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Enviado por Osvaldo Colarusso, 10/10/14 7:57:32 PM
Mozart: compositor clássico ou erudito?

Mozart: compositor clássico ou erudito?

O grande compositor italiano Gioachino Rossini (1792-1868) dizia que existem dois tipos de música: a boa e a ruim. No entanto nos sentimos forçados, em diversas ocasiões, a separar as composições musicais em dois tipos, dois estilos. O mais usual é chamar um tipo de música de “música popular”, e outro tipo de “música clássica”. Mas, visto que a palavra “clássica” tem lá suas desvantagens (que explicarei mais abaixo), ela tem sido substituída por diversos termos, que muitas vezes se revelam piores do que o termo “música clássica”.
Um deles é “música de concerto”, algo bem inexato pois, por exemplo, uma apresentação de um pianista de jazz (jazz é música clássica ou popular???) como Keith Jarrett é um concerto. Prova disso é que sua gravação mais famosa chama-se “O Concerto de Colônia” (The Köln Concert). Pois bem, “Música de concerto”, fica bem claro, é um termo impreciso.
O jornalista J. Jota de Moraes (1943-2012), que escrevia sobre música clássica no extinto Jornal da tarde de São Paulo, usava um termo que é ainda mais impreciso: música de linguagem. Este termo pode soar bem preconceituoso (aliás todos ao que parecem são) porque pressupõe que nenhuma composição popular tenha “linguagem”. Apesar de ter sido amigo do Jota, nunca concordei com este termo.
Uma criação da língua portuguesa é ainda pior: “música erudita”. Não encontramos o termo em outro idioma, pelo menos nos idiomas que conheço. A erudição pretendida no termo, além de ter um efeito danoso em relação à popularização do tipo de música em pauta, pressupõe que a erudição é um privilégio de um tipo de música. Daí a coisa fica bem injusta, pois, por exemplo, uma composição como “Construção” de Chico Buarque ou “Ces Gens Là” de Jacques Brel possuem uma erudição poética e musical (os dois escreveram a música e a poesia) que não pode ser desprezada.
O melhor termo que encontro, nesta malfadada divisão, é mesmo “música clássica”, mas mesmo este termo tem seus inconvenientes, que agora explicarei. O termo “clássico” pode ser confundido com um período da história da música que é conhecido como “classicismo musical”, aquele que coincide com a segunda metade do século XVIII. Daí chamar Stravinsky (1882-1971) de um compositor clássico é uma incongruência. E Mozart (1756-1791), seria um compositor clássico do período clássico?
O que percebemos é que no afã de se separar estilos artísticos usamos irremediavelmente termos problemáticos, e muitas vezes temos que consertar as coisas de forma que inúmeras vezes a “emenda sai pior que o soneto”. Por uma questão de redação, para se excluir a repetição de um termo, que já tem lá suas desvantagens, usamos outro que é pior ainda. Mesmo eu, em meus programas que produzo na Rádio Educativa do Paraná, tive que usar o malfadado termo “erudito” na apresentação de um programa. Este programa tem o título de “Os grandes ciclos da história da música” (vai ao ar às terças às 20 horas). Para não se pensar que o programa só trata de produções do período clássico, na segunda frase de apresentação o locutor diz, “a produção musical erudita em ciclos completos”. Levei a maior espinafrada de um amigo por causa disso, mas não vi solução melhor.
Nos dias de hoje a divisão entre “clássico” e “popular”, em termos musicais, está cada vez mais tênue. “Erudito” é mesmo de matar. “Música clássica”, apesar de bem melhor, é algo historicamente impreciso. O melhor mesmo seria ficarmos com Rossini: música boa e música ruim. Esta divisão, que respeita unicamente o gosto pessoal, não tem nenhuma contra indicação.

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“Ces Gens Là”, de Jacques Brel, não é uma composição repleta de erudição?

Construção,de Chico Buarque, uma obra prima da poesia e música, não é uma “música de linguagem”?

“Uma pequena serenata noturna” de Mozart não é uma música popular?

Enviado por Osvaldo Colarusso, 28/09/14 8:55:23 PM
Marcelo Marchioro em meio ao seu imenso acervo

Marcelo Marchioro em meio ao seu imenso acervo

Tarefa muito penosa escrever um texto sobre Marcelo Marchioro. Penosa pela atroz doença (esclerose múltipla) que o matou aos poucos nos últimos 15 anos. Ao falecer no último dia 24 Marcelo tinha 62 anos de idade e completaria 63 anos no próximo dia 11. Marcelo foi um grande amigo pessoal, e mesmo doente nunca esqueceu a minha data de aniversário e me telefonava anualmente, cada vez com a voz mais alquebrada. Ele foi um excepcional Diretor de Teatro, com uma enorme versatilidade, encenou dezenas de peças, sendo que se tivesse que citar uma destacaria a excepcional montagem que ele fez de “As bruxas de Salem” de Arthur Miller no Guarinha em 1990, a melhor montagem teatral que assisti nestes 29 (quase 30) anos de Curitiba. Mas ao mesmo tempo Marcelo foi um dos melhores diretores cênicos de ópera que o Brasil já pode ver. Ele amava música, e fazia todas as marcações cênicas em uma partitura, respeitando de forma impecável todas as necessidades musicais do texto.
Se por um lado esta tarefa (a de escrever um texto sobre o Marcelo) é penosa, por outro lado me sinto privilegiado por ter trabalhado junto a este gigante das artes cênicas em algumas históricas montagens de ópera na capital paranaense. Como, involuntariamente ou propositadamente, a história artística desta cidade é esquecida, e os personagens que a fizeram são desprezados, pretendo aqui deixar de forma bem clara e contundente os trabalhos que Marchioro, como diretor cênico e eu, como maestro, fizemos juntos.

Desde que cheguei em Curitiba em 1985, atuando como maestro da Orquestra Sinfônica do Paraná, estabeleci rapidamente uma ligação de amizade com Marcelo. Quando em 1989 o então secretário de cultura, René Dotti, resolveu apoiar e profissionalizar as montagens de ópera o primeiro título escolhido foi “Don Giovanni” de Mozart. Estava tudo certo para eu e Marcelo fazermos nosso primeiro trabalho junto, até que o nome dele foi barrado e em seu lugar convidado alguém com mais “glamour”, um cineasta que prefiro não declinar o nome, cujo trabalho esteve próximo a uma piada de péssimo gosto. Na segunda ópera pensada em termos profissionais Marchioro encenou Tosca de Puccini, que foi regida por Alceo Bocchino. Um grande sucesso. Só no ano seguinte, quando a pessoa que insistiu no tal do cineasta foi afastada, é que finalmente pudemos colocar em prática nossas afinidades.

