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Enviado por Osvaldo Colarusso, 07/09/14 5:17:53 PM
A Orquestra Filarmônica Borusan de Istambul

A Orquestra Filarmônica Borusan de Istambul

Uma orquestra turca, onde 99% dos músicos são do próprio país, sustentada por um poderoso grupo industrial local, com um repertório comprometido com sua cultura, com um extenso serviço de formação cultural na comunidade, onde o diretor musical estrangeiro é responsável por 80% das apresentações da orquestra, não há dúvida, pode nos levar, como brasileiros, a uma profunda reflexão.
A Orquestra Filarmônica Borusan de Istambul, uma das melhores orquestras da atualidade, mostra de forma clara a extensão dos benefícios de um aparelho cultural em meio a uma sociedade de um país em desenvolvimento. Fundada em 1999 e custeada por um gigantesco “holding” industrial da Turquia, a orquestra tem feito uma carreira cheia de consistentes êxitos. Seu sucesso mais recente foi o concerto que a Orquestra, sob a regência de seu atual diretor musical, o austríaco Sascha Goetezel, realizou no Proms de Londres, o mais importante festival de música clássica do mundo. Antes disso a orquestra, em 2010, obteve outro êxito no Festival de Salzburg.
O primeiro diretor musical da orquestra foi o turco Gürer Aykal, e desde janeiro de 2009 atua neste cargo Sascha Goetzel. Com ele a orquestra já gravou 3 Cds, com uma fórmula extremamente inteligente: nada de gravar Sinfonias de Schubert ou Beethoven e sim gravar obras que tenham a ver com a linguagem musical turca, ou em termos mais genéricos, do mundo muçulmano. O primeiro CD desta série inclui por exemplo “Belkis, rainha de Sheba” de Ottorino Respighi, partitura com uma orquestração primorosa e com inúmeros empréstimos do idioma do oriente próximo. O sucesso deste lançamento foi enorme, e o último CD da orquestra traz uma realização estonteante do clássico oriental do compositor russo Rimsky-Korsakow: Sheherazade. Alguns trechos da parte de harpa são substituídos, por exemplo, pelo instrumento que Korsakow quis imitar, o Qanun, um instrumento muito usado na música folclórica turca. Além deste detalhe há um comprometimento tal da orquestra que faz com que os críticos coloquem esta versão no alto da lista das inúmeras gravações desta obra.
A inteligência da escolha do repertório, tanto no Proms quanto em Salzburg e nos Cds, vem do fato que seria uma estupidez levar uma orquestra tão boa para Inglaterra ou a Áustria para tocar obras que as Orquestras de lá tocam muito bem. Não há dúvida que a Orquestra Filarmônica Borusan de Istambul tem competência para tocar sinfonias de Schubert, de Beethoven, de Mahler, mas ao escolher o tipo de repertório que inclui em suas turnês, a contribuição da orquestra fica mais evidente. Quem quiser consultar a próxima temporada da orquestra (clique aqui) poderá ver que em Istambul a orquestra toca um repertório bem variado, com obras importantes de diversos períodos da história da música. Em resumo, seu repertório é pensado para a consolidação da qualidade artística da orquestra. No entanto, sua marca quanto ao resto do mundo, é de um flagrante comprometimento com sua herança cultural.

A orquestra no Proms sob a direção de Sascha Goetzel

A orquestra no Proms sob a direção de Sascha Goetzel

O Concerto no Proms

O concerto que a orquestra realizou no Proms de Londres no final de julho deste ano recebeu uma aclamação tanto do público (6000 pessoas assistiram o concerto) quanto da imprensa. Este concerto foi transmitido pela BBC (Santo Deus, que excelente filmagem) no último dia 31. O repertório tem início com Islamey do russo Balakirev, calcado em temas orientais. A próxima obra é “Beni Mora”, uma partitura de cunho oriental composta pelo inglês Gustav Holst (aquele de “Os Planetas”). O mundo turco passou também pela abertura de “O rapto do serralho” de Mozart. Outra homenagem aos ingleses é uma execução de um trecho do oratório Sansão de Handel: A entrada da rainha de Sheba. Daí a obra de Respighi “Belkis, rainha de Sheba”, e como extra a obra clássica turca mais prezada em seu país: Köçekçe rapsódia para orquestra do compositor turco Ulvi Erkin. O público delira no final tanto pela esplendorosa sonoridade das cordas, quanto aos estonteantes solistas de sopro, e um naipe de percussão que acabou sendo o mais aplaudido da noite. Mas creio que uma parte considerável do êxito deste concerto se deve ao carisma e também à competência do maestro Sascha Goetzel. Sua integração com a orquestra é algo raramente vista. Sua competência levou, a meu ver, ao ponto alto desta noite: ele regeu de memória Köçekçe, com todos os seus intrincados ritmos, com uma incessante mudança de compassos. Köçekçe para os turcos equivale para nós à Abertura de O Guarani de Carlos Gomes ou “O Moldávia” de Smetana para os Tchecos. O respeito dele pela obra ficou evidente. Outra coisa boa: a Orquestra Filarmônica Borusan de Istambul acaba de vez com qualquer preconceito a respeito do mundo muçulmano (a Turquia é um país laico): inúmeras (belas) mulheres (mais do que a metade) e uma delas inclusive tocando trombone!Esta orquestra pode ser um bom motivo para a Turquia finalmente entrar na Comunidade Européia.

O Concerto da Orquestra no Proms em sua forma integral. Vale a pena copiar!!!No programa tem a estréia de um Concerto para violino de Gabriel Prokofiev, neto do compositor russo !!!

Enviado por Osvaldo Colarusso, 29/08/14 5:57:37 PM

O “Engenho novo” de Marília Vargas e André Mehmari

Engenho

O soprano Marília Vargas e o pianista e compositor André Mehmari executam canções folclóricas e obras de Chiquinha Gonzaga, Villa-Lobos, Waldemar Henrique, André Mehmari e Vinícius de Moraes.

O CD “Engenho novo” com a cantora Marília Vargas e o pianista e compositor André Mehmari é um lançamento brilhante desde seu nome: Engenho novo. Sim, é um “engenho novo” revitalizar as canções (folclóricas ou não) brasileiras com acompanhamentos e harmonias de uma tal criatividade que torna as antigas melodias merecedoras de um novo interesse. São melodias imortais, que ganham um novo impulso não só através de harmonias muitas vezes inusitadas, mas com citações que estabelecem um diálogo entre diversos setores da nossa música. Em meio a “Nesta Rua” Mehmari, de forma bem sutil, introduz algumas das mais melancólicas frases das Bachianas Nº4 de Villa-Lobos, dando um contorno ainda mais triste para a canção. O “Engenho novo” associa a melodia folclórica a citações de Vivaldi: genial. Os arranjos de “Casinha pequenina” e “São João Dararão”, e sobretudo de “Na loja do mestre André” são de uma beleza impressionante. Quando falo de “diálogos” entre diversos setores da música brasileira reputo de espantoso o diálogo entre Chiquinha Gonzaga e Waldemar Henrique, afinal de contas “O Uirapurú” deste último tem neste CD o corta-jaca da compositora carioca como base de sua introdução. E não falta uma releitura de uma obra dela: Lua branca, magnificamente cantada por Marília Vargas. E assim a coisa vai: cada faixa do CD é uma surpresa com a infindável criatividade de Mehmari. E nesta “infindável criatividade” encontramos uma bela canção composta pelo próprio Mehmari: A bela de Yu, com texto de um poeta chinês do século XIII.

