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Falando de Música

Enviado por Osvaldo Colarusso, 24/07/16 8:34:07 AM

Só recentemente Radamés Gnattali (1906-1988) vem ganhando um grande prestígio como compositor clássico. Um músico que transitou com enorme facilidade entre o gênero clássico e o popular viu sua produção erudita ser vista com desconfiança, chegando mesmo a ser acusado de superficial e vulgar. Um CD lançado recentemente pelo selo Bis na Europa com obras de sua autoria para piano, violão e violoncelo, gravado pela pianista brasileira Débora Halázs, o violonista alemão Franz Halázs e o violoncelista chinês Wen-Sinn Yang, e que ganhou o prêmio Grammy latino de 2015 como melhor lançamento clássico (veja aqui o texto que escrevi a respeito), fez com que a crítica especializada na Europa se perguntasse como um compositor desta qualidade permanece ainda praticamente desconhecido. Nesta trilha de reconhecimento surge agora um lançamento que deixará muita gente de queixo caído: a integral de sua obra para quarteto de cordas, magnificamente executada pelo conjunto que leva o nome do compositor, o Quarteto Radamés Gnattali. Fazendo um retrospecto na biografia do compositor vemos que por alguns anos ele foi violista de um quarteto de cordas no Rio de Janeiro, o Quarteto Henrique Oswald, e isto, entre outras coisas, explica a razão da soberba escrita para este tipo de conjunto. Gnattali nasceu em Porto Alegre filho de imigrantes italianos completamente apaixonados por música. Prova disso é que o casal escolheu para seus três primeiros filhos nomes de personagens de óperas de Verdi: além de Radamés sua irmã se chamava Aida e um de seus irmãos se chamava Ernani. Com tanta herança cultural o compositor se viu entre dois polos: a música clássica europeia e a música popular brasileira. Arranjador inquestionável tocava diversos instrumentos (violino, viola, violão, acordeom) e era um excepcional pianista. Nesta sua produção para quarteto vemos estes dois polos de forma bem clara: a estrutura de seus quartetos reproduz formas e contornos dos quartetos clássicos, mas a rítmica e o impulso melódico são extremamente ligados à música popular brasileira. Entre seus quartetos uma grande surpresa: o quarteto Nº 2 de 1943 é, entre suas obras que conheço, a mais sofisticada e criativa entre suas partituras em termos harmônicos e formais. De rara beleza rivaliza com outra obra absolutamente obrigatória, um quarteto não numerado: “Quatro quadros de Jan Zach”, obra composta em 1946. Jan Zach foi um artista plástico tcheco que, fugindo do nazismo, viveu no Rio de 1940 até 1951. Gnattali transpõe para música seus quadros de maneira livre e pouco usual. Tanto o Quarteto Nº 2 quanto estes “Quatro quadros de Jan Zach” estão, na minha opinião, entre as mais importantes obras para quarteto escritas naquela época, e não falo apenas em termos brasileiros ou sul americanos. São obras comparáveis aos maiores quartetos do século XX. Além dos quatro quartetos numerados e dos “Quatro quadros de Jan Zach”, existe um “Quarteto popular” de 1940 e uma série de obras curtas, com títulos bem brasileiros como “Chôro”, “Cantilena” e “Seresta”, as primeiras obras que ele escreveu para quarteto de cordas. Enfim uma excelente mostra da versatilidade e ecletismo do autor.

Quarteto Radamés Gnattali: Carla Rincón, primeiro violino. Fernando Thebaldi, viola. Hugo Pilger, violoncelo. Andréia Carizzi, segundo violino

Quarteto Radamés Gnattali: Carla Rincón, primeiro violino. Fernando Thebaldi, viola. Hugo Pilger, violoncelo. Andréia Carizzi, segundo violino

