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Falando de Música

Enviado por Osvaldo Colarusso, 22/03/17 8:22:49 AM

A decadência é evidente: a música clássica vem desaparecendo das atividades culturais da cidade de Curitiba. Estamos no fim do mês de março e o último concerto clássico de grande porte por aqui aconteceu em meados de dezembro. Exceções pontuais aconteceram em eventos esparsos (bons muitas vezes) mal divulgados e com pouco público como o recital da cantora Ana Häsler acompanhada pelo pianista Jeferson Mello Moro no MON em fevereiro e o recital do violonista Luciano Lima no Paço da liberdade neste mês, esforços hercúleos e mal pagos. Às vezes não nos damos conta, mas a derrocada da vida musical no viés clássico por aqui vem caminhando paulatinamente, através dos anos, a níveis próximos da extinção. Curitiba já foi muito diferente neste aspecto. Montagens de óperas e grandes Ballets, atrações internacionais, solistas de grande renome, comercio especializado de instrumentos e partituras, tudo isso já existiu, mas simplesmente desapareceu. Além da Orquestra Sinfônica do Paraná e da Camerata Antiqua Curitiba já esteve na rota da Dell’Arte (que trouxe para cá estrelas como o maestro Maris Jansons e a pianista Lilya Zilberstein por exemplo), estava na rota da série de concertos do Bank Boston (posteriormente Itaú), teve uma fantástica série de concertos internacionais numa bem urdida coprodução entre a secretaria de cultura do Estado e o governo italiano, a “Latina”, e contava com uma sociedade de Concertos, a Pró música, que trouxe para cá estrelas do nível de Kurt Masur, Barenboim, Christopher Hogwood, London Sinfonieta, entre muitos outros. Também havia um incentivo para artistas brasileiros, com destaque para curitibanos, se apresentarem em salas decentes para um numeroso público. A programação musical da Universidade Positivo, por exemplo, que cumpria também este papel, foi totalmente extinta. A Curitiba que conheci quando cheguei aqui há 32 anos, no que se refere à música clássica, não existe mais. Enquanto, a menos de 400 quilômetros daqui, São Paulo, mesmo com derrocadas recentes, convive com uma vida musical intensa e de altíssimo nível (veja as temporadas da Cultura Artística, do Mozarteum, as temporadas das OSESP e do Teatro Municipal), Curitiba se restringe a quase nada. Estamos atrás de cidades muito mais pobres do que Curitiba como Goiânia, Belém e Manaus.

Golpes recentes

A derrocada continua a acontecer, e neste ano de 2017 vieram através de ações de quem menos se poderia esperar. Primeiro do prefeito Rafael Greca, que sempre posou de homem culto, amante das artes, que numa canetada extinguiu a Oficina de música de Curitiba, evento de alto nível que acontecia aqui no mês de janeiro há mais de 30 anos. Em seguida pela ineficiência da gestão do governador Beto Richa, filho do fundador da Orquestra Sinfônica do Paraná, que não soube resolver um problema criado por seu antecessor, Roberto Requião (que por sinal ordenou uma diminuição drástica de música clássica na Rádio Educativa do Estado), o que levou à demissão de dezenas de excelentes músicos da Orquestra Sinfônica do Paraná, e que levou à inviabilização da mesma. A única esperança que ainda resta é a Camerata Antiqua da prefeitura que deverá fazer seu primeiro concerto oficial em meados de abril na Capela Santa Maria, mesmo sabendo da diminuição do orçamente da Fundação Cultural. Para uma cidade de dois milhões de habitantes, capital de um dos mais ricos estados da federação é muito pouco. O poder público e a iniciativa privada tem muitas culpas, mas a sociedade civil também tem, por não por a mão no bolso por nenhuma atividade de música clássica. Enquanto ingressos de shows populares e peças de teatros com globais pairam por volta de 300 reais em Curitiba, nem 20 reais para um concerto o público paga. Em termos de música clássica Curitiba chegou mesmo ao fundo do poço.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 18/03/17 12:22:14 PM
Glauber Rocha: uma câmera na mão e uma ideia na cabeça

Glauber Rocha: uma câmera na mão e uma ideia na cabeça

O fenômeno artístico incarnado pelo cineasta baiano Glauber Rocha (1939-1981), talvez o mais importante cineasta brasileiro da história, se valeu, em suas trilhas sonoras, de uma escolha perspicaz e sensível das manifestações musicais de clássicos brasileiros, com fortes e eficazes utilizações eventuais de Marlos Nobre e Carlos Gomes, e constante de Villa-Lobos. Esta utilização começa quando o cineasta, aos 25 anos, concebe “Deus e o diabo na terra do sol”, filme que foi indicado para a Palma de ouro do Festival de Cannes de 1964. Nesta epopeia absolutamente genial, a miséria do sertão nordestino, a enganadora crendice popular e a desesperança de todo um povo encontram eco numa trilha sonora muito bem urdida, que se utiliza de partituras essenciais de Villa-Lobos associadas a cantos populares do Nordeste. Glauber Rocha descobre e valoriza o grande potencial humano de algumas páginas de nosso maior compositor que revelam paisagens e sentimentos raramente associados anteriormente à obra do mestre. Dois, entre muitos, momentos mágicos da união da câmera original de Glauber e da música de Villa-Lobos: A primeira cena do filme, em que há uma longa panorâmica da aridez nordestina, com animais morrendo em meio à seca, encontra um suporte maravilhoso em páginas da Bachianas brasileiras Nº 2, especialmente a parte central dos seus 2 movimentos iniciais. Depois da morte do cangaceiro Corisco, o personagem principal, Manuel, em uma corrida desenfreada, acaba constatando na cena final aquela máxima nordestina: “O sertão vai virar mar”. A imensidão deste mar lendário é retratada musicalmente pela parte final do Choros Nº 10 “Rasga coração”. Junção genial, emoção pura.