Engenho 2

Os artistas

Marília Vargas, paranaense (nasceu em Ponta Grossa) uma discípula de Neyde Thomas e de Montserrat Figueras, é uma cantora mais conhecida no exterior do que por aqui. Ao mesmo tempo que tem uma enorme ligação com a performance de música barroca, segue os passos de Montserrat Figueras, que também era especialista em música barroca e medieval e que também cantava o “cancioneiro” espanhol e catalão. Marília faz o mesmo, emprestando sua técnica primorosa para uma releitura da música folclórica brasileira. Neste CD seu colorido vocal apresenta uma inacreditável variedade e uma dicção impressionante.

André Mehmari, que nasceu no mesmo ano que Marília (1977) é um artista excepcional. Com inúmeros discos gravados no exterior apresenta qualidades raramente encontradas entre os pianistas mais próximos da música popular: uma sonoridade altamente refinada, uma técnica pra lá de perfeita e um espectro de dinâmicas tão vasto quanto o de um pianista especializado em Chopin ou Schumann. Em resumo, André Mehmari é um dos melhores pianistas brasileiros, seja lá de que área, com um “atout” (a mais): uma inventividade harmônica e uma criatividade composicional que o fazem um instrumentista “inclassificável”, mas absolutamente imprescindível.

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Uma produção caprichada

Longe de qualquer provincianismo, este CD gravado e produzido em Curitiba, tem em sua apresentação outro ponto positivo. Um texto introdutório que demonstra outro talento de André Mehmari (mais um) e o texto (bilíngue) de todas as canções. O som do CD é de um padrão altíssimo (Estúdio Trilhas Urbanas), e a colorida apresentação gráfica que pode levar a uma comunicação imediata com as crianças, para quem este CD também pode se apresentar de forma soberba. Sim, até como instrumento de musicalização infantil este lançamento pode se prestar de forma brilhante.
Este CD pode ser adquirido, por enquanto, na loja Fígaro em Curitiba (Rua Lamenha Lins 62 – Tel: 3224-7795), e brevemente na loja de Cds da Sala São Paulo na capital Paulista e no site da revista Concerto.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 20/08/14 4:37:09 PM
Cena da controvertida ópera "A morte de Klinghoffer"

Cena da controvertida ópera “A morte de Klinghoffer”

O Metropolitan Opera de Nova York é o principal teatro de ópera do mundo. Durante sua temporada, que vai de setembro até maio, ele apresenta sete espetáculos diferentes em cada semana. São sete óperas apresentadas de segunda a sábado. Nos sábados eles apresentam duas óperas, uma às 13:00 horas e outra mais à noite. Nesta temporada serão apresentados 26 títulos diferentes !!! Os elencos estão recheados sempre pelas maiores estrelas do momento e sua orquestra é uma das melhores do mundo. O Met foi o pioneiro em relação às legendas e sobretudo na transmissão, ao vivo, de seus espetáculos em salas de cinema de todo o mundo (mais de 1500 salas de cinema). Na Europa a disputa por ingressos destas sessões de cinema leva as pessoas a fazerem assinatura de toda a série. Mesmo aqui no Brasil estas óperas do Met nos cinemas conta com um bom público. Lembro que uma vez estava no Rio de Janeiro e ia ser exibida “Boris Godunov” de Mussorgsky, e, para assistir tive que disputar um último ingresso. Cidades carentes de ópera como Curitiba, Porto Alegre e mesmo o Rio de Janeiro, encontram nestas óperas transmitidas ao vivo, com legendas e com uma excelente produção cênico/musical, um enorme consolo. O cuidado do Met é escolher óperas dos mais diversos estilos para estas transmissões: uma francesa, uma italiana, uma russa, uma alemã , uma contemporânea, etc. A lista neste ano incluía uma ópera moderna de um autor americano, John Adams. Incluía, no passado, por que ela foi tirada da lista de produções transmitidas para os cinemas. A transmissão da ópera “A morte de Klinghoffer” foi cancelada nos cinemas em todo o mundo. Ela só será apresentada no Teatro do Metropolitan Opera em 8 récitas de 20 de outubro até 15 de novembro. Esta última récita é que estava originalmente na lista das óperas transmitidas mundialmente. Convém saber o porquê desta censura.

O compositor John Adams

O compositor John Adams

As óperas “históricas” de John Adams

John Adams, compositor americano nascido em 1947, é um renomado músico conhecido por sua obra de estilo minimalista. Algumas de suas óperas tratam de fatos históricos relativamente recentes. Por exemplo “Nixon in China”, de 1987, fala da visita do presidente americano ao gigantesco país asiático, numa época em que a China ainda era um país tremendamente isolado. Já “Doctor atomic” de 2005 fala dos conflitos de consciência de J. Robert Oppenheimer, o pai da bomba atômica. Em 1991 John Adams compôs “A morte de Klinghoffer”, que trata do sequestro, efetuado por terroristas palestinos, do navio Achille Lauro, em 1985. O título tem a ver com o fato de que neste sequestro foi morto um judeu americano, paraplégico, Leon Klinghoffer. O texto da ópera foi escrito por Alice Goodman, e nele são analisadas as razões de cada lado do conflito palestino/israelense. Num prólogo há um coro dos exilados palestinos e um coro dos exilados judeus e conforme a narrativa do sequestro é narrada, existem belos momentos de reflexão, como a narrativa da história de Hagar e Ismael, que explica em termos bíblicos, a origem da disputa dos dois povos. O libreto trata o conflito lidando com os dois lados, tentando entender as duas partes. É absolutamente isento. Isto foi o suficiente para acusarem a ópera de antissemita. A lógica é mais ou menos a seguinte: se você não está do meu lado você é contra mim. A ópera foi estreada no ano de 1991 no Théatre Royal de la Monnaie em Bruxelas, e teve uma bela sequência de apresentações no velho continente. Já nos Estados Unidos a polêmica parece ser interminável para as apresentações da mesma.

A força do lobby sionista

Depois do enorme sucesso de “Nixon in China” na temporada 2012 do Metroplolitan Opera (foi incluída na lista das óperas transmitidas nos cinemas) a direção do teatro resolveu montar outra obra de Adams, desta vez “A morte de Klinghoffer”, com um elenco excepcional com direção musical do excelente maestro David Robertson, tendo num dos principais papéis o barítono brasileiro Paulo Szot. Daí começou a celeuma. O lobby sionista, muito forte em Nova York, quis que a produção fosse cancelada. Depois de muita conversa a produção foi mantida, mas a transmissão nos cinemas foi cancelada. O Met vive de patrocínios e de doações pois os ingressos (pra lá de caros) custeiam menos de um quarto dos custos do teatro. Por isso manter a produção foi uma vitória do Metropolitan Opera. Mas que é algo triste o mundo não poder assistir este espetáculo, que artisticamente deverá ser tão interessante, isto não posso negar. O que nos resta como consolo é uma excelente gravação regida por Kent Nagano e um DVD gravado em Londres regido pelo compositor de uma versão filmada (proibido de ser vendido em Israel). Se quiserem se inteirar sobre o assunto, e ver os inúmeros grupos que se opuseram ao Met leiam esta coluna de Alex Ross na revista New Yorker.

Trechos da versão filmada da ópera. Cenas fortes!!!