O Barbeiro de Sevilha – Temporadas de 1990 e 1992

Ao imaginarmos juntos uma montagem de “Il Barbieri di Siviglia” imediatamente fomos em busca da edição de Alberto Zedda, muito mais próxima do texto original de Rossini. Marchioro percebeu sozinho as vantagens desta edição, que foi executada no Brasil pela primeira vez nesta montagem. Milimétricamente colocamos a música junto com a ação, e como eu próprio tocava no cravo os recitativos, cada acorde, cada escala, tinha um equivalente cênico. Marcelo concebeu a ópera de tal forma que cada personagem tinha um “duplo” feito por um ator ou acrobata ligado à “Commedia dell’arte”. Como detalhe histórico interessante o “duplo de Rosina” (a Colombina), magnificamente interpretada por Denise Sartori, era a até então desconhecida Letícia Sabatella. Foi nesta montagem que ela foi descoberta por um homem responsável pelo “casting” da Rede Globo (Emílio di Biase). Junto ao genial cenário de Felipe Crescenti e dos figurinos estonteantes de Leda Senise, a música parecia fluir de maneira mágica. Vale acrescentar que na temporada de 1990 descobrimos três grandes talentos paranaenses no campo do canto lírico: a já citada Denise Sartori, Pepes do Vale e Divonei Scorzato. Quem fazia o Fígaro era o excelente barítono de Brasília Francisco Frias, e dois “monstros sagrados” fizeram parte do elenco: Carmo Barbosa, no papel de Bartolo e Wilson Carrara no papel de Basílio. O sucesso foi tão grande que toda a produção foi reposta em 1992. Mais uma vez interferências indevidas vetaram o nome de Frias, e recomendaram alguém que não deu conta do recado. Felicidade: Fígaro então foi interpretado magistralmente pelo grande barítono Sebastião Teixeira. Nesta segunda temporada de “Il Barbieri di Siviglia” o êxito foi ainda maior e esta produção foi apresentada também no Teatro Municipal de São Paulo.

Elencos:

Temporada 1990 – de 14 a 19 de agosto

Rosina: Denise Sartori
Conde de Almaviva: Ivo Lessa
Figaro: Francisco Frias
Bartolo: Carmo Barbosa
Basílio: Wilson Carrara
Berta: Elizabeth Campos
Fiorello: Pepes do Vale
Oficial: Divonei Scorzato
Ambrogio: Mário Schoemberger (sim, o grande ator)

Temporada 1992 – de 18 a 22 de novembro
Rosina: Denise Sartori
Conde de Almaviva: Paulo Mandarino
Figaro: Sebastião Teixeira
Bartolo: Sandro Christopher
Basílio: Jeller Felipe
Berta: Márcia Degani
Fiorello: Pepes do Vale
Oficial: João César Peceggini
Ambrogio: Eneas Lour

Segundo ato de La Bohéme na encenação de Marchioro. Claudia Riccitelli no papel de Musetta

Segundo ato de La Bohéme na encenação de Marchioro. Claudia Riccitelli no papel de Musetta

La Bohéme – Temporada de 1994

Eu e Marcelo sonhávamos alto. Chegamos a pensar em montar Lulu de Alban Berg, mas constatamos que nossa estrutura era muito limitada para tal empreitada. Mas como resultado de nosso estudo sobre a obra Marcelo montou o díptico de Wedekind, Lulu (A caixa de Pandora e O espírito da terra), numa montagem teatral soberba. De Lulu passamos a algo mais factível: La Bohéme de Puccini. De início pensamos que se tínhamos que montar algo tão popular tínhamos que fazê-lo de forma exemplar. O elenco deveria ser perfeito, e conseguimos um verdadeiro espírito de “companhia”. Com pouquíssimo dinheiro conseguimos, por amizade, trazer, além do elenco, um dos melhores cenógrafos da época, Hélio Eichbauer. Nesta produção alguns nomes não podem ser esquecidos, inclusive por sua incisiva observação do gestual frente À música. Falo de Sandra Zugman, que junto a Marcelo deram toda a leveza e fluência ao espetáculo. A emoção estava à flor da pele. Marcelo aprofundava os sentimentos, a ponto de ter que me vigiar para não embarcar na pura emoção e esquecer da minha função de regente. Em duas récitas lembro que segurei as lágrimas em mais de um ponto da partitura. Marcelo fez de La Bohéme um lindo hino Às relações humanas. Uma direção mais do que impecável: impecavelmente humana. O elenco, formado pela nata dos cantores líricos brasileiros, soube absorver cada momento desta montagem, desde as semanas de preparação até as apresentações. Isto tudo com um orçamento que somava aparentemente um quinto do custo de qualquer produção em São Paulo ou no Rio de Janeiro.

Elenco: temporada de 1994 – de 24 de setembro a 2 de outubro

Marcelo: Sandro Christopher
Rodolfo: Fernando Portari
Colline: Pepes do Vale
Schaunard: Sebastião Teixeira
Benoit/Alcindoro: Caio Ferraz
Mimi: Mônica Martins
Musetta: Cláudia Riccitelli
Parpignol: Ivan Moraes

La Cenerentola – Temporada de 1997

Apesar dos anos que separam as produções este espírito de “companhia” se aprimorou ainda mais nesta montagem de La Cenerentola de Rossini. Marcelo me perguntou mais uma vez se havia uma edição de Alberto Zedda, e com enorme esforço conseguimos alugar as partituras. Mas valeu a pena!!! Marcelo imaginou uma comédia refinada e certas cenas beiravam o virtuosismo em termos cênicos. Quando falo disso lembro das marcações que ele fez para o dueto dos barítonos, Dandini e Don Mangifico, interpretado de forma soberba por Pepes do Vale e Sandro Christopher. Os papéis que geralmente são considerados menores, os das irmãs da Cinderela, foram arrebatados por um gestual fantástico inventado por ele, e que foram muito bem compreendidos por Simone Foltran e Sivia Suss. Silvia Tessuto e Fernando Portari, que interpretaram Angelina (a Cenetrentola) e Dom Ramiro, souberam seguir as marcações de Marchioro, mais uma vez assessorado por Sandra Zugman. Vale lembrar que esta foi a primeira montagem da ópera feita por um elenco inteiramente brasileiro. Leda Senise demonstrou um virtuosismo (pouquíssimo dinheiro) em seus figurinos e cenários e até uma animação foi feita por Valencio Xavier para ser exibida durante a abertura “na faixa”.

