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Falando de Música

Enviado por Osvaldo Colarusso, 29/09/16 12:59:39 PM
Kent Nagano, um dos mais importantes maestros da atualidade

Kent Nagano, um dos mais importantes maestros da atualidade

Ao ver o sucesso que a Filarmônica de Hamburgo, regida por Kent Nagano (veja aqui a crítica da Folha de São Paulo) tem feito em sua excursão ao Brasil lembro de uma história bizarra acontecida com ele aqui em Curitiba no ano de 1977. No mês de janeiro daquele ano acontecia mais um Festival de música, ancestral das Oficinas de Música, que durava todo o mês. Eu vinha para o Curso do Festival como aluno de trompa, de regência e como professor assistente de teoria. Um dos grandes destaques do Curso era a vinda do musicólogo John Reeves White, diretor de um dos mais importantes grupos de música antiga da época, o New York Pro Musica. Ficamos sabendo que ele condicionara a vinda aqui com o convite que deveria ser feito a um jovem maestro americano de origem japonesa, Kent Nagano para lecionar regência, reger a orquestra de estudantes e reger um concerto com a orquestra dos professores. Não há dúvida de que o então jovem maestro Nagano (tinha 25 anos de idade) era um tanto quanto excêntrico. Andava com barulhentos tamancos de madeira, era muito afetado, usava umas batas esvoaçantes e não saia do lado do seu “padrinho”. No teste para os alunos de regência ele reprovou a mim e ao Fabio Mechetti. Isso causou uma certa comoção visto que já tínhamos começado a reger naquela época. Fabio foi embora bem irritado. Eu fiquei, sobretudo pela oportunidade de estudar com um trompista excepcional, Klaus Walendorff (hoje em dia na Filarmônica de Berlim). Voltando ao maestro Kent Nagano, ele começou a ensaiar a orquestra de estudantes. Eu tocava a segunda trompa e as obras eram a Sinfonia N° 31 de Mozart e a Nº 5 de Schubert. A apresentação foi bastante bem, apesar de que sua maneira de reger era completamente diferente de tudo o que eu vira até então. Seria o primeiro dos três concertos que Nagano regeria com os estudantes. Seria mesmo, pois no dia seguinte ele começou a reger a orquestra dos professores e a situação para ele mudou completamente. Não me lembro bem do programa, apenas que tinha o Segundo concerto de Brahms com o Fernando Lopes como solista. Quando ele começou a ensaiar já era um personagem super mal comentado, com um excessivo viés homofóbico: “Gay”, “seu amante lhe arrumou emprego”, “enlouquecida”, e outras coisas mais ditas pelos músicos mais velhos. Fui ver o primeiro ensaio e a cena realmente parecia do filme “Ensaio de Orquestra” do Felinni. A senhora que era spalla foi tocar contrabaixo e o contrabaixista foi tocar violino. Os músicos (professores) faziam uma balbúrdia sem tamanho. No dia seguinte não fui ao ensaio, mas soube que os músicos em conjunto declararam que não iriam tocar com ele, que era um amador, incapaz, surdo, etc. Com isso ele resolveu abandonar o curso e tanto ele quanto o famoso John White foram embora. No entanto antes de ir reuniu a orquestra de estudantes, que gostava bastante dele, e vaticinou o seguinte: “Vocês ainda ouvirão falar de mim. Se um dia voltar a este país vou voltar por cima”. Não deu outra: Kent Nagano é um dos mais importantes maestros da atualidade. Entre os inúmeros cargos que ocupou foi Diretor Musical da Ópera da Baviera (sucedendo a Zubin Mehta) e diretor musical da Orquestra de Montreal (sucedendo Charles Dutoit). Atualmente é Generalmusikdirektor (Diretor geral de música) de Hamburgo. Rege óperas e concertos por lá. Não sei se ele é gay ou não, mas é casado com uma excelente pianista (Mari Kodama), e os dois tem uma filha.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 26/09/16 7:11:46 PM
Um dos mais antigos retratos do maestro Arturo Toscanini

Um dos mais antigos retratos do maestro Arturo Toscanini

Há 130 anos,em 1886, Arturo Toscanini (1867-1957), o grande regente de orquestra italiano, levantou pela primeira vez a batuta em sua vida no Rio de Janeiro, mais precisamente no dia 30 de junho daquele ano. Com 19 anos era um violoncelista brilhante e foi, a princípio, reprovado numa audição para fazer parte da orquestra do Teatro Alla Scalla de Milão. Com inúmeras dívidas aceitou o convite de fazer parte de uma orquestra que viria para a América do Sul apresentar algumas óperas no Brasil, Argentina e Uruguai. O empresário da Companhia, chamado Rossi, fez um acerto, para facilitar as coisas no nosso país, convidando para reger todas as récitas em São Paulo e no Rio de Janeiro o compositor brasileiro Leopoldo Miguez (1850-1902), que ao que parece era um maestro bem limitado. A companhia começou a turnê em São Paulo e a sofrível atuação de Miguez foi muito criticada, e de acordo com Robert Charles Marsh, importante biógrafo de Toscanini (Toscanini and the art of coducting – Collier Books) os solistas, o coro e a orquestra estavam numa crescente irritação com o maestro brasileiro. O clima azedou de vez quando a companhia chegou ao Rio, chegando ao ponto de todos se recusarem a atuar sob a regência de Miguez. Depois de algumas tentativas de outros maestros conduzirem a récita quem assumiu a regência foi um violoncelista da orquestra, Arturo Toscanini, que regeu a ópera Aida de Verdi de memória. O sucesso do jovem maestro foi enorme. No dia seguinte, por exemplo, o crítico Oscar Guanabarino, do jornal “O Paiz”, guardou palavras elogiosas para a regência de Arturo Toscanini: “Deu ele sobeja provas de habilitações, sangue frio, entusiasmo e vigor”. A Companhia que tinha recebido péssimas críticas em São Paulo foi elogiadíssima a partir da estreia de Toscanini que regeu todas as 18 récitas que ainda deveriam ser apresentadas no Rio. Em sua volta à Itália Arturo Toscanini voltou a tocar violoncelo, entrando na Orquestra do Teatro alla Scala, onde inclusive, na segunda estante de violoncelos, tocou na estreia mundial de Otello de Verdi, no início de 1887. Foram os efusivos elogios dos cantores que atuaram no Rio que possibilitou Toscanini a iniciar sua carreira de Maestro na Itália. Da ópera de Turim ao Teatro dal Verme de Milão e depois no Teatro alla Scala da mesma cidade sua carreira foi meteórica, tendo sido diretor musical tanto do Metropolitam de Nova York quanto do Colón de Buenos Aires fazendo históricas aparições nos Festivais de Bayreuth e Salzburg. Sua lendária memória, sua audição prodigiosa e seu senso fortíssimo de disciplina faz com que muitos se refiram a ele como o maior maestro de todos os tempos. Voltou ao Rio de Janeiro apenas uma vez, em 1940, já muito famoso e aclamado regendo a Orquestra da NBC, memorável orquestra que ele regeu até o fim de sua carreira em 1954, três anos antes de sua morte.

