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Enviado por Osvaldo Colarusso, 01/03/15 8:06:04 PM
O Palazzo Bardi em Florença, local de uma revolução na história da música

O Palazzo Bardi em Florença, local de uma revolução na história da música

Este é o segundo texto de uma série de cinco em que falarei de Compositores que tiveram uma importância excepcional na história da música. Como já disse anteriormente no primeiro texto esta é uma lista de compositores, famosos ou não, cuja influência foi sentida por séculos. Volto a afirmar que odeio listas do tipo dos maiores compositores, dos mais amados autores, etc. E nem quero fazer nestes textos uma lista exaustiva. Só quero observar como o trabalho de certos compositores influenciaram o trabalho de outros compositores, mesmo séculos depois de sua morte.

Parte II – O final da Renascença

No final da Renascença um grupo de compositores, sem saber, muda radicalmente a linguagem musical

No final do século XVI na cidade italiana de Florença, um grupo de compositores, pouco conhecidos hoje em dia, se reuniu sob a proteção de um nobre chamado Giovanni de’ Bardi (1534-1612). Este grupo de compositores ficou conhecido como “Camerata fiorentina”. Eles discutiam a possibilidade de se fazer um drama teatral com música do princípio ao fim. O problema estava nos trechos do texto que necessitavam serem compreendidos com clareza pelo público. Pela primeira vez na história da música algo foi inventado. No início recebeu um nome em italiano: “Stile rappresentativo” (estilo representativo). Posteriormente este procedimento ficou conhecido como “recitativo”. Neste procedimento um canto silábico é acompanhado por acordes bem simples, pouco sonoros. Com o canto sibilar e com os acordes pouco sonoros o público conseguia entender o que de necessário se deveria compreender para o entendimento do entrecho. Este texto tinha vírgulas e pontos finais e para que isso ficasse claro existiam um tipo de sequência de acordes que se tornarão as cadências, material básico da música tonal. Sem terem ideia, os compositores da “Camerata fiorentina” aceleraram o processo do nascimento da Harmonia, do Baixo contínuo, e do próprio tonalismo. Sem que tenha tido ideia da coisa, estes compositores, ao pensarem que estavam reavivando a “melopeia” das tragédias gregas, mudaram a história da música ocidental. Um tanto quanto anônimos hoje em dia, tornaram-se alguns dos mais influentes compositores da história da música.

Prólogo da Euridice de Peri. Um novo estilo abre caminho para o tonalismo.

Prólogo da Euridice de Peri. Um novo estilo abre caminho para o tonalismo.

Os membros da “Camerata Fiorentina”

Os principais compositores que fizeram parte da “Camerata fiorentina” entre 1577 e 1582, período áureo do grupo, foram Giulio Caccini (1551-1618), Pietro Strozzi (1550-1609), Vincenzo Galilei (1520-1591) e Emilio de’ Cavalieri (1550-1602). Posteriormente aproximou-se do grupo Jacopo Peri (1561 –1633), compositor da mais antiga ópera conhecida: Euridice (1600). Para se ter uma ideia da sofisticação intelectual dos artistas da “Camerata” basta lembrarmos que Vincenzo Galilei foi o pai do conhecido astrônomo Galileu Galilei, e que Emilio de’ Cavalieri era filho de Tommaso dei Cavalieri, aquele para o qual Michelangelo dedicou dezenas de seus sonetos amorosos. Existe muita discussão sobre quem teria sido o inventor do “Stile rappresentativo”. As hipóteses mais aceitas é de que este poderia ter sido mesmo Emilio de’ Cavalieri. Há outra corrente que defende Vincenzo Galilei como o criador da ideia. Vale lembrar que o termo “Camerata Fiorentina” apareceu pela primeira vez no prefácio da Euridice de Giulio Caccini (também de 1600).

Monteverdi: um gênio que se utilizou das novidades de Florença

Monteverdi: um gênio que se utilizou das novidades de Florença

Um gênio se utiliza dos ensinamentos da “Camerata Fiorentina”

Apesar da excelência dos membros da “Camerata Fiorentina” foi necessário que um verdadeiro gênio se utilizasse de seus ensinamentos. Este gênio foi Claudio Monteverdi (1567- 1643). Sem ter participado do grupo patrocinado pelo conde Giovanni de’ Bardi, Monteverdi vai se informar com cantores que participaram de apresentações de obras representadas em Florença, e dará um feitio genial ao “Stile rappresentativo”. No início do século XVII Monteverdi já era um consumado autor de Madrigais. Em suas óperas (a primeira delas Orfeo, de 1607) ele alternará o “Stile rappresentativo” com Madrigais e Canzonette, o que dará vigor ao seu pensamento dramático. A monotonia do “Stile rappresentativo” passa a ser em si um trecho musical de grande interesse, com a vantagem de que, ao contrário do madrigal, o invento florentino permitia a compreensão total do texto. A ópera tornou-se mesmo uma realidade. Não colocaria Monteverdi na lista dos mais influentes compositores da história, simplesmente por que ele foi totalmente esquecido a partir da segunda metade do século XVII, sendo que sua obra só foi redescoberta no século XX. Na realidade em termos de influência acredito que mesmo Emilio de’ Cavalieri e Vincenzo Galilei ou todos os membros da “Camerata Fiorentina” estão habilitados para pertencer à lista dos “mais influentes”.

O  filósofo Nietzsche: o primeiro a chamar a atenção da importância histórica dos florentinos

O filósofo Nietzsche: o primeiro a chamar a atenção da importância histórica dos florentinos

Friedrich Nietzsche: o primeiro a perceber a importância dos “florentinos”

Quando vemos que o baixo cifrado foi usado até o final do século XVIII, e que compositores como Bach, Mozart, Verdi e Wagner usaram formas novas do “Stile rappresentativo”, o “recitativo”, a influência fica bem clara. Só algo para refletirmos: nem Bach, nem Mozart, nem Verdi e nem Wagner conheciam uma única nota escrita por estes compositores que fizeram parte da “Camerata”. Vale a pena lembrar que o primeiro a chamar a atenção sobre a influência da “Camerata Fiorentina” na história da música foi o filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900). Em seu livro “O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música” (Die Geburt der Tragödie aus dem Geiste der Musik) escrito em 1872, ele demostra a amplidão de sua cultura ao discorrer da importância do “Stile rappresentativo” na história da música. Um filósofo, com 28 anos de idade, nesta questão, esteve à frente dos músicos de seu tempo.

Exemplos musicais

“Stile rappresentativo” numa das mais antigas óperas. Prólogo da Euridice de Caccini

Emilio De’ Cavalieri: Início de sua obra prima Rappresentatione di Anima, et di Corpo.

