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Enviado por Osvaldo Colarusso, 20/11/14 9:27:15 AM
A vida de Beethoven através de seus concertos para piano e orquestra

A vida de Beethoven através de seus concertos para piano e orquestra

Um ciclo de concertos que homenageia a pianista Olga Kiun

Pela primeira vez em Curitiba será apresentado o ciclo completo dos 5 concertos para piano e orquestra de Ludwig van Beethoven, sendo que possívelmente o Concerto Nº 2 nunca foi executado por aqui. No dia 21, sexta feira, às 20 horas, serão executados os Concertos de Nº 1 (solista – Pablo Rossi), Nº 2 (solista – Davi Sartori) e Nº 3 (solista – Paulo Emiliano Piá de Andrade). No dia 22, sábado, também às 20 horas, serão apresentados os concertos de Nº 4 (solista – Olga Kiun) e Nº 5 (solista -Luiz Guilherme Pozzi). Uma orquestra que reúne a “nata” de instrumentistas curitibanos atuará sob minha regência. As apresentações acontecerão na Capela Santa Maria. Estes concertos fazem parte de um festival que homenageia a grande pianista russa Olga Kiun, excepcional professora que há 20 anos se radicou em Curitiba. Notável profissional, colocou parâmetros altíssimos para os alunos de piano da cidade, e todos os solistas dos 5 concertos, além da grande mestra, tiveram o essencial de sua formação pianística junto à professora russa. Curitiba realmente teve a sorte da escolha que ela fez, e mesmo eu sou eternamente grato a ela, já que seus melhores alunos estudaram comigo Harmonia e Análise musical, visto que ela sempre valorizou bastante a formação completa de um pianista, nos mesmos padrões que ela teve em seu país.

Beethoven: compositor e pianista

Ludwig van Beethoven (1770-1827) nasceu na cidade de Bonn, na Alemanha. Criança prodígio teve o azar de ter uma família completamente desajustada. Seus objetivos, quando adolescente, era viver em Viena e estar próximo a Mozart, a quem admirava de forma quase religiosa. Apesar de que o encontro dos dois, em 1787, ser uma fantasia mentirosa do historiador Otto Jahn (1813-1869), a obra de Mozart será importantíssima para o jovem Beethoven. Assim como Mozart, Beethoven era um pianista excepcional, e os concertos para piano e orquestra, do gênio de Salzburg, foram marcantes na sua vida de instrumentista e de compositor. Os concertos para piano e orquestra foram realmente muito marcantes na produção Mozartiana, especialmente os que ele escreveu entre 1784 e 1786 (do 19 º ao 26º). Apesar de Beethoven conhece-los muito bem, a primeira tentativa do compositor de escrever um concerto ocorreu antes dele conhecer os grandes concertos de Mozart, quando tinha 14 anos de idade, um concerto que permaneceu inacabado, e no qual o próprio Beethoven não colocava muita fé.

Mozart: o modelo para os Concertos de Beethoven

Mozart: o modelo para os Concertos de Beethoven

O modelo mozartiano

Em 1787 Beethoven iniciou a composição de seu primeiro Concerto para piano e orquestra completo, erroneamente numerado como Concerto Nº 2 em si bemol maior opus 19. Esta obra juvenil foi composta ainda em Bonn, antes do compositor se fixar em Viena, em 1792, ano em que Beethoven teve acesso às obras primas para pianos e orquestra de Mozart. Coincidentemente ele modificou o final do concerto que trouxera de Bonn: o Finale que hoje conhecemos foi escrito somente em 1795, e possui uma clara alusão ao terceiro movimento do último concerto que Mozart escreveu, o concerto em Si bemol maior IK 595. Foi depois da bem sucedida apresentação em Viena em 29 de março de 1795 (a primeira aparição pública de Beethoven na capital austríaca) que ele escreveu aquele que hoje é conhecido como Concerto Nº 1 em dó maior opus 15. Foi estreado em Praga em 1798. Este concerto, especialmente o primeiro movimento, é calcado no Concerto, também em em Dó maior, IK 503 de Mozart, demonstrando o claro apreço que Beethoven tinha da obra de seu predecessor. O Concerto Nº 3 em dó menor opus 37 é uma composição completada em 1801, e mais uma vez o compositor foi solista da estreia em Viena em abril de 1803. Este, que é o único concerto de Beethoven em modo menor, dá um enorme passo para a frente em termos orquestrais e foi tremendamente influenciado pelo Concerto, também em dó menor, IK 491, de Mozart. A genial criatividade de Beethoven pode ser bem exemplificada no diálogo entre o tímpano e o solista no final do primeiro movimento. Quem, além de Beethoven, poderia imaginar isso naquela época?

Uma afirmação pessoal: os dois últimos concertos para piano e orquestra

A influência de Mozart dará lugar a um posicionamento bem mais pessoal de Beethoven em seus dois últimos concertos sendo que o Concerto Nº 4 em sol maior opus 58, composto em 1806, é uma obra bem distante do modelo mozartiano. A obra começa com um solo de piano, sem acompanhamento da orquestra, cuja visão introspectiva, nos levará a uma linguagem quase romântica. Sem tímpanos e sem trompetes, este movimento é extremamente introspectivo. Outra surpresa: o segundo movimento, escrito apensas para o solista e as cordas da orquestra, é um diálogo entre as forças quase agressivas da orquestra frente a um solista completamente calmo. O piano se assemelha a Orfeu, e a orquestra se assemelha às fúrias, que se acalmam frente o mágico discurso do solista. É só no movimento final, o único com a orquestra completa, que existe uma música que deixa de lado o aspecto introspectivo. A progressiva surdez de Beethoven vai tornando as suas aparições como pianista cada vez mais raras, e por isso a estreia deste concerto será a última aparição do músico como pianista, numa récita privada no palácio do príncipe Lobkowitz. A sala onde ocorreu esta estreia existe até hoje. Minha imaginação voou quando estive lá…
O Concerto Nº 5 em mi bemol Maior opus 73, o último concerto para piano e orquestra que Beethoven compôs, abre os caminhos para uma nova era musical. O mais longo de todos é espetacular pela junção que existe entre o solista e a orquestra, e mesmo a cadenza, aquele trecho improvisado pelo solista no final do primeiro movimento, é substituída por uma improvisação conjunta do piano e da orquestra. Já na época de Beethoven ficou conhecido como “Imperador” por sua grandiosidade e dificuldade técnica, tanto para o solista como para a orquestra. A surdez do compositor o impediu de executar a obra, considerada inexequível na época, sendo a estreia feita pelo pianista e compositor Friedrich Schneider, em Leipzig, no ano de 1811.

