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Falando de Música

Enviado por Osvaldo Colarusso, 29/01/16 8:39:11 AM
Répons de Boulez em recente apresentação em Paris

Répons de Boulez em recente apresentação em Paris

Pierre Boulez, falecido aos 90 anos no início de janeiro, ficou muito mais conhecido por sua atividade como maestro do que pelo seu trabalho como compositor. Penso mesmo que apenas como compositor ele não viveria numa enorme vila em meio a um gigantesco bosque em Baden-Baden na Alemanha, onde estão dezenas de valiosíssimas obras de arte. Sei que sua obra não é fácil de ser compreendida, mas é fato também a atitude tipicamente hostil do público de música clássica frente à criação contemporânea. Diante desta hostilidade muitos compositores, alguns até mesmo com as melhores intenções, resolveram “dourar a pílula”, facilitar as coisas para o ouvinte, e mudaram de estilo. Se observarmos certos compositores contemporâneos de Boulez, e que escreveram obras tão herméticas quanto as dele, percebemos em Boulez um tipo de firmeza que não ocorreu entre muitos de seus colegas. Karlheinz Stockhausen (1928-2007) por exemplo, um dos mais importantes compositores da segunda metade do século XX, autor de “Zeitmasse” e “Gruppen”, a partir dos anos 60 do século passado dedicou-se mais a happenings, verdadeiros shows onde a música, que se tornou capenga, era apenas um pano de fundo para seu “esdrúxulo” espetáculo. Luciano Berio (1924-2003), autor de obras primas como “Sinfonia” e das maravilhosas “Sequenzas”, em seus últimos anos de vida parou de compor e se dedicou exclusivamente, com resultados discutíveis, a orquestrar e completar obras de compositores do passado (Brahms, Puccini, Schubert, etc.). No caso de Krzysztof Penderecki (nascido em 1933) a mudança foi brutal, sendo que o ousado compositor de “Trenodias para as vítimas de Hiroshima” (1960) tornou-se uma espécie de neo-Bruckner em suas composições atuais. Mesmo os compositores mais jovens largaram uma postura ousada para se tornarem arautos do conservadorismo. É o caso do inglês Thomas Adés (nascido em 1977) que depois da originalidade de obras como Asyla (1977) dirigiu-se para um estilo bem mais açucarado. Aliás Penderecki e Adés são os campeões mundiais de encomendas destinadas a compositores de música clássica. A mudança de estilo foi bem providencial.

Homenagem póstuma a Boulez na cidade de Chicago

Homenagem póstuma a Boulez na cidade de Chicago

Uma produção desafiadora

Voltando a Boulez percebemos que sua produção evoluiu, amadureceu, mas nunca retrocedeu. Quando nos deparamos frente às suas primeiras obras importantes, como suas duas primeiras Sonatas para piano (1949-1950), percebemos uma certa aridez. Mas a partir de “Le marteau sans maître” (1955), obra para meio soprano e pequeno conjunto instrumental, o caminho mágico da ressonância parecia se abrir. Em 1965, com a obra Éclat, para pequeno conjunto instrumental, o som de Boulez assume um estilo que se tornou inconfundível. Reforço a questão da “ressonância” pois ao privilegiar instrumentos como a harpa, o vibrafone, o glockenspiel, o cimbalum , o violão e mesmo o piano, suas obras tornam-se realmente fascinantes por este processo “ressonante”. Uma de minhas obras favoritas do compositor, “Sur incises” (1996-1998), escrita para três harpas, três pianos e três percussionistas mostra, além de um vocabulário sempre novo, esta capacidade de certos instrumentos se complementarem. A culminância de sua linguagem acontece na obra “Répons”, concluída em 1984. As ressonâncias são enriquecidas por processos eletrônicos que modificam ao vivo os sons dos seis solistas (harpa, cimbalum, vibrafone, glockenspiel/xilofone e dois pianos). Obra ambiciosa, necessita, para ser executada, um espaço em que os seis solistas se coloquem a uma certa distância em volta da orquestra que deverá ficar no meio do espaço. Uma verdadeira Sinfonia onde percebemos nos seus 40 minutos de duração claras divisões de movimentos: uma introdução agitada, a entrada dos solistas, um movimento central bem lento, espécie de marcha soturna, um Scherzo rapidíssimo, e um Finale onde os sons se esvaem.

Mesmo com tantas dificuldades técnicas e de logística “Répons” foi executada em diversas cidades da Europa e Estados Unidos, e creio mesmo que a completa percepção da obra se dá mesmo numa execução ao vivo. Não há dúvida que muitas composições da última fase do autor, como “Dérive 1”, Dérive 2” (sua última obra completada, de 2006) e a versão orquestral de “Notations” são mesmo muito mais sedutoras, mas sua complexidade não facilita muito a sua realização e nem a sua compreensão. Em diversas ocasiões Boulez usou o termo “alienante” para composições previsíveis. Sua ideia sempre foi de lançar um desafio a quem mergulhava em suas obras, fosse esse um ouvinte ou um executante.

Boulez com o jovem maestro alemão Ulrich Pöhl

Boulez com o jovem maestro alemão Ulrich Pöhl

Novos intérpretes

Por muito tempo as obras orquestrais de Boulez só conseguiam serem realizadas quando ele próprio regia. Felizmente as inúmeras dificuldades técnicas de suas partituras têm encontrado intérpretes competentes que continuam a fazer execuções de altíssimo nível. Entre estes intérpretes seria justo aqui citar em primeiro lugar Daniel Barenboim, que tem regido diversas obras de Boulez, como “Sur incises”, “Dérive 1” e Dérive 2” e as versões orquestrais de “Notations”, que ele próprio encomendou. Destaco três jovens e excepcionais maestros: o alemão Mathias Pintscher, que dirigiu de forma brilhante “Répons” no ano passado na nova “Philarmonie” de Paris, Ulrich Pöhl, um outro jovem maestro alemão, que também regeu “Répons” em Utrecht, na Holanda, durante um Festival Boulez em dezembro de 2015 e o francês François-Xavier Roth que tem regido com frequência a obra de Boulez sobretudo à frente da Gürzenich-Orchester Köln (Colônia). Quatro músicos fantásticos que se propuseram a manter viva uma obra que muitas vezes é desprezada e esnobada. Aos músicos, especialmente os pianistas, que torcem o nariz ao se depararem frente às dificuldades das partituras de Boulez é bom lembrar que uma pianista que se tornou uma reputada intérprete de Chopin e Rachmaninoff, Idil Biret, gravou, e bastante bem, as três Sonatas para piano dele. Maurizio Pollini, renomado pianista, incluiu diversas vezes “Notations” e a “Sonata N° 2” em seus recitais. A obra de Boulez não faz mal à saúde, mas tem o poder de afugentar os preguiçosos, incapazes e, como dizia o compositor, os alienados.