Elizabeth Taylor e Franco Zeffirelli

Elizabeth Taylor e Franco Zeffirelli

Um filme ofensivo com nossa história

Os fatos que realmente aconteceram não foram suficientemente interessantes para o cineasta Franco Zeffirelli. Em 1988, tentando contar o ocorrido no Teatro Dom Pedro II naquela noite, realizou uma fracassada produção chamada “O jovem Toscanini”. No início havia uma certa seriedade na empreitada e o escritor brasileiro Guilherme Figueiredo, irmão do ex-presidente João Baptista Figueiredo, foi convidado como roteirista e consultor histórico do filme. Quando Guilherme de Figueiredo viu as grosseiras distorções pensadas pelo diretor italiano se retirou da produção vindo até a processá-lo, com sucesso. As pretensas “liberdades poéticas” tomadas pelo diretor distorcem completamente a nossa história, particularmente no que se refere à abolição. Esta, segundo o filme, aconteceria por obra da cantora lírica Nadina Bulicioff, que interrompeu a récita de Aida (algo que não ocorreu) para fazer um discurso abolicionista. Aliás no filme ela é amante de Dom Pedro II, o que é outra inverdade, além do que ele nem sequer esteve no teatro naquela noite. O imperador é caracterizado como um tirano cruel, que oferece à cantora um punhado de escravos e um luxo descabido. Toscanini é retratado como alguém que luta pela abolição da escravatura, e apoia a interrupção da ópera. Conhecendo a crença artística do grande maestro pensamos mesmo que há “fantasia poética” em excesso no filme. Em “Flores, Votos e Balas” (Companhia das Letras), a socióloga Angela Alonso afirma que a intervenção da cantora se deu no dia 10 de agosto de 1886, 40 dias depois do debut de Toscanini e após o terceiro ato, não interrompendo a récita. Outro deslize é que o Rio de Janeiro é retratado como uma cidade de um país do caribe, e a música quando da chegada da Companhia de ópera ao Rio (a companhia chegou na realidade em Santos) é um tipo de rumba com típicas maracas. Aliás o Rio de Janeiro está totalmente ausente das filmagens. O teatro utilizado para as cenas de ópera é o teatro da cidade italiana de Bari (que foi destruído num incêndio alguns meses depois da filmagem), e as cenas de praia foram filmadas em Genova. O destaque na distribuição é a presença de Elizabeth Taylor no papel da diva Nadina Bulicoff. A despeito da marcante carreira da atriz não podemos deixar de ver que sua atuação beira o ridículo. Philippe Noiret, o famoso ator francês, dá os ares do “cruel” e “desumano” Dom Pedro II concebido pelo diretor italiano. Thomas Howell no papel de Toscanini é muito mais convincente regendo do que Nicolas Chagrin que incarna Leopoldo Miguez, o que até faz sentido. O que se salva mesmo é a deslumbrante voz do soprano americano Aprile Millo que é quem canta de fato as cenas da ópera. A estreia do filme foi catastrófica (vaiado no Festival de Cannes e no de Veneza), sendo que sua distribuição foi cancelada em muitos países.

Fotografia do Theatro Dom Pedro II. Depois da proclamação da república mudou de nome para Theatro Lyrico

Fotografia do Theatro Dom Pedro II. Depois da proclamação da república mudou de nome para Theatro Lyrico

Oportunidade perdida

O que mais me irritou no filme foi o tanto de inverdades a respeito de Dom Pedro II, da luta abolicionista e a completa ignorância a respeito de nossa música popular. Numa matéria do jornal Folha de São Paulo de 1995 (leia aqui) o jornalista Caio Túlio Costa acerta firme em suas observações: “Ao espectador resta a falsa impressão de que Nadina, insuflada pelo politiqueiro Toscanini pintado por Zeffirelli, precipitou a libertação. Isto sem falar dos escravos conversando em espanhol e cantando samba (em 1886!), quando o primeiro samba, “Pelo Telefone”, é da primeira década de 1900”. Penso realmente que quando há uso de referências históricas há uma obrigação de ser minimamente honesto, e não é o que se constata. O Debut de Toscanini em terras brasileiras, há 130 anos, é um evento histórico muito importante e dele podemos até ter orgulho. Este filme resulta no que eu chamo de oportunidade perdida. Quem sabe um dia tenhamos a bela história bem contada num filme sério.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 15/09/16 1:25:12 PM
Joseph Haydn em retrato pintado por John Hoppner

Joseph Haydn em retrato pintado por John Hoppner

Nos próximos dias 16 e 17 de setembro estarei mais uma vez regendo a Camerata Antiqua de Curitiba. Desta vez um concerto apenas orquestral e todo centrado em torno de um grande compositor: Joseph Haydn (1732-1809). Na minha visão este grande mestre ocupa uma situação de ser um tanto quanto preterido frente ao seu colega contemporâneo Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791). Apesar de contemporâneos e amigos os dois marcam uma ruptura na maneira de viver dos compositores europeus na virada dos séculos XVIII e XIX. Haydn, 24 anos mais velho, foi o último grande compositor a ser um mestre de capela de um poderoso nobre enquanto que Mozart foi o primeiro grande compositor ocidental a ser economicamente independente, visto que desde os 20 anos de idade ele não tinha um “patrão”. Talvez isso explique o porquê de Haydn ser tão longevo e Mozart ter morrido tão cedo. Apesar de nos apaixonarmos pela vida arriscada de Mozart, e isto ter-lhe granjeado tantos admiradores, a estabilidade que Haydn obteve de seu empregador, oferecendo condições de trabalho excepcionais e raras entre os criadores musicais, fez com que ele escrevesse diversas obras absolutamente geniais.

