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Falando de Música

Enviado por Osvaldo Colarusso, 28/08/15 9:47:23 AM
O tenor Jonas Kaufmann

O tenor Jonas Kaufmann

O tenor alemão Jonas Kaufmann é sinônimo de sucesso. Aos 46 anos a qualidade de sua voz continua fascinando as maiores cenas líricas e as mais importantes salas de concerto do mundo. Artista ideal, inclusive no quesito aparência, acabou se tornando o protagonista de uma das maiores “baixarias” da história do mercado fonográfico.Explico: desde o início do ano vinha sendo anunciado um novo álbum em que o tenor alemão apresenta diversos momentos de óperas de Giacomo Puccini. O nome do CD é “Nessun Dorma – The Puccini Album”, referência à famosa ária da ópera Turandot. Este CD foi gravado pela Sony junto à Orquestra e Coro da Accademia Nazionale di Santa Cecilia de Roma regida por Antonio Pappano e seu lançamento está previsto para 11 de setembro. O antigo selo do tenor, DECCA, resolveu lançar no mês passado um álbum com o título “The Age of Puccini: Jonas Kaufmann” com gravações que o tenor realizou em 2007 e 2010. Esta “era de Puccini” do título do CD enganou muita gente, já que as pessoas compraram sem pestanejar a pretensa novidade pensando que estavam adquirindo gravações inéditas do cantor, e descobriram que de Puccini só constam três árias, sendo que o resto são aqueles chorosos momentos de óperas veristas de Mascagni, Cilea, Giordano e outros compositores menores em gravações antigas. O próprio tenor, irritadíssimo com o fato, publicou em sua conta no Twitter e em sua página no Facebook a “enganação” que estava sendo feita e que ele próprio foi pego de surpresa, e advertiu os seus fãs para não adquirirem este CD. O selo DECCA, segundo ele, criou este álbum por conta própria, com o claro objetivo de atrapalhar as vendas de seu concorrente.

O álbum recém gravado e a enganação do selo DECCA

O álbum recém gravado e a enganação do selo DECCA

Os novos tempos de Kaufmann: lucro e repertório previsível

Jonas Kaufmann está no auge de sua forma vocal, mas algo mudou muito no cantor. Ao se tornar um superstar deixou para trás um repertório mais rebuscado e que é com certeza menos lucrativo. Junto ao falecido maestro italiano Claudio Abbado, o cantor executou a mais difícil obra de concerto do romantismo alemão para tenor e orquestra: “Rinaldo” de Brahms. Também junto a Abbado (e junto a Anne Sophie von Otter) pôs sua bela voz a serviço de “A Canção da terra” de Mahler. Junto ao excelente pianista Helmut Deutsch apresentou e gravou um magnífico recital de canções de Richard Strauss e dois ciclos de canções de Schubert: “A bela moleira” e “Viagem de inverno”. Mas estas sutilezas foram substituídas por concertos populares onde o repertório, sem surpresas, lembram os concertos do estilo “Os três tenores”. Há mesmo quem diga que em algumas récitas de Parsifal de Wagner no Met ele teria apresentado pela primeira vez um esgotamento vocal. Consegui ter acesso a um vídeo de um “Fidelio” de Beethoven apresentado no festival de Salzburg no último dia 15 de agosto. Numa produção muito ruim, em que a horrorosa encenação de Claus Guth, que incluía sons de filmes de ficção científica e uma enlouquecida fazendo inúteis e imprecisos gestos de libras enquanto as árias eram apresentadas, pude constatar que, mesmo com a barba grisalha, Jonas Kaufmann parece um jovenzinho, tanto no aspecto físico quanto no aspecto vocal. Permanece mesmo como o grande tenor da atualidade. Mas é inegável que, assim como o pianista chinês Lang Lang, é uma das tábuas de salvação no combalido mercado fonográfico ligado à música clássica, ficando sujeito a este tipo de golpe baixo.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 15/08/15 2:21:34 PM
O compositor Maurice Ravel

O compositor Maurice Ravel

O compositor francês Maurice Ravel (1875-1937) é para o grande público sinônimo de uma das obras de música clássica mais populares, o Boléro, escrito em 1928. Não há dúvida de que esta obra, originalmente pensada para ser um ballet, seja uma obra prima, e um verdadeiro atestado de que entre inúmeras virtudes como compositor Ravel era um dos maiores orquestradores de todos os tempos. Mas Boléro, e outras obras populares como o “Concerto em sol” para piano e orquestra, a “Pavane” e “La Valse”, revelam apenas uma faceta deste grande gênio. Ravel foi um grande alquimista dos sons, das harmonias. Comento aqui três composições quase que desconhecidas do mestre. São obras intimistas que revelam muito de suas predileções literárias e sua busca de uma linguagem cada vez mais original.

Mallarmé em retrato pintado por Manet

Mallarmé em retrato pintado por Manet

Trois poèmes de Stéphane Mallarmé (Três poemas de Stéphane Mallarmé)

Ravel em mais de uma ocasião declarou seu amor pela poesia de Stéphane Mallarmé (1842-1898). Disse ele em 1929: “Eu considero Mallarmé não somente o maior poeta francês, mas o considero como o “único”, já que ele tornou a língua francesa poética, visto que ela não foi destinada para a poesia”. Diversos fatores influenciaram a escrita desta original obra, concebida em 1912, mas sem dúvida a entusiasmada descrição que Stravinsky fez a Ravel a propósito do Pierrot Lunaire de Schoenberg, moldaram o esquema instrumental da partitura. Assim como a obra de Schoenberg os “Três poemas de Stéphane Mallarmé” contam com a presença de um pequeno conjunto de câmera que acompanha a cantora: Duas flautas, dois clarinetes, quarteto de cordas e um piano. Ravel em diversos momentos se aproxima de um idioma atonal, e a conclusão da última melodia nos mostra um compositor bem distante dos parâmetros do tonalismo. As três poesias escolhidas estão entre os versos mais enigmáticos e complexos de Stéphane Mallarmé: Soupir (Suspiro) de 1864, Placet futile (Súplica frívola) de 1862 e Surgi de la croupe et du bond (Vindo da curva e do salto) de 1887. Os textos são tão complicados que, quando regi a obra em 2006, necessitei a ajuda de dois grandes tradutores, Caetano Galindo e Sandra Stroparo para apresentar ao público uma versão em português. A música, escrita por Ravel. transborda de sutilezas e de efeitos instrumentais fascinantes. Sua compreensão da poesia fica bem evidente. Infelizmente uma daquelas maravilhas que pouca gente conhece.