A pianista Olga Kiun, fotografada por Cida Demarchi

A pianista Olga Kiun, fotografada por Cida Demarchi

Ouvir o ciclo completo dos Concertos para piano e orquestra de Beethoven é uma experiência marcante, pois além da belíssima música, podemos através deles acompanhar uma sequência da vida do compositor realmente importante. Sempre me impressionou muito a progressiva surdez do mestre, que o levou a um enorme isolamento. Para citar apenas um exemplo dos momentos cruciais deste ciclo, notemos a entrada isolada do solista no Concerto Nº 4. Este isolamento levou a uma profundidade raramente vista em toda a história da música. Realmente, a arte é realmente enriquecedora, disto não tenho dúvida.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 11/11/14 10:05:39 AM
O muro de Berlim, como conheci em 1988. O lado oriental sempre escuro e triste

O muro de Berlim, como conheci em 1988. O lado oriental sempre escuro e triste

25 anos da queda do muro de Berlim. Por que não narrar um experiencia pessoal? Lá vai: em 1988 ganhei uma bolsa do Instituto Goethe para fazer meu KDS (Kleines Deutsches Sprachdiplom) em Berlim. Vivi na então Berlim ocidental alguns memoráveis meses até abril de 1989. A bolsa era excelente, com um curso de altíssimo nível, ajuda de custo para livros, alimentação, e ainda por cima morei num magnifico apartamento alugado pelo próprio Instituto. Aproveitei o que pude para ver concertos e óperas, e cruzei diversas vezes o muro para assistir espetáculos únicos (uma Sinfonia de Berio regida pelo autor por exemplo) e muitas, muitas óperas na Staatsoper, a ópera de Berlim Oriental. Agradeço aos céus por ter vivido em Berlim naquela época pois quem não viu a grotesca separação da cidade pelo muro não faz ideia do que existiu por lá. Berlim oriental, a capital da Alemanha comunista, parecia uma cidade fantasma, vazia e sem turistas. Mas a vida cultural não ficava a dever em nada a Berlim Ocidental. Ir do lado capitalista para o lado comunista não era impossível: tínhamos que apresentar passaporte, enfrentar fila, fazer um câmbio obrigatório bem desvantajoso e podíamos permanecer em Berlim Oriental até a meia noite. Do lado comunista para o lado capitalista a travessia era impossível para a maioria das pessoas. Só podiam atravessar os que tinham pelo menos 70 anos de idade ou privilegiados funcionários do governo. Xereta como sempre fui estive em Supermercados e vi donas de casa disputando cenouras quase podres, prateleiras vazias e muitas latas de sardinha. E Berlim Oriental era a capital. Imagino o que ocorria nas pequenas cidades. As partituras eram baratíssimas, mas tínhamos que comprar o que tinha, pois inexplicavelmente alguns itens sumiam. Meu pai, que falecera em 1987, era um admirador do regime comunista. Sem dúvida ele ficaria muito triste se eu contasse o que vi na Alemanha oriental e na Tchecoslováquia, países que visitei no meu período alemão.
Na minha primeira ida a Berlim Oriental fui na Staatsoper para ver o que seria apresentado até o fim de meu curso. Me interessei por diversas produções, e a primeira que assisti foi um Tristão e Isolda de Wagner, com Ingrid Haubold, Heikki Siukola e Theo Adam. Era um domingo à tarde.

A Ópera Estatal de Berlim

A Ópera Estatal de Berlim

Achei estranho ter que usar o passaporte para ver uma ópera na mesma cidade mas lá fui eu. Descobri a coisa mais sensacional de Berlim Oriental: o público. Era uma plateia que vivia o drama dos amantes da ópera de Wagner como se fosse uma experiência de catarse, comparável ao que teria sido o público das tragédias na Grécia antiga (Infelizmente pude constatar que este tipo de público não existe mais por lá). No intervalo do primeiro para o segundo ato desci para conhecer um pouco mais o teatro quando vi um grupo de rapazes brasileiros. Um deles me reconheceu e disse bem alto: “Estamos salvos, este é o maestro Colarusso”, disse um deles que já tinha assistido alguns concertos didáticos que tinha regido por aqui. Era um grupo de engenheiros curitibanos que estavam fazendo uma especialização na Universidade Humboldt. O orientador deles achava que tinham que ver uma ópera e os pobres coitados não tinham entendido nada daquele longo primeiro ato. Bom, expliquei o que tinha acontecido no primeiro ato e adiantei o que se passaria nos atos seguintes. Um jovem alemão (tinha 17 anos) chamado Johann ficou curioso e me perguntou: “Que língua o senhor (Sie) está falando?”. Disse que era português, que eu era brasileiro. Johann se tornou o meu amigo berlinense. Bem “nerd”, extremamente culto (sabia onde ficava Curitiba), era doido por Wagner. Infeliz por não poder ir para Berlim Ocidental, pois sabia das produções wagnerianas que se faziam por lá, não podíamos nem mesmo nos telefonar, cada um morando de um lado diferente do muro. Acabamos nos encontrando todas as vezes que ia a Berlim Oriental. Numa das vezes ele, com inúmeros rodeios, me pediu para trazer uma coisa de Berlim Ocidental que há meses não se encontrava na capital comunista alemã: uma tampa de privada. Eu, que a princípio não entendi bem o que ele estava pedindo, prometi tentar. No dia seguinte, em Berlim Ocidental, depois da aula, fui procurar o que Johann tinha pedido. Comprei a tal da tampa de privada e na minha próxima ida a Berlim Oriental, quando ia assistir Moses und Aron de Schoenberg (com Theo Adam e Reiner Goldberg) pensei em levar a encomenda. Quando a polícia comunista viu aquele embrulho na estação de Friedrichstrasse (onde fazíamos a passagem pro lado comunista) fizeram o maior escândalo. Desfizeram o embrulho e depois de muita conversa deixaram eu passar. Mas como o embrulho estava desfeito, todos na rua viam aquele cobiçado objeto. Me encontrei com o Johann na porta da Staatsoper que ficou vermelho ao ver o mico que eu estava pagando. Mas o mico foi ainda maior: a funcionária do Guarda Roupa (onde deixa-se os casacos no teatro) não aceitou ficar com a tal da tampa. Resultado: assisti Moses und Aron segurando uma tampa de privada, com as pessoas todas me olhando como se eu fosse um ET. Felizmente o espetáculo foi bom demais: que coro e que orquestra maravilhosos, regidos por um maestro fantástico chamado Friedrich Goldmann, um dos melhores maestros que já vi. A encenação (de Ruth Berghaus), bem comunista, fazia que quando Deus falava para Moisés, um orelhão era fortemente iluminado: para os “materialistas dialéticos” a voz de Deus vinha por um cabo telefônico…
Em 1992, três anos depois da queda do muro, voltei a Berlim, e procurei o Johann. Ele não tinha mais nada de “Nerd”. Estava cabeludo, tatuado, e ao invés de Wagner curtia rock pauleira. A queda do muro transformou sua vida…

Enviado por Osvaldo Colarusso, 03/11/14 8:30:17 AM

Fico estarrecido com o desprezo como é tratada a música clássica na imprensa nacional. Mais estarrecido quando tomo conhecimento por veículos de informação estrangeiros sobre o impressionante sucesso de músicos brasileiros no exterior. Não vou falar pela enésima vez do prestígio internacional de Nelson Freire, ao que parece o único nome de um artista brasileiro voltado à música clássica que a imprensa de vez em quando cita (não que ele não seja merecedor disso). Vou citar quatro fatos, que em outro país ocupariam, com certeza, as páginas dedicadas à cultura.

A magnífica Orquestra Jovem da Bahia e seu diretor musical Ricardo Castro

A magnífica Orquestra Jovem da Bahia e seu diretor musical Ricardo Castro

Neojiba na Europa. Sucesso estarrecedor. Você sabia disso?