Trecho do Orfeo de Monteverdi (1607). Aos 2:48 o “Stile rappresentativo” genial da Mensageira contando a morte de Euridice. A genialidade de Monteverdi torna a invenção da “Camerata Fiorentina” um instrumento dramático de alto nível

Enviado por Osvaldo Colarusso, 26/02/15 4:43:12 PM
Notre Dame de Paris. Origem do mais influente compositor da idade média: Léonin

Notre Dame de Paris. Origem do mais influente compositor da idade média: Léonin

Esta é o primeiro texto de uma série de cinco em que falarei de Compositores que tiveram uma importância excepcional na história da música. A história da música ocidental apresenta em mais de 9 séculos, diversos criadores excepcionais, verdadeiros gênios. No entanto poucos dentre eles tiveram a oportunidade de serem amplamente influentes, fazendo com que suas obras marcassem presença nas criações feitas mesmo muitos anos depois de sua morte. É o que podemos chamar de compositores com um excepcional grau de influência. Isto não atesta necessariamente que eles seriam os maiores compositores da história. Eu particularmente odeio este tipo de lista, dos maiores, dos mais amados, etc. E nem quero fazer nestes textos uma lista exaustiva. Só quero observar como o trabalho de certos compositores influenciaram o trabalho de outros compositores. Muitas vezes uma influência tão distante no tempo que o compositor influenciado nem sabia da existência daquele que o influenciou. Sem listas exaustivas. Apenas a constatação de fatos históricos.

Parte I – A idade média

Na Idade média e na Renascença dois gênios com um enorme lastro de influências:

1- Léonin

A História da música ocidental se inicia no que se convencionou chamar de “Escola de Notre-Dame”, contemporânea à renovação arquitetônica da era Gótica (século XII) na França. Seus músicos tomavam como base o canto gregoriano, e sobre ele criavam melodias novas. Léonin (teria vivido supostamente de 1150 até 1201), o mais antigo deles, criou uma série de obras chamadas de “Organum” (em português “Órgano”). Nas “Organa” de Léonin existem trechos chamados de “discantus” ou “clausulae”, em que o canto gregoriano é manipulado ritmicamente para caminhar junto com a melodia criada pelo compositor. Numa “organa” estes trechos eram breves (os outros trechos, mais longos, usam o canto gregoriano em longas notas de base sobre a qual surge uma melodia de caráter improvisado). Pois é no “discantus” ou “clausulae” de Léonin que vai se desenvolver toda a composição musical dos séculos XIII e XIV. Segundo um pesquisador inglês do século XIII, cujo nome só é identificado como “Anonymous IV”, Léonin teria um sucessor, religioso como ele, Pérotin (teria vivido de (1160 até 1236), que foi o primeiro a tornar uma “clausulae” como uma obra independente. Isto deu origem ao “Moteto”, a mais importante forma musical composta naquela época. Pode-se perceber então a influência de Léonin em todas as obras anônimas que estão no Codex de Montpelier (século XIII) e nas composições de autores como Adam de la Halle (1237-1288), Philippe de Vitry (1291-1361) e mesmo de Guillaume de Machaut (1300-1377). O “Ite missa est”, a parte final da Missa de Notre-Dame deste último deixa clara, com seu uso do canto gregoriano manipulado ritmicamente, que a influência de Léonin pode ser sentida mesmo em obras escritas mais de um século e meio depois de sua morte. Em termos de espaço de tempo Léonin é o compositor mais influente de toda a história da música.

Suposto retrato do compositor Guillaume Dufay

Suposto retrato do compositor Guillaume Dufay

2- Guillaume Dufay

Depois de quase dois séculos a estética musical dirigia-se para significantes mudanças. Chegamos na era chamada Renascença, e a música vocal caminhava num sentido um pouco diferente da música do período gótico. Harmonicamente se valorizava mais os intervalos de terça, base para toda a harmonia a partir daí. Novamente um padre move uma revolução que deixaria fortes traços por mais de um século. Falo do compositor Guillaume Dufay (cerca de 1400 – 1474). Nascido no norte da França, bem próximo de onde hoje é a Bélgica, Dufay dá origem ao que chamamos de “Escola franco-flamenga”. Viveu inicialmente em sua cidade natal, Cambrai, mas desenvolveu uma parte considerável de sua carreira na Itália. Produziu principalmente música sacra, particularmente Missas e Motetos. Mas produziu também importantíssimas obras profanas, baseadas em formas que ele criou ou expandiu: Rondós, Baladas e Virelais. Suas missas utilizavam temas populares como “cantus firmus”, em substituição a trechos de canto gregoriano. A partir dele se escreveram Missas baseadas num famoso canto popular: L’homme armé (O homem armado). Missas baseadas neste canto serão escritas a partir da composição de Dufay por grandes mestres, alguns deles seus discípulos. Eis uma lista dos mais importantes compositores, entre mais de 30, que compuseram uma missa com este tema popular a partir de Dufay: Johannes Ockeghem (1425- 1497), Jacob Obrecht (1458-1505), Cristóbal de Morales (1500-1553) e Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525-1594), que aliás escreveu duas missas baseadas nesta melodia. Por falar em Palestrina, pode-se dizer que ele levou à perfeição os ideais contrapontísticos de Dufay. Em termos da música profana suas composições darão origem ao Madrigal italiano e à “Chanson” francesa. Para se ter uma ideia da importância do compositor, em 1436 Dufay compôs o moteto Nuper Rosarum Flores (Flores recentemente desabrochadas) para a consagração da Catedral de Florença. Diversos estudiosos falam que esta obra musical reproduz as medidas da arquitetura do templo. Dufay era um homem vaidoso e ambicioso. Podemos dizer com certeza que ele foi o mais influente compositor do século XV e primeira metade do século XVI. Sua música foi copiada, distribuída e executada em todos os centros culturais importantes da Europa ocidental. Quase todos os compositores nascidos depois dele, de Obrecht até Palestrina, absorveram pelo menos um elemento de seu estilo. A incrível distribuição de sua música é ainda mais impressionante quando consideramos que ele morreu décadas antes da disponibilidade de música impressa. Em resumo, Dufay foi o compositor mais influente por quase um século e meio, aproximadamente de 1425 até 1560.

Exemplos Musicais

Uma Organa de Léonin . Entre 2:58 e 3:34 uma clausulae, algo que modificaria a história da música

O Canto popular L’homme armé

Kyrie da Missa L’homme armé de Dufay

A futurista música profana de Dufay:

Enviado por Osvaldo Colarusso, 18/02/15 7:46:31 AM
Simon Rattle: uma nova maneira de apresentar as Paixões de Bach

Simon Rattle: uma nova maneira de apresentar as Paixões de Bach

Johan Sebastian Bach (1685-1750), para muitos o maior compositor de todos os tempos, foi um autor extremamente versátil. Apesar de alemão dominou também como poucos a arte instrumental italiana (foi um fã ardoroso de Vivaldi) e francesa. Apesar de ter composto todos os gêneros musicais de sua época, por convicções religiosas, nunca escreveu uma ópera. Convicto luterano, escreveu mais de duzentas cantatas para serem utilizadas nos cultos de sua igreja, e nos chegou duas “Paixões”, enormes composições que descrevem o sofrimento e a morte de Jesus, que também seriam apresentadas dentro de cultos na semana santa. As “Paixões” que nos chegaram são a Segundo São João (1724) e Segundo São Mateus (1727). A segunda é a obra mais longa (mais de três horas de duração) e mais ambiciosa do autor. O uso de meios operísticos para desenvolver a narrativa, mesmo sem a utilização de recursos cênicos, foi tão óbvio que o autor recebeu sérias reprimendas da direção da Igreja de São Tomaz em Leipzig, onde as obras foram apresentadas. Tradicionalmente estas belíssimas obras são apresentadas como oratórios.

