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Falando de Música

Enviado por Osvaldo Colarusso, 24/04/16 8:46:10 AM
Mathilde Wesendonck em retrato pintado por Ferdinand Sohn em 1850

Mathilde Wesendonck em retrato pintado por Ferdinand Sohn em 1850

Ao ver o preconceituoso título do artigo saído na semana passada na revista “Veja” sobre a esposa de Michel Temer, lembrei-me imediatamente de duas mulheres “Belas, recatadas e do lar”, casadas com homens ricos e mais velhos, que por sua postura estoica frente a paixões avassaladoras de grandes artistas acabaram por inspirar duas importantes obras primas da história da música ocidental. Mulheres que, por serem casadas, preferiram ter uma atitude recatada, recusando que um “affair” se consumasse. Nestes casos ser “Bela, recatada e do lar” foi lucrativo para nós, os amantes da arte.

Wagner na época de seu exílio na Suíça

Wagner na época de seu exílio na Suíça

Mathilde Wesendonck e Richard Wagner

Richard Wagner (1813-1883), o tempestuoso compositor alemão, envolveu-se na Revolução de Dresden em 1848. Inspirado por ideais republicanos teve que fugir para a Suíça para não ser preso e mesmo enforcado. Em Zurique “comeu o pão que o diabo amassou”, mas não perdeu a pose: dava palestras e chegou mesmo a dirigir concertos. Em 1852 um casal assistiu a uma de suas preleções, Otto e Mathilde Wesendonck. Ele, 15 anos mais velho que ela, era um rico comerciante de sedas, e ela, extremamente bela e culta, e que com o tempo seria mãe de cinco filhos, se interessava em artes e mesmo em culturas orientais. Um de seus requintes era dominar diversos idiomas, inclusive o sânscrito. Com o tempo Otto começou a colaborar financeiramente para os custeios do compositor de forma considerável e acabou convidando o compositor e sua esposa para morarem na edícula de seu palacete. Wagner acabou se apaixonando por Mathilde, a tal ponto que até o suicídio passou em sua mente. Eu estive nesta “Villa Wesendonck” em Zurique e acho bem difícil concordar com os historiadores de que o caso de amor não se consumou, já que a tal da edícula fica a poucos metros da casa principal (hoje lá funciona um museu pouco conhecido). Wagner ficou encantado com os poemas de Mathilde e os transformou em belas canções, as “Wesendonck Lieder”. Todo o sofrimento de uma relação impossível deu ao mundo a ópera “Tristão e Isolda”, um hino a um amor ao mesmo tempo forte e impossível, afinal Isolda era casada com o pai adotivo de Tristão, o Rei Marke, seu tio. Por causa do escândalo feito pela esposa de Wagner, este acabou se separando dela, e abandonou Zurique. Interessante sabermos que a segunda esposa de Wagner, Cosima Liszt, sentia arrepios ao ouvir falar de Mathilde Wesendonck pois com certeza sabia da força do amor que Wagner sentira por ela. Depois de viver em Dresden e Berlim Mathilde faleceu em 1902, seis anos depois de seu marido.

A bela e recatada Hanna Fuchs-Robertin

A bela e recatada Hanna Fuchs-Robertin

Hanna Fuchs-Robettin e Alban Berg

Alban Berg (1885-1935) foi um dos compositores da assim chamada Segunda escola de Viena. Em 1925 o compositor tornou-se bem conhecido pelo êxito da estreia de sua ópera Wozzeck em Berlim. Casado com Helene Berg desde 1911 é sabido que teve incontáveis casos, mas logo após o sucesso de Wozzeck acabou conhecendo em uma viagem Hanna Fuchs-Robettin, 11 anos mais nova que ele, e pelo que se conta uma mulher de excepcional beleza. Ela era na época cunhada de Alma Mahler (viúva do compositor). Hanna era casada com Herbert Fuchs-Robetin, um rico industrial, e com ele tinha dois filhos. Alban Berg se apaixonou imediatamente e resolveu abrir seu coração para ela. Hanna foi muito firme, dizendo que estava totalmente fora de qualquer possibilidade abandonar seu marido e seus filhos. Berg deu um jeito para voltar a visitá-la mais algumas vezes até que ela exigiu que ele desaparecesse definitivamente. Logo em seguida a esta recusa de Hanna, Alban Berg deu início à composição de uma obra para quarteto de cordas, a Suíte Lírica. Com a morte de Hanna em 1964, sua filha descobriu entre seus pertences pessoais uma partitura da Suíte Lírica toda anotada por Alban Berg. Ela passou esta partitura para um especialista sobre o compositor, o americano George Perle. Foi ele que compreendeu a linguagem cifrada das anotações e escreveu o importante artigo “O programa secreto da Suíte Lírica de Alban Berg” para uma revista especializada na área (Musical Quaterly).

Alban Berg

Alban Berg

Em resumo, são seis movimentos. Nos dois primeiros a felicidade do encontro, nos dois próximos a impossibilidade e a dor. E nos dois últimos o desespero e a separação. No final da Suíte Lírica há uma citação de Tristão e Isolda de Wagner. Qual amor impossível Berg citava? Tristão e Isolda ou Mathilde e Richard? Como conclusão final a esta reflexão Isolda, da ópera, talvez fosse bela, mas nesse imbróglio todo foi a única que nem era “recatada e do lar”.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 20/04/16 3:16:47 PM
Yehudi Menuhim: grande músico e notável pensador