Enviado por Osvaldo Colarusso, 13/08/14 3:37:07 PM
Frans Brüggen, grande músico que faleceu hoje

Frans Brüggen, grande músico que faleceu hoje

Hoje é um dia recheado de mortes. Dizem mesmo que 13 de agosto não é um dia muito positivo. Ao ver que hoje morreram a atriz Lauren Bacall e o político Eduardo Campos pensava que a cota de mortes de notáveis já estava esgotada. Mas fico sabendo agora que faleceu um músico extremamente importante no cenário da música clássica mundial: Frans Brüggen. Ele faleceu aos 79 anos de idade (completaria 80 em outubro) e deixa um legado enorme para as novas gerações. Holandês, no início de sua longa carreira o músico era um virtuose da Flauta Doce e da Flauta Transversa Barroca, e com estes instrumentos formou uma série de conjuntos e se apresentou por todo o mundo. Em 1981 funda a “Orquestra do século XVIII”, uma das primeiras orquestras a utilizarem apenas instrumentos históricos. Com um enorme grau de excelência eles apresentaram e gravaram um vasto repertório, no qual se destacam obras de Rameau, Mozart, Haydn, Beethoven, Schubert e Mendelssohn. Sua gravação da íntegra das 9 Sinfonias de Beethoven está entre as mais perfeitas já realizadas. Frans Brüggen demonstrou de forma clara que tocar música antiga (barroca ou clássica) não tinha nada de aborrecido. Ao contrário, suas versões eram entusiasmadas, mesmo nos últimos anos, quando sua saúde já estava comprometida. Atuou como maestro convidado de diversas orquestras importantes, entre as quais a Real Orquestra do Concertgebow de sua cidade natal Amsterdam. Frans Brüggen foi o responsável por se sair da teoria em termos de prática instrumental barroca, e passar a se fazer música antiga com prazer e grande eficácia. Sem seu trabalho orquestras de instrumentos de época como Les Musicien du Louvre (França) ou a Orchestra of the Age of Enlightenment (Inglaterra) teriam uma história bem diferente. Aqui no blog já dediquei um longo texto a respeito de seu trabalho. Leia aqui.

Este vídeo da Terceira Sinfonia de Beethoven, feito em 1988, mostra a enorme capacidade de Frans Bruggen e seus músicos (entre eles o flautista brasileiro Ricardo Kanji). Este vídeo mudou o destino dos que se interessaram na execução desta obra. Podemos dizer que é um divisor de águas.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 10/08/14 11:11:19 AM
Nas pinturas de Otto Dix, os horrores da Primeira Guerra Mundial

Nas pinturas de Otto Dix, os horrores da Primeira Guerra Mundial

O centenário do início da Primeira Guerra Mundial, que durou de 1914 a 1918, nos leva ao encontro de composições musicais de altíssimo nível, que foram escritas inspiradas em fatos que ocorreram provocados pelo conflito. A Primeira Guerra Mundial foi a mais devastadora e letal guerra ocorrida na Europa até então. Armas novas como as de ação química e a nascente aviação cumpriram uma destruição nunca vista, num curto espaço de tempo, no velho continente. Eu destaco três grandes compositores, que em meio a tantas mortes e tanta destruição acabaram encontrando um caminho pelo qual enxergamos a dor que assolou suas vidas.

Maurice Ravel

Maurice Ravel

Maurice Ravel: Le tombeau de Couperin (A tumba de Couperin)

Maurice Ravel (1875-1937) ficou revoltado com as agressões alemãs ao seu país. Apesar de sua pequena altura (1,61 metros) e de uma saúde sempre frágil ele se dispôs a atuar ativamente nas frentes de batalha. Pensava em ser aviador (os aviadores nesta época tinham pouca altura) mas acabou servindo como motorista de caminhão. Viu a guerra de perto, e perdeu inúmeros amigos. Sua personalidade extremamente tímida fez com que ele escrevesse uma composição em homenagem aos amigos que morreram que nem é patriótica e nem fúnebre: Le tombeau de Couperin (A tumba de Couperin), uma suíte em seis movimentos para piano solo. O termo “Tombeau de” era utilizado desde o século XVII como uma composição em homenagem a um grande músico que tinha recém falecido. Ao escrever” Tombeau de Couperin”, ele homenageia François Couperin (1668–1733), um dos maiores compositores do barroco francês. O nome dos movimentos da suíte, com seus títulos muitas vezes de danças típicas de uma suíte fracesa, deixa clara a homenagem ao passado musical de seu país, e é a partir deste passado que Ravel homenageia seu país e seus amigos mortos na guerra. Os movimentos são: Prelúdio, Fuga, Forlane, Rigaudon, Menuet e Toccata. Uma homenagem póstuma com a típica discrição do autor. Ao ser criticado por não ter feito uma obra fúnebre e dramática ele respondeu, bem do seu jeito: “Os mortos são suficientemente tristes, em seu silêncio eterno”. Extremamente tocante é analisarmos o que há por trás das dedicatórias de cada movimento:

O Prelúdio é dedicado ao Primeiro Tenente Jacques Charlot. Charlot, na vida civil, era músico, e um bom pianista. Foi ele que transcreveu, a pedido do compositor, para piano solo Ma mére l’oye, que originalmente foi escrita para piano a quatro mãos. Ravel tinha grande estima por ele.

A Fuga é dedicada ao segundo tenente Jean Cruppi. Neste caso a dedicatória envolve outra pessoa, a mãe do tenente. Madame Cruppi, que era muito amiga de Ravel (chegou a ser sua confidente) ficou muito abalada com a morte do filho. A família Cruppi (o pai era um respeitado político) acabou se desmantelando com esta trágica morte.

A Forlane é dedicaca ao Primeiro tenente Gabriel Deluc. Ele foi um importante pintor, e sua amizade com Ravel foi tão íntima que certos boatos circularam na época de que esta amizade tinha uma afetividade amorosa.

O Rigaudon é dedicado aos irmãos Pierre e Pascal Gaudin, mortos por uma mesma bomba no início da guerra. Eles foram amigos de infância do compositor, que mantinha um constante contato com a família, mesmo morando em Paris.

O Menueto é dedicado a Jean Dreyfus, em cuja casa convalesceu quando teve que abandonar o serviço militar, em 1917. Sua presença numa casa onde reinava a dor pela perda de um parente fez com que ele dedicasse ao morto, que ele não conheceu, o mais enigmático dos movimentos.

A Tocata foi dedicada ao capitão Joseph de Marliave. Marliave foi um grande musicólogo (seu estudo sobre os quartetos de Beethoven é magnífico) e era marido da pianista favorita de Ravel, Marguerite Long (1874 –1966). Foi ela que tocou pela primeira vez a obra, em abril de 1919.

Claude Debussy

Claude Debussy

Debussy: Les soirs illuminés par l’ardeur du charbon (As noites iluminadas pelo ardor do carvão)

Debussy (1862-1918) sempre teve um certo sentimento hostil aos alemães. Quando a França foi atacada pelos vizinhos do leste o compositor já estava muito doente, e sua morte quase coincide com o final da guerra. Suas três Sonatas que ele escreveu durante o tempo da primeira grande guerra, assim como “Le tombeau de Couperin”, exaltam o passado musical da França, como uma espécie de homenagem a seu país. Por duas vezes, neste período, ele chegou a citar melodias que deixam ainda mais clara a sua intenção de se referir ao conflito: O segundo movimento de “En blanc et noir” (Em branco e preto, referência às teclas do piano) em que ele cita o coral protestante “Ein feste Burg” com cores grotescas, e na “Berceuse heroica”, em que ele homenageia os belgas mortos no conflito através da citação do hino nacional belga. Mas a obra que destaco, a última composição para piano do compositor, mostra um aspecto doloroso da vida do autor. O inverno dos anos de 1916/1917 foi extremamente rigoroso. Um vendedor de carvão, que tinha grande admiração pelo compositor não deixava de entregar, mesmo nas mais difíceis situações, a cota de carvão que Debussy necessitava para se aquecer. O músico fiou tão grato que compôs uma pequena peça para piano, e entregou o manuscrito apara o vendedor de carvão, como uma espécie de compensação pelos descontos que lhe foram feitos. Como título ele usa uma frase do poeta Baudelaire, que fala sobre carvão: Les soirs illuminés par l’ardeur du charbon (As noites iluminadas pelo ardor do carvão). O manuscrito só foi descoberto no início deste século, e a pequena peça relembra algumas composições antigas de Debussy. Outro retrato discreto dos horrores da guerra.