Muita gente nem sabe o que é NEOJIBA. Pois esta sigla representa um dos mais importantes acontecimentos artísticos dos últimos anos no país. NEOJIBA são as iniciais de “Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia”, a mais bem sucedida experiência de se implantar o “El sistema” venezuelano no Brasil, cuja atividade começou em 2007. O grupo principal do NEOJIBA é uma orquestra jovem, com 120 jovens músicos e que é regida por seu fundador, o maestro e pianista baiano Ricardo Castro. Este conjunto fez uma turnê pela Europa no mês de setembro, se apresentando em salas importantes como o Auditório Santa Cecilia (Roma, Itália), no Auditório Stravinsky (Montreux, Suíça), onde a Juvenil da Bahia foi a primeira orquestra brasileira a ser residente no Festival de Musique Classique de Montreux-Vevey, no Queen Elizabeth Hall em Londres, e muitas outras. Em Montreux a Orquestra teve como solista nada mais nada menos do que Martha Argerich (que foi solista da orquestra em outras etapas da turnê). Pois bem, ao contrário da imprensa tupiniquim que ignorou o fato, uma das mais conceituadas publicações de música clássica do planeta, a francêsa Diapason escreveu, através de seu critico Rémy Louis, uma longa, detalhada e elogiosa crítica aos três concertos que a Orquestra deu na Suíça no mês de setembro. Por esta crítica fiquei sabendo que no primeiro concerto foi tocado o Concerto para dois pianos de Poulenc com Martha Argerich e Alexander Gurning como solistas. Como bis deram a parte final do Scaramouche de Milhaud, baseado na produção musical brasileira. Pois bem: o duo pianístico solicitou um percussionista da orquestra para ajuda-los com um pandeiro. Deve ter sido bem legal !!! A orquestra neste concerto tocou a Primeira Sinfonia de Mahler. Dá para acreditar uma orquestra jovem brasileira tocando uma obra tão difícil? Se os dois primeiros concertos foram regidos por Ricardo Castro, fiquei sabendo que o terceiro foi regido por Yuri Azevedo, um jovem maestro brasileiro (22 anos) que recebeu os maiores elogios do crítico. Grande elogio também para o compositor baiano Wellington Gomes. Sucesso total !!! Casa cheia e público delirante nas três noites. Não resisto a copiar a última frase da crítica: “Urgente: convidar para a França estes demônios brasileiros com um talento único e um sorriso irresistível!”. Esconder este sucesso é sonegar uma informação vital para nós brasileiros, amantes de música clássica ou não.

Paulo Szot em uma cena da ópera "A morte de Klinghoffer"

Paulo Szot em uma cena da ópera “A morte de Klinghoffer”

Paulo Szot: cantor brasileiro torna-se uma grande estrela no Metropolitan Opera

Paulo Szot, barítono brasileiro nascido em São Paulo em 1969 tem atuado com frequência no Metropolitan Opera de Nova York. Em 2010 cantou o papel principal de “O nariz”, ópera de Dimitri Shostakovich. O sucesso foi tão grande que em 2011 cantou no mesmo teatro, o mais importante teatro de ópera do mundo, o papel de Escamilo na Carmen de Bizet. Em 2012 cantou o papel de Lescaut na ópera Manon de Massenet junto a grandes nomes da cena lírica internacional como Anna Netrebko e Piotr Beczala. Neste início de novembro de 2014 ele canta o importante papel do “Capitão” da ópera “A morte de Klighoffer” do compositor americano John Adams. A controvérsia sobre o cancelamento da transmissão desta produção nos cinemas de todo o mundo já foi tratada aqui neste blog. Mas o que importa é que um artista brasileiro vem se tornando uma figura de destaque num teatro de importância mundial.

O compositor brasileiro Henrique Oswald

O compositor brasileiro Henrique Oswald

CD com Concerto do brasileiro Henrique Oswald entre os dez mais vendidos na Inglaterra

Mais uma vez fico sabendo algo importante relacionado à música clássica brasileira através da imprensa internacional. A revista BBC Music coloca todos os meses uma lista dos Dez discos de música clássica mais vendidos no Reino Unido numa lista que engloba vendas físicas e downloads. Qual não foi minha surpresa ao ver no último exemplar da publicação que um CD com os concertos para piano de Henrique Oswald (1852-1931) e Alfredo Napoleão (1852-1917) estão nesta lista de mais vendidos (oitavo lugar), à frente mesmo do ciclo de Sinfonias de Brahms com Ricardo Chailly. Oswald, compositor brasileiro. Alfredo Napoleão, compositor português, mas que viveu uma boa parte de sua vida no Brasil. Seu irmão, Arthur Napoleão foi um dos mais importantes editores musicais do Rio de Janeiro. Quem toca é o pianista português Artur Pizzarro. A Orquestra da BBC do país de Gales é regida por Martyn Brabbins. Asseguro que vale a pena conferir. Vale a pena ver também que no libreto que acompanha o CD há uma menção à “Escola de música do Rio de Janeiro” (???). Ao que parece esta instituição (deve ser a Escola de Música da UFRJ) possui o manuscrito do concerto de Oswald. Quem fez a edição foi o musicólogo e compositor minimalista inglês Tim Seddon. Como disse, vale a pena conferir.

Guiomar Novaes. Esquecida aqui, sempre lembrada no exterior

Guiomar Novaes. Esquecida aqui, sempre lembrada no exterior

Guiomar Novaes. Mais uma consagração fora de seu país

A revista francesa Diapason (de novo) acaba de lançar um álbum com 10 cds todos dedicados a obras de Chopin. Para a escolha das gravações já existentes eles mandaram quarenta itens de cada obra sem revelar quem eram os intérpretes para os maiores pianistas da atualidade (de Lugansky a Lang Lang). Sem saber quais eram os escolhidos saiu uma lista de intérpretes notáveis: Martha Argerich, Claudio Arrau, Benedetti Michelangeli, Alfred Cortot, Vladimir Horowitz, William Kapell, Wilhelm Kempff, Dinu Lipatti, Maurizio Pollini, Sergei Rachmaninov, Arthur Rubinstein, Vladimir Sofronitzki, etc. Pois entre tantas estrelas está Guiomar Novaes (1895-1979). Foi escolhido um registro do Segundo Concerto de Chopin que Guiomar gravou em Nova York, com a Filarmônica de lá regida por Georg Szell em 1951. Há quem diga que esta gravação é regida por Leonard Bernstein, mas o pessoal da Diapason tem meios para provar que é mesmo Szell. Mas que é Guiomar, isso ninguém discute. Uma vergonha o Brasil ter tão poucos registros desta grande artista. Não há nenhuma biografia dela e não há mesmo nenhum vídeo dela tocando.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 30/10/14 8:32:01 AM
Karol Szymanowsli: o maior compositor polonês da primeira metade do século XX