Yoná Magalhães enm cena de "Deus e o diabo na terra do sol"

Yoná Magalhães enm cena de “Deus e o diabo na terra do sol”


“O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”

Em 1969 Glauber Rocha realiza a sequência de “Deus e o diabo na terra do sol”, já em cores, “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, filme em que Antônio das Mortes, o matador de cangaceiros, se arrepende de sua vida que o afastou de seu povo. Além de Villa-Lobos, a trilha sonora se utiliza das páginas mais experimentais do compositor pernambucano Marlos Nobre. Apesar do pernambucano aparecer nos créditos como compositor da música do filme a trilha sonora utiliza também muitas páginas de Villa-Lobos e canções populares de repentistas nordestinos. O avanço estético de Glauber Rocha encontra suporte em obras de Marlos Nobre como Rhythmetron (a primeira obra brasileira escrita para um grupo de percussão) e Ukrinmakrinkrin (composição de 1964, altamente experimental). Mas Villa-Lobos também está presente. Por este filme Glauber Rocha recebeu o prêmio de “Melhor diretor” no Festival de Cannes de 1969.

Paulo Autran, vivendo um ditador ao som de Carlos Gomes

Paulo Autran, vivendo um ditador ao som de Carlos Gomes

Há 50 anos “Terra em transe”, um filme que permanece atual

Entes estes dois filmes, em 1967, Glauber Rocha realiza mais uma obra prima: Terra em transe, ganhador do prêmio máximo do Festival de Locarno daquele ano. Passado num país imaginário, Eldorado, ele resolve o enigma do verdadeiro país imaginado utilizando páginas de Villa-Lobos (principalmente as Bachianas Nº3): sim, estamos no Brasil. O pretenso ditador, Porfirio Diaz, magnificamente interpretado pelo ator Paulo Autran, encontra suporte musical em páginas da ópera Il Guarany de Carlos Gomes. Seria Carlos Gomes, um colonizado? Este ridículo personagem, que fica o tempo todo segurando um crucifixo e soltando frases messiânicas, não só utiliza como cenário de sua casa as escadarias internas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, mas no seu embate definitivo com o jornalista Paulo Martins (vivido por Jardel Filho) chega a encontrar suporte no Othello de Verdi (na voz de Mario del Monaco). As manipulações do dono das televisões Don Julio Fuentes (vivido por Paulo Gracindo, uma paródia de Assis Chateaubriand ou Roberto Marinho) e do líder hipócrita-populista Felipe Vieira (José Lewgoy) contra o bem-estar do povo que é retratado com o som de Villa-Lobos. Quanto ao ambiente decadente que envolve o jornalista supracitado e as tramoias todas aparecem no som quase que inócuo de Sérgio Ricardo, aquele que os créditos responsabilizam como autor da trilha sonora. Creio ser uma imprecisão: o embate musical verdadeiro acontece, no filme, entre Villa-Lobos e Carlos Gomes. Villa-Lobos voltaria a ser utilizado por Glauber Rocha em seu último trabalho premiado (melhor curta no Festival de Cannes), o curta que descreve o enterro de Di Cavalcanti (1976), até hoje censurado (apesar de estar disponível no youtube).

Atualidade de Glauber

Muito triste ver que a situação no nordeste do Brasil não mudou muito desde que os filmes de Glauber foram rodados por lá. E “Terra em transe”, rodado há 50 anos, pode ser usado como um eficiente retrato atual da nossa classe política. Glauber Rocha foi um dos maiores artistas nascidos neste país, e teve a sabedoria e cultura de se associar com o que de melhor a nossa música clássica tem a oferecer. Sua morte, se não foi provocada como muitos disseram, foi comemorada pelos que estavam no poder naquela época, os militares. Na versão de sua mãe, Lúcia Rocha, o filho “não morreu da vontade de Deus; morreu de uma doença chamada Brasil”. Até nisso ele continua atual.

Glauber Rocha no Youtube. Cópias de alta qualidade

Deus e o diabo na terra do sol (1964)

Terra em transe (1967)

O enterro de Di Cavalcanti (1976)

Enviado por Osvaldo Colarusso, 04/03/17 2:17:50 PM
Villa-Lobos, a voz musical de seu povo

Villa-Lobos, a voz musical de seu povo

Heitor Villa-Lobos, que nasceu há 130 anos (Rio de Janeiro, 5 de março de 1887), inventou um típico universo sonoro e musical que identifica com facilidade o Brasil. Já aos 30 anos de idade Villa-Lobos possuía de forma completa a sua típica linguagem, com a qual se expressaria com formas bem diversas, ora clássicas (Sinfonias, Quartetos) ora livres (Choros, peças para piano). A partir de Uirapurú (balé de 1917) o som orquestral de Villa-Lobos faz uma espécie de retrato definitivo musical da natureza brasileira. Se as influências iniciais de Villa-Lobos foram Debussy e Stravinsky, a partir dos anos 1920 percebe-se um vocabulário altamente individual e original. Nesta década temos suas obras mais revolucionárias e experimentais como o seu Noneto de 1923 (apesar do título para sua execução são necessários dezenas de cantores e instrumentistas) e seu Rudepoema (1921/1926), uma obra para piano fora de qualquer padrão pré-estabelecido. Neste mesmo ímpeto vanguardista estão seus Choros (1920-1929) e sua Prole Do Bebê Nº 2 (1921) e marca sua participação na Semana de arte moderna de 1922 em São Paulo. Com permanências longas na Europa entre 1923 e 1930 o compositor teve contato com a estética neoclássica reinante por lá, e na sua volta esta orientação “back to Bach” o leva, na sua volta definitiva ao Brasil, a escrever as suas 9 Bachianas brasileiras (entre 1930 até 1945). Nestas composições a natureza é aliada a um aspecto mais humano dos brasileiros que convivem com a miséria e a angústia, um traço que passa a permear de forma constante sua linguagem. Sua Bachianas brasileiras Nº 2, por exemplo, é o mais contundente retrato do sofrido homem rude do sertão, algo equivalente a certas pinturas de Portinari e certos livros de Rachel de Queiroz (O quinze), Graciliano Ramos (Vidas secas) e Guimarães Rosas (Grande sertão: Veredas). A perspicácia humana do compositor faz com que, depois de sua morte, sua música sirva perfeitamente de trilha sonora para duas obras primas do cinema brasileiro, dirigidas por Glauber Rocha: Deus e o diabo na terra do sol (1964) e Terra em transe (1967). A conclusão é que a música de Villa-Lobos retratou com grande arte não só a natureza brasileira, mas as dores e alegrias de seu povo.