Alban Berg

Alban Berg

Alban Berg: Marcha das Três peças para orquestra opus 6

Alban Berg (1885-1935) incluía um fortíssimo senso dramático em suas composições. Não é por acaso que ele escreveu duas das mais importantes óperas do século XX: Wozzeck e Lulu. Em junho de 1914 Berg estava compondo algumas peças para orquestra, quando ficou sabendo do assassinato do arquiduque Francisco Fernando da Áustria em Sarajevo, fato que desencadeou a Primeira Guerra Mundial. Neste momento, e durante os anos da primeira grande guerra, ele compôs sua mais expressionista obra para orquestra, que acentua os acentos grotescos de uma guerra. Trata-se da Marcha, a terceira das Três peças para orquestra opus 6. Com acentos dignos dos quadros de Otto Dix (1891-1969), que retratavam os horrores da primeira grande guerra, ele transforma o ritmo típico de uma marcha num retrato de destruição. Num certo ponto desta marcha ele prevê diversas batidas de um gigantesco martelo, que parece mesmo destruir todas as vidas em seu redor. Este mesmo gigantesco martelo tinha sido usado por Gustav Mahler em sua sexta sinfonia (1904), e não há dúvida de que Berg encontra uma clara referência nesta obra. Do ponto de vista sinfônico não vejo um retrato melhor a esta e a todas as guerras.

Vídeos relacionados ao texto

Le tombeau de Couperin executado por Angela Hewitt

Les soirs illuminés par l’ardeur du charbon executado muito bem por Kaneko Ichiro

Marcha do opus 6 de Alban Berg. Regência de Claudio Abbado. Bem apropriada na imagem um quadro de Otto Dix

Enviado por Osvaldo Colarusso, 31/07/14 10:34:26 AM
Um CD histórico.

Um CD histórico.

Na noite de 19 de abril deste ano, em Berlim, aconteceu um concerto que reuniu dois dos maiores músicos clássicos da atualidade, num recital a dois pianos e piano a quatro mãos: Martha Argerich e Daniel Barenboim. Ela, uma das maiores pianistas da atualidade, mesmo depois de recitais muito bem sucedidos, resolveu não se apresentar mais sozinha. Toca com orquestras, com outros músicos, muitas vezes com celebridades (por exemplo Nelson Freire e Gidon Kremer), muitas vezes com jovens que ela incentiva (Akane Sakai), acrescentando sempre novidades ao seu enorme repertório camerístico. Ele, figura humana de nível altíssimo (escrevi um texto sobre isso esta semana. Leia aqui) é um dos mais importantes maestros dos dias de hoje, e um pianista com um repertório excepcionalmente vasto. Os dois tem muitos pontos em comum: nasceram em Buenos Aires (ela em 1941, ele em 1942) e fazem parte de famílias judias que imigraram para a Argentina na primeira metade do século passado. Apesar de tantos pontos em comum raramente se apresentaram juntos, e as poucas vezes que o fizeram foi Argerich sendo solista e Barenboim sendo maestro. Um recital a dois pianos com eles é um fato inédito, e o melhor de tudo é que esta noite mágica na capital alemã foi gravada em áudio e ao que parece em vídeo. A junção destes dois magníficos artistas não podia dar outra coisa: execuções de altíssimo nível, brilho técnico, musicalidade refinada. Sim, estamos aqui diante de um registro que pode ser o CD clássico do ano.

Mozart, Schubert e Stravinsky

O recital destas duas lendas do piano começa com a obra pianística mais difícil tecnicamente de Wolfgang Amadeus Mozart, a sua Sonata para dois pianos em ré maior IK. 448. Mozart criou esta obra em 1781 e foi pensada para ser executada por ele junto à sua aluna mais talentosa: Josephine von Aurnahmmer. As duas partes, a do primeiro e do segundo piano, são igualmente importantes e complicadas. A brilho rítmico do primeiro movimento dá lugar a um momento mágico: no andamento lento (o segundo) Barenboim, que toca o primeiro piano, faz ornamentações na repetição (que normalmente é ignorada) que parecem terem sido inventadas na hora. Aliás ele também cria uma “cadenza” uma improvisação em um determinado ponto, que é impressionante. O terceiro movimento é executado num andamento demoníaca mente rápido, bem no estilo de Argerich. Uma execução que não fica nada a dever aos registros históricos de Britten/Richter e Perahia/Lupu.
O recital segue com uma obra pouco conhecida: 8 Variações sobre um tema original em lá bemol Maior de Schubert. Mais uma vez as demonstrações de musicalidade são incessantes.
No entanto a maior surpresa está na peça que encerra o CD (ou o recital): A Sagração da Primavera de Stravinsky numa transcrição do próprio autor para piano a quatro mãos. Na época em que este Ballet foi estreado (1913) era necessário se fazer uma redução pianística para os ensaios com a companhia de ballet. O autor se encarregou de fazê-lo e sabe-se que, antes da estreia, Stravinsky e Debussy leram esta versão. A redução para piano a 4 mãos é, muitas vezes, incômoda para os pianistas (mãos cruzadas, “trombadas” entre as mãos). Por isso Barenboim e Argerich executam a versão a quatro mãos em dois pianos. Esta redução demonstra de forma mais clara certas dissonâncias e certas colagens que o autor fez. É um complemento indispensável para o conhecimento da obra.
A Sagração da Primavera, na versão a quatro mãos é um item novo para o repertório dos dois grandes músicos, e o resultado nos deixa boquiabertos: com mais de 70 anos de idade os dois executam tudo com um apuro técnico que supera as enormes dificuldades da partitura, e acrescentam a isto uma selvageria e um vigor surpreendentes. Exemplos não faltam de tudo isso que eu disse. No final da Primeira parte do Ballet, por exemplo, há uma série de notas repetidas nos trompetes e nos violinos impossíveis de serem tocadas num piano. Só estes “malucos” conseguem executá-las. Na segunda parte a influência de Debussy no Prelúdio fica enormemente clara, e tanto as danças “Glorificação da Eleita” e “Dança Sacral” soam com uma precisão rítmica nunca ouvida antes. Realmente, esta é a versão de referência desta obra nesta versão. Incomparável. Duas lendas fazendo história.

Como comprar

Este CD, por enquanto, só está acessível no iTunes (procure por “Barenboim Stravinsky). Foi lançado lá no dia 25 deste mês e para baixar custa U$ 9,99 (mais os 6,38% de IOF). Não é um preço alto para um registro sonoro desta qualidade. É indispensável que você tenha um cartão de crédito internacional.

Eis aqui o vídeo de lançamento do CD (e possivelmente de um DVD):

Enviado por Osvaldo Colarusso, 28/07/14 12:10:18 PM
A guerra entre judeus e palestinos. O horror, mais uma vez.

A guerra entre judeus e palestinos. O horror, mais uma vez.

