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Enviado por Osvaldo Colarusso, 30/01/15 10:04:11 AM

Carmina

Fundada em 1987 a orquestra Anima Eterna, sediada na histórica cidade de Bruges na Bélgica, se especializou em execuções de música clássica com instrumentos antigos, de época. Suas primeiras gravações foram elogiadíssimas integrais de sinfonias de Beethoven e Schubert. Seu fundador e atual maestro, o pianista belga Jos van Immerseel, depois de anos executando ao piano e regendo obras do século XVII e XVIII, passou a se interessar pela música do século XX. Suas leituras de obras de Debussy e Ravel, com a orquestra Anima Eterna, foram reveladoras, pois mesmo nestas obras os instrumentos autênticos foram procurados e utilizados. Depois de Mozart, Haydn, Beethoven, Schubert, Debussy, Ravel, chegou a vez de pesquisar a Carmina Burana de Carl Orff, uma das obras mais populares do repertório clássico. Obra baseada em textos medievais autênticos (você pode ler aqui mais sobre a obra), a maioria deles em latim, acabou se tornando a única partitura bem conhecida do autor. Na pesquisa Jos van Immerseel descobriu algo bem revelador: na estreia da obra, por pedido expresso do compositor, o coro e a orquestra utilizados eram bem menores do que se costuma usar hoje em dia (e que ele teria a sua disposição em Frankfurt). Nas execuções numa extensa turnê europeia no ano passado e na gravação em questão a orquestra se utiliza, por exemplo, de apenas 6 primeiros e 6 segundos violinos, como na estreia, e o coro não chega a 50 cantores. Foram procurados instrumentos de sopro utilizados na década de 1930 na Alemanha, e sobretudo foram eliminadas certas confusões estilísticas que em certos trechos levam erroneamente a música parecer ter sido escrita por Puccini ou por algum compositor de trilhas sonoras de Holywood. Coincidentemente na cidade sede da orquestra mora um grande amigo de Orff, Paul Hanouille, que orientou bastante a pesquisa. O resultado é uma clareza bem audível associada a um vigor excepcional. Considero excelente quando um cavalo de batalha como esta obra recebe uma leitura bem diferente. Carmina Burana nesta gravação foi realmente passada a limpo!

Um pequeno grupo nos revela o vigor da obra

Um pequeno grupo nos revela o vigor da obra

Intérpretes ideais

Para esta releitura o maestro Jos van Immerseel contou com interpretes excepcionais. O coro utilizado foi o Collegium vocale gent, especialista em música barroca, famoso por suas apresentações de cantatas e oratórios de Bach com o maestro Philippe Herreweghe. Os solistas são capazes de fugir de qualquer confusão estilística, sobretudo a excelente cantora coreana Yeree Suh, que afasta qualquer “operismo” da famosa seção “In trutina”. Soprano com registro super agudo, canta o ré no final de “Dulcissime” como ninguém. O excelente barítono alemão Thomas Bauer afasta o clima de ópera italiana na dificílima parte “Estuam interius” cantando com vigor numa estética muito mais adequada. O tenor belga Yves Saelens deixa bem claro os sofrimentos do cisne assado, cantando no registro super agudo da forma como o compositor pensou, sem as facilitações que se impuseram pelo modismo de executar a parte com contra tenor. Orff escreveu desta maneira!!! Por ter sido realizada ao vivo nos dias 18 e 20 de fevereiro de 2014 essa execução preserva toda a energia e a surpresa desta nova visão da obra. Este CD merece realmente ser conhecido.

Serviço:

Orff: Carmina Burana
Yeree Suh (soprano), Yves Saelens (tenor), Thomas Bauer (baritono)
Anima Eterna Brugge, Collegium vocale gent & Cantate Domino, Jos van Immerseel
Zig-Zag Territoires. No iTunes store pode ser baixada por U$9,99. Nas principais lojas de disco em torno de R$ 70,00.

Um vídeo (em flamengo com legendas em francês) sobre a turnê e sobre a gravação

Enviado por Osvaldo Colarusso, 25/01/15 7:03:37 PM
Curitiba em 1975: apaixonante

Curitiba em 1975: apaixonante

No mês de janeiro de 1975 saía pela primeira vez do Estado de São Paulo. Com 16 anos de idade, jovem músico estudando trompa, vim para a Capital Paranaense atraído pelo VIII Curso Internacional de música do Paraná, evento que duraria do dia 2 de janeiro até o dia 4 de fevereiro. Isso significa que passei mais de um mês em Curitiba, e que fiquei completamente apaixonado pela cidade. Já naquela época a cidade de São Paulo era caótica (não tanto quanto hoje), violenta (idem) e poluída. Dava para sentir a diferença. Na minha chegada vi que a cidade tinha uma fantástica Estação Rodo – Ferroviária, recém inaugurada. Ao me locomover para a Central Administrativa do Curso, percebi que em termos de transporte coletivo, a coisa era infinitamente melhor do que em minha cidade. A cidade contava com o primeiro calçadão do país, ideia ousada para aquela época. Outra coisa que me impressionou foi a limpeza e a quantidade de árvores. Mas tinha ainda mais: no dia 5 de janeiro daquele ano entrei pela primeira vez no recém inaugurado Teatro Guaíra. Mais um motivo para me apaixonar.

Entrega de certificados em 1975. Ao centro o compositor Osvaldo Lacerda. Da esquerda para a direita Padre José Penalva e Maestro Roberto Schnorrenberg

Entrega de certificados em 1975. Ao centro o compositor Osvaldo Lacerda. Da esquerda para a direita Padre José Penalva e Maestro Roberto Schnorrenberg

Músicos paranaenses

Àquela altura não tinha a menor ideia de que Curitiba viria a ser minha cidade. Julgava isso impossível pelo fato de que Curitiba naquela época não tinha nenhuma orquestra profissional. Depois de todo o deslumbramento pela cidade fiquei impressionado com o alto nível dos músicos paranaenses que conheci naquele Curso e no Festival que ocorria junto àquele evento. O primeiro músico daqui que me impressionou foi o Padre José Penalva (1924-2002). Compositor excepcional me encantou também como regente coral. Durante os Concertos do Festival (foram 37) ouvi o som de flauta mais belo que já tinha escutado através de um instrumentista nascido na cidade, Norton Morozowicz, e uma pianista paranaense, Maria Leonor Mello Macedo, que acompanhou o grande tenor Aldo Baldin no ciclo de canções de Schumann “Amores de um poeta”, se equiparando aos grandes pianistas de “Lied” do mundo. Pude constatar também o excelente trabalho da maestrina Hildegar Soboll Matins dirigindo a Orquestra Juvenil da Universidade Federal. Mas uma coisa que me fascinou muito na Curitiba de janeiro de 1975: o público dos concertos. Mesmo nos concertos de música de Câmera o recém inaugurado Teatro Guaíra estava sempre lotado. Curitiba era realmente, naquela época, uma cidade fascinante.