Villa-Lobos, o didata

Durante o governo de Getúlio Vargas (1930-1945) Villa-Lobos empreendeu o mais importante programa de educação musical que o Brasil já teve até hoje. Com forte apoio do governo estrutura um ambicioso programa de educação musical (Canto orfeônico), educação esta que passou a ser obrigatória. É desta época o importantíssimo “Guia Prático”, uma coletânea de mais de 130 melodias folclóricas arranjadas para coro e para piano solo, muitas de cunho infantil, que teriam sido perdidas sem este trabalho. Uma época de um patriotismo exacerbado de obras como Invocação à defesa da Pátria (1943- texto de Manuel Bandeira) e a trilha sonora do filme O descobrimento de Brasil, filme de Humberto Mauro de 1936, que levaram o compositor a ser criticado com seu comprometimento com o Estado Novo. Para Villa-Lobos este comprometimento não passava por qualquer viés ideológico e sim por uma oportunidade de ouro para divulgar e praticar a atividade musical.

Villa-Lobos e Ary Barroso em 1958

Villa-Lobos e Ary Barroso em 1958

Uma produção importante, imensa e ainda mal conhecida

Com mais de 1000 obras Villa-Lobos é um dos mais prolíficos compositores de todos os tempos. Infelizmente só uma pequena parte desta excepcional produção é conhecida. Não há dúvida de que a obra clássica brasileira mais conhecida internacionalmente é de sua autoria, a Ária da Bachianas brasileiras Nº 5. Mas também não há dúvida de que já existe um consenso de que suas obras para piano e violão estão entre os itens mais importantes do repertório internacional destes instrumentos. Villa-Lobos foi o mais importante compositor que dominava perfeitamente a técnica do violão, e isto faz com que sua produção para este instrumento seja obrigatória para qualquer violonista do planeta. Aliás quando falamos da obra de violão do mestre percebemos que ela será a parte mais importante de sua produção a influenciar a MPB. Exemplo claro disso são seus Cinco Prelúdios para violão de 1940 que abrem o caminho para as harmonias da Bossa Nova, de Tom Jobim a João Gilberto. Ele foi também violoncelista, o que lhe permitiu escrever obras primas para Orquestras de Violoncelos (Bachianas brasileiras Nº 1 e Nº 5) que são executadas com enorme frequência de Berlim a Tóquio. Aliás esta é mais uma influência de Villa-Lobos na música popular. O violoncelo é o instrumento de orquestra mais presente nos shows de MPB. A influência de Villa-Lobos parece mesmo ser eterna.

Repertório obrigatório. Discoteca básica:

Villa-Lobos por ele mesmo (Villa-Lobos par lui même) – Uma coletânea da EMI com gravações regidas ou supervisionadas pelo próprio compositor realizadas em Paris na década de 1950. Mesmo que novas gravações surgiram com técnicas mais modernas nenhuma gravação das Bachianas é tão tocante. Destaque para a presença da espanhola Victória de Los Angeles, a eterna intérprete da Bachianas 5. Choros em comoventes versões (o 5 com Aline van Barentzen é uma referência) e o conjunto todo faz deste álbum a referência máxima da discografia de Villa-Lobos.

A obra para violão de Villa-Lobos é um dos momentos máximos de sua produção. A gravação integral da obra para violão solo de Villa-Lobos realizada por Fabio Zanon em 1996 continua sendo citada como referência máxima por toda a imprensa internacional especializada.

A obra para piano solo de Villa Lobos compreende algumas das mais importantes e famosas obras do compositor, como as duas séries de A prole do bebê, Rudepoema, Cirandas, Guia Prático e muitas outras. Destacados intérpretes realizaram coletâneas brilhantes. Cito alguns: Roberto Szidon (o “must” na minha visão), Anna Stella Schic (amiga de Villa-Lobos, a primeira a realizar uma gravação integral), Nelson Freire, Marc-André Hamelin, Débora Halasz, entre muitos outros. Mas apenas Sonia Rubinsky gravou a produção completa de Villa-Lobos para piano, e o fez de forma excelente. O álbum de 8 CDs do selo Naxos de Sonia tocando Villa-Lobos torna-se, portanto, obrigatório.

Os 17 Quartetos de cordas de Villa-Lobos é um monumento muito mal conhecido na sua totalidade. Existe uma integral em CD com o Cuarteto Latinoamericano que é de uma qualidade impecável. O Quarteto Radamés Gnattali gravou uma integral em DVD em pontos históricos do Rio de Janeiro aliando uma execução refinada a um visual comovente. Dupla recomendação.

A obra para sopros de Villa-Lobos abrange alguns Choros, o famoso Quinteto em forma de Choros (uma das obras máximas do autor), além de complicadíssimas obras como o Trio para oboé clarinete e fagote (1921) e o Duo para oboé e fagote (1957). Execução impecável dos membros do Quinteto Villa-Lobos e convidados.

Obras para violoncelo. Villa-Lobos foi violoncelista. Sua obra para este instrumento revela um trato muito pessoal do compositor. O violoncelista gaúcho Hugo Pilger e a pianista carioca Lúcia Barrenechea realizaram em 2013 um resgate maravilhoso da obra de Villa-Lobos para o instrumento em um CD duplo. Lembrando que Pilger junto a este CD realizou um importantíssimo livro, “Heitor Villa-Lobos – o violoncelo e seu idiomatismo”.

Falando de violoncelo, outro grande violoncelista brasileiro, Antonio Guerra Vicente, realizou em 2009 um CD duplo com o título Villa-Lobos e o violoncelo. Além de inúmeros tesouros como uma linda versão da Segunda Sonata para violoncelo e piano (com a pianista Francisca Aquino), dos Choros bis (junto à violinista Ludmila Vinecka) há a melhor gravação já realizada do Trio de cordas de 1945, uma das composições mais ousadas de Villa-Lobos, uma obra em para se conhecer a amplitude do gênio que se aventurou pelo universo do atonalismo. Execução magistral de Ludmila Vinecka ao violino, Glêsse Collet à viola e Antonio Guerra Vicente ao violoncelo.

Uirapurú é uma das mais originais e contundentes obras de Villa-Lobos. Já foi gravada por Leopold Stokowsky e Eduardo Mata, grande maestro mexicano. Na importante serie que a OSESP grava da integral das Sinfonias de Villa-Lobos, para completar um dos CDs, aparece uma versão de referência deste ballet de 1917. Isaak Karabtchevsky, como sempre, comanda com elegância e brilho.