Primeira edicçao das Chansons Madécasses de Ravel

Primeira edicçao das Chansons Madécasses de Ravel

Chansons madécasses (Canções de Madagascar)

Obra concluída em 1926 as Chansons madécasses constituem o momento mais experimental do compositor. Os textos, aparentemente autênticos vindos da ilha africana de Madagascar, foram traduzidos para o francês por Évariste de Parny (1753-1814). Nestas lindas poesias anônimas percebemos a doçura de um clima tropical e a crueldade dos europeus que provocavam guerras locais para conseguir escravos para suas colônias. A instrumentação inclui uma flauta, um violoncelo e um piano. A parte vocal pode ser cantada tanto por um mezzo-soprano como por um barítono. Para mostrar o clima exótico deste recanto africano Ravel se utiliza de sons que misturam escalas modais, poli tonalidade e atonalismo. São três as canções sendo que a primeira, Nahandove, é uma erótica declaração de amor Depois deste clima sereno da primeira canção vem um poderoso e assustador grito: Aoua. É o momento em que a escravidão trazida pelos brancos é rejeitada com gritos de alerta. O ambiente de revolta e desconsolo é sugerido por acordes indefinidos no registro grave do piano. A última canção, Il est doux (É suave) é mais uma vez uma melodia tranquila. Um dos efeitos inesquecíveis pensados por Ravel é a imitação de um tambor africano por um inteligente pizzicato em harmônicos do violoncelo. Diversas vezes, como consta na biografia do compositor escrita por Marcel Marnat, Ravel reafirmou que esta era a obra de sua autoria pela qual sentia maior orgulho. Motivo a mais para conhece-la.

A tardia edição da Sonata para violino e violoncelo de Ravel

A tardia edição da Sonata para violino e violoncelo de Ravel

Sonata para violino e violoncelo

Esta talvez seja a mais desconhecida entre as obras primas de Ravel. Escrita entre 1920 e 1922 permanece como uma homenagem do autor à memória de Claude Debussy, que faleceu em 1918. Mesmo os amigos de Ravel demonstraram estranheza em relação à obra, que é arrojada não só pela exclusão de um instrumento de apoio, mas pela sua ousada linguagem contrapontística e harmônica. Influenciada pelo “Duo” do compositor húngaro Zoltan Kodály, escrito para os mesmos instrumentos em 1914, vai deixar sua marca numa obra maravilhosa de Heitor Villa Lobos, os Choros Bis de 1928. Partitura escrita em quatro movimentos, bem nos moldes clássicos, Ravel não encontrou um editor interessado na obra, que permaneceu inédita por muito tempo. No inteligente uso dos dois instrumentos melódicos Ravel mais uma vez demonstra a sua magia como “orquestrador”. Não tenho notícia de uma execução aqui no Brasil. O que é lamentável.

Vídeos das obras

Um dos tesouros do youtube. Os Tres poemas de Mallarme com o magnifico Ensemble Intercontemporain de Paris, Nora Gubisch, Soprano, e o excelente regente Alain Altinoglu. Execução perfeita.

Acredito que Chansons Madécasses soam melhor com mulher do que com homem. Sua intérprete perfeita, na minha opinião, é Jessye Norman. Mas esta execução é também memorável: Stéphane Degout (barítono), Michaël Guido (piano), Matteo Cesari (flauta)e Alexis Descharmes (violoncelo).

O próprio Ravel executando Chansons Madécasses

A Sonata para violino e violoncelo de Ravel. Mais uma execução notável encontrada no youtube: Benjamin Bowman, violino e Franz Ortner, violoncelo. Gravação feita na Dinamarca.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 07/08/15 10:50:25 AM
Hiroshima destruída pela bomba atômica

Hiroshima destruída pela bomba atômica

Quando se fala de grandes crimes contra a humanidade há uma condenação seletiva. Nestes 70 anos dos ataques nucleares a duas cidades japonesas, que mataram pelo menos 300.000 pessoas, a grande maioria civis (que faz o presidente Henry Truman, na minha visão, fazer companhia aos grandes assassinos da segunda guerra mundial), a desproporcional destruição de milhares de vidas humanas é vista por muitas pessoas como “necessária”. Este tipo de discussão não é a tônica de meus textos e nem será. O que pretendo mostrar é que uma das mais importantes obras musicais da segunda metade do século XX é um retrato sonoro muito fiel aos horrores de um ataque feito pelos americanos sobre inocentes japoneses. Falo de uma das obras primas do compositor polonês Krzysztof Penderecki (nascido em 1933), “Trenodia para as vítimas de Hiroshima”, obra composta em 1960.

O compositor Krzysztof Penderecki

O compositor Krzysztof Penderecki

Krzysztof Penderecki e o sonorismo polonês

Krzysztof Penderecki é um dos mais importantes compositores clássicos dos nossos dias. Sua fama mundial veio exatamente através da obra “Trenodia (oração para os mortos) para as vítimas de Hiroshima”, uma peça escrita para orquestra de cordas, que alia maneiras pouco convencionais de se tocar os instrumentos com uma série de dissonâncias que ficam evidentes nos “cachos de notas” (cluster em inglês) e a utilização de quartos de tom. A obra descreve de forma bem realista os motores dos aviões militares, as sirenes antiaéreas e a destruição que se seguiu. A crueza da partitura chamou a atenção em todo o mundo (recebeu um prêmio da Unesno em 1961) , especialmente numa época em que novos ataques nucleares não estavam descartados. A linguagem do autor abria também um novo caminho para a vanguarda musical, que era antes dominada por compositores como Pierre Boulez (nascido em 1925) e Karlheinz Stockhausen (1928-2007). A assim chamada “Escola polonesa”, e que também ficou conhecida como “sonorismo”, contribuiu de forma decisiva para uma nova utilização dos instrumentos e um tipo de organização sonora que não tinha nada a ver com as elucubrações cerebrais da época. Esta nova linguagem levou a obras primas do próprio Penderecki (ópera “Os demônios de Loudum, Paixão Segundo São Lucas, “De natura sonoris” I e II, etc), transformou a linguagem de outro grande músico polonês, Witold Lutosławski (1913-1994) e chegou mesmo a ter uma forte marca em compositores brasileiros como Marlos Nobre (nascido em 1939) e Edino Krieger (nascido em 1928). Neste aspecto posso afirmar que a revolucionária obra de Penderecki, a “Trenodia”, abriu um novo e impensado caminho para a linguagem musical.

Penderecki e o fim da vanguarda

Algo extremamente curioso a respeito de Krzysztof Penderecki é a modificação radical em sua linguagem depois de 1980. Sua obra voltou a ser tonal, e sua harmonia lembra os compositores do fim do século XIX e início do século XX. Diversas vezes o compositor se justificou dizendo que o som contestatório de suas obras escritas entre 1958 e 1980 agiam como uma revolta contra a ditadura comunista da Polônia, e que com o fim do comunismo não via mais sentido em ser um contestador. Suas composições sinfônicas, no entanto, se assemelham com as do russo Dimitri Shostakovich (1906-1975), que eram obras conflitantes com o regime soviético. No meu ver seu conservadorismo atual é tão chocante quanto a modernidade de suas obras escritas na década de 60.