Prícipe Nikolaus Esterházy

Prícipe Nikolaus Esterházy

Haydn esteve a serviço de um nobre que era um excelente músico: Nikolaus Esterházy, príncipe húngaro que viveu de 1719 a 1790. A família Esterházy conseguiu um prestígio enorme na corte austríaca por sua devoção aos Habsburg, à defesa da Hungria fazer parte do império austríaco e por ações militares vitoriosas comandadas por eles, como o cerco que os otomanos fizeram a Viena em 1683. Nikolaus Esterházy, reconhecendo a genialidade de Haydn, ofereceu um substancial aumento nos salários dos músicos de sua orquestra, o que fez com que Haydn tivesse à sua disposição instrumentistas excepcionais. Das 106 sinfonias que Haydn escreveu (todas geniais) mais de 70 foram feitas para este excepcional empregador. Entre os anos de 1766 e 1773 Haydn escreveu para o príncipe uma série de sinfonias com um caráter quase experimental, as erroneamente chamadas “Sinfonias Sturm und Drang” (Tempestade e ímpeto), referência ao primeiro movimento romântico da literatura. Nestas sinfonias temos diversos procedimentos pouco usuais: o uso de cantos gregorianos servindo de tema, tonalidades raras, orquestrações muitas vezes excêntricas, etc. Neste concerto da Orquestra da Camerata Antiqua serão executadas duas destas sinfonias. Inicialmente a Sinfonia Nº 59 em lá maior conhecida como “Sinfonia do fogo” (Feuersymphonie) que ganhou este apelido pelos extremos contrastes de dinâmica, especialmente no primeiro e último movimentos. Muitos viram nestes contrastes uma chama de fogo que ora se intensifica, ora se abranda. A outra é a mais experimental de todas estas sinfonias “Sturm und Drang”, a Sinfonia Nº 45 em fá sustenido menor conhecida como “Sinfonia do adeus”. Esta obra prende-se ao fato de que o príncipe Esterházy fazia com que a orquestra ficasse longas temporadas em seu castelo no interior do país, o que fazia com que os músicos (muitas vezes jovens) ficassem um longo tempo afastados de suas esposas e filhos. Criou-se um clima de revoltaentre os instrumentistas e Haydn, temeroso de perde-los, foi bem certeiro em termos musicais para fazer uma reclamação ao seu “musicalmente esclarecido” empregador. Escolheu uma tonalidade absurda (fá sustenido menor), “bagunçou” totalmente as formas, colocou uma nota “errada” no minueto e no final escreveu uma música que possibilitava que cada músico, um a um, saísse do palco. Além de ser a única sinfonia já escrita nesta tonalidade é a única que termina com apenas dois músicos em cena. Muita novidade mesmo. Vale a pena lembrar que o Príncipe entendeu a reclamação, e no dia seguinte à execução da obra deu ordem para todos fazerem as malas e partirem para suas casas.

Mais um projeto frente à Camerata Antiqua

Desde 2012 tenho realizado anualmente projetos com a Camerata Antiqua em torno de um determinado compositor. Em 2012 – Schubert. Em 2013 – Villa-Lobos e Bach. 2014 – Mozart. Chegou agora o momento de Joseph Haydn, aquele que eu chamo do gênio musical preterido do período clássico. Além destas sinfonias “experimentais” o programa inclui o Concerto em Ré maior para piano e orquestra, obra escrita em 1784, extremamente influenciada pelos concertos para piano de Mozart. Destaque da apresentação: a presença do jovem (12 anos de idade) e excepcional pianista Estefan Iatcekiw, discípulo da grande professora russa Olga Kiun.

Estefan Iatcekiw

Estefan Iatcekiw

E para concluir uma última dúvida: o movimento final do concerto para piano em ré maior cita a linguagem musical húngara. Seria uma homenagem ao sábio “patrão”? Venha ao concerto e me ajude a responder.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 12/09/16 4:08:40 PM
Fritz Wunderlich interpretando Tamino em "A flauta mágica" de Mozart