Todos os CDs citados podem ser encontrados on line ou mesmo em lojas físicas (até quando existirem) com uma certa facilidade. Apenas o belo CD do Guerra Vicente pode ser encomendado apenas através do email antonioguerravicente@gmail.com. Vale o esforço.

CD desaparecido

Lamento muito que este CD tenha sumido completamente. Villa-Lobos em Paris. Regido por Gil Jardim (e com belos solos do soprano Claudia Riccitelli) temos as melhores versões já realizadas das mais experimentais obras de Villa-Lobos, o Noneto, Epigramas irônicos e sentimentais e o Quatour, obras para soprano, coro e instrumentos compostas na década de 1920, partituras de uma originalidade que fazem com que o compositor surpreenda os incautos que o achem conservador. Torço para que um dia este CD de 2005 seja “ressuscitado”.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 27/02/17 7:03:31 PM
Teatro Guaíra à noite

Teatro Guaíra à noite

Tentando consertar 14 anos de procrastinação frente a problemas jurídicos advindos da nefasta ideia de preencher cargos de bailarinos e músicos dos corpos estáveis do Teatro Guaíra com cargos em comissão, afigura-se uma solução tremendamente injusta que passa pela execrável demissão de dezenas de artistas. Na realidade uma tripla injustiça. Primeira: um profissional com grande competência ser contratado com um cargo comissionado, o que dá impressão de que foi contratado por relações de amizade, não de competência, apesar de ter passado por um teste seletivo. Segunda: um profissional que há muitos anos exerce sua função com salário menor do que de seus pares estatutários e sem nenhuma garantia trabalhista, sem receber nada a mais por ocupar um cargo de chefia é, depois de anos de ameaça, finalmente demitido. Terceira: Para ser recontratado deve prestar uma prova na qual todos os anos de trabalho em seus respectivos grupos (orquestra e balé) não serão levados em conta. Competirá em pé de igualdade com qualquer candidato, da cidade, do Estado, do país e mesmo do exterior, e continuará, se for aprovado, a ganhar um salário menor do que seus colegas estatutários.

Se alguém disser que em qualquer lugar do mundo uma audição pública é assim mesmo, lanço a pergunta: em que lugar do mundo músicos e bailarinos são contratados por 14 anos de forma ilegal? A solução frente a tantas coisas grotescas deve atender a este tipo de peculiaridade advinda de uma solução improvisada e que se manteve a despeito de todas as advertências de que era ilegal. Pinço apenas um exemplo, entre muitos. Bettina Jucksch, renomada violinista curitibana, que se diplomou no Conservatório de Berna, na Suíça, ocupou o cargo de concertino da orquestra por 19 anos, em contratos provisórios e posteriormente nos malfadados cargos em comissão. Lembro que estes 19 anos não contarão numa eventual nova audição. Eu, conhecendo bem esta profissional, fico chocado com a sua situação, a falta completa de respeito a uma musicista brilhante, que enfrenta o opróbrio de ser por anos contratada através de um meio ilegal e, frente a esta corrupção incessante, através de um cargo que levanta suspeitas, ser demitida. Que ao menos os 19 anos de trabalho dela sejam pontuados numa prova.

A burrada, com 14 anos de adiamentos e improvisações, já foi feita. É necessária uma solução para conserta-la, não para piorá-la. Tenho certeza de que tanto o Secretário de Cultura do Estado quanto a Presidente do Centro Cultural Teatro Guaíra, sem pressa, mas com presteza, se assessorem de juristas, mas também de artistas para que se ajeite de vez esta vergonhosa situação, sem injustiças e sem humilhações. A única coisa positiva que vejo é que as contratações feitas através da Palco Paraná serão feitas segundo a CLT. Se não creio que cargos comissionados é a melhor maneira de se contratar músicos ou bailarinos acho um absurdo que artistas sejam estatutários “imexíveis”.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 24/02/17 12:32:02 PM
Bailarinos demitidos em manifestação ontem. Foto de Tom Lisboa

Bailarinos demitidos em manifestação ontem. Foto de Tom Lisboa

14 anos de descaso, incompetência e protelações levaram o Balé Teatro Guaíra e a Orquestra Sinfônica do Paraná a um impasse. Conforme já expliquei anteriormente (vide texto aqui) o primeiro passo para o caos presente se deu há muito tempo, por ordem do então governador do Estado, Roberto Requião em 1992, quando transformou todos os músicos e bailarinos do Teatro Guaíra em funcionários estatutários com estabilidade, algo a meu ver muito discutível quando nos referimos a artistas. A partir daí concursos públicos foram rareando e as soluções alternativas, especialmente na gestão do Governador Jaime Lerner, foram de uma ineficácia tremenda. Em 2003 com a volta de Requião ao governo do Estado (sim, ele de novo) criou-se uma solução “mágica”: contratar músicos e bailarinos através da sistemática de cargos comissionados. Os bailarinos mais velhos (estatutários) formaram em 1999 uma companhia para acolhe-los, o “G2 Cia de Dança”, que abarca técnicas “alternativas”, e a partir de 2003 todos os bailarinos do Balé Teatro Guaíra (a companhia oficial do teatro) passaram a ser contratados como comissionados. No caso dos músicos a troca foi mais gradual, sendo que antes da hecatombe desta semana metade dos instrumentistas era comissionado e a outra metade eram estatutários. Desde o início da implantação deste sistema de comissionados (2003) a prática foi questionada pelo Tribunal de contas e outros órgãos de fiscalização do Estado, mas foi-se empurrando com a barriga (por 14 anos!), até que o cerco foi gradualmente se apertando até que nesta semana os artistas contratados como comissionados foram definitivamente demitidos. Todos, sim todos, os bailarinos do Balé Teatro Guaíra e metade dos 85 músicos da orquestra. Com apenas 40 músicos a orquestra não tem pessoal necessário para executar obras ditas sinfônicas. Se o Balé Teatro Guaíra não existe mais, a orquestra ainda pode fazer eventuais apresentações, como realizou ontem em Campo Largo comemorando o aniversário da cidade da região metropolitana, certamente um pedido político, mas com naipes incompletos fica difícil algo de decente ser apresentado pelo que resta da orquestra.