Os horrores de um ouvinte

Há alguns anos coloquei a “Trenodia para as vítimas de Hiroshima” num programa da Rádio Educativa do Paraná. Um ouvinte alarmado ligou para a emissora reclamando que havia um chiado e barulhos estranhos na transmissão. Isso foi na época em que a Rádio ainda tinha programas de música clássica diários na hora do almoço. Fica registrada aqui esta história divertida.

Vídeos

“Trenodia para as vítimas de Hiroshima”. Um vídeo da execução da obra com a Orquestra da Rádio Finlandesa regida por Krzysztof Urbański, em um recente concerto

Infinitamente melhor a gravação regida pelo próprio autor, apenas em áudio

O novo estilo velho de Penderecki. A Sinfonia Nº 4 de 1989. Um xerox não autenticado de uma sinfonia de Shostakovich

Enviado por Osvaldo Colarusso, 28/07/15 10:18:57 AM

Fiquei um tanto quanto revoltado ao ouvir um excelente CD com as duas Sonatas para violino e piano do compositor brasileiro Glauco Velásquez, e perceber que quem deveria promover tal gravação, a Academia Brasileira de Música, que editou o mesmo, o mantem em segredo há 5 anos. Mais um desserviço feito à nossa cultura, numa área, a música de câmera brasileira, que sofre um completo abandono dos órgãos que deveriam zelar por ela. Talvez escrevendo algo sobre esta excepcional gravação alguém resolva tirar da gaveta a tiragem que está pronta há alguns anos. Tenho certeza que, ao ouvir este CD, as pessoas vão se perguntar: como uma música tão bela é completamente desconhecida? A cópia que recebi me foi passada no Rio de Janeiro pelo irmão da violinista que atua na gravação. Posso me considerar um homem de sorte.

O compositor Glauco Velásquez

O compositor Glauco Velásquez

O autor

Glauco Velásquez foi um compositor brasileiro com uma ousadia poucas vezes vista por aqui. Sua mãe era de uma influente família carioca, mas como não era formalmente casada deu à luz ao futuro compositor em segredo em Nápoles, Itália, em 1884. Lá Glauco Velásquez permanece até os 11 anos de idade, se transferindo para o Rio em 1895. Estuda a partir de 1903 no Instituto Nacional de Música (hoje Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro) com Francisco Braga e Frederico Nascimento, este último uma espécie de “ovelha negra” da instituição pois admirava os avanços harmônicos de Wagner, Richard Strauss e César Franck. Cedo o compositor desenvolveu uma tuberculose, e veio a falecer com menos de 30 anos em 1914. A linguagem de Glauco Velásquez é totalmente alheia ao nacionalismo, e a complexidade harmônica e contrapontística dele tornam suas obras muitas vezes difíceis de serem tocadas. Ele foi o primeiro compositor brasileiro a escrever música politonal e atonal e é lamentável o fato de nunca ter recebido apoio governamental para sua formação e mesmo para a tentativa de cura de sua doença.
Suas duas sonatas para violino e piano são obras de 1908 e 1911. Lembram demais a Sonata N° 2 para violino do francês Gabriel Fauré (1845-1924), mas foram escritas bem antes da composição francesa. Harmonia inspiradíssima, e uma temática bela e inusitada, arrisco dizer que são as melhores sonatas para violino e piano escritas no Brasil na primeira metade do século. O compositor francês Darius Milhaud (1892-1974), que morou no Brasil durante a Primeira Guerra Mundial, chegou no país depois da morte de Velásquez, mas se interessou demais pela Sonata Nº 2 do brasileiro, executando-a ao violino diversas vezes.

A violinista Mariana Salles, filha do saudoso musicólogo Vicente Salles, é uma árdua defensora da divulgação da música brasileira. Já gravou a integral das Sonatas para violino e piano de Claudio Santoro e em 2010 fez uma extensa pesquisa em torno das obras de Velásquez para violino e piano. De forma muito inteligente convidou um pianista francês, o excelente camerista François Pinel, dando assim toda uma perfeita sintonia com o estilo das obras, que se aproximam muito de César Franck e de Gabriel Fauré. O resultado é de uma beleza rara. Os fraseados da violinista e a clareza do pianista se adequam de forma excepcional a estas duas obras primas. Já conhecia estas sonatas na correta interpretação de Karin Fernandes e Emmanuele Baldini, mas o trabalho de Mariana Salles e François Pinel, com um profundo trabalho de pesquisa muscológica, possui um outro tipo de profundidade.
Quem quiser adquirir este fantástico CD ao que parece tem que ir até a Academia Brasileira de Música (Rua da Lapa, 120/12º andar, Rio de Janeiro), ou tentar se comunicar através do site http://www.abmusica.org.br. Consegui saber que o CD custa R$20,00 e que a ABM envia acrescendo a taxa de envio. Existem também os telefones (21) 2292-5845 / 2221-0277 / 2242-6693. Tudo parece muito misterioso a respeito deste notável CD. O termo “em breve” é o que mais se encontra neste site.

Vídeo

Uma amostra da obra. Primeiro Movimento da Sonata N° 2 com Karin Fernandes e Emmanuele Baldini

Enviado por Osvaldo Colarusso, 17/07/15 8:15:56 AM

Lançado recentemente pelo selo norueguês LAWO CLASSICS o CD “Creole connections”, que ganhou nota máxima na revista BBC music, é uma verdadeira aula de história em torno do compositor brasileiro Ernesto Nazareth (1863-1934). O termo “Creole”, utilizado no título do CD, se refere originalmente a um filho de europeu ou africano nascido na América, e o que aprendemos neste CD é que Ernesto Nazareth beneficiou-se deste fascinante cruzamento cultural. O notável pianista norueguês Morten Gunnar Larsen, muito mais conhecido por seu trabalho jazzístico, demonstra neste CD toda sua paixão pelo compositor brasileiro, cuja obra ele conheceu em Nova Orleans nos Estados Unidos na década de 1980. Ele excuta todas as obras com um gingado de fazer inveja a muitos pianistas brasileiros. Vamos às origens da linguagem musical de Nazareth: Louis Moreau Gottshalk (1829-1869), filho de um judeu americano e de uma “creole” haitiana, compositor e pianista americano que faleceu no Rio de Janeiro (compôs a célebre Fantasia sobre o Hino Nacional Brasileiro), foi o primeiro a compor miniaturas pianísticas com ritmos latinos e africanos. O CD mostra quatro obras dele sendo que uma delas foi composta em Porto Rico e três no périplo que fez pelas américas central e do sul. Nelas podemos perceber o surgimento de uma estética que cairá como uma luva em Ernesto Nazareth.