Mais uma vez um conflito sangrento perturba o oriente médio. Entre a teimosia e inabilidade do Hamas e a truculência do governo de Israel hoje já são mais de 1000 mortos, entre os quais mais de 150 crianças palestinas. Um clima tão acirrado que até para o Brasil sobraram chispas. Nosso país foi chamado de “insignificante” e “anão diplomático” por funcionários do ministério das relações exteriores israelense pelo fato do Brasil deixar clara sua postura contra as operações do exército daquele país. Há alguns anos, neste blog, escrevi um texto (veja aqui) que falava da postura do maestro e pianista judeu Daniel Barenboim (e também comento aqui seu mais recente CD), a respeito destes sangrentos conflitos. Ao voltarem agora os conflitos Barenboim também voltou a exercitar a sua tese de conciliação entre palestinos e judeus. Num artigo publicado pelo jornal inglês “The guardiam” no último dia 24 (você pode ler o artigo aqui), Barenboim foi absolutamente brilhante. Ele inicia o artigo com uma frase bem contundente: “Estou escrevendo estas palavras como alguém que tem dois passaportes – israelense e palestino”. Ele, um israelense, recebeu por seu trabalho de aproximação dos dois povos, um passaporte palestino, contando por isso com as duas nacionalidades. Vejam como ele consegue se colocar na posição dos dois povos: “Nós, palestinos, achamos que precisamos receber uma solução justa. Nossa busca é fundamentalmente para a justiça e para os direitos concedidos a todos os povos da Terra: a autonomia, autodeterminação, liberdade, e tudo o que vem com ela. Nós, israelenses precisamos de um reconhecimento do nosso direito de viver no mesmo pedaço de terra. A divisão da terra só pode vir depois de ambos os lados, não só aceitarem, mas entenderem que podemos viver juntos, lado a lado”. Israel, que está se tornando cada vez mais um estado direitista, já que a esquerda se enfraqueceu principalmente depois da emigração de diversos judeus russos, tem expressado em seu parlamento palavras que evocam a legitimidade de um genocídio, e o Hammas, que governa a faixa de Gaza, acredita que Israel não tem direito de existir. Barenboim de novo: “No coração da aproximação tão necessária há a necessidade de um sentimento mútuo de empatia, compaixão. Na minha opinião, a compaixão não é apenas um sentimento que resulta de uma compreensão psicológica da necessidade de uma pessoa, mas é uma obrigação moral. Somente através da tentativa de entender o sofrimento do outro lado podemos dar um passo em direção ao outro”. Barenboim é para mim, o único músico ligado à música clássica, que assume os riscos de colocar sua postura a respeito deste tipo de assunto de forma bem clara.

Daniel Barenboim dirigindo a West-Eastern Divan Orchestra

Daniel Barenboim dirigindo a West-Eastern Divan Orchestra

Daniel Barenboim: grande músico, grande ser humano

Daniel Barenboim é um músico que me fascina. Um dos maiores maestros da atualidade tem realizado um trabalho impecável frente à Ópera Estatal de Berlim, transformando sua orquestra entre as melhores do mundo. As recentes gravações de obras de Bruckner e Elgar testemunham a alta qualidade deste trabalho. A Ópera Estatal de Berlim (Staatsoper) sob a direção de Barenboim acabou tomando a dianteira entre os teatros líricos de Berlim (a cidade tem três teatros de ópera). Além de Daniel Barenboim ser um maestro impecável, com um repertório absolutamente incomparável, é também um dos mais importantes pianistas de nossa era, com um repertório que só pode ser comparado ao lendário pianista russo Sviatoslav Richter. Aliás, um dos maiores mistérios da música clássica atual, é a que hora Daniel Barenboim estuda piano. Como pode alguém tocar (e bem) obras complexas como os concertos de Brahms tendo o dia todo ocupado com ensaios de orquestra? Tanto no piano quanto na regência de orquestra Barenboim, além dos clássicos, interpreta obras contemporâneas, algo que muitos de seus colegas não fazem. Dirige com frequência itens complicadíssimos de Pierre Boulez e Eliot Carter, e incentiva novos autores de escrita complexa como o israelense Ayal Adler, um notável jovem compositor. Não fosse tudo isto, Barenboim nas últimas décadas tem se revelado o músico clássico mais importante do ponto de vista humanístico. Prova disto é seu trabalho, realizado desde 1999 frente à West-Eastern Divan orchestra, uma orquestra formada por judeus e palestinos, que luta, através da música, para o entendimento entre estes dois povos que se tornaram grandes inimigos. Barenboim nasceu em Buenos Aires, no ano de 1942. Sua família, entusiasmada com o nascimento de um novo país, Israel, que prometia ser uma terra de liberdade e respeito, se transferiu para lá. Barenboim é, portanto, cidadão israelense. Seu trabalho frente à West-Eastern Divan orchestra não é muito bem aceito em Israel. Em 2004, Daniel Barenboim recebeu no Parlamento de Israel, em Jerusalém, o Prêmio Ricardo Wolf, por sua atuação em favor dos direitos humanos e da paz mundial. O prêmio, de 100.000 dólares, foi dividido entre Barenboim e o violoncelista Mstislav Rostropovich. Os 50.000 dólares recebidos por Barenboim foram destinados à manutenção da West-Eastern Divan orchestra . O discurso pronunciado por Barenboim, ao receber o prêmio, provocou a ira da ministra da cultura, Limor Livnat, presente ao evento, e dos deputados do partido conservador Likud, sendo aplaudido pelos demais representantes do povo na câmara baixa. Após citar trechos da declaração de independência de Israel, Barenboim perguntou se seria compatível a independência de um país com violação dos direitos fundamentais de outro povo e, mais ainda, se o povo judeu, cuja história está cheia de sofrimentos e perseguições, poderia ficar indiferente às violações dos direitos humanos e ao sofrimento de um povo vizinho. Ele também se desentendeu com as autoridades israelenses por ter executado música de Wagner naquele país. Hoje em dia Barenboim se sente muito mais ligado à Argentina do que a Israel. Prova disto é que na primeira metade do próximo mês de agosto Barenboim regerá e atuará como pianista em 8 concertos frente à West-Eastern Divan orchestra em Buenos Aires. No programa obras de Wagner (autor que ele dirige de forma soberba), Mozart, Ravel e Ayal Adler. Entre os solistas Waltraud Mayer, René Pape e Martha Argerich.

Vídeos relacionados ao texto:

Barenboim fala num concerto da Divan Orchestra em Ramallah, na Cisjordânia, no mês de janeiro de 2008, que a orquestra não é uma mensageira da paz, mas na sua prática musical ela busca a ação de um ouvir o outro. Discurso notável.

Barenboim é humilhado no parlamento de Israel ao discursar em hebreu ao receber o prêmio Wolf em 2004. O discurso é fundado na constituição e nos princípios da fundação daquele país.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 22/07/14 4:14:55 PM
O maestro Herbert von Karajan: grande músico. Um desposta no pódio

O maestro Herbert von Karajan: grande músico. Um desposta no pódio

Sempre que um grande maestro morre chovem na imprensa aquelas frases, que parecem mesmo “frases feitas”: “O último grande maestro”, “Morre o maior maestro de sua geração” ou “Perda irreparável”. No meu ver as coisas não são exatamente assim. Sem hagiografias.

Herbert von Karajan – 25 anos da morte

Herbert von Karajan (1908 – 1989), cujos 25 anos da morte foram lembrados na semana passada, foi realmente um músico excepcional, mas cometeu alguns pecados na vida privada e na vida profissional que são difíceis de esquecer. Não vou ficar batendo na tecla dele ter sido um nazista de carteirinha (realmente foi) mas seu egocentrismo o fez muitas vezes cair no ridículo. Exemplifico isso: querendo mostrar que poderia reger do cravo certas obras barrocas colocou dois cravos no palco.