Comissionados ganhavam mais???

Ao se falar em cargos comissionados muita gente pensa naqueles salários nababescos que pululam na corrupção nossa de cada dia. Não era o caso dos músicos e bailarinos. Além de não terem nenhuma garantia trabalhista os salários eram bem menores do que os pagos aos colegas estatutários. Isso na orquestra beira o grotesco: dois músicos tocando a mesma partitura recebendo com diferença de 50%. Grotesco. Foram demitidos alguns músicos entre os melhores do país, como o clarinetista André Ehrlich, as violoncelistas Maria Alice Brandão e Adriane Savitzky, as violinistas Leila Taschek e Maria Esther Brandão e o flautista Fabrício Ribeiro. Mil perdões pelos não citados, mas meu estomago se revolta sabendo destas demissões, e neste momento a memória pode falhar.

Teatro Guaíra: só cadeiras?

Teatro Guaíra: só cadeiras?

Mais uma solução “mágica”?

A solução para o problema tem sido alardeada como possível através de uma contratação através de uma OS, a Palco Paraná. Far-se-á um simulacro de concurso público e os artistas serão então contratados. Mesmo sabendo-se que a demissão definitiva viria, só agora, com as atividades paralisadas, é que se pensa em concretizar o concurso, que na melhor das hipóteses se realizará no fim de abril ou começo de maio. Há o temor de um candidato entrar com um recurso contra o tipo de avaliação. Daí serão meses de espera para uma solução legal. O mais injusto em tudo isso é que músicos e bailarinos que atuam há anos competirão em igualdade com qualquer candidato que se apresentar, o que possibilita a não contratação de um veterano. Os salários propostos pela Palco Paraná são menores do que dos músicos e bailarinos estatutários. Resumo da ópera: soluções capengas, que levarão, talvez, a um novo impasse em pouco tempo.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 22/02/17 9:57:14 AM
Yara Bernette, uma das grandes glórias do piano brasileiro

Yara Bernette, uma das grandes glórias do piano brasileiro

Dois recentes lançamentos do selo alemão Deutsche Grammophon destacam mais uma vez a glória da música clássica para piano brasileira, através de grandes intérpretes e de grandes compositores. Dois lançamentos maravilhosos, que merecem nossa atenção.

O resgate de Yara Bernette

Yara Bernette nasceu em Boston no ano de 1920. De família russo/judaica (o seu nome verdadeiro era Bernette Epstein) mudou para o brasil quando tinha apenas 6 meses. Em São Paulo foi aluna de José Kliass, o grande mestre que formou dezenas de grandes pianistas brasileiros. Pouca gente aqui no Brasil sabe, mas Yara Bernette foi solista da Filarmônica de Berlim, a primeira mulher por lá a ter executado o Segundo Concerto de Brahms (sob a regência de Karl Böhm). Sua estreia na Europa aconteceu em 1955 em Paris tocando a Bachianas Nº 3 de Villa-Lobos sob a regência do autor. Por décadas foi professora na Escola superior de música de Hamburgo. Em 1970 assinou um contrato com o selo Deutsche Grammophon e gravou de Rachmaninov os 10 prelúdios opus 23 e os 13 prelúdios opus 32. A gravadora resolveu omitir alguns prelúdios (Op. 23 No. 3, Op. 32 Nos. 11 e 13, este último o ponto alto da gravação segundo ela própria me confessou) por questão de duração. Yara insistiu que a gravadora deveria lançar as gravações em dois Lps, mas a gravadora insistiu em apenas um LP, o que implicaria na omissão. Yara, que tinha um temperamento muito forte, rompeu o contrato. O LP foi lançado, mesmo contra a vontade da pianista. Passados quase 47 anos a gravadora, postumamente, talvez comemorando os 15 anos da morte da pianista, lança em CD a gravação sem nenhum item ausente. Confesso que ouvi a gravação com profunda emoção lembrando da pessoa adorável e lembrando mais uma vez que Yara era uma artista consumada. Mesmo um pouco tarde a justiça, a esta grande artista, foi feita. Talvez as origens russas e a técnica herdada de Kliass expliquem execuções tão belas e exuberantes. Um CD obrigatório para todos os brasileiros que amam a música clássica em geral e o piano em particular.

A música pianística brasileira num roteiro latino

O jovem pianista francês Simon Ghraichy (nasceu em 1985) tem uma origem bastante peculiar, tendo vivido sua infância entre o México, o Líbano e o Canadá. Aos 16 anos se fixou na França e se voltando de corpo e alma ao piano recebeu orientação de grandes mestres como Michel Beroff e Tuija Hakkila. O contato dele com o Brasil se deu principalmente em 2009, quando foi um dos premiados do concurso do BNDES. Sua carreira explodiu e nos últimos anos se apresentou no Carnegie Hall em Nova York, no Kennedy Center em Washington DC e na Philharmonie de Berlim. Acaba de assinar um contrato com o selo Deutsche Grammophon, e seu primeiro CD tem o título de “Heritages” (heranças). Ele faz um extenso roteiro de ritmos latinos (especialmente espanhóis) em compositores de diversos países: França (Debussy), México (Ponce e Márquez), Espanha (Granados, de Falla e Albéniz), Cuba (Lecuona) e Brasil (Villa-Lobos, Camargo Guarnieri e Ernesto Nazareth). Seleção inteligente e relações bastante instigantes que valorizam e iluminam todos os autores enfocados. Técnica perfeita e um vigor assombroso oferecem uma visão nova à “Festa do Sertão” de Villa-Lobos colocando-a ao lado do “Intrmezzo” do Mexicano Ponce. O “New York Skyline”, numa versão bem rítmica, ganha nova propulsão junto a Debussy e de Falla. Camargo Guarnieri, pela primeira vez no selo alemão, ganha ares bem latinos em seus Ponteios 30 e 49 (a mais rápida versão que já ouvi, um minuto e meio) e o Odeon de Nazareth com sons de um verdadeiro tango. Simon Ghraichy é um intérprete maravilhoso, e oferece uma solução criativa em meio à mesmice que reina entre os pianistas clássicos. Os dois Cds podem ser baixados através do site “Presto classical” e comprados no formato físico na Amazon, na Presto Classical e no site brasileiro CDpoint.