O compositor Ernesto Nazareth

O compositor Ernesto Nazareth

A obra de Gottshalk foi apresentada ao compositor brasileiro por outro “Creole”, o professor de Nazareth, Lucien Lambert (1828–1896), pianista americano negro que viveu na então capital brasileira, e que foi grande amigo de Gottshalk. Estas conexões são impressionantes e quase que desconhecidas por aqui. Do compositor brasileiro o CD apresenta oito composições, desde o famoso Odeon até composições raramente executadas como misterioso Tango Labirinto (com originais pausas em meio às frases), a valsa Turbilhão de beijos e o maravilhoso Tango Carioca. Mas o CD vai ainda mais longe. Mostra uma bela composição do compositor cubano Ignácio Cervantes (1847-1905), também amigo de Gottshalk, e duas do também cubano Ernesto Lecuona (1895-1963). Outra obra interessantíssima do CD foi composta pelo venezuelano Lionel Belasco (1881-1967), Pequena melodia venezuelana. Belasco, como Gottshalk, era filho de um judeu e de uma mãe negra. O CD apresenta também leituras entusiasmantes de duas obras primas do argentino Astor Piazzolla (1921-1992): Retrato de Alfredo Gobbi e La muerte del angel.

O pianista Morten Gunnar Larsen

O pianista Morten Gunnar Larsen

Não só o pianista Morten Gunnar Larsen é um instrumentista excepcional, mas demonstra ter um conhecimento histórico fantástico. O texto escrito por ele que vem no encarte, em norueguês e inglês, traz informações preciosas entre as quais o fato de Nazareth ter criado padrões rímicos complexos em obras pianísticas bem antes do nascimento do “ragtime” americano. Ler esse texto é mergulhar num mundo repleto de influências, que vão desde Chopin até os ritmos africanos. Nazareth é uma figura chave na história da música brasileira. Prova disso é que Heitor Villa-Lobos dedicou a ele, em 1920, seu Choros Nº1.Conhecer a obra de Ernesto Nazareth suas origens e suas consequências, é indispensável para termos uma visão mais precisa de nossa linguagem musical. Este CD está disponível na iTunes Store por U$ 10,99. Baixando o CD vem o encarte em PDF. Recomendo fortemente.

Vídeos do pianista

Morten Gunnar Larsen executa “Brejeiro” de Ernesto Nazareth

A técnica impecável de Morten Gunnar Larsen. Ele executa Finger Breaker de Jelly Roll Morton (1885-1941), também um “creole”.

Morten Gunnar Larsen e o pianista carioca Luiz Simas executam em Oslo (Konserthus JazzKafe) Variações sobre “Tico tico no fubá” de Zequinha de Abreu

Enviado por Osvaldo Colarusso, 13/07/15 9:43:47 AM

O site do Instituto Piano brasileiro divulgou uma foto que me deixou boquiaberto. A foto foi tirada em 1962 no vernissage da cantora (meio soprano) e artista plástica brasileira Annete Celine. Aliás a foto veio de sua coleção particular. Compreender quem está nesta foto pode ser tremendamente enriquecedor tanto para a história da arte pianística entre nós como da enorme contribuição de estrangeiros que vieram ao Brasil fugindo do antissemitismo que assolava a Europa na primeira metade do século XX. A presença de uma das maiores pintoras brasileiras (Tarsila do Amaral) faz com que a foto assuma aspectos que vão além do pianismo brasileiro. Na foto vemos (sentadas da esquerda para a direita) Felicja Blumental, Guiomar Novaes, Yara Bernette e a pintora Tarsila do Amaral. Em pé, da esquerda para a direita, temos: Anna Stella Schic, Souza Lima (atrás de Guiomar Novaes), o professor José Kliass (atrás de Yara Bernette, sua sobrinha), Gilberto Tinetti, Annete Celine (filha de Felicja Blumental), Markus Mizne (esposo da mesma),João Carlos Martins e Odette Faria. Para as novas gerações muitos destes nomes são completamente estranhos. Por isso creio que é importante falar dos principais personagens desta foto, figuras que merecem toda a nossa reverência. Vou me ater apenas aos músicos já falecidos.

Felicja Blumental

Esta grande pianista nasceu em Varsóvia no ano de 1908. Estudou piano com Zbigniew Drzewiecki e composição com o mais importante compositor polonês do início do século, Karol Szymanowski. Em 1938 ela e seu marido, o artista plástico Markus Mizne, fogem para o Brasil, tornando-se posteriormente cidadã do nosso país. Excelente intérprete de Chopin, de Szymanowski, de Mozart e de Beethoven vai se interessar profundamente pela música brasileira. Prova maior é que Heitor Villa-Lobos dedicou a ela seu Concerto Nº 5 para piano e orquestra (na minha opinião o melhor da série) que ela estreou em Londres em 1955 sob a regência de Jean Martinon, e que gravou no ano seguinte em Paris sob a regência do próprio autor. Mas esta incrível mulher não parou por aí. O exemplo maior de sua estreita colaboração com a música de seu tempo é que em 1972 tocou a estreia mundial da Partita para cravo e orquestra do compositor polonês Krzysztof Penderecki, uma de suas mais ousadas composições. Foi ela quem gravou a obra pela primeira vez em 1979 sob a regência do autor. Faleceu em 1991 em Israel, em meio a uma turnê de concertos.

Guiomar Novaes

Uma das mais importantes pianistas do século XX Guiomar Novaes (1894-1979) permanece como uma das maiores glorias da música clássica brasileira. Internacionalmente foi a musicista brasileira mais conhecida. Participou da Semana de Arte Moderna de 1922 executando obras de Satie e Villa-Lobos. Foi solista das mais importantes orquestras do mundo, e suas gravações são até hoje consideradas mundialmente como referências absolutas. Muito mais lembrada fora daqui, é mais uma triste história de nosso descaso cultural.

Yara Bernette

Outra excepcional pianista Yara Bernette (1920-2002) estudou em São Paulo com seu tio José Kliass. Fatos notáveis da vida desta grande artista é que foi a primeira pianista mulher a executar o Concerto Nº 2 de Brahms com a Filarmônica de Berlim, que na ocasião foi regida por Karl Böhm. Foi contratada da Deutsche Grammophon e em 1972 se tornou chefe da cadeira de piano da Escola Superior de Música e Arte Dramática de Hamburgo, na Alemanha. Assim como Felicja Blumental atuou diversas vezes como solista em concertos regidos por Heitor Villa-Lobos.

