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Enviado por Osvaldo Colarusso, 28/07/14 12:10:18 PM
A guerra entre judeus e palestinos. O horror, mais uma vez.

A guerra entre judeus e palestinos. O horror, mais uma vez.

Mais uma vez um conflito sangrento perturba o oriente médio. Entre a teimosia e inabilidade do Hamas e a truculência do governo de Israel hoje já são mais de 1000 mortos, entre os quais mais de 150 crianças palestinas. Um clima tão acirrado que até para o Brasil sobraram chispas. Nosso país foi chamado de “insignificante” e “anão diplomático” por funcionários do ministério das relações exteriores israelense pelo fato do Brasil deixar clara sua postura contra as operações do exército daquele país. Há alguns anos, neste blog, escrevi um texto (veja aqui) que falava da postura do maestro e pianista judeu Daniel Barenboim, a respeito destes sangrentos conflitos. Ao voltarem agora os conflitos Barenboim também voltou a exercitar a sua tese de conciliação entre palestinos e judeus. Num artigo publicado pelo jornal inglês “The guardiam” no último dia 24 (você pode ler o artigo aqui), Barenboim foi absolutamente brilhante. Ele inicia o artigo com uma frase bem contundente: “Estou escrevendo estas palavras como alguém que tem dois passaportes – israelense e palestino”. Ele, um israelense, recebeu por seu trabalho de aproximação dos dois povos, um passaporte palestino, contando por isso com as duas nacionalidades. Vejam como ele consegue se colocar na posição dos dois povos: “Nós, palestinos, achamos que precisamos receber uma solução justa. Nossa busca é fundamentalmente para a justiça e para os direitos concedidos a todos os povos da Terra: a autonomia, autodeterminação, liberdade, e tudo o que vem com ela. Nós, israelenses precisamos de um reconhecimento do nosso direito de viver no mesmo pedaço de terra. A divisão da terra só pode vir depois de ambos os lados, não só aceitarem, mas entenderem que podemos viver juntos, lado a lado”. Israel, que está se tornando cada vez mais um estado direitista, já que a esquerda se enfraqueceu principalmente depois da emigração de diversos judeus russos, tem expressado em seu parlamento palavras que evocam a legitimidade de um genocídio, e o Hammas, que governa a faixa de Gaza, acredita que Israel não tem direito de existir. Barenboim de novo: “No coração da aproximação tão necessária há a necessidade de um sentimento mútuo de empatia, compaixão. Na minha opinião, a compaixão não é apenas um sentimento que resulta de uma compreensão psicológica da necessidade de uma pessoa, mas é uma obrigação moral. Somente através da tentativa de entender o sofrimento do outro lado podemos dar um passo em direção ao outro”. Barenboim é para mim, o único músico ligado à música clássica, que assume os riscos de colocar sua postura a respeito deste tipo de assunto de forma bem clara.

Daniel Barenboim dirigindo a West-Eastern Divan Orchestra

Daniel Barenboim dirigindo a West-Eastern Divan Orchestra

Daniel Barenboim: grande músico, grande ser humano

Daniel Barenboim é um músico que me fascina. Um dos maiores maestros da atualidade tem realizado um trabalho impecável frente à Ópera Estatal de Berlim, transformando sua orquestra entre as melhores do mundo. As recentes gravações de obras de Bruckner e Elgar testemunham a alta qualidade deste trabalho. A Ópera Estatal de Berlim (Staatsoper) sob a direção de Barenboim acabou tomando a dianteira entre os teatros líricos de Berlim (a cidade tem três teatros de ópera). Além de Daniel Barenboim ser um maestro impecável, com um repertório absolutamente incomparável, é também um dos mais importantes pianistas de nossa era, com um repertório que só pode ser comparado ao lendário pianista russo Sviatoslav Richter. Aliás, um dos maiores mistérios da música clássica atual, é a que hora Daniel Barenboim estuda piano. Como pode alguém tocar (e bem) obras complexas como os concertos de Brahms tendo o dia todo ocupado com ensaios de orquestra? Tanto no piano quanto na regência de orquestra Barenboim, além dos clássicos, interpreta obras contemporâneas, algo que muitos de seus colegas não fazem. Dirige com frequência itens complicadíssimos de Pierre Boulez e Eliot Carter, e incentiva novos autores de escrita complexa como o israelense Ayal Adler, um notável jovem compositor. Não fosse tudo isto, Barenboim nas últimas décadas tem se revelado o músico clássico mais importante do ponto de vista humanístico. Prova disto é seu trabalho, realizado desde 1999 frente à West-Eastern Divan orchestra, uma orquestra formada por judeus e palestinos, que luta, através da música, para o entendimento entre estes dois povos que se tornaram grandes inimigos. Barenboim nasceu em Buenos Aires, no ano de 1942. Sua família, entusiasmada com o nascimento de um novo país, Israel, que prometia ser uma terra de liberdade e respeito, se transferiu para lá. Barenboim é, portanto, cidadão israelense. Seu trabalho frente à West-Eastern Divan orchestra não é muito bem aceito em Israel. Em 2004, Daniel Barenboim recebeu no Parlamento de Israel, em Jerusalém, o Prêmio Ricardo Wolf, por sua atuação em favor dos direitos humanos e da paz mundial. O prêmio, de 100.000 dólares, foi dividido entre Barenboim e o violoncelista Mstislav Rostropovich. Os 50.000 dólares recebidos por Barenboim foram destinados à manutenção da West-Eastern Divan orchestra . O discurso pronunciado por Barenboim, ao receber o prêmio, provocou a ira da ministra da cultura, Limor Livnat, presente ao evento, e dos deputados do partido conservador Likud, sendo aplaudido pelos demais representantes do povo na câmara baixa. Após citar trechos da declaração de independência de Israel, Barenboim perguntou se seria compatível a independência de um país com violação dos direitos fundamentais de outro povo e, mais ainda, se o povo judeu, cuja história está cheia de sofrimentos e perseguições, poderia ficar indiferente às violações dos direitos humanos e ao sofrimento de um povo vizinho. Ele também se desentendeu com as autoridades israelenses por ter executado música de Wagner naquele país. Hoje em dia Barenboim se sente muito mais ligado à Argentina do que a Israel. Prova disto é que na primeira metade do próximo mês de agosto Barenboim regerá e atuará como pianista em 8 concertos frente à West-Eastern Divan orchestra. No programa obras de Wagner (autor que ele dirige de forma soberba), Mozart, Ravel e Ayal Adler. Entre os solistas Waltraud Mayer, René Pape e Martha Argerich.

Vídeos relacionados ao texto:

Barenboim fala num concerto da Divan Orchestra em Ramallah, na Cisjordânia, no mês de janeiro de 2008, que a orquestra não é uma mensageira da paz, mas na sua prática musical ela busca a ação de um ouvir o outro. Discurso notável.

Barenboim é humilhado no parlamento de Israel ao discursar em hebreu ao receber o prêmio Wolf em 2004. O discurso é fundado na constituição e nos princípios da fundação daquele país.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 22/07/14 4:14:55 PM
O maestro Herbert von Karajan: grande músico. Um desposta no pódio

O maestro Herbert von Karajan: grande músico. Um desposta no pódio

Sempre que um grande maestro morre chovem na imprensa aquelas frases, que parecem mesmo “frases feitas”: “O último grande maestro”, “Morre o maior maestro de sua geração” ou “Perda irreparável”. No meu ver as coisas não são exatamente assim. Sem hagiografias.

Herbert von Karajan – 25 anos da morte

Herbert von Karajan (1908 – 1989), cujos 25 anos da morte foram lembrados na semana passada, foi realmente um músico excepcional, mas cometeu alguns pecados na vida privada e na vida profissional que são difíceis de esquecer. Não vou ficar batendo na tecla dele ter sido um nazista de carteirinha (realmente foi) mas seu egocentrismo o fez muitas vezes cair no ridículo. Exemplifico isso: querendo mostrar que poderia reger do cravo certas obras barrocas colocou dois cravos no palco.