Elenco: Temporada 1997 – de 23 a 29 de abril

Angelina (La Cenerentola): Silvia Tessuto
Dom Ramiro: Fernando Portari
Dandini: Sandro Christopher
Don Mgnifico: Pepes do Vale
Clorinda: Simone Foltran
Tisbe: Silvia Suss
Alidoro: Lukas D’Oro

Curitiba e sua decadência cultural

O excepcional trabalho de Marchioro como diretor cênico de óperas em Curitiba não se limitou a estas três produções que eu regi. Como disse acima ele encenou Tosca de Puccini em 1989, junto ao maestro Alceo Bocchino, a “Ópera dos três vinténs” de Kurt Weill em 1994 (direção musical de Guga Petri) e Gianni Schicchi de Puccini em 2005 (direção musical de Alessandro Sangiorgi). De forma triste vemos que Curitiba em termos culturais não tem mais capacidade de reeditar tudo o que foi explanado acima simplesmente por absoluta falta de recursos e incentivo. O Coro Teatro Guaíra, peça chave em todas as óperas, e que atuava com uma disposição incomum dirigido por Emanuel Martinez, foi extinto. O TCP, Teatro de comédia do Paraná, também foi extinto. Sim, este TCP, que colocou em cena dezenas de trabalhos maravilhosos como “New York, Por Will Eisner” dirigido por Edson Bueno e “A Vida de Galileu Galilei” dirigido por Celso Nunes (com Paulo Autran) não existe mais. Tudo extinto, tudo pobre. Neste aspecto a doença de Marcelo coincidiu com este desolador cenário. Sim, vejo a morte de Marcelo Marchioro como mais um duro golpe na combalida cultura paranaense.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 24/09/14 9:12:53 PM
Christopher Hogwood (1941-2014)

Christopher Hogwood (1941-2014)

Passados 40 dias da morte de Frans Brüggen (leia aqui o que escrevi sobre ele), morreu hoje, na cidade inglesa de Cambridge, outro grande pioneiro da execução de música medieval e barroca com instrumentos de época: o maestro e cravista Christopher Hogwood. Nascido em Nottingham, na Inglaterra, em 1941, começou a ter notoriedade em 1967 trabalhando em algo que ninguém até então levava muito a sério: a execução de música medieval. Junto com David Munrow funda o Early Music Consort, um grupo que até hoje é referência em termos de execução das obras primas compostas no século XIII e XIV, com destaque para as composições de Léonin, Pérotin e Machaut. Neste grupo Hogwood tocava Harpa medieval e órgão portativo. Com o suicídio de David Munrow o grupo se desfez em 1976, e Hogwood funda um outro grupo musical, direcionado não mais para a música medieval mas sim para a música barroca: a Academy of Ancient Music (“Academia de Música Antiga”). Neste grupo ele se notabilizará por colocar padrões altíssimos na execução de compositores que foram deformados por execuções grosseiras em termos de apuro musicológico, notadament6e Handel e Purcell.
Seguindo os passos de seu colega holandês, Frans Brüggen, ele também inicia um trabalho sobre as Sinfonias de Beethoven com instrumentos de época, sendo ainda mais radical que Brüggen visto que utiliza em diversas destas obras um forte piano como baixo continuo. O resultado permanece discutível, e para muitos as obras assumem um arcaísmo que não tem a ver com o pensamento futurista de Beethoven.
Se em Beethoven pairam algumas controvérsias, e se é certo que realizou um trabalho fantástico em Vivaldi, Corelli, Haydn e Mozart, em Handel Hogwood reinou absoluto, e foi graças a seu ímpeto que toda uma geração ficou conhecendo a obra do compositor. Ainda hoje suas execuções dos “Concerti Grossi” opus 3, do oratório “Messias”, dos “Concerti a Due Cori” e da “Música aquática” não foram suplantadas. Particularmente acho superlativo o registro que ele fez da ópera “Rinaldo”, também de Handel, com Cecilia Bartoli e David Daniels no ano 2000. Tive a felicidade de assistir Hogwood aqui em Curitiba, há mais de 25 anos, onde, com a Academy of Ancient Music, executou um programa que incluía dois dos “Concerti Grossi” opus 3 de Handel. Algo realmente inesquecível. Hogwood, com seu entusiasmo, com seu apuro, com seu bom gosto, fará falta. Infelizmente o grupo que fundou, a Academy of Ancient Music, tem sentido sua ausência. Desde que ele abandonou a formação, em 2006, percebe-se claramente a ausência de sua personalidade musical, e já não é o grupo referência que já foi. Felizmente Hogwood deixa um legado considerável de gravações.

Nada mais apropriado. Um vídeo completo do oratório “Messias” de Handel regido por Hogwood

Enviado por Osvaldo Colarusso, 21/09/14 10:46:06 AM
Hippolyte et Aricie de Rameau em Glyndebourne. Prólogo passado dentro de uma geladeira

Hippolyte et Aricie de Rameau em Glyndebourne. Prólogo passado dentro de uma geladeira

Estou decididamente em uma fase Rameau. Aos desavisados Jean Phillipe Rameau foi o mais importante compositor francês do século XVIII e neste link você pode ler o artigo que escrevi para a Gazeta do Povo há duas semanas, lembrando os 250 anos de sua morte. Estava muito curioso a respeito da primeira ópera do compositor, Hippolyte et Aricie, e descobri que havia apenas um DVD da ópera, gravado no ano passado no famoso Festival de Glyndebourne na Inglaterra. Pesquisei e vi que a amazon.com vendia este DVD por U$ 20.74 e cobrava pelo envio U$ 14.95. No câmbio de hoje o total está por volta de R$ 84,41. Em termos de preço nada mal, muito mais barato do que a mesma ópera em CD. A primeira contrariedade foi descobrir que teria que pagar um imposto chamado IOF, mais uma das “obras primas” do Ministério da Fazenda, calculado em 6,38%. Aliás esta taxação é para qualquer coisa, de uma bolsa Louis Vuitton até livros didáticos. Tudo muito “democrático” e “igualitário” mesmo.
Depois de uma longa espera (sim, nosso correio não é mais o mesmo) chegou o DVD. Deveria estar contente? A princípio sim, mas quando comecei a assistir lembrei do termo “Eurotrash”, o lixo europeu que trata as encenações de óperas com um enorme desrespeito, colocando em cena coisas que destoam, de forma arbitrária, da partitura. A história de Hippolyte et Aricie, com fundo mitológico, trata de um jovem e apaixonado casal. A madrasta de Hippolyte, Fedra, é, entretanto, apaixonada por ele. Seu marido, Teseu, ordena então a morte de seu próprio filho. Graças à intervenção da Deusa Diana, e com o suicídio de Fedra, tudo termina bem. Pois bem, no Prólogo, a Deusa Diana e Cupido discutem questões de amor. Nesta encenação isto se passa dentro de uma geladeira, junto a sucos de laranja, salsichas de frango e pedaços de brócolis. Bailarinos em sensuais cuecas se deliciam com os vegetais, e fazem uma espécie de trenzinho com suas partners. Comecei então a fechar os olhos, para ouvir a bela música e não pactuar com aquele ato criminoso, mas minha curiosidade era maior do que pensava. Terminado o Prólogo o Primeiro Ato se passa num templo de Diana, a Deusa da caça. Alces mortos e pendurados, e sacerdotisas que cortam as gargantas de Alces (espero que sejam bonecos…) e se deliciam com seu sangue. Deixam o sangue cair, e se sujam voluntariamente com toda a “meleca” que sai do Alce. Não vou contar os absurdos em todas as cenas, já que este texto ficaria enfadonho, mas tem duas coisas que me tiraram do sério: as Parcas, que atuam numa cena do Inferno, e para as quais Rameau escreveu uma nobre e inspirada música, estavam vestidas de Aranhas de Desenho animado, algo que se assemelhava com o Homem abelha dos Simpsons. Desesperante !!! Mas tem mais: a cena final é passada em outra geladeira, desta vez a de um necrotério em um hospital moderno.