Anna Stella Schic

Outro destaque na foto Anna Stella Schic (1922-2009) foi uma importante pianista brasileira, a primeira a gravar a obra integral para piano de Heitor Villa-Lobos, de quem foi grande amiga. Também estudou com José Kliass em São Paulo e com Marguerite Long em Paris. Casou em segundas núpcias com o professor e compositor francês Michel Philippot (1925-1996). Os dois foram responsáveis pela estruturação do curso de música da Unesp. Por isso residiram em São Paulo de 1976 até 1979.

Sousa Lima

João de Sousa Lima (1898 – 1982) foi um grande pianista paulista. Estudou no Brasil com Luigi Chiaffarelli (o mesmo professor de Guiomar Novaes) e na França com Marguerite Long. Amigo pessoal dos compositores franceses Maurice Ravel e Paul Dukas, colaborou de forma decisiva para que Villa-Lobos se inserisse no meio musical francês. Amigo de Mário de Andrade atou frequentemente como regente. Foi responsável pela formação de inúmeros pianistas. Pelas poucas gravações que realizou percebe-se que foi um pianista excepcional. Foi também muito profícuo como compositor.

José Kliass

José Kliass (1895-1970) foi um dos mais importantes professores de piano do Brasil na segunda metade do século XX. Nascido na Rússia e de origem judaica, José Kliass (1895-1970) estudou em seu país e mais tarde no Stern’s Conservatório, em Berlim, com o extraordinário professor Martin Krause, que foi discípulo e secretário particular de Franz Liszt. Transferiu-se para o Brasil depois da primeira guerra mundial. A lista de seus alunos que estudaram por mais de quatro anos com ele e que se tornaram instrumentistas renomados é impressionante: Bernardo Segall, Estelinha Epstein, Yara Bernette, Anna Stella Schic, Belkiss Carneiro de Mendonça, Lídia Simões, Isabel Mourão, Ney Salgado, Jocy de Oliveira, Glacy Antunes de Oliveira e os irmão João Carlos e José Eduardo Martins, entre muitos outros.

À guisa de conclusão

Conheci pessoalmente Guiomar Novaes, Yara Bernette e Anna Stela Schic, sendo que com as duas últimas trabalhei profissionalmente. Anna Stella era esposa de meu principal professor, Michel Philippot, e tive um estreito contato pessoal com ela. Em mais de uma vez me falou de José Kliass e de sua experiência tendo sido aluna dele por muitos anos. O que me impressionou muito até hoje é a diferença de personalidade destas grandes pianistas. Cada uma de sua própria maneira se expressaram de forma altamente pessoal. Esta foto demonstra uma riqueza e diversidade cultural que sinto que se torna cada vez mais rara entre nós. Para concluir cito as palavras do pianista José Eduardo Martins a respeito de seu mestre, José Kliass, e de como vê a situação do ensino de piano na atualidade: “Se as denominadas Escolas de Piano deixaram de ter no Brasil a aura que mestres reverenciados e competentes de outrora conseguiram conquistar em contexto sociocultural totalmente outro, mais ainda a figura de José Kliass se apresenta de maneira insofismável”. “ Homogeneizou-se a carreira de pianista, pois hoje são incontáveis os que percorrem o planeta, tantos deles oriundos do Extremo-Oriente e quase todos egressos de concursos que possibilitam breves holofotes a tantos virtuoses, luzes essa dirigidas a cada ano a novos vencedores dos incontáveis concursos internacionais de piano. Executam majoritariamente as mesmas obras conhecidas do Sistema, obedecendo in totum o que fazem os pianistas já estabelecidos na carreira. Pouco a fazer”! Que esta foto sirva de estímulo a todos nós.

Vídeos relacionados

Felicja Blumental e Annete Celine interpretam uma canção de Richard Strauss.

Yara Bernette interpreta o Concerto Nº 3 de Rachmaninof com a extinta Orquestra Filarmônica de São Paulo regida por Simon Blech

Anna Stella interpreta Impressões Seresteiras de Villa Lobos

A fantástica versão de Guiomar Novaes da última Sonata para piano de Beethoven

O único vídeo de Guiomar Novaes tocando. Feito em sua casa alguns meses antes de sua morte

Sousa Lima tocando o Concerto em formas brasileiras de Heckel Tavares sob a regência do autor

Enviado por Osvaldo Colarusso, 19/06/15 11:17:07 AM

O selo inglês Delphian acaba de lançar um CD com o título de “Romaria – música coral do Brasil”. Nele um dos melhores corais da Inglaterra, Choir of Gonville & Caius College Cambridge, interpreta um repertório que abrange muitas das inúmeras influências que formam nosso patrimônio cultural. O excelente coro e seu maestro, Geoffrey Webber, receberam comentários muito elogiosos da crítica especializada (revistas Gramophone e BBC Music entre elas), tanto pela escolha original do repertório como pela admirável qualidade técnica da realização. As obras escolhidas são em geral complicadíssimas e, infelizmente, desconhecidas por aqui. O projeto só foi possível com o envolvimento do Departamento de música da USP, que junto ao pessoal de Cambridge, resgatou partituras raras e muitas vezes não editadas. O repertório inclui obras de Henrique de Curitiba, Osvaldo Lacerda, Ernani Aguiar, Almeida Prado, Claudio Santoro, Aylton Escobar, Villa-Lobos, Carlos A. Pinto Fonseca e arranjos de Ernst Mahle e Marco Antônio da Silva Ramos.

Repertório fascinante

As obras mais impressionantes são as menos conhecidas. Uma delas é “Metáforas” de Henrique de Curitiba, a primeira faixa do CD. Música escrita em 1973 junta um pequeno coro com sons eletrônicos que evocam a floresta amazônica. O coro se utiliza de um trecho de uma missa de compositor espanhol Tomás Luis de Victoria (1558-1611) e sobre ele mescla a polifonia renascentista com os sons da natureza. A parte de primeiro soprano escrita num registro hiperagudo e alguns cachos de notas vão fazendo esta mágica simbiose. O soprano Billie Robson surpreende por sua técnica e extensão. Outra composição instigante e pouco conhecida é a “Ave Maria” de Claudio Santoro. Utilizando o texto em português Santoro se utiliza de harmonias atonais num complexo e belo tecido musical. Esta mesma complexidade, com recursos altamente sofisticados, se encontra na lindíssima obra de Almeida Prado “Oráculo”. Mas além destas obras vanguardistas o CD apresenta composições de cunho bem nacionalista. Duas obras se destacam neste aspecto: “Romaria” (o título do CD) de Osvaldo Lacerda e a “Missa breve sobre ritmos populares brasileiros” de Aylton Escobar. A peça de Osvaldo Lacerda se utiliza de uma bela poesia de Carlos Drummond de Andrade, valorizando-a na alternância de um narrador (Marco Antônio da Silva Ramos, felizmente com sotaque bem brasileiro) e dos sons que circundam um ato de fé de pessoas humildes realizados pelo coro. Minha única ressalva ao excelente trabalho do coro inglês é a falta de gingado nos quatro momentos de “Carimbó”, melodias paraenses arranjadas por Ernst Mahle. Tirando isso raríssimos seriam os coros brasileiros que poderiam dar conta de tantas dificuldades técnicas deste repertório. Vale a pena ressaltar que no CD estão duas obras primas de nosso maior compositor, Heitor Villa-Lobos: Cor Dulce, cor amabile (numa nova revisão da partitura) e o Magnificat, em sua versão para coro, meio soprano e órgão.