Vídeos

Yara Bernette num vídeo histórico de Rachmaninoff gravado pouco tempo depois de sua gravação na Alemanha

Simon Ghraichy toca Villa-Lobos

Enviado por Osvaldo Colarusso, 17/02/17 2:12:28 PM

Monumento a Carlos Gomes em São Paulo pichado

Monumento a Carlos Gomes em São Paulo pichado


“Compositor nacional”: muitas nações possuem um

Ao chegar de trem em Praga, capital da República Tcheca, me chamou a atenção de que os avisos sobre saídas e chegadas dos trens são sempre prefaciados pelas quatro primeiras notas do poema sinfônico “Vyšehrad” do compositor Bedřich Smetana (1824-1884) (ouça e veja aqui). Smetana foi o primeiro compositor nacionalista tcheco e sua luta pela independência de seu país, que na época fazia parte do Império Austríaco, lhe custou alguns anos de exílio na Suécia. “Vyšehrad” é o primeiro poema sinfônico do ciclo de seis poemas sinfônicos “Minha pátria”. “Vyšehrad” é um penhasco mítico para os tchecos (bem perto do centro de Praga), e acredita-se que lá está a essência do povo tcheco. Os notáveis tchecos estão todos enterrados lá, inclusive os maiores músicos do país como Smetana, Dvořák e Rafael Kubelik . A lógica da escolha da vinheta foi mesmo genial e deixa pouco espaço de dúvida: Bedřich Smetana é o compositor nacional tcheco. Outro claro exemplo de um compositor nacional amado por seu povo é o finlandês Jean Sibelius (1865-1957). Ele foi um intelectual ativo para a independência da Finlândia que só aconteceu em 1917 (fazia parte do Império Russo) e utilizou em diversas de suas obras a inspiração da Kalevala, a epopeia nacional de seu país. Até que a Finlândia aderisse ao Euro em 2002, sua figura aparecia nas cédulas de 100 marcos finlandeses, e em 2015, quando se comemorou os 150 anos de seu nascimento, uma multidão de milhares de pessoas foi ao centro de Helsinque, mesmo com um frio congelante, cantar a melodia central do poema sinfônico “Finlândia”, composto por Sibelius nos anos de luta pela independência (veja aqui). Não há dúvida: Sibelius é o compositor nacional finlandês. Sem ser exaustivo no assunto encontramos exemplos similares (mesmo que não tão explícitos), na Noruega (Grieg), na Itália (Verdi), na Romênia (Enescu), na Dinamarca (Nielsen) e na Espanha (de Falla). Em certos países fica difícil definir apenas um compositor nacional, como na Rússia, que tem pelo menos três candidatos fortes para ser seu compositor nacional: Glinka, Mussorgsky ou Tchaikovsky. A pergunta relevante para nós brasileiros sobre o assunto: existe nosso “compositor nacional”?

Villa-Lobos teria destronado Carlos Gomes?

Villa-Lobos teria destronado Carlos Gomes?

O Brasil tem um “compositor nacional”?

Em uma sociedade como a nossa que, em geral, vive e convive com hábitos que nos afastam de uma plena cidadania, e que não resolve problemas básicos de educação e cultura, parece soar estranha a ideia de existir um “compositor nacional”. Até mesmo, do jeito que o brasileiro pensa e age, dar o título de compositor nacional a alguém pode fazer com que este criador seja mesmo visto como suspeito (ganhou propina para ocupar este “cargo”?). Chegamos à pergunta básica: como termos um sentimento cívico frente a um compositor se o civismo é enxergado com estranheza? Na primeira metade do século XX havia um “compositor nacional brasileiro”: Antônio Carlos Gomes (1836-1896). Motivos não faltavam: um compositor de família humilde nascido no interior de São Paulo (Campinas) conseguiu fama e respeito em importantes centros musicais europeus, e sua obra mais famosa, O Guarany, retratava um nativo brasileiro. Não é à toa que quando Getúlio Vargas instituiu em 1938 a “A voz do Brasil” (aquela tradicional rede radiofônica diária das 19 horas, lembram?) a vinheta era, e permanece, a abertura da famosa ópera de Carlos Gomes. Ele teria sido destronado por Villa-Lobos ? Talvez sim. Mas a reverência que se vê em diversos países decididamente não existe aqui. Sinal disso é que nem Carlos Gomes e nem Villa-Lobos estiveram presentes na abertura da Olimpíada do Rio em 2016, e numa sondagem feita por um telejornal a maioria das pessoas nem tem ideia de que Carlos Gomes foi um compositor. Num país corrupto e sem auto estima creio mesmo que a questão de existir um “Compositor nacional” soa, para a maioria, tão aborrecida e distante quanto o programa “A voz do Brasil”.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 04/02/17 12:17:46 PM
O compositor Camargo Guarnieri

O compositor Camargo Guarnieri

Poucas pessoas lembraram que no último dia 1 de fevereiro completaram-se 110 anos do nascimento de um dos maiores músicos nascidos no Brasil: Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993). Sejamos claros e sinceros: a obra dele mereceria sim ser mais conhecida, mais executada. Em termos formais Guarnieri foi o mais importante compositor brasileiro. Apesar de ter escrito menos Sinfonias que Heitor Villa-Lobos as de Guarnieri, sobretudo as de número 2,3,4 e 6, são as mais bem estruturadas e orquestradas entre as sinfonias de autores nacionais, e arrisco mesmo a dizer que Guarnieri foi o nosso maior sinfonista. De Camargo Guarnieri temos a mais importante Sonata para piano de um autor nacional, sua Sonata, de 1972. É obra de uma originalidade impressionante, que alia atonalismo (para aqueles desavisados que acham que o compositor é reacionário) com um forte sotaque nacional com uma sensacional fuga final, uma fuga atonal, e com uma escrita pianística digna dos maiores compositores. Se suas Sinfonias ganharam gravações exemplares da OSESP e sua Sonata para piano já foi registrada e defendida por importantes pianistas (Max Barros, Rosângela Yazbec Sebba, Belkiss Carneiro de Mendonça, Antonio Vaz Lemes) inúmeras obras primas de Guarnieri continuam mofando esquecidas em estantes e gavetas. Os exemplos são inúmeros, mas cito apenas o que acredito ser o mais escandaloso: Guarnieri compôs em 1970 “O caso do vestido” obra para canto e orquestra com admirável texto de Carlos Drummond de Andrade. Linha de canto excepcionalmente expressiva, com elementos de canto-falado (Sprechgesang) e orquestração primorosa (como sempre). Quem já ouviu falar desta obra? Poucas são as pessoas que tentam reverter estes absurdos e cumpre aqui fazer justiça e evocar o trabalho quase solitário feito pelo Maestro Lutero Rodrigues que, com imenso esforço redescobriu obras primas de Guarnieri, como os Concertos para Violino e orquestra do mestre, obras sensacionais.