Yehudi Menuhim: grande músico e notável pensador

Venturas e desventuras de um virtuose

Lembrar de Yehudi Menuhim no centenário de seu nascimento (ele nasceu em 22 de abril de 1916 em Nova York) nos leva a uma profunda reflexão sobre a existência de um grande instrumentista, excepcional e brilhante numa época, criativo frente às limitações que surgiram. Criança prodígio já dava recitais aos 7 anos de idade, e aos 10 tocava a complicadíssima Sinfonia Espanhola de Éduard Lalo para violino e orquestra. Nesta época procurou o grande músico romeno Georges Enescu para ter aulas. Ao ouvi-lo Enescu prontificou-se a dar alguma orientação, mas imediatamente o convidou para tocar e gravar com ele o Concerto para dois violinos de Bach. Aos 13 era solista da Filarmônica de Berlim atuando junto ao grande maestro Bruno Walter e durante a Segunda Guerra Mundial tocou diversas vezes para as tropas aliadas, sendo acompanhado ao piano pelo compositor inglês Benjamin Britten. O auge de sua carreira como violinista acontece nos anos que seguiram a Segunda Guerra, especialmente suas atuações com o maestro alemão Wilhem Furtwängler. A partir daí a grande surpresa: Menuhim vai se tornando cada vez mais um instrumentista instável e inseguro, chegando mesmo a realizar apresentações sofríveis. Muito se discute a respeito desta transformação de Menuhim, um violinista perfeito que se torna um instrumentista imprevisível, e há quem afirme que, na tentativa de conscientizar o que era instintivo, acabou perdendo a perfeita espontaneidade. Adaptando-se a esta nova realidade Menuhim se dedica mais à música de câmera e à regência de orquestra, e começa a se interessar por outros tipos de expressão musical. Desde 1952, bem antes dos Beatles tornarem a coisa como um modismo, se interessa pela cultura indiana através do citarista Ravi Shankar e do professor de yoga Bellur Krishnamachar Sundararaja Iyengar, e na década seguinte passa a atuar com o violinista francês de Jazz Stéphane Grappelli. Neste período de ocaso como solista investe fortemente na educação musical fundando a Yehudi Menuhin School na Inglaterra, hoje em dia presidida por Daniel Barenboim. Yehudi Menuhim, que no final da vida tornou-se cidadão inglês, falecerá no ano de 1999 em Berlim.

Humildade e boas ações

Vou me ater a três passagens na vida de Menuhim que demonstram a grandeza de espírito deste músico que foi muito além de um instrumentista unicamente atento à sua carreira:

Yehudi Menuhim e Bela Bartók

O grande compositor húngaro Bela Bartók (1882-1945) emigrou para os Estados Unidos em 1939, fugindo da conturbada situação da Europa frente à Segunda Guerra Mundial. Nos Estados Unidos a leucemia que acometia Bartók se associou com o desprezo generalizado que o compositor encarou no continente americano. Chegou mesmo a passar fome. Admirador da obra do compositor húngaro Menuhim o procurou em 1944. O instrumentista era jovem, tinha apenas 28 anos de idade, mas confessou à sua família que não achava justo ele próprio ter caches altíssimos enquanto um gênio passava fome. Do próprio bolso pagou uma soma considerável para que Bartók escrevesse para ele uma Sonata para violino desacompanhado. Não só colaborou para a subsistência do compositor e sua esposa como deu destaque à Sonata em um recital no Carnegie Hall, uma das poucas ocasiões felizes nos últimos anos da vida do compositor.

Menuhim e Furtwängler em 1947

Menuhim e Furtwängler em 1947

Yehudi Menuhim e Wilhelm Furtwängler

O maestro alemão Wilhelm Furtwängler (1886-1954) permaneceu atuante frente à Filarmônica de Berlim durante o regime nazista. Isso lhe valeu inúmeras acusações de ter sido um colaborador de Hitler e que deveria enfrentar um tribunal internacional. Yehudi Menuhim, que era judeu, mas que sempre demostrou um comportamento crítico frente à ocupação israelense dos territórios palestinos, resolveu defender abertamente o maestro alemão abrindo mão de qualquer tipo de cache para atuar junto ao maestro quando todos o condenavam. Menuhim via que Furtwängler permaneceu na Alemanha nazista por amor à música e não para dar suporte a um partido político. As apresentações conjuntas do violinista com o maestro começaram em 1947 em Berlim, tendo se repetido em Salzburg, Viena e Lucerna até 1953. Executaram juntos os concertos de Beethoven, Bartók, Mendelssohn e Brahms. As gravações que realizaram mostram o ponto mais alto de Menuhim como violinista.

Yehudi Menuhim e Glenn Gould

Em 1965 Yehudi Menuhim procurava compreender uma das últimas composições de Arnold Schoenberg (1874-1951), a Fantasia para violino e piano opus 47. Com muita humildade foi até o Canadá e procurou um dos mais renomados intérpretes de Schoenberg naquela época, o pianista canadense Glenn Gould (1932-1982). A conversa entre os dois, documentada em vídeo, é uma das mais admiráveis trocas de ideias entre dois grandes artistas. Mesmo com visões conflitantes a execução da obra pelos dois é magnífica. O nível da conversa é de altíssimo nível, e vemos até que ponto a curiosidade de Menuhim, já um nome consagrado, o levava à descoberta de novos repertórios.

Menuhim junto a Ravi Schankar

Menuhim junto a Ravi Schankar

Legado

Além de ter encomendado a Sonata para violino desacompanhado de Bela Bartók e de ter atuado de maneira forte em termos de ensino interação cultural (Ravi Shankar e Stéphani Grapelli) Menuhim legou algumas gravações que permanecem como referências até hoje. As gravações que realizou ainda como adolescente em 1932 e 1933 junto a Georges Enescu mostram um impecável instrumentista. Destaque para a Sinfonia Espanhola de Éduard Lalo que ele gravou em Paris em junho de 1933. Todas as gravações que realizou com Furtwängler são soberbas sobretudo o Concerto de Beethoven gravado em Lucerna em 1947. Como maestro o grande destaque é a integral das Sinfonias de Paris de Joseph Haydn que ele gravou com a Orquestra do Festival Menuhim (Bath) entre 1971 e 1973.

Vídeos e áudio

Menuhim aos 17 anos tocando de maneira impecável a Sinfonia Espanhola de Lalo. Gravação de 1933

A histórica discussão entre Menuhim e Glenn Gould sobre a Fantasia opus 47 de Schoenberg. Legendas em inglês e alemão.

Menuhim se aproximando da cultura indiana através de Ravi Shankar

Enviado por Osvaldo Colarusso, 31/03/16 10:49:25 AM
Ferruccio Busoni, em fotografia de 1895

Ferruccio Busoni, em fotografia de 1895

Nascido em primeiro de abril de 1866 Ferruccio Busoni tornou-se, 150 anos depois de seu nascimento, apenas o sinônimo de alguém que realizou transcrições para piano de obras de Johann Sebastian Bach. Uma grande injustiça, pois, ao mesmo tempo em que foi um dos maiores pianistas de sua geração, foi um importante compositor e sobretudo um dos maiores professores de composição musical de seu tempo. Seu nome de batismo completo, citando três grandes artistas do passado italiano, já parecia prenunciar uma vida rica do ponto de vista intelectual: Dante Michaelangelo Benvenuto Ferruccio Busoni. Nascido na cidade italiana de Empoli (próxima a Siena e Florença, na Toscana) teve em seu pai o seu primeiro professor de música. Criança prodígio explorada ao extremo (declarou certa vez, com mágoa, que não teve infância) já aos 12 anos tinha composto mais de 100 obras, tocado como solista ao piano em dezenas de concertos, e dominava completamente quatro idiomas: italiano, alemão, francês e inglês. Apesar de ser italiano sua formação musical e humanística foi muito mais alemã e se deu principalmente na Áustria (Viena e Graz). Teve boas relações pessoais com Franz Liszt, Johannes Brahms e Gustav Mahler e uma marcante troca de ideias com músicos tão diferentes como Jean Sibelius e Arnold Schoenberg. Depois de ter vivido brevemente em Moscou, Helsinque e Boston fixou-se em Berlim em 1894, só vivendo fora desta cidade nos anos da Primeira Guerra Mundial, época em que viveu na Itália e na Suíça. É em Berlim que Busoni vai falecer, em 1924.