O cravo "falso" de Karajan

O cravo “falso” de Karajan

Um que ele tocava (ou fingia faze-lo) e outro em que um profissional do instrumento realmente tocava o baixo contínuo. Além de transformar Bach e Vivaldi em compositores pós românticos seu narcisismo arrastou inclusive artistas de bom nível como Anne Sophie Mutter numa empreitada de arrepiar: a mais desfocada versão de “As quatro estações” de Vivaldi que existe. Também na sua mania de ser professor de Deus Karajan colocou em seus registros de ópera cantores que não tinham nada a ver com a obra que estava sendo gravada. Por exemplo, ele achava que tinha que humanizar a princesa chinesa Turandot. Por isso colocou a pobre cantora italiana Katia Ricciarelli (uma excelente cantora) para “sofrer” no papel título da última ópera de Puccini, concebida para uma cantora wagneriana. A crítica foi impiedosa com ela. Outra maldade de seu autoritarismo foi ter praticamente acabado com a voz do soprano Helga Dernesch ao faze-la cantar papéis como Isolda e Brunhilde, já que a mais adequada, a sueca Birgit Nilsson, se recusava, a partir de 1965, a cantar com ele. Dernesch, depois de ficar fora de cena por quase dez anos voltou a cantar como mezzo, inclusive no Rio de Janeiro, quando interpretou de maneira marcante a Herodias da Salomé de Richard Strauss na década de 1980.
Qual o legado de Karajan? Ele não é pequeno. Sua gravação de “Os mestres cantores de Nuremberg” feita em Dresden em 1970 permanece como uma fantástica versão, assim como o registro feito ao vivo de “Tristão e Isolda”, também de Wagner, feito em Bayreuth em 1952. Suas gravações de obras de Richard Strauss, tanto as de ópera como as de poemas sinfônicos, também permanecem como registros exemplares. Apesar de não ser nem um pouco chegado à música contemporânea suas gravações de obras de Schoenberg, Berg e Webern são uma beleza. Nas dificílimas “Variações opus 31” de Arnold Schoenberg ele chega a superar a clareza de um especialista como Pierre Boulez. Outro item maravilhoso é a música que ele gravou (em áudio e em vídeo) de Debussy. Sua leitura de “La Mer” (O mar), especialmente num vídeo da década de 1970, é das mais lindas que existem. Suas gravações do Requiem de Verdi são maravilhosas, sobretudo um vídeo feito em Milão no início dos anos 70, com o jovem (e sem barba) Pavarotti. Eu passo longe de seus registros de Mozart, Haydn, Beethoven e Brahms. Seu ciclo de Sinfonias de Beethoven gravado no início da década de 1950 com a Phlilharmonia de Londres fazia prever um sucessor de Furtwängler. Mas as gravações das mesmas sinfonias de Beethoven que ele realizou posteriormente por diversas vezes em Berlim e Viena são de um desrespeito ao texto original que chegam a ser irritantes.

O maestro Lorin Maazel

O maestro Lorin Maazel

Lorin Maazel – a morte de um grande músico

Lorin Maazel, que faleceu no último dia 13, nasceu em 1930. Apesar de ter nascido em Paris era cidadão americano. Foi o único menino prodígio da regência a ter uma grande carreira de maestro. Começou a reger aos 8 anos de idade, e aos 11 foi convidado por Arturo Toscanini para reger a Orquestra da NBC. Ele, que também era um excelente violinista, vai fazer inicialmente uma intensa carreira europeia. Se sua estreia no Festival Wagneriano de Bayreuth em 1960 foi um quase fiasco, o seu período à frente da Orquestra da Rádio de Berlim, de 1964 até 1975, foi, na minha visão, o ponto alto de sua carreira. No mesmo período foi diretor musical da Ópera alemã de Berlim. Dono de uma das mais perfeitas técnicas de regência que já se viu, vai suceder o grande maestro húngaro Georg Szell como diretor da Orquestra de Cleveland de 1972 até 1982. Segundo o crítico inglês Norman Lebrecht ele não acrescentou nada à orquestra, e pude em São Paulo, ver duas faces do grande maestro à frente desta grande orquestra: a mais linda e mais transparente versão que já ouvi, em disco ou ao vivo, da “Sinfonia em três movimentos” de Stravinsky e no mesmo concerto a mais fria e aborrecida versão da Segunda sinfonia de Brahms. Um músico com sua técnica exemplar, uma audição excepcional e um repertório extremamente amplo, às vezes podia se tornar enfadonho. De 2002 até 2009 foi diretor musical da Filarmônica de Nova York, e deste período é que se ouve falar das maiores “chatices” do maestro. Nesta época eu assisti uma Segunda de Sibelius com ele em Nova York que não tinha nada de excepcional, irreconhecível frente à fantástica gravação que ele realizou em Viena na década de 60. Em 1989 Maazel estava seguro que ia suceder Karajan na Filarmônica de Berlim. Quando soube que o escolhido foi o italiano Claudio Abbado saiu esbravejando sobre seu colega italiano. Esse meio musical…

Como compositor Maazel não conseguiu impressionar muito. Sua obra mais conhecida, a ópera”1984” (baseada no livro homônimo de George Orwell) deixa claro que como compositor ele era um excelente maestro. Seu legado discográfico é bem extenso. Destaco sua gravação da ópera L’enfant et les sortilèges de Ravel, até hoje o melhor registro da obra. Maravilhosa é sua integral das Sinfonias de Jean Sibelius, com a Filarmônica de Viena (com a de Pittsburg é bem inferior). Assim como Karajan não era muito chegado a obras modernas. Nunca regeu nada de Ligeti, Adés ou Boulez. No entanto existe uma gravação integral da ópera Lulu de Alban Berg que ele regeu em Viena em 1981 que é absolutamente notável. Pena que ele regia apenas os itens consagrados pois a complicada escrita de Berg raramente soou tão transparente.

Lorin Maazel falava razoavelmente bem o português. Ele foi casado com uma pianista brasileira que se naturalizou americana, Miriam Sandbank. Pouca gente sabe, mas o maestro fez para ouvintes brasileiros, em bom português, uma gravação do “Guia orquestral para os jovens” de Britten. Foi lançado aqui no Brasil pelo selo Deutsche Grammophon, isto no tempo dos Lps. Em 1986, à frente da Orquestra Filarmônica Mundial, regeu no Rio de Janeiro o Choros Nº6 de Heitor Villa-Lobos. Numa época em que a obra era inacessível (a gravação da Sinfônica Brasileira tinha um imenso corte) esta gravação, lançada em CD, foi uma referência por muito tempo. Voltou aqui com a Filarmônica de Viena e a Orquestra sinfônica da Rádio Bávara em concertos excelentes. Mais inglória é sua última passagem no Brasil, mais precisamente na capital fluminense em 2011, quando veio salvar uma situação incômoda da direção da Sinfônica Brasileira. Seu diretor musical (o da OSB), por causa de uma demissão em massa de músicos, tinha saído do palco do Theatro Municipal sob vaias. Para um ciclo de Sinfonias de Beethoven, que aconteceria em seguida com o mesmo maestro enxotado, foi então convidado o maestro alemão Kurt Masur, que adoeceu. Mais uma vez com medo das vaias, foi convidado Lorin Maazel, que cobrou uma fortuna para reger o ciclo (ao que parece um milhão de dólares) e exigiu que uma parte do pagamento fosse feito em cash assim que chegasse. Triste é saber que ele debochou dos músicos demitidos no Amarelinho da Cinelândia, os mesmos músicos que voltaram a ser contratados, isentos de tocar com aquele que em 2011 os demitiu. Aliás não foi a única vez que Maazel foi de comportamento dúbio entre os cariocas. Em 1988 esteve dirigindo a OSB no aterro do flamengo. Seu voo teve problemas e ele regeu a Sinfonia Nº 7 de Beethoven sem nenhum ensaio. Neste momento seria difícil chama-lo de sério……

Experiência pessoal

Muito interessante a forma como soube que Karajan morreu. Fazia o curso na Accademia Chigiana em Siena (era aluno do maestro russo Gennady Rozhdestvensky) e adorava assistir como ouvinte as aulas do pianista Alexis Weissenberg. Numa dessas aulas entrou uma pessoa e cochichou algo em seu ouvido. O pianista desatou num choro, e se retirou da sala sem dizer nada. Fomos saber o que se passava. Karajan tinha morrido. Alexis Weissenberg não só foi solista em diversos concertos de Karajan mas era um de seus poucos amigos.

Vídeos relacionados ao texto:

Karajan no seu melhor repertório: Don Juan de Richard Strauss.

Karajan executa o Concerto Brandenburguês Nº 3 de Bach. Estilo romântico e um cravo “de mentira”.