A cena final na discutível encenação de Jonathan Kent

A cena final na discutível encenação de Jonathan Kent

Quando, graças à intervenção de Diana Hippolyte e Aricie voltam à vida eles são retirados de gavetas refrigeradas, e desta geladeira, de outra porta, sai a suicidada Fedra. Uma bailarina, em gesto completamente gratuito, tira para fora seus seios e ameaça com eles (nem são tão grandes) a pobre madrasta apaixonada. Uma tristeza!!! Sim, as modernas encenações de ópera são um pesadelo, especialmente na Europa, onde estas excentricidades são pagas com dinheiro público.

Stéphane Degout, grande intérprete de Teseu.

Stéphane Degout, grande intérprete de Teseu.

Saldo positivo

Bom, nem tudo foi ruim nesta experiência pois apesar do injusto imposto, da lentidão do correio e da encenação pavorosa, a música sublime de Rameau é executada de forma absolutamente apaixonante. A fantástica orquestra inglesa de instrumentos de época “Orchestra of the Age of Enlightenment” é dirigida pelo grande músico William Christie, que já participou de diversas memoráveis montagens de óperas do compositor. Os cantores são excelentes, de um nível altíssimo, com destaque para Sarah Connolly no papel de Fedra e sobretudo Stéphane Degout no papel de Teseu. Muito bem, então quais soluções eu aponto? Esqueça o imposto, o correio, a encenação horrorosa de Jonathan Kent. Desligue o vídeo e ouça só a música. Ao fazer isso confesso que fui feliz e esqueci de todo o resto.

O vídeo de propaganda deste DVD

Enviado por Osvaldo Colarusso, 07/09/14 5:17:53 PM
A Orquestra Filarmônica Borusan de Istambul

A Orquestra Filarmônica Borusan de Istambul

Uma orquestra turca, onde 99% dos músicos são do próprio país, sustentada por um poderoso grupo industrial local, com um repertório comprometido com sua cultura, com um extenso serviço de formação cultural na comunidade, onde o diretor musical estrangeiro é responsável por 80% das apresentações da orquestra, não há dúvida, pode nos levar, como brasileiros, a uma profunda reflexão.
A Orquestra Filarmônica Borusan de Istambul, uma das melhores orquestras da atualidade, mostra de forma clara a extensão dos benefícios de um aparelho cultural em meio a uma sociedade de um país em desenvolvimento. Fundada em 1999 e custeada por um gigantesco “holding” industrial da Turquia, a orquestra tem feito uma carreira cheia de consistentes êxitos. Seu sucesso mais recente foi o concerto que a Orquestra, sob a regência de seu atual diretor musical, o austríaco Sascha Goetezel, realizou no Proms de Londres, o mais importante festival de música clássica do mundo. Antes disso a orquestra, em 2010, obteve outro êxito no Festival de Salzburg.
O primeiro diretor musical da orquestra foi o turco Gürer Aykal, e desde janeiro de 2009 atua neste cargo Sascha Goetzel. Com ele a orquestra já gravou 3 Cds, com uma fórmula extremamente inteligente: nada de gravar Sinfonias de Schubert ou Beethoven e sim gravar obras que tenham a ver com a linguagem musical turca, ou em termos mais genéricos, do mundo muçulmano. O primeiro CD desta série inclui por exemplo “Belkis, rainha de Sheba” de Ottorino Respighi, partitura com uma orquestração primorosa e com inúmeros empréstimos do idioma do oriente próximo. O sucesso deste lançamento foi enorme, e o último CD da orquestra traz uma realização estonteante do clássico oriental do compositor russo Rimsky-Korsakow: Sheherazade. Alguns trechos da parte de harpa são substituídos, por exemplo, pelo instrumento que Korsakow quis imitar, o Qanun, um instrumento muito usado na música folclórica turca. Além deste detalhe há um comprometimento tal da orquestra que faz com que os críticos coloquem esta versão no alto da lista das inúmeras gravações desta obra.
A inteligência da escolha do repertório, tanto no Proms quanto em Salzburg e nos Cds, vem do fato que seria uma estupidez levar uma orquestra tão boa para Inglaterra ou a Áustria para tocar obras que as Orquestras de lá tocam muito bem. Não há dúvida que a Orquestra Filarmônica Borusan de Istambul tem competência para tocar sinfonias de Schubert, de Beethoven, de Mahler, mas ao escolher o tipo de repertório que inclui em suas turnês, a contribuição da orquestra fica mais evidente. Quem quiser consultar a próxima temporada da orquestra (clique aqui) poderá ver que em Istambul a orquestra toca um repertório bem variado, com obras importantes de diversos períodos da história da música. Em resumo, seu repertório é pensado para a consolidação da qualidade artística da orquestra. No entanto, sua marca quanto ao resto do mundo, é de um flagrante comprometimento com sua herança cultural.