A histórica apresentação da Missa Solemnis de Beethoven no Theatro Guaíra. Estou entre os coralistas

A histórica apresentação da Missa Solemnis de Beethoven no Theatro Guaíra. Estou entre os coralistas

Há 40 anos, o fantástico VIII Festival de música de Curitiba

O VIII Festival de música e o VIII Curso Internacional de Música do Paraná eram eventos promovidos pelo Governo do Estado do Paraná, através de sua Secretaria de Educação e Cultura. A Diretora Artística do evento era a grande pianista paranaense, que viria a se tornar uma grande amiga minha, Henriqueta Garcez Duarte. No entanto o “cérebro” do festival era o Maestro Roberto Schnorrenberg (1929-1983). Homem extremamente culto e tremendamente organizado, foi o responsável por uma programação que rivalizava com os grandes festivais de música da Europa e dos Estado Unidos. Para lecionarem e se apresentarem nos concertos foram trazidos alguns dos melhores instrumentistas do planeta como o oboísta Ingo Goritzki, o clarinetista Waldemar Wandel (os dois alemães), os fagotistas Noel Devos (francês, radicado no Brasil) e Helman Jung (alemão), entre inúmeros outros. Para reger a fantástica orquestra de professores se alternaram, além de Schnorrenberg, o americano Howard Mitchell (naquela época diretor musical da Orquestra de Washington) e o paranaense Alceu Bocchino. Veio para o festival/curso o notável Quarteto Wilanow, naquela época o melhor quarteto de cordas da Polônia. Nos concertos eles realizaram a primeira audição brasileira de obras de Lutosławski e de Penderecki. Aliás, da Polônia veio também o excelente compositor Krzysztof Meyer, professor que me influenciou bastante. Eu assisti a todos os concertos e asseguro que uma data deste festival permanece histórica: em 17 de janeiro o violinista Erich Lehninger, o violoncelista Watson Clis e o pianista Gilberto Tinetti, foram “selecionados” por Schnorrenberg para executarem o Trio em lá menor de Maurice Ravel. O resultado foi tão brilhante que resolveram não parar de tocar juntos. Por 4 décadas eles formaram o “Trio brasileiro”, um de nossos melhores conjuntos de câmera. Para encerrar o Festival/Curso, todos os alunos e a orquestra de professores executaram por três vezes a Missa Solemnis de Beethoven, uma das mais complexas obras para coro e orquestra de toda a literatura. Entre os solistas dois que fariam, a partir destes concertos, sólidas carreiras internacionais: o contralto argentino Margarita Zimmerman e o tenor brasileiro Aldo Baldin. Pouca gente sabe, mas foi feita uma excelente gravação das apresentações desta Missa de Beethoven. Vale a pena lembrar que 200 alunos não residentes em Curitiba tinham hospedagem e alimentação garantida pelo curso. Por mais de um mês morei na “Sala dos outros” da Casa do Estudante Paranaense, dividindo beliches com músicos que viriam a ser bem conhecidos como Fabio Mechetti, Gerardo Gorosito e Marcelo Verzoni.

O Colégio Estadual do Paraná, local dos cursos . Foto de 1975

O Colégio Estadual do Paraná, local dos cursos . Foto de 1975

A famosa “antropofagia” paranaense

Voltei a Curitiba em 1977, de novo para participar, desta vez como aluno e como professor assistente, do IX e último Festival de música de Curitiba. Este IX festival foi ainda melhor em alguns aspectos, e só voltei aqui em 1985, para fazer o Concurso que me fixaria definitivamente por aqui. Foi só quando me tornei um cidadão paranaense é que, em conversas com as pessoas responsáveis pelos Festivais, descobri que os mesmos deixaram de existir por uma enorme dose de “oposição” das assim chamadas “forças ocultas”. Pude perceber em 1985 como os Festivais eram indesejados, especialmente pelas pessoas que uniam a política com a cultura. Pessoas que pensavam que o Festival era uma coisa de “paulistas e cariocas”, e que os paranaenses ficavam apartados do grande evento. Tendo sido aluno, e aluno/professor assistente, nestes Festivais, pude constatar exatamente o contrário. Em dados que consegui obter entre meus documentos, no VIII festival de um total de 669 alunos, 458 eram do Paraná. Foram executadas obras de diversos compositores locais, como Henrique de Curitiba, José Penalva e Alceu Bocchino, defendendo a música brasileira junto a Osvaldo Lacerda e Edino Krieger. Não é demais lembrar que 10 dos professores do curso eram paranaenses. Os Festivais foram substituídos pelas Oficinas de Música de Curitiba. No início estas duravam a metade dos antigos Festivais. Hoje a parte clássica do evento dura um terço do que duravam os antigos Festivais. Fica uma pergunta perturbadora: o Estado do Paraná era mais rico em 1975? Desconfio que não. E quanto à Curitiba que conheci em 1975…essa, infelizmente, quase não existe mais.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 21/01/15 10:46:45 AM
Uma mulher usando um "niqab"

Uma mulher usando um “niqab”

Um acontecimento, discretamente comentado na imprensa europeia, adquiriu uma importância considerável depois do atentado ocorrido em Paris no último dia 7 de Janeiro, quando na redação e nos arredores da publicação “Charlie Hebdo” 12 pessoas foram mortas por terroristas islâmicos. O que ocorreu deu-se no dia 3 de outubro do ano passado, na Opéra Bastille, a maior sede da Ópera de Paris. Vale a pena conferir passo a passo o que ocorreu.
Naquela noite aconteceria mais uma récita de La Traviata, de Verdi, uma das óperas favoritas do público que gosta do gênero lírico. Quando a obra começou, durante o Prelúdio, pouca gente notou que havia na primeira fila um casal, que ficou se sabendo depois, que eram turistas vindo de um país do Golfo Pérsico. O homem, trajado de roupas tipicamente árabes e a mulher com uma burka, ou como se diz por lá, um “niqab”, uma vestimenta que esconde totalmente a mulher, e deixa de fora apenas os olhos. Quando terminou o Prelúdio a cena descrevia uma festa na qual estavam Violetta Valéry (que estava sendo cantada pelo soprano albanesa Ermonela Jaho) e Alfredo Germont (que estava sendo interpretado pelo tenor espanhol Ismael Jordi). O grande coro, pôde perceber aquela mulher logo atrás do maestro com aquela curiosa vestimenta. O problema é que um pânico se instalou no coro pelo fato do maestro daquela récita ser um israelense, Dan Ettinger. Depois do famoso “brindisi” o coro sai de cena e deixa no palco apenas o par romântico. Foi durante o dueto de amor que a confusão se formou. O Coro ameaçou não continuar, e dizia para a segurança que era muita coincidência aquela mulher vestida daquela maneira bem atrás do maestro israelense. Sem o público saber, uma força policial foi armada, e em segredo foi entregue um bilhete ao maestro dizendo que havia um problema mas para que ele não parasse de jeito algum. De forma bem discreta, um policial à paisana foi até o casal, que tinha pago exatamente 231 euros por cadeira, e alertou que a mulher, se quisesse assistir a ópera, teria que tirar o tecido que cobria sua cabeça. O marido retrucou que a vestimenta era uma peça única. A pequena discussão alarmou quem estava sentado ao lado (e que tinha também pago os tais 231 euros). O marido e a mulher depois de uma breve conversa em árabe se retiraram. Não houve ressarcimento dos ingressos.