Fritz Wunderlich interpretando Tamino em “A flauta mágica” de Mozart

Há 50 anos, nas vésperas de completar 36 anos de idade, morreu, num acidente caseiro banal, aquele que para muitos foi o maior tenor dos tempos modernos: Fritz Wunderlich. Nascido em 27 de setembro de 1930 na pequena cidade alemã de Kluse, numa família pobre, dilacerada pelo nazismo (seu pai cometeu suicídio por ser perseguido pelo partido), vai aos poucos sendo descoberto primeiro nas pequenas cidades alemãs e posteriormente nos maiores palcos da Europa. Sua única professora de canto foi Margarethe von Winterfeldt, uma cantora cega, com quem ele estudou em Freiburg de 1950 até 1955. Para sustentar seu estudo nesta época tocava acordeom e cantava em bailes populares. Contratado pela ópera de Stuttgart em 1955 debutou profissionalmente neste teatro no ano seguinte no papel de Tamino, na “Flauta mágica” de Mozart. Seu talento excepcional, e com uma voz de uma rara beleza, o levou a ter sua agenda completamente repleta de 1957 até sua morte prematura em 1966. Todos os maestros renomados da época faziam qualquer coisa para tê-lo em suas apresentações: Eugen Jochun, Karl Böhm, Istaván Kertesz, Karl Richter, Otto Klemperer e Herbert von Karajan eram absolutamente apaixonados pela sua maneira espontânea de cantar. Seu repertório de tenor lírico o faziam ser o maior expoente, em seu tempo, de compositores como Mozart, Haydn, Bach, Schubert, Schumann e Beethoven. Mas isto não impediu de expandir bastante seu repertório. Cantou (e gravou) também obras de Wagner, Richard Strauss, Verdi Tchaikovsky, Carl Orff, Alban Berg e H. Pfinitzer. Na época de Wunderlich a maioria das óperas era cantada em alemão em seu país de origem, sendo que só a partir de 1962 ele aprendeu a cantar em italiano. Sua estreia neste idioma se deu numa festejada produção da ópera de Viena em 1963 de Don Giovanni de Mozart. Apesar do alto nível do elenco e da regência de Herbert von Karajan o grande destaque foi sua atuação. Neste ponto de sua carreira Wundelich se interessa em ser também um respeitado cantor de “Lied” (canção alemã). Humildemente segue os conselhos de seu grande amigo, o barítono Herman Prey, e segue à risca os ensinamentos do pianista Hubert Giesen. As gravações que os dois (Wunderlich e Giesen) realizaram de obras de Schubert, Schumann, Richard Strauss e Beethoven nunca saíram de catálogo: são uma referência absoluta. É também nesta época que se aventura, com grande sucesso, num repertório “cross-over”, fato ainda pouco frequente naquela época. Em 1965 recebe o convite para debutar no ano seguinte no Metropolitan Opera de Nova York, cantando Don Ottavio do Don Giovanni de Mozart. Um acidente caseiro, quando se atrapalhou com os cadarços de um sapato no alto de uma escada, abreviou de forma trágica e sucinta a sua vida, nas vésperas de viajar para os Estados Unidos, na noite do dia 17 de setembro de 1966. Uma perda irreparável. A beleza da voz, a maneira espontânea de cantar, a dicção infalível e a graça de suas performances parecem mesmo nunca mais ter tido um sucessor à altura.

O magnífico documentário lançado há 10 anos:indispensável

O magnífico documentário lançado há 10 anos:indispensável

Legado inestimável

Felizmente Wunderlich gravou bastante durante sua curta carreira. Existe apenas um vídeo completo de uma ópera: O barbeiro de Sevilha de Rossini, em alemão. Nela dá para perceber que ele, além de ser um cantor excepcional, era também um excelente ator. Felizmente as gravações em áudio são boas e numerosas. Duas óperas de Mozart foram gravadas comercialmente, “A flaute mágica” (regência de Böhm) e “O rapto do serralho” (regência de Jochun). São gravações surpreendentes em todos os aspectos. O ciclo de canções “A bela Moleira” de Schubert e o ciclo “Amores de um poeta” de Schumann gravados por Fritz Wunderlich e o pianista Huber Giesen são provas consumadas de uma arte refinada. Nunca o personagem de “Andres” da ópera Wozzeck de Alban Berg soou tão pertinente como na gravação que ele realizou ao lado de Dietrich-Fischer Dieskau (regência de Böhm). O “Oratório de Natal” de Bach (regido por Karl Richter), “A criação” de Haydn (regido por Karajan, especialmente a gravação feita ao vivo) e a “Canção da Terra” de Mahler (regida por Otto Klemperer) demostram claramente a versatilidade do artista. Suas interpretações de árias de operetas de Franz Lehár e de Johan Strauss continuam a encantar muitas gerações, e no mais popular dos itens que ele gravou, “Granada”, de Agustín Lara, demostrou estar a anos luz de distância daqueles que, 20 anos depois, fizeram do crossover uma máquina de fazer dinheiro. Ao cantar “Granada” Wunderlich realizava a mais refinada expressão de arte. Apesar de sua morte prematura a arte de Fritz Wunderlich parece ser imortal.

Vídeos e áudios

O mais impressionante dó de peito da história: Granada de Agustín Lara.

Mozart – a ária de Tamino de “A flauta mágica”

Verdi: Brindisi de “La traviata”. Wunderlich junto a Teresa Stratas

Enviado por Osvaldo Colarusso, 24/08/16 9:49:25 AM

Muitos músicos eruditos brasileiros se vêem forçados a morar ou fazer carreira fora do país. O Brasil, num misto de desprezo e indiferença, não reconhece feitos grandiosos daqueles compatriotas que, com enorme sucesso e esforço, continuam sua batalha para conseguir um lugar ao sol numa linguagem alheia à atenção local. Exemplo disso vem de dois jovens pianistas brasileiros que acabam de conseguir algo raro entre os mais exigentes críticos musicais europeus: a unanimidade. Dois pianistas que seguem a trilha de Guiomar Novaes, Magdalena Tagliaferro, Roberto Szidon e Nelson Freire, entre outros. Grandes pianistas brasileiros com imenso reconhecimento internacional.

Chopin e Beethoven são coisas de brasileiro?

Primeiro quero falar do paulista, descendente de romenos, Cristian Budu. Nascido em 1988 em Diadema (SP) foi aluno de Eduardo Monteiro em São Paulo e se aperfeiçoou nos Estados Unidos, onde mora atualmente. Foi o vencedor de um dos mais importantes concursos de piano do mundo, o Concurso Clara Haskil, que acontece na Suíça nos anos ímpares. Cristian Budu foi o primeiro prêmio no concurso de 2013 (em 2015 este primeiro lugar não foi concedido) e foi um selo suíço, Claves, que o convidou a fazer seu primeiro CD. No programa os Prelúdios opus 28 de Chopin e as Bagatelas opus 33 de Beethoven. O sucesso de crítica foi retumbante: na revista inglesa Gramophone do último mês de julho este CD esteve na seleta lista das escolhas do editor (Editor’s choices).
Pelo que eu me lembre nunca um artista brasileiro (talvez Nelson Freire) teve esta honra. São famosas as oposições de opinião entre as revistas inglesas e as francesas. Pois neste caso houve uma admirável unanimidade. No exemplar de julho/agosto da revista Diapason o exigente crítico Alain Lompech deu 5 estrelas para o CD, se desfazendo em elogios. Em resumo, Cristian Budu iniciou sua carreira discográfica internacional com o pé direito.