Vídeos

Boulez com a Filarmônica de Berlim executa uma de suas “Notations”

Vídeos

Mathias Pintscher rege Répons em Paris no ano passado. Vídeo excepcional pela qualidade do som e da imagem. Bom de ver para quem, como eu, nunca assistiu uma execução da obra

Ulrich Pöhl dirige Le Marteau sans maître

Todas as “Notations” orquestradas com a bela regência de François-Xavier Roth

Enviado por Osvaldo Colarusso, 06/01/16 12:28:43 PM
Pierre Boulez, regendo em 2010

Pierre Boulez, regendo em 2010

O compositor e maestro Pierre Boulez faleceu ontem, dia 5 de janeiro, em sua casa localizada em Baden-Baden na Alemanha. Foi sem dúvida alguma um dos mais importantes músicos de sua geração. Compositor notável foi autor de algumas das mais importantes obras escritas na segunda metade do século XX como “Le marteau sans maitre” (1955) para voz de contralto e pequeno conjunto instrumental, “Répons” (1984) para orquestra de câmera e sons eletrônicos e “Notations” tanto em sua forma original para piano (1945), como em sua versão orquestral (1978). Esta versão orquestral se tornou sua obra mais conhecida. De suas três Sonatas para piano, a de Nº 2 (1948) é considerada a mais importante composição pianística escrita depois da segunda guerra mundial. Aluno de Olivier Messiaen (1908-1992) e de René Leibovitz (1913-1972) desenvolveu sua linguagem a partir da estética de Arnold Schoenberg (1874-1951) e Anton Webern (1882-1945). No entanto expandiu seus parâmetros utilizando técnicas aleatórias e transformação eletrônica de execuções instrumentais ao vivo.
Ao falarmos de Pierre Boulez não podemos deixar de citar sua excepcional carreira como maestro. Regendo suas próprias obras a partir de 1956 tornou-se posteriormente um convidado frequente das mais importantes orquestras do mundo (Viena, Berlim, Chicago). Seu repertório foi sempre voltado a obras que ele julgava dignas de serem divulgadas: Wagner, Debussy, Ravel, Bartók, Schoenberg, Webern, Berg, Carter, Ligeti e Mahler formavam o cerne de seu repertório. Sua regência simples, com mínimos gestos, sempre se primou pela clareza e transparência. Foi diretor musical da Orquestra Filarmônica de Nova York (de 1971 a 1977) e da Orquestra Sinfônica da BBC de Londres (de 1971 a 1975). Atuou também de 1970 a 1980 no Festival wagneriano de Bayreuth. Por muitos anos foi o responsável pelo Ensemble Intercontemporain (de 1979 a 1992), sediado em Paris, grupo de excelência especializado na execução de música contemporânea.
Outro aspecto muito importante do músico foi o de um conferencista excepcional e de um professor com excelente didática. Personalidade afável e simpática tornou-se um grande divulgador de uma estética complexa e pouco atraente à primeira vista, e que não encontrava um defensor de sua estatura.
Apesar de suas posturas muitas vezes radicais (nunca regeu uma obra de autores que não gostava como Tchaikovsky, Verdi ou Shostakovich por exemplo) era flexível ao ponto de realizar diversas apresentações com o mestre do rock Frank Zappa (1940-1973).
Seu legado é imenso, seja através de suas composições, mas também através de seus livros e de suas gravações. Obras de Bartók, Webern, Debussy, Ligeti e Alban Berg raramente foram tão bem regidas. Para quem quiser saber algo mais de Boulez escrevi um extenso texto quando o compositor completou 90 anos de idade no ano passado. Você pode lê-lo aqui.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 30/12/15 1:06:01 PM
Theatro Municipal de São Paulo. Corrupção e desmandos

Theatro Municipal de São Paulo. Corrupção e desmandos

As duas melhores novidades na música classica brasileira em 2015: temos o renascer da programação musical no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que agora é dirigido de forma bem acertada pelo compositor João Guilherme Ripper, e a do Palácio das Artes de Belo Horizonte, cujo novo diretor artístico é o maestro Silvio Viegas. Valorização do artista brasileiro, títulos interessantes, programação de qualidade. Mas é doloroso perceber que a musica clássica brasileira acabou aparecendo em notícias não de cultura, mas sim em páginas policiais. Fatos simplesmente vergonhosos que demonstram que a corrupção no país atinge também órgãos ligados à cultura e à música clássica. Longe de qualquer ideal artístico vemos agendas que deveriam ser públicas se transformarem em agendas pessoais que associam corrupção e uma absoluta falta de ética. Não falamos de falta de verbas. Pelas denúncias de corrupção percebemos que em nome da música sinfônica e de ópera somas enormes de dinheiro público pensado originalmente para promover eventos artísticos acabaram sendo desviados.