O teatro da Opera Bastille

O teatro da Opera Bastille

O que a imprensa discutiu na época é como os funcionários do Teatro permitiram que uma mulher entrasse no recinto usando uma vestimenta proibida em lugares públicos na França desde 2010. Como o controle não funcionou? O que se soube a posteriori é que o casal comprou os ingressos através de um “concierge” de um dos mais luxuosos hotéis da capital francesa, e que o marido era um milionário que atua na área petrolífera.
O que se percebe em todo este fato é que a histeria foi provocada pelo coro, que via o maestro israelense correndo risco de vida. Uma histeria que poderia ser encerrada 20 minutos depois, quando o Primeiro Ato termina, e quando o casal poderia ser convidado a se adequar ou se retirar. Fica claro o pânico em que se vive por lá, pânico num certo sentido justificado, tendo em vista o atentado que aconteceu três meses depois. Mas tenho certeza que tal fato, se contecesse depois de 7 de janeiro, teria contornos ainda mais escandalosos. Copio aqui o final da matéria sobre o evento no exemplar de Dezembro da revista Diapason: “O ocorrido não questionou o que o casal chegou a pensar da mulher sem véu, Violetta Valéry, uma “mulher mundana” que se colocou a serviço das leis e dos desejos dos homens.” Sábias palavras. Não é apenas o “niqab” que oprime as mulheres.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 12/01/15 11:11:08 AM

Oficina

Dentro da excelente programação artística da 33º Oficina de Música de Curitiba, haverá nesta quinta-feira, dia 15, às 20:30 no Guairinha, um concerto que se destaca tanto pelos intérpretes como pelas obras a serem executadas. Vejo este evento como o ponto culminante desta excepcional programação. Trata-se de um concerto camerístico em que se interpretarão dois quintetos de cordas: o de Mozart, para dois violinos, duas violas e violoncelo em Sol menor, IK 516, e o Quinteto em Dó maior para dois violinos, viola e dois violoncelos ID 956 de Schubert. Obras escritas em Viena, respectivamente em 1787 e 1828. Duas obras primas inquestionáveis, que não são executadas em Curitiba há muitas décadas!

Mozart em um retrato inacabado e anonimo

Mozart em um retrato inacabado e anonimo

Mozart – A linguagem dramática em meio à música de câmera

O grande pianista e musicólogo americano Charles Rosen (1927-1012) diz em seu livro “O estilo clássico” que as mais perfeitas obras camerísticas de Mozart são seus Quintetos de Cordas. Ao escrever quintetos com dois violinos, duas violas e um violoncelo, Mozart tinha a ideia de, ao tocar a primeira viola, ficar bem no meio do conjunto. O único Quinteto originalmente pensado para cordas em uma tonalidade menor é este, catalogado por Köchel como número 516, escrito no mesmo ano da ópera Don Giovanni, 1787. O ambiente dramático do teatro de ópera permeia esta partitura, e quase podemos perceber os suspiros e as angustias de personagens da referida ópera como Dona Anna e Dona Elvira. Mesmo no “Minuetto”, os acordes dramáticos nos tempos fracos nos levam a este tipo de dramaticidade. A introdução lenta do último movimento está entre as páginas mais belas e dramáticas do autor e mais “teatral” ainda é a guinada completa que acontece no final da obra: depois de cores pesadas e sombrias o Quinteto termina com uma afirmação inquestionável de amor à vida em uma tonalidade maior. Além destes aspectos este quinteto do ponto de vista de sua arquitetura é das obras mais equilibradas e perfeitas do classicismo musical. Drama, perfeição formal, soberba escrita para os cinco instrumentos: estamos aqui frente a uma inquestionável obra prima.

Schubert visto pelo pintor Gustav Klimt

Schubert visto pelo pintor Gustav Klimt

Schubert – O embate da vida e da morte no final da vida do autor

Escrito dois meses antes da prematura morte do compositor, em setembro de 1828, o Quinteto de Schubert, catalogado por Deutsch como Nº 956, é uma das composições em que mais se sente o limiar entre a vida e a morte que o autor vivia. Schubert, aos 31 anos de idade, tinha consciência de que seu fim era iminente. No último ano de sua vida escreveu freneticamente obras longas e densas: As três últimas sonatas, a Missa em Mi bemol maior, o ciclo de Canções “Viagem de inverno”, e muitas outras, a ponto de se supor que o autor dormia em 1828 menos de quatro horas por noite, tal a quantidade de música que ele escreveu neste período. O Quinteto em Dó maior, cuja cor dramática é reforçada pelas cores graves de seu segundo violoncelo, associa este drama pessoal do autor com um equilíbrio que o tornam um sério concorrente de ser a obra máxima do autor.
Desde o início essa justaposição de claro e escuro se faz presente: um suave acorde de dó maior é subitamente transformado num acorde dissonante (sétima diminuta) voltando para o acorde inicial. Outro contraste neste início: a frase em dó maior é respondida em um tom menor (ré), marcando a entrada do segundo violoncelo no conjunto. O primeiro movimento respira o tempo todo este tipo de ruptura. O segundo movimento começa com uma plácida melodia em textura de Choral, sublinhada por suaves pizzicatos do primeiro violino e do segundo violoncelo. O pianista polonês Artur Rubinstein (1887- 1982) se referia a este trecho como a visão musical mais precisa do que seria a paz que a morte traria. Mas tanta paz é perturbada por uma tempestuosa passagem que revela de forma clara esta luta final. A Paz volta na seção final do movimento, mas nos últimos compassos a tempestade aparece de forma velada. No Scherzo mais uma vez o claro e o escuro: início sonoro em dó maior, referências a sons festivos dá lugar a algo excepcional, nunca visto antes: em meio ao Schezo em Dó maior surge um sombrio Trio em Ré bemol maior. Belas nuvens escurecem a paisagem. Schubert nos faz viajar em meio a sua luta. No movimento final esta luta de claro e escuro continua. O movimento começa em dó menor, apresentando ideias alegres em meio a climas angustiantes. O Final da obra deixa aberta esta dúvida: o dó final é precedido por um ré bemol ameaçador. Schubert abre sua alma e nos revela o magnífico compositor que era.