Para brasileiro ver

Tanta música brasileira boa e desconhecida por um coro inglês. Confesso que um lançamento discográfico como esse me força a uma série de reflexões. A mais séria delas é a ausência completa de reconhecimento de nossos autores de música clássica. A maior parte destes compositores conheci pessoalmente e, com exceção de Almeida Prado, dentre eles não tinha a menor notícia destas composições. Muito frequentemente usa-se a expressão “para inglês ver”. Neste caso o certo, sem o sentido pejorativo, seria “para brasileiro ver”. Muito obrigado Choir of Gonville & Caius College Cambridge e seu maestro Geoffrey Webber. Através desta execução impecável, tambem em termo de pronúncia, nós brasileiros tomamos conhecimento da alta qualidade de parte de nosso patrimônio musical. Este CD pode ser baixado no iTunes store e na Presto Classical (http://www.prestoclassical.co.uk).

Enviado por Osvaldo Colarusso, 11/06/15 2:06:46 PM
Uma nova forma de ouvir música clássica  Carlos Prazeres rege de tênis para um público descontraído

Uma nova forma de ouvir música clássica Carlos Prazeres rege de tênis para um público descontraído

Fundada em 1982 a Orquestra Sinfônica da Bahia é um dos corpos estáveis do Teatro Castro Alves na capital baiana. Por muitos anos tive o privilégio de atuar como convidado da orquestra e regi quase 60 concertos com ela de 1986 até 2011. Nenhuma orquestra brasileira tem um clima de trabalho tão agradável e descontraído como a Sinfônica da Bahia tem, mas em quase todas as ocasiões pude constatar um enorme divórcio entre a realidade baiana e o trabalho da orquestra. Isso resultava em um público muito menor do que o esperado e muitas vezes tanto eu como os músicos vivíamos uma verdadeira frustração. Com o afastamento de Salomão Rabinovitz (1930-2011) que foi spalla e diretor artístico da orquestra, e que com coragem e determinação não permitiu que a orquestra desaparecesse, a orquestra, depois de um período coordenada pelo pianista e maestro Ricardo Castro, acabou convidando o jovem maestro carioca Carlos Prazeres para dirigi-la. Ele conseguiu definitivamente inserir a orquestra dentro da realidade baiana, sem abrir mão da qualidade artística, inserindo inclusive obras fundamentais do repertório moderno, raramente executadas no Brasil. Estes projetos mostram que a música clássica, com criatividade, pode e deve ser apresentada para públicos novos e em lugares também novos.

Sentados e deitados no chão: Sarau no Museu de arte da Bahia

Esta série de concertos chamado “SARAU OSBA NO MAM” oferece uma oportunidade inédita para que o público tenha contato com a música clássica. Este museu baiano fica numa construção histórica da cidade conhecida como “Solar do Unhão”, e seus amplos espaços são ocupados pela orquestra no centro e pelo público à sua volta sentado e deitado no chão, em cima de diversas almofadas distribuídas a ele. O projeto mescla música, dança e poesia. Valoriza- se um espaço nobre e histórico da cidade e oferece a música clássica com descontração. Algo que qualifico de genial.

A música clássica moderna aliada à poesia contemporânea

Outro projeto que tem mexido com o público soteropolitano (de Salvador para os desavisados) chama-se “Futurível”. O nome desta série é inspirado numa canção de Gilberto Gil de 1969 e conta com apoio de bailarinos do Teatro Castro Alves e com atores que em meio a obras de Schoenberg (a dificílima Sinfonia de câmera opus 9), Stravinsky, e de compositores baianos contemporâneos como Alexandre Espinheira e Eduardo Lago, contextualiza poesias contemporâneas inclusive do poeta paranaense Paulo Leminsky. A cultura baiana se mescla ao trabalho da orquestra. O resultado: sucesso. Aliás não só nesta série o repertório da orquestra surpreende. Obras de Arvo Pärt, Olivier Messiaen e dos baianos Wellington Gomes e Paulo Lima convivem com Mozart e Vivaldi.

Recente concerto da Sinfônica da Bahia na Igreja de São Francisco em Salvador: um mar de gente.

Recente concerto da Sinfônica da Bahia na Igreja de São Francisco em Salvador: um mar de gente.

O barroco baiano valorizando a música clássica

Nas fantásticas igrejas do Pelourinho a Sinfônica da Bahia vai de encontro ao público. Saindo do teatro a orquestra acabou conquistando um enorme público. Mais uma vez uma maneira inteligente e pertinente de se unir a riqueza histórica local com a atuação de uma sinfônica.

CineConcerto.Outra boa ideia

CineConcerto.Outra boa ideia

Música clássica e cinema

Outra série que tem atraído um grande público no Teatro Castro Alves chama-se “CineConcerto”. A orquestra interpreta trilhas de filmes consagrados com os músicos vestidos a caráter. Este projeto foi fundamental para modificar a marca e o conceito da OSBA, que passou a ser vista como uma orquestra moderna e divertida sem abrir mão do repertório tradicional de concerto. Os “Cineconcertos” lotaram o Teatro Castro Alves diversas vezes e agradaram em cheio ao público jovem, tão ausente das salas de concerto atuais, fazendo com que eles passassem a frequentar os concertos tradicionais. O interessante é que através de filmes como “Morte em Veneza” ou mesmo “Laranja Mecânica”, é mostrada de forma leve e divertida músicas de autores como Mahler e Beethoven.