O cravo "falso" de Karajan

O cravo “falso” de Karajan

Um que ele tocava (ou fingia faze-lo) e outro em que um profissional do instrumento realmente tocava o baixo contínuo. Além de transformar Bach e Vivaldi em compositores pós românticos seu narcisismo arrastou inclusive artistas de bom nível como Anne Sophie Mutter numa empreitada de arrepiar: a mais desfocada versão de “As quatro estações” de Vivaldi que existe. Também na sua mania de ser professor de Deus Karajan colocou em seus registros de ópera cantores que não tinham nada a ver com a obra que estava sendo gravada. Por exemplo, ele achava que tinha que humanizar a princesa chinesa Turandot. Por isso colocou a pobre cantora italiana Katia Ricciarelli (uma excelente cantora) para “sofrer” no papel título da última ópera de Puccini, concebida para uma cantora wagneriana. A crítica foi impiedosa com ela. Outra maldade de seu autoritarismo foi ter praticamente acabado com a voz do soprano Helga Dernesch ao faze-la cantar papéis como Isolda e Brunhilde, já que a mais adequada, a sueca Birgit Nilsson, se recusava, a partir de 1965, a cantar com ele. Dernesch, depois de ficar fora de cena por quase dez anos voltou a cantar como mezzo, inclusive no Rio de Janeiro, quando interpretou de maneira marcante a Herodias da Salomé de Richard Strauss na década de 1980.
Qual o legado de Karajan? Ele não é pequeno. Sua gravação de “Os mestres cantores de Nuremberg” feita em Dresden em 1970 permanece como uma fantástica versão, assim como o registro feito ao vivo de “Tristão e Isolda”, também de Wagner, feito em Bayreuth em 1952. Suas gravações de obras de Richard Strauss, tanto as de ópera como as de poemas sinfônicos, também permanecem como registros exemplares. Apesar de não ser nem um pouco chegado à música contemporânea suas gravações de obras de Schoenberg, Berg e Webern são uma beleza. Nas dificílimas “Variações opus 31” de Arnold Schoenberg ele chega a superar a clareza de um especialista como Pierre Boulez. Outro item maravilhoso é a música que ele gravou (em áudio e em vídeo) de Debussy. Sua leitura de “La Mer” (O mar), especialmente num vídeo da década de 1970, é das mais lindas que existem. Suas gravações do Requiem de Verdi são maravilhosas, sobretudo um vídeo feito em Milão no início dos anos 70, com o jovem (e sem barba) Pavarotti. Eu passo longe de seus registros de Mozart, Haydn, Beethoven e Brahms. Seu ciclo de Sinfonias de Beethoven gravado no início da década de 1950 com a Phlilharmonia de Londres fazia prever um sucessor de Furtwängler. Mas as gravações das mesmas sinfonias de Beethoven que ele realizou posteriormente por diversas vezes em Berlim e Viena são de um desrespeito ao texto original que chegam a ser irritantes.

O maestro Lorin Maazel

O maestro Lorin Maazel

Lorin Maazel – a morte de um grande músico

Lorin Maazel, que faleceu no último dia 13, nasceu em 1930. Apesar de ter nascido em Paris era cidadão americano. Foi o único menino prodígio da regência a ter uma grande carreira de maestro. Começou a reger aos 8 anos de idade, e aos 11 foi convidado por Arturo Toscanini para reger a Orquestra da NBC. Ele, que também era um excelente violinista, vai fazer inicialmente uma intensa carreira europeia. Se sua estreia no Festival Wagneriano de Bayreuth em 1960 foi um quase fiasco, o seu período à frente da Orquestra da Rádio de Berlim, de 1964 até 1975, foi, na minha visão, o ponto alto de sua carreira. No mesmo período foi diretor musical da Ópera alemã de Berlim. Dono de uma das mais perfeitas técnicas de regência que já se viu, vai suceder o grande maestro húngaro Georg Szell como diretor da Orquestra de Cleveland de 1972 até 1982. Segundo o crítico inglês Norman Lebrecht ele não acrescentou nada à orquestra, e pude em São Paulo, ver duas faces do grande maestro à frente desta grande orquestra: a mais linda e mais transparente versão que já ouvi, em disco ou ao vivo, da “Sinfonia em três movimentos” de Stravinsky e no mesmo concerto a mais fria e aborrecida versão da Segunda sinfonia de Brahms. Um músico com sua técnica exemplar, uma audição excepcional e um repertório extremamente amplo, às vezes podia se tornar enfadonho. De 2002 até 2009 foi diretor musical da Filarmônica de Nova York, e deste período é que se ouve falar das maiores “chatices” do maestro. Nesta época eu assisti uma Segunda de Sibelius com ele em Nova York que não tinha nada de excepcional, irreconhecível frente à fantástica gravação que ele realizou em Viena na década de 60. Em 1989 Maazel estava seguro que ia suceder Karajan na Filarmônica de Berlim. Quando soube que o escolhido foi o italiano Claudio Abbado saiu esbravejando sobre seu colega italiano. Esse meio musical…

Como compositor Maazel não conseguiu impressionar muito. Sua obra mais conhecida, a ópera”1984” (baseada no livro homônimo de George Orwell) deixa claro que como compositor ele era um excelente maestro. Seu legado discográfico é bem extenso. Destaco sua gravação da ópera L’enfant et les sortilèges de Ravel, até hoje o melhor registro da obra. Maravilhosa é sua integral das Sinfonias de Jean Sibelius, com a Filarmônica de Viena (com a de Pittsburg é bem inferior). Assim como Karajan não era muito chegado a obras modernas. Nunca regeu nada de Ligeti, Adés ou Boulez. No entanto existe uma gravação integral da ópera Lulu de Alban Berg que ele regeu em Viena em 1981 que é absolutamente notável. Pena que ele regia apenas os itens consagrados pois a complicada escrita de Berg raramente soou tão transparente.

Lorin Maazel falava razoavelmente bem o português. Ele foi casado com uma pianista brasileira que se naturalizou americana, Miriam Sandbank. Pouca gente sabe, mas o maestro fez para ouvintes brasileiros, em bom português, uma gravação do “Guia orquestral para os jovens” de Britten. Foi lançado aqui no Brasil pelo selo Deutsche Grammophon, isto no tempo dos Lps. Em 1986, à frente da Orquestra Filarmônica Mundial, regeu no Rio de Janeiro o Choros Nº6 de Heitor Villa-Lobos. Numa época em que a obra era inacessível (a gravação da Sinfônica Brasileira tinha um imenso corte) esta gravação, lançada em CD, foi uma referência por muito tempo. Voltou aqui com a Filarmônica de Viena e a Orquestra sinfônica da Rádio Bávara em concertos excelentes. Mais inglória é sua última passagem no Brasil, mais precisamente na capital fluminense em 2011, quando veio salvar uma situação incômoda da direção da Sinfônica Brasileira. Seu diretor musical (o da OSB), por causa de uma demissão em massa de músicos, tinha saído do palco do Theatro Municipal sob vaias. Para um ciclo de Sinfonias de Beethoven, que aconteceria em seguida com o mesmo maestro enxotado, foi então convidado o maestro alemão Kurt Masur, que adoeceu. Mais uma vez com medo das vaias, foi convidado Lorin Maazel, que cobrou uma fortuna para reger o ciclo (ao que parece um milhão de dólares) e exigiu que uma parte do pagamento fosse feito em cash assim que chegasse. Triste é saber que ele debochou dos músicos demitidos no Amarelinho da Cinelândia, os mesmos músicos que voltaram a ser contratados, isentos de tocar com aquele que em 2011 os demitiu. Aliás não foi a única vez que Maazel foi de comportamento dúbio entre os cariocas. Em 1988 esteve dirigindo a OSB no aterro do flamengo. Seu voo teve problemas e ele regeu a Sinfonia Nº 7 de Beethoven sem nenhum ensaio. Neste momento seria difícil chama-lo de sério……

Experiência pessoal

Muito interessante a forma como soube que Karajan morreu. Fazia o curso na Accademia Chigiana em Siena (era aluno do maestro russo Gennady Rozhdestvensky) e adorava assistir como ouvinte as aulas do pianista Alexis Weissenberg. Numa dessas aulas entrou uma pessoa e cochichou algo em seu ouvido. O pianista desatou num choro, e se retirou da sala sem dizer nada. Fomos saber o que se passava. Karajan tinha morrido. Alexis Weissenberg não só foi solista em diversos concertos de Karajan mas era um de seus poucos amigos.

Vídeos relacionados ao texto:

Karajan no seu melhor repertório: Don Juan de Richard Strauss.

Karajan executa o Concerto Brandenburguês Nº 3 de Bach. Estilo romântico e um cravo “de mentira”.

Maazel no seu auge. Canções das crianças mortas de Mahler com Dietrich Fischer Dieskau e com a Orquestra da Rádio de Berlim. Vídeo da década de 60.

Maazel tocando violino e regendo.
Johann Strauß I – Walzer à la Paganini, Op.11a

Enviado por Osvaldo Colarusso, 13/07/14 8:57:13 AM
Carlos Kleiber: morto há exatos dez anos

Carlos Kleiber: morto há exatos dez anos

Publicado em 12/07/2014 | OSVALDO COLARUSSO, ESPECIAL PARA A GAZETA DO POVO

Carlos Kleiber: o mito

Neste domingo, há exatamente dez anos, em 13 de julho de 2004, morria em Konjsica, Eslovênia um dos maiores fenômenos da regência de orquestra: Carlos Kleiber. Nascido em Berlim, em 1939, seu nome mudou de Karl para Carlos no período em que viveu em Buenos Aires. Este período sul-americano, que coincidiu com a Segunda Guerra Mundial, foi provocado pela fuga da Alemanha nazista de seu pai, Erich Kleiber, também um grande maestro, que era mal visto em seu país por reger música de vanguarda (estreou a ópera Wozzeck, de Alban Berg) e por se opor às intromissões artísticas dos asseclas de Hitler.

Seu pai, tendo vivido muitas vicissitudes em sua carreira, tentou dissuadir o filho de seguir uma trajetória musical. Carlos Kleiber chegou a estudar Química, mas acabou embarcando numa carreira musical . Foi, a partir de 1952, pianista preparador num pequeno Teatro de Munique (Gärtnerplatz Theater) e teve sua primeira oportunidade de reger uma opereta em 1954, no pequeno teatro da cidade de Potsdam. De 1958 a 1964, foi um dos quatro maestros da Deutsche Oper am Rhein, em Düsseldorf, e foi um dos maestros da Ópera de Zurique de 1964 a 1966. Entre 1966 e 1973 atuou como maestro principal da Ópera de Stuttgart, seu último cargo permanente.