Sonata Brasileira: admiração europeia

Outro sucesso incontestável é o CD chamado “Sonata Brasileira”, lançado pelo selo norte-americano Odradek Records. Quem toca é o pianista paulista Antonio Vaz Lemes, nascido em 1977, discípulo de Gilberto Tinetti. Neste CD aparecem quatro sonatas escritas por compositores brasileiros. A única mais conhecida é a Sonata de Camargo Guarnieri, escrita em 1972, que já foi gravada de forma notável por Max Barros (Naxos) e Belkiss Carneiro de Mendonça (Paulus). Mas as outras três sonatas são maravilhosas revelações. Não sei qual é a melhor, mas todas me impressionaram. A Sonata Nº 1 de Edmundo Villani-Côrtes, compositor paulista com 85 anos de idade, que tem fama de possuir que um bom gosto ímpar. Esta sonata é uma obra linda que nos oferece ao mesmo tempo uma escrita pianística de grande beleza e eficácia. Há também mais uma demonstração deste músico multi- facetado chamado André Mehmari através de sua Sonata em lá onde há uma mistura de sabores brasileiros e jazzísticos. Foi através deste CD que conheci a arte do artista multi-performático (ele compõe, canta e toca) Marcelo Amazonas através de uma bela Sonata – Homenagem a Poulenc composta em 2011. Pois bem, este CD foi elogiadíssimo na Revista Gramophone do mês de setembro (elas saem sempre no meio do mês anterior). Surpreendente feito: uma grande foto do pianista vem com a seguinte legenda: “um Pollini latino americano” (referindo-se ao grande pianista italiano). O que me deu imensa alegria na crítica de Jed Distler foi o elogio que fez das quatro composições, analisadas detalhadamente, demonstrando familiaridade com a linguagem da nossa música. Ficou claro que não foi apenas a atuação impecável de Antonio Vaz Lemes que chamou a atenção, mas também as quatro obras brasileiras enfocadas. A crítica termina com uma forte palavra: “Recomendado”. Vindo da mais sisuda e exigente revista sobre música clássica da atualidade esta palavra equivale mesmo a uma “medalha de ouro”.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 02/08/16 10:18:09 AM

Cerimônias de abertura de Olimpíadas são frequentemente verdadeiros “shows de horror”, e o que está planejado para a abertura da Olimpíada do Rio de Janeiro na próxima sexta-feira parece mais uma vez confirmar isso. Existem poucas exceções, que, neste momento, valem a pena serem lembradas. Uma delas aconteceu em 2014 na abertura das Olimpíadas de inverno na cidade russa de Sochi. O mundo ficou encantado com um espetáculo que soube valorizar a arte e a cultura do país anfitrião de forma extremamente sábia. Foram lembrados os mais importantes criadores artísticos do país: escritores, compositores, cineastas, pintores, etc. Em “quadros vivos” lá estava o patrimônio cultural do povo russo: Dostoiévski, Nabokov, Kandinsky, Chagal, Eisenstein, Borodin, Tchaikovsky, etc. Se bem que havia uma propaganda sub-reptícia das “maravilhas” do governo de Vladimir Putin não houve a menor dúvida de que o que apareceu na abertura da Olimpíada de Sochi foi o riquíssimo patrimônio cultural russo. Na Olimpíada brasileira, porém, estamos longe disso: ao ver o que se está preparando para o show de abertura do evento no Rio de Janeiro percebo que o pensamento local é muito mais comercial e limitado, que alia uma gritante falta de bom gosto a uma ausência de visão do que se está perdendo: uma oportunidade única para se divulgar a nível mundial o que de mais rico existe em nossa cultura.

Oportunidade perdida

Nosso maior compositor, mais uma vez desvalorizado

Nosso maior compositor, mais uma vez desvalorizado

Os bilhões de pessoas que assistirão o show deixarão de saber que o Brasil é a pátria de grandes expressões artísticas como Villa-Lobos, Portinari, Machado de Assis, e tantos outros. Essas pessoas, por culpa de uma organização tacanha, deixarão de saber que um dos mais importantes pianistas da atualidade é o brasileiro Nelson Freire. Talvez apareça algo do genial Tom Jobim, mas me pergunto: a MPB é a única coisa digna a se apresentar ao mundo e que seja valiosa em nosso patrimônio artístico? Se o Brasil fosse consciente do que ele realmente tem de precioso, e contasse nos “quadros pensantes” de nosso desmoralizado governo alguém mais preparado, mostraria numa certa altura do espetáculo o Coro e Orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro executando o final do Choros Nº 10 de Villa-Lobos, Nelson Freire tocando “A Folia de um bloco infantil” do Momoprecoce ou o grande Paulo Szot (estrela da Broadway e do Metropolitan Opera) cantando “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso. E que beleza se a “Neojibá” (aquela notável orquestra jovem da Bahia) mostrasse na apresentação que nossas crianças não são apenas os decantados “trombadinhas” que aparecem diariamente na mídia, mas também podem ser exímios instrumentistas. Mas o que teremos no lugar disso? Com raras exceções (Caetano Veloso, Gilberto Gil) um lixo comercial caríssimo que ao mesmo tempo denigre o nível do evento e falseia para o mundo quem somos nós em termos culturais. A triste conclusão é mesmo que no país de Villa-Lobos quem aparece, num evento planetário, é Wesley Safadão. Lamentável.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 24/07/16 8:34:07 AM