Infelizmente nem tudo são flores

Apesar deste resgate do público e da presença marcante em meio à atividade cultural do Estado, a Sinfônica da Bahia encontra-se administrativamente numa situação caótica. Por se tratar de um órgão público a orquestra tem inúmeras e infindáveis batalhas burocráticas para comprar instrumentos, alugar partituras e contratar músicos. Eu, por exemplo, cheguei a esperar um ano para receber um cachê. Além disso o Estado para não inchar a máquina pública não autoriza novos concursos. Com a aposentadoria de alguns músicos o conjunto está se tornando inviável. A solução seria uma OS (Organização Social) passar a gerir a orquestra. Ela já está autorizada pelo governo. Mas a verba para ela tornar-se realidade não. O que é triste é que esta verba é muito menor do que diversos desperdícios causados pela imperícia e pela corrupção que estão por toda a parte. Esta lamentável situação não é algo original como as séries de concertos da orquestra. É, tristemente, bem comum em nosso país.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 04/06/15 8:55:11 AM
Tristão e Isolda no Festival de Glyndebourne

Tristão e Isolda no Festival de Glyndebourne

Há 150 anos, mais precisamente no dia 10 de junho de 1865, estreava em Munique a ópera Tristão e Isolda de Richard Wagner. Até o primeiro dia de julho daquele ano, quando terminou a temporada de estreia, muitas pessoas foram até a capital bávara vindas de diversos países escutar a música que viria a ser a mais influente e modernista daquela época. As novidades harmônicas, tímbricas, rítmicas, formais e melódicas deixaram os milhares de espectadores atônitos, perplexos e seduzidos. Apesar dos temores o sucesso repercutiu em todo o velho continente. Não só o idioma da obra é revolucionário, mas para a moral hipócrita da época o louvor de um casal adúltero (Isolda era casada com o tio/pai adotivo de Tristão) houve uma imensa repulsa na época. O que importa mesmo, passados estes 150 anos, é que a partitura deu um novo gás para um gênero, a ópera, que primava por ser comercial demais, abre novas perspectivas para o tratamento das dissonâncias, e impõe aos cantores outros paradigmas em termos de possibilidades e resistência. Há um livro escrito por Edouard Schuré (Souvenirs sur Richard Wagner: la première de Tristan et Iseult), narrando com precisão esta estreia, documento raro (de 1890) e, para mim, indispensável: o testemunho de alguém que assistiu a esta histórica récita.

A mais influente das óperas

Mesmo que tenham sido necessários 9 anos para se ter uma segunda montagem da obra (em Weimar – 1874), esta temporada de 1865 causou um verdadeiro frenesi no meio musical europeu. Mesmo músicos não muito simpáticos à obra de Wagner, como Johannes Brahms e Clara Schumann, compraram a partitura para melhor conhece-la. Brahms precisou procurar um médico, pois passara mal vendo suas harmonias dissonantes, e Clara Schumann ficou escandalizada com os adúlteros amantes serem glorificados. Apesar destas vozes descontentes Tristão e Isolda, com toda a sua voluptuosidade musical, deixará marcas até mesmo na obra do arquirrival Giuseppe Verdi, que em sua ópera Otello copia descaradamente não só a técnica dos leitmotiven (motivos condutores) mas a própria ideia musical do Liebestod (morte de amor), a genial parte conclusiva da ópera de Wagner. Páginas de Claude Debussy, como seu “Prelúdio para a tarde de um fauno”, revelam uma apropriação inconfessada da sensualidade do Prelúdio da ópera, e dissonâncias ousadas como o inédito acorde de sétima maior com que se inicia o segundo ato, abriram os caminhos para os compositores da nova geração como Richard Strauss e Arnold Schoenberg. As harmonias iniciais da obra marcam uma das sequências harmônicas mais comentadas em toda a história da música, o que ficou conhecido como o “acorde de Tristão”. Aliás “O acorde de Tristão” é o título de um belo romance de Hans-Ulrich Treichel (bem traduzido para o português). A influência de Tristão e Isolda de Wagner chega mesmo até a literatura atual.

Wagner e a planejada estreia mundial de Tristão no Brasil

As novidades técnicas da partitura, completada em 1859, complicaram as estreias previstas em Viena e Karlrsruhe. Na capital austríaca, depois de 77 ensaios, a orquestra declarou a partitura impraticável, e as récitas planejadas foram canceladas. Foi apenas através da influência de Ludwig II da Baviera que a ópera pode finalmente ser apresentada em Munique, regida por Hans von Büllow. O que é interessante, para nós brasileiros, é que que Wagner chegou a cogitar que a ópera fosse estreada em nosso país, mais precisamente no Rio de Janeiro. Em junho de 1857 Wagner, em uma carta a Franz Liszt, fala de seu plano de traduzir a ópera para o italiano e atender um convite feito por Dom Pedro II e realizar a estreia da obra no Brasil. Na realidade Wagner recebeu um emissário do imperador em março de 1857, Ernesto Ferreira-França, cônsul do Brasil na Saxônia, com uma oferta de ajuda financeira e apoio artístico na então capital brasileira. Como a ópera não exigia nenhuma complicação cenotécnica (como as exigidas em outras obras do compositor) o autor pensou seriamente nesta possibilidade. Como a negociação com o imperador não teve sequência e como os caminhos musicais da obra se dirigiam a algo impraticável fora da Europa o plano inicial de Wagner não se concretizou. Tristão e Isolda só seria estrada no Rio de Janeiro em 27 de maio de 1910, em italiano. Em São Paulo a obra foi estreada no ano seguinte, na primeira temporada do recém-inaugurado Theatro Municipal, também em italiano.

A histórica montagem de Wieland Wagner, neto do compositor

A histórica montagem de Wieland Wagner, neto do compositor

Uma mensagem espiritual

Numa feliz coincidência esta harmonia misteriosa e cheia de volúpia serve maravilhosamente para uma trama que transporta uma história medieval de um amor proibido para o mundo psicologicamente atormentado da época do compositor. Thomas Puschmann em seu ensaio “Richard Wagner – um estudo psiquiátrico”, publicado em Berlim já em 1873, deixa bem evidente que, apesar do egocentrismo do compositor, que ele critica de forma áspera, as raízes da tragédia grega e de uma busca da noite para liberar os sentidos, tornam sua obra mais próxima de um complexo drama psicológico do que uma ópera para tornar-se um simples entretenimento. A mensagem espiritual foi mesmo o maior legado do autor. Mais do que uma ópera Tristão e Isolda é realmente um drama musical.