Suas execuções eram tão brilhantes nestas cidades que ele foi convidado para atuar nos mais importantes teatros e salas de concerto do mundo à frente das mais renomadas orquestras. É a partir daí que nasce o mito Carlos Kleiber. Em 1974, deixou todos boquiabertos no Festival Wagneriano de Bayreuth, regendo de forma memorável Tristão e Isolda, voltando a fazê-lo em 1975 e 1976. Neste tempo, ele colaborou de forma frequente com a Ópera de Munique, onde fez sua primeira gravação, que nunca saiu de catálogo: La Traviata, de Verdi, com Ileana Cotrubas e Placido Domingo. Mesmo tendo em cena grandes artistas, como Domingo e Mirela Freni, quem mais chamava a atenção era ele.

Contratado pelo selo Deutsche Grammophon, gravou diversas obras, em registros absolutamente antológicos, especialmente à frente de duas grandes orquestras com as quais ele se relacionava muito bem: a Filarmônica de Viena e a Staatskapelle Dresden. Atuou com grande êxito nos mais importantes teatros de ópera do mundo: Teatro Scala de Milão, Metropolitan de Nova York, Ópera de Viena e no Covent Garden de Londres. Como maestro de repertório sinfônico atuou também frente às maiores orquestras de Berlim, Amsterdã, Viena, Chicago (a única orquestra americana que regeu) e Munique.

Mito

Quando vemos uma carreira como esta, alguns números nos chocam. Carlos Kleiber regeu menos de 96 concertos em toda sua carreira, e por volta de 400 récitas de ópera. Em resumo, se apresentou pouco. Seu repertório sinfônico acabou se tornando extremamente reduzido: quatro sinfonias de Beethoven (N.ºs 4, 5, 6 e 7), duas de Brahms (2 e 4), duas de Mozart (33 e 36), uma sinfonia de Haydn (94), uma abertura de Beethoven (“Coriolano”), duas sinfonias de Schubert (3 e 8) e três fragmentos sinfônicos da ópera Wozzeck, de Alban Berg. De Mahler, regeu uma vez A Canção da Terra. Em termos de óperas, regeu uma de Wagner (Tristão e Isolda) duas de Puccini (La Bohéme e Madama Buterfly), uma de Bizet (Carmen), duas de Weber (Der Feischuetz e Oberon) e três de Richard Strauss (Elektra, Cavaleiro da Rosa e Daphne) e uma de Alban Berg (Wozzeck). De Verdi, regeu seis títulos, mas apenas dois com frequência (La Traviata e Otello).

Perfeccionista ao extremo, chegou, por exemplo, a ensaiar por três horas com a Orquestra do Covent Garden, de Londres, um trecho de dois minutos da ópera se Strauss O Cavaleiro da Rosa e para La Bohéme, de Puccini, solicitou 15 ensaios de orquestra no Met de Nova York. Cancelou inúmeras apresentações e chegou mesmo a dizer que ele só se apresentava quando sua geladeira estava vazia.

Em 1993, a Sony lançou um CD com o poema sinfônico Uma Vida de Herói, de Strauss. Apesar da gravação ser a melhor já feita desta obra, ele conseguiu uma ordem judicial para recolher das lojas todos os exemplares. Feliz de quem já ouviu este registro. Em 1989, com a morte de Herbert von Karajan (1908-1989), lhe foi oferecido o posto de diretor musical da Orquestra Filarmônica de Berlim, convite que ele rapidamente recusou. Em diversos momentos, cancelava um trabalho por se indispor, quer seja com a administração das orquestras e teatros, ou com músicos de orquestra.

Mesmo com todos esses problemas, era imensamente admirado por seu gestual simples, mas extremamente eficaz e expressivo, pelo acerto de suas concepções e sua incrivelmente forte energia. Eu tive a sorte de assistir a uma récita regida por ele de Otello, de Verdi, em Munique, em 1978, com Carlo Cossuta como Otello e Mirela Freni como Desdemona (o tenor brasileiro Benito Maresca cantava o papel de Cassio). Só posso dizer que nunca esquecerei!

Legado

Felizmente, existem alguns vídeos que mostram bem as virtudes extraordinária deste artista. O mais impressionante é o DVD gravado em 19 de outubro de 1983. Nele, Carlos Kleiber apresenta as sinfonias N.º 4 e N.º 7, de Beethoven, à frente da Orquestra Real do Concertgebouw, de Amsterdã. Para muitos, a regência mais bonita de toda a história.

Outro documento impressionante são os Concertos de Ano Novo, da Filarmônica de Viena, de 1989 e 1992, que foram muito bem filmados pelo diretor de televisão Brian Large. Nunca a música ligeira, valsas e polcas, tiveram uma regência equivalente.

Em termos de áudio, a gravação da ópera Tristão e Isolda, de Wagner, realizada em Dresden, permanece como a referência absoluta. A Sinfonia N.º 4, de Brahms, frente à Filarmônica de Viena, é um dos mais impressionantes registros sinfônicos já realizados, e do mesmo nível e com a mesma orquestra, são as gravações que ele realizou das sinfonias N.º 5 e N.º 7, de Beethoven.

Em março de 2011, a conceituada revista inglesa BBC Music fez uma consulta com os 100 maestros mais importantes do mundo para que dissessem quem foi ou é o maior maestro de orquestra. O mais votado foi Carlos Kleiber. Ele ficou bem à frente de Karajan, Arturo Toscanini (1867-1957), Wilhelm Furtwängler (1886-1954) e Claudio Abbado (1933-2014). Muita gente acredita mesmo: Carlos Kleiber foi o maior maestro da história.

Vídeos: A mais bela regência que eu já vi. Sinfonias 4 e 7 de Beethoven. Carlos Kleiber e a Orquestra do Concertgebow. Vale a pena comprar o DVD

Outro concerto fenomenal com a Filarmônica de Viena. Mozart (Sinfonia Linz – 36) e Brahms (segunda)

Show: Concerto de ano novo de 1989 da Filarmônica de Viena. Reparem na sofisticação dos detalhes, na plástica da regência. Tirando Willi Boskovsky desbancou todos os outros!

Enviado por Osvaldo Colarusso, 02/07/14 3:02:24 PM
Guiomar Novaes. Seu forte era sua personalidade artística, não sua técnica

Guiomar Novaes. Seu forte era sua personalidade artística, não sua técnica

Nunca, em tempo algum, houve tanta perfeição técnica na execução da música clássica. A perfeição da afinação e do domínio instrumental das grandes orquestras faz com que qualquer concerto delas possa se tornar, com pouquíssimos retoques (edições), um CD prontinho. Quando ouvimos, por exemplo, uma gravação feita há 70 anos, vemos que este padrão de perfeição técnica é algo bem mais recente. É o caso de uma execução da Nona Sinfonia de Mahler gravada ao vivo em 1938 com a Orquestra Filarmônica de Viena regida por Bruno Walter. Esta mesma orquestra e este mesmo regente foram os responsáveis, 26 anos antes, em 1912, pela estreia da obra. Ao ouvirmos este precioso documento (alguns meses depois esta música foi proibida de ser executada pelos nazistas) percebemos eventuais desafinações, desencontros, ataques dúbios, coisas absolutamente impensáveis nos dias de hoje. Mas sentimos, ao ouvir esta gravação, algo que vai muito além da perfeição técnica. Sentimos uma entrega e uma honestidade que fazem deste um momento histórico. Existem inúmeros outros exemplos, como a imperfeição técnica de um pianista como Alfred Cortot ou mesmo de Guiomar Novaes. Mas o que um pequeno esbarrão da pianista brasileira pode atrapalhar a sua marcante interpretação do Carnaval de Schumann? O que estragaria a visão de Cortot da obra de Chopin, mesmo que ele às vezes não toca todas as notas? Arrisco dizer que certos artistas excepcionais não fariam sucesso nos dias de hoje caso se apresentassem como faziam em seu tempo. Muito provavelmente um maestro genial como o alemão Wilhelm Furtwängler, falecido em 1954, perderia uma boa parte de sua espiritualidade ao se sentir obrigado a ter uma técnica impecável de regência. Em resumo, não seria um Wilhelm Furtwängler. Os altos padrões técnicos seriam os responsáveis pela estandardização das leituras musicais atuais? Não há dúvida que as personalidades artísticas únicas parecem algo do passado. Quando ouvimos uma mesma Sinfonia de Brahms regida por Toscanini, Klemperer, Bruno Walter ou Mravinsky percebemos uma gritante diferença. Hoje, quando ouvimos as rotineiras leituras de uma mesma Sinfonia de Brahms regida por Lorin Maazel, Zubin Mehta, Andris Nelsons ou Paavo Järvi não sentimos grande diferença. Soa tudo igual.

Maria Callas. Faria carreira nos dias de hoje?

Maria Callas. Faria carreira nos dias de hoje?

Maria Callas e Martha Mödl fariam carreira hoje?

