos de suas inúmeras gravações. Foi também lançado pela Zahar em 1993. Menos essencial, mas excelente também.Escrevi aqui no blog um texto sobre o pensamento de Harnoncourt. Leia aqui. (http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/falando-de-musica/inversao-de-valores-num-mundo-materialista/)

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