Engajamento e heroísmo

Além da excelência destas composições não posso deixar de destacar a atuação do Quarteto Radamés Gnattali. Este grupo, que se destaca como um dos principais quartetos de cordas da América Latina, tem sido de uma importância fora do comum em termos de divulgação do repertório brasileiro. Enre as gravações que o grupo realizou destaco, além de uma magnífica integral dos quartetos de Villa-Lobos, a maravilhosa integral de obras para quarteto do compositor carioca Ricardo Tacuchiam e um CD chamado “Quatro estações cariocas” que apresenta obras especialmente escritas para o quarteto pelos compositores Paulo Aragão, Jayme Vignoli, Sergio Assad e Maurício Carrilho. Seu engajamento, além de uma indiscutível qualidade técnica, faz deles excelentes advogados na causa da divulgação de um repertório injustamente negligenciado. Apesar destas gravações das obras de Gnattali terem sido feitas entre 2012 e 2013 (ainda com o violista Fernando Thebaldi, que não faz mais parte do grupo), num ato heroico, o quarteto lançou estas gravações apenas neste ano, para comemorar os 110 anos do nascimento do compositor, cobrindo do próprio bolso a maioria dos gastos. Por incrível que pareça um lançamento desta magnitude não teve nenhum tipo de apoio oficial, fora a cessão do estúdio. Mas não deixaram por menos: além de uma execução magistral o nível técnico da gravação, realizada no estúdio da Rádio MEC do Rio de Janeiro, o mesmo estúdio utilizado durante décadas por Radamés Gnattali, é surpreendente, e a apresentação do álbum de excelente qualidade. A sensação que tenho é de uma enorme reverência a estes fantásticos músicos: Carla Rincón, Andréia Carizzi, Fernando Thebaldi e Hugo Pilger. Afirmo: dois Cds absolutamente obrigatórios para quem se interessa por boa música, por quem se interessa por música brasileira e por quem deseja apoiar um lançamento como esse. No momento o CD só pode ser adquirido no email do site do quarteto: contato@quartetoradames.com.br. Esta obra e estes músicos merecem nosso completo apoio!!!

Enviado por Osvaldo Colarusso, 19/07/16 8:54:03 AM
Schoenberg compondo

Schoenberg compondo

Escrito em 1911 e dedicado à memória do compositor Gustav Mahler, o livro “Harmonielehre” (“Harmonia” em português) do compositor austríaco Arnold Schoenberg (1874-1951) tornou-se fonte de muitos e merecidos elogios, mas se tornou uma espécie de campeão entre os livros mais esquecidos nas estantes dos músicos, sobretudo dos músicos brasileiros. Não há dúvida de que é o mais completo tratado que já se escreveu sobre o assunto, mas é importante lembrar que está longe de ser um livro apropriado para se iniciar no assunto. Não podemos esquecer que Schoenberg foi um destacado professor no início do século XX em Viena, e o tipo de reflexão que ele faz em seu livro e no seu trabalho como professor tem a ver com a extrema sofisticação musical e cultural da então capital do Império Austro-Húngaro. Seus alunos o procuravam (neste período sempre deu aulas particulares) já detentores de uma formação não só básica, mas até mesmo de nível superior, como foi o caso do compositor Anton Webern (1883-1945), um de seus mais destacados discípulos, que o procurou quando já tinha concluído seu doutorado em música. Em resumo, “Harmonielehre” não é um livro para iniciantes, mas não tenho dúvidas de que é um livro essencial para qualquer músico. Nas centenas de páginas do livro o autor faz uma magistral reflexão sobre cada tópico, passando com desenvoltura acentuada em cada processo da linguagem musical que dominou exclusivamente o pensamento musical ocidental por quase três séculos. O livro chega a propor uma maneira revolucionária de prática para o aprendizado harmônico, onde não haveriam nem baixos dados e nem melodias para serem harmonizadas: tudo seria criado pelo próprio aluno, que necessitaria possuir uma desenvolvida escuta interna. Este ambiente favorável a este tipo de proposição desaparece da vida do autor quando Schoenberg se viu forçado a mudar para os Estados Unidos, fugindo do nazismo, e sua metodologia mudou radicalmente, tornando-se muito mais pragmática. Sua aluna americana Dika Newlin no valioso livro “Schoenberg remembered” (Pendragon Press, não traduzido para o português) fala de um certo desespero do compositor austríaco frente ao nível medíocre de seus alunos americanos, e sua forçada mudança de método. O livro “Funções estruturais da harmonia” (edição brasileira da Via Lettera) que Schoenberg escreveu em Los Angeles junto a seu discípulo Leonard Stein na década de 40, se parece muito mais com um típico manual: prático, conciso e objetivo. Há uma certa decepção e até mesmo uma desinformação quando se pensa que o livro “Harmonia” de Schoenberg seria uma iniciação à estética não tonal. Realmente, no ano da conclusão do livro ele já tinha escrito obras totalmente atonais, mas o livro “Harmonia” está longe de ser um guia para o atonalismo. Ele chega a citar algumas incursões por soluções não tonais numa parte extremamente pequena do livro, mas ele sempre defendeu a necessidade de se conhecer muito bem o sistema tonal para que haja um alicerce em busca de outros idiomas. O livro é muito mais esclarecedor e num certo sentido mais universal do que obras de outros teóricos contemporâneos de Schoenberg como Hugo Riemann e Heinrich Schenker, cujas obras a respeito de harmonia e análise musical excluem uma boa parte da produção musical não alemã. Apesar de suas reticencias Schoenberg em seu livro elogia Debussy e Bartók, coisa que os dois teóricos que citei jamais fariam.