As cantoras líricas Maria Callas e Martha Mödl tiveram o auge de suas carreiras na década de 1950. Ambas, Callas no repertório italiano e Mödl no repertório alemão, estavam longe de serem perfeitas no aspecto técnico. Callas, mesmo no auge, tinha um vibrato enorme e, pelos padrões dos tempos atuais, não tinha uma voz que chamaríamos de “bonita”. Mesmo assim, alguém foi capaz de expressar os sentimentos de Violeta Valery em “La traviata” de Verdi como ela? Alguma cantora, mesmo que tecnicamente perfeita, conseguiu personificar a grandiosidade de “Norma” de Bellini? Comparem a gravação recente de Cecilia Bartolli da obra prima de Bellini com os registros de Callas. Dá até pena. Muito menos conhecida do que Maria Callas, Martha Mödl foi uma grande cantora wagneriana. Quando o maestro Wilhelm Furtwängler a conheceu em 1949 ficou tão maravilhado com seu talento dramático que imediatamente planejou aproveitá-la em diversas ocasiões. São históricas suas gravações regidas pelo maestro alemão do Fidelio de Beethoven e de “A valquíria” de Wagner. Seus registros feitos nos festivais wagnerianos de Bayreuth são maravilhosos, sobretudo o “Parsifal” de 1951, e o “Tristão e Isolda” de 1952. No caso desta última, a regência do jovem Herbert von Karajan, nos mostra o quanto ele era capaz em termos de expressão artística, antes de se afundar numa incessante e vazia busca de perfeição técnica. Voltando a Martha Mödl, ela correria o risco de ser vaiada nos dias de hoje, pela sua voz “entubada”, pelo seu curto fôlego. Mas sua Kundry, no Parsifal, permanece, na minha opinião, uma marcante referência.

A violinista Patricia Kopatchinskaja. Uma verdadeira personalidade musical

A violinista Patricia Kopatchinskaja. Uma verdadeira personalidade musical

Os resistentes: grandes personalidades nos dias de hoje

Apesar da já dita estandardização nos dias atuais é evidente que existem marcantes exceções. Em termos daqueles mais maduros, em termos pianísticos, não podemos deixar de citar a argentina Martha Argerich e o brasileiro Nelson Freire. Um exemplo que me impressiona muito é da violinista nascida na Moldávia Patricia Kopatchinskaja. Dediquei todo um texto aqui no blog sobre suas estonteantes gravações dos concertos de Bartók (o número 2), Ligeti e Péter Eötvös. Em termos de maestros Gustavo Dudamel impressiona por sua fantástica energia. Mas já que falamos de maestros há uma coisa que me perturba. Foi anunciado que o excelente maestro Maris Jansons abandonará a direção artística da Orquestra do Concertgebow de Amsterdã no próximo ano. Eu me pergunto: para esta fantástica orquestra fará grande diferença?

O maestro Georg Szell. Seu trabalho fez da Orquestra de Cleveland uma das melhores do planeta

O maestro Georg Szell. Seu trabalho fez da Orquestra de Cleveland uma das melhores do planeta

Um exemplo bem conhecido que resultou num enorme avanço é o do maestro húngaro Georg Szell, que atuou como diretor musical da Orquestra de Cleveland de 1946 até 1970, fazendo da mesma uma das melhores orquestras do mundo. O que seus sucessores fizeram? No máximo se aproveitaram do altíssimo nível da orquestra, mas nem Lorin Maazel, que foi diretor musical desta orquestra de 1972 até 1982, e o atual diretor musical, Franz Welser-Möst, contribuíram em absolutamente nada para a evolução do conjunto. Pode-se dizer que a mesmice ronda a principal cidade do estado de Ohio, que está perdendo público a cada ano para sua orquestra. O maestro argentino Daniel Barenboim, que realizou um trabalho um tanto quanto impessoal com a Sinfônica de Chicago (foi diretor musical dela de 1991 até 2006) provou que é capaz de realizar um trabalho de grande vulto: transformou a Staatskapelle Berlin em uma das melhores orquestras da Europa desde que começou seu trabalho de diretor musical da mesma em 1992, permanecendo à sua frente até hoje. Sim, há espaço para que uma personalidade musical floresça nos dias de hoje. Mas está desproporcional o número de cantores perfeitos, virtuoses da batuta ou grandes instrumentistas com o número de verdadeiros artistas. Estes realmente se tornaram raros.

Vídeos relacionados ao texto:

Patricia Kopatchinskaja tocando Tzigane de Ravel. Sim, é possível ter uma personalidade musical

Maria Callas. Imperfeita mas genial. Tu che le vanita do Don Carlo de Verdi

Enviado por Osvaldo Colarusso, 19/06/14 2:11:38 PM
O compositor alemão Johann Sebastian Bach

O compositor alemão Johann Sebastian Bach

Os concertos que regerei frente à Camerata Antiqua no próximo fim de semana, tem como um de seus objetivos esclarecer uma questão. Existe um tremendo mal entendido numa crença generalizada de que a obra de Johann Sebastian Bach (1685-1750) foi esquecida por muito tempo, e há mesmo uma história de cunho Hollywoodiano de que o compositor Felix Mendelssohn (1809-1847) teria feito um ato heroico salvando partituras de Bach que estariam prontas para servir de papel de embrulho de um açougueiro. Tudo mentira !!! Mendelssohn realmente regeu uma remontagem da Paixão Segundo São Mateus em 1829, e era realmente um compositor que admirava muito o passado, pelo menos o passado da produção alemã. Mas decididamente não era um costume daquela época (final do século XVIII – início do século XIX) escutar obras compostas algumas décadas antes. Muito mais esquecido do que Bach, compositores como Monteverdi, Gesualdo e mesmo Vivaldi foram “desprezados” por muito mais tempo (a obra de Monteverdi, falecido na primeira metade do século XVII, começou a ser tocada a partir de 1920 por exemplo). O que para nós é absolutamente normal, assistir concertos com obras compostas há três séculos, não se passava no tempo de Mozart. Compositores como Haydn, Beethoven e Chopin conheciam muito bem “O cravo bem temperado” de Bach. Chopin, ao escrever seus 24 prelúdios opus 28, deixou prova evidente disso.

Gottfried van Swieten, o nobre austríaco que apresentou a obra de Bach para Mozart

Gottfried van Swieten, o nobre austríaco que apresentou a obra de Bach para Mozart

Gottfried van Swieten

Foi o nobre austríaco, de origem holandesa, Gottfried van Swieten (1733-1803) que tornou a obra de Bach, e Handel, conhecida de uma seleta audiência em Viena no final do século XVIII. Ele servira como embaixador da Áustria na Prússia, e tinha um faro impressionante de colecionador de partituras. A partir de 1782 Mozart passa a frequentar regularmente o palácio de van Swieten, e segundo uma carta escrita para seu pai, lá se escutava somente obras de Bach, Handel e dos filhos de Bach. Van Swieten possuía cópias da “Oferenda Musical”, da “Arte da Fuga” e de “O cravo bem temperado”. Certamente Mozart ficou maravilhado não só com a arte contrapontística de Bach, mas com sua capacidade de inverter e aumentar ritmicamente os temas das fugas. No ano seguinte destas audições provadas, em 1783, Mozart escreveu a mais bachiana de suas obras: Uma fuga em dó menor para dois pianos. Podemos ali constatar as inversões, as manipulações do Tema, coisas que nos fazem lembrar a “Oferenda Musical” e a “Arte da Fuga”. Cinco anos mais tarde é que Mozart comporá o Adagio para cordas, em estilo de “Abertura Francesa” (ritmos pontuados), e transcrevendo a fuga para cordas, criou o seu genial Prel[udio e Fuga em dó menor para cordas IK 546. Certamente Mozart pensava que tudo não passava de um “exercício de estilo”. Talvez sem saber, ele acabou compondo a melhor fuga de sua autoria. Vale a pena lembrar que o compositor também transpôs para trio de cordas diversas fugas de Bach, e reinstrumentou obras de Handel, a pedido de Gottfried van Swieten, inclusive o oratório “O messias”. Foi van Switen que levou Joseph Haydn a escrever seus dois grandes oratórios, “A criação” e “As estações”, no intuito de fazer renascer o estilo dos oratórios de Handel. De “As estações” foi ele que escreveu o texto.

Villa-Lobos, autor da genial série de Bachianas

Villa-Lobos, autor da genial série de Bachianas


Villa-Lobos e Bach

Mudando do século XVIII para o século XX, temos do início dele até 1920 experimentos bem radicais, por parte de compositores como Stravinsky, Schoenberg e Bartók. Qual não é a surpresa de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), ao chegar em Paris em 1923, e ver que o neoclassicismo, ”back to Bach”, orientava a produção de diversos compositores. Villa-Lobos tinha composto, antes de sua viagem, obras cheias de “ousadias” como seu “Noneto” e “Rudepoema”. Quando volta em caráter definitivo ao Brasil, em 1930, dá início a seu ciclo de Bachianas. Sua ideia era de escrever nove Bachianas, fazendo paralelo às 9 Sinfonias de Beethoven. Villa-Lobos, no período que compôs as Bachianas trabalhou dentro do Estado Novo, e normalmente reunia centenas de vozes em “Concertos Monstros” sob sua regência. Era o período do “Canto orfeônico”. Por isso ele imaginou que a última Bachianas do ciclo seria para uma “Orquestra de vozes”. Para sermos breves, nenhum coro conseguia executar a obra. Por isso posteriormente (um ano depois) fará uma transcrição para orquestra de cordas, versão esta muito mais conhecida. A ideia dele era bem “bachiana”, um Prelúdio e uma fuga como em “O cravo bem temperado”. A versão original para vozes é realmente muito difícil, mas existem belezas perdidas na versão para cordas, especialmente no Prelúdio. Villa-Lobos se superou nesta composição. Escreveu sua mais perfeita fuga, num complicado compasso de 11/8, fazendo usos de escalas que se usam no folclore nordestino. Acho absolutamente fascinante comparar as duas versões. Para encerrar o concerto executaremos de Bach a Cantata 196 (Der Herr denket an uns), obra escrita em 1708. E, em primeira audição, apresentaremos o arranjo que Villa-Lobos fez de Prelúdio e Fuga Nº 8 do Primeiro Volume de “O cravo bem temperado”.