Waltraud Meier no final da montagem de Patrice Chéareu

Waltraud Meier no final da montagem de Patrice Chéareu

Ver e ouvir Tristão e Isolda

Tentando ser breve neste controverso assunto, as gravações de áudio essenciais são as regidas por Wilhem Furtwängler, por Karl Böhm (Bayreuth 66) e por Carlos Kleiber. Em termos de DVD os dois melhores são regidos por Daniel Barenboim. Um no festival de Bayreuth do ano de 1995 com a sóbria encenação de Heiner Müller e uma em Milão no ano de 2007 com a belíssima encenação de Patrice Chéreau. As maiores intérpretes do papel de Isolda foram Kirten Flagstad, Birgit Nilsson e nos dias de hoje Waltraud Meier e Nina Stemme. Os maiores intérpretes do papel de Tristão foram Wolfgang Windgassen, Rene Kollo, Siegfried Jerusalem e John Vickers. Este último, em 1980, cantou de forma soberba 5 récitas da ópera no Rio de janeiro. Um Tristão impressionante, na cidade pensada originalmente para estrear esta obra prima.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 01/06/15 7:00:47 PM
A Filarmônica de Berlim: preocupada com seu futuro, mas longe de uma suposta UTI

A Filarmônica de Berlim: preocupada com seu futuro, mas longe de uma suposta UTI

A matéria assinada pelo jornalista João Marcos Coelho e publicada no site digital do jornal “O Estado de São Paulo” no último dia 30 causou celeuma no meio musical brasileiro. Neste artigo (você pode ler aqui) ele supõe uma pretensa ida à UTI de grandes orquestras como a Filarmônica de Berlim, utilizando como pano de fundo a dificuldade de se chegar a um consenso para a escolha do novo diretor musical da mesma, que deverá em alguns anos deixar de ser ocupado por Sir Simon Rattle. Primeiro me chocou no artigo uma lista de inverdades. A primeira delas é que acho um absurdo chamar o maestro Christian Thielemann de antissemita e de clone de Karajan. Thielemann é um excelente maestro, apesar de seu repertório ser muito restrito e de não apreciar a música contemporânea, razões pela qual não acredito que será o futuro diretor da orquestra. Agora, acusa-lo de antissemita é algo mais próximo de um fuxico. Outra sandice é dizer que o maestro Andris Nellsons não sai de seu cargo da Sinfônica de Boston para não “largar o osso”. Se o maestro letão fosse mesmo tão apegado a vaidades não teria dúvida, iria para Berlim. Quanto a Mariss Jansons é notório o seu delicado estado de saúde, não uma “esnobação” à orquestra. Na realidade ninguém foi convidado e ninguém quer “pagar o mico” que Lorin Maazel pagou dando entrevistas em 1989 como o novo diretor musical da orquestra quando o escolhido verdadeiro foi Claudio Abbado. Outra inverdade é que a Filarmônica de Berlim está defenestrando Sir Simon Rattle. O grande maestro inglês anunciou espontaneamente que sairia em 2017 há dois anos, em 2013. Não foi um pedido da orquestra. Ele teve a consciência de que seu tempo num cargo com tanta visibilidade poderia ter uma “data de vencimento”. Tem novos planos frente à Sinfônica de Londres a partir da temporada 2017/1018, inclusive a construção de uma nova sala de concertos para a orquestra.
A Filarmônica de Berlim está longe de uma UTI. Prova disso é o monte de “fofocas” e “frisson” a respeito do novo diretor musical, e o texto de João Marcos Coelho é prova disso. Ela (a Filarmônica de Berlim) esbanja prestígio, qualidade e notoriedade. Seu site na internet é acessado por centenas de milhares melomanos em todo o mundo, com um padrão técnico absolutamente impecável. É evidente que o nível técnico das orquestras subiu tanto que a Filarmônica de Berlim está longe de ser o centro do mundo musical clássico há muito tempo, e mesmo nem sei se se isso já aconteceu alguma vez. Hoje existem pelo menos vinte orquestras com um nível compatível, não só na Europa, mas nos Estados Unidos. Mas questiono, por exemplo, quem teria a logística necessária para um projeto como o das Paixões de Bach encenadas? É neste tipo de ousadia que a Filarmônica de Berlim realmente se destaca frente às outras, porque em termos de qualidade técnica e musical ela está mesmo empatada com as orquestras de Leipzig (Gewandhaus), Dresden (Staatskapelle), Munique (Bayerischer Rundfunk), Amsterdam (Concertgebow), Viena (Filarmônica), Londres (Sinfônica), Chicago, Filadélfia, Cleveland e alguma outra que esqueci. O que é admirável é que duas das melhores orquestras que citei, as de Leipzig e Dresden, estão em cidades relativamente pequenas (menos de 600.00 habitantes) e com um baixo afluxo de turistas. O público destas fantásticas orquestras é composto basicamente dos habitantes da cidade. Estas grandes orquestras estão longe de serem orquestras em crise. Elas fazem parte integrante de uma comunidade, e são prestigiadas por ela. Estão bem longe de uma UTI.

Nossa vida musical na UTI?

A segunda parte do artigo, bem mais pertinente, trata da realidade musical brasileira no que se refere às nossas orquestras. Concordo com João Marcos Coelho quando fala das nossas orquestras terem que ir onde o povo está, e não ficar cultivando uma distância em um fictício templo divino. Amei a frase: “Não dá mais para agir como se o Olimpo da música clássica tivesse o direito de existir independente da realidade que a rodeia. É como se não existissem os viciados em crack que circundam a Sala São Paulo, por exemplo. Nas fotos, retoques os eliminam da paisagem. A realidade os repõe no caminho dos reluzentes automóveis a caminho do Walhalla da música clássica. Quem tem poltrona assegurada não arrisca pôr os pés no chão”. A OSESP é maravilhosa, mas a poucos metros de sua sala as pessoas são assaltadas com frequência (eu inclusive) e vivem numa atroz miséria pelas ruas. Necessitamos, mais do que ficar discutindo quem será o novo maestro da Filarmônica de Berlim, ao menos refletir sobre esta realidade. Na minha opinião as orquestras brasileiras em geral tocam sempre a mesma coisa, no mesmo lugar e para as mesmas pessoas, num maçante sistema que muitas vezes sustenta egos enormes de alguns diretores musicais e certos músicos, cujos salários são ardilosas maquinações de caches e pagamentos extras que fazem inveja a muitos dos nossos políticos. Nosso sistema de orquestras sinfônicas é uma xerox não autenticada de uma realidade que não tem nada a ver conosco. Nosso modelo de difusão musical necessita ser reinventado, mais próximo à nossa realidade. Quem possui o dom musical tem a obrigação de compartilha-lo, sobretudo em um país tão carente como o nosso. Defendo a ideia de que uma orquestra sinfônica é um poderoso instrumento de divulgação cultural, que ela é rica de recursos e sedutora por seus encantos. Completo minha reflexão com um pequeno trecho de um comentário brilhante do músico (trompista) Antonio J. Augusto, paraense radicado no Rio de Janeiro, feito ontem no facebook: “Entretanto, é corretíssima a conclusão de que essas instituições, principalmente as nossas orquestras brasileiras precisam se reinventar. Transformadas em redutos exclusivos de seus maestros e dirigentes, nossas orquestras, com raríssimas exceções, representam ilhas ditatoriais, de opções artísticas retrógradas e completamente desvinculadas de suas comunidades e dos músicos que as compõe”. É bom saber que alguém pensa assim.

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