Theatro Municipal de São Paulo

Desde que, em 2013, começou a atual gestão administrativa e artística do Theatro Municipal de São Paulo os escândalos e a total falta de ética tem se tornado uma rotina por ali. No início foi uma planejada extinção do Coral Paulistano, as demissões intempestivas de artistas de altíssima competência como foi o caso do maestro Mario Zaccaro , que era há décadas maestro do Coral Lírico, e do maestro Jamil Maluf, que regia a Orquestra Experimental de repertório desde sua fundação, e uma série de atitudes que podem se classificar como desastrosas para a ética de uma entidade que produz cultura. Exemplo flagrante disso foi a demissão e afastamento de diversos instrumentistas e coralistas. O caso mais extremo foi da coralista Margarete Lorureiro, deficiente física, que conseguiu a duras penas ser readmitida por ordem da justiça. Citando o blog do diretor teatral Cleber Papa “… há três anos um sombrio desprazer nos envolve quando se fala do Theatro Municipal de São Paulo”. Para culminar, há algumas semanas, estourou um escandaloso caso de corrupção no seio da administração do teatro. José Luiz Herencia, diretor geral da Fundação Theatro Municipal de São Paulo até 19 de novembro passou a ser investigado pelo Ministério Público. Ele é suspeito de participação em um esquema de desvio de verbas públicas e recebimento de propina na Prefeitura de São Paulo, que estima em cerca de R$ 20 milhões os prejuízos aos cofres públicos. Logicamente, o que mais se ouviu na Praça Ramos de Azevedo (onde fica o teatro) de outros funcionários graduados foi a velha frase “eu não sabia de nada”. Há dinheiro sim para a Cultura. Basta ver o montante desviado. Num país sério isso traria sérias consequências. Por aqui apenas o Sr. Herencia saiu, aliás, por pedido dele próprio. O resto, como se diz, fica como antes no quartel do Abrantes.

Orquestra Sinfônica Brasileira: investigada pelo Ministério Público

Orquestra Sinfônica Brasileira: investigada pelo Ministério Público

Orquestra Sinfônica Brasileira

Muitas pessoas acreditam que a Orquestra Sinfônica Brasileira é uma entidade privada, particular. É em termos. A Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira se mantém principalmente de dinheiro público. Entidades como o BNDES e o MINC financiam as atividades da entidade. Desde agosto deste ano o Ministério Público Federal orienta órgãos federais a não repassarem fundos para a entidade e agora, no final do ano, a orquestra passou efetivamente a ser investigada pelo Ministério Público. O que se percebeu a princípio é que certos diretores enriqueceram com dinheiro público colocando em pequenas letras de seus contratos porcentagens questionáveis sobre a pretensa “lucratividade” de uma entidade que deveria ser sem fins lucrativos. O que é mais triste é que existe o risco de não haver dinheiro para pagar os salários dos músicos. É a tal história da corda que sempre arrebenta do lado mais fraco. Vale a pena lembrar que a direção da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira foi a responsável por uma destrambelhada ação em 2011 quando dezenas de músicos foram ameaçados de demissão. As façanhas administrativas levaram a Fundação a formar uma orquestra de dissidentes (OSB Repertório e ópera), que fez tamanho sucesso que incomodou muita gente. Ao ver que não teriam caixa para manter esta segunda orquestra, propôs que os músicos voltassem à OSB, e que poderiam não tocar quando o Diretor Musical (que foi o responsável da ideia das demissões) regesse. Confesso que a princípio não acreditei. Já imaginaram algum músico da Filarmônica de Berlim sendo desobrigado a tocar quando Simon Rattle regesse? Pois no Rio de Janeiro isso acontece.

A maestrina Naomi Munakata

A maestrina Naomi Munakata

Coro da OSESP: Naomi Munakata demitida

Por duas décadas o excelente Coro da OSESP foi regido pela maestrina Naomi Munakata. Ela, que foi minha colega em diversos cursos, é uma musicista de altíssimo nível. Discípula de Eric Ericson (grande maestro sueco. Foi ele quem regeu A Flauta Mágica filmada por I. Bergman) é sem dúvida a mais bem equipada maestrina de coro do país. Foi demitida de forma sumária pela direção da OSESP (Arthur Nestrovski, Marin Alsop e Marcelo Lopes) que num comunicado oficial teceram muitos elogios à maestrina, mas afirmaram em mais de uma oportunidade que o coro não estava atingindo o nível esperado. É público e notório que Naomi não se dava bem com um dos diretores da OSESP, mas demiti-la desta maneira é algo impensável em uma organização que pretende ser séria. Enquanto em outros lugares do mundo a mudança de um maestro é anunciada anos antes, e seu sucessor é anunciado anos antes de assumir, aqui no Brasil não há uma sucessão de maestros que não se aproxime daquilo que se chama de “puxação de tapete”. Não há lisura, não há ética. Isso é o que acontece em todas as orquestras “tupiniquins”. Naomi, infelizmente, tornou-se vítima deste tipo de ação. No sistema “bate e assopra” a OSESP a tornou “Maestrina honorária”.

Alto nível técnico. Baixo nível ético

Não há dúvida de que o nível técnico de nossas orquestras sinfônicas, corais e teatros de ópera subiu muito nos últimos anos. E a quantidade de orquestras aumentou consideravelmente, o que é muito bom para o país. Infelizmente esta melhora não se dá na qualidade humana nas organizações musicais. Egos, injustiças e ambição desmedida financiada com dinheiro público alimentam um dilema básico entre o nível técnico e o nível humano. A melhora deste último é o que espero sinceramente para o ano que vem e para os próximos também. Acredito que sem qualidade humana a atividade artística não faz sentido.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 22/12/15 9:50:37 AM
O maestro Kurt Masur

O maestro Kurt Masur

Kurt Masur, o grande maestro alemão que foi diretor musical da Orquestra do Gewandhaus de Leipzig por 26 anos (1970-1996) e da Filarmônica de Nova York (1991-2002) e que faleceu no último dia 19 de dezembro, foi um artista excepcional. Muito se escreveu nos últimos dias a respeito das qualidades deste grande músico (veja aqui o artigo saído na Ilustrada da Folha de São Paulo), e não tenho a intenção de ser repetitivo nesta questão. Mas creio ser interessante narrar um fato interessante ocorrido na primeira visita de Masur ao Brasil, em 1970. Aliás sua ligação com o país foi muito forte, sendo que sua terceira esposa, com quem ficou casado até sua morte era violinista da Orquestra Sinfônica Brasileira, Tomoko Samurai. Diversas vezes Masur voltou ao Brasil, sendo que sua visita com a Orquestra do Gewandhaus na década de 1980 fez história.
Em 1970 Kurt Masur, então diretor musical da Orquestra Filarmônica de Dresden, foi convidado para reger com a Orquestra Sinfônica Brasileira do Rio de Janeiro um ciclo de obras orquestrais de Beethoven, cujo bicentenário de nascimento era comemorado naquele ano. Todas as sinfonias e concertos deveriam ser executadas sob sua regência. Deveriam, pois apareceu um problema inesperado.