Eu e a Camerata Antiqua

Desde que me transferi para Curitiba, em 1985, eu realizei com a Camerata Antiqua de Curitiba alguns projetos fascinantes. No ano de 1986 fizemos uma série de obras de Monteverdi (Sétimo livro de madrigais) e Gabrielli, inclusive obtendo um enorme sucesso quando este trabalho foi apresentado em São Paulo. Inesquecíveis as lindas execuções que o Coro realizou de obras de Brahms, junto com grandes instrumentistas. Nesta ocasião realizei um sonho: a execução das Quatro Canções para vozes femininas, duas trompas e harpa. Entre os mais de dez projetos que realizamos, destaco também aquele com obras de Schubert no ano passado. Este concerto marcou a minha volta a reger em Curitiba depois de dez anos. O “Canto dos espíritos sobre as águas”, para vozes masculinas e cordas foi mais uma vez uma realização sonhada há muito tempo. Outro sonho que realizarei neste fim de semana: executar no mesmo programa as duas versões da Bachianas 9 de Villa-Lobos. E ao realizar mais este trabalho encontro o grupo numa situação funcionalmente bem complicada. Uma boa parte dos membros da Camerata Antiqua são de “contratados”. Uma minoria são “estatutários”. O problema é que os “contratados” chegam a ganhar metade do que os “estatutários”, exercendo o mesmo tipo de atividade. Pude perceber que isto não atrapalha nada o altíssimo nível do trabalho, mas que há algo tremendamente injusto, isto não há dúvida. Os concertos acontecerão na Capela Santa Maria dias 21 e 22 de junho, sempre às 18:30.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 11/06/14 8:55:26 AM
Richard Strauss e os músicos da Filarmônica de Viena na porta do Theatro Municipal do Rio

Richard Strauss e os músicos da Filarmônica de Viena na porta do Theatro Municipal do Rio

Hoje é exatamente o dia em que se comemora os 150 anos do nascimento do compositor alemão Richard Strauss. Fiz uma extensa pesquisa para escrever o artigo que foi publicado no Caderno G no último sábado. Aliás gostaria de agradecer à editoria do Caderno G por ter reservado um espaço considerável (três páginas) para a publicação do artigo que assinei. Para ler os artigos consulte neste link a primeira parte e neste link a segunda parte. Nesta pesquisa que fiz me deparei com a visita de Richard Strauss ao Brasil, nos anos de 1920 e 1923, e encontrei fontes confiáveis onde detalham com certa precisão os 19 programas que Richard Strauss regeu no Brasil. Fico surpreso, e ao mesmo tempo entristecido, ao constatar que o Rio de Janeiro, que no início da década de 20 tinha uma população de 1.200.000 habitantes e que hoje tem mais de 6.500.000, abrigava temporadas de concertos tão extensas, com um repertório tão interessante.
A primeira vez que Richard Strauss esteve no Rio de Janeiro foi em 1920, à frente de uma orquestra formada por experientes músicos europeus que executavam por alguns meses as óperas, os ballets e os concertos levados no Theatro Municipal daquela cidade. Naquela época o Theatro Municipal não possuia uma orquestra própria. Pelo repertório creio que deveriam ser músicos excelentes. Richard Strauss em 1920 era um dos mais conhecidos compositores e ao mesmo tempo um aclamado maestro. Na época tinha se afastado da direção da Ópera de Viena, mas mantinha um vínculo muito forte com a capital austríaca.
Nos seis programas regidos em 1920 me surpreendo por ver um número considerável de autores brasileiros, e ver que o grande compositor alemão executou obras de Debussy e de Stravinsky. Vale a pena citar uma carta que Strauss enviou ao grande escritor que era seu libretista favorito, Hugo Von Hoffmanstahl, contando as confusões e indisciplina do Theatro Municipal. Vale a pena citar que no dia 2 de outubro, um dia antes do último concerto que Richard Strauss regeu no Rio, ele assistiu, horrorizado, uma récita de sua ópera O Cavaleiro da Rosa.

Programas de 1920

14 de setembro – Beethoven – Sinfonia Nº 3
Richard Strauss – Don Juan
Richard Wagner – Abertura de “Os mestres cantores”

16 de setembro – Schubert- Sinfonia Inacabada
Weber – Abertura de “Oberon”
Debussy – Dois Noturnos: Nuages – Fetes
Richard Strauss – Morte e transfiguração

20 de setembro – Beethoven – Sinfonia N° 5
Richard Strauss – Till Eulenspiegel
Richard Wagner – Prelúdio do I ato de Lohengrin
Richard Wagner – Abertura da ópera Tannhäuser

23 de setembro – Beethoven – Abertura Leonore Nº 3
Alberto Nepomuceno – Prelúdio de “O Garatuja”
Beethoven – Excertos de “Ruínas de Atenas”
Richard Strauss- Don Juan
Dança dos sete véus da ópera Salomé
Morte e transfiguração

28 de setembro – Beethoven- Sinfonia Nº 5
Richard Strauss – Till Eulenspiegel
Dança dos sete véus da ópera Salomé
Richard Wagner – Abertura da ópera Tannhäuser

3 de outubro – Francisco Braga – Marabá
Henrique Oswald – Feullies d’autone
Richard Strauss – Don Juan
Till Eulenspiegel
Morte e transfiguração

A segunda temporada brasileira de Richard Strauss

Em 1923 Richard Strauss voltou ao Brasil como maestro da Orquestra Filarmônica de Viena. Esta orquestra, a melhor do mundo naquela época, já tinha vindo ao Brasil em 1922, tendo como regente Felix Weingartner. Foi um presente do governo austríaco pelo centenário da nossa independência. Em 1922 a Filarmônica de Viena e os solistas da Ópera de Viena executaram em São Paulo e no Rio de Janeiro o ciclo de quatro óperas de Wagner O Anel do Nibelungo. Em 1923 a orquestra retorna ao Brasil tendo Richard Strauss como maestro, executando 13 concertos. Muitas obras importantes foram executadas em primeira audição no Brasil: a Sinfonia Nº 1 de Mahler (creio que foi a primeira música de Mahler ouvida aqui), as Sinfonias Alpina e Doméstica, Assim falou Zarathustra, Vida de Herói e outras tantas obras de Richard Strauss.

Programas de 1923

14 de julho – Weber – Abertura da ópera Euryanthe
Beethoven – Sinfonia Nº 7
Richard Strauss – Burlesca para piano e orquestra (solista: Alfred Blumen)
Vida de herói

15 de julho – Berlioz – Abertura da ópera Benvenuto Cellini
Richard Strauss – Assim falou Zarathustra
Richard Wagner: Abertura da ópera “O navio Fantasma”
Idílio de Siegfried
Abertura da ópera Tannhaeuser

16 de julho – Beethoven – Sinfonia Nº 6
Richard Strauss – Don Juan
Richard Wagner – Marcha fúnebre da ópera “O crepúsculo dos deuses”
Prelúdio e Morte de amor da ópera “Tristão e Isolda”

17 de julho – Schumann – Abertura Manfredo
Mahler – Sinfonia Nº 1
Mendelssohn – Abertura “A gruta de Fingal”
Beethoven – Sinfonia N° 5

18 de julho – Mendelssohn- Abertura de “Sonho de uma noite de verão”
Beethoven – Abertura Leonore Nº 3
Richard Strauss – Till Eulenspiegel
Shillings – Prelúdio da ópera Ingwielde
Richard Wagner – Marcha fúnebre da ópera “O crepúsculo dos deuses”
Prelúdio da ópera “Os mestres cantores”
19 de julho – Smetana – Abertura da ópera “A noiva vendida”
Mignone – Dança e Minueto
Brahms – Sinfonia Nº 4
Richard Strauss – Assim falou Zarathustra
Richard Wagner – Prelúdio da ópera “Os mestres cantores”

20 de julho – Richard Strauss – Vida de herói
Stravinsky – Fogos de artifício
Richard Wagner – Idílio de Siegfried
Viagem de Siegfried pelo reno da ópera “O crepúsculo dos deuses”
Beethoven – Sinfonia Nº 5

21 de julho – Richard Strauss – Impressões da Itália
Chabrier – España
Richard Strauss – Till Eulenspiegel
Richard Wagner – Abertura Fausto
Prelúdio e Morte de amor da ópera “Tristão e Isolda”
Abertura da ópera Tannhäuser

22 de julho – Richard Strauss – Don Juan
Dança dos sete véus da ópera “Salomé”
Morte e Transfiguração
Richard Wagner – Abertura e bacanal da ópera Tannhaeuser
Abertura da ópera Rienzi
Prelúdio e Música da sexta-feira santa da ópera Parsifal