Magdalena Kožená aos pés do violinista Daniel Satbrawa: imagem marcante

Magdalena Kožená aos pés do violinista Daniel Satbrawa: imagem marcante

Berlim 2010: mudança de hábito

O encenador americano Peter Sellars e o maestro inglês Simon Rattle, atual diretor musical da Orquestra Filarmônica de Berlim, se lançaram na epopeia de encenar a Paixão Segundo São Mateus em 2010. A ideia era de utilizar o palco da Philharmonie (a sede da orquestra) sem cenários e com um mínimo de recursos. Um retângulo de madeira ora serve de mesa para a última ceia, ora serve de tumba no final. O coro (o fantástico Coro da Rádio Alemã, dirigido por Simon Halsey), cantando de memória, ficou responsável por inúmeras movimentações cênicas. Os músicos da orquestra, nas partes de solo, também atuam convincentemente de forma cênica, e atuam do meio da plateia, dialogando com os cantores mesmo fora do palco. Instrumentistas e cantores estão todos vestidos de preto. O personagem principal é o Evangelista, aquele que narra utilizando o texto sagrado, magnificamente vivido por Mark Padmore, que se revelou, além de um cantor excepcional, um ator realmente convincente. Imagens inesquecíveis: a cantora tcheca Magdalena Kožená, outra grande atriz/cantora, executa uma belíssima dança ritual, ébria de alegria, na ária “Sehet Jesus hat die Hand”. Outra cena impressionate é quando ela canta a ária “Erbarme dich” aos pés do violinista Daniel Satbrawa (spalla da orquestra). A sensação de uma “ritualização” fica exacerbada com a participação do grande cantor Thomas Quasthoff que tem o corpo deformado pelo uso de talidomida. A miséria humana é ressaltada pelo olhar do coro em direção à plateia na parte final, compartilhando a insignificância humana. Quanto à execução musical, esta é absolutamente perfeita. Apesar da Filarmônica de Berlim ser uma orquestra de instrumentos modernos, Simon Rattle, de forma bem adequada, coloca em prática os muitos anos que tem de experiência com orquestras de instrumentos antigos. Esta “Paixão” soa leve, transparente, e os instrumentistas encarregados do Baixo Contínuo são grandes especialistas no assunto. Depois da estreia em 2010 em Berlim esta encenação foi levada a diversas cidades do mundo até 2013.

Camila Tilling, Marc Padmore, Christian Gerhaher e Roderick Willians: Virgem Maria, Evangelista, Pilatos e Jesus. Ao fundo o tenor Topi Lehtipuu

Camila Tilling, Marc Padmore, Christian Gerhaher e Roderick Willians: Virgem Maria, Evangelista, Pilatos e Jesus. Ao fundo o tenor Topi Lehtipuu

A mesma dupla, Peter Sellars e Simon Rattle, se propuseram, com a mesma orquestra, o mesmo coro, e basicamente os mesmos solistas, a encenar a Paixão Segundo São João no ano passado. Na minha visão o resultado é ainda mais impressionante. Se Jesus, na encenação da Paixão segundo São Mateus era uma voz vinda de longe, ele se torna o centro do drama. Não por acaso foi escolhido para o papel um soberbo cantor que é mulato: Roderick Willians, inglês filho de uma jamaicana. Seu martírio nos leva nesta encenação a um misto de sentimentos políticos, culpa, traição e fraqueza humana. O meio soprano Magdalena Kožená, a única a usar uma roupa vermelha, deixa clara a ligação afetiva que tem com Jesus. Fica bem claro que cria-se um papel: seria Maria Madalena? O fato da cantora tcheca estar grávida (seu terceiro filho com seu marido Simon Rattle) acentua ainda mais a tragédia. Outro papel criado: o da Virgem Maria, é vivido de forma excepcional pelo soprano Camila Tilling, vestida de azul. O grande barítono Christian Gerhaher encarna as duas faces da covardia: na primeira parte vive Pedro, com suas três negativas. Na segunda parte vive Pilatos, aquele que entrega para a multidão alguém que ele sabia ser inocente. O excelente tenor finlandês Topi Lehtipuu, que já atuara nas árias de tenor em 2010, aqui, também cantando as árias de tenor, vive o personagem do “discípulo que Jesus amava”. Mark Padmore mais uma vez nos surpreende como o Evangelista. Nas duas Paixões Sellars transforma as árias não em uma reflexão, mas sim em uma ação. Na Paixão Segundo São João isto é levado à perfeição. O espetáculo flui, e aquele que pensa que conhece a Paixão Segundo João nota por nota e palavra por palavra terá muitas surpresas e revelações.

Peter Sellars

Peter Sellars

Como ter acesso?

Não é fácil termos acesso a este fantástico material. O DVD ou Blu-Ray da Paixão Segundo São Mateus só pode ser comprado no site da Filarmônica de Berlim: Este é o link:

https://shop.berliner-philharmoniker.de/rattle-sellars-matthaeus-passion.html

Para a São João este é o link:
https://shop.berliner-philharmoniker.de/rattle-sellars-johannes-passion.html

Para cada um o preço é EUR 39,90.

A São João pode ser comprada também na Amazon alemã pelo mesmo preço. Eis o link:
http://www.amazon.de/Johann-Sebstian-Johannes-Passion-Simon-Rattle/dp/B00MGNA1IA/ref=sr_1_1?s=dvd&ie=UTF8&qid=1424089164&sr=1-1&keywords=johannes+passion

Pequenas mostras: Erbarme dich. O pedido de perdão para aquele que o negou.