O violinista Isaac Stern

O violinista Isaac Stern

Para tocar o Concerto para violino em ré maior de Beethoven o solista convidado foi Isaac Stern (1920-2001), grande instrumentista que nasceu na Ucrânia mas que se mudou para os Estados Unidos ainda bebê. Stern, de família judia, teve sempre posturas bem radicais quando se falava do povo alemão, que ele acreditava ser o grande culpado pelo holocausto. Stern nunca tocou junto a nenhuma orquestra alemã ou austríaca. Quando chegou ao Rio de Janeiro em junho de 1970, para participar do ciclo Beethoven da Sinfônica Brasileira, declarou que não tocaria com Kurt Masur pelo simples fato dele ser alemão. No programa constava do compositor festejado a Abertura da ópera Fidelio, o Concerto para violino e o Concerto tríplice (obra que contaria com a participação, além de Isaac Stern, de Eugene Istomin ao piano e Leonard Rose ao violoncelo). Com o impasse quem acabou regendo este concerto foi o maestro brasileiro Isaac Karabtchevsky. Logo após o concerto uma longa fila se formou em frente ao camarim de Isaac Stern, para cumprimenta-lo e pedir autógrafos. O primeiro da fila era o maestro Kurt Masur. Ele cumprimentou efusivamente o violinista que se recusara a tocar com ele. A expressão “tapa com luvas de pelica” pode ser usado de forma bem adequada neste caso. Segundo um colega e amigo que testemunhou o ocorrido, Stern ficou extremamente incomodado com o ocorrido. Nunca tive dúvidas de que Stern era um excepcional violinista, mas este fato demonstra que mais do que um grande músico Kurt Masur era um ser humano notável.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 06/12/15 11:09:07 AM
O compositor Jean Sibelius em uma foto de  1946

O compositor Jean Sibelius em uma foto de 1946

Jean Sibelius, o mais renomado compositor finlandês, nascido em 8 de dezembro de 1865, foi um compositor que em sua fase madura permaneceu completamente independente de qualquer corrente influente de sua época. Apesar de sua formação ter sido basicamente alemã e austríaca, não sentimos a presença de Wagner, Brahms, Mahler ou Schoenberg em suas composições. A escola francesa lhe causava tédio (dormiu satisfeito durante a execução dos Noturnos de Debussy) e não tinha nenhuma empatia com a arte de Igor Stravinsky. Era, portanto, um compositor absolutamente original. Conseguimos perceber alguma influencia do romantismo russo em suas primeiras obras (sobretudo na sua primeira sinfonia), mas estes traços característicos desaparecerão em breve. Num certo sentido Sibelius foi um compositor nacionalista, mas muitas vezes sem citar canções e ritmos folclóricos. A Finlândia está retratada em suas composições muito mais pela amplitude e pelas características de suas paisagens. O próprio compositor ao se referir à sua austera Quarta Sinfonia declarou que nela havia a essência da paisagem finlandesa: rochas, água, florestas, escuridão. Outro traço que podemos chamar de nacionalista na obra do compositor é a similaridade entre seus temas musicais e os acentos do vocabulário finlandês, onde há uma preponderância de palavras proparoxítonas. E, finalmente, seu comprometimento com a cultura finlandesa fica bem claro por sua utilização da Kalevala a epopeia nacional da Finlândia, compilada pelo escritor Elias Lönnrot no século XIX. Desta coletânea Sibelius tornará mundialmente conhecidos os mitos de Lemminkäinen , o herói que desafia a morte, Kullervo, o herói que comete involuntariamente um incesto e a belíssima lenda do nascimento do universo, Luonnotar. Vale a pena lembrar também que Sibelius foi uma figura chave no movimento de independência de seu país, que até 1917 era atrelado ao império russo. Algumas de suas obras, como o poema sinfônico “Finlândia” e a Segunda Sinfonia, revelam esta faceta.

O mito de Luonnotar visto pelo pintor finlandês  Päivi Rantanen

O mito de Luonnotar visto pelo pintor finlandês
Päivi Rantanen

Uma produção repleta de obras primas

Existem algumas composições de Sibelius que se tornaram extremamente populares como o seu Concerto para violino e orquestra, o poema sinfônico “Finlândia” e suas duas primeiras sinfonias. No entanto as mais importantes e originais obras do autor são muito menos conhecidas. Para começar a sua única composição camerística de envergadura: O notável Quarteto de cordas “Voces intimae”. Entre suas magníficas sete sinfonias as de número 4 e 6 revelam um tipo de composição única e extremamente ousadas de um compositor maduro. Mas mesmo em suas primeiras composições encontramos obras notáveis como a “Suíte Lemminkäinen” e a Sinfonia Kullervo. “Luonnotar”, obra para soprano e orquestra, é talvez a obra máxima do autor. A já citada lenda da criação do mundo da mitologia finlandesa aparece aqui através de uma narrativa na voz do soprano ecoada por uma grande orquestra. Sua última obra prima, o poema sinfônico Tapiola, narra a destruição da natureza com cores rudes e ásperas.