23 de julho – Liszt – Tasso
Richard Wagner – Abertura da ópera “O navio fantasma”
Abertura da ópera Rienzi
Prelúdio e Morte de amor da ópera “Tristão e Isolda”
Richard Strauss – Sinfonia Doméstica

24 de julho – Beethoven – Sinfonia Nº 4
Richard Strauss – Dança dos sete véus da ópera “Salomé”
Morte e Transfiguração
Richard Wagner – Abertura da ópera “O navio fantasma”
Prelúdio do I ato de Lohengrin
Abertura da ópera Rienzi
25 de julho – Korngold – Muito barulho por nada – Abertura
Beethoven – Concerto para piano e orquestra Nº 4 (solista: Alfred Blumen)
Richard Strauss – Don Quixote
Morte e Transfiguração

26 de julho – Weber – Abertura da opera “Der Freischuetz”
Beethoven – Concerto para piano e orquestra Nº 4 (solista: Alfred Blumen)
Richard Strauss – Don Quixote
Morte e Transfiguração
Richard Wagner – Marcha fúnebre da ópera “O crepúsculo dos deuses”
Prelúdio da ópera “Os mestres cantores”
Richard Strauss – Sinfonia Alpina
Dança dos sete véus da ópera “Salomé”
Till Eulenspiegel

Enviado por Osvaldo Colarusso, 10/06/14 9:55:54 AM
Pedreira Paulo Leminsky, um dos locais do FIFA FAN FEST de Curitiba

Pedreira Paulo Leminsky, um dos locais do FIFA FAN FEST de Curitiba

Ontem e hoje recebi duas respostas da Fundação Cultural de Curitiba. Ficaram esclarecidas de onde sairá o recurso para o FIFA FAN FEST (recurso este que é monstruosamente maior do que os corpos estáveis do governo e da prefeitura recebem), e ficou bem claro que nenhum grupo de música clássica foi incluído nesta programação. A pessoa que escreveu as respostas não assinou, mas demonstra uma enorme ignorância ao me tratar como “blogueiro”, sendo que qualquer pessoa com um mínimo de informações culturais pode localizar meus telefones e meu email. Eis aqui as duas respostas recebidas:

Reposta recebida ontem (09 de junho):

Sobre o post “Os gastos da Fundação Cultural de Curitiba com a COPA” publicado no blog “Falando de Música” no site da Gazeta do Povo a Fundação Cultural de Curitiba (FCC) esclarece:

A determinação para que a FCC executasse o projeto veio da Prefeitura Municipal. O valor para realização da FIFA Fan Fest foi adicionado ao Orçamento Anual da Fundação Cultural de Curitiba (consta como EXECUÇÃO DE AÇÕES PARA PREPARAÇÃO, ORGANIZAÇÃO E REALIZAÇÃO DA COPA DO MUNDO 2014 – FCC) com a classificação orçamentária número 28001.13391.0006.2098. Caso a FCC não fosse a executora do projeto os recursos seriam destinados para outra secretaria. Essa informação sempre foi pública (está descrita no orçamento anual do município). O valor foi discutido e aprovado pela Câmara Municipal durante a votação da Lei Orçamentária Anual, em 2013.

O montante original era maior. Sofreu significativa redução de despesas já na realização do plano executivo (era de R$ 6.772.000). A realização da FIFA Fan Fest foi estabelecida entre a FIFA e o Comitê Organizador Local (COL) quando da escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo da FIFA, em 2007. Na ocasião acordaram, em contrato, que as Fan Fests seriam realizadas, financiadas e organizadas conjuntamente pela FIFA, COL (através de cada uma das sedes) e TV Globo. Os elementos deste acordo foram definidos nos Acordos de Sede, assinados pela FIFA, o COL e as 12 Sedes – Curitiba assinou em 2009.

A execução e a implantação do evento são regidas pelas Diretrizes de Evento da Sede, através do Manual de Evento, que lista todos os detalhes, requisitos, condições operacionais e os parâmetros a serem seguidos para realizar uma FIFA Fan Fest. A Fan Fest Curitiba é organizada em conjunto pela Prefeitura (que designou a Fundação Cultural de Curitiba como executora do projeto), a FIFA e a TV Globo, através da RPCTV. Nessa cooperação, cada uma das partes assumiu determinadas responsabilidades relacionadas à organização do evento: A Fan Fest de Curitiba acontecerá na Pedreira Paulo Leminski durante a Copa do Mundo entre os dias 12 de junho e 13 de junho e está entra as Fan Fests com menor custo entre todas as sedes.

O processo licitatório para definição da empresa que será responsável pela montagem e operação do evento foi aberto com valor inicial de R$ 4.790.000 através de pregão presencial em sessão pública e contou com a participação de 12 empresas que apresentaram propostas. Foi vencido pelo valor de R$3.570.000. Falando de música, a FCC lembra que a FIFA Fan Fest de Curitiba terá a participação de 70 artistas locais entre atrações musicais, teatrais, circenses, de grafiti e folclóricas. É a sede com maior número de artistas locais.

O evento será gratuito e funcionará durante os dias em que houver jogos da competição (todos os jogos serão transmitidos em um telão). A Fan Fest traz ainda uma maratona de entretenimento, planejada para fazer com que a população participe e se integre à festa do futebol, mesmo sem ir aos estádios. Além dos artistas de Curitiba, haverá shows de Dudu Nobre (12/06), Jota Quest (23/06), Erasmo Carlos (05/07) e Raça Negra (13/07).

Resposta recebida hoje (10/06)

Com relação ao post “O duvidoso gosto dos eventos ‘artísticos’ da Copa”, publicado no blog “Falando de Música” da Gazeta do Povo, a Fundação Cultural de Curitiba esclarece:

Foi enviada resposta para a chefia de redação da Gazeta do Povo no dia 03 de junho, pois o referido blog não informa e-mail de contato. Ressaltamos que em momento algum o blogueiro procurou a FCC solicitando esclarecimentos ou pedindo informações, procedimento básico e responsável para quem pretende manter coluna, blog ou outro tipo de espaço em qualquer veículo de comunicação.

Como na resposta enviada anteriormente, lembramos que a determinação para que a FCC executasse o projeto da FIFA Fan Fest veio da Prefeitura Municipal. O valor para realização do evento foi adicionado ao Orçamento Anual da Fundação Cultural de Curitiba (consta como EXECUÇÃO DE AÇÕES PARA PREPARAÇÃO, ORGANIZAÇÃO E REALIZAÇÃO DA COPA DO MUNDO 2014 – FCC) com a classificação orçamentária número 28001.13391.0006.2098. Nenhuma das atividades realizadas pela FCC teve seus recursos comprometidos.

Caso a FCC não fosse a executora do projeto os recursos seriam destinados para outra secretaria. Essa informação sempre foi pública (está descrita no orçamento anual do município). O valor foi discutido e aprovado pela Câmara Municipal durante a votação da Lei Orçamentária Anual, em 2013. O montante original era maior. Sofreu significativa redução de despesas já na realização do plano executivo (era de R$ 6.772.000).

A realização da FIFA Fan Fest foi estabelecida entre a FIFA e o Comitê Organizador Local (COL) quando da escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo da FIFA, em 2007. Na ocasião acordaram, em contrato, que as Fan Fests seriam realizadas, financiadas e organizadas conjuntamente pela FIFA, COL (através de cada uma das sedes) e TV Globo.

A Fan Fest de Curitiba está entra as Fan Fests com menor custo entre todas as sedes. O processo licitatório para definição da empresa que será responsável pela montagem e operação do evento foi aberto com valor inicial de R$ 4.790.000 através de pregão presencial em sessão pública e contou com a participação de 12 empresas que apresentaram propostas. Foi vencido pelo valor de R$3.570.000.

Sobre as atrações artísticas – Falando de música, a FCC lembra que a FIFA Fan Fest de Curitiba terá a participação de 70 artistas locais. Curitiba é a sede com maior número de artistas da cidade. O evento será gratuito e funcionará durante os dias em que houver jogos da competição. Entre algumas das atrações estão a Orquestra À Base de Sopro de Curitiba, Relespública, Escola de Samba Acadêmicos da Realeza, Curitiba Comedy Club, grupo folclórico Einigkeit Tanzgruppe, Grupo de Teatro Lala Schneider, Grupo Molungo, Banda Gentileza, Milagrosos Decompositores, Ana Larousse e Leo Fressato, Grupo de Humor Tesão Piá, grupo de fandango Meu Paraná. Ainda esclarecemos que toda a gestão da programação da Fan Fest ficou a cargo Globo, assim como o pagamento dos cachês de todos os artistas que se apresentarão na Fan Fest.

A Direção de Comunicação da FCC agradece a publicação da resposta e lembra que está sempre disponível para fornecer informações e esclarecimentos sobre qualquer tema pertinente que o blogueiro tenha dúvidas ou dificuldade em encontrar no nosso site, Diário Oficial do Município, entre outros canais públicos de informação.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 09/06/14 10:48:17 AM
O rapper Pitbull, programado para a abertura da Copa do Mundo.

O rapper Pitbull, programado para a abertura da Copa do Mundo.