A orquestra no Proms sob a direção de Sascha Goetzel

A orquestra no Proms sob a direção de Sascha Goetzel

O Concerto no Proms

O concerto que a orquestra realizou no Proms de Londres no final de julho deste ano recebeu uma aclamação tanto do público (6000 pessoas assistiram o concerto) quanto da imprensa. Este concerto foi transmitido pela BBC (Santo Deus, que excelente filmagem) no último dia 31. O repertório tem início com Islamey do russo Balakirev, calcado em temas orientais. A próxima obra é “Beni Mora”, uma partitura de cunho oriental composta pelo inglês Gustav Holst (aquele de “Os Planetas”). O mundo turco passou também pela abertura de “O rapto do serralho” de Mozart. Outra homenagem aos ingleses é uma execução de um trecho do oratório Sansão de Handel: A entrada da rainha de Sheba. Daí a obra de Respighi “Belkis, rainha de Sheba”, e como extra a obra clássica turca mais prezada em seu país: Köçekçe rapsódia para orquestra do compositor turco Ulvi Erkin. O público delira no final tanto pela esplendorosa sonoridade das cordas, quanto aos estonteantes solistas de sopro, e um naipe de percussão que acabou sendo o mais aplaudido da noite. Mas creio que uma parte considerável do êxito deste concerto se deve ao carisma e também à competência do maestro Sascha Goetzel. Sua integração com a orquestra é algo raramente vista. Sua competência levou, a meu ver, ao ponto alto desta noite: ele regeu de memória Köçekçe, com todos os seus intrincados ritmos, com uma incessante mudança de compassos. Köçekçe para os turcos equivale para nós à Abertura de O Guarani de Carlos Gomes ou “O Moldávia” de Smetana para os Tchecos. O respeito dele pela obra ficou evidente. Outra coisa boa: a Orquestra Filarmônica Borusan de Istambul acaba de vez com qualquer preconceito a respeito do mundo muçulmano (a Turquia é um país laico): inúmeras (belas) mulheres (mais do que a metade) e uma delas inclusive tocando trombone!Esta orquestra pode ser um bom motivo para a Turquia finalmente entrar na Comunidade Européia.

O Concerto da Orquestra no Proms em sua forma integral. Vale a pena copiar!!!No programa tem a estréia de um Concerto para violino de Gabriel Prokofiev, neto do compositor russo !!!

Enviado por Osvaldo Colarusso, 29/08/14 5:57:37 PM

O “Engenho novo” de Marília Vargas e André Mehmari

Engenho

O soprano Marília Vargas e o pianista e compositor André Mehmari executam canções folclóricas e obras de Chiquinha Gonzaga, Villa-Lobos, Waldemar Henrique, André Mehmari e Vinícius de Moraes.

O CD “Engenho novo” com a cantora Marília Vargas e o pianista e compositor André Mehmari é um lançamento brilhante desde seu nome: Engenho novo. Sim, é um “engenho novo” revitalizar as canções (folclóricas ou não) brasileiras com acompanhamentos e harmonias de uma tal criatividade que torna as antigas melodias merecedoras de um novo interesse. São melodias imortais, que ganham um novo impulso não só através de harmonias muitas vezes inusitadas, mas com citações que estabelecem um diálogo entre diversos setores da nossa música. Em meio a “Nesta Rua” Mehmari, de forma bem sutil, introduz algumas das mais melancólicas frases das Bachianas Nº4 de Villa-Lobos, dando um contorno ainda mais triste para a canção. O “Engenho novo” associa a melodia folclórica a citações de Vivaldi: genial. Os arranjos de “Casinha pequenina” e “São João Dararão”, e sobretudo de “Na loja do mestre André” são de uma beleza impressionante. Quando falo de “diálogos” entre diversos setores da música brasileira reputo de espantoso o diálogo entre Chiquinha Gonzaga e Waldemar Henrique, afinal de contas “O Uirapurú” deste último tem neste CD o corta-jaca da compositora carioca como base de sua introdução. E não falta uma releitura de uma obra dela: Lua branca, magnificamente cantada por Marília Vargas. E assim a coisa vai: cada faixa do CD é uma surpresa com a infindável criatividade de Mehmari. E nesta “infindável criatividade” encontramos uma bela canção composta pelo próprio Mehmari: A bela de Yu, com texto de um poeta chinês do século XIII.

Engenho 2

Os artistas

Marília Vargas, paranaense (nasceu em Ponta Grossa) uma discípula de Neyde Thomas e de Montserrat Figueras, é uma cantora mais conhecida no exterior do que por aqui. Ao mesmo tempo que tem uma enorme ligação com a performance de música barroca, segue os passos de Montserrat Figueras, que também era especialista em música barroca e medieval e que também cantava o “cancioneiro” espanhol e catalão. Marília faz o mesmo, emprestando sua técnica primorosa para uma releitura da música folclórica brasileira. Neste CD seu colorido vocal apresenta uma inacreditável variedade e uma dicção impressionante.

André Mehmari, que nasceu no mesmo ano que Marília (1977) é um artista excepcional. Com inúmeros discos gravados no exterior apresenta qualidades raramente encontradas entre os pianistas mais próximos da música popular: uma sonoridade altamente refinada, uma técnica pra lá de perfeita e um espectro de dinâmicas tão vasto quanto o de um pianista especializado em Chopin ou Schumann. Em resumo, André Mehmari é um dos melhores pianistas brasileiros, seja lá de que área, com um “atout” (a mais): uma inventividade harmônica e uma criatividade composicional que o fazem um instrumentista “inclassificável”, mas absolutamente imprescindível.

engenho-novo-capa-cd

Uma produção caprichada

Longe de qualquer provincianismo, este CD gravado e produzido em Curitiba, tem em sua apresentação outro ponto positivo. Um texto introdutório que demonstra outro talento de André Mehmari (mais um) e o texto (bilíngue) de todas as canções. O som do CD é de um padrão altíssimo (Estúdio Trilhas Urbanas), e a colorida apresentação gráfica que pode levar a uma comunicação imediata com as crianças, para quem este CD também pode se apresentar de forma soberba. Sim, até como instrumento de musicalização infantil este lançamento pode se prestar de forma brilhante.
Este CD pode ser adquirido, por enquanto, na loja Fígaro em Curitiba (Rua Lamenha Lins 62 – Tel: 3224-7795), e brevemente na loja de Cds da Sala São Paulo na capital Paulista e no site da revista Concerto.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 20/08/14 4:37:09 PM
Cena da controvertida ópera "A morte de Klinghoffer"

Cena da controvertida ópera “A morte de Klinghoffer”