Schoenberg lecionando na Califórnia em 1947

Schoenberg lecionando na Califórnia em 1947

O livro “Harmonia” de Schoenberg na realidade brasileira

Na insípida formação teórico-musical que temos no Brasil estamos a anos luz de distância do ambiente em que surgiu o livro. Minha sugestão para a completa compreensão do livro de Schoenberg é sempre passar primeiro por um guia bem prático e objetivo. Neste sentido recomendo e utilizo o livro de Walther Piston “Harmony”, em sua quinta edição (W. W. Norton & Company), sobretudo pelos seus excelentes exercícios. Além disso a nomenclatura utilizada é extremamente útil para quem pretende estudar nos Estados Unidos, por ela ser integralmente utilizada por lá. Mas ficar apenas num método como o de Piston é só andar meio caminho. Creio ser importante citar o meu próprio testemunho: conheci o livro de Schoenberg através do professor Michel Philippot, que o estudou com René Leibowitz, um aluno de Schoenberg. Fui aluno de Philippot por quatro anos, e quando fui apresentado à metodologia de Schoenberg já tinha uma boa formação de harmonia, vinda de meus estudos com os professores Claudio Stephan e Osvaldo Lacerda em São Paulo. O próprio Philippot me contou que seu contato com o “Harmonielehre” se deu depois de estudar Harmonia com Georges Dandelot no Conservatório de Paris. Também conheci (e tive algumas inesquecíveis aulas) o compositor e professor Max Deutsch, austríaco naturalizado francês, que foi aluno do próprio Schoenberg, aliás o último aluno europeu do mestre a falecer (em 1982 aos 90 anos de idade). Pois o próprio Max Deutsch me contou que em 1913, em Viena, leu todo o “Harmonielehre” em um dia (!), e procurou Schoenberg imediatamente para ser seu discípulo. Mas creio ser importante lembrar que ele me confessou que ao ler o livro já tinha uma formação sólida no assunto.

Para a sorte de nós brasileiros existe uma excelente tradução do livro para o português. O primoroso trabalho de tradução feito por Marden Maluf foi editado pela “Editora Unesp” em 1999. Por muito tempo trabalhei com a tradução para o espanhol (meus conhecimentos de alemão não me permitem a compreender totalmente o original) feita por Ramon Barce (Real Musical – Madrid) e redescobri o sentido de diversas passagens na esmerada tradução da edição brasileira. Já tive centenas de alunos de harmonia, mas com poucos fiz todo o roteiro traçado no tratado de Schoenberg. Apesar de terem sido raras as vezes confesso que foram os momentos máximos na minha vida de professor. Cada vez que revisito o “Harmonielehre” me alegro e chego à conclusão que Schoenberg, além de ter sido um grande compositor, foi realmente um dos maiores mestres e pensadores musicais de toda a história. Todos os seus escritos são importantes mas em “Harmonielehre” ele se supera.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 12/07/16 10:11:40 AM