No texto que postei há uma semana lancei a pergunta: quem pagará os R$ 3.600.000 reais para a realização do Fifa Fan Fest em Curitiba para custear os quatro shows programados na Pedreira Paulo Leminsky? Aliás os shows são os seguintes: Dudu Nobre (12 de junho), Jota Quest (23 de junho), Erasmo Carlos (4 de julho) e Raça Negra (13 de julho). Recebi a resposta pelo próprio silêncio.Como o texto teve milhares de acessos, isto é, milhares de pessoas leram, tenho certeza de que aqueles que poderiam responder não o fizeram pela simples razão que a resposta deve ser a pior de todas: quem pagará será o dinheiro público. Sim, numa cidade onde nem o dinheiro somado dos corpos estáveis governamentais (Orquestra Sinfônica do Paraná e Camerata Antíqua de Curitiba), ou da Capela Santa Maria e o Teatro Guaíra, chegam a esta quantia, será gasto com artistas que decididamente não carecem do dinheiro público para se apresentarem. Desculpem – me os fãs, mas as quatro atrações principais deste Fifa Fan Fest não tem nada de cultural. São entretenimento. O dinheiro deveria sair de uma Secretaria de turismo ou coisa parecida. Por isso acho bem discutível a Fundação Cultural destinar uma verba deste tamanho para algo que não tem nada de cultural. Quem decidiu isso? Quem foi o diretor artístico deste evento? Mais perguntas que não serão respondidas, creio eu.

Milhares de pessoas assistindo José Carreras em 1993, na Pedreira Paulo Leminsky. Outros tempos.

Milhares de pessoas assistindo José Carreras em 1993, na Pedreira Paulo Leminsky. Outros tempos.

Outros tempos

No dia 4 de abril de 1993, na festa dos 300 anos da fundação Curitiba, na mesma Pedreira Paulo Leminsky, acontecia um concerto com o famoso tenor José Carreras e a Orquestra Sinfônica Brasileira. Na época houve alguém (creio que o ex prefeito Rafael Greca) que imaginou algo de cunho realmente cultural para reunir milhares de pessoas naquela festa da cidade. Muita gente ali reunida ouviu pela primeira vez uma orquestra sinfônica, e sem dúvida, uma enorme parte do repertório ali apresentado. O dinheiro público cumpriu sua função. Neste evento da Copa do Mundo o dinheiro, com eficiência, poderia ser obtido de patrocinadores. Ao que parece foi mais fácil obter a verba da forma mais costumeira: dos nossos bolsos.

O barítono brasileiro Paulo Szot. Na lista dos "faltosos" segundo o site americano

O barítono brasileiro Paulo Szot. Na lista dos “faltosos” segundo o site americano

Um interessante texto americano: “Cinco músicos brasileiros que deveriam estar na cerimônia de abertura da Copa do Mundo”

A rádio nova iorquina WQXR tem um site bem acessado e nele apareceu um texto bem interessante no último dia 5, assinado pela excelente jornalista Amanda Angel. O título do artigo em inglês é “Five Brazilian Music Figures Missing from the World Cup Opening Ceremony” (Cinco músicos brasileiros que deveriam estar na cerimônia de abertura da Copa do Mundo) e você pode lê-lo aqui. Ela estranha que a cerimônia de abertura da Copa do Mundo em São Paulo não inclua músicos brasileiros de fama mundial. Eu pessoalmente concordo com sua lista apenas em parte. A lista feita pela jornalista é a seguinte: Heitor Villa-Lobos, Carlos Gomes, Nelson Freire, Paulo Szot e Guiomar Novaes. Creio que muita gente nem sabe quem é Paulo Szot (e nem Carlos Gomes), mas ele é um renomado barítono brasileiro que tem cantado papéis importantes no Metropolitan Opera e como estrela de musicais da Broadway ganhou o prêmio Tony do ano passado. Eu incluiria nesta lista Antonio Carlos Jobim, e não vejo sentido em incluir nela a grande pianista Guiomar Novaes,falecida a muito tempo, mas creio que uma orquestra sinfônica tocando o Trenzinho do Caipira do Villa-Lobos não seria uma má ideia, e por que não Nelson Freire, o músico brasileiro de música clássica mais conhecido do mundo, tocar algo de algum mestre brasileiro. A OSESP, por ser obra do PSDB, não é bem-vinda numa copa com cara de PT? As aberturas de jogos olímpicos na Rússia e na China, exibiram músicos clássicos, como o pianista Lang Lang e a cantora lírica Anna Netrebko. Por aqui teremos apenas um “lado da moeda”: O rapper Pitbull, Claudia Leite e a banda Olodum. Certamente ganhando caches astronômicos. Entre as disputas pelo Terceiro Lugar e a grande final da Copa, no dia 11 de julho acontecerá um mega concerto no Rio de Janeiro com Placido Domingo, Lang Lang, e a Orquestra Sinfônica Brasileira. Com ingressos a preços escorchantes, num teatro ligado a um grande banco (HSBC), nenhum músico da lista de Amanda Angel se apresentará. O músico brasileiro de qualidade ligado à música clássica vai, mais uma vez, ficar fora do grande evento. Há, no entanto uma exceção: a Medici TV, uma TV mundial que pode ser acessada no computador (a pagamento, lógico), se inserindo na Copa do Mundo, transmitirá ao vivo, no dia 6 de julho, a Nona Sinfonia de Beethoven com a OSESP. Boa oportunidade para quem ainda não conhece Paulo Szot. Ele será um dos solistas do concerto.

Resposta da Fundação de Curitiba, em relação às questões lançadas neste post e no da semana passada:

Sobre o post “Os gastos da Fundação Cultural de Curitiba com a COPA” publicado no blog “Falando de Música” no site da Gazeta do Povo a Fundação Cultural de Curitiba (FCC) esclarece:

A determinação para que a FCC executasse o projeto veio da Prefeitura Municipal. O valor para realização da FIFA Fan Fest foi adicionado ao Orçamento Anual da Fundação Cultural de Curitiba (consta como EXECUÇÃO DE AÇÕES PARA PREPARAÇÃO, ORGANIZAÇÃO E REALIZAÇÃO DA COPA DO MUNDO 2014 – FCC) com a classificação orçamentária número 28001.13391.0006.2098. Caso a FCC não fosse a executora do projeto os recursos seriam destinados para outra secretaria. Essa informação sempre foi pública (está descrita no orçamento anual do município). O valor foi discutido e aprovado pela Câmara Municipal durante a votação da Lei Orçamentária Anual, em 2013.

O montante original era maior. Sofreu significativa redução de despesas já na realização do plano executivo (era de R$ 6.772.000). A realização da FIFA Fan Fest foi estabelecida entre a FIFA e o Comitê Organizador Local (COL) quando da escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo da FIFA, em 2007. Na ocasião acordaram, em contrato, que as Fan Fests seriam realizadas, financiadas e organizadas conjuntamente pela FIFA, COL (através de cada uma das sedes) e TV Globo. Os elementos deste acordo foram definidos nos Acordos de Sede, assinados pela FIFA, o COL e as 12 Sedes – Curitiba assinou em 2009.

A execução e a implantação do evento são regidas pelas Diretrizes de Evento da Sede, através do Manual de Evento, que lista todos os detalhes, requisitos, condições operacionais e os parâmetros a serem seguidos para realizar uma FIFA Fan Fest. A Fan Fest Curitiba é organizada em conjunto pela Prefeitura (que designou a Fundação Cultural de Curitiba como executora do projeto), a FIFA e a TV Globo, através da RPCTV. Nessa cooperação, cada uma das partes assumiu determinadas responsabilidades relacionadas à organização do evento: A Fan Fest de Curitiba acontecerá na Pedreira Paulo Leminski durante a Copa do Mundo entre os dias 12 de junho e 13 de junho e está entra as Fan Fests com menor custo entre todas as sedes.

O processo licitatório para definição da empresa que será responsável pela montagem e operação do evento foi aberto com valor inicial de R$ 4.790.000 através de pregão presencial em sessão pública e contou com a participação de 12 empresas que apresentaram propostas. Foi vencido pelo valor de R$3.570.000. Falando de música, a FCC lembra que a FIFA Fan Fest de Curitiba terá a participação de 70 artistas locais entre atrações musicais, teatrais, circenses, de grafiti e folclóricas. É a sede com maior número de artistas locais.

O evento será gratuito e funcionará durante os dias em que houver jogos da competição (todos os jogos serão transmitidos em um telão). A Fan Fest traz ainda uma maratona de entretenimento, planejada para fazer com que a população participe e se integre à festa do futebol, mesmo sem ir aos estádios. Além dos artistas de Curitiba, haverá shows de Dudu Nobre (12/06), Jota Quest (23/06), Erasmo Carlos (05/07) e Raça Negra (13/07).