Karol Szymanowsli: o maior compositor polonês da primeira metade do século XX

Karol Szymanowski – O maior compositor polonês de seu tempo

Karol Szymanowski nasceu numa região, que hoje em dia pertence à Ucrânia, em 1882, em meio a uma abastada família polonesa, proprietários de terra. De início pensou em se tornar um grande pianista, mas apesar de ser um excelente instrumentista, ele muito cedo vai se dedicar à composição. Suas obras são em geral divididas em três fases. Na primeira delas é evidente a influência do compositor alemão Richard Strauss (1864-1949), sendo que esta influência é facilmente percebida quando ouvimos suas duas primeiras Sinfonias (1906-1909) e sua Abertura de concerto opus 12 (1905). Na sua produção para piano sentimos a influência de Chopin e de Sciabin. Depois de uma viagem pelo sul da Europa e norte da África em 1913 ele mergulha no universo impressionista. Nesta segunda fase temos suas obras mais originais. Se bem que ele sofra muita influência de Debussy, Ravel e Stravinsky, ao contrário das obras da primeira fase composicional em que as influências são bem aparentes, nesta segunda fase encontramos obras extremamente pessoais. A linguagem harmonica, instrumental e formal são completamente originais. Se há uma influência dos grandes compositores franceses da época podemos dizer que ele conseguiu de vez fazer com que as harmonias francesas passassem para o terreno da música atonal. Seus trípticos para piano solo, Métopes opus 29 e Máscaras opus 34, e Mitos opus 30, para piano e violino, todos compostos entre 1916 e 1917, demostram uma solidez estilística só encontrada em grandes mestres. Páginas e páginas sem uma tonalidade definida fazem com que tenhamos aqui composições tão belas e complexas como as de Schoenberg ou Bartók. É nesta época que Szymanowski vai compor sua Terceira Sinfonia – Canção da noite, obra escrita para tenor solo, coro e uma gigantesca orquestra. O texto desta Sinfonia é do poeta persa do século XI Jalāl ad-Dīn Muḥammad Rūmī. A obra é revolucionária em diversos aspectos, mas um deles é facilmente perceptível: a obra não tem nem um início e nem um fim expresso de forma clara. A Sinfonia começa do nada e termina no vazio. Podemos afirmar com segurança que esta terceira Sinfonia de Szymanowski é uma das sinfonias mais importantes compostas em todo o século passado. Também desta riquíssima segunda fase criativa do compositor polonês se inclui o seu lindo Primeiro Concerto para violino e orquestra, obra de 1916. Percebemos que até 1918 a atividade do compositor permanece intensa, tanto pela qualidade quanto pela quantidade de obras primas. E é neste ano que ele compõe outra obra fantástica: a ópera “O rei Rogério”, uma das mais importantes composições líricas do século XX, obra que não fica devendo nada ao “Wozzeck” de Alban Berg ou “O castelo de Barba-Azul” de Bartók. Szymanowski era assumidamente gay, e nesta ópera, que tem libreto do grande escritor polonês Jarosław Iwaszkiewicz (1894-1980), largamente modificado pelo compositor, deixa claro um envolvimento amoroso entre o Rei Rogério e o misterioso Pastor, que na realidade se revela no final ser o Deus Baco. E por falar em temáticas gays é desta época que o compositor deu início a uma empreitada literária bem ousada: Ephebos, um romance com temática homossexual, cujo manuscrito foi parcialmente destruído quando da ocupação nazista da Polônia em 1939.

A ópera "O Rei Rogerio" na controvertida montagem da ópera de Paris

A ópera “O Rei Rogerio” na controvertida montagem da ópera de Paris

Com a revolução comunista russa de 1917 a família de Szymanowski passa a enfrentar sérias dificuldades financeiras, pois todas as suas propriedades foram confiscadas. Com a independência da Polônia em 1918 ele passa a exercer cargos importantes nas instituições musicais de seu país, e é a partir de 1920 que podemos localizar sua terceira fase, ligada à música folclórica polonesa, especialmente da região dos “Goral” e das montanhas “Tatras”. O espirito religioso polonês é facilmente percebido na obra máxima desta última fase de sua vida: “Stabat Mater”, para solistas coro e orquestra, de 1926. Obra elogiada pelo compositor Igor Stravinsky, foi pensada originalmente para ser cantada em polonês, apesar de que a partitura inclui a opção de ser cantada em Latim. Sua última obra importante é sua Sinfonia Nº 4, obra concertante para piano e orquestra, escrita em 1932, uma de suas obras mais acessíveis. Vale a pena lembrar que nesta fase mais nacionalista polonesa o compositor escreveu Mazurkas com uma originalidade rítmica (com mudanças de compasso) e com uma harmonia altamente intrincada, bem distante das Mazurkas de Chopin. Os últimos anos de vida de Szymanowski foram de uma extrema pobreza, e sua luta contra a tuberculose termina com sua morte em 1937.

Szymanowski: um desconhecido no Brasil

Se Szymanowski já é um autor conhecido na Europa e nos Estados Unidos, sua obra permanece quase que completamente ausente em nossos concertos. A única execução de uma obra importante dele por aqui foi num Festival Internacional de Música de Curitiba, em 1977, quando seu Stabat Mater foi brilhantemente executado em primeira audição brasileira (eu, ainda estudante, cantei no coral, e quem regeu foi Roberto Schnorrenberg). Obras essenciais como a Sinfonia Nº3, Mitos, “O Rei Rogério” e muitas outras nunca foram sequer pensadas para serem apresentadas aqui. A mesmice de nossas programações sinfônicas, as limitações de criatividade no repertório de nossos instrumentistas, e a pobreza de nossas temporadas líricas fazem com que um dos maiores compositores do século XX permaneça entre nós um “ilustre desconhecido”.

Ouvindo e vendo Szymanowski

Felizmente a obra de Karol Szymanowski tem sido gravada em áudio e vídeo com grandes intérpretes. Sua obra orquestral mais importante (Sinfonias 3 e 4), seus concertos para violino e o Stabat Mater foram magistralmente registrados por Sir Simon Rattle, um grande divulgador da obra do compositor polonês. Da obra pianística destaco o CD de Piotr Anderszewski, apesar de adorar as gravações de Mikhail Rudy e Cédric Tiberghien. O trítico Mitos para violino e piano é magistralemte interpretado pelos conterrâneos do compositor Kaja Danczowska (violino) e Krystian Zimerman (piano). Em DVD existe um vídeo com as Sinfonias 3 e 4 regidos pelo grande maestro polonês Antoni Wit. Da ópera Król Roger (O Rei Rogerio) existe um DVD muito bom gravado no Festival de Bregenz regido por Sir Mark Elder. Um bom livro a respeito de Szymanowski não é algo fácil de encontrar. Em inglês recomendo o curto estudo de Christopher Palmer (Um compositor numa encruzilhada de caminhos). No entanto é em francês que existe o mais profundo estudo do compositor: Karol Szymanowski, escrito por Didier Van Moere, editado pela Fayard. Um trabalho biográfico excelente. Em português, esqueça…..

Szymanowski no Youtube

Existem itens fantásticos no youtube. Vale a pena baixar. Do concerto Nº 1 para violino e orquestra existe um vídeo em HD com a maravilhosa Janine Jansen. A Sinfônica de Londres é regida por Valery Gergiev. Fortemente recomendado.

Com a mesma violinista outro vídeo em HD. Mitos. Ela atua com o excelente pianista Itamar Golan

Num vídeo bem ruinzinho, mas com um som correto o Stabat Mater regido pelo finlandês Esa-Pekka Salonen. Se a imagem é ruim, vale a pena pelas legendas (em inglês) e pela estonteante execução.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 10/10/14 7:57:32 PM
Mozart: compositor clássico ou erudito?

Mozart: compositor clássico ou erudito?