Não há dúvida de que o piano ocupa uma prioridade enorme na música brasileira, tanto por uma literatura extraordinária como pelo fato de pianistas brasileiros (Guiomar Novaes, Magda Tagliaferro, Roberto Szidon, Nelson Freire, entre outros) terem alcançado um reconhecimento mundial. Mas seguindo de perto, o violoncelo no universo musical brasileiro se aproxima do piano em termos de relevância. Além de termos violoncelistas que são expoentes mundiais como Aldo Parisot e Antônio Meneses, vemos o violoncelo ocupar um destaque enorme na MPB, sobretudo através do primoroso trabalho de Jaques Morelembaum, sem falar de lideranças musicais que partiram do violoncelo. Os violoncelistas Guerra Vicente e Antônio Lauro Del Claro são exemplos de instrumentistas que foram capazes de multiplicar as manifestações musicais brasileiras partindo de seu instrumento, e muitos violoncelistas brasileiros, como Gustavo Tavares, que mora na Europa há muito tempo, tornaram-se compositores importantes. Seguindo este caminho trilhado por violoncelistas importantes um violoncelista gaúcho, nascido em 1969, tem ajudado bastante a melhor entender esta primazia do violoncelo entre nós. Hugo Pilger, violoncelista do Quarteto Radamés Gnattali e professor da UNIRIO, revelou há três anos que a importância do violoncelo entre nós se originou na extraordinária produção para o instrumento de nosso maior compositor, Heitor Villa-Lobos, que também foi violoncelista. Em 2013 gravou junto com a pianista Lúcia Barrenechea toda a obra de Villa-Lobos para violoncelo e piano e publicou o seu primoroso livro “Villa-Lobos – O Violoncelo e Seu Idiomatismo”, resultado de uma profunda pesquisa de valor inestimável como documentação de nossa história da música (veja aqui o texto que escrevi sobre o livro).
Neste novo CD de Hugo Pilger, ele divulga a extensa obra para violoncelo solo e Conjunto de violoncelos do compositor mineiro Ernani Aguiar. Uma obra que parte das obras para conjunto de violoncelos de Villa-Lobos como a Bachianas Nº 1 (Música para 4 violoncelos, a obra que abre o CD) passa pelo equivalente aos Duos de violino de Bela Bartók (Seis duetos para violoncelos) até chegar numa expressão completamente original na sua vertente mística: Threnun Fratri meo Aloysio (obra que conclui o CD), escrita em homenagem ao violoncelista Aloysio José Viegas, falecido em 2015. Em meio a esta belíssima produção temos raros exemplos de obras brasileiras para violoncelo desacompanhado sendo que fiquei muito impressionado com “Ponteando” de 1989, uma página para violoncelo solo de grande beleza.
Seguindo os passos do genial Guerra Vicente que gravou sozinho em play back todas as partes da Bachianas Nº 1 de Villa-Lobos (linda gravação à qual se soma uma antológica gravação do Trio de cordas de Villa-Lobos em que Guerra atua junto a Ludmila Vinecka e Glêsse Collet) Hugo Pilger gravou também todas as partes das obras para dois, três e quatro violoncelos em play back, mas com um requinte todo especial: gravou com 4 instrumentos diferentes, o que dá a sensação de individualidade em cada parte, mesmo tendo sido tocada por apenas um instrumentista. Em termos técnicos e musicais todas as execuções são de um nível altíssimo, e sinto que a dinastia de violoncelistas brasileiros que vem de Iberê Gomes Grosso e do próprio Villa-Lobos encontra em Hugo Pilger um excelente continuador.
Creio ser importante lembrar que este CD não obteve apoio de nenhuma instituição oficial, sendo que a maior parte do custo foi bancado pelo próprio instrumentista. Num país em que o Ministério da Cultura libera financiamentos até de casamentos julgo ser vergonhosa esta omissão. Este primoroso CD, com um acabamento técnico excepcional, e com um encarte com comentários utilíssimos do maestro André Cardoso, pode ser adquirido através do iTunes (U$ 7,99) em MP 3, e o CD propriamente falando pode ser obtido no site Arlequim (http://www.arlequim.com.br) por R$ 34,00 , no site clássicos (http://www.lojaclassicos.com.br) pelo mesmo preço e através do email villaeovioloncelo@gmail.com por R$ 30,00.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 07/07/16 9:22:45 AM

Muito pesar pela morte prematura do cravista e maestro Nicolau de Figueiredo acontecida ontem, dia 6, em São Paulo, cidade onde nasceu em 1960. Aluno de piano de Sonia Muniz na Escola Municipal de Música logo se interessou pelo cravo e pelo repertório musical do século XVIII. Estudou com grandes cravistas, mas fica nítida a influência que o excêntrico cravista Scott Ross (1951-1989) teve sobre ele. Existe inclusive um vídeo de Scott Ross dando aulas para seus alunos favoritos, pouco antes de sua morte, e Nicolau está entre eles (você poderá acessar no final deste texto).
Sua atuação como cravista (tocando fortepiano) nas montagens e gravações de óperas de Mozart (Cosí fan tutte e Le nozze di Figaro) dirigidas por René Jacobs causaram até mesmo ciúme dos cantores por sua atuação ter merecido mais destaque das críticas do que a atuação dos cantores. Sua musicalidade aliada a uma criatividade sem limites fazia de suas atuações um evento sempre único. Nicolau de Figueiredo foi o único brasileiro, além de Nelson Freire, a receber uma crítica muito especial, “Choc – Le Monde de la musique” da conceituada revista francesa “Le Monde de la Musique”, por sua gravação de Sonatas de Scarlatti em maio de 2006. O crítico Philippe Venturini comenta nesta crítica que Nicolau se iguala, neste CD gravado na Suíça, aos maiores cravistas que ele já ouviu. O imenso sucesso deste primeiro CD fez com que outros aparecessem, com obras de Soler, Johann Christian Bach, Seixas e Haydn.
Humilde ao extremo não teve a ciência da autopromoção. Por isso mesmo este sucesso europeu passou desapercebido para a maioria dos músicos brasileiros, exceção feita àqueles que se dedicam à música barroca. Voltou a morar no Brasil em 2011, e atuava em sua cidade natal como professor e recitalista.