Enviado por Osvaldo Colarusso, 01/06/14 10:13:45 AM
Pedreira Paulo Leminsky. Local do Fan Fest da Fifa custeado pela Fundação Cultural de Curitiba

Pedreira Paulo Leminsky. Local do Fan Fest da Fifa custeado pela Fundação Cultural de Curitiba

Como maestro, que rejo eventualmente a Camerata Antiqua de Curitiba (regerei um programa com obras de Mozart, Villa-Lobos e Bach nos próximos dias 21 e 22) sei das inúmeras dificuldades financeiras alegadas pela Fundação Cultural de Curitiba. Qual não foi minha surpresa ao ver no site da mesma Fundação uma licitação pública para a realização de um evento chamado “Fifa Fan Fest”, um evento que a FIFA obriga a realização ligado aos quatro jogos da Copa do Mundo que serão realizados aqui em Curitiba (Pedreira Paulo Leminsky). Sigo atentamente todos os passos desta licitação e vejo que a vencedora, que apresentou a proposta mais barata foi a CWB Brasil Prime Cornelsen (pesquisei na internet e não encontrei nada a respeito desta empresa). Pois bem, a proposta vencedora apresentou para a Fundação Cultural de Curitiba, aquela entidade tão carente de verbas, um orçamento de R$ 3.600.000,00 (três milhões e seiscentos mil reais). Lembro que há uma semana houve todo um aparato de fotógrafos e imprensa quando a Renault anunciou que vai custear uma primeira fase da reforma do Teatro Guaíra, com custo total de R$ 2.800.000,00. São tantos absurdos nestes dois dados. Uma montadora automobilística associa seu nome, dando-lhe um prestígio incalculável, com uma quantia absolutamente irrisória, e ao mesmo tempo a prefeitura de Curitiba vai desembolsar R$ 3.600.000,00 para algo que de Cultural não tem nada. Minhas perguntas são:
1. Este dinheiro, muito maior do que os orçamentos anuais da Camerata, da Capela Santa Maria e do Teatro Guaíra serão pagos por quem??? Por patrocinadores, ou pelo poder público?
2. Por que esta licitação foi feita tão em cima da hora?

Creio que o mais importante é esclarecer de onde sairá este dinheiro. Não tinha ideia de que a Copa também seria fonte de algo questionável na área cultural, uma área tão “miserável” por aqui. Se quiserem ler os meandros desta licitação consultem o link: e cliquem em Edital 30/2014, e leiam, como eu, o passo a passo do mesmo. Não tem como ficar quieto….

Enviado por Osvaldo Colarusso, 22/05/14 9:14:01 AM
O filósofo Theodor Adorno

O filósofo Theodor Adorno

Theodor Adorno (1903-1969) foi um dos mais importantes filósofos do século XX. Nascido em Frankfurt em 1903 demonstrou desde cedo paixão por duas áreas: a filosofia e a música. Em termos filosóficos sua colaboração permanece ainda como algo de uma enorme importância até os dias de hoje. Junto com outros pensadores como Max Horkheimer, Walter Benjamin e Herbert Marcuse formou o que se chama de “Escola de Frankfurt”, cujo pensamento, altamente complexo, deriva da dialética de Georg Hegel, filósofo alemão que nasceu no século XVIII, e que foi incensado pelos pensadores marxistas no século XX. No aspecto musical Theodor Adorno, nascido num ambiente altamente favorável a seu desenvolvimento musical (sua mãe era uma cantora lírica profissional), estudou composição musical com grandes nomes, dos quais se destaca o compositor austríaco Alban Berg (1885-1935), compositor das óperas Wozzeck e Lulu. Sua afinidade com o pensamento musical da segunda escola de Viena (Arnold Schoenberg, Alban Berg e Anton Webern) o levou a trilhar os caminhos do atonalismo e mesmo do serialismo vienense.

Alban Berg  e Arnold Schoenberg: os ídolos de Adorno

Alban Berg e Arnold Schoenberg: os ídolos de Adorno

Um filósofo compositor

Dono de uma formação musical de altíssimo nível escreveu diversas composições, entre as quais se destacam suas obras para quarteto de cordas e para piano. Se compôs sempre de forma esmerada em termos técnicos, a originalidade de suas obras fica bem abaixo do esperado. Sua “Klavierstück” (Peça para piano) de 1921, por exemplo, é uma notória cópia das magníficas “Três peças para piano” opus 11 de Arnold Schoenberg e suas “Três peças para piano” compostas a partir de 1934 são um flagrante plágio das “6 pequenas peças para piano” opus 19 também de Schoenberg. Suas obras para Quarteto de cordas, impecavelmente escritas para esta difícil formação, não contribuem muito para o enriquecimento do repertório camerístico. A imitação de seu mestre, Alban Berg, fica flagrante em obras como suas “Duas peças para quarteto de cordas” de 1925.
Se suas composições, volto a dizer, são impecáveis do ponto de vista técnico, mas pobres de originalidade, os textos filosóficos que escreveu sobre música são, até hoje, referências extremamente importantes. Seu texto “filosófico – musical” mais conhecido em nosso país é “Filosofia da nova música”, lançada no Brasil pela Editora Perspectiva, na tradução razoável de Magda França. Livro de leitura complexa, tem uma introdução brilhante, que é seguida por uma longa confrontação entre a maneira de compor de Arnold Schoenberg (1874-1951) (o capítulo que ele batiza como “Schoenberg e o progresso”) e de Igor Stravinsky (1882-1971) (“Stravinsky e a restauração”). Sua identificação com o compositor austríaco faz com o que o capítulo dedicado a ele seja bem maior do que o capítulo dedicado ao compositor russo, e nos textos fica clara a sua preferência.

O compositor russo Igor Stravinsky: alvo de críticas ferozes de Adorno

O compositor russo Igor Stravinsky: alvo de críticas ferozes de Adorno

A rejeição ao Jazz e a Stravinsky

Adorno, que era um severo crítico do Jazz (ele abominava qualquer fenômeno musical americano) e da música popular, acaba esbarrando em uma dicotomia que está, no mínimo, envelhecida. Primeiro de tudo, dividir o mundo da composição musical da primeira metade do século XX em apenas dois nomes, é de uma pobreza lamentável. Se bem que ele estende o setor musical de Schoenberg a seus discípulos (Berg e Webern), esta “Filosofia da nova música” exclui uma parcela enorme e importante da riquíssima produção musical de seu tempo. Se o mundo da composição musical se resume apenas à maneira de pensar de Schoenberg e Stravinsky, como se explica então compositores tão importantes e totalmente independentes destes dois músicos como o francês Edgar Varèse e o tcheco Leoš Janáček. Nesta envelhecida e pobre discussão entre Schoenberg e Stravinsky fica de fora um gênio de primeira grandeza como o húngaro Bela Bartók, e, no preconceituoso pensamento do filósofo alemão, ficam de fora também uma lista enorme de gênios como Manuel de Falla, Benjamin Britten, Sergei Prokofiev, Jean Sibelius e tantos outros.As opiniões de Adorno se afinam à maneira de pensar do compositor Anton Webern, discípulo de Schoenberg, e muito admirado (e imitado) pelo filósofo alemão. Webern em seu livro “O caminho para a música nova”, bem traduzido para o português por Carlos Kater (Editora Novas Metas, esgotado), compilação de diversas palestras que o compositor fez no início da década de 1930, percebemos a enorme pretensão do grande músico em pensar que a forma de conceber música da sua “escola” (Schoenberg e Berg incluídos) é a única. Se Adorno não foi um compositor brilhante, Webern, apesar de sua belíssima produção musical, é um pensador que esbarra na mediocridade. Mas há algo que os une: Adorno e Webern pensam mesmo em um mundo irreal onde a música e a arte devem uniformemente serem concebidas. Quem não compactuar com eles será desprezado. Para percebermos a origem desta forma de pensar existe uma carta datada de 1914 de Arnold Schoenberg para Alma Mahler (viúva do grande compositor) na qual ele declara que nada composto fora da produção alemã – austríaca é relevante e chega a considerar a música francesa e italiana de “segunda classe”. Esta maneira antipática dos compositores da assim chamada “Segunda escola de Viena” pensarem, contribuiu bastante para que muita gente achasse sua música pouco “amigável”.
Diversas obras de Arnold Schoenberg, de Anton Webern e de Alban Berg são verdadeiras obras primas. Mas não são as únicas de seu tempo. Os textos sobre música de Theodor Adorno são importantes, mas envelheceram, e merecem ser lidos mais por sua impecável metodologia do que pela discussão em si. Seu livro “Quasi Una Fantasia: Essays on Modern Music”, que denigre a criação de Igor Stravinsky, (que só conheço na versão em inglês), é indigno do grande pensador que foi. Como existe uma ignorância generalizada em termos musicais no ambiente intelectual brasileiro (vide os artigos que saíram em revistas ditas “especializadas”, e uma falta de interesse no assunto entre os músicos, a lógica do que estou tentando dizer neste texto talvez passe batida tanto num meio quanto no outro. Mas se posso resumir o que tentei explicitar digo que Adorno, em termos musicais, se equivocou. Prova maior disso é que pouco tempo depois da publicação de “A filosofia da nova música”, em 1949, Stravinsky passou a compor seguindo os moldes de Schoenberg. Reafirmo que Adorno é um gigante do pensamento filosófico. Livros como Minima Moralia (1945) e Dialética do Esclarecimento (1947) são absolutamente fundamentais. É no seu pensamento musical que sinto algo restritivo e ultrapassado que realmente não pactuo.

Obras de Theodor Adorno

Sua “Peça para piano” de 1921. Cópia das Peças opus 11 de Schoenberg

Suas duas “Peças para quarteto de cordas” , completadas em 1925. Ecos frequentes da música de Alban Berg

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