Compositor de alto nível

Como compositor Busoni dominou uma série enorme de formas e estilos. Autor do mais longo e extravagante Concerto para piano e orquestra (uma hora e 20 minutos, tendo ainda a participação de um coro masculino), escrito em 1906, tem obras que realmente valem a pena serem conhecidas pela beleza, ousadia e originalidade. Suas Sonatinas, especialmente a segunda (1912), que revela uma forte relação com o atonalismo e com a liberdade rítmica (não tem indicação de compassos), mostram que Busoni tinha uma mente especialmente aberta. Seu Prelúdio e Estudos em arpejo de 1923 demonstra um fascínio por Debussy e sua ópera inacabada Doktor Faust deixa bem claro que Busoni era muito mais do que apenas um virtuose. Esta obra, cujo libreto é do próprio compositor, é testemunho de um orquestrador refinado, um compositor sofisticado, e um poeta de grande envergadura. Se suas transcrições de Bach se tornaram muito conhecidas até hoje vale a pena lembrar que Busoni realizou transcrições geniais também de obras de Mozart e de Schoenberg. Deste último fez uma transcrição mais “pianística” da segunda das Três peças opus 11. Não mudando uma nota sequer demonstra o respeito que tinha pelo compositor austríaco, discutindo e questionando apenas aspectos instrumentais. Vale a pena lembrar que Schoenberg sucedeu Busoni na cadeira de Composição Musical que Busoni ocupou até sua morte, na Academia de Berlim. Entre os alunos que Busoni teve destacaria Kurt Weill e Edgard Varése.

Mahler, na época em que regeu a estreia de "Berceuse elegíaca" de Busoni

Mahler, na época em que regeu a estreia de “Berceuse elegíaca” de Busoni

Uma obra prima

Há uma obra de Busoni, escrita em 1909, que demonstra a grandeza deste músico. Trata-se da Berceuse Elegíaca para orquestra, cujo subtítulo é “Canção de ninar de um homem diante do caixão de sua mãe”. Esta obra, cujo início inspirou o famoso Concerto para violino “Em memória de um anjo” de Alban Berg (1935), foi estreada no último concerto que Gustav Mahler regeu em 21 de fevereiro de 1911. A originalidade da orquestração (cordas reduzidas no agudo e reforçadas nos graves) demonstram um estilo único, longe de Richard Strauss, Schoenberg ou Debussy. Definitivamente uma obra que demonstra um tipo de maturidade que se manifesta de forma altamente individual. Realmente uma obra prima.

Vídeos relacionados:

Um bela execução da Berceuse elegíaca

A mais ousada obra de Busoni, a Segunda Sonatina

O longuíssimo Concerto para piano e orquestra na vertiginosa versão de Marc-André Hamelin

Enviado por Osvaldo Colarusso, 15/03/16 11:54:14 AM

Lançado no início deste mês, o mais novo CD de Nelson Freire, todo voltado a obras de Bach, nos remete à discussão de se executar compositores barrocos em instrumentos modernos.O grande pianista e teórico americano Charles Rosen (1927-1912), em sua obra “A geração romântica”, afirmava que Chopin amava a obra de Bach pela ótica do piano romântico, onde o uso do pedal ressonante e o possível destacamento de uma voz secundária distorciam e alteravam as ideias do compositor barroco. No entanto esta visão romântica de Bach, segundo o próprio Rosen, deu origem a obras primas incontestáveis do compositor polonês, especialmente seus Prelúdios opus 28 (escritos em 1839), obra estruturada nas 24 tonalidades existentes como Bach fez em seu “Cravo bem temperado”.

A discussão estilística

Quando progressivamente, a partir de 1950, houve a revalorização dos instrumentos de época houve sempre a discussão sobre se a música de Bach para cravo deveria ser tocada nele ou num piano, e muitos viam como um verdadeiro crime tocar Bach ao piano fazendo uso do pedal ressonante. Não há dúvida que muitos pianistas souberam fazer uso inteligente dos recursos de seu instrumento e foram mesmo mais fiéis ao que acreditamos ser o estilo barroco adequado do que muitos cravistas. Exemplo máximo disso foi o pianista romeno Dinu Lipatti (1917-1950), que ao executar a Partita Nº 1 de Bach (existem duas gravações) conseguiu unir a beleza de toque a um rigor admirável. Com um toque mais agressivo marcaram época o canadense Glenn Gould (1932-1982) e o russo Sviatoslav Richter (1915-1997). O exemplo mais notável nos dias de hoje acontece com o pianista húngaro András Schiff, para muitos o maior interprete vivo de Bach ao piano nos dias de hoje. Curiosamente um dos mais rigorosos pianistas em termo de estilo atuaimente é o pianista de Jazz Keith Jarrett. Isso não impede que excelentes pianistas cultivem uma visão mais romântica do compositor alemão, alcançando resultados altamente satisfatórios do ponto de vista instrumental e muito questionáveis do ponto de vista estilístico. É o caso da argentina Martha Argerich, do americano Murray Perahia e do russo Mikhail Pletnev. Ouvir Bach com eles é muito prazeroso para muitos, mas causam um arrepio nos mais exigentes em termos musicológicos.