Só recentemente Radamés Gnattali (1906-1988) vem ganhando um grande prestígio como compositor clássico. Um músico que transitou com enorme facilidade entre o gênero clássico e o popular viu sua produção erudita ser vista com desconfiança, chegando mesmo a ser acusado de superficial e vulgar. Um CD lançado recentemente pelo selo Bis na Europa com obras de sua autoria para piano, violão e violoncelo, gravado pela pianista brasileira Débora Halázs, o violonista alemão Franz Halázs e o violoncelista chinês Wen-Sinn Yang, e que ganhou o prêmio Grammy latino de 2015 como melhor lançamento clássico (veja aqui o texto que escrevi a respeito), fez com que a crítica especializada na Europa se perguntasse como um compositor desta qualidade permanece ainda praticamente desconhecido. Nesta trilha de reconhecimento surge agora um lançamento que deixará muita gente de queixo caído: a integral de sua obra para quarteto de cordas, magnificamente executada pelo conjunto que leva o nome do compositor, o Quarteto Radamés Gnattali. Fazendo um retrospecto na biografia do compositor vemos que por alguns anos ele foi violista de um quarteto de cordas no Rio de Janeiro, o Quarteto Henrique Oswald, e isto, entre outras coisas, explica a razão da soberba escrita para este tipo de conjunto. Gnattali nasceu em Porto Alegre filho de imigrantes italianos completamente apaixonados por música. Prova disso é que o casal escolheu para seus três primeiros filhos nomes de personagens de óperas de Verdi: além de Radamés sua irmã se chamava Aida e um de seus irmãos se chamava Ernani. Com tanta herança cultural o compositor se viu entre dois polos: a música clássica europeia e a música popular brasileira. Arranjador inquestionável tocava diversos instrumentos (violino, viola, violão, acordeom) e era um excepcional pianista. Nesta sua produção para quarteto vemos estes dois polos de forma bem clara: a estrutura de seus quartetos reproduz formas e contornos dos quartetos clássicos, mas a rítmica e o impulso melódico são extremamente ligados à música popular brasileira. Entre seus quartetos uma grande surpresa: o quarteto Nº 2 de 1943 é, entre suas obras que conheço, a mais sofisticada e criativa entre suas partituras em termos harmônicos e formais. De rara beleza rivaliza com outra obra absolutamente obrigatória, um quarteto não numerado: “Quatro quadros de Jan Zach”, obra composta em 1946. Jan Zach foi um artista plástico tcheco que, fugindo do nazismo, viveu no Rio de 1940 até 1951. Gnattali transpõe para música seus quadros de maneira livre e pouco usual. Tanto o Quarteto Nº 2 quanto estes “Quatro quadros de Jan Zach” estão, na minha opinião, entre as mais importantes obras para quarteto escritas naquela época, e não falo apenas em termos brasileiros ou sul americanos. São obras comparáveis aos maiores quartetos do século XX. Além dos quatro quartetos numerados e dos “Quatro quadros de Jan Zach”, existe um “Quarteto popular” de 1940 e uma série de obras curtas, com títulos bem brasileiros como “Chôro”, “Cantilena” e “Seresta”, as primeiras obras que ele escreveu para quarteto de cordas. Enfim uma excelente mostra da versatilidade e ecletismo do autor.

Quarteto Radamés Gnattali: Carla Rincón, primeiro violino. Fernando Thebaldi, viola. Hugo Pilger, violoncelo. Andréia Carizzi, segundo violino

Quarteto Radamés Gnattali: Carla Rincón, primeiro violino. Fernando Thebaldi, viola. Hugo Pilger, violoncelo. Andréia Carizzi, segundo violino

Engajamento e heroísmo

Além da excelência destas composições não posso deixar de destacar a atuação do Quarteto Radamés Gnattali. Este grupo, que se destaca como um dos principais quartetos de cordas da América Latina, tem sido de uma importância fora do comum em termos de divulgação do repertório brasileiro. Enre as gravações que o grupo realizou destaco, além de uma magnífica integral dos quartetos de Villa-Lobos, a maravilhosa integral de obras para quarteto do compositor carioca Ricardo Tacuchiam e um CD chamado “Quatro estações cariocas” que apresenta obras especialmente escritas para o quarteto pelos compositores Paulo Aragão, Jayme Vignoli, Sergio Assad e Maurício Carrilho. Seu engajamento, além de uma indiscutível qualidade técnica, faz deles excelentes advogados na causa da divulgação de um repertório injustamente negligenciado. Apesar destas gravações das obras de Gnattali terem sido feitas entre 2012 e 2013 (ainda com o violista Fernando Thebaldi, que não faz mais parte do grupo), num ato heroico, o quarteto lançou estas gravações apenas neste ano, para comemorar os 110 anos do nascimento do compositor, cobrindo do próprio bolso a maioria dos gastos. Por incrível que pareça um lançamento desta magnitude não teve nenhum tipo de apoio oficial, fora a cessão do estúdio. Mas não deixaram por menos: além de uma execução magistral o nível técnico da gravação, realizada no estúdio da Rádio MEC do Rio de Janeiro, o mesmo estúdio utilizado durante décadas por Radamés Gnattali, é surpreendente, e a apresentação do álbum de excelente qualidade. A sensação que tenho é de uma enorme reverência a estes fantásticos músicos: Carla Rincón, Andréia Carizzi, Fernando Thebaldi e Hugo Pilger. Afirmo: dois Cds absolutamente obrigatórios para quem se interessa por boa música, por quem se interessa por música brasileira e por quem deseja apoiar um lançamento como esse. No momento o CD só pode ser adquirido no email do site do quarteto: contato@quartetoradames.com.br. Esta obra e estes músicos merecem nosso completo apoio!!!