Lembranças pessoais

Duas lembranças pessoais: Nicolau foi meu aluno de Harmonia entre 1978 e 1979, quando ainda eu morava em São Paulo, e sempre fiquei impressionado pelo fato dele sempre me entregar os exercícios com requintes excepcionais, incluindo ornamentações bem sofisticadas, realizando muito mais do que simplesmente harmonizar um baixo cifrado. Além desta lembrança como professor ficará para sempre a memória de um concerto que assisti em Curitiba no ano de 2005. Nicolau ao cravo dirigiu o oratório “O Messias” de Handel com a Camerata Antiqua, tendo notáveis solistas como Jeniffer Smith e Paulo Mestre. O que se passou naquela noite no palco do Teatro Guaíra é algo difícil de definir, mas, em poucas palavras, nunca ouvi a obra de Handel numa execução tão convincente e tão bela, nem ao vivo e nem em gravações. Nicolau realizou um milagre: fez o coro da Camerata Antiqua soar como se fosse um coro muitas vezes maior. Era realmente um artista excepcional.

Vídeo

Nicolau tendo aula com Scott Ross

Enviado por Osvaldo Colarusso, 02/07/16 4:23:27 PM

Plácido Domingo: uma ressurreição

Plácido Domingo, este notável cantor espanhol, continua a nos surpreender mesmo estando com 75 anos, idade na qual a maioria dos cantores de ópera já se retiraram dos palcos. Depois de se tornar o tenor mais versátil e com o maior repertório de toda a história da ópera, passa a cantar nos últimos anos no registro de barítono. Desde 2010 vem interpretando o papel título de “Rigoletto” de Verdi, uma ópera em que sempre atuou no papel do tenor, o “Duque de Mantua”. Outros papeis de barítono de óperas de Verdi entraram em seu repertório nos anos seguintes: “Simon Boccanegra”, O “Conde de Luna” (da ópera “Il Trovatore”) e “Nabucco”. O que mais me surpreende é que aquilo que aparentava ser um fim de carreira de um grande tenor (eu o assisti numa apagada performance de “Siegmund” na “Valquíria” de Wagner em 2010) tornou-se um renascer do artista. Plácido Domingo, mesmo septuagenário, se inscreve na lista dos maiores barítonos verdianos da história.

Uma carreira cheia de recordes

Plácido Domingo começou a cantar profissionalmente aos 18 anos em alguns teatros do México e de Israel. Nesta época, apesar de atuar em partes de barítono de Zarzuelas, cantava papeis pouco pesados de tenor como “Ferrando” do “Così fan tutte” e “Don Ottavio” do “Don Giovanni”, ambas de Mozart. Sua guinada para papeis mais pesados e dramáticos coincide com suas estreias no Metropolitan Opera de Nova York, na Ópera de Viena e na Ópera de Hamburgo, no final da década de 1960. Especializado no repertório italiano, cantando os mais importantes papeis dramáticos de Verdi e Puccini, a partir de 1968 se aventura no repertório wagneriano. Sua formação musical excepcional (já atuou como Maestro e é um bom pianista) lhe permite aprender novos papeis com impressionante rapidez, e talvez isto tenha feito com que ele se torne o tenor com o maior repertório da história como aponta o “Guinness Book”: 147 papeis diferentes, em 6 idiomas: italiano, espanhol, francês, inglês, alemão e russo. Para nós brasileiros é interessante lembrar que o tenor espanhol atuou em duas produções de “Il Guarany” de Carlos Gomes, em Bonn e Washington. Sua competência e versatilidade o levaram a ser o tenor mais desejado de todos os grandes maestros e de todos os grandes teatros de ópera do mundo, atuando em centenas de gravações tanto de áudio como de vídeo. Foi o primeiro tenor espanhol a atuar no Festival wagneriano de Bayreuth na Alemanha (cantou “Parsifal” e “Siegmund” na “colina verde”) e foi o cantor que mais vezes atuou na abertura da temporada do Metropolitan Opera de Nova York: 24 vezes. Aliás até hoje Domingo já cantou 673 vezes naquele teatro, o dobro das vezes que seu colega Luciano Pavarotti cantou por lá. Outro recorde absoluto de Plácido Domingo: foi o único cantor até hoje que chegou a cantar em cena 225 vezes o papel de “Cavaradossi” da “Tosca” de Puccini. Nada mal!

O Plácido Domingo essencial

Muito difícil escolher o realmente essencial entre as centenas de registros que Domingo realizou. Escolho cinco entre os mais notáveis testemunhos deste grande artista.

Verdi – “Il Trovatore” – Domingo. Leontyne Price, Sherril Milnes. Regência: Zubin Mehta.CD.1970.
Este registro foi feito depois das legendarias apresentações feitas no Met regidas por Zubin Mehta. O então jovem tenor deixa aqui um registro do frescor, beleza e virilidade de sua voz. Se tivesse que escolher apenas uma gravação de Domingo, esta seria uma forte candidata.

Verdi – “Otello” – Domingo, Te Kanawa, Leiferkus. Regência: Solti. DVD. Covent Garden. 1992

O papel de “Otello” cai como uma luva para a voz a as aptidões cênicas de Domingo. Na falta de uma cópia comercial da versão de Milão regida por Carlos Kleiber, esta é sem dúvida a melhor opção de se ver e ouvir Domingo encarnando o Mouro de Veneza.