Intérpretes

Obras excepcionais, há muito tempo não executadas em Curitiba são ainda mais valorizadas pelos intérpretes que as executarão: o Quarteto Carlos Gomes, formado pelos instrumentistas Cláudio Cruz (o diretor artístico do evento) e Adonhiran Reis – violinos, Gabriel Marin -, viola e Alceu Reis – violoncelo recebem dois instrumentistas excepcionais: a violista americana Jennifer Stumm no quinteto de Mozart e o brasileiro mundialmente conhecido, o violoncelista Antônio Menezes no Quinteto de Schubert. Ao que parece uma noite histórica na 33ª oficina de música de Curitiba.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 07/01/15 11:28:31 PM

Oficina

A programação artística da 33ª Oficina de Música de Curitiba, na parte clássica do evento, é a primeira grande surpresa de 2015. De 8 a 17 de janeiro Curitiba assistirá uma programação recheada de obras importantes na evolução da música clássica ocidental, sobretudo no aspecto da Música de Câmera. Ao contrário de anos anteriores, quando as boas surpresas vinham apenas do núcleo de Música Antiga, desta vez a curadoria exercida pelo violinista e maestro Claudio Cruz faz com que as boas surpresas aconteçam quase que diariamente.
Não pretendo, por questões éticas, me ater muito na questão dos intérpretes, mas me sinto bem à vontade de esmiuçar as preciosidades de um repertório que decididamente merece ser prestigiado.

O violoncelista Antonio Meneses: participação nos concertos do dia 15 e do dia 17

O violoncelista Antonio Meneses: participação nos concertos do dia 15 e do dia 17

Tesouros da Música de Câmera

O ponto alto desta excelente programação podemos observar nos concertos camerístico. A coisa começa a esquentar na sexta-feira, dia 9 de janeiro, quando na Capela Santa Maria às 20:30 horas serão apresentadas duas obras máximas da música de câmera com piano do romantismo musical: O Quinteto em Mi Bemol Maior opus 44 de Schumann e o Quarteto com piano Nº 3 em Dó menor de Brahms. Não sei se foi por acaso, mas até as tonalidades são bem próximas, e além disso nesta noite poderemos sentir de maneira bem evidente a arte de Schumann sendo levada à frente por seu amigo mais jovem, Brahms. No sábado, no Teatro Paiol às 18:30 outro programa que merece ser prestigiado. Desta vez a temática é a Música de Câmera com clarinete. Nada mais apropriado do que se escutar aquela que para muitos é a obra prima camerística de Johannes Brahms: O Quinteto em si menor opus 115 para Clarinete e Quarteto de Cordas, uma das obras primas do mestre. Que lindo, no ocaso da vida do compositor, escutar a contínua indecisão entre tons maiores e menores. Imperdível!!! Sei que prometi não me ater muito a intérpretes, mas Marcelo Oliveira ao clarinete tocando Brahms foi para mim uma das grandes surpresas no ano passado. No Concerto do dia 10, domingo, na Capela Santa Maria às 20:30 horas, o destaque serão as obras do compositor Karol Szymanowski executadas pelo seu quase homônimo, o pianista polonês Michal Karol Szymanowski. Raramente escutadas por aqui serão ouvidas do compositor polonês um Estudo do início da produção do mestre e uma Mazurka do final de sua vida: imperdível. Mas o ponto máximo de toda esta programação acontecerá no dia 15, quinta-feira. Felizmente o local do concerto foi mudado. Ao invés do Guairão este concerto acontecerá no Guairinha, muito mais apropriado para este tipo de repertório. Quando falo de ponto culminante de toda esta programação parto do fato que neste programa serão executadas obras rarissimamente apresentadas no Brasil. Tendo como interpretes alguns instrumentistas mundialmente famosos ouviremos o Quinteto para dois violinos, duas violas e violoncelo em Sol Menor IK 516, uma das mais profundas composições camerísticas de Mozart, e na segunda parte o notável Quinteto para dois violinos, viola e dois violoncelos em Dó maior ID 956 de Schubert. Quando constatamos a excelência dos interpretes chegamos à conclusão que este concerto poderia ser apresentado em qualquer grande capital cultural do mundo. Na obra de Mozart o Quarteto Carlos Gomes recebe como convidada a violista americana Jennifer Stumm, atual professora de seu instrumento no Royal College of Music em Londres. Na obra de Schubert o quarteto recebe um dos músicos brasileiros atuantes em música clássica mais conhecidos internacionalmente: o violoncelista Antônio Meneses.

A Oferenda Musical completa de Bach: programa imperdível do dia 12

A Oferenda Musical completa de Bach: programa imperdível do dia 12

Música Antiga: as boas surpresas mais uma vez

Rodolfo Richter, como em outras edições, traz músicos e músicas excepcionais para a Oficina de Curitiba. Neste ano a ênfase é colocada em compositores barrocos tchecos e em mestres poucas vezes ouvidos por aqui. No dia 10, sábado,na Capela Santa Maria às 20:30 horas,serão apresentadas obras de Biber, Schmelzer, Zelenka, Erlebach, Jiránek e Reichenauer num concerto chamado de “Stylus Phantasticus”. E no dia 12 de janeiro, segunda –feira, no Teatro Paiol, às 18:30, será apresentada em primeira audição local a Integral da Oferenda musical de Bach. Todos os Ricercares, Canons e o trio Sonata que formam esta que é uma das últimas obras de Bach, numa apresentação que mereceria ser repetida em outro lugar. Um acontecimento.

Para não dizer que não falei das orquestras…

Os concertos de abertura, hoje dia 8, com a Orquestra de Câmera de Curitiba, e o Concerto de encerramento, no Guairão no dia 17 com a Orquestra da Oficina, ambos regidos por Cláudio Cruz, tem itens que os tornam também obrigatórios. Destaque para o Concerto para Violoncelo e Orquestra de Elgar (dia 17) tendo como solista Antônio Meneses. Mais uma pérola nesta programação preciosa. Parabéns a todos, Claudio Cruz, Rodolfo Richter e Janete Andrade (coordenadora administrativa do evento). Cumpre a Curitiba prestigiar tanta música boa. Caso você deseja ver toda a programação da 33ª Oficina de Música de Curitiba consulte o síte http://www.oficinademusica.org.br

Enviado por Osvaldo Colarusso, 28/12/14 8:29:19 PM
O Papa Francisco ouvindo Et icarnatus da missa em Dó menor de Mozart

O Papa Francisco ouvindo Et icarnatus da missa em Dó menor de Mozart

O argentino Jorge Mario Bergoglio, O Papa Francisco, é o primeiro Papa nascido no continente americano, o primeiro pontífice não europeu em mais de 1200 anos e também o primeiro papa jesuíta da história. Além de tantas novidades ele não para de nos surpreender com opiniões ousadas e gestos impensáveis para um sumo pontífice. Uma Igreja que anteriormente renegava casais vindos de um divórcio, gays, e que tinha uma visão bastante estreita sobre o criacionismo, assume um ar bem mais tolerante nos gestos e na prática de seu mandatário. Nas últimas semanas até mesmo os animais mereceram uma menção esperançosa do sumo sacerdote, e na reunião que teve com a Cúria Romana na semana passada acusou frontalmente os velhos e renitentes sacerdotes que administram o Vaticano de terem ”Alzheimer espiritual”, “terrorismo de fofocas”, “esquizofrenia existencial”, “exibicionismo mundano”, “narcisismo falso” e “rivalidades e vanglória”. Enfim, a carismática imagem do atual Papa, nos surpreende quase que semanalmente com seus gestos e palavras.