Ainola, a casa onde o compositor faleceu

Ainola, a casa onde o compositor faleceu

O longo silêncio e a amarga detração

Um dos enigmas do compositor Jean Sibelius é o seu silêncio de mais de 30 anos. Depois de compor sua original Sinfonia Nº 7 (em apenas um movimento!) em 1924 e seu poema sinfônico Tapiola em 1926, o compositor, que só viria a falecer em 1957, não compôs nenhuma outra obra. As razões deste silêncio são motivo de diversas suposições, desde o fato de não se adaptar às novas linguagens até o alcoolismo. Em sua velhice teve que suportar ataques violentos de músicos e pensadores que claramente não suportavam a popularidade de um compositor independente, para o qual nem o atonalismo e nem a irregularidade rítmica lhe despertavam interesse. Em 1955, ano em que o compositor completava 90 anos de idade, o maestro e compositor francês René Leibowitz lançou um estudo em que afirmava que Sibelius “é sem dúvida o pior compositor do mundo”. Em 1938 o filósofo Theodor Adorno escreveu um ensaio onde afirmava que “se Sibelius é um bom compositor então não são válidas as qualidades dos compositores alemães desde Bach (passando por Beethoven e Brahms) até Schoenberg”. A morte de Sibelius revela outro traço marcante do artista. Ao ver um grupo de aves migratórias no céu percebeu que uma delas desfez o grupo. Por causa disso, confidenciou a sua mulher, acreditava que em breve morreria. Dois dias depois, com quase 92 anos, uma hemorragia cerebral causou sua morte. Faleceu em sua casa de campo, em meio a uma floresta finlandesa.

O maestro finlandês Okku Kamu

O maestro finlandês Okku Kamu

Ouvindo Sibelius

Entre as incontáveis gravações das obras do compositor cito aquelas que julgo expoentes máximos entre os intérpretes de sua obra. O Concerto para violino e orquestra tem na leitura de Christian Ferras (Deutsche Grammophon) a referência absoluta. No caso de suas sinfonias podemos destacar diversos grandes intérpretes como Colin Davis, Osmo Vänskä, Simon Rattle e Leif Segerstam, mas os registros de Okko Kamu, sobretudo a recente integral de sinfonias lançado pelo selo BIS, são realmente superlativos. Okko Kamu é também o interprete de referência para a Suíte Leminkäinen (Deutsche Grammophon) e do Poema Sinfônico Tapiola (BIS). Luonnotar é extraordinariamente cantada por Gwyneth Jones (EMI) e Soile Isokoski (Ondine). O Quarteto de Sibelius é magnificamente interpretado pelo New Helsinki Quartet (Apex).

Enviado por Osvaldo Colarusso, 04/12/15 10:46:28 AM
Os deputados ensaiando para a abertura da nova legislatura do Parlamento Suíço

Os deputados ensaiando para a abertura da nova legislatura do Parlamento Suíço

Em meio à desilusão que o Brasil enfrenta diante da lamentável atuação de nossa classe política é chocante sabermos o que se passou na abertura da nova legislatura do Parlamento Suíço. No último dia 30, na cidade de Berna, capital política do país, houve uma cerimônia que empossou Christa Markwalder como a chefe do parlamento, tomadas as devidas proporções, cargo que Renan Calheiros atualmente ocupa no congresso brasileiro. Na Suíça isto equivale a ser na realidade chefe de governo. Ela se tornou, portanto, a pessoa mais poderosa na política de seu país. Ela foi eleita com 159 votos de um total de 183 deputados. Voltando à cerimônia houve algo que me chocou profundamente, brasileiro que sou, vendo diariamente as notícias mais descabidas de nosso congresso: Christa Markwalder ao violoncelo e mais três deputados, Balthasar Glättli no segundo violino, Kathrin Bertschy e Maja Ingold, ao primeiro violino e à viola, apresentaram um quarteto de cordas do compositor tcheco Antonin Dvořák, o Nº 12 em Fá maior opus 96, conhecido como “Americano”. O local da apresentação foi a sala principal do Parlamento Suíço que tem ao fundo uma bela pintura de Charles Giron (1850-1914). Uma imagem inacreditável para nós: Todos os parlamentares em silêncio ouvindo uma composição clássica tocada por seus colegas.

Os políticos suíços escutam seus colegas que formam um Quarteto de Cordas

Os políticos suíços escutam seus colegas que formam um Quarteto de Cordas

Diversas constatações que, acredito, são interessantes de se observar: o ensino musical na Suíça é bastante divulgado e praticado, e inúmeras pessoas são exímios amadores, músicos de horas vagas, mas com um nível técnico excelente. Ao invés de usar suas horas livres em aprimoramentos para surrupiar o dinheiro público, alguns políticos daquele país utilizam suas horas vagas para ter um nível técnico musical suficiente para executar o Quarteto “americano” de Dvořák. Outra constatação: os políticos da Suíça não possuem apartamentos funcionais, nem um exército de assessores como os nossos, e seus vencimentos se limitam a seus salários, não essa montanha de adicionais disso e daquilo. Já tive a satisfação de vê-los andando livremente pela rua, sem seguranças, motoristas, carros de luxo, e tudo o que já se tornou típico por aqui. Outra educação, outra ética. Algo a se refletir. E a lamentar.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 26/11/15 8:21:39 AM
O Coro e a Orquestra da Camerata Antiqua de Curitiba

O Coro e a Orquestra da Camerata Antiqua de Curitiba

Os concertos que farei junto à Camerata Antiqua de Curitiba no próximo fim de semana é a realização de um terceiro projeto junto a este excelente grupo que tenho concretizado nos últimos anos. Em 2013 o projeto foi em torno de obras de Franz Schubert, com destaque para sua obra desconhecida no Brasil “Canto dos espíritos sobre as águas”. Em 2014, a presença de Bach levou à ousadia da dupla apresentação das Bachianas brasileira N° 9 de Villa-Lobos, em sua versão original para “Orquestra de vozes” e na transcrição que o autor fez para orquestra de cordas. Em 2015 o focalizado é Mozart.