Um grande pianista romântico toca Bach

Nelson Freire em seu último CD, dedicado a obras de Johann Sebastian Bach, se revela um pianista maravilhoso entre estas duas maneiras de se encarar a música de Bach. Sua visão da Partita Nº 4 em ré maior se afasta de qualquer rigor musicológico (ignora uma boa parte das repetições solicitadas por Bach) e o uso generoso do pedal, especialmente na Allemande, cria uma aura muito mais próxima a Chopin de que a um compositor barroco. Ao contrário, ao executar a Suíte Inglesa Nº 3 em sol menor mantém um rigor estilístico de fazer inveja aos mais exigentes cravistas. Esta alternância se mantém na Fantasia Cromática em ré menor, que ele executa de maneira austera e na Tocatta em dó menor, um item que ele executa de maneira acentuadamente romântica. Nas transcrições feitas de chorais realizadas por Busoni, Silotii e Myra Hess a opção é mesmo um Bach bem “derramado”. No entanto qualquer que seja a visão de estilo a arte de Nelson Freire continua a nos fascinar. Ele permanece como um dos grandes pianistas da atualidade.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 06/03/16 11:21:45 AM
Nikolaus Harnoncourt, grande músico falecido ontem

Nikolaus Harnoncourt, grande músico falecido ontem

Nikolaus Harnoncourt, grande maestro, violoncelista e escritor alemão, faleceu ontem, aos 86 anos de idade em Viena. Harnoncourt era descendente de famílias ligadas à nobreza austríaca e de 1952 até 1969 atuou como violoncelista da Orquestra Sinfônica de Viena, atuando com grandes maestros do passado como Herbert von Karajan, Karl Böhm, Bruno Walter e Otto Klemperer. Apesar da fama destes maestros se irritava com frequência com a maneira que eles executavam obras barrocas e do período clássico. Neste aspecto acabou desenvolvendo inimizade com eles ao fundar o grupo Concentus Musicus Wien, onde os músicos usavam instrumentos de época e executavam as obras dos séculos XVII e XVIII bem longe de uma ótica romântica. Entre as revelações máximas de seu trabalho com este grupo podemos destacar as primeiras gravações completas e com instrumentos de época das óperas de Monteverdi e a primeira integral das Cantatas de Bach que Harnoncourt realizou junto ao grande cravista e maestro holandês Gustav Leonhardt. Nas décadas de 1960 e 1970 executou e gravou de forma radicalmente correta em termos musicológicos as grandes obras sacras e orquestrais de Bach. Nesta época foi severamente criticado, e um exemplo disso é o fato de Karajan ter proibido a entrada dele no Festival de Salzburg, chamando-o de amador e insano. Nikolaus Harnoncourt passou a ser maestro convidado das mais importantes orquestras do mundo a partir de 1980: Orquestra do Concertgebow, Orquestra Filarmônica de Viena, Orquestra Filarmônica de Berlim, Staatskapelle Desden,etc. Seu repertório se expandiu para o século XIX, sendo que suas apresentações (e gravações) das Sinfonias de Beethoven com a Orquestra de câmera da Europa (que usa instrumentos modernos) deu início a uma pratica que mudou completamente a execução de obras tanto de Beethoven como de Mozart e Haydn: a assim chamada execução historicamente informada. Ao utilizar conjuntos de instrumentos modernos Harnoncourt os ensinou a se aproximarem a uma forma “autêntica” de execução. A influência de Harnoncourt neste aspecto é tremenda, e ouvimos seus hábitos e pesquisas nas execuções de grandes maestros como Claudio Abbado, Simon Rattle, Ricardo Chailly, entre outros. Nos últimos anos expandiu ainda mais seu repertório, chegando a reger óperas de Verdi, sinfonias de Bruckner e até mesmo a ópera Porgy and bess de George Gershwin. Mas não há dúvida: seu legado maior é a acurada visão das partituras de Monteverdi, Bach, Mozart, Haydn e Beethoven.

Leituras obrigatórias

Entre os livros de Nikolaus Harnoncourt um é considerado de leitura obrigatória para quem se interessa por música e arte: “Musik als Klangrede”, lançado no Brasil pela Zahar em 1987 como “O discurso dos sons”, na magnífica tradução do cravista Marcelo Fagerlande. Nele fala do afastamento do ser humano de valores espirituais, e discute o empobrecimento de nossa sociedade pelo intenso consumismo. A maneira como justifica os valores musicológicos que defende demonstra que Harnoncourt fez uma extensa pesquisa para realizar o que fez. O livro demonstra que ele foi um intérprete que decididamente sabia o que fazia. Outro livro interessante lançado no Brasil é “Der musikalische Dialog”, em português “O diálogo musical”. Na realidade este livro é uma coletânea dos comentários que ele escreveu nos livretos de suas inúmeras gravações. Foi também lançado pela Zahar em 1993. Menos essencial, mas excelente também.Escrevi aqui no blog um texto sobre o pensamento de Harnoncourt. Leia aqui. (http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/falando-de-musica/inversao-de-valores-num-mundo-materialista/)

Enviado por Osvaldo Colarusso, 27/02/16 12:20:21 PM

Um repertório variado e eclético é sempre sinal de que um músico instrumentista, cantor ou maestro, são competentes. Grandes pianistas demonstram claramente que uma certa amplitude de obras que executam é essencial, visto que eles lidam com o maior repertório que existe no campo da música clássica. Por exemplo, os mais célebres pianistas da velha geração que ainda estão na ativa como Maurizio Pollini, Martha Argerich, Nelson Freire e Kristian Zimerman possuem um repertório invejável, por sua versatilidade e extensão. No entanto esta extensão e versatilidade está longe de números impressionantes daqueles que poderíamos chamar de “fenomenais”, pianistas que quase que ultrapassaram o limite do humanamente “possível”. Vou citar quatro exemplos daqueles que considero verdadeiros “campeões”.

Sviatoslav Richter – O enigma

O pianista russo Sviatoslav Richter (1915-1997) foi um instrumentista excepcional, e muto se fala de seu enorme repertório. Bruno Monsaingeon, que dirigiu um excelente documentário sobre o artista (Richter – O enigma), contou 833 composições para piano (entre obras solo, de câmera e como solista) que o artista executou durante sua vida. Somadas às centenas de canções que ele executou com frequência teríamos por volta de 1300 obras diferentes. Seu repertório ia de Bach, passando por Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Schumann, Liszt, Chopin, Brahms, Tchaikovsky, Mussorgsky, até Debussy, Ravel, Bartók, Alban Berg, Anton Webern, Prokofiev, Rachmaninoff e muitos outros. Uma curiosidade de Richter é que ele odiava integrais. Algumas curiosidades: nunca tocou certas sonatas famosas de Beethoven (“Ao luar” e Waldstein por exemplo),dos 24 prelúdios de Debussy tocava apenas 22 e das Peças de Fantasia opus 12 de Schumann nunca tocou a quarta e a sexta. Também nunca tocou as Variações Goldberg de Bach e nem concertos muito famosos como o de Nº 3 de Prokofiev e o de Nº 3 de Rachmaninoff. Mesmo com essas “excentricidades” o repertório de Richter impressiona, pelo tamanho, e pela maneira visceral que o executava.