O Metropolitan Opera de Nova York é o principal teatro de ópera do mundo. Durante sua temporada, que vai de setembro até maio, ele apresenta sete espetáculos diferentes em cada semana. São sete óperas apresentadas de segunda a sábado. Nos sábados eles apresentam duas óperas, uma às 13:00 horas e outra mais à noite. Nesta temporada serão apresentados 26 títulos diferentes !!! Os elencos estão recheados sempre pelas maiores estrelas do momento e sua orquestra é uma das melhores do mundo. O Met foi o pioneiro em relação às legendas e sobretudo na transmissão, ao vivo, de seus espetáculos em salas de cinema de todo o mundo (mais de 1500 salas de cinema). Na Europa a disputa por ingressos destas sessões de cinema leva as pessoas a fazerem assinatura de toda a série. Mesmo aqui no Brasil estas óperas do Met nos cinemas conta com um bom público. Lembro que uma vez estava no Rio de Janeiro e ia ser exibida “Boris Godunov” de Mussorgsky, e, para assistir tive que disputar um último ingresso. Cidades carentes de ópera como Curitiba, Porto Alegre e mesmo o Rio de Janeiro, encontram nestas óperas transmitidas ao vivo, com legendas e com uma excelente produção cênico/musical, um enorme consolo. O cuidado do Met é escolher óperas dos mais diversos estilos para estas transmissões: uma francesa, uma italiana, uma russa, uma alemã , uma contemporânea, etc. A lista neste ano incluía uma ópera moderna de um autor americano, John Adams. Incluía, no passado, por que ela foi tirada da lista de produções transmitidas para os cinemas. A transmissão da ópera “A morte de Klinghoffer” foi cancelada nos cinemas em todo o mundo. Ela só será apresentada no Teatro do Metropolitan Opera em 8 récitas de 20 de outubro até 15 de novembro. Esta última récita é que estava originalmente na lista das óperas transmitidas mundialmente. Convém saber o porquê desta censura.

O compositor John Adams

O compositor John Adams

As óperas “históricas” de John Adams

John Adams, compositor americano nascido em 1947, é um renomado músico conhecido por sua obra de estilo minimalista. Algumas de suas óperas tratam de fatos históricos relativamente recentes. Por exemplo “Nixon in China”, de 1987, fala da visita do presidente americano ao gigantesco país asiático, numa época em que a China ainda era um país tremendamente isolado. Já “Doctor atomic” de 2005 fala dos conflitos de consciência de J. Robert Oppenheimer, o pai da bomba atômica. Em 1991 John Adams compôs “A morte de Klinghoffer”, que trata do sequestro, efetuado por terroristas palestinos, do navio Achille Lauro, em 1985. O título tem a ver com o fato de que neste sequestro foi morto um judeu americano, paraplégico, Leon Klinghoffer. O texto da ópera foi escrito por Alice Goodman, e nele são analisadas as razões de cada lado do conflito palestino/israelense. Num prólogo há um coro dos exilados palestinos e um coro dos exilados judeus e conforme a narrativa do sequestro é narrada, existem belos momentos de reflexão, como a narrativa da história de Hagar e Ismael, que explica em termos bíblicos, a origem da disputa dos dois povos. O libreto trata o conflito lidando com os dois lados, tentando entender as duas partes. É absolutamente isento. Isto foi o suficiente para acusarem a ópera de antissemita. A lógica é mais ou menos a seguinte: se você não está do meu lado você é contra mim. A ópera foi estreada no ano de 1991 no Théatre Royal de la Monnaie em Bruxelas, e teve uma bela sequência de apresentações no velho continente. Já nos Estados Unidos a polêmica parece ser interminável para as apresentações da mesma.

A força do lobby sionista

Depois do enorme sucesso de “Nixon in China” na temporada 2012 do Metroplolitan Opera (foi incluída na lista das óperas transmitidas nos cinemas) a direção do teatro resolveu montar outra obra de Adams, desta vez “A morte de Klinghoffer”, com um elenco excepcional com direção musical do excelente maestro David Robertson, tendo num dos principais papéis o barítono brasileiro Paulo Szot. Daí começou a celeuma. O lobby sionista, muito forte em Nova York, quis que a produção fosse cancelada. Depois de muita conversa a produção foi mantida, mas a transmissão nos cinemas foi cancelada. O Met vive de patrocínios e de doações pois os ingressos (pra lá de caros) custeiam menos de um quarto dos custos do teatro. Por isso manter a produção foi uma vitória do Metropolitan Opera. Mas que é algo triste o mundo não poder assistir este espetáculo, que artisticamente deverá ser tão interessante, isto não posso negar. O que nos resta como consolo é uma excelente gravação regida por Kent Nagano e um DVD gravado em Londres regido pelo compositor de uma versão filmada (proibido de ser vendido em Israel). Se quiserem se inteirar sobre o assunto, e ver os inúmeros grupos que se opuseram ao Met leiam esta coluna de Alex Ross na revista New Yorker.

Trechos da versão filmada da ópera. Cenas fortes!!!

Enviado por Osvaldo Colarusso, 13/08/14 3:37:07 PM
Frans Brüggen, grande músico que faleceu hoje

Frans Brüggen, grande músico que faleceu hoje

Hoje é um dia recheado de mortes. Dizem mesmo que 13 de agosto não é um dia muito positivo. Ao ver que hoje morreram a atriz Lauren Bacall e o político Eduardo Campos pensava que a cota de mortes de notáveis já estava esgotada. Mas fico sabendo agora que faleceu um músico extremamente importante no cenário da música clássica mundial: Frans Brüggen. Ele faleceu aos 79 anos de idade (completaria 80 em outubro) e deixa um legado enorme para as novas gerações. Holandês, no início de sua longa carreira o músico era um virtuose da Flauta Doce e da Flauta Transversa Barroca, e com estes instrumentos formou uma série de conjuntos e se apresentou por todo o mundo. Em 1981 funda a “Orquestra do século XVIII”, uma das primeiras orquestras a utilizarem apenas instrumentos históricos. Com um enorme grau de excelência eles apresentaram e gravaram um vasto repertório, no qual se destacam obras de Rameau, Mozart, Haydn, Beethoven, Schubert e Mendelssohn. Sua gravação da íntegra das 9 Sinfonias de Beethoven está entre as mais perfeitas já realizadas. Frans Brüggen demonstrou de forma clara que tocar música antiga (barroca ou clássica) não tinha nada de aborrecido. Ao contrário, suas versões eram entusiasmadas, mesmo nos últimos anos, quando sua saúde já estava comprometida. Atuou como maestro convidado de diversas orquestras importantes, entre as quais a Real Orquestra do Concertgebow de sua cidade natal Amsterdam. Frans Brüggen foi o responsável por se sair da teoria em termos de prática instrumental barroca, e passar a se fazer música antiga com prazer e grande eficácia. Sem seu trabalho orquestras de instrumentos de época como Les Musicien du Louvre (França) ou a Orchestra of the Age of Enlightenment (Inglaterra) teriam uma história bem diferente. Aqui no blog já dediquei um longo texto a respeito de seu trabalho. Leia aqui.