Retrato do jovem Mozart

Retrato do jovem Mozart

Mozart em Dó Maior

A vida de Wolfgang Amadeu Mozart foi breve. Nasceu em Salzburg em 1756 e morreu em Viena em 1791. Apesar de ter sido uma criança prodígio as obras primas de Mozart começam realmente a aparecer quando o compositor tinha por volta de dezoito anos de idade. Sua existência em sua cidade natal foi cheia de conflitos, sobretudo no que se refere ao terrível Bispo Hieronymus von Colloredo (1732-1812), o único “patrão” que o compositor teve. A partida definitiva do compositor para Viena em 1781 abrirá espaço para que o compositor expanda um gênio musical extremamente raro, tornando-o o primeiro compositor “independente” da história. Nos últimos anos de sua presença em Salzburg a base deste gigantesco talento pode ser constatada em diversas obras. A ideia de reunir três partituras juvenis do compositor é perceber que a essência de algumas obras primas escritas em Viena já desabrochava na cidade natal do compositor. A primeira obra do programa é a Sinfonia em Dó maior IK 200, numerada (erroneamente, como todas as sinfonias de Mozart) como Nº 28. Ela faz parte de uma série de nove sinfonias escritas entre 1773 e 1774. Muito mais desenvolvida do que a maioria delas (só perde para a Sinfonia em Sol menor) esta Sinfonia apresenta todos os quatro movimentos que normalmente encontramos em sinfonias clássicas. Claramente escrita sob influência de Michael e Joseph Haydn, e de um compositor pouco conhecido, Johann Baptist Wanhal, certos toques de escrita revelam a influência também das técnicas de escrita da escola de Mannheim. A sua escrita virtuosística (especialmente no último movimento) não facilita muito que ela se torne popular. Salvo engano será a primeira execução aqui. A segunda obra do programa é uma das últimas composições de Mozart antes dele se mudar para Viena. Trata-se das “Vesperae solennes de confessore”, IK 339. Obra litúrgica, foi escrita em 1780 para ser executada na Catedral de Salzburg. Os textos vêm dos Salmos 110, 111, 112,113 e 117. A última parte é um Magnificat, extraído do Evangelho de São Lucas. Com este canto de júbilo da Virgem Maria, a obra se foca na voz do soprano solista, que no belíssimo V movimento, o Laudate Dominum nos leva a uma melodia mágica, que parece antecipar o Quarteto de despedida da ópera Cosi fan tutte, que Mozart escreveria alguns anos depois. Em termos de antecipações o IV movimento, Laudate Pueri, parece anunciar a primeira fuga do Requiem que Mozart esboçaria no final de sua vida. A terceira obra é a Missa em Dó maior IK 317, conhecida como “Missa da coroação”. Este título teria a ver com a “Coroação” da estátua da Virgem Maria em uma pequena igreja próxima de Salzburg, mas o título ficou também ligado ao fato da obra ter sido executada nas coroações dos imperadores austríacos Leopoldo II e Francisco II. Esta missa é a mais conhecida obra deste gênero que Mozart completou, já que suas missas mais importantes, a Missa em Dó menor IK 427 e seu Requiem IK 626, permaneceram inacabadas. Foi escrita em 1779, depois de um período de 18 meses fora de Salzburg, quando o compositor tentou se fixar em Paris e em Mannheim. Logo de início percebemos a originalidade, quando, no início da obra, o temor a Deus é manifestado num piano súbito no meio da palavra Kyrie (Senhor). Notável é o fato do Agnus Dei antecipar a ária “Dove sono” de “As bodas de Fígaro”, uma das óperas mais importantes de Mozart, que só seria composta em 1786. Na ária da ópera a Condessa lamenta o fato de seu marido não mais ama-la. A mesma angústia no pedido de paz na parte final da missa leva o compositor a usar a mesma melodia. Realmente o grande compositor já concebia ideias musicais parecidas. Ao executarmos estas três obras o objetivo maior é mostrar que o compositor, quando jovem, já era um mestre absoluto no domínio da linguagem musical. O jovem Mozart já era um grande compositor. Quem quiser assistir os concertos eles acontecerão na Capela Santa Maria, aqui em Curitiba, na sexta, dia 27 às 20 horas e no sábado dia 28 às 18:00.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 21/11/15 12:39:44 PM
A organista Elisa Feixo junto ao órgão histórico de Mariana

A organista Elisa Feixo junto ao órgão histórico de Mariana

Em meio a um dos maiores desastres ambientais do país os noticiários falam à exaustão o nome da cidade de Mariana em Minas Gerais. O tamanho, extensão e as sequelas da tragédia, acontecida no município mineiro, mas que se estende em uma faixa de centenas de quilômetros, oferecem pouco espaço para que pensemos em arte, e a revolta que toma conta do país pelo desleixo e pela indiferença dos responsáveis nos fazem esquecer que em Mariana existe um dos mais importantes instrumentos musicais do país, importância essa que não é só brasileira, é mundial.

Um autêntico órgão Arp Schnitger

Em 1753 a antiga capital de Minas Gerais, Mariana, recebia da coroa portuguesa um órgão que refletia a importância da cidade naquela época. Este órgão foi construído pelo célebre Arp Schnitger (1648-1719), um dos organeiros prediletos de Bach. Comprado pela coroa portuguesa em 1745 foi a princípio pensado como um presente à cidade de Mariana pelo rei Dom João V. Como a morte deste a doação para a cidade mineira foi feita por seu filho, Dom José I. Há uma descrição pitoresca sobre o transporte do enorme instrumento: “…um Órgão grande com sua caixa e talhas pertencentes a ele que chegou em 18 caixões numerados com as advertências precisas para se armar e também em 10 embrulhos grandes e pequenos numerados…”. Este magnífico instrumento chegou ao século XX completamente abandonado sendo que por volta de 1930 não oferecia mais condições de ser utilizado. No final da década de 1970 uma visita inesperada a Mariana do grande organista alemão Karl Richter (1926-1981) deu início a uma ação que viria tornar este instrumento alvo de uma atenção internacional. Levado para Hamburgo, cidade onde Arp Schnitiger foi muito ativo durante sua vida, permaneceu por alguns anos em reforma pela firma Beckerath. Em 1984 o órgão voltou a entrar em atividade na cidade de Mariana, e acabou sendo novamente reformado em 2002. Vale lembrar que além da qualidade excepcional do instrumento sua varando foi originalmente idealizada por Manuel Francisco Lisboa, o pai do famoso Aleijadinho. Este instrumento é o único órgão Arp Schnitger fora da Europa e sua autenticidade foi provada por um outro instrumento, uma espécie de gêmeo, que se encontra na cidade de Faro, em Portugal, mas ao contrário deste instrumento que foi bem modificado pelo organeiro italiano Caetano Oldovini em 1767, o de Mariana apresenta, especialmente depois da última reforma, uma sonoridade bem mais autêntica. Um nome associado a esta maravilha é o da mais importante organista brasileira, a paulista Elisa Freixo. Elisa, além de atuar em incontáveis apresentações e palestras na própria igreja, gravou alguns Cds que são de uma qualidade e de uma importância inquestionáveis. Elisa atualmente está morando em Tiradentes, onde cuida de outro órgão histórico. Atualmente, quando a lama assim o permitir, Mariana poderá assistir apresentações de outra organista residente, a portuguesa Edite Rocha, que deverá dividir as apresentações com a organista brasileira.