Idil Biret – O fenômeno

A pianista turca Idil Biret (nascida em 1941) é aquela que destaco como a pianista com o maior repertório que já se teve notícia. Mais de 1000 obras para piano (entre obras solo, de câmera e como solista) é uma recordista em diversos aspectos. O primeiro deles fica óbvio ser esta quantidade fenomenal, mas é bom destacar que além de gravar e executar em concertos todas as obras para piano solo de Brahms, Chopin e Rachmaninoff, tocou e gravou todos os concertos para piano e orquestra de Beethoven, Brahms, Saint-Saëns, Prokofiev, Rachmaninoff e Bartók. Mas além disso demonstrou sempre não temer a linguagem contemporânea: tocou em concerto e gravou todos os Estudos de Ligeti e as três dificílimas sonatas de Pierre Boulez. Idil Biret foi aluna de Nadia Boulanger e Alfred Cortot. Posteriormente foi a aluna favorita de Wilhelm Kempff com quem executou aos 11 anos de idade o Concerto para dois pianos de Mozart em Paris. A extensão fora do comum de seu repertório lhe rendeu comentários de ser superficial e nunca ser uma referência. No entanto destaco o sucesso de algumas de suas interpretações que lhe valeram críticas muito elogiosas: suas gravações de Chopin (a única integral feita por um só pianista) lhe valeram o “Grand Prix du disque”, sua execução das Prelúdios opus 23 de Rachmaninoff foram elogiadíssimas em seu lançamento, e o próprio Boulez a elogiou publicamente quando do lançamento do CD com suas três sonatas executadas por ela. Nada mal.

Daniel Barenboim – O infatigável

O pianista e maestro argentino/israelense Daniel Barenboim, nascido em Buenos Aires no ano de 1942, é para mim um verdadeiro mistério, e sempre me pergunto, entre outras coisas, a que hora ele dorme e a que hora ele estuda. Como pianista seu repertório está entre os mais vastos que já se teve notícia: uma volumosa parte da obra de autores como Bach, Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Schumann, Liszt, Chopin, Brahms, Tchaikovsky, Albéniz, Debussy, Ravel, Bartók, De Falla, Alban Berg, Schoenberg, tanto em obras camerísticas, como em obras solo e como solista com orquestra. Como Sviatoslav Richter gosta muito de acompanhar cantores (Fischer-Dieskau, Jessye Norman, etc.) o que faz com que seu repertório se aproxime dos números do pianista russo. Soma-se ao fato de que ele é um dos maiores maestros da atualidade e que continua a atuar como pianista de forma intensa percebe-se que somando o repertório pianístico e o repertório como maestro Barenboim é o músico (instrumentista e regente) com o maior repertório da história. Vale lembrar que a qualidade da maior parte de suas execuções é sempre no mínimo boa. Aos 73 anos é realmente infatigável.

Cláudio Arrau – O refinado

O pianista chileno Claudio Arrau (1903-1991) também teve um repertório excepcionalmente grande, e creio que foi o único pianista que tocou toda (!) a obra de Bach para teclado. Refinado intérprete de autores tão diferentes como Schumann e Debussy, teve também uma eterna vontade de atualizar as plateias. Executou mais de uma vez a “Klavierstücke IX” de Stockhausen e gravou (fantasticamente) as “Três peças opus 11” de Schoenberg, autor que apreciava bastante e do qual chegou a apresentar o Concerto para piano e orquestra, e preparava a Sonata Nº 3 de Boulez quando de sua morte. Além desta integral de Bach, que Arrau pretendia gravar, marcou referência absoluta como intérprete incontestável de Schumann. Barenboim chegou certa vez a afirmar que o repertório pianístico de Arrau era o maior da história e ao contrário de Richter o pianista chileno apreciava integrais e deixou algumas referências neste campo: Noturnos de Chopin, Sonatas de Beethoven e de Mozart, Estudos transcendentais de Liszt. Tudo com um refinamento único.

Vídeos:

O incrível documentário “O enigma” de Sviatoslav Richter. Com legendas em inglês

Primeira parte

Segunda parte

Idil Biret executando o Concerto Nº 2 de Bartók.

Barenboim em recital comemorativo de 50 anos de carreira no Teatro Colon. De Mozart até Villa-Lobos

Claudio Arrau executa de forma transcendente a Appasionata de Beethoven

Enviado por Osvaldo Colarusso, 20/02/16 5:22:23 PM
O menino e o mundo: traço fantástico

O menino e o mundo: traço fantástico

O filme de animação dirigido por Alê Abreu, “O menino e o mundo” ganhou uma notoriedade rara entre nós não só pela premiação inusitada do Annie Awards deste ano (um prêmio bem importante a nível mundial para filmes de animação) e de ter obtido Menção Especial do Júri no Festival de Ottawa mas principalmente pelo fato de estar indicado ao Oscar na categoria de melhor animação (Best Animated Feature Film of the Year). Além do belíssimo traço do filme constatei qualidades (que são muitas) e defeitos (que são poucos) na parte musical do filme. A unidade, frente a estilos tão diversos, é a grande conquista desta trilha sonora.

Técnica do “Leitmotiv” e outros recursos mágicos

O aspecto musical mais facilmente memorizável é a melodia singela tocada numa flauta-doce que no filme o pai toca para o menino ao se despedir dele. Aquela melodia que o menino até acredita capturar em uma velha latinha é deformada diversas vezes durante o filme, na incansável busca da criança por seu pai. O sonho do reencontro se reflete na distante recordação, muitas vezes incompleta, daquela simples sequência de notas. Um outro personagem que também toca flauta doce utiliza uma melodia parecida, mas o menino sabe que aquele não é seu pai: a melodia é outra. Neste aspecto o filme usa aquilo que chamamos em composição musical de “Leitmotiv” ou em português “motivo condutor”, termo muito associado ao compositor alemão Richard Wagner.
A música original do filme foi composta por Gustavo Kurlat e Ruben Feffer, e percebemos em diversos momentos do filme as mágicas sonoridades que o famoso percussionista Naná Vasconcelos obtém de um vasto leque de instrumentos. Mas não há dúvida que o “GEM – Grupo Experimental de Música” acaba dando o verdadeiro contorno sonoro que se relaciona diretamente ao desenho. A criatividade sonora do grupo, que utiliza percussão e sintetizadores, parece mesmo tornar som as imagens caleidoscópicas do desenho. Outro achado é o grupo Barbatuques, notável conjunto experimental brasileiro, que utiliza sons extraídos do corpo humano sem instrumentos, dá um aspecto onírico às festas populares que o personagem principal do filme presencia. Da singela melodia da flauta doce, aos sons inusitados de sintetizadores e os ritmos extraídos do corpo vemos um único fio condutor, uma unidade vitoriosa. Num filme que abre mão de palavras não há a menor dúvida de que uma trilha sonora de qualidade é mesmo um instrumento indispensável para a empreitada. Neste aspecto a trilha sonora de “O menino e o mundo” está mesmo num nível raramente atingido por um filme brasileiro.