O grande compositor italiano Gioachino Rossini (1792-1868) dizia que existem dois tipos de música: a boa e a ruim. No entanto nos sentimos forçados, em diversas ocasiões, a separar as composições musicais em dois tipos, dois estilos. O mais usual é chamar um tipo de música de “música popular”, e outro tipo de “música clássica”. Mas, visto que a palavra “clássica” tem lá suas desvantagens (que explicarei mais abaixo), ela tem sido substituída por diversos termos, que muitas vezes se revelam piores do que o termo “música clássica”.
Um deles é “música de concerto”, algo bem inexato pois, por exemplo, uma apresentação de um pianista de jazz (jazz é música clássica ou popular???) como Keith Jarrett é um concerto. Prova disso é que sua gravação mais famosa chama-se “O Concerto de Colônia” (The Köln Concert). Pois bem, “Música de concerto”, fica bem claro, é um termo impreciso.
O jornalista J. Jota de Moraes (1943-2012), que escrevia sobre música clássica no extinto Jornal da tarde de São Paulo, usava um termo que é ainda mais impreciso: música de linguagem. Este termo pode soar bem preconceituoso (aliás todos ao que parecem são) porque pressupõe que nenhuma composição popular tenha “linguagem”. Apesar de ter sido amigo do Jota, nunca concordei com este termo.
Uma criação da língua portuguesa é ainda pior: “música erudita”. Não encontramos o termo em outro idioma, pelo menos nos idiomas que conheço. A erudição pretendida no termo, além de ter um efeito danoso em relação à popularização do tipo de música em pauta, pressupõe que a erudição é um privilégio de um tipo de música. Daí a coisa fica bem injusta, pois, por exemplo, uma composição como “Construção” de Chico Buarque ou “Ces Gens Là” de Jacques Brel possuem uma erudição poética e musical (os dois escreveram a música e a poesia) que não pode ser desprezada.
O melhor termo que encontro, nesta malfadada divisão, é mesmo “música clássica”, mas mesmo este termo tem seus inconvenientes, que agora explicarei. O termo “clássico” pode ser confundido com um período da história da música que é conhecido como “classicismo musical”, aquele que coincide com a segunda metade do século XVIII. Daí chamar Stravinsky (1882-1971) de um compositor clássico é uma incongruência. E Mozart (1756-1791), seria um compositor clássico do período clássico?
O que percebemos é que no afã de se separar estilos artísticos usamos irremediavelmente termos problemáticos, e muitas vezes temos que consertar as coisas de forma que inúmeras vezes a “emenda sai pior que o soneto”. Por uma questão de redação, para se excluir a repetição de um termo, que já tem lá suas desvantagens, usamos outro que é pior ainda. Mesmo eu, em meus programas que produzo na Rádio Educativa do Paraná, tive que usar o malfadado termo “erudito” na apresentação de um programa. Este programa tem o título de “Os grandes ciclos da história da música” (vai ao ar às terças às 20 horas). Para não se pensar que o programa só trata de produções do período clássico, na segunda frase de apresentação o locutor diz, “a produção musical erudita em ciclos completos”. Levei a maior espinafrada de um amigo por causa disso, mas não vi solução melhor.
Nos dias de hoje a divisão entre “clássico” e “popular”, em termos musicais, está cada vez mais tênue. “Erudito” é mesmo de matar. “Música clássica”, apesar de bem melhor, é algo historicamente impreciso. O melhor mesmo seria ficarmos com Rossini: música boa e música ruim. Esta divisão, que respeita unicamente o gosto pessoal, não tem nenhuma contra indicação.

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“Ces Gens Là”, de Jacques Brel, não é uma composição repleta de erudição?

Construção,de Chico Buarque, uma obra prima da poesia e música, não é uma “música de linguagem”?

“Uma pequena serenata noturna” de Mozart não é uma música popular?

Enviado por Osvaldo Colarusso, 28/09/14 8:55:23 PM
Marcelo Marchioro em meio ao seu imenso acervo

Marcelo Marchioro em meio ao seu imenso acervo

Tarefa muito penosa escrever um texto sobre Marcelo Marchioro. Penosa pela atroz doença (esclerose múltipla) que o matou aos poucos nos últimos 15 anos. Ao falecer no último dia 24 Marcelo tinha 62 anos de idade e completaria 63 anos no próximo dia 11. Marcelo foi um grande amigo pessoal, e mesmo doente nunca esqueceu a minha data de aniversário e me telefonava anualmente, cada vez com a voz mais alquebrada. Ele foi um excepcional Diretor de Teatro, com uma enorme versatilidade, encenou dezenas de peças, sendo que se tivesse que citar uma destacaria a excepcional montagem que ele fez de “As bruxas de Salem” de Arthur Miller no Guarinha em 1990, a melhor montagem teatral que assisti nestes 29 (quase 30) anos de Curitiba. Mas ao mesmo tempo Marcelo foi um dos melhores diretores cênicos de ópera que o Brasil já pode ver. Ele amava música, e fazia todas as marcações cênicas em uma partitura, respeitando de forma impecável todas as necessidades musicais do texto.
Se por um lado esta tarefa (a de escrever um texto sobre o Marcelo) é penosa, por outro lado me sinto privilegiado por ter trabalhado junto a este gigante das artes cênicas em algumas históricas montagens de ópera na capital paranaense. Como, involuntariamente ou propositadamente, a história artística desta cidade é esquecida, e os personagens que a fizeram são desprezados, pretendo aqui deixar de forma bem clara e contundente os trabalhos que Marchioro, como diretor cênico e eu, como maestro, fizemos juntos.

Desde que cheguei em Curitiba em 1985, atuando como maestro da Orquestra Sinfônica do Paraná, estabeleci rapidamente uma ligação de amizade com Marcelo. Quando em 1989 o então secretário de cultura, René Dotti, resolveu apoiar e profissionalizar as montagens de ópera o primeiro título escolhido foi “Don Giovanni” de Mozart. Estava tudo certo para eu e Marcelo fazermos nosso primeiro trabalho junto, até que o nome dele foi barrado e em seu lugar convidado alguém com mais “glamour”, um cineasta que prefiro não declinar o nome, cujo trabalho esteve próximo a uma piada de péssimo gosto. Na segunda ópera pensada em termos profissionais Marchioro encenou Tosca de Puccini, que foi regida por Alceo Bocchino. Um grande sucesso. Só no ano seguinte, quando a pessoa que insistiu no tal do cineasta foi afastada, é que finalmente pudemos colocar em prática nossas afinidades.

O Barbeiro de Sevilha – Temporadas de 1990 e 1992

Ao imaginarmos juntos uma montagem de “Il Barbieri di Siviglia” imediatamente fomos em busca da edição de Alberto Zedda, muito mais próxima do texto original de Rossini. Marchioro percebeu sozinho as vantagens desta edição, que foi executada no Brasil pela primeira vez nesta montagem. Milimétricamente colocamos a música junto com a ação, e como eu próprio tocava no cravo os recitativos, cada acorde, cada escala, tinha um equivalente cênico. Marcelo concebeu a ópera de tal forma que cada personagem tinha um “duplo” feito por um ator ou acrobata ligado à “Commedia dell’arte”. Como detalhe histórico interessante o “duplo de Rosina” (a Colombina), magnificamente interpretada por Denise Sartori, era a até então desconhecida Letícia Sabatella. Foi nesta montagem que ela foi descoberta por um homem responsável pelo “casting” da Rede Globo (Emílio di Biase). Junto ao genial cenário de Felipe Crescenti e dos figurinos estonteantes de Leda Senise, a música parecia fluir de maneira mágica. Vale acrescentar que na temporada de 1990 descobrimos três grandes talentos paranaenses no campo do canto lírico: a já citada Denise Sartori, Pepes do Vale e Divonei Scorzato. Quem fazia o Fígaro era o excelente barítono de Brasília Francisco Frias, e dois “monstros sagrados” fizeram parte do elenco: Carmo Barbosa, no papel de Bartolo e Wilson Carrara no papel de Basílio. O sucesso foi tão grande que toda a produção foi reposta em 1992. Mais uma vez interferências indevidas vetaram o nome de Frias, e recomendaram alguém que não deu conta do recado. Felicidade: Fígaro então foi interpretado magistralmente pelo grande barítono Sebastião Teixeira. Nesta segunda temporada de “Il Barbieri di Siviglia” o êxito foi ainda maior e esta produção foi apresentada também no Teatro Municipal de São Paulo.