Mozart, no lugar do tradicional Canto Gregoriano

Na última Missa do Galo, a tradicional cerimônia na noite do dia 24 de dezembro, o Papa Francisco nos surpreendeu de novo. Por sua escolha foi colocada no meio da tradicional celebração o “Et incarnatus est” da missa em dó menor de Mozart. O texto do “Et icarnatus est” fala diretamente sobre o que deveria ser comemorado no natal, e que passa ignorado pela maioria das pessoas: o nascimento de Jesus.

Eis o texto em latim:
Et incarnatus est de Spiritu Sancto,
Ex Maria Virgine: et homo factus est.

E em português:
E encarnou pelo poder do Espírito Santo,
Nascendo da Virgem Maria: e fez-se homem.

Tal inserção é uma absoluta novidade nesta tradicional liturgia. O Canto Gregoriano cedeu então espaço para uma das mais geniais concepções musicais focadas no nascimento de Jesus.

Mozart

Mozart

Mozart e o dogma cristão

Esta ária para soprano e orquestra faz parte de uma das mais importantes obras sacras de Mozart, a Missa em Dó menor IK 427, que assim como o seu famoso Requiem permanece inacabada. Não pela morte do autor, mas por algum motivo misterioso ele não compôs mais da metade do Credo e nem a parte final da missa, o Agnus Dei. Esta ária, que foi executada na missa do galo, é para soprano coloratura, o que, ao que parece, era o registro vocal da esposa de Mozart.
O Papa com certeza sabe que este trecho da Missa em dó menor tem uma estreita relação com o mistério deste dogma que diz que Deus se fez Homem. Por isso Mozart coloca a voz do soprano junto a três instrumentos de sopro solo (Flauta, oboé e fagote), realizando uma verdadeira alquimia sonora. A voz do soprano se funde aos solos instrumentais, assim como Deus se fundiu entre os seres humanos. O sentido é claro, e a perspicácia do Papa é considerável. E que alegria ouvir aquela divina música e ver ao mesmo tempo aquelas grandes realizações artísticas encontradas na Basílica de São Pedro como o baldaquino de Bernini e dentro daquele grande projeto arquitetônico que teve como um dos responsáveis Michelangelo. Durante toda a execução da obra de Mozart, por mais de 8 minutos, o papa, visivelmente cansado, ficou de joelhos. Vê-lo concentrado ouvindo esta obra foi outra imagem sensacional junto a esta divina composição musical.

A sabedoria do Papa

Quem a interpretou foi a cantora israelense Chen Reiss, e quem regeu foi o maestro austríaco Manfred Honeck. Quem tocou foram membros da Orchestra dell’Accademia Nazionale di Santa Cecilia de Roma. 24 horas antes da missa o papa foi avisado que a cantora era judia. A resposta foi digna deste grande Homem: “Nada contra, afinal a Virgem Maria também era judia”.

Vídeo

Eis o Credo completo da última Missa do Galo. Aos dois minutos começa a ária de Mozart

Enviado por Osvaldo Colarusso, 18/12/14 11:04:55 AM
Villa Lobos ao violão

Villa Lobos ao violão

Seguindo os passos da OSESP a excelente Orquestra Filarmônica de Minas Gerais iniciou sua carreira discográfica internacional junto ao selo NAXOS. Este selo, que revolucionou o mercado discográfico há 30 anos, apresentando artistas novos e um repertório inédito, tem se revelado nos últimos anos um selo sobre o qual reina um certo descrédito. Se, por um lado, NAXOS dá sequência a projetos importantes como por exemplo a integral das Sinfonias de Villa-Lobos com a OSESP e os Quartetos de Hindemith com o Quarteto Amar, tem abrigado também artistas de capacidade duvidosa que tenham um bom patrocínio por trás. Dois grandes instrumentistas brasileiros, que já atuaram com o selo NAXOS, me confidenciaram que a gravadora atualmente não se importa em receber tudo prontinho e empresta seu nome para o lançamento do CD, ficando com o eventual lucro, não pagando nada para os artistas. Só isso para se explicar a atuação de um violonista bem mediano como o italiano Andrea Bissoli, “estrela” de uma série de dois CDs da gravadora: “Villa-Lobos: os manuscritos para violão”. O violonista completa obras bem desinteressantes de um Villa-Lobos ainda adolescente, executa transcrições de Pujol, e apesar do subtítulo da série falar de “obras desconhecidas” executa, de forma sofrível, a famosa Aria das Bachianas brasileiras Nº 5 junto a uma cantora italiana (Lia Serafini) que canta num idioma ininteligível. O violonista executa também, de forma escolar e metronômica o” Sexteto Místico”, com um grupo italiano chamado Ensemble Musagete. As coisas melhoram um pouco nas obras para violão e orquestra, não pelo solista que toca tudo “certinho” e de forma aborrecida, e sim pela excelente Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Fico imaginando este acompanhamento orquestral, de nível internacional, junto a violonistas como Fabio Zanon, Edelton Gloeden, Paulo Porto Alegre, Paulo Pedrassoli e muitos outros. Estas execuções do “Concerto para violão” e da “Introdução aos Choros” passam desapercebidas frente aos registros antológicos de Zanon e OSESP (Introdução aos Choros) e Timo Korhonen e Sakari Oramo (Concerto).

A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais tocando em Campos do Jordão

A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais tocando em Campos do Jordão

O nível é completamente outro (muito mais alto) quando ouvimos a única faixa dos dois Cds sem violão. Apesar do título falar de “manuscritos para violão”, no segundo volume há uma excelente versão do “Choros Nº6”, uma das composições orquestrais mais importantes de Villa-Lobos. Ignorando o título da série, por quase meia hora temos um registro sinfônico que faz justiça a esta obra prima. Não me sinto muito à vontade de comentar o trabalho de um colega (o maestro Fabio Mechetti), mas esta maravilhosa versão merecia estar fora desta série. Cumpre dizer que há outra maravilha nestes Cds: a atuação (infelizmente em uma única faixa) da brasileira Gabriela Pace na “Canção de amor” de “A floresta do Amazonas”. Voz linda e dicção maravilhosa.
Esta série, por razões óbvias, passou desapercebida da grande imprensa internacional especializada em música clássica. Nem a Diapason, nem a BBC Music ou a Gramophone comentaram a série. Uma pena. Quem sabe a Filarmônica de Minas Gerais um dia inclui essa linda gravação do “Choros Nº 6” num CD só com obras orquestrais de Villa-Lobos. Esta lapidar leitura merece. Voce pode baixar estes Cds no iTunes ou no site classicsonline.com (U$ 7,99) ou comprar no site www.arlequim.com.br (R$ 48,00 cada disco, uma exploração, já que no site Amazon.com está por volta de U$ 4 ).