Geduld – Topii Lehtipuu (Tenor) Hille Perl (Viola da gamba). O pedido a Jesus de paciência frente a tantas injustiças.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 30/01/15 10:04:11 AM

Carmina

Fundada em 1987 a orquestra Anima Eterna, sediada na histórica cidade de Bruges na Bélgica, se especializou em execuções de música clássica com instrumentos antigos, de época. Suas primeiras gravações foram elogiadíssimas integrais de sinfonias de Beethoven e Schubert. Seu fundador e atual maestro, o pianista belga Jos van Immerseel, depois de anos executando ao piano e regendo obras do século XVII e XVIII, passou a se interessar pela música do século XX. Suas leituras de obras de Debussy e Ravel, com a orquestra Anima Eterna, foram reveladoras, pois mesmo nestas obras os instrumentos autênticos foram procurados e utilizados. Depois de Mozart, Haydn, Beethoven, Schubert, Debussy, Ravel, chegou a vez de pesquisar a Carmina Burana de Carl Orff, uma das obras mais populares do repertório clássico. Obra baseada em textos medievais autênticos (você pode ler aqui mais sobre a obra), a maioria deles em latim, acabou se tornando a única partitura bem conhecida do autor. Na pesquisa Jos van Immerseel descobriu algo bem revelador: na estreia da obra, por pedido expresso do compositor, o coro e a orquestra utilizados eram bem menores do que se costuma usar hoje em dia (e que ele teria a sua disposição em Frankfurt). Nas execuções numa extensa turnê europeia no ano passado e na gravação em questão a orquestra se utiliza, por exemplo, de apenas 6 primeiros e 6 segundos violinos, como na estreia, e o coro não chega a 50 cantores. Foram procurados instrumentos de sopro utilizados na década de 1930 na Alemanha, e sobretudo foram eliminadas certas confusões estilísticas que em certos trechos levam erroneamente a música parecer ter sido escrita por Puccini ou por algum compositor de trilhas sonoras de Holywood. Coincidentemente na cidade sede da orquestra mora um grande amigo de Orff, Paul Hanouille, que orientou bastante a pesquisa. O resultado é uma clareza bem audível associada a um vigor excepcional. Considero excelente quando um cavalo de batalha como esta obra recebe uma leitura bem diferente. Carmina Burana nesta gravação foi realmente passada a limpo!

Um pequeno grupo nos revela o vigor da obra

Um pequeno grupo nos revela o vigor da obra

Intérpretes ideais

Para esta releitura o maestro Jos van Immerseel contou com interpretes excepcionais. O coro utilizado foi o Collegium vocale gent, especialista em música barroca, famoso por suas apresentações de cantatas e oratórios de Bach com o maestro Philippe Herreweghe. Os solistas são capazes de fugir de qualquer confusão estilística, sobretudo a excelente cantora coreana Yeree Suh, que afasta qualquer “operismo” da famosa seção “In trutina”. Soprano com registro super agudo, canta o ré no final de “Dulcissime” como ninguém. O excelente barítono alemão Thomas Bauer afasta o clima de ópera italiana na dificílima parte “Estuam interius” cantando com vigor numa estética muito mais adequada. O tenor belga Yves Saelens deixa bem claro os sofrimentos do cisne assado, cantando no registro super agudo da forma como o compositor pensou, sem as facilitações que se impuseram pelo modismo de executar a parte com contra tenor. Orff escreveu desta maneira!!! Por ter sido realizada ao vivo nos dias 18 e 20 de fevereiro de 2014 essa execução preserva toda a energia e a surpresa desta nova visão da obra. Este CD merece realmente ser conhecido.

Serviço:

Orff: Carmina Burana
Yeree Suh (soprano), Yves Saelens (tenor), Thomas Bauer (baritono)
Anima Eterna Brugge, Collegium vocale gent & Cantate Domino, Jos van Immerseel
Zig-Zag Territoires. No iTunes store pode ser baixada por U$9,99. Nas principais lojas de disco em torno de R$ 70,00.

Um vídeo (em flamengo com legendas em francês) sobre a turnê e sobre a gravação

Enviado por Osvaldo Colarusso, 25/01/15 7:03:37 PM
Curitiba em 1975: apaixonante

Curitiba em 1975: apaixonante

No mês de janeiro de 1975 saía pela primeira vez do Estado de São Paulo. Com 16 anos de idade, jovem músico estudando trompa, vim para a Capital Paranaense atraído pelo VIII Curso Internacional de música do Paraná, evento que duraria do dia 2 de janeiro até o dia 4 de fevereiro. Isso significa que passei mais de um mês em Curitiba, e que fiquei completamente apaixonado pela cidade. Já naquela época a cidade de São Paulo era caótica (não tanto quanto hoje), violenta (idem) e poluída. Dava para sentir a diferença. Na minha chegada vi que a cidade tinha uma fantástica Estação Rodo – Ferroviária, recém inaugurada. Ao me locomover para a Central Administrativa do Curso, percebi que em termos de transporte coletivo, a coisa era infinitamente melhor do que em minha cidade. A cidade contava com o primeiro calçadão do país, ideia ousada para aquela época. Outra coisa que me impressionou foi a limpeza e a quantidade de árvores. Mas tinha ainda mais: no dia 5 de janeiro daquele ano entrei pela primeira vez no recém inaugurado Teatro Guaíra. Mais um motivo para me apaixonar.

Entrega de certificados em 1975. Ao centro o compositor Osvaldo Lacerda. Da esquerda para a direita Padre José Penalva e Maestro Roberto Schnorrenberg

Entrega de certificados em 1975. Ao centro o compositor Osvaldo Lacerda. Da esquerda para a direita Padre José Penalva e Maestro Roberto Schnorrenberg

Músicos paranaenses

Àquela altura não tinha a menor ideia de que Curitiba viria a ser minha cidade. Julgava isso impossível pelo fato de que Curitiba naquela época não tinha nenhuma orquestra profissional. Depois de todo o deslumbramento pela cidade fiquei impressionado com o alto nível dos músicos paranaenses que conheci naquele Curso e no Festival que ocorria junto àquele evento. O primeiro músico daqui que me impressionou foi o Padre José Penalva (1924-2002). Compositor excepcional me encantou também como regente coral. Durante os Concertos do Festival (foram 37) ouvi o som de flauta mais belo que já tinha escutado através de um instrumentista nascido na cidade, Norton Morozowicz, e uma pianista paranaense, Maria Leonor Mello Macedo, que acompanhou o grande tenor Aldo Baldin no ciclo de canções de Schumann “Amores de um poeta”, se equiparando aos grandes pianistas de “Lied” do mundo. Pude constatar também o excelente trabalho da maestrina Hildegar Soboll Matins dirigindo a Orquestra Juvenil da Universidade Federal. Mas uma coisa que me fascinou muito na Curitiba de janeiro de 1975: o público dos concertos. Mesmo nos concertos de música de Câmera o recém inaugurado Teatro Guaíra estava sempre lotado. Curitiba era realmente, naquela época, uma cidade fascinante.