Elencos:

Temporada 1990 – de 14 a 19 de agosto

Rosina: Denise Sartori
Conde de Almaviva: Ivo Lessa
Figaro: Francisco Frias
Bartolo: Carmo Barbosa
Basílio: Wilson Carrara
Berta: Elizabeth Campos
Fiorello: Pepes do Vale
Oficial: Divonei Scorzato
Ambrogio: Mário Schoemberger (sim, o grande ator)

Temporada 1992 – de 18 a 22 de novembro
Rosina: Denise Sartori
Conde de Almaviva: Paulo Mandarino
Figaro: Sebastião Teixeira
Bartolo: Sandro Christopher
Basílio: Jeller Felipe
Berta: Márcia Degani
Fiorello: Pepes do Vale
Oficial: João César Peceggini
Ambrogio: Eneas Lour

Segundo ato de La Bohéme na encenação de Marchioro. Claudia Riccitelli no papel de Musetta

Segundo ato de La Bohéme na encenação de Marchioro. Claudia Riccitelli no papel de Musetta

La Bohéme – Temporada de 1994

Eu e Marcelo sonhávamos alto. Chegamos a pensar em montar Lulu de Alban Berg, mas constatamos que nossa estrutura era muito limitada para tal empreitada. Mas como resultado de nosso estudo sobre a obra Marcelo montou o díptico de Wedekind, Lulu (A caixa de Pandora e O espírito da terra), numa montagem teatral soberba. De Lulu passamos a algo mais factível: La Bohéme de Puccini. De início pensamos que se tínhamos que montar algo tão popular tínhamos que fazê-lo de forma exemplar. O elenco deveria ser perfeito, e conseguimos um verdadeiro espírito de “companhia”. Com pouquíssimo dinheiro conseguimos, por amizade, trazer, além do elenco, um dos melhores cenógrafos da época, Hélio Eichbauer. Nesta produção alguns nomes não podem ser esquecidos, inclusive por sua incisiva observação do gestual frente À música. Falo de Sandra Zugman, que junto a Marcelo deram toda a leveza e fluência ao espetáculo. A emoção estava à flor da pele. Marcelo aprofundava os sentimentos, a ponto de ter que me vigiar para não embarcar na pura emoção e esquecer da minha função de regente. Em duas récitas lembro que segurei as lágrimas em mais de um ponto da partitura. Marcelo fez de La Bohéme um lindo hino Às relações humanas. Uma direção mais do que impecável: impecavelmente humana. O elenco, formado pela nata dos cantores líricos brasileiros, soube absorver cada momento desta montagem, desde as semanas de preparação até as apresentações. Isto tudo com um orçamento que somava aparentemente um quinto do custo de qualquer produção em São Paulo ou no Rio de Janeiro.

Elenco: temporada de 1994 – de 24 de setembro a 2 de outubro

Marcelo: Sandro Christopher
Rodolfo: Fernando Portari
Colline: Pepes do Vale
Schaunard: Sebastião Teixeira
Benoit/Alcindoro: Caio Ferraz
Mimi: Mônica Martins
Musetta: Cláudia Riccitelli
Parpignol: Ivan Moraes

La Cenerentola – Temporada de 1997

Apesar dos anos que separam as produções este espírito de “companhia” se aprimorou ainda mais nesta montagem de La Cenerentola de Rossini. Marcelo me perguntou mais uma vez se havia uma edição de Alberto Zedda, e com enorme esforço conseguimos alugar as partituras. Mas valeu a pena!!! Marcelo imaginou uma comédia refinada e certas cenas beiravam o virtuosismo em termos cênicos. Quando falo disso lembro das marcações que ele fez para o dueto dos barítonos, Dandini e Don Mangifico, interpretado de forma soberba por Pepes do Vale e Sandro Christopher. Os papéis que geralmente são considerados menores, os das irmãs da Cinderela, foram arrebatados por um gestual fantástico inventado por ele, e que foram muito bem compreendidos por Simone Foltran e Sivia Suss. Silvia Tessuto e Fernando Portari, que interpretaram Angelina (a Cenetrentola) e Dom Ramiro, souberam seguir as marcações de Marchioro, mais uma vez assessorado por Sandra Zugman. Vale lembrar que esta foi a primeira montagem da ópera feita por um elenco inteiramente brasileiro. Leda Senise demonstrou um virtuosismo (pouquíssimo dinheiro) em seus figurinos e cenários e até uma animação foi feita por Valencio Xavier para ser exibida durante a abertura “na faixa”.

Elenco: Temporada 1997 – de 23 a 29 de abril

Angelina (La Cenerentola): Silvia Tessuto
Dom Ramiro: Fernando Portari
Dandini: Sandro Christopher
Don Mgnifico: Pepes do Vale
Clorinda: Simone Foltran
Tisbe: Silvia Suss
Alidoro: Lukas D’Oro

Curitiba e sua decadência cultural

O excepcional trabalho de Marchioro como diretor cênico de óperas em Curitiba não se limitou a estas três produções que eu regi. Como disse acima ele encenou Tosca de Puccini em 1989, junto ao maestro Alceo Bocchino, a “Ópera dos três vinténs” de Kurt Weill em 1994 (direção musical de Guga Petri) e Gianni Schicchi de Puccini em 2005 (direção musical de Alessandro Sangiorgi). De forma triste vemos que Curitiba em termos culturais não tem mais capacidade de reeditar tudo o que foi explanado acima simplesmente por absoluta falta de recursos e incentivo. O Coro Teatro Guaíra, peça chave em todas as óperas, e que atuava com uma disposição incomum dirigido por Emanuel Martinez, foi extinto. O TCP, Teatro de comédia do Paraná, também foi extinto. Sim, este TCP, que colocou em cena dezenas de trabalhos maravilhosos como “New York, Por Will Eisner” dirigido por Edson Bueno e “A Vida de Galileu Galilei” dirigido por Celso Nunes (com Paulo Autran) não existe mais. Tudo extinto, tudo pobre. Neste aspecto a doença de Marcelo coincidiu com este desolador cenário. Sim, vejo a morte de Marcelo Marchioro como mais um duro golpe na combalida cultura paranaense.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 24/09/14 9:12:53 PM
Christopher Hogwood (1941-2014)

Christopher Hogwood (1941-2014)

Passados 40 dias da morte de Frans Brüggen (leia aqui o que escrevi sobre ele), morreu hoje, na cidade inglesa de Cambridge, outro grande pioneiro da execução de música medieval e barroca com instrumentos de época: o maestro e cravista Christopher Hogwood. Nascido em Nottingham, na Inglaterra, em 1941, começou a ter notoriedade em 1967 trabalhando em algo que ninguém até então levava muito a sério: a execução de música medieval. Junto com David Munrow funda o Early Music Consort, um grupo que até hoje é referência em termos de execução das obras primas compostas no século XIII e XIV, com destaque para as composições de Léonin, Pérotin e Machaut. Neste grupo Hogwood tocava Harpa medieval e órgão portativo. Com o suicídio de David Munrow o grupo se desfez em 1976, e Hogwood funda um outro grupo musical, direcionado não mais para a música medieval mas sim para a música barroca: a Academy of Ancient Music (“Academia de Música Antiga”). Neste grupo ele se notabilizará por colocar padrões altíssimos na execução de compositores que foram deformados por execuções grosseiras em termos de apuro musicológico, notadament6e Handel e Purcell.
Seguindo os passos de seu colega holandês, Frans Brüggen, ele também inicia um trabalho sobre as Sinfonias de Beethoven com instrumentos de época, sendo ainda mais radical que Brüggen visto que utiliza em diversas destas obras um forte piano como baixo continuo. O resultado permanece discutível, e para muitos as obras assumem um arcaísmo que não tem a ver com o pensamento futurista de Beethoven.
Se em Beethoven pairam algumas controvérsias, e se é certo que realizou um trabalho fantástico em Vivaldi, Corelli, Haydn e Mozart, em Handel Hogwood reinou absoluto, e foi graças a seu ímpeto que toda uma geração ficou conhecendo a obra do compositor. Ainda hoje suas execuções dos “Concerti Grossi” opus 3, do oratório “Messias”, dos “Concerti a Due Cori” e da “Música aquática” não foram suplantadas. Particularmente acho superlativo o registro que ele fez da ópera “Rinaldo”, também de Handel, com Cecilia Bartoli e David Daniels no ano 2000. Tive a felicidade de assistir Hogwood aqui em Curitiba, há mais de 25 anos, onde, com a Academy of Ancient Music, executou um programa que incluía dois dos “Concerti Grossi” opus 3 de Handel. Algo realmente inesquecível. Hogwood, com seu entusiasmo, com seu apuro, com seu bom gosto, fará falta. Infelizmente o grupo que fundou, a Academy of Ancient Music, tem sentido sua ausência. Desde que ele abandonou a formação, em 2006, percebe-se claramente a ausência de sua personalidade musical, e já não é o grupo referência que já foi. Felizmente Hogwood deixa um legado considerável de gravações.