Se é só para ouvir existe um registro excepcional desta ópera em que Domingo atua junto a Renata Scoto, regida por James Levine. Agora como barítono não seria nada mal ver Domingo cantando o papel de” Yago”.

Wagner – “Lohengrin”- Domingo, Jessye Norman, Siegmund Ninsgern. Regência: Solti. CD. 1986.

Se bem que muitas vezes só em estúdio, Domingo cantou todos os papeis principais das óperas de Wagner. “Lohengrin” foi o papel wagneriano que Domingo cantou mais vezes em cena. Existe um bom DVD regido por Abbado, mas a voz de Domingo aparece aqui de forma ainda mais gloriosa. As páginas em que ele canta junto a Jessye Norman são absolutamente antológicas.

Berlioz – “Les Troyens” – Domingo, Jessye Norman, Tatiana Troyanos. Regência: James Levine. DVD. Metropolitan opera. 1982.

Domingo preparou o dificílimo papel de “Eneas” da obra de Berlioz apenas para esta produção grandiosa do met. No entanto ele canta o papel como se tivesse uma enorme familiaridade com o mesmo. Sua pronúncia do francês é assombrosa.

Puccini – “Turandot” – Domingo, Eva Marton. Regência: Jamoes Levine. DVD. 1988. Metropolitan opera.

Na suntuosa (e às vezes de gosto duvidoso) produção de Franco Zefirelli Domingo ilumina cada nota, cada passagem da última ópera de Puccini. O equilíbrio obtido com Eva Marton está entre os momentos antológicos vividos pelo tenor espanhol.

O Plácido Domingo barítono

Sem atingir o nível destes 5 registros já históricos existem DVDs muito bons com Plácido Domingo atuando como barítono realizados recentemente. Destacaria “Simon Boccanegra” que ele gravou em Milão com Daniel Barenboim em 2012 e “Nabucco” que ele gravou em Londres com Danielle Abbado em 2015.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 25/06/16 8:37:47 AM

400 anos da morte de Willian Shakespeare (1554-1616)! Momento apropriado para avaliarmos que além da qualidade inquestionável do dramaturgo sua produção foi e tem sido fonte de inspiração para grandes obras musicais, desde o período barroco até os dias de hoje. Creio ser oportuno fazer um levantamento destas obras primas inspiradas por um dos maiores dramaturgos da história.

Henry Purcell em pintura de Closterman

Henry Purcell em pintura de Closterman

Os primeiros compositores a lidar com Shakespeare

A lista de grandes mestres inspirados pelo “Bardo inglês” começa com Henry Purcell, o maior compositor inglês do século XVII, que se utilizou de poemas de Shakespeare em algumas canções, além de escrever música de cena para “A tempestade” e “Tímon de Atenas” além de sua “Máscara”, “A rainha das fadas”, ser calcada em torno de “Sonho de uma noite de verão”. Se no século XVIII Shakespeare foi pouco lembrado pelos compositores, no século XIX seu nome estará ligado a obras musicais com enorme frequência. No início deste século constatamos que seus textos aparecem nas canções “An Sylvia” e “Städchen” de Franz Schubert. Estas breves obras, escritas em 1826, se utilizam de versos extraídos das peças “Os Dois Cavalheiros de Verona” (An Sylvia) e “Cymbeline” (Städchen). Mas estas pequenas joias de Schubert não parecem prever a fortíssima presença do escritor inglês na produção musical do romantismo. Num contexto distante da era elisabetana Shakespeare inspirará grandes obras musicais, especialmente óperas e poemas sinfônicos.