As palavras escritas tornam se símbolos sem sentido para o menino

As palavras escritas tornam se símbolos sem sentido para o menino

O Rap que destoa, e os créditos falhos

Não há dúvida que colocar no filme um nome de grande popularidade como Emicida, um dos mais famosos brasileiros dedicados ao hip-hop e ao rap, torna o trabalho mais atrativo. Mas no caso há uma enorme contradição entre o que se passou em todo o filme com a sequência final. Retratando a visão da criança em idade pré-escolar, as palavras nas placas e anúncios se tornam sinais indecifráveis. Mesmo as palavras trocadas por outros personagens são incompreendidas por nós e pelo menino. A inocência de seu olhar torna-se a grande qualidade do trabalho. No final do filme Emicida passa de trator na inocência da criança usando um texto óbvio. Não só pela primeira vez no filme ouvimos alguma palavra inteligível como pela primeira vez no filme ouvimos algo musicalmente previsível. Outra falha que considero grave do filme tem a ver com os créditos. Se há alguém a destacar na parte musical é o flautista Helcio Muller, que executa de maneira ideal as melodias pensadas para flauta doce. Nem na ficha técnica do filme, que é exibida no site do mesmo, seu nome aparece. Só descobri quem era o flautista vendo lentamente os créditos finais da película onde aparece seu nome. Uma injustiça, pois não há dúvida que o flautista assume uma parte importantíssima nesta bela trilha sonora.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 13/02/16 8:33:34 AM
Stockhausen: alguèm se atreve a tocar suas importantes obras?

Stockhausen: alguèm se atreve a tocar suas importantes obras?

Os recitais de piano possuem uma aparência absolutamente igual. Com isso os pianistas acabam desprezando a maior parte do grande repertório que existe para o instrumento ao se voltarem eternamente para as mesmas obras, e transformam uma apresentação num mero entretenimento, não um momento de reflexão e crescimento. Quer ver? Exemplo clássico de um recital: “Três sonatas de Scarlatti, uma sonata de Beethoven. Intervalo. Para ser um pouco “diferente” começa a segunda parte com alguma obra curta de Brahms e encerra com duas Baladas de Chopin. O público pede bis, e ele (ou ela) toca um Prelúdio de Rachmaninoff”. Esta é a regra. Não estranho uma artista da estatura de Martha Argerich não dar mais recitais solo. É evidente que existem exceções. Pouquíssimas, mas existem. A exceção mais conhecida vem da ousada carreira do pianista italiano Maurizio Pollini (nascido em 1942). Em meio a seus recitais coloca ao lado da Sonata “Hammerklavier” de Beethoven a Segunda Sonata de Boulez. Ou alterna obras de Debussy com as Klavierstücke (ele toca as IX e X) de Stockhausen. Em Salzburg, para traçar um roteiro de contraponto, justapôs uma missa de Ockegen (compositor renascentista, um coro foi chamado lógicamente) a fugas de Bach e uma das últimas sonatas de Beethoven. Ele encomendou, gravou e executou em diversas apresentações obras de seu conterrâneo e amigo, o compositor italiano Luigi Nono (1924-1990). Fiquei sabendo de um programa feito em Milão em que ele tocou “…Sofferte onde serene… “ de Nono (uma obra para piano e fita magnética) junto aos Prelúdios opus 28 de Chopin (de quem é um destacado intérprete). Se mesmo na Europa e nos Estados Unidos Pollini é um caso raro a coisa no Brasil é ainda pior. Algum brasileiro tocar uma obra como “Miroirs” de Ravel ou a Suíte opus 25 de Schoenberg está absolutamente fora de cogitação. Podem incomodar as avós ou tias que querem se embalar nas velhas melodias conhecidas. E o que dizer do repertório pianístico brasileiro? Para cumprir tabela algo curto de Villa-Lobos ou Guarnieri basta para satisfazer a obrigação. A fantástica produção pianística de criadores tão diferentes como Almeida Prado e Ricardo Tacuchian, Marlos Nobre e Amaral Vieira, entre outros, está longe da realidade dos recitais de piano por aqui. Em miúdos: mais vale a segurança do já conhecido do que o risco da novidade. Não é à toa que não há renovação de público.

O pianista Tim Ovens

O pianista Tim Ovens

O bom exemplo de Tim Ovens

O recital do pianista alemão Tim Ovens, que acontecerá na próxima terça feira dia 16, às 20 horas na Capela Santa Maria em Curitiba, parece mesmo ser um sopro de ar renovado. Assim como Pollini, Ovens alterna obras pouco conhecidas, que se utilizam de um vocabulário pouco usual junto a obras tonais de alto poder de comoção. O recital se encerra com “Quadros de uma exposição” de Mussorgsky, obra hoje em dia bastante conhecida e que foi até arranjada por uma banda de rock, Emerson, Lake and Palmer. Mas é bom saber que a obra, de 1874, foi desprezada pelos pianistas até que Maurice Ravel fizesse uma genial orquestração da partitura em 1922. Foi só a partir daí que pianistas passaram a conhecer a obra, não sem fazerem dispensáveis “correções” (Horowitz). “Quadros de uma exposição” é a obra russa para piano solo mais conhecida escrita no século XIX. Ficou esquecida por quase 50 anos. Bom lembrar.