Nada mais apropriado. Um vídeo completo do oratório “Messias” de Handel regido por Hogwood

Enviado por Osvaldo Colarusso, 21/09/14 10:46:06 AM
Hippolyte et Aricie de Rameau em Glyndebourne. Prólogo passado dentro de uma geladeira

Hippolyte et Aricie de Rameau em Glyndebourne. Prólogo passado dentro de uma geladeira

Estou decididamente em uma fase Rameau. Aos desavisados Jean Phillipe Rameau foi o mais importante compositor francês do século XVIII e neste link você pode ler o artigo que escrevi para a Gazeta do Povo há duas semanas, lembrando os 250 anos de sua morte. Estava muito curioso a respeito da primeira ópera do compositor, Hippolyte et Aricie, e descobri que havia apenas um DVD da ópera, gravado no ano passado no famoso Festival de Glyndebourne na Inglaterra. Pesquisei e vi que a amazon.com vendia este DVD por U$ 20.74 e cobrava pelo envio U$ 14.95. No câmbio de hoje o total está por volta de R$ 84,41. Em termos de preço nada mal, muito mais barato do que a mesma ópera em CD. A primeira contrariedade foi descobrir que teria que pagar um imposto chamado IOF, mais uma das “obras primas” do Ministério da Fazenda, calculado em 6,38%. Aliás esta taxação é para qualquer coisa, de uma bolsa Louis Vuitton até livros didáticos. Tudo muito “democrático” e “igualitário” mesmo.
Depois de uma longa espera (sim, nosso correio não é mais o mesmo) chegou o DVD. Deveria estar contente? A princípio sim, mas quando comecei a assistir lembrei do termo “Eurotrash”, o lixo europeu que trata as encenações de óperas com um enorme desrespeito, colocando em cena coisas que destoam, de forma arbitrária, da partitura. A história de Hippolyte et Aricie, com fundo mitológico, trata de um jovem e apaixonado casal. A madrasta de Hippolyte, Fedra, é, entretanto, apaixonada por ele. Seu marido, Teseu, ordena então a morte de seu próprio filho. Graças à intervenção da Deusa Diana, e com o suicídio de Fedra, tudo termina bem. Pois bem, no Prólogo, a Deusa Diana e Cupido discutem questões de amor. Nesta encenação isto se passa dentro de uma geladeira, junto a sucos de laranja, salsichas de frango e pedaços de brócolis. Bailarinos em sensuais cuecas se deliciam com os vegetais, e fazem uma espécie de trenzinho com suas partners. Comecei então a fechar os olhos, para ouvir a bela música e não pactuar com aquele ato criminoso, mas minha curiosidade era maior do que pensava. Terminado o Prólogo o Primeiro Ato se passa num templo de Diana, a Deusa da caça. Alces mortos e pendurados, e sacerdotisas que cortam as gargantas de Alces (espero que sejam bonecos…) e se deliciam com seu sangue. Deixam o sangue cair, e se sujam voluntariamente com toda a “meleca” que sai do Alce. Não vou contar os absurdos em todas as cenas, já que este texto ficaria enfadonho, mas tem duas coisas que me tiraram do sério: as Parcas, que atuam numa cena do Inferno, e para as quais Rameau escreveu uma nobre e inspirada música, estavam vestidas de Aranhas de Desenho animado, algo que se assemelhava com o Homem abelha dos Simpsons. Desesperante !!! Mas tem mais: a cena final é passada em outra geladeira, desta vez a de um necrotério em um hospital moderno.

A cena final na discutível encenação de Jonathan Kent

A cena final na discutível encenação de Jonathan Kent

Quando, graças à intervenção de Diana Hippolyte e Aricie voltam à vida eles são retirados de gavetas refrigeradas, e desta geladeira, de outra porta, sai a suicidada Fedra. Uma bailarina, em gesto completamente gratuito, tira para fora seus seios e ameaça com eles (nem são tão grandes) a pobre madrasta apaixonada. Uma tristeza!!! Sim, as modernas encenações de ópera são um pesadelo, especialmente na Europa, onde estas excentricidades são pagas com dinheiro público.

Stéphane Degout, grande intérprete de Teseu.

Stéphane Degout, grande intérprete de Teseu.

Saldo positivo

Bom, nem tudo foi ruim nesta experiência pois apesar do injusto imposto, da lentidão do correio e da encenação pavorosa, a música sublime de Rameau é executada de forma absolutamente apaixonante. A fantástica orquestra inglesa de instrumentos de época “Orchestra of the Age of Enlightenment” é dirigida pelo grande músico William Christie, que já participou de diversas memoráveis montagens de óperas do compositor. Os cantores são excelentes, de um nível altíssimo, com destaque para Sarah Connolly no papel de Fedra e sobretudo Stéphane Degout no papel de Teseu. Muito bem, então quais soluções eu aponto? Esqueça o imposto, o correio, a encenação horrorosa de Jonathan Kent. Desligue o vídeo e ouça só a música. Ao fazer isso confesso que fui feliz e esqueci de todo o resto.

O vídeo de propaganda deste DVD

Enviado por Osvaldo Colarusso, 07/09/14 5:17:53 PM
A Orquestra Filarmônica Borusan de Istambul

A Orquestra Filarmônica Borusan de Istambul

Uma orquestra turca, onde 99% dos músicos são do próprio país, sustentada por um poderoso grupo industrial local, com um repertório comprometido com sua cultura, com um extenso serviço de formação cultural na comunidade, onde o diretor musical estrangeiro é responsável por 80% das apresentações da orquestra, não há dúvida, pode nos levar, como brasileiros, a uma profunda reflexão.
A Orquestra Filarmônica Borusan de Istambul, uma das melhores orquestras da atualidade, mostra de forma clara a extensão dos benefícios de um aparelho cultural em meio a uma sociedade de um país em desenvolvimento. Fundada em 1999 e custeada por um gigantesco “holding” industrial da Turquia, a orquestra tem feito uma carreira cheia de consistentes êxitos. Seu sucesso mais recente foi o concerto que a Orquestra, sob a regência de seu atual diretor musical, o austríaco Sascha Goetezel, realizou no Proms de Londres, o mais importante festival de música clássica do mundo. Antes disso a orquestra, em 2010, obteve outro êxito no Festival de Salzburg.
O primeiro diretor musical da orquestra foi o turco Gürer Aykal, e desde janeiro de 2009 atua neste cargo Sascha Goetzel. Com ele a orquestra já gravou 3 Cds, com uma fórmula extremamente inteligente: nada de gravar Sinfonias de Schubert ou Beethoven e sim gravar obras que tenham a ver com a linguagem musical turca, ou em termos mais genéricos, do mundo muçulmano. O primeiro CD desta série inclui por exemplo “Belkis, rainha de Sheba” de Ottorino Respighi, partitura com uma orquestração primorosa e com inúmeros empréstimos do idioma do oriente próximo. O sucesso deste lançamento foi enorme, e o último CD da orquestra traz uma realização estonteante do clássico oriental do compositor russo Rimsky-Korsakow: Sheherazade. Alguns trechos da parte de harpa são substituídos, por exemplo, pelo instrumento que Korsakow quis imitar, o Qanun, um instrumento muito usado na música folclórica turca. Além deste detalhe há um comprometimento tal da orquestra que faz com que os críticos coloquem esta versão no alto da lista das inúmeras gravações desta obra.
A inteligência da escolha do repertório, tanto no Proms quanto em Salzburg e nos Cds, vem do fato que seria uma estupidez levar uma orquestra tão boa para Inglaterra ou a Áustria para tocar obras que as Orquestras de lá tocam muito bem. Não há dúvida que a Orquestra Filarmônica Borusan de Istambul tem competência para tocar sinfonias de Schubert, de Beethoven, de Mahler, mas ao escolher o tipo de repertório que inclui em suas turnês, a contribuição da orquestra fica mais evidente. Quem quiser consultar a próxima temporada da orquestra (clique aqui) poderá ver que em Istambul a orquestra toca um repertório bem variado, com obras importantes de diversos períodos da história da música. Em resumo, seu repertório é pensado para a consolidação da qualidade artística da orquestra. No entanto, sua marca quanto ao resto do mundo, é de um flagrante comprometimento com sua herança cultural.