Enviado por Osvaldo Colarusso, 06/12/14 3:26:42 PM
Maria Callas, em uma sessão de gravação em Londres, 1962

Maria Callas, em uma sessão de gravação em Londres, 1962

Maria Callas (1923-1977) foi a mais popular cantora lírica do século XX, e sem dúvida nenhuma uma das maiores. Sua carreira teve o auge em meados dos anos 50 e seu desastroso relacionamento com o milionário grego Aristoteles Onassis, a partir de 1958, comprometerá decisivamente a qualidade de sua técnica. Sua carreira como cantora lírica, em óperas encenadas, terminará prematuramente em 1965, e até 1974 ela insistirá em cantar em gravações de estúdio e em desastrosos recitais. Aqui no blog há um texto onde você poderá saber mais detalhes da vida desta grande artista (acesse aqui). O legado discográfico de Maria Callas é um dos mais preciosos de toda a história da gravação, sendo que seus primeiros registros datam de 1949 e os últimos de 1969. A Warner, que comprou em 2013 o selo EMI Classics, acaba de realizar um excelente trabalho de restauro de todas as gravações de estúdio que a cantora realizou. Um trabalho apurado que merece todos os elogios.

O mítico Abbey-road studio, local das novas remasterizações das gravações de Maria Callas

O mítico Abbey-road studio, local das novas remasterizações das gravações de Maria Callas

A segunda remasterização

Há 25 anos, quando surgiu o CD, a EMI, como outras gravadoras, realizou desastrosas remasterizaçoes de gravações que tinham sido lançadas em LP. Um som “achatado” e sem brilho arruinou diversas gravações de referência, e o mesmo se passou com as gravações de Callas. No mítico estúdio da Abbey Road (o local das gravções dos Beatles), em Londres, uma equipe de técnicos – Simon Gibson, Allan Ramsay e Ian Jones, restauraram meticulosamente mais de 60 horas de gravações. O resultado é um álbum com 69 CDs, acompanhados de um CD Rom com todos os textos das obras registradas e um livro de 136 páginas com capa dura, com diversas fotos inéditas. Este álbum no site americano “Amazon.com” aparece pelo notável preço de U$ 165,00 (U$2,50 por cada disco), sendo que lamentavelmente este magnífico preço fica meio que comprometido para nós brasileiros pelos impostos de importação. Já no site brasileiro “cdpoint.com.br” o preço é bem salgado: R$ 1.207,39 (R$17,50 por CD). Mesmo com todos os impostos e o frete o preço do site americano é menos do que a metade do site brasileiro. A boa notícia é que a gravadora a partir deste mês lança os diversos itens separadamente. Desta forma podemos escolher os itens que nos interessa, apesar de perdermos este livro que imagino ser bem interessante.

A coleção completa

A coleção completa

Resultado magnífico

Pude ouvir três itens lançados nesta nova remasterização: Cenas de loucura (Mad scenes), de 1956, Arias líricas e de coloratura (Lyric and Coloratura Arias), de 1954 e a “Tosca” de Puccini gravada em 1953. No primeiro destes itens Callas canta com a Philharmonia Orchestra regida por Nicola Rescigno e interpreta de maneira estonteante cenas de Hamlet de Thomas, Anna Bolena de Donizetti e nos deixa sempre de queixo caído com a cena final de Il Pirata de Bellini. Sempre achei este um dos melhores testemunhos discográficos da cantora, mas ouvi-lo com esta nova roupagem nos deixa ainda mais perplexo. A equipe conseguiu um balanço entre a orquestra e a voz muito próximo do ideal. Em uma palavra: fantástico. O segundo item que ouvi, “Lyric and Coloratura Arias” foi gravado em Londres também com a Philharmonia Orchestra regida por Tulio Serafin. Nele fica demonstrada a versatilidade da cantora que numa mesma sessão canta árias dramáticas como “La mamma morta” de Giordano e uma ária de coloratura como “Ombra leggera” de Meyerbeer. O mito fica aqui ainda mais demonstrado por uma remasterização exemplar. A “Tosca” de 1953 (ela gravaria de novo em 1965, sua última gravação de uma ópera completa) é considerada por muitos a sua melhor gravação de uma obra lírica. Regida pelo grande maestro Victor de Sabata, Callas atua junto a Giuseppe di Stefano e Tito Gobbi. Mais uma vez o resultado desta nova edição nos torna evidente a grandeza desta interpretação.

Callas, para sempre

Este novo lançamento de gravações, com mais de 50 anos de idade, nos mostra a atualidade e a permanência desta grande artista. A única coisa que lamento é a exclusão de uma gravação que não foi realizada em estúdio mas que merecia estar nesta coleção: a Lucia di Lammermoor de Donizetti, gravada ao vivo em 1955 em Berlim, regida por Herbert Von Karajan. Mas mesmo assim a série é fantástica e penso seriamente em adquiri-la completa, mesmo pagando os malfadados impostos. Callas merece.

Aqui vai uma entrevista em inglês com os engenheiros responsáveis pela remasterização

Enviado por Osvaldo Colarusso, 03/12/14 7:52:25 AM
Villa-Lobos ao piano

Villa-Lobos ao piano

Há 20 anos começava uma epopeia

Gravar a obra integral para piano solo de Heitor Villa-Lobos é uma árdua tarefa. São mais de dez horas de música! Já houveram algumas tentativas que acabaram ficando incompletas sendo um lamentável exemplo o da excelente pianista Debora Halasz para o selo BIS, que parou na metade. Coincidentemente as duas únicas pianistas a concluírem este ambicioso projeto para selos internacionais nasceram em Campinas, de famílias de origem judaica, e eram até meio aparentadas. A primeira delas foi Anna Stella Schic (1925-2009), que terminou sua epopeia em Paris em 1980. Ao contrário de Sonia Rubinsky, no entanto, gravou para um selo praticamente desconhecido, Solstice. Naquela época a gravação ocupava mais de dez Lps, e quando a série foi passada para CD lembro que os elogios da crítica especializada foram unânimes, e, como de costume, esta histórica gravação passou desapercebida por aqui. A segunda pianista a concluir este árduo trabalho, como disse, foi Sonia Rubinsky. Há exatos 20 anos ela gravou um CD para o selo NAXOS com obras de Villa-Lobos, gravação esta realizada em Santa Rosa na Califórnia. Pelo que a própria Sonia Rubinsky me contou, este CD não faria parte de nenhuma integral, seria apenas um CD com músicas de Villa-Lobos. Por isso ela escolheu uma obra do primeiro período importante do compositor, a “Prole do bebê” Nº 1, uma obra do segundo período, as “Cirandas”, e uma obra do período final do autor, “Homenagem a Chopin”.