O fotógrafo Sebastião Salgado na abertura de uma exposição em Londres patrocinada pela Vale

O fotógrafo Sebastião Salgado na abertura de uma exposição em Londres patrocinada pela Vale

Patrocínios incômodos, política que perturba

Além do descaso das mineradoras como a Samarco (controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Billiton) as cidades históricas de Minas sofrem por suas desastrosas administrações. Mariana, por exemplo, teve nada menos do que sete prefeitos em cinco anos. Nenhum dos três últimos eleitos conseguiu concluir o mandato. Isso atrapalhou demais a captação de recursos públicos, mesmo aquele para restauro e manutenção do patrimônio histórico, inclusive da Catedral de Mariana. Isso faz com que a cidade dependa, em todas as áreas, de forma acentuada da arrecadação das mineradoras. Ouro Preto, Patrimônio Cultural da Humanidade (Unesco) sofreu por anos com a poluição provocada pela Alcan (que posteriormente mudou de nome para Novelis) e os prefeitos sempre defendiam as indústrias poluidoras defendendo a arrecadação do município. Para sorte da cidade, as indústrias de alumínio diminuíram drasticamente suas atividades, e consequentemente a poluição, não por ingerência dos políticos, mas sim porque produzir alumínio no Brasil tornou-se economicamente inviável. A gigantesca Vale, ex Vale do Rio Doce, empresa cuja privatização foi muito contestada no final do século passado, demonstrou sua verdadeira face no recente desastre ambiental ocorrido em Minas. Seu esforço contínuo de aparentar uma empresa “consciente” e “preocupada com o meio ambiente” foram pode-se dizer “lama abaixo”. Estrela máxima do marketing da mineradora é o renomado fotógrafo Sebastião Salgado, profissional a serviço da empresa há décadas. No que se refere à música clássica a Vale foi por muitos anos a principal patrocinadora da Orquestra Sinfônica Brasileira, e ocupa destaque entre os patrocinadores da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Não tem como deixar de sentir um certo incômodo nestes patrocínios. Escaparmos de um suporte financeiro de uma indústria de armas não é difícil, mas o que fazer frente a uma empresa que constrói uma imagem falsa de ética?

Enviado por Osvaldo Colarusso, 08/11/15 11:11:01 AM
Capa do CD com música colonial brasileira

Capa do CD com música colonial brasileira

Uma longa pesquisa

A música composta no período colonial brasileiro se tornou conhecida graças ao empenho de certos estudiosos e musicólogos, que através de esforço gigantesco conseguiram, na segunda metade do século passado, trazer à luz trabalhos no mínimo interessantes. Curt Lange pesquisou a produção feita em Minas Gerais no século XVIII e início do século XIX, com destaque para as composições de Emerico Lobo de Mesquita (1746-1805). O Padre Jaime Diniz nos fez descobrir a obra do compositor pernambucano Luiz Álvarez Pinto (1719-1789). A Maestrina Cleofe Person de Mattos realizou as mais importantes descobertas da obra de José Maurício Nunes Garcia (1767-1830). Regis Duprat fez o mesmo com a obra de André da Silva Gomes (1752-1844), português que viveu a maior parte de sua vida no Brasil. A importância deste material é inquestionável. Mas qual é realmente a qualidade de todo este material musical? Uma excelente maneira de aquilatar esta produção aparece num excelente CD lançado há algumas semanas na Inglaterra com o título de “Brazilian Adventures”, gravado pelo selo Hyperion. Com brilhantes execuções o grupo inglês Ex Cathedra é regido por Jeffrey Skidmore.

José Maurício Nunes Garcia, genial compositor carioca

José Maurício Nunes Garcia, genial compositor carioca

Uma bela amostragem

Cada um dos expoentes entre os compositores coloniais brasileiros se encontram representados neste CD. De José Maurício Nunes Garcia é executada de maneira brilhante a sua bela Missa Pastoril para a noite de natal (sem, no entanto, ultrapassar a qualidade da execução do Grupo Turicum dirigido por Luiz Alves da Silva). Destacaria, além da bela sonoridade do coro e da orquestra, os magníficos solos de clarinete de Katherine Spencer que nos fazem lembrar a paixão do compositor pelas obras de Mozart. De André da Silva Gomes é apresentada a sua Missa para 8 vozes e instrumentos. Em meio a estas duas grandes partituras, miniaturas de Emerico Lobo de Mesquita, Luiz Álvarez Pinto, Teodoro Cyro de Souza (1761-18…), compositor português que atuou na Bahia, recentemente redescoberto, e dois Villancicos inéditos e anônimo em português descobertos pelo musicólogo Paulo Castagna, na região de Mogi das Cruzes. Vale lembrar que além dos pesquisadores já citados lembraria alguns estudiosos que mantem vivo este interesse por nosso passado musical: Pablo Sotuyo Blanco, professor em Salvador, e Harry Crowl, compositor e musicólogo atualmente vivendo em Curitiba. Através dos escritos deles obtive informações indispensáveis sobre os compositores citados.