A orquestra no Proms sob a direção de Sascha Goetzel

A orquestra no Proms sob a direção de Sascha Goetzel

O Concerto no Proms

O concerto que a orquestra realizou no Proms de Londres no final de julho deste ano recebeu uma aclamação tanto do público (6000 pessoas assistiram o concerto) quanto da imprensa. Este concerto foi transmitido pela BBC (Santo Deus, que excelente filmagem) no último dia 31. O repertório tem início com Islamey do russo Balakirev, calcado em temas orientais. A próxima obra é “Beni Mora”, uma partitura de cunho oriental composta pelo inglês Gustav Holst (aquele de “Os Planetas”). O mundo turco passou também pela abertura de “O rapto do serralho” de Mozart. Outra homenagem aos ingleses é uma execução de um trecho do oratório Sansão de Handel: A entrada da rainha de Sheba. Daí a obra de Respighi “Belkis, rainha de Sheba”, e como extra a obra clássica turca mais prezada em seu país: Köçekçe rapsódia para orquestra do compositor turco Ulvi Erkin. O público delira no final tanto pela esplendorosa sonoridade das cordas, quanto aos estonteantes solistas de sopro, e um naipe de percussão que acabou sendo o mais aplaudido da noite. Mas creio que uma parte considerável do êxito deste concerto se deve ao carisma e também à competência do maestro Sascha Goetzel. Sua integração com a orquestra é algo raramente vista. Sua competência levou, a meu ver, ao ponto alto desta noite: ele regeu de memória Köçekçe, com todos os seus intrincados ritmos, com uma incessante mudança de compassos. Köçekçe para os turcos equivale para nós à Abertura de O Guarani de Carlos Gomes ou “O Moldávia” de Smetana para os Tchecos. O respeito dele pela obra ficou evidente. Outra coisa boa: a Orquestra Filarmônica Borusan de Istambul acaba de vez com qualquer preconceito a respeito do mundo muçulmano (a Turquia é um país laico): inúmeras (belas) mulheres (mais do que a metade) e uma delas inclusive tocando trombone!Esta orquestra pode ser um bom motivo para a Turquia finalmente entrar na Comunidade Européia.

O Concerto da Orquestra no Proms em sua forma integral. Vale a pena copiar!!!No programa tem a estréia de um Concerto para violino de Gabriel Prokofiev, neto do compositor russo !!!

Enviado por Osvaldo Colarusso, 29/08/14 5:57:37 PM

O “Engenho novo” de Marília Vargas e André Mehmari

Engenho

O soprano Marília Vargas e o pianista e compositor André Mehmari executam canções folclóricas e obras de Chiquinha Gonzaga, Villa-Lobos, Waldemar Henrique, André Mehmari e Vinícius de Moraes.

O CD “Engenho novo” com a cantora Marília Vargas e o pianista e compositor André Mehmari é um lançamento brilhante desde seu nome: Engenho novo. Sim, é um “engenho novo” revitalizar as canções (folclóricas ou não) brasileiras com acompanhamentos e harmonias de uma tal criatividade que torna as antigas melodias merecedoras de um novo interesse. São melodias imortais, que ganham um novo impulso não só através de harmonias muitas vezes inusitadas, mas com citações que estabelecem um diálogo entre diversos setores da nossa música. Em meio a “Nesta Rua” Mehmari, de forma bem sutil, introduz algumas das mais melancólicas frases das Bachianas Nº4 de Villa-Lobos, dando um contorno ainda mais triste para a canção. O “Engenho novo” associa a melodia folclórica a citações de Vivaldi: genial. Os arranjos de “Casinha pequenina” e “São João Dararão”, e sobretudo de “Na loja do mestre André” são de uma beleza impressionante. Quando falo de “diálogos” entre diversos setores da música brasileira reputo de espantoso o diálogo entre Chiquinha Gonzaga e Waldemar Henrique, afinal de contas “O Uirapurú” deste último tem neste CD o corta-jaca da compositora carioca como base de sua introdução. E não falta uma releitura de uma obra dela: Lua branca, magnificamente cantada por Marília Vargas. E assim a coisa vai: cada faixa do CD é uma surpresa com a infindável criatividade de Mehmari. E nesta “infindável criatividade” encontramos uma bela canção composta pelo próprio Mehmari: A bela de Yu, com texto de um poeta chinês do século XIII.

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Os artistas

Marília Vargas, paranaense (nasceu em Ponta Grossa) uma discípula de Neyde Thomas e de Montserrat Figueras, é uma cantora mais conhecida no exterior do que por aqui. Ao mesmo tempo que tem uma enorme ligação com a performance de música barroca, segue os passos de Montserrat Figueras, que também era especialista em música barroca e medieval e que também cantava o “cancioneiro” espanhol e catalão. Marília faz o mesmo, emprestando sua técnica primorosa para uma releitura da música folclórica brasileira. Neste CD seu colorido vocal apresenta uma inacreditável variedade e uma dicção impressionante.

André Mehmari, que nasceu no mesmo ano que Marília (1977) é um artista excepcional. Com inúmeros discos gravados no exterior apresenta qualidades raramente encontradas entre os pianistas mais próximos da música popular: uma sonoridade altamente refinada, uma técnica pra lá de perfeita e um espectro de dinâmicas tão vasto quanto o de um pianista especializado em Chopin ou Schumann. Em resumo, André Mehmari é um dos melhores pianistas brasileiros, seja lá de que área, com um “atout” (a mais): uma inventividade harmônica e uma criatividade composicional que o fazem um instrumentista “inclassificável”, mas absolutamente imprescindível.

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Uma produção caprichada

Longe de qualquer provincianismo, este CD gravado e produzido em Curitiba, tem em sua apresentação outro ponto positivo. Um texto introdutório que demonstra outro talento de André Mehmari (mais um) e o texto (bilíngue) de todas as canções. O som do CD é de um padrão altíssimo (Estúdio Trilhas Urbanas), e a colorida apresentação gráfica que pode levar a uma comunicação imediata com as crianças, para quem este CD também pode se apresentar de forma soberba. Sim, até como instrumento de musicalização infantil este lançamento pode se prestar de forma brilhante.
Este CD pode ser adquirido, por enquanto, na loja Fígaro em Curitiba (Rua Lamenha Lins 62 – Tel: 3224-7795), e brevemente na loja de Cds da Sala São Paulo na capital Paulista e no site da revista Concerto.

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