Este vídeo da Terceira Sinfonia de Beethoven, feito em 1988, mostra a enorme capacidade de Frans Bruggen e seus músicos (entre eles o flautista brasileiro Ricardo Kanji). Este vídeo mudou o destino dos que se interessaram na execução desta obra. Podemos dizer que é um divisor de águas.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 10/08/14 11:11:19 AM
Nas pinturas de Otto Dix, os horrores da Primeira Guerra Mundial

Nas pinturas de Otto Dix, os horrores da Primeira Guerra Mundial

O centenário do início da Primeira Guerra Mundial, que durou de 1914 a 1918, nos leva ao encontro de composições musicais de altíssimo nível, que foram escritas inspiradas em fatos que ocorreram provocados pelo conflito. A Primeira Guerra Mundial foi a mais devastadora e letal guerra ocorrida na Europa até então. Armas novas como as de ação química e a nascente aviação cumpriram uma destruição nunca vista, num curto espaço de tempo, no velho continente. Eu destaco três grandes compositores, que em meio a tantas mortes e tanta destruição acabaram encontrando um caminho pelo qual enxergamos a dor que assolou suas vidas.

Maurice Ravel

Maurice Ravel

Maurice Ravel: Le tombeau de Couperin (A tumba de Couperin)

Maurice Ravel (1875-1937) ficou revoltado com as agressões alemãs ao seu país. Apesar de sua pequena altura (1,61 metros) e de uma saúde sempre frágil ele se dispôs a atuar ativamente nas frentes de batalha. Pensava em ser aviador (os aviadores nesta época tinham pouca altura) mas acabou servindo como motorista de caminhão. Viu a guerra de perto, e perdeu inúmeros amigos. Sua personalidade extremamente tímida fez com que ele escrevesse uma composição em homenagem aos amigos que morreram que nem é patriótica e nem fúnebre: Le tombeau de Couperin (A tumba de Couperin), uma suíte em seis movimentos para piano solo. O termo “Tombeau de” era utilizado desde o século XVII como uma composição em homenagem a um grande músico que tinha recém falecido. Ao escrever” Tombeau de Couperin”, ele homenageia François Couperin (1668–1733), um dos maiores compositores do barroco francês. O nome dos movimentos da suíte, com seus títulos muitas vezes de danças típicas de uma suíte fracesa, deixa clara a homenagem ao passado musical de seu país, e é a partir deste passado que Ravel homenageia seu país e seus amigos mortos na guerra. Os movimentos são: Prelúdio, Fuga, Forlane, Rigaudon, Menuet e Toccata. Uma homenagem póstuma com a típica discrição do autor. Ao ser criticado por não ter feito uma obra fúnebre e dramática ele respondeu, bem do seu jeito: “Os mortos são suficientemente tristes, em seu silêncio eterno”. Extremamente tocante é analisarmos o que há por trás das dedicatórias de cada movimento:

O Prelúdio é dedicado ao Primeiro Tenente Jacques Charlot. Charlot, na vida civil, era músico, e um bom pianista. Foi ele que transcreveu, a pedido do compositor, para piano solo Ma mére l’oye, que originalmente foi escrita para piano a quatro mãos. Ravel tinha grande estima por ele.

A Fuga é dedicada ao segundo tenente Jean Cruppi. Neste caso a dedicatória envolve outra pessoa, a mãe do tenente. Madame Cruppi, que era muito amiga de Ravel (chegou a ser sua confidente) ficou muito abalada com a morte do filho. A família Cruppi (o pai era um respeitado político) acabou se desmantelando com esta trágica morte.

A Forlane é dedicaca ao Primeiro tenente Gabriel Deluc. Ele foi um importante pintor, e sua amizade com Ravel foi tão íntima que certos boatos circularam na época de que esta amizade tinha uma afetividade amorosa.

O Rigaudon é dedicado aos irmãos Pierre e Pascal Gaudin, mortos por uma mesma bomba no início da guerra. Eles foram amigos de infância do compositor, que mantinha um constante contato com a família, mesmo morando em Paris.

O Menueto é dedicado a Jean Dreyfus, em cuja casa convalesceu quando teve que abandonar o serviço militar, em 1917. Sua presença numa casa onde reinava a dor pela perda de um parente fez com que ele dedicasse ao morto, que ele não conheceu, o mais enigmático dos movimentos.

A Tocata foi dedicada ao capitão Joseph de Marliave. Marliave foi um grande musicólogo (seu estudo sobre os quartetos de Beethoven é magnífico) e era marido da pianista favorita de Ravel, Marguerite Long (1874 –1966). Foi ela que tocou pela primeira vez a obra, em abril de 1919.

Claude Debussy

Claude Debussy

Debussy: Les soirs illuminés par l’ardeur du charbon (As noites iluminadas pelo ardor do carvão)

Debussy (1862-1918) sempre teve um certo sentimento hostil aos alemães. Quando a França foi atacada pelos vizinhos do leste o compositor já estava muito doente, e sua morte quase coincide com o final da guerra. Suas três Sonatas que ele escreveu durante o tempo da primeira grande guerra, assim como “Le tombeau de Couperin”, exaltam o passado musical da França, como uma espécie de homenagem a seu país. Por duas vezes, neste período, ele chegou a citar melodias que deixam ainda mais clara a sua intenção de se referir ao conflito: O segundo movimento de “En blanc et noir” (Em branco e preto, referência às teclas do piano) em que ele cita o coral protestante “Ein feste Burg” com cores grotescas, e na “Berceuse heroica”, em que ele homenageia os belgas mortos no conflito através da citação do hino nacional belga. Mas a obra que destaco, a última composição para piano do compositor, mostra um aspecto doloroso da vida do autor. O inverno dos anos de 1916/1917 foi extremamente rigoroso. Um vendedor de carvão, que tinha grande admiração pelo compositor não deixava de entregar, mesmo nas mais difíceis situações, a cota de carvão que Debussy necessitava para se aquecer. O músico fiou tão grato que compôs uma pequena peça para piano, e entregou o manuscrito apara o vendedor de carvão, como uma espécie de compensação pelos descontos que lhe foram feitos. Como título ele usa uma frase do poeta Baudelaire, que fala sobre carvão: Les soirs illuminés par l’ardeur du charbon (As noites iluminadas pelo ardor do carvão). O manuscrito só foi descoberto no início deste século, e a pequena peça relembra algumas composições antigas de Debussy. Outro retrato discreto dos horrores da guerra.