Um termo errado

Existe o hábito inexato de se chamar toda esta produção de “Barroco mineiro”, ou de “Música barroca colonial”. Se nos baseamos nas pesquisas de Curt Lange o que se tocava com frequência nas igrejas mineiras na segunda metade do século XVIII eram obras de Haydn e seus contemporâneos. E não podemos ignorar a paixão que José Maurício Nunes Garcia tinha mor Mozart. Ele dirigiu no Rio obras do compositor austríaco como seu Requiem ou sua Sinfonia 38 no início do século XIX, obras que influenciaram demais sua produção. Ao ouvirmos neste CD as Missas de José Maurício e André da Silva Gomes não constatamos nada de barroco. Mesmo os belos trabalhos contrapontísticos de Luiz Alvarez Pinto nos parecem mais uma visão contrapontística do período cássico.

O violinista curitibano Rodolfo Richter

O violinista curitibano Rodolfo Richter

Qualidade das obras e dos executantes

Neste repertório enfocado no CD vemos que, a meu ver, o grande gênio musical daquela época no Brasil foi José Maurício Nunes Garcia. A comparação frente à Missa de André da Silva Gomes não deixa dúvidas a este respeito. Bela surpresa para mim foi a curta composição de Luiz Alvarez Pinto, Beata Virgo. Uma pequena joia com refinada escrita contrapontística. Este CD destaca também a enorme qualidade do violinista curitibano Rodolfo Richter, atualmente residente na Inglaterra, que não só atua como spalla da orquestra, mas ainda atua em alguns solos de viola. Rodolfo Richter, atual coordenador do setor de música antiga da Oficina de Música de Curitiba tem trazido o Maestro Jeffrey Skidmore para atuar nos cursos na capital paranaense. Sem dúvida alguma deve ter servido de inspiração nesta bem-vinda empreitada. O CD pode ser comprado pela loja digital CD Point (www.cdpoint.com.br) por R$ R$ 127,71, ou baixado pela iTunes por U$9,99. O Livreto vem junto.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 30/10/15 9:57:23 AM
Senador Cristovam Buarque, autor de um novo projeto de ajuda aos músicos

Senador Cristovam Buarque, autor de um novo projeto de ajuda aos músicos

A carga tributária, quando da importação de instrumentos musicais, parece seguir o nefasto caminho brasileiro de uma enorme quantidade de impostos: Imposto de Importação (IPI), Confins, PIS/PASEP entre outros. Isto resulta num aumento exacerbado no preço que é cobrado no país de origem. Algo indiscutível é que a qualidade dos instrumentos construídos aqui fica muito a desejar, e a importação torna-se vital para um desenvolvimento técnico do profissional ligado à música. Ainda podemos ter algo razoável quando pensamos em certos instrumentos fabricados no Brasil como o piano e o violão, mas mesmo estes instrumentos tornam-se insuficientes quando imaginamos uma carreira de solista por exemplo. A qualidade em termos tímbricos e de afinação aproxima-se do inaceitável quando pensamos em instrumentos como a flauta, o clarinete, o saxofone, e certos instrumentos nem são fabricados aqui, como o contra-fagote e a celesta por exemplo. Importar instrumentos é a coisa mais natural em todo o mundo. Americanos compram oboés franceses, espanhóis compram fagotes alemães, australianos compram pianos americanos, etc. Percebendo-se o absurdo que um músico brasileiro tem que despender para ter seu próprio instrumento de trabalho alguns políticos mais sensíveis (uma raridade) resolveram dar uma colaboração neste sentido. Em 2004 o então senador por Roraima (não conseguiu se reeleger no ano passado) Mozarildo Cavalcanti foi autor de um projeto (PLS 86/2004) de isenção de impostos para importação de instrumentos musicais, e a relatoria do mesmo ficou a cargo do senador Waldemir Moka do Mato Grosso do Sul. A matéria ficou em discussão por mais de dez anos, e um questionamento decisivo foi feito pelo já falecido senador por Santa Catarina Luiz Henrique, que representou o lobby das indústrias brasileiras de instrumentos. Luiz Henrique conseguiu fazer com que o projeto fosse arquivado no início deste ano. A decisão final na Comissão de Educação, Cultura e Esporte, foi de Hélio Costa. O parecer final do senador termina com estas ridículas palavras: “Assim, estaremos permitindo ao fabricante nacional de instrumentos musicais a concorrer em igualdade de condições com o importado, viabilizando, dessa forma, a continuidade de seu negócio e o aperfeiçoamento do produto brasileiro”. O lobby defendido pelo senador catarinense foi vitorioso.

Um novo projeto

Um novo projeto foi apresentado logo após o arquivamento do PLS 86/2004. Quem encampou a ideia foi o senador Cristovam Buarque do Distrito Federal. O novo projeto é o PLS 697/2015. Tentando ser mais convincente ele incluiu algumas condições: “cada músico profissional só pode usar o benefício da isenção uma vez a cada 36 meses. Além disso, se o produto adquirido com isenção for revendido antes de três anos para alguém que não seja músico profissional, os tributos dispensados serão cobrados com atualização monetária”. O projeto está no início da tramitação, e não podemos esquecer que o projeto anterior levou 11 anos para ser arquivado. Por isso é uma leviandade nas redes sociais ele aparecer como já aprovado. Contra ele, além do lobby das industrias brasileiras de instrumentos musicais, há a desesperante situação da nossa economia. O governo federal conseguiu realizar um feito marcante: um déficit inédito de algo em torno dos R$ 100 bilhões. Por isso a última coisa que o ministro da Fazenda e seus assustados colegas querem ouvir falar é de abrir mão de impostos. Ao contrário, querem até criar novos. Cristovam Buarque, um dos raríssimos políticos sérios deste país, deve saber que a empreitada não será fácil. Como é de praxe no senado há um link em que você pode votar pela defesa do projeto: http://www12.senado.gov.br/ecidadania/visualizacaotexto?id=181615. Se você clicar no endereço poderá opinar. Hoje, 30 de outubro de 2015, 4511 pessoas votaram pelo apoio ao projeto. 12 votaram contra (gostaria de saber quem foram estes 12). Não há dúvida que se houver uma grande quantidade de apoiadores a tarefa do senador Cristovam Buarque ficará mais fácil. O mínimo que podemos fazer é entrar no link e votar a favor. Dizem por aí que a esperança é a última que morre.

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