O compositor americano John Cage

O compositor americano John Cage

As novidades

É, no entanto, na primeira parte do recital de Tim Ovens que se encontram as maiores novidades. Muito provavelmente três primeiras audições locais. Do compositor tcheco Leoš Janáček (1854-1928) será executada a Sonata para piano 1.X.1905. Esta data do título (primeiro de outubro de 1905) marca um protesto em que houveram mortos na cidade de Brno, na Morávia. O motivo da revolta foi a recusa das autoridades de permitirem a existência de uma universidade que ministrasse aulas em tcheco, e não em alemão, como ordenava o império de Viena. Dois movimentos em mi bemol menor com títulos bem descritivos: Pressentimento e Morte. Obra de forte impacto.
Do compositor americano John Cage (1912-1992) será apresentada a obra intitulada “Ophelie”. Composição de 1946, se inspira no caráter sensível e depressivo da personagem da peça Hamlet de Shakespeare. Impressionante é que a obra não é chocante por um uso constante de dissonâncias, mas sim por sua inusitada estrutura. Temos aqui quase que um happening musical embrionário. Obra anterior ao trabalho com piano preparado é um bom exemplo da primeira fase de Cage, que o aproxima muitas vezes às obras do francês Eric Satie. Talvez o ponto alto do recital seja a execução da Klavierstücke IX de Karlheinz Stockhausen (1928-2007). Obra escrita em 1961 é uma peça do período mais criativo do autor. Começa com 229 repetições do mesmo acorde com dinâmicas que variam de FF a pppp. Estes acordes permeiam outros sons, mais melódicos e suaves criando uma magia absoluta em termos de sonoridade. O efeito é quase hipnótico que se transforma num enorme teste na capacidade de concentração do intérprete. É importante lembrar que o grande pianista chileno Claudio Arrau (1903-1991) executou esta obra em diversos recitais, e a citava como a grande peça pianística escrita nos anos de 1960. Para encerrar algo sobre o pianista que vai se apresentar: Tim Ovens é alemão, mas atualmente é professor da Escola Superior de Música de Viena. Tendo morado um período na China atua como professor convidado no Conservatório de Pequim. Gravou quase a obra completa para piano de John Cage. Quem sabe uma pessoa tão cosmopolita poderá servir de inspiração para que a jovem geração reflita um pouco sobre o fazer música clássica de forma diferente no futuro. Assim espero. O pianista repetirá o concerto em São Paulo dia 22 (Santa Marcelina) e no Rio de Janeiro dia 24 (Unirio).

Vídeos

A Klavierstücke IX de Stokhausen na bela versão de Maurizio Pollini em um recital em Paris em 2002

A Sonata para piano 1.X.1905 de Leoš Janáček gravada na principal sala de concertos de Praga

Ophelia de Cage interpretada por Yuri Morimoto

Enviado por Osvaldo Colarusso, 29/01/16 8:39:11 AM
Répons de Boulez em recente apresentação em Paris

Répons de Boulez em recente apresentação em Paris

Pierre Boulez, falecido aos 90 anos no início de janeiro, ficou muito mais conhecido por sua atividade como maestro do que pelo seu trabalho como compositor. Penso mesmo que apenas como compositor ele não viveria numa enorme vila em meio a um gigantesco bosque em Baden-Baden na Alemanha, onde estão dezenas de valiosíssimas obras de arte. Sei que sua obra não é fácil de ser compreendida, mas é fato também a atitude tipicamente hostil do público de música clássica frente à criação contemporânea. Diante desta hostilidade muitos compositores, alguns até mesmo com as melhores intenções, resolveram “dourar a pílula”, facilitar as coisas para o ouvinte, e mudaram de estilo. Se observarmos certos compositores contemporâneos de Boulez, e que escreveram obras tão herméticas quanto as dele, percebemos em Boulez um tipo de firmeza que não ocorreu entre muitos de seus colegas. Karlheinz Stockhausen (1928-2007) por exemplo, um dos mais importantes compositores da segunda metade do século XX, autor de “Zeitmasse” e “Gruppen”, a partir dos anos 60 do século passado dedicou-se mais a happenings, verdadeiros shows onde a música, que se tornou capenga, era apenas um pano de fundo para seu “esdrúxulo” espetáculo. Luciano Berio (1924-2003), autor de obras primas como “Sinfonia” e das maravilhosas “Sequenzas”, em seus últimos anos de vida parou de compor e se dedicou exclusivamente, com resultados discutíveis, a orquestrar e completar obras de compositores do passado (Brahms, Puccini, Schubert, etc.). No caso de Krzysztof Penderecki (nascido em 1933) a mudança foi brutal, sendo que o ousado compositor de “Trenodias para as vítimas de Hiroshima” (1960) tornou-se uma espécie de neo-Bruckner em suas composições atuais. Mesmo os compositores mais jovens largaram uma postura ousada para se tornarem arautos do conservadorismo. É o caso do inglês Thomas Adés (nascido em 1977) que depois da originalidade de obras como Asyla (1977) dirigiu-se para um estilo bem mais açucarado. Aliás Penderecki e Adés são os campeões mundiais de encomendas destinadas a compositores de música clássica. A mudança de estilo foi bem providencial.

Homenagem póstuma a Boulez na cidade de Chicago

Homenagem póstuma a Boulez na cidade de Chicago

Uma produção desafiadora

Voltando a Boulez percebemos que sua produção evoluiu, amadureceu, mas nunca retrocedeu. Quando nos deparamos frente às suas primeiras obras importantes, como suas duas primeiras Sonatas para piano (1949-1950), percebemos uma certa aridez. Mas a partir de “Le marteau sans maître” (1955), obra para meio soprano e pequeno conjunto instrumental, o caminho mágico da ressonância parecia se abrir. Em 1965, com a obra Éclat, para pequeno conjunto instrumental, o som de Boulez assume um estilo que se tornou inconfundível. Reforço a questão da “ressonância” pois ao privilegiar instrumentos como a harpa, o vibrafone, o glockenspiel, o cimbalum , o violão e mesmo o piano, suas obras tornam-se realmente fascinantes por este processo “ressonante”. Uma de minhas obras favoritas do compositor, “Sur incises” (1996-1998), escrita para três harpas, três pianos e três percussionistas mostra, além de um vocabulário sempre novo, esta capacidade de certos instrumentos se complementarem. A culminância de sua linguagem acontece na obra “Répons”, concluída em 1984. As ressonâncias são enriquecidas por processos eletrônicos que modificam ao vivo os sons dos seis solistas (harpa, cimbalum, vibrafone, glockenspiel/xilofone e dois pianos). Obra ambiciosa, necessita, para ser executada, um espaço em que os seis solistas se coloquem a uma certa distância em volta da orquestra que deverá ficar no meio do espaço. Uma verdadeira Sinfonia onde percebemos nos seus 40 minutos de duração claras divisões de movimentos: uma introdução agitada, a entrada dos solistas, um movimento central bem lento, espécie de marcha soturna, um Scherzo rapidíssimo, e um Finale onde os sons se esvaem.