A pianista Sonia Rubinsky

A pianista Sonia Rubinsky

Uma longa espera

Se o CD foi gravado no final de 1994, por problemas administrativos da gravadora, ele só foi lançado no final de 1999, há exatos 15 anos. O sucesso do CD foi tão grande (foi indicado para o Grammy e considerado um dos 5 melhores lançamentos do ano pela revista Gramophone) que a gravadora, a partir dele, resolveu investir numa integral. O segundo volume, gravado em condições técnicas bem melhores no Canada, em abril do ano 2000, incluiu a “Prole do bebê” Nº 2, as “Cirandinhas”, “A Lenda do Caboclo”, “Ondulando” e a “Valsa da dor”. O volume 3 foi gravado no mesmo ano, no mês de setembro, e incluiu a “Suíte Floral”, o “Ciclo Brasileiro”, “Brinquedo de roda”, “Danças Características africanas”, “Tristorosa”, e os “Choros” 1,2, e 5. O quarto volume foi gravado em outubro de 2003, mais uma vez no Canada, e inclui a “Bachianas brasileiras Nº 4”, o “Carnaval das crianças”, “Francette et Piá”, além de pequenas obras como “A fiandeira”, “Simples coletânea”, “Poema Singelo” e “Valsa romântica”. É a partir daí que Sonia Rubinsky percebe que gravar uma integral exaustiva da obra para piano de Villa-Lobos envolveria um esforço que englobava incluir algumas obras que Anna Stella Schic (grande amiga de Sonia Rubinsky) deixara de lado. Por isso em janeiro de 2006, ainda no Canada, ela grava o Volume 5 com 48 peças do “Guia prático”, algumas que Anna Stella não gravou (Anna Stella gravou apenas 21 peças do Guia Prático). Este volume 5 recebeu críticas elogiosíssimas, com destaque para mais uma crítica bem positiva feita pela revista inglesa Gramophone. A gravadora, percebendo o sucesso da série oferece ainda melhores condições para os três últimos volumes. As gravações foram realizadas em Paris, onde a pianista mora atualmente, e um fantástico piano Fazioli, deram condições especiais para a artista. O Volume 6, gravado em março de 2006, que incluiu “Sul américa”, “New York sky line”, “As três marias”, “Saudades das Selvas brasileiras”, também apresenta a mais complexa obra para piano do mestre, o “Rudepoema”, obra que se beneficiou bastante deste excepcional instrumento usado na gravação. Indo além da integral realizada por Anna Stella Schic, este volume 6 realizou duas primeiras gravações mundiais: “Serra da piedade de Belo Horizonte” e “Carnaval de Pierrot” (completada por Amaral Vieira). Em fevereiro de 2007, seguindo os conselhos de Anna Stella Schic, Rubinsky incluiu no Volume 7 os 5 Prelúdios para violão transcritos para piano por José Vieira Brandão. Também aparecem o ballet “Amazonas” e mais algumas primeiras gravações mundiais: “Feijoada sem perigo”, “Cortejo Nupcial”, “Canções de Cordialidade” e “Valsa lenta”. O último volume, o de N° 8, foi gravado em abril de 2007. Neste volume encontramos alguns itens inéditos do “Guia Prático” (39 músicas), “Ibericabe”, “Suíte infantil 1 e 2”, e, em primeira gravação mundial peças escritas como música incidental para o texto teatral “A marquesa de Santos”. Foram mais de 13 anos de um trabalho insano. Villa-Lobos merece !!!

Anna Stella Schic, a primeira a gravar uma integral da obra pianística de Villa-Lobos

Anna Stella Schic, a primeira a gravar uma integral da obra pianística de Villa-Lobos

Um trabalho pra lá de elogiável

Sonia Rubinsky, graduada na Juilliard School de Nova York, é uma pianista muito ligada à música contemporânea. Grande intérprete de Almeida Prado (que lhe dedicou a “Cartas Celestes XII”) tocou obras complicadas como “Night Fantasies” de Elliot Carter (1908-2012), que aliás a conheceu e a orientou na execução desta complicada composição. Por causa disso as complexidades, especialmente rítmicas, da obra de Villa-Lobos são tratadas com um tipo de precisão rara entre os pianistas. Exemplo disso encontramos na “Suíte floral” (que apresenta uma polirritmia bem complicada) e sobretudo no “Rudepoema”. Neste aspecto muitos pianistas são um tanto quanto “aproximativos” quando aparecem problemas quase insolúveis. Não é o caso de Sonia Rubinsky. A precisão também nos encanta na “Prole do bebê” Nº 2, uma coleção que inclui as páginas mais ousadas do autor. Outro ponto bem positivo da pianista é que ela executa a “Prole do bebê” Nº 1 do jeito que Villa-Lobos escreveu, sem os acréscimos que Arthur Rubinstein incluiu e que todos os pianistas adotam. Não fosse somente a excelência musical destas gravações, ainda teríamos mais coisas a elogiar. Sonia Rubinsky escolheu 8 obras primas da pintura brasileira como capa dos 8 CDS. Desta forma o mundo todo pôde conhecer pinturas de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Portinari, Lasar Segall, Cícero Dias, Djanira, Guignard e Ismael Nery. E além disso os comentários musicais estiveram a cargo do Professor James Melo, um musicólogo brasileiro que vive há décadas em Nova York. Cheio de informações precisas e úteis, os textos do professor Melo são de uma altíssima qualidade, e são para mim uma enorme fonte de informações. Mantive, há algumas semanas, uma longa conversa com Sonia Rubinsky, isto via Skype (como disse ela mora atualmente em Paris), e muitas das informações que redigi vieram deste longo diálogo. Foi possível perceber que ela trata este seu trabalho, iniciado há 20 anos, como um ponto muito importante para a divulgação internacional da obra de nosso maior compositor. O selo NAXOS já deixou de ser uma referência internacional, e tem até se tornado um “selo de aluguel”, apesar de manter até agora o excelente projeto da integral da Sinfonias de Villa-Lobos com a OSESP. Creio que Sonia Rubinsky gravou esta integral na hora certa e no lugar certo. Alguns itens permanecem uma referência incontestável, sobretudo o “Rudepoema”, a “Prole do bebê” Nº 2, o ballet “Amazonas”, a “Suíte Floral” e a “Homenagem a Chopin”. Para facilitar a vida dos brasileiros esta coleção de CDS foi lançada aqui pela movieplay, mas consegui-los não é tarefa fácil. Possuir estes 8 CDS em casa é quase uma obrigação para todo músico brasileiro, e, por ter sido feita de forma exaustiva (a própria pianista tem severas críticas a algumas obras menos felizes do autor) funciona como uma indispensável fonte de pesquisas.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 01/12/14 11:17:27 AM
A homenageada, Olga Kiun, executando o Quarto Concerto de Beethoven. Fotografia de Cida Demarchi

A homenageada, Olga Kiun, executando o Quarto Concerto de Beethoven. Fotografia de Cida Demarchi

Na edição impressa do último domingo, 30 de novembro, foi publicada na versão impressa deste jornal uma versão bem resumida da crônica que o compositor Harry Crowl escreveu sobre os concertos do Festival Olga Kiun. Reproduzo aqui a versão completa que foi enviada ao jornal.