Enviado por Osvaldo Colarusso, 19/07/16 8:54:03 AM
Schoenberg compondo

Schoenberg compondo

Escrito em 1911 e dedicado à memória do compositor Gustav Mahler, o livro “Harmonielehre” (“Harmonia” em português) do compositor austríaco Arnold Schoenberg (1874-1951) tornou-se fonte de muitos e merecidos elogios, mas se tornou uma espécie de campeão entre os livros mais esquecidos nas estantes dos músicos, sobretudo dos músicos brasileiros. Não há dúvida de que é o mais completo tratado que já se escreveu sobre o assunto, mas é importante lembrar que está longe de ser um livro apropriado para se iniciar no assunto. Não podemos esquecer que Schoenberg foi um destacado professor no início do século XX em Viena, e o tipo de reflexão que ele faz em seu livro e no seu trabalho como professor tem a ver com a extrema sofisticação musical e cultural da então capital do Império Austro-Húngaro. Seus alunos o procuravam (neste período sempre deu aulas particulares) já detentores de uma formação não só básica, mas até mesmo de nível superior, como foi o caso do compositor Anton Webern (1883-1945), um de seus mais destacados discípulos, que o procurou quando já tinha concluído seu doutorado em música. Em resumo, “Harmonielehre” não é um livro para iniciantes, mas não tenho dúvidas de que é um livro essencial para qualquer músico. Nas centenas de páginas do livro o autor faz uma magistral reflexão sobre cada tópico, passando com desenvoltura acentuada em cada processo da linguagem musical que dominou exclusivamente o pensamento musical ocidental por quase três séculos. O livro chega a propor uma maneira revolucionária de prática para o aprendizado harmônico, onde não haveriam nem baixos dados e nem melodias para serem harmonizadas: tudo seria criado pelo próprio aluno, que necessitaria possuir uma desenvolvida escuta interna. Este ambiente favorável a este tipo de proposição desaparece da vida do autor quando Schoenberg se viu forçado a mudar para os Estados Unidos, fugindo do nazismo, e sua metodologia mudou radicalmente, tornando-se muito mais pragmática. Sua aluna americana Dika Newlin no valioso livro “Schoenberg remembered” (Pendragon Press, não traduzido para o português) fala de um certo desespero do compositor austríaco frente ao nível medíocre de seus alunos americanos, e sua forçada mudança de método. O livro “Funções estruturais da harmonia” (edição brasileira da Via Lettera) que Schoenberg escreveu em Los Angeles junto a seu discípulo Leonard Stein na década de 40, se parece muito mais com um típico manual: prático, conciso e objetivo. Há uma certa decepção e até mesmo uma desinformação quando se pensa que o livro “Harmonia” de Schoenberg seria uma iniciação à estética não tonal. Realmente, no ano da conclusão do livro ele já tinha escrito obras totalmente atonais, mas o livro “Harmonia” está longe de ser um guia para o atonalismo. Ele chega a citar algumas incursões por soluções não tonais numa parte extremamente pequena do livro, mas ele sempre defendeu a necessidade de se conhecer muito bem o sistema tonal para que haja um alicerce em busca de outros idiomas. O livro é muito mais esclarecedor e num certo sentido mais universal do que obras de outros teóricos contemporâneos de Schoenberg como Hugo Riemann e Heinrich Schenker, cujas obras a respeito de harmonia e análise musical excluem uma boa parte da produção musical não alemã. Apesar de suas reticencias Schoenberg em seu livro elogia Debussy e Bartók, coisa que os dois teóricos que citei jamais fariam.

Schoenberg lecionando na Califórnia em 1947

Schoenberg lecionando na Califórnia em 1947

O livro “Harmonia” de Schoenberg na realidade brasileira

Na insípida formação teórico-musical que temos no Brasil estamos a anos luz de distância do ambiente em que surgiu o livro. Minha sugestão para a completa compreensão do livro de Schoenberg é sempre passar primeiro por um guia bem prático e objetivo. Neste sentido recomendo e utilizo o livro de Walther Piston “Harmony”, em sua quinta edição (W. W. Norton & Company), sobretudo pelos seus excelentes exercícios. Além disso a nomenclatura utilizada é extremamente útil para quem pretende estudar nos Estados Unidos, por ela ser integralmente utilizada por lá. Mas ficar apenas num método como o de Piston é só andar meio caminho. Creio ser importante citar o meu próprio testemunho: conheci o livro de Schoenberg através do professor Michel Philippot, que o estudou com René Leibowitz, um aluno de Schoenberg. Fui aluno de Philippot por quatro anos, e quando fui apresentado à metodologia de Schoenberg já tinha uma boa formação de harmonia, vinda de meus estudos com os professores Claudio Stephan e Osvaldo Lacerda em São Paulo. O próprio Philippot me contou que seu contato com o “Harmonielehre” se deu depois de estudar Harmonia com Georges Dandelot no Conservatório de Paris. Também conheci (e tive algumas inesquecíveis aulas) o compositor e professor Max Deutsch, austríaco naturalizado francês, que foi aluno do próprio Schoenberg, aliás o último aluno europeu do mestre a falecer (em 1982 aos 90 anos de idade). Pois o próprio Max Deutsch me contou que em 1913, em Viena, leu todo o “Harmonielehre” em um dia (!), e procurou Schoenberg imediatamente para ser seu discípulo. Mas creio ser importante lembrar que ele me confessou que ao ler o livro já tinha uma formação sólida no assunto.

Para a sorte de nós brasileiros existe uma excelente tradução do livro para o português. O primoroso trabalho de tradução feito por Marden Maluf foi editado pela “Editora Unesp” em 1999. Por muito tempo trabalhei com a tradução para o espanhol (meus conhecimentos de alemão não me permitem a compreender totalmente o original) feita por Ramon Barce (Real Musical – Madrid) e redescobri o sentido de diversas passagens na esmerada tradução da edição brasileira. Já tive centenas de alunos de harmonia, mas com poucos fiz todo o roteiro traçado no tratado de Schoenberg. Apesar de terem sido raras as vezes confesso que foram os momentos máximos na minha vida de professor. Cada vez que revisito o “Harmonielehre” me alegro e chego à conclusão que Schoenberg, além de ter sido um grande compositor, foi realmente um dos maiores mestres e pensadores musicais de toda a história. Todos os seus escritos são importantes mas em “Harmonielehre” ele se supera.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 12/07/16 10:11:40 AM