A histórica apresentação da Missa Solemnis de Beethoven no Theatro Guaíra. Estou entre os coralistas

A histórica apresentação da Missa Solemnis de Beethoven no Theatro Guaíra. Estou entre os coralistas

Há 40 anos, o fantástico VIII Festival de música de Curitiba

O VIII Festival de música e o VIII Curso Internacional de Música do Paraná eram eventos promovidos pelo Governo do Estado do Paraná, através de sua Secretaria de Educação e Cultura. A Diretora Artística do evento era a grande pianista paranaense, que viria a se tornar uma grande amiga minha, Henriqueta Garcez Duarte. No entanto o “cérebro” do festival era o Maestro Roberto Schnorrenberg (1929-1983). Homem extremamente culto e tremendamente organizado, foi o responsável por uma programação que rivalizava com os grandes festivais de música da Europa e dos Estado Unidos. Para lecionarem e se apresentarem nos concertos foram trazidos alguns dos melhores instrumentistas do planeta como o oboísta Ingo Goritzki, o clarinetista Waldemar Wandel (os dois alemães), os fagotistas Noel Devos (francês, radicado no Brasil) e Helman Jung (alemão), entre inúmeros outros. Para reger a fantástica orquestra de professores se alternaram, além de Schnorrenberg, o americano Howard Mitchell (naquela época diretor musical da Orquestra de Washington) e o paranaense Alceu Bocchino. Veio para o festival/curso o notável Quarteto Wilanow, naquela época o melhor quarteto de cordas da Polônia. Nos concertos eles realizaram a primeira audição brasileira de obras de Lutosławski e de Penderecki. Aliás, da Polônia veio também o excelente compositor Krzysztof Meyer, professor que me influenciou bastante. Eu assisti a todos os concertos e asseguro que uma data deste festival permanece histórica: em 17 de janeiro o violinista Erich Lehninger, o violoncelista Watson Clis e o pianista Gilberto Tinetti, foram “selecionados” por Schnorrenberg para executarem o Trio em lá menor de Maurice Ravel. O resultado foi tão brilhante que resolveram não parar de tocar juntos. Por 4 décadas eles formaram o “Trio brasileiro”, um de nossos melhores conjuntos de câmera. Para encerrar o Festival/Curso, todos os alunos e a orquestra de professores executaram por três vezes a Missa Solemnis de Beethoven, uma das mais complexas obras para coro e orquestra de toda a literatura. Entre os solistas dois que fariam, a partir destes concertos, sólidas carreiras internacionais: o contralto argentino Margarita Zimmerman e o tenor brasileiro Aldo Baldin. Pouca gente sabe, mas foi feita uma excelente gravação das apresentações desta Missa de Beethoven. Vale a pena lembrar que 200 alunos não residentes em Curitiba tinham hospedagem e alimentação garantida pelo curso. Por mais de um mês morei na “Sala dos outros” da Casa do Estudante Paranaense, dividindo beliches com músicos que viriam a ser bem conhecidos como Fabio Mechetti, Gerardo Gorosito e Marcelo Verzoni.

O Colégio Estadual do Paraná, local dos cursos . Foto de 1975

O Colégio Estadual do Paraná, local dos cursos . Foto de 1975

A famosa “antropofagia” paranaense

Voltei a Curitiba em 1977, de novo para participar, desta vez como aluno e como professor assistente, do IX e último Festival de música de Curitiba. Este IX festival foi ainda melhor em alguns aspectos, e só voltei aqui em 1985, para fazer o Concurso que me fixaria definitivamente por aqui. Foi só quando me tornei um cidadão paranaense é que, em conversas com as pessoas responsáveis pelos Festivais, descobri que os mesmos deixaram de existir por uma enorme dose de “oposição” das assim chamadas “forças ocultas”. Pude perceber em 1985 como os Festivais eram indesejados, especialmente pelas pessoas que uniam a política com a cultura. Pessoas que pensavam que o Festival era uma coisa de “paulistas e cariocas”, e que os paranaenses ficavam apartados do grande evento. Tendo sido aluno, e aluno/professor assistente, nestes Festivais, pude constatar exatamente o contrário. Em dados que consegui obter entre meus documentos, no VIII festival de um total de 669 alunos, 458 eram do Paraná. Foram executadas obras de diversos compositores locais, como Henrique de Curitiba, José Penalva e Alceu Bocchino, defendendo a música brasileira junto a Osvaldo Lacerda e Edino Krieger. Não é demais lembrar que 10 dos professores do curso eram paranaenses. Os Festivais foram substituídos pelas Oficinas de Música de Curitiba. No início estas duravam a metade dos antigos Festivais. Hoje a parte clássica do evento dura um terço do que duravam os antigos Festivais. Fica uma pergunta perturbadora: o Estado do Paraná era mais rico em 1975? Desconfio que não. E quanto à Curitiba que conheci em 1975…essa, infelizmente, quase não existe mais.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 21/01/15 10:46:45 AM
Uma mulher usando um "niqab"

Uma mulher usando um “niqab”

Um acontecimento, discretamente comentado na imprensa europeia, adquiriu uma importância considerável depois do atentado ocorrido em Paris no último dia 7 de Janeiro, quando na redação e nos arredores da publicação “Charlie Hebdo” 12 pessoas foram mortas por terroristas islâmicos. O que ocorreu deu-se no dia 3 de outubro do ano passado, na Opéra Bastille, a maior sede da Ópera de Paris. Vale a pena conferir passo a passo o que ocorreu.
Naquela noite aconteceria mais uma récita de La Traviata, de Verdi, uma das óperas favoritas do público que gosta do gênero lírico. Quando a obra começou, durante o Prelúdio, pouca gente notou que havia na primeira fila um casal, que ficou se sabendo depois, que eram turistas vindo de um país do Golfo Pérsico. O homem, trajado de roupas tipicamente árabes e a mulher com uma burka, ou como se diz por lá, um “niqab”, uma vestimenta que esconde totalmente a mulher, e deixa de fora apenas os olhos. Quando terminou o Prelúdio a cena descrevia uma festa na qual estavam Violetta Valéry (que estava sendo cantada pelo soprano albanesa Ermonela Jaho) e Alfredo Germont (que estava sendo interpretado pelo tenor espanhol Ismael Jordi). O grande coro, pôde perceber aquela mulher logo atrás do maestro com aquela curiosa vestimenta. O problema é que um pânico se instalou no coro pelo fato do maestro daquela récita ser um israelense, Dan Ettinger. Depois do famoso “brindisi” o coro sai de cena e deixa no palco apenas o par romântico. Foi durante o dueto de amor que a confusão se formou. O Coro ameaçou não continuar, e dizia para a segurança que era muita coincidência aquela mulher vestida daquela maneira bem atrás do maestro israelense. Sem o público saber, uma força policial foi armada, e em segredo foi entregue um bilhete ao maestro dizendo que havia um problema mas para que ele não parasse de jeito algum. De forma bem discreta, um policial à paisana foi até o casal, que tinha pago exatamente 231 euros por cadeira, e alertou que a mulher, se quisesse assistir a ópera, teria que tirar o tecido que cobria sua cabeça. O marido retrucou que a vestimenta era uma peça única. A pequena discussão alarmou quem estava sentado ao lado (e que tinha também pago os tais 231 euros). O marido e a mulher depois de uma breve conversa em árabe se retiraram. Não houve ressarcimento dos ingressos.