Mário de Andrade, o maestro Lamberto Baldi e Camargo Guarnieri

Mário de Andrade, o maestro Lamberto Baldi e Camargo Guarnieri

Guarnieri versus Villa-Lobos

Não há dúvida, a produção de Guarnieri é menos sedutora que a produção de Villa-Lobos, e acaba “vendendo” menos no exterior (o grande violonista brasileiro Fabio Zanon chegou a afirmar numa conversa que Guarnieri “vende” mal na Europa), mas não há dúvida que quando Villa-Lobos se aventura em formas clássicas ele não é tão feliz como Guarnieri. Se comparamos não só as Sinfonias, mas os Concertos para piano e orquestra e as Sonatas para violino e piano, as de Guarnieri são infinitamente superiores. No entanto Guarnieri possui também algumas obras em formas livres que são geniais, sobretudo seus 50 Ponteios para piano e sua belíssima Suíte Vila Rica para pequena orquestra, originalmente trilha sonora do filme Rebelião em Vila Rica de 1957. Com coragem podem ser obras apresentadas com sucesso no exterior.

Retrato de Guarnieri pintado por Portinari

Retrato de Guarnieri pintado por Portinari

Guarnieri: existência amargurada

Conheci mais de perto Camargo Guarnieri a partir de 1982. Na época ele era Diretor musical da Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo (OSUSP) e frequentei diversas vezes seu estúdio na Rua Pamplona em São Paulo. Já nesta época ele me confidenciava sua frustração por não ter o tipo de reconhecimento que ele esperava merecer. Mas a coisa piorou demais em fevereiro de 1990, quando seu filho Daniel Paulo, que na época tinha 18 anos de idade, sofreu um grave acidente automobilístico. As imensas despesas revelaram que um de nossos maiores artistas possuía uma situação financeira extremamente modesta. Com muita dor acabou vendendo para um colecionador japonês seu bem mais valioso, um retrato que Candido Portinari fez dele. Eu o encontrei pela última vez um ano antes de sua morte, e aos prantos falava: “será que Deus esqueceu de mim? Não vai me chamar nunca? ” Ao ver sua amargura e pobreza lembro de um pequeno trecho de um livro de conversações entre o compositor Igor Stravinsky e o maestro Robert Craft em que o compositor russo ao ver uma foto dos compositores austríacos Alban Berg e Anton Webern, que morreram na miséria disse: “Eu comparo o triste e miserável destino destes homens que não cobraram nada deste mundo mas que criaram uma música que será sempre lembrada quando falamos da primeira metade do século (XX) e com as “carreiras” de maestros, pianistas, violinistas, vãs excrescências. Daí vejo esta fotografia de dois grandes músicos, dois seres de espírito puro,””herrliche Menschen”, e fica restabelecido em mim um senso de justiça no mais profundo nível”. O mesmo penso ao falar de Camargo Guarnieri: nunca teve fortuna, nem contas na Suíça, mas, ao contrário de “excrescências vãs”, a música clássica brasileira não seria a mesma sem ele.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 01/02/17 11:44:57 AM
Sígrido Levental, em sua "estratégica" escrivaninha

Sígrido Levental, em sua “estratégica” escrivaninha

O pianista e professor Sígrido Levental, que faleceu em São Paulo no último domingo aos 75 anos de idade, foi um dos poucos idealistas verdadeiros que tive a oportunidade de conhecer. Pessoa de trato pessoal difícil, tinha a capacidade de aglutinar em torno de si verdadeiros seguidores da sua causa maior: a formação musical. A concretização deste ideal se deu principalmente através da fundação de uma das melhores escolas de música que o Brasil já teve: o Conservatório musical Brooklin Paulista. Lecionei nesta escola por mais de 8 anos, na época em que a instituição ficava na Rua Álavaro Rodrigues no Brooklin Paulista, bairro da zona sul da capital paulista. A escola, que ainda tem seu nome utilizado por uma instituição bem diferente, mudou de endereço, mas sobretudo mudou de gestor e seu credo maior:a importância da música na vida das pessoas. Apesar de sua origem judaica a sua verdadeira religião era a música.

Num imóvel tão simples uma das melhores escolas de musica do país

Num imóvel tão simples uma das melhores escolas de musica do país

Uma escola despojada e grandiosa

Na época em que lecionei no Conservatório musical Brooklin Paulista as instalações eram muito simples. Um imóvel que ocupava a parte superior de diversos estabelecimentos comerciais tinha 6 salas de aula, sendo uma maior, usada como auditório. Nenhum piano de cauda, mas todos os 5 pianos de armário perfeitamente afinados, salas extremamente limpas e todo material de apoio oferecido prontamente. Ganhávamos mal (quando recebíamos…) mas todos os professores eram absolutamente assíduos e só tínhamos hora de chegar pois a hora de ir embora era sempre uma incógnita. A crença maior de Sígrido era de que a música era algo a ser praticada e por isso insistia em que semanalmente alunos e professores se apresentassem em audições que chegavam a durar mais de duas horas, com o auditório “explodindo” de gente. Sem nunca ter recebido um tostão do poder público (talvez isso explique o êxito ideológico da empreitada) a escola, ao contrário de muitas instituições oficiais, oferecia cursos de quase todos os instrumentos orquestrais (violino, violoncelo, flauta, oboé, clarinete, fagote, trompa, trompete, trombone, tuba e percussão) além de cursos de alto nível de violão e piano. Sígrido Levental, que tinha uma excelente formação musical, supervisionava tudo o que era feito na escola. Lembro de pedir para que eu levasse até ele as harmonizações feitas por alunos em minhas aulas, e dava “puxões de orelha” quando um aluno demonstrava desleixo. Deficiente físico, ele observava tudo de sua escrivaninha que era estrategicamente colocada para tudo observar.