Não há dúvida de que o piano ocupa uma prioridade enorme na música brasileira, tanto por uma literatura extraordinária como pelo fato de pianistas brasileiros (Guiomar Novaes, Magda Tagliaferro, Roberto Szidon, Nelson Freire, entre outros) terem alcançado um reconhecimento mundial. Mas seguindo de perto, o violoncelo no universo musical brasileiro se aproxima do piano em termos de relevância. Além de termos violoncelistas que são expoentes mundiais como Aldo Parisot e Antônio Meneses, vemos o violoncelo ocupar um destaque enorme na MPB, sobretudo através do primoroso trabalho de Jaques Morelembaum, sem falar de lideranças musicais que partiram do violoncelo. Os violoncelistas Guerra Vicente e Antônio Lauro Del Claro são exemplos de instrumentistas que foram capazes de multiplicar as manifestações musicais brasileiras partindo de seu instrumento, e muitos violoncelistas brasileiros, como Gustavo Tavares, que mora na Europa há muito tempo, tornaram-se compositores importantes. Seguindo este caminho trilhado por violoncelistas importantes um violoncelista gaúcho, nascido em 1969, tem ajudado bastante a melhor entender esta primazia do violoncelo entre nós. Hugo Pilger, violoncelista do Quarteto Radamés Gnattali e professor da UNIRIO, revelou há três anos que a importância do violoncelo entre nós se originou na extraordinária produção para o instrumento de nosso maior compositor, Heitor Villa-Lobos, que também foi violoncelista. Em 2013 gravou junto com a pianista Lúcia Barrenechea toda a obra de Villa-Lobos para violoncelo e piano e publicou o seu primoroso livro “Villa-Lobos – O Violoncelo e Seu Idiomatismo”, resultado de uma profunda pesquisa de valor inestimável como documentação de nossa história da música (veja aqui o texto que escrevi sobre o livro).
Neste novo CD de Hugo Pilger, ele divulga a extensa obra para violoncelo solo e Conjunto de violoncelos do compositor mineiro Ernani Aguiar. Uma obra que parte das obras para conjunto de violoncelos de Villa-Lobos como a Bachianas Nº 1 (Música para 4 violoncelos, a obra que abre o CD) passa pelo equivalente aos Duos de violino de Bela Bartók (Seis duetos para violoncelos) até chegar numa expressão completamente original na sua vertente mística: Threnun Fratri meo Aloysio (obra que conclui o CD), escrita em homenagem ao violoncelista Aloysio José Viegas, falecido em 2015. Em meio a esta belíssima produção temos raros exemplos de obras brasileiras para violoncelo desacompanhado sendo que fiquei muito impressionado com “Ponteando” de 1989, uma página para violoncelo solo de grande beleza.
Seguindo os passos do genial Guerra Vicente que gravou sozinho em play back todas as partes da Bachianas Nº 1 de Villa-Lobos (linda gravação à qual se soma uma antológica gravação do Trio de cordas de Villa-Lobos em que Guerra atua junto a Ludmila Vinecka e Glêsse Collet) Hugo Pilger gravou também todas as partes das obras para dois, três e quatro violoncelos em play back, mas com um requinte todo especial: gravou com 4 instrumentos diferentes, o que dá a sensação de individualidade em cada parte, mesmo tendo sido tocada por apenas um instrumentista. Em termos técnicos e musicais todas as execuções são de um nível altíssimo, e sinto que a dinastia de violoncelistas brasileiros que vem de Iberê Gomes Grosso e do próprio Villa-Lobos encontra em Hugo Pilger um excelente continuador.
Creio ser importante lembrar que este CD não obteve apoio de nenhuma instituição oficial, sendo que a maior parte do custo foi bancado pelo próprio instrumentista. Num país em que o Ministério da Cultura libera financiamentos até de casamentos julgo ser vergonhosa esta omissão. Este primoroso CD, com um acabamento técnico excepcional, e com um encarte com comentários utilíssimos do maestro André Cardoso, pode ser adquirido através do iTunes (U$ 7,99) em MP 3, e o CD propriamente falando pode ser obtido no site Arlequim (http://www.arlequim.com.br) por R$ 34,00 , no site clássicos (http://www.lojaclassicos.com.br) pelo mesmo preço e através do email villaeovioloncelo@gmail.com por R$ 30,00.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 07/07/16 9:22:45 AM

Muito pesar pela morte prematura do cravista e maestro Nicolau de Figueiredo acontecida ontem, dia 6, em São Paulo, cidade onde nasceu em 1960. Aluno de piano de Sonia Muniz na Escola Municipal de Música logo se interessou pelo cravo e pelo repertório musical do século XVIII. Estudou com grandes cravistas, mas fica nítida a influência que o excêntrico cravista Scott Ross (1951-1989) teve sobre ele. Existe inclusive um vídeo de Scott Ross dando aulas para seus alunos favoritos, pouco antes de sua morte, e Nicolau está entre eles (você poderá acessar no final deste texto).
Sua atuação como cravista (tocando fortepiano) nas montagens e gravações de óperas de Mozart (Cosí fan tutte e Le nozze di Figaro) dirigidas por René Jacobs causaram até mesmo ciúme dos cantores por sua atuação ter merecido mais destaque das críticas do que a atuação dos cantores. Sua musicalidade aliada a uma criatividade sem limites fazia de suas atuações um evento sempre único. Nicolau de Figueiredo foi o único brasileiro, além de Nelson Freire, a receber uma crítica muito especial, “Choc – Le Monde de la musique” da conceituada revista francesa “Le Monde de la Musique”, por sua gravação de Sonatas de Scarlatti em maio de 2006. O crítico Philippe Venturini comenta nesta crítica que Nicolau se iguala, neste CD gravado na Suíça, aos maiores cravistas que ele já ouviu. O imenso sucesso deste primeiro CD fez com que outros aparecessem, com obras de Soler, Johann Christian Bach, Seixas e Haydn.
Humilde ao extremo não teve a ciência da autopromoção. Por isso mesmo este sucesso europeu passou desapercebido para a maioria dos músicos brasileiros, exceção feita àqueles que se dedicam à música barroca. Voltou a morar no Brasil em 2011, e atuava em sua cidade natal como professor e recitalista.

Lembranças pessoais

Duas lembranças pessoais: Nicolau foi meu aluno de Harmonia entre 1978 e 1979, quando ainda eu morava em São Paulo, e sempre fiquei impressionado pelo fato dele sempre me entregar os exercícios com requintes excepcionais, incluindo ornamentações bem sofisticadas, realizando muito mais do que simplesmente harmonizar um baixo cifrado. Além desta lembrança como professor ficará para sempre a memória de um concerto que assisti em Curitiba no ano de 2005. Nicolau ao cravo dirigiu o oratório “O Messias” de Handel com a Camerata Antiqua, tendo notáveis solistas como Jeniffer Smith e Paulo Mestre. O que se passou naquela noite no palco do Teatro Guaíra é algo difícil de definir, mas, em poucas palavras, nunca ouvi a obra de Handel numa execução tão convincente e tão bela, nem ao vivo e nem em gravações. Nicolau realizou um milagre: fez o coro da Camerata Antiqua soar como se fosse um coro muitas vezes maior. Era realmente um artista excepcional.

Vídeo

Nicolau tendo aula com Scott Ross

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