Rossini, o compositor que criou um final feliz para Otello

Rossini, o compositor que criou um final feliz para Otello

Shakespeare e o mundo da ópera

Em 1816, subia à cena em Nápoles a mais antiga ópera importante inspirada em Shakespeare: “Otello” de Rossini. O libreto se afasta tanto da peça shakespeariana que muitos estudiosos pensam que o libretista (Berio di Salsa) na verdade se baseou numa peça de teatro de um certo Carlo Cozena, que plagiou o escritor inglês no final do século XVIII. Quando Rossini levou a ópera a Roma alguns anos depois, esbarrou numa proibição feita pelo Papa naquela época de que não poderiam aparecer cadáveres em cena. Rossini não titubeou: compôs um “final feliz” em que Otello, ao invés de matar sua esposa e se suicidar, perdoa Desdêmona com um juramento mútuo de “amor eterno”. 18 anos depois, em 1834, surge uma obra escrita por um dos mais importantes compositores de ópera de todos os tempos: Richard Wagner. Pena que permanece desconhecida até hoje: “Das Liebesverbot” (A proibição se amar). Foi a segunda ópera do autor, e teve apenas uma apresentação durante a vida do compositor e cujo libreto, escrito pelo próprio Wagner, foi baseado na comédia “Medida por medida” (Measure for Measure). Outra ópera com raízes shakespearianas e raramente montada é “As alegres comadres de Windsor” de Otto Nicolai (1810-1849), o fundador da Filarmônica de Viena. Montada com mais frequência, especialmente quando há um barítono de grande qualidade, Hamlet do compositor francês Ambroise Thomas (1811-1876), apresenta uma adaptação simplista do original shakespeariano. Composta em 1868 fez sucesso na onda de apresentações da peça traduzida e adaptada por Alexandre Dumas. Maria Callas imortalizou a cena de loucura de Ophelia e vale a pena lembrar que “Hamlet” de Thomas foi a primeira ópera montada no Theatro Municipal de São Paulo, em 1911. Com um libreto muito mais coerente aparece a comédia Béatrice et Bénédict de Hector Berlioz. Composta em 1858 e com libreto do próprio compositor, segue de perto a comédia de Shakespeare ”Muito barulho por nada” (Much ado about nothing). Também é uma ópera raramente montada, apesar de suas grandes qualidades. Duas óperas baseadas em Romeu e Julieta compostas no século XIX se revelam dramaticamente obras afastadas do original Shakespeariano: I Capuleti e i Montecchi de Bellini e Roméo et Juliette de Gounod. Boa música com dramaturgia discutível.

Cena da ópera Otello de Verdi

Cena da ópera Otello de Verdi

Verdi e Shakespeare

As mais populares óperas baseadas em peças de Shakespeare foram compostas por Giuseppe Verdi. A primeira delas é do início da carreira do compositor e tem um libreto sofrível: “Macbeth”. Escrita em 1847 e revisada em 1865 tem momentos de grande inspiração, como a cena do sonambulismo, ao lado de música de qualidade questionável, como a marcha de entrada do Rei no primeiro ato. Mesmo assim é, junto com “Nabucco”, a mais executada das obras de Verdi do primeiro período. No final da vida Verdi junto ao libretista Arrigo Boito (que também foi compositor) escreveu as mais conhecidas óperas baseadas em peças de Shakespeare: “Otello” (1887) e “Falstaff” (1892). Esta última é baseada na comédia “As alegres comadres de Windsor”. Com libretos concisos e altamente respeitosos ao texto original estas duas obras estão entre as melhores óperas de todos os tempos. A junção do gênio de Shakespeare com a maturidade de Verdi legou ao mundo duas inquestionáveis obras primas.

O compositor Berlioz em foto de Nadar

O compositor Berlioz em foto de Nadar

Shakespeare e a música sinfônica

Durante o século XIX um número considerável de obras sinfônicas baseadas em peças de Shakespeare foi composto. Sobretudo poemas sinfônicos que apareceram também com títulos de sinfonias ou aberturas. Vou me ater às mais importantes. O compositor que mais vezes se utilizou de Shakespeare em suas obras foi o francês Hector Berlioz. A primeira destas obras é uma “Fantasia sobre A tempestade de Shakespeare” para coro e orquestra, de 1830, posteriormente utilizada em sua obra “Lelio”. Já nesta partitura fica evidente a paixão que o compositor tinha pelo escritor inglês. Em 1831 escreve uma “Abertura Rei Lear”, uma espécie de reflexão sinfônica sobre o drama. Em 1839 aparece sua obra mais importante sobre um drama de Shakespeare: A “Sinfonia Dramática Romeu e Julieta” para solistas, dois coros e grande orquestra, partitura com quase duas horas de duração. Há nesta obra uma mistura de diversos gêneros musicais: Cantata, Sinfonia e Ópera. A compreensão do compositor da conhecida peça de teatro é muito significativa, atestada pela sensualidade da cena do balcão, passando pelo episódio da “Rainha Mab” com um impressionante scherzo, uma descrição dolorosa e original da morte dos amantes e, seguindo o original shakespeariano, a conciliação das duas famílias inimigas graças à intervenção do Frei Lourenço. A obra termina de maneira grandiosa e esperançosa. Em 1849 escreve uma magnífica “Marcha Fúnebre para Hamlet”, parte final de uma obra chamada “Tristia”, e no final da vida a ópera que já citei acima, “Béatrice et Bénédict” (1862). Uma integração maravilhosa entre Shakespeare e a música está na obra “Sonho de uma noite de verão”, música incidental que Felix Mendelssohn escreveu para a peça entre 1826 (a genial abertura) e 1842 (as outras partes da obra). O mundo dos elfos pintado de maneira sutil e a famosíssima Marcha nupcial fazem desta partitura um verdadeiro tesouro. Outro compositor que escreveu diversas obras sobre dramas de Shakespeare foi Tchaikovsky. A que ele compôs primeiro é a que se tornou mais famosa: A “Abertura fantasia Romeu e Julieta”, escrita em 1870 e revista dez anos depois. Curioso é que o personagem do Frei Lourenço é descrito musicalmente como um sacerdote Ortodoxo Russo, a orquestra descreve de maneira muito clara os duelos das famílias inimigas (os pratos imitam as espadas por exemplo) e o tema de amor é uma melodia das mais populares do autor. Tchaikovsky voltaria a Shakespeare mais duas vezes: “A tempestade- Fantasia sinfônica sobre a obra de Shakespeare”, escrita em 1873, uma de suas melhores obras sinfônicas e a “Abertura Fantasia Hamlet”, de 1888. Um exemplo notável de concisão e beleza está no Poema Sinfônico “Ricardo III” do compositor tcheco Bedřich Smetana, composto em 1858. E digno de nota é o poema sinfônico “Hamlet” de Franz Liszt, escrito em 1854. Há também um desconhecido poema sinfônico de Richard Strauss: “Macbeth”, escrito em 1888, obra que merecia ser executada mais frequentemente.