As audições de alunos do Conservatório: prática incessante

As audições de alunos do Conservatório: prática incessante

Uma editora dos sonhos

No início da década de 1980 Sígrido Levental resolveu expandir seus ideais musicais para outra área além da escola: uma editora que divulgasse a produção musical brasileira. Criou a “Novas metas”, um verdadeiro oásis editorial que não tinha como objetivo maior o lucro. Partituras e livros, que, apesar de serem difíceis de achar hoje em dia, são verdadeiras referências. Alguns poucos títulos que atestam a altíssima qualidade do que essa editora realizou: “O Som Pianístico de Claude Debussy” de José Eduardo Martins, “Garimpo Musical” de Régis Duprat, “Estética” de Koellreutter, “O Caminho para a Música Nova” de Anton Webern em tradução de Carlos Kater, “Percussão, visão de um brasileiro” de Cláudio Stephan, entre outras publicações. E por falar em percussão foi no Conservatório musical Brooklin Paulista que surgiu o primeiro Grupo de percussão do país que era dirigido pelo grande timpanista Cláudio Stephan. Sim, Sígrido Levental fez história. Mas quase me esqueço: a “Novas metas” editou além de livros importantes partituras de compositores brasileiros que não encontrariam quem publicasse suas obras como Sérgio de Vasconcelos Corrêa, Carlos Karter, Aylton Escobar e Mário Ficarelli. Idealismo puro!

Exemplo do alto nível da Editora "Novas Metas"

Exemplo do alto nível da Editora “Novas Metas”

O fim de um sonho

Minha impressão é de que pelas inúmeras bolsas de estudo que Sígrido Levental oferecia aos menos favorecidos e seu investimento a “fundo perdido” na editora é que levaram, depois de mais de 20 anos, a empreitada para seu fim. Mergulhado em dívidas e com sérios problemas de saúde Sígrido abandonou tanto a escola (que vendeu) como a editora (que faliu). Deste idealista permanece a lembrança de uma instituição de ensino musical absolutamente exemplar, e que me orgulho de ter feito parte antes de me transferir para Curitiba. Muitos músicos que hoje ocupam posições de destaque no país e no mundo atuaram como mestres ou alunos no Conservatório musical Brooklin Paulista. Fica para mim a sensação de gratidão e a certeza de que naqueles anos em que trabalhei com Sígrido Levental tive contato com um verdadeiro idealista. Era profissionalmente feliz e sabia disso.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 28/01/17 8:11:05 AM

A produção pianística brasileira já legou inúmeras obras primas. Desde as obras ecléticas de Ernesto Nazareth até as sofisticadas estruturas de Villa-Lobos, Mignone, Camargo Guarnieri e Almeida Prado, entre outros, a obra para piano de autores nacionais enriquece de forma decisiva o repertório deste instrumento. O compositor carioca Ricardo Tacuchian, nascido em 1939, dá uma sequência muito bem-vinda a esta notável tradição musical. Sem ser nacionalista a música de Tacuchian apresenta um indisfarçável sotaque brasileiro (vide a valsa lenta na seção central da obra “Tapeçaria”). No recente CD “água-forte” são apresentados momentos daquela que me parece ser a mais importante produção pianística brasileira composta nos últimos anos. A versatilidade do autor nos leva a algo parecido com alguns Estudos para piano que o compositor húngaro Gyorgi Ligeti escreveu no final do século passado: a dificuldade de se definir se a obra é tonal ou não. Na obra “Estruturas gêmeas” para dois pianos, de 1978, e dedicada à compositora Esther Scliar, temos uma inédita mescla de minimalismo com atonalidade. Aliás nesta obra há uma eficiente escrita de “clusters” que se desmancham, algo de uma originalidade que impressiona. Já na obra que dá nome ao CD, “água-forte”, de 2011, este pan tonalismo dá lugar a algumas seções que lembram até o jazz mesclada a uma escrita contrapontística sofisticada. O que surpreende é que esta variedade de meios não compromete nunca a unidade da obra e nem ao prazer da escuta. Ao que parece em alguns momentos o compositor teve a intenção de transpor em música algumas artes visuais, o que levou a títulos como “Grafite” (piano a quatro mãos), “Tapeçaria” (piano solo), “Azulejos” (também piano solo) e a já citada “água-forte” (dois pianos). Estruturas audaciosas e eficientes, criatividade inesgotável. E para completar o CD a mais importante obra brasileira inspirada na infância desde a “Prole do bebê” de Villa-Lobos: “Este verão eles chegaram”, 10 pequenas peças explorando o imaginário infantil, dedicadas ao neto do compositor que é inserido num universo de respeito ao mundo animal.

O compositor Ricardo Tacuchian

O compositor Ricardo Tacuchian

Interpretações de alto nível

Estas composições de Ricardo Tacuchiam são executadas por duas excelentes pianistas que são grandes defensoras da produção musical brasileira, aqui e no exterior. A curitibana Ingrid Barancoski, discípula de Ingrid Müller Seraphin e Vânia Pimentel, se doutorou na Universidade do Arizona e desde 1998 é docente na UNIRIO. Tem feito recitais em diversas cidades europeias (Viena, Roma, Heidelberg, etc) sempre apresentando obras de autores brasileiros. Vale a pena destacar que o grande compositor paulista José Antônio de Almeida Prado (1943-2010) dedicou a ela diversas composições e é considerada mesmo uma das maiores intérpretes de sua obra. Tacuchiam dedicou a ela a obra “Azulejos”. Já a carioca Miriam Grosman se doutorou na Universidade Católica de Washington e é Professora Titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Membro do Trio Francisco Mignone que é formado por ela e por Afonso Oliveira – flauta e Ricardo Santoro – violoncelo (aclamado pela revista francesa Diapason) é das raras instrumentistas capazes de executar os 6 Estudos transcendentais de Mignone. A obra “Tapeçaria” de Tachchian é dedicada a ela. Estas duas grandes artistas colaboram com a perpetuação de duas glórias nacionais: a excelência de nossos pianistas e a importância da produção pianística de compositores brasileiros. Este CD por enquanto pode ser comprado por R$ 28,00 (mais as taxas de envio) pelo site Tratore. O Link está aqui.
Em breve estará à venda nas livrarias Saraiva e Cultura.

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