Alban Berg

Alban Berg

Alban Berg: Marcha das Três peças para orquestra opus 6

Alban Berg (1885-1935) incluía um fortíssimo senso dramático em suas composições. Não é por acaso que ele escreveu duas das mais importantes óperas do século XX: Wozzeck e Lulu. Em junho de 1914 Berg estava compondo algumas peças para orquestra, quando ficou sabendo do assassinato do arquiduque Francisco Fernando da Áustria em Sarajevo, fato que desencadeou a Primeira Guerra Mundial. Neste momento, e durante os anos da primeira grande guerra, ele compôs sua mais expressionista obra para orquestra, que acentua os acentos grotescos de uma guerra. Trata-se da Marcha, a terceira das Três peças para orquestra opus 6. Com acentos dignos dos quadros de Otto Dix (1891-1969), que retratavam os horrores da primeira grande guerra, ele transforma o ritmo típico de uma marcha num retrato de destruição. Num certo ponto desta marcha ele prevê diversas batidas de um gigantesco martelo, que parece mesmo destruir todas as vidas em seu redor. Este mesmo gigantesco martelo tinha sido usado por Gustav Mahler em sua sexta sinfonia (1904), e não há dúvida de que Berg encontra uma clara referência nesta obra. Do ponto de vista sinfônico não vejo um retrato melhor a esta e a todas as guerras.

Vídeos relacionados ao texto

Le tombeau de Couperin executado por Angela Hewitt

Les soirs illuminés par l’ardeur du charbon executado muito bem por Kaneko Ichiro

Marcha do opus 6 de Alban Berg. Regência de Claudio Abbado. Bem apropriada na imagem um quadro de Otto Dix

Enviado por Osvaldo Colarusso, 31/07/14 10:34:26 AM
Um CD histórico.

Um CD histórico.

Na noite de 19 de abril deste ano, em Berlim, aconteceu um concerto que reuniu dois dos maiores músicos clássicos da atualidade, num recital a dois pianos e piano a quatro mãos: Martha Argerich e Daniel Barenboim. Ela, uma das maiores pianistas da atualidade, mesmo depois de recitais muito bem sucedidos, resolveu não se apresentar mais sozinha. Toca com orquestras, com outros músicos, muitas vezes com celebridades (por exemplo Nelson Freire e Gidon Kremer), muitas vezes com jovens que ela incentiva (Akane Sakai), acrescentando sempre novidades ao seu enorme repertório camerístico. Ele, figura humana de nível altíssimo (escrevi um texto sobre isso esta semana. Leia aqui) é um dos mais importantes maestros dos dias de hoje, e um pianista com um repertório excepcionalmente vasto. Os dois tem muitos pontos em comum: nasceram em Buenos Aires (ela em 1941, ele em 1942) e fazem parte de famílias judias que imigraram para a Argentina na primeira metade do século passado. Apesar de tantos pontos em comum raramente se apresentaram juntos, e as poucas vezes que o fizeram foi Argerich sendo solista e Barenboim sendo maestro. Um recital a dois pianos com eles é um fato inédito, e o melhor de tudo é que esta noite mágica na capital alemã foi gravada em áudio e ao que parece em vídeo. A junção destes dois magníficos artistas não podia dar outra coisa: execuções de altíssimo nível, brilho técnico, musicalidade refinada. Sim, estamos aqui diante de um registro que pode ser o CD clássico do ano.

Mozart, Schubert e Stravinsky

O recital destas duas lendas do piano começa com a obra pianística mais difícil tecnicamente de Wolfgang Amadeus Mozart, a sua Sonata para dois pianos em ré maior IK. 448. Mozart criou esta obra em 1781 e foi pensada para ser executada por ele junto à sua aluna mais talentosa: Josephine von Aurnahmmer. As duas partes, a do primeiro e do segundo piano, são igualmente importantes e complicadas. A brilho rítmico do primeiro movimento dá lugar a um momento mágico: no andamento lento (o segundo) Barenboim, que toca o primeiro piano, faz ornamentações na repetição (que normalmente é ignorada) que parecem terem sido inventadas na hora. Aliás ele também cria uma “cadenza” uma improvisação em um determinado ponto, que é impressionante. O terceiro movimento é executado num andamento demoníaca mente rápido, bem no estilo de Argerich. Uma execução que não fica nada a dever aos registros históricos de Britten/Richter e Perahia/Lupu.
O recital segue com uma obra pouco conhecida: 8 Variações sobre um tema original em lá bemol Maior de Schubert. Mais uma vez as demonstrações de musicalidade são incessantes.
No entanto a maior surpresa está na peça que encerra o CD (ou o recital): A Sagração da Primavera de Stravinsky numa transcrição do próprio autor para piano a quatro mãos. Na época em que este Ballet foi estreado (1913) era necessário se fazer uma redução pianística para os ensaios com a companhia de ballet. O autor se encarregou de fazê-lo e sabe-se que, antes da estreia, Stravinsky e Debussy leram esta versão. A redução para piano a 4 mãos é, muitas vezes, incômoda para os pianistas (mãos cruzadas, “trombadas” entre as mãos). Por isso Barenboim e Argerich executam a versão a quatro mãos em dois pianos. Esta redução demonstra de forma mais clara certas dissonâncias e certas colagens que o autor fez. É um complemento indispensável para o conhecimento da obra.
A Sagração da Primavera, na versão a quatro mãos é um item novo para o repertório dos dois grandes músicos, e o resultado nos deixa boquiabertos: com mais de 70 anos de idade os dois executam tudo com um apuro técnico que supera as enormes dificuldades da partitura, e acrescentam a isto uma selvageria e um vigor surpreendentes. Exemplos não faltam de tudo isso que eu disse. No final da Primeira parte do Ballet, por exemplo, há uma série de notas repetidas nos trompetes e nos violinos impossíveis de serem tocadas num piano. Só estes “malucos” conseguem executá-las. Na segunda parte a influência de Debussy no Prelúdio fica enormemente clara, e tanto as danças “Glorificação da Eleita” e “Dança Sacral” soam com uma precisão rítmica nunca ouvida antes. Realmente, esta é a versão de referência desta obra nesta versão. Incomparável. Duas lendas fazendo história.

Como comprar

Este CD, por enquanto, só está acessível no iTunes (procure por “Barenboim Stravinsky). Foi lançado lá no dia 25 deste mês e para baixar custa U$ 9,99 (mais os 6,38% de IOF). Não é um preço alto para um registro sonoro desta qualidade. É indispensável que você tenha um cartão de crédito internacional.

Eis aqui o vídeo de lançamento do CD (e possivelmente de um DVD):

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