Festival Olga Kiun

Numa iniciativa muito louvável e pioneira, o Festival Olga Kiun apresentou na semana passada uma série de concertos com ex-alunos da notável mestra russa, que também apresentou tanto um concerto solo na abertura, inteiramente dedicado à obra de Sergei Rachmaninov, uma de suas especialidades, assim como o Concerto no.4, de Beethoven, no encerramento do festival. Nascida ainda durante a 2ª Guerra Mundial, na distante província de Aqmola, no Cazaquistão, parte da URSS, na época, onde seus pais buscaram asilo durante o conflito. Sua formação se iniciou em Kichinau, na atual República da Moldávia, então também parte da URSS, para depois seguir para Moscou e assim poder ingressar no Conservatório Tchaikovsky, com 17 anos, na classe do grande pianista Lev Oborin. Foi laureada com alguns dos mais importantes prêmios internacionais, como o George Enescu, na Romênia. Depois de receber uma sólida formação acadêmica, iniciou uma brilhante carreira dentro de seu país. A dissolução da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1991, e a consequente crise econômica que assolou toda a região, fez com que Olga viesse para Curitiba, após uma turnê latino-americana com a Orquestra Sinfônica da Moldávia. Em 1993, já lecionava na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Foi a partir de lá, principalmente, que formou a maioria de seus inúmeros discípulos. Muito exigente e dedicada com seus alunos, ela foi sempre muito presente e acompanhou a trajetória de todos bem de perto, encaminhando alguns para os grandes mestres em instituições internacionais, para que pudessem desenvolver ao máximo as suas potencialidades.
Ao longo das quatro noites de recitais, foi possível conferir a técnica e as personalidades musicais de alguns dos mais talentosos pianistas de várias gerações que passaram pela orientação de Olga Kiun. Na segunda noite, o recital de piano solo apresentou Luiz Guilherme Pozzi, executando as 32 Variações em dó menor, de Beethoven, com o refinamento que sempre lhe é peculiar. Em seguida, uma absolutamente notável apresentação de Estefan Iatcekiw, de apenas 10 anos de idade, na qual executou obras de Mozart, Schumann e Chopin com impecável técnica e bom gosto. Davi Sartori, que já é um músico estabelecido muito atuante também na música popular, fez a única apresentação de obras de compositores brasileiros do festival: – O Boizinho de Chumbo, um dos mais complexos trechos da suíte “A Prole do Bebê no.2”, de Villa-Lobos e a Dança Negra de Camargo Guarnieri, ambas com fleuma e naturalidade de quem executa as peças mais fáceis. O Duo Palheta ao Piano, formado por Clenice Ortigara, piano e Jairo Wilkens, clarineta, atualmente um dos mais destacados duos camerísticos do país, apresentou as 6 Bagatelas, opus 23, do inglês Gerald Finzi. Paulo Emiliano Piá de Andrade, sempre muito tranquilo e seguro, apresentou um Prelúdio de Rachmaninov, e um Prelúdio e Fuga, de Shostakovitch, repertório no qual se sente muito à vontade. Bruno Theiss, com 19 anos, executou obras muito desafiadoras de Szimanowsky e Prokofiev. Pablo Rossi, que desde muito cedo se revelou como um dos grandes pianistas brasileiros da atualidade encerrou a noite com obras de Chopin.
O ponto alto do festival, porém, foi a primeira apresentação em Curitiba da íntegra dos 5 Concertos de L. van Beethoven. A orquestra, dirigida pelo Maestro Osvaldo Colarusso,foi especialmente formada pelos melhores músicos de Curitiba, provenientes da Orquestra Sinfônica do PR, da Camerata Antiqua, e da Orquestra Filarmônica da UFPR. Na sequência dos concertos apresentados em dois dias, os intérpretes foram Pablo Rossi (no.1), Davi Sartori (no.2), Paulo Emiliano Piá de Andrade (no.3), a própria Olga Kiun (no.4) e Luiz Guilherme Pozzi (no.5). Apesar do extenuante calor na Capela Santa Maria, o público foi muito numeroso, com muitos espectadores assistindo às apresentações de pé, inclusive eu. Segundo falou à plateia o próprio maestro Osvaldo Colarusso, a Orquestra do Festival fez a proeza de tocar num só dia os 5 concertos, já que ensaiara na 6ª.feira à tarde os Concertos de nos. 4 e 5, e à noite, apresentou os de nos. 1, 2 e 3.
O contraste marcado pelas obras é grande e cobre um período que vai de 1787, data do início da criação do 2º. Concerto, na verdade o primeiro da série, até 1810, ano que Beethoven completou o 5º. Concerto. Trata-se porém, do ciclo oficial, pois o compositor escrevera um Concerto em mi bemol maior em 1783, quando tinha apenas 13 anos de idade e, entre 1815 e 16, ocupou-se de um 6º. Concerto em Ré Maior, abandonando-o depois de praticamente completar o primeiro movimento. Há ainda uma versão para piano e orquestra do Concerto em Ré maior para violino, opus 61, de 1806.
Cada um dos pianistas apresentou uma leitura muito pessoal da obra tocada. Pablo Rossi, no 1º Concerto, mostrou uma técnica impecável e muito uniforme como já é de praxe nas suas apresentações. No 2º Concerto, Davi Sartori fez uma inesperada leitura contida e cuidadosa. A cadência do primeiro movimento, uma complexa fuga escrita pelo próprio Beethoven muitos anos depois, foi o ponto alto.
No Concerto no. 3, que foi executado por Paulo Emiliano Piá de Andrade, o desafio proposto foi mais árduo. Uma obra na qual Beethoven dá à orquestra uma importância bem maior e se afasta definitivamente do modelo de seu antigo mestre, F.J.Haydn, para ser ele mesmo. O domínio da execução por parte de ambos, maestro e solista, foi notável. Apesar de problemas como o piano um pouco desregulado e o calor que fustigava os intérpretes ainda mais que a plateia, o resultado foi excelente.
Na última noite, Olga Kiun executou com primor o 4º Concerto. Tal foi o entusiasmo da plateia, que o 3º movimento foi bisado e executado com ainda mais intensidade. Na ocasião, foram prestadas as justas homenagens à grande mestra.
Encerrando o festival, Luiz Guilherme Pozzi interpretou o 5º Concerto, que é o mais complexo de todos. Sua familiaridade com a obra fez com ele trabalhasse cuidadosamente os nuances das várias vozes contidas no discurso do piano. A integração com maestro e a orquestra funcionou muito bem a maior parte do tempo. A Capela não estava tão lotada como na noite anterior, mas mesmo assim tinha toda a sua capacidade de assentos tomada e a vibração da platéia foi igualmente intensa.

Harry Crowl é compositor, professor da EMBAP e diretor artístico da Orquestra da Universidade Federal do Paraná

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