Maazel no seu auge. Canções das crianças mortas de Mahler com Dietrich Fischer Dieskau e com a Orquestra da Rádio de Berlim. Vídeo da década de 60.

Maazel tocando violino e regendo.
Johann Strauß I – Walzer à la Paganini, Op.11a

Enviado por Osvaldo Colarusso, 13/07/14 8:57:13 AM
Carlos Kleiber: morto há exatos dez anos

Carlos Kleiber: morto há exatos dez anos

Publicado em 12/07/2014 | OSVALDO COLARUSSO, ESPECIAL PARA A GAZETA DO POVO

Carlos Kleiber: o mito

Neste domingo, há exatamente dez anos, em 13 de julho de 2004, morria em Konjsica, Eslovênia um dos maiores fenômenos da regência de orquestra: Carlos Kleiber. Nascido em Berlim, em 1939, seu nome mudou de Karl para Carlos no período em que viveu em Buenos Aires. Este período sul-americano, que coincidiu com a Segunda Guerra Mundial, foi provocado pela fuga da Alemanha nazista de seu pai, Erich Kleiber, também um grande maestro, que era mal visto em seu país por reger música de vanguarda (estreou a ópera Wozzeck, de Alban Berg) e por se opor às intromissões artísticas dos asseclas de Hitler.

Seu pai, tendo vivido muitas vicissitudes em sua carreira, tentou dissuadir o filho de seguir uma trajetória musical. Carlos Kleiber chegou a estudar Química, mas acabou embarcando numa carreira musical . Foi, a partir de 1952, pianista preparador num pequeno Teatro de Munique (Gärtnerplatz Theater) e teve sua primeira oportunidade de reger uma opereta em 1954, no pequeno teatro da cidade de Potsdam. De 1958 a 1964, foi um dos quatro maestros da Deutsche Oper am Rhein, em Düsseldorf, e foi um dos maestros da Ópera de Zurique de 1964 a 1966. Entre 1966 e 1973 atuou como maestro principal da Ópera de Stuttgart, seu último cargo permanente.

Suas execuções eram tão brilhantes nestas cidades que ele foi convidado para atuar nos mais importantes teatros e salas de concerto do mundo à frente das mais renomadas orquestras. É a partir daí que nasce o mito Carlos Kleiber. Em 1974, deixou todos boquiabertos no Festival Wagneriano de Bayreuth, regendo de forma memorável Tristão e Isolda, voltando a fazê-lo em 1975 e 1976. Neste tempo, ele colaborou de forma frequente com a Ópera de Munique, onde fez sua primeira gravação, que nunca saiu de catálogo: La Traviata, de Verdi, com Ileana Cotrubas e Placido Domingo. Mesmo tendo em cena grandes artistas, como Domingo e Mirela Freni, quem mais chamava a atenção era ele.

Contratado pelo selo Deutsche Grammophon, gravou diversas obras, em registros absolutamente antológicos, especialmente à frente de duas grandes orquestras com as quais ele se relacionava muito bem: a Filarmônica de Viena e a Staatskapelle Dresden. Atuou com grande êxito nos mais importantes teatros de ópera do mundo: Teatro Scala de Milão, Metropolitan de Nova York, Ópera de Viena e no Covent Garden de Londres. Como maestro de repertório sinfônico atuou também frente às maiores orquestras de Berlim, Amsterdã, Viena, Chicago (a única orquestra americana que regeu) e Munique.

Mito

Quando vemos uma carreira como esta, alguns números nos chocam. Carlos Kleiber regeu menos de 96 concertos em toda sua carreira, e por volta de 400 récitas de ópera. Em resumo, se apresentou pouco. Seu repertório sinfônico acabou se tornando extremamente reduzido: quatro sinfonias de Beethoven (N.ºs 4, 5, 6 e 7), duas de Brahms (2 e 4), duas de Mozart (33 e 36), uma sinfonia de Haydn (94), uma abertura de Beethoven (“Coriolano”), duas sinfonias de Schubert (3 e 8) e três fragmentos sinfônicos da ópera Wozzeck, de Alban Berg. De Mahler, regeu uma vez A Canção da Terra. Em termos de óperas, regeu uma de Wagner (Tristão e Isolda) duas de Puccini (La Bohéme e Madama Buterfly), uma de Bizet (Carmen), duas de Weber (Der Feischuetz e Oberon) e três de Richard Strauss (Elektra, Cavaleiro da Rosa e Daphne) e uma de Alban Berg (Wozzeck). De Verdi, regeu seis títulos, mas apenas dois com frequência (La Traviata e Otello).

Perfeccionista ao extremo, chegou, por exemplo, a ensaiar por três horas com a Orquestra do Covent Garden, de Londres, um trecho de dois minutos da ópera se Strauss O Cavaleiro da Rosa e para La Bohéme, de Puccini, solicitou 15 ensaios de orquestra no Met de Nova York. Cancelou inúmeras apresentações e chegou mesmo a dizer que ele só se apresentava quando sua geladeira estava vazia.

Em 1993, a Sony lançou um CD com o poema sinfônico Uma Vida de Herói, de Strauss. Apesar da gravação ser a melhor já feita desta obra, ele conseguiu uma ordem judicial para recolher das lojas todos os exemplares. Feliz de quem já ouviu este registro. Em 1989, com a morte de Herbert von Karajan (1908-1989), lhe foi oferecido o posto de diretor musical da Orquestra Filarmônica de Berlim, convite que ele rapidamente recusou. Em diversos momentos, cancelava um trabalho por se indispor, quer seja com a administração das orquestras e teatros, ou com músicos de orquestra.

Mesmo com todos esses problemas, era imensamente admirado por seu gestual simples, mas extremamente eficaz e expressivo, pelo acerto de suas concepções e sua incrivelmente forte energia. Eu tive a sorte de assistir a uma récita regida por ele de Otello, de Verdi, em Munique, em 1978, com Carlo Cossuta como Otello e Mirela Freni como Desdemona (o tenor brasileiro Benito Maresca cantava o papel de Cassio). Só posso dizer que nunca esquecerei!

Legado

Felizmente, existem alguns vídeos que mostram bem as virtudes extraordinária deste artista. O mais impressionante é o DVD gravado em 19 de outubro de 1983. Nele, Carlos Kleiber apresenta as sinfonias N.º 4 e N.º 7, de Beethoven, à frente da Orquestra Real do Concertgebouw, de Amsterdã. Para muitos, a regência mais bonita de toda a história.

Outro documento impressionante são os Concertos de Ano Novo, da Filarmônica de Viena, de 1989 e 1992, que foram muito bem filmados pelo diretor de televisão Brian Large. Nunca a música ligeira, valsas e polcas, tiveram uma regência equivalente.

Em termos de áudio, a gravação da ópera Tristão e Isolda, de Wagner, realizada em Dresden, permanece como a referência absoluta. A Sinfonia N.º 4, de Brahms, frente à Filarmônica de Viena, é um dos mais impressionantes registros sinfônicos já realizados, e do mesmo nível e com a mesma orquestra, são as gravações que ele realizou das sinfonias N.º 5 e N.º 7, de Beethoven.

Em março de 2011, a conceituada revista inglesa BBC Music fez uma consulta com os 100 maestros mais importantes do mundo para que dissessem quem foi ou é o maior maestro de orquestra. O mais votado foi Carlos Kleiber. Ele ficou bem à frente de Karajan, Arturo Toscanini (1867-1957), Wilhelm Furtwängler (1886-1954) e Claudio Abbado (1933-2014). Muita gente acredita mesmo: Carlos Kleiber foi o maior maestro da história.