O teatro da Opera Bastille

O teatro da Opera Bastille

O que a imprensa discutiu na época é como os funcionários do Teatro permitiram que uma mulher entrasse no recinto usando uma vestimenta proibida em lugares públicos na França desde 2010. Como o controle não funcionou? O que se soube a posteriori é que o casal comprou os ingressos através de um “concierge” de um dos mais luxuosos hotéis da capital francesa, e que o marido era um milionário que atua na área petrolífera.
O que se percebe em todo este fato é que a histeria foi provocada pelo coro, que via o maestro israelense correndo risco de vida. Uma histeria que poderia ser encerrada 20 minutos depois, quando o Primeiro Ato termina, e quando o casal poderia ser convidado a se adequar ou se retirar. Fica claro o pânico em que se vive por lá, pânico num certo sentido justificado, tendo em vista o atentado que aconteceu três meses depois. Mas tenho certeza que tal fato, se contecesse depois de 7 de janeiro, teria contornos ainda mais escandalosos. Copio aqui o final da matéria sobre o evento no exemplar de Dezembro da revista Diapason: “O ocorrido não questionou o que o casal chegou a pensar da mulher sem véu, Violetta Valéry, uma “mulher mundana” que se colocou a serviço das leis e dos desejos dos homens.” Sábias palavras. Não é apenas o “niqab” que oprime as mulheres.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 12/01/15 11:11:08 AM

Oficina

Dentro da excelente programação artística da 33º Oficina de Música de Curitiba, haverá nesta quinta-feira, dia 15, às 20:30 no Guairinha, um concerto que se destaca tanto pelos intérpretes como pelas obras a serem executadas. Vejo este evento como o ponto culminante desta excepcional programação. Trata-se de um concerto camerístico em que se interpretarão dois quintetos de cordas: o de Mozart, para dois violinos, duas violas e violoncelo em Sol menor, IK 516, e o Quinteto em Dó maior para dois violinos, viola e dois violoncelos ID 956 de Schubert. Obras escritas em Viena, respectivamente em 1787 e 1828. Duas obras primas inquestionáveis, que não são executadas em Curitiba há muitas décadas!

Mozart em um retrato inacabado e anonimo

Mozart em um retrato inacabado e anonimo

Mozart – A linguagem dramática em meio à música de câmera

O grande pianista e musicólogo americano Charles Rosen (1927-1012) diz em seu livro “O estilo clássico” que as mais perfeitas obras camerísticas de Mozart são seus Quintetos de Cordas. Ao escrever quintetos com dois violinos, duas violas e um violoncelo, Mozart tinha a ideia de, ao tocar a primeira viola, ficar bem no meio do conjunto. O único Quinteto originalmente pensado para cordas em uma tonalidade menor é este, catalogado por Köchel como número 516, escrito no mesmo ano da ópera Don Giovanni, 1787. O ambiente dramático do teatro de ópera permeia esta partitura, e quase podemos perceber os suspiros e as angustias de personagens da referida ópera como Dona Anna e Dona Elvira. Mesmo no “Minuetto”, os acordes dramáticos nos tempos fracos nos levam a este tipo de dramaticidade. A introdução lenta do último movimento está entre as páginas mais belas e dramáticas do autor e mais “teatral” ainda é a guinada completa que acontece no final da obra: depois de cores pesadas e sombrias o Quinteto termina com uma afirmação inquestionável de amor à vida em uma tonalidade maior. Além destes aspectos este quinteto do ponto de vista de sua arquitetura é das obras mais equilibradas e perfeitas do classicismo musical. Drama, perfeição formal, soberba escrita para os cinco instrumentos: estamos aqui frente a uma inquestionável obra prima.

Schubert visto pelo pintor Gustav Klimt

Schubert visto pelo pintor Gustav Klimt

Schubert – O embate da vida e da morte no final da vida do autor

Escrito dois meses antes da prematura morte do compositor, em setembro de 1828, o Quinteto de Schubert, catalogado por Deutsch como Nº 956, é uma das composições em que mais se sente o limiar entre a vida e a morte que o autor vivia. Schubert, aos 31 anos de idade, tinha consciência de que seu fim era iminente. No último ano de sua vida escreveu freneticamente obras longas e densas: As três últimas sonatas, a Missa em Mi bemol maior, o ciclo de Canções “Viagem de inverno”, e muitas outras, a ponto de se supor que o autor dormia em 1828 menos de quatro horas por noite, tal a quantidade de música que ele escreveu neste período. O Quinteto em Dó maior, cuja cor dramática é reforçada pelas cores graves de seu segundo violoncelo, associa este drama pessoal do autor com um equilíbrio que o tornam um sério concorrente de ser a obra máxima do autor.
Desde o início essa justaposição de claro e escuro se faz presente: um suave acorde de dó maior é subitamente transformado num acorde dissonante (sétima diminuta) voltando para o acorde inicial. Outro contraste neste início: a frase em dó maior é respondida em um tom menor (ré), marcando a entrada do segundo violoncelo no conjunto. O primeiro movimento respira o tempo todo este tipo de ruptura. O segundo movimento começa com uma plácida melodia em textura de Choral, sublinhada por suaves pizzicatos do primeiro violino e do segundo violoncelo. O pianista polonês Artur Rubinstein (1887- 1982) se referia a este trecho como a visão musical mais precisa do que seria a paz que a morte traria. Mas tanta paz é perturbada por uma tempestuosa passagem que revela de forma clara esta luta final. A Paz volta na seção final do movimento, mas nos últimos compassos a tempestade aparece de forma velada. No Scherzo mais uma vez o claro e o escuro: início sonoro em dó maior, referências a sons festivos dá lugar a algo excepcional, nunca visto antes: em meio ao Schezo em Dó maior surge um sombrio Trio em Ré bemol maior. Belas nuvens escurecem a paisagem. Schubert nos faz viajar em meio a sua luta. No movimento final esta luta de claro e escuro continua. O movimento começa em dó menor, apresentando ideias alegres em meio a climas angustiantes. O Final da obra deixa aberta esta dúvida: o dó final é precedido por um ré bemol ameaçador. Schubert abre sua alma e nos revela o magnífico compositor que era.