Mesmo com tantas dificuldades técnicas e de logística “Répons” foi executada em diversas cidades da Europa e Estados Unidos, e creio mesmo que a completa percepção da obra se dá mesmo numa execução ao vivo. Não há dúvida que muitas composições da última fase do autor, como “Dérive 1”, Dérive 2” (sua última obra completada, de 2006) e a versão orquestral de “Notations” são mesmo muito mais sedutoras, mas sua complexidade não facilita muito a sua realização e nem a sua compreensão. Em diversas ocasiões Boulez usou o termo “alienante” para composições previsíveis. Sua ideia sempre foi de lançar um desafio a quem mergulhava em suas obras, fosse esse um ouvinte ou um executante.

Boulez com o jovem maestro alemão Ulrich Pöhl

Boulez com o jovem maestro alemão Ulrich Pöhl

Novos intérpretes

Por muito tempo as obras orquestrais de Boulez só conseguiam serem realizadas quando ele próprio regia. Felizmente as inúmeras dificuldades técnicas de suas partituras têm encontrado intérpretes competentes que continuam a fazer execuções de altíssimo nível. Entre estes intérpretes seria justo aqui citar em primeiro lugar Daniel Barenboim, que tem regido diversas obras de Boulez, como “Sur incises”, “Dérive 1” e Dérive 2” e as versões orquestrais de “Notations”, que ele próprio encomendou. Destaco três jovens e excepcionais maestros: o alemão Mathias Pintscher, que dirigiu de forma brilhante “Répons” no ano passado na nova “Philarmonie” de Paris, Ulrich Pöhl, um outro jovem maestro alemão, que também regeu “Répons” em Utrecht, na Holanda, durante um Festival Boulez em dezembro de 2015 e o francês François-Xavier Roth que tem regido com frequência a obra de Boulez sobretudo à frente da Gürzenich-Orchester Köln (Colônia). Quatro músicos fantásticos que se propuseram a manter viva uma obra que muitas vezes é desprezada e esnobada. Aos músicos, especialmente os pianistas, que torcem o nariz ao se depararem frente às dificuldades das partituras de Boulez é bom lembrar que uma pianista que se tornou uma reputada intérprete de Chopin e Rachmaninoff, Idil Biret, gravou, e bastante bem, as três Sonatas para piano dele. Maurizio Pollini, renomado pianista, incluiu diversas vezes “Notations” e a “Sonata N° 2” em seus recitais. A obra de Boulez não faz mal à saúde, mas tem o poder de afugentar os preguiçosos, incapazes e, como dizia o compositor, os alienados.

Vídeos

Boulez com a Filarmônica de Berlim executa uma de suas “Notations”

Vídeos

Mathias Pintscher rege Répons em Paris no ano passado. Vídeo excepcional pela qualidade do som e da imagem. Bom de ver para quem, como eu, nunca assistiu uma execução da obra

Ulrich Pöhl dirige Le Marteau sans maître

Todas as “Notations” orquestradas com a bela regência de François-Xavier Roth

Enviado por Osvaldo Colarusso, 06/01/16 12:28:43 PM
Pierre Boulez, regendo em 2010

Pierre Boulez, regendo em 2010

O compositor e maestro Pierre Boulez faleceu ontem, dia 5 de janeiro, em sua casa localizada em Baden-Baden na Alemanha. Foi sem dúvida alguma um dos mais importantes músicos de sua geração. Compositor notável foi autor de algumas das mais importantes obras escritas na segunda metade do século XX como “Le marteau sans maitre” (1955) para voz de contralto e pequeno conjunto instrumental, “Répons” (1984) para orquestra de câmera e sons eletrônicos e “Notations” tanto em sua forma original para piano (1945), como em sua versão orquestral (1978). Esta versão orquestral se tornou sua obra mais conhecida. De suas três Sonatas para piano, a de Nº 2 (1948) é considerada a mais importante composição pianística escrita depois da segunda guerra mundial. Aluno de Olivier Messiaen (1908-1992) e de René Leibovitz (1913-1972) desenvolveu sua linguagem a partir da estética de Arnold Schoenberg (1874-1951) e Anton Webern (1882-1945). No entanto expandiu seus parâmetros utilizando técnicas aleatórias e transformação eletrônica de execuções instrumentais ao vivo.
Ao falarmos de Pierre Boulez não podemos deixar de citar sua excepcional carreira como maestro. Regendo suas próprias obras a partir de 1956 tornou-se posteriormente um convidado frequente das mais importantes orquestras do mundo (Viena, Berlim, Chicago). Seu repertório foi sempre voltado a obras que ele julgava dignas de serem divulgadas: Wagner, Debussy, Ravel, Bartók, Schoenberg, Webern, Berg, Carter, Ligeti e Mahler formavam o cerne de seu repertório. Sua regência simples, com mínimos gestos, sempre se primou pela clareza e transparência. Foi diretor musical da Orquestra Filarmônica de Nova York (de 1971 a 1977) e da Orquestra Sinfônica da BBC de Londres (de 1971 a 1975). Atuou também de 1970 a 1980 no Festival wagneriano de Bayreuth. Por muitos anos foi o responsável pelo Ensemble Intercontemporain (de 1979 a 1992), sediado em Paris, grupo de excelência especializado na execução de música contemporânea.
Outro aspecto muito importante do músico foi o de um conferencista excepcional e de um professor com excelente didática. Personalidade afável e simpática tornou-se um grande divulgador de uma estética complexa e pouco atraente à primeira vista, e que não encontrava um defensor de sua estatura.
Apesar de suas posturas muitas vezes radicais (nunca regeu uma obra de autores que não gostava como Tchaikovsky, Verdi ou Shostakovich por exemplo) era flexível ao ponto de realizar diversas apresentações com o mestre do rock Frank Zappa (1940-1973).
Seu legado é imenso, seja através de suas composições, mas também através de seus livros e de suas gravações. Obras de Bartók, Webern, Debussy, Ligeti e Alban Berg raramente foram tão bem regidas. Para quem quiser saber algo mais de Boulez escrevi um extenso texto quando o compositor completou 90 anos de idade no ano passado. Você pode lê-lo aqui.

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