Vídeos: A mais bela regência que eu já vi. Sinfonias 4 e 7 de Beethoven. Carlos Kleiber e a Orquestra do Concertgebow. Vale a pena comprar o DVD

Outro concerto fenomenal com a Filarmônica de Viena. Mozart (Sinfonia Linz – 36) e Brahms (segunda)

Show: Concerto de ano novo de 1989 da Filarmônica de Viena. Reparem na sofisticação dos detalhes, na plástica da regência. Tirando Willi Boskovsky desbancou todos os outros!

Enviado por Osvaldo Colarusso, 02/07/14 3:02:24 PM
Guiomar Novaes. Seu forte era sua personalidade artística, não sua técnica

Guiomar Novaes. Seu forte era sua personalidade artística, não sua técnica

Nunca, em tempo algum, houve tanta perfeição técnica na execução da música clássica. A perfeição da afinação e do domínio instrumental das grandes orquestras faz com que qualquer concerto delas possa se tornar, com pouquíssimos retoques (edições), um CD prontinho. Quando ouvimos, por exemplo, uma gravação feita há 70 anos, vemos que este padrão de perfeição técnica é algo bem mais recente. É o caso de uma execução da Nona Sinfonia de Mahler gravada ao vivo em 1938 com a Orquestra Filarmônica de Viena regida por Bruno Walter. Esta mesma orquestra e este mesmo regente foram os responsáveis, 26 anos antes, em 1912, pela estreia da obra. Ao ouvirmos este precioso documento (alguns meses depois esta música foi proibida de ser executada pelos nazistas) percebemos eventuais desafinações, desencontros, ataques dúbios, coisas absolutamente impensáveis nos dias de hoje. Mas sentimos, ao ouvir esta gravação, algo que vai muito além da perfeição técnica. Sentimos uma entrega e uma honestidade que fazem deste um momento histórico. Existem inúmeros outros exemplos, como a imperfeição técnica de um pianista como Alfred Cortot ou mesmo de Guiomar Novaes. Mas o que um pequeno esbarrão da pianista brasileira pode atrapalhar a sua marcante interpretação do Carnaval de Schumann? O que estragaria a visão de Cortot da obra de Chopin, mesmo que ele às vezes não toca todas as notas? Arrisco dizer que certos artistas excepcionais não fariam sucesso nos dias de hoje caso se apresentassem como faziam em seu tempo. Muito provavelmente um maestro genial como o alemão Wilhelm Furtwängler, falecido em 1954, perderia uma boa parte de sua espiritualidade ao se sentir obrigado a ter uma técnica impecável de regência. Em resumo, não seria um Wilhelm Furtwängler. Os altos padrões técnicos seriam os responsáveis pela estandardização das leituras musicais atuais? Não há dúvida que as personalidades artísticas únicas parecem algo do passado. Quando ouvimos uma mesma Sinfonia de Brahms regida por Toscanini, Klemperer, Bruno Walter ou Mravinsky percebemos uma gritante diferença. Hoje, quando ouvimos as rotineiras leituras de uma mesma Sinfonia de Brahms regida por Lorin Maazel, Zubin Mehta, Andris Nelsons ou Paavo Järvi não sentimos grande diferença. Soa tudo igual.

Maria Callas. Faria carreira nos dias de hoje?

Maria Callas. Faria carreira nos dias de hoje?

Maria Callas e Martha Mödl fariam carreira hoje?

As cantoras líricas Maria Callas e Martha Mödl tiveram o auge de suas carreiras na década de 1950. Ambas, Callas no repertório italiano e Mödl no repertório alemão, estavam longe de serem perfeitas no aspecto técnico. Callas, mesmo no auge, tinha um vibrato enorme e, pelos padrões dos tempos atuais, não tinha uma voz que chamaríamos de “bonita”. Mesmo assim, alguém foi capaz de expressar os sentimentos de Violeta Valery em “La traviata” de Verdi como ela? Alguma cantora, mesmo que tecnicamente perfeita, conseguiu personificar a grandiosidade de “Norma” de Bellini? Comparem a gravação recente de Cecilia Bartolli da obra prima de Bellini com os registros de Callas. Dá até pena. Muito menos conhecida do que Maria Callas, Martha Mödl foi uma grande cantora wagneriana. Quando o maestro Wilhelm Furtwängler a conheceu em 1949 ficou tão maravilhado com seu talento dramático que imediatamente planejou aproveitá-la em diversas ocasiões. São históricas suas gravações regidas pelo maestro alemão do Fidelio de Beethoven e de “A valquíria” de Wagner. Seus registros feitos nos festivais wagnerianos de Bayreuth são maravilhosos, sobretudo o “Parsifal” de 1951, e o “Tristão e Isolda” de 1952. No caso desta última, a regência do jovem Herbert von Karajan, nos mostra o quanto ele era capaz em termos de expressão artística, antes de se afundar numa incessante e vazia busca de perfeição técnica. Voltando a Martha Mödl, ela correria o risco de ser vaiada nos dias de hoje, pela sua voz “entubada”, pelo seu curto fôlego. Mas sua Kundry, no Parsifal, permanece, na minha opinião, uma marcante referência.

A violinista Patricia Kopatchinskaja. Uma verdadeira personalidade musical

A violinista Patricia Kopatchinskaja. Uma verdadeira personalidade musical

Os resistentes: grandes personalidades nos dias de hoje

Apesar da já dita estandardização nos dias atuais é evidente que existem marcantes exceções. Em termos daqueles mais maduros, em termos pianísticos, não podemos deixar de citar a argentina Martha Argerich e o brasileiro Nelson Freire. Um exemplo que me impressiona muito é da violinista nascida na Moldávia Patricia Kopatchinskaja. Dediquei todo um texto aqui no blog sobre suas estonteantes gravações dos concertos de Bartók (o número 2), Ligeti e Péter Eötvös. Em termos de maestros Gustavo Dudamel impressiona por sua fantástica energia. Mas já que falamos de maestros há uma coisa que me perturba. Foi anunciado que o excelente maestro Maris Jansons abandonará a direção artística da Orquestra do Concertgebow de Amsterdã no próximo ano. Eu me pergunto: para esta fantástica orquestra fará grande diferença?

O maestro Georg Szell. Seu trabalho fez da Orquestra de Cleveland uma das melhores do planeta

O maestro Georg Szell. Seu trabalho fez da Orquestra de Cleveland uma das melhores do planeta

Um exemplo bem conhecido que resultou num enorme avanço é o do maestro húngaro Georg Szell, que atuou como diretor musical da Orquestra de Cleveland de 1946 até 1970, fazendo da mesma uma das melhores orquestras do mundo. O que seus sucessores fizeram? No máximo se aproveitaram do altíssimo nível da orquestra, mas nem Lorin Maazel, que foi diretor musical desta orquestra de 1972 até 1982, e o atual diretor musical, Franz Welser-Möst, contribuíram em absolutamente nada para a evolução do conjunto. Pode-se dizer que a mesmice ronda a principal cidade do estado de Ohio, que está perdendo público a cada ano para sua orquestra. O maestro argentino Daniel Barenboim, que realizou um trabalho um tanto quanto impessoal com a Sinfônica de Chicago (foi diretor musical dela de 1991 até 2006) provou que é capaz de realizar um trabalho de grande vulto: transformou a Staatskapelle Berlin em uma das melhores orquestras da Europa desde que começou seu trabalho de diretor musical da mesma em 1992, permanecendo à sua frente até hoje. Sim, há espaço para que uma personalidade musical floresça nos dias de hoje. Mas está desproporcional o número de cantores perfeitos, virtuoses da batuta ou grandes instrumentistas com o número de verdadeiros artistas. Estes realmente se tornaram raros.

Vídeos relacionados ao texto:

Patricia Kopatchinskaja tocando Tzigane de Ravel. Sim, é possível ter uma personalidade musical

Maria Callas. Imperfeita mas genial. Tu che le vanita do Don Carlo de Verdi

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