Intérpretes

Obras excepcionais, há muito tempo não executadas em Curitiba são ainda mais valorizadas pelos intérpretes que as executarão: o Quarteto Carlos Gomes, formado pelos instrumentistas Cláudio Cruz (o diretor artístico do evento) e Adonhiran Reis – violinos, Gabriel Marin -, viola e Alceu Reis – violoncelo recebem dois instrumentistas excepcionais: a violista americana Jennifer Stumm no quinteto de Mozart e o brasileiro mundialmente conhecido, o violoncelista Antônio Menezes no Quinteto de Schubert. Ao que parece uma noite histórica na 33ª oficina de música de Curitiba.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 07/01/15 11:28:31 PM

Oficina

A programação artística da 33ª Oficina de Música de Curitiba, na parte clássica do evento, é a primeira grande surpresa de 2015. De 8 a 17 de janeiro Curitiba assistirá uma programação recheada de obras importantes na evolução da música clássica ocidental, sobretudo no aspecto da Música de Câmera. Ao contrário de anos anteriores, quando as boas surpresas vinham apenas do núcleo de Música Antiga, desta vez a curadoria exercida pelo violinista e maestro Claudio Cruz faz com que as boas surpresas aconteçam quase que diariamente.
Não pretendo, por questões éticas, me ater muito na questão dos intérpretes, mas me sinto bem à vontade de esmiuçar as preciosidades de um repertório que decididamente merece ser prestigiado.

O violoncelista Antonio Meneses: participação nos concertos do dia 15 e do dia 17

O violoncelista Antonio Meneses: participação nos concertos do dia 15 e do dia 17

Tesouros da Música de Câmera

O ponto alto desta excelente programação podemos observar nos concertos camerístico. A coisa começa a esquentar na sexta-feira, dia 9 de janeiro, quando na Capela Santa Maria às 20:30 horas serão apresentadas duas obras máximas da música de câmera com piano do romantismo musical: O Quinteto em Mi Bemol Maior opus 44 de Schumann e o Quarteto com piano Nº 3 em Dó menor de Brahms. Não sei se foi por acaso, mas até as tonalidades são bem próximas, e além disso nesta noite poderemos sentir de maneira bem evidente a arte de Schumann sendo levada à frente por seu amigo mais jovem, Brahms. No sábado, no Teatro Paiol às 18:30 outro programa que merece ser prestigiado. Desta vez a temática é a Música de Câmera com clarinete. Nada mais apropriado do que se escutar aquela que para muitos é a obra prima camerística de Johannes Brahms: O Quinteto em si menor opus 115 para Clarinete e Quarteto de Cordas, uma das obras primas do mestre. Que lindo, no ocaso da vida do compositor, escutar a contínua indecisão entre tons maiores e menores. Imperdível!!! Sei que prometi não me ater muito a intérpretes, mas Marcelo Oliveira ao clarinete tocando Brahms foi para mim uma das grandes surpresas no ano passado. No Concerto do dia 10, domingo, na Capela Santa Maria às 20:30 horas, o destaque serão as obras do compositor Karol Szymanowski executadas pelo seu quase homônimo, o pianista polonês Michal Karol Szymanowski. Raramente escutadas por aqui serão ouvidas do compositor polonês um Estudo do início da produção do mestre e uma Mazurka do final de sua vida: imperdível. Mas o ponto máximo de toda esta programação acontecerá no dia 15, quinta-feira. Felizmente o local do concerto foi mudado. Ao invés do Guairão este concerto acontecerá no Guairinha, muito mais apropriado para este tipo de repertório. Quando falo de ponto culminante de toda esta programação parto do fato que neste programa serão executadas obras rarissimamente apresentadas no Brasil. Tendo como interpretes alguns instrumentistas mundialmente famosos ouviremos o Quinteto para dois violinos, duas violas e violoncelo em Sol Menor IK 516, uma das mais profundas composições camerísticas de Mozart, e na segunda parte o notável Quinteto para dois violinos, viola e dois violoncelos em Dó maior ID 956 de Schubert. Quando constatamos a excelência dos interpretes chegamos à conclusão que este concerto poderia ser apresentado em qualquer grande capital cultural do mundo. Na obra de Mozart o Quarteto Carlos Gomes recebe como convidada a violista americana Jennifer Stumm, atual professora de seu instrumento no Royal College of Music em Londres. Na obra de Schubert o quarteto recebe um dos músicos brasileiros atuantes em música clássica mais conhecidos internacionalmente: o violoncelista Antônio Meneses.

A Oferenda Musical completa de Bach: programa imperdível do dia 12

A Oferenda Musical completa de Bach: programa imperdível do dia 12

Música Antiga: as boas surpresas mais uma vez

Rodolfo Richter, como em outras edições, traz músicos e músicas excepcionais para a Oficina de Curitiba. Neste ano a ênfase é colocada em compositores barrocos tchecos e em mestres poucas vezes ouvidos por aqui. No dia 10, sábado,na Capela Santa Maria às 20:30 horas,serão apresentadas obras de Biber, Schmelzer, Zelenka, Erlebach, Jiránek e Reichenauer num concerto chamado de “Stylus Phantasticus”. E no dia 12 de janeiro, segunda –feira, no Teatro Paiol, às 18:30, será apresentada em primeira audição local a Integral da Oferenda musical de Bach. Todos os Ricercares, Canons e o trio Sonata que formam esta que é uma das últimas obras de Bach, numa apresentação que mereceria ser repetida em outro lugar. Um acontecimento.

Para não dizer que não falei das orquestras…

Os concertos de abertura, hoje dia 8, com a Orquestra de Câmera de Curitiba, e o Concerto de encerramento, no Guairão no dia 17 com a Orquestra da Oficina, ambos regidos por Cláudio Cruz, tem itens que os tornam também obrigatórios. Destaque para o Concerto para Violoncelo e Orquestra de Elgar (dia 17) tendo como solista Antônio Meneses. Mais uma pérola nesta programação preciosa. Parabéns a todos, Claudio Cruz, Rodolfo Richter e Janete Andrade (coordenadora administrativa do evento). Cumpre a Curitiba prestigiar tanta música boa. Caso você deseja ver toda a programação da 33ª Oficina de Música de Curitiba consulte o síte http://www.oficinademusica.org.br

Enviado por Osvaldo Colarusso, 28/12/14 8:29:19 PM
O Papa Francisco ouvindo Et icarnatus da missa em Dó menor de Mozart

O Papa Francisco ouvindo Et icarnatus da missa em Dó menor de Mozart

O argentino Jorge Mario Bergoglio, O Papa Francisco, é o primeiro Papa nascido no continente americano, o primeiro pontífice não europeu em mais de 1200 anos e também o primeiro papa jesuíta da história. Além de tantas novidades ele não para de nos surpreender com opiniões ousadas e gestos impensáveis para um sumo pontífice. Uma Igreja que anteriormente renegava casais vindos de um divórcio, gays, e que tinha uma visão bastante estreita sobre o criacionismo, assume um ar bem mais tolerante nos gestos e na prática de seu mandatário. Nas últimas semanas até mesmo os animais mereceram uma menção esperançosa do sumo sacerdote, e na reunião que teve com a Cúria Romana na semana passada acusou frontalmente os velhos e renitentes sacerdotes que administram o Vaticano de terem ”Alzheimer espiritual”, “terrorismo de fofocas”, “esquizofrenia existencial”, “exibicionismo mundano”, “narcisismo falso” e “rivalidades e vanglória”. Enfim, a carismática imagem do atual Papa, nos surpreende quase que semanalmente com seus gestos e palavras.

Mozart, no lugar do tradicional Canto Gregoriano

Na última Missa do Galo, a tradicional cerimônia na noite do dia 24 de dezembro, o Papa Francisco nos surpreendeu de novo. Por sua escolha foi colocada no meio da tradicional celebração o “Et incarnatus est” da missa em dó menor de Mozart. O texto do “Et icarnatus est” fala diretamente sobre o que deveria ser comemorado no natal, e que passa ignorado pela maioria das pessoas: o nascimento de Jesus.

Eis o texto em latim:
Et incarnatus est de Spiritu Sancto,
Ex Maria Virgine: et homo factus est.

E em português:
E encarnou pelo poder do Espírito Santo,
Nascendo da Virgem Maria: e fez-se homem.

Tal inserção é uma absoluta novidade nesta tradicional liturgia. O Canto Gregoriano cedeu então espaço para uma das mais geniais concepções musicais focadas no nascimento de Jesus.

Mozart

Mozart

Mozart e o dogma cristão

Esta ária para soprano e orquestra faz parte de uma das mais importantes obras sacras de Mozart, a Missa em Dó menor IK 427, que assim como o seu famoso Requiem permanece inacabada. Não pela morte do autor, mas por algum motivo misterioso ele não compôs mais da metade do Credo e nem a parte final da missa, o Agnus Dei. Esta ária, que foi executada na missa do galo, é para soprano coloratura, o que, ao que parece, era o registro vocal da esposa de Mozart.
O Papa com certeza sabe que este trecho da Missa em dó menor tem uma estreita relação com o mistério deste dogma que diz que Deus se fez Homem. Por isso Mozart coloca a voz do soprano junto a três instrumentos de sopro solo (Flauta, oboé e fagote), realizando uma verdadeira alquimia sonora. A voz do soprano se funde aos solos instrumentais, assim como Deus se fundiu entre os seres humanos. O sentido é claro, e a perspicácia do Papa é considerável. E que alegria ouvir aquela divina música e ver ao mesmo tempo aquelas grandes realizações artísticas encontradas na Basílica de São Pedro como o baldaquino de Bernini e dentro daquele grande projeto arquitetônico que teve como um dos responsáveis Michelangelo. Durante toda a execução da obra de Mozart, por mais de 8 minutos, o papa, visivelmente cansado, ficou de joelhos. Vê-lo concentrado ouvindo esta obra foi outra imagem sensacional junto a esta divina composição musical.

A sabedoria do Papa

Quem a interpretou foi a cantora israelense Chen Reiss, e quem regeu foi o maestro austríaco Manfred Honeck. Quem tocou foram membros da Orchestra dell’Accademia Nazionale di Santa Cecilia de Roma. 24 horas antes da missa o papa foi avisado que a cantora era judia. A resposta foi digna deste grande Homem: “Nada contra, afinal a Virgem Maria também era judia”.

Vídeo

Eis o Credo completo da última Missa do Galo. Aos dois minutos começa a ária de Mozart

Enviado por Osvaldo Colarusso, 18/12/14 11:04:55 AM
Villa Lobos ao violão

Villa Lobos ao violão

Seguindo os passos da OSESP a excelente Orquestra Filarmônica de Minas Gerais iniciou sua carreira discográfica internacional junto ao selo NAXOS. Este selo, que revolucionou o mercado discográfico há 30 anos, apresentando artistas novos e um repertório inédito, tem se revelado nos últimos anos um selo sobre o qual reina um certo descrédito. Se, por um lado, NAXOS dá sequência a projetos importantes como por exemplo a integral das Sinfonias de Villa-Lobos com a OSESP e os Quartetos de Hindemith com o Quarteto Amar, tem abrigado também artistas de capacidade duvidosa que tenham um bom patrocínio por trás. Dois grandes instrumentistas brasileiros, que já atuaram com o selo NAXOS, me confidenciaram que a gravadora atualmente não se importa em receber tudo prontinho e empresta seu nome para o lançamento do CD, ficando com o eventual lucro, não pagando nada para os artistas. Só isso para se explicar a atuação de um violonista bem mediano como o italiano Andrea Bissoli, “estrela” de uma série de dois CDs da gravadora: “Villa-Lobos: os manuscritos para violão”. O violonista completa obras bem desinteressantes de um Villa-Lobos ainda adolescente, executa transcrições de Pujol, e apesar do subtítulo da série falar de “obras desconhecidas” executa, de forma sofrível, a famosa Aria das Bachianas brasileiras Nº 5 junto a uma cantora italiana (Lia Serafini) que canta num idioma ininteligível. O violonista executa também, de forma escolar e metronômica o” Sexteto Místico”, com um grupo italiano chamado Ensemble Musagete. As coisas melhoram um pouco nas obras para violão e orquestra, não pelo solista que toca tudo “certinho” e de forma aborrecida, e sim pela excelente Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Fico imaginando este acompanhamento orquestral, de nível internacional, junto a violonistas como Fabio Zanon, Edelton Gloeden, Paulo Porto Alegre, Paulo Pedrassoli e muitos outros. Estas execuções do “Concerto para violão” e da “Introdução aos Choros” passam desapercebidas frente aos registros antológicos de Zanon e OSESP (Introdução aos Choros) e Timo Korhonen e Sakari Oramo (Concerto).

A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais tocando em Campos do Jordão

A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais tocando em Campos do Jordão

O nível é completamente outro (muito mais alto) quando ouvimos a única faixa dos dois Cds sem violão. Apesar do título falar de “manuscritos para violão”, no segundo volume há uma excelente versão do “Choros Nº6”, uma das composições orquestrais mais importantes de Villa-Lobos. Ignorando o título da série, por quase meia hora temos um registro sinfônico que faz justiça a esta obra prima. Não me sinto muito à vontade de comentar o trabalho de um colega (o maestro Fabio Mechetti), mas esta maravilhosa versão merecia estar fora desta série. Cumpre dizer que há outra maravilha nestes Cds: a atuação (infelizmente em uma única faixa) da brasileira Gabriela Pace na “Canção de amor” de “A floresta do Amazonas”. Voz linda e dicção maravilhosa.
Esta série, por razões óbvias, passou desapercebida da grande imprensa internacional especializada em música clássica. Nem a Diapason, nem a BBC Music ou a Gramophone comentaram a série. Uma pena. Quem sabe a Filarmônica de Minas Gerais um dia inclui essa linda gravação do “Choros Nº 6” num CD só com obras orquestrais de Villa-Lobos. Esta lapidar leitura merece. Voce pode baixar estes Cds no iTunes ou no site classicsonline.com (U$ 7,99) ou comprar no site www.arlequim.com.br (R$ 48,00 cada disco, uma exploração, já que no site Amazon.com está por volta de U$ 4 ).

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