Barbara Hannigan interpretando as canções que Abrahamsen escreveu sobre Ophelia

Barbara Hannigan interpretando as canções que Abrahamsen escreveu sobre Ophelia

Shakespeare na música dos séculos XX e XXI

Depois do século XIX as peças de Shakespeare foram revisitadas raras vezes pelos grandes compositores. Na primeira metade do século XX destacam-se apenas duas obras: a música incidental para “A tempestade” escrita pelo finlandês Jean Sibelius em 1926 e o ballet “Romeu e Julieta” do russo Sergei Prokofiev, obra de excepcional inspiração, composta em 1939. Em 1953 Igor Stravinsky escreveu “Três canções com poemas de Shakespeare” para meio-soprano e conjunto de câmera, uma obra pouco conhecida do autor. Duas óperas se destacam no século XX. Uma do compositor inglês Benjamin Britten: “Sonho de uma noite de verão”. Escrita em 1959 é uma das melhores óperas inglesas do século, mas o destaque maior é “Lear”, ópera que o compositor alemão Aribert Reimann escreveu em 1975. Dedicada ao grande barítono Dietrich Fischer-Dieskau, contém uma música de grande originalidade e tensão dramática. O libreto escrito pelo escritor alemão Claus Henneberg segue de forma bem fiel a tragédia “Rei Lear”. Podemos dizer que esta obra é realmente um marco na história da ópera. No século XXI já apareceram duas obras interessantes. Inicialmente a ópera “A tempestade” do compositor inglês Thomas Adés, escrita em 2003. Sua estreia em Londres em fevereiro de 2004 foi um estrondoso sucesso, e em sua produção do Metropolitan Opera de Nova York, em 2012, foi exibida em cinemas em todo o mundo. A última obra que citarei nesta extensa lista de composições inspiradas por Shakespeare é uma composição bem recente e que certamente se firmará no repertório. Trata-se de uma obra do compositor dinamarquês Hans Abrahamsen. Compositor de grande inspiração e competência escreveu em 2013 a obra “Let me tell you”, um ciclo de 7 canções para soprano e orquestra com texto de Paul Griffiths, que trata da personagem Ophelia do drama Hamlet. Com esta bela composição contemporânea fica bem clara a versatilidade de Shakespeare, um autor que inspirou obras barrocas, românticas e modernas. Realmente uma eterna e inesgotável fonte de inspiração.

Vídeos

O genial “Scherzo” da música de cena de “Sonho de uma noite de verão” de Mendelssohn

Uma versão completa da “Sinfonia dramática Romeu e Julieta” de Hector Berlioz

Cena final da ópera “Lear” de Aribert Reimann com Dietrich Fischer-Dieskau

Let me tell you, a genial obra de Abrahamsen inspirada na Ophelia de Hamlet

Enviado por Osvaldo Colarusso, 12/06/16 4:23:33 PM

Na revista inglesa “Gramophone” do último mês de maio um artigo de capa (“What lies behind the renewed appeal of vinyl”) destaca a volta do LP no combalido comércio de gravações. O artigo destaca que enquanto o comércio de Cds decai ano a ano o comércio de LP registra uma discreta alta. Outros artigos apareceram inclusive na imprensa brasileira e aqui mesmo na Gazeta do Povo, mas em todos os artigos, inclusive no da revista inglesa, não se tocou no espinhoso assunto do preço e nem há algo mais específico a respeito das notáveis qualidades do LP para as gravações de música clássica. Vamos a estes pontos.

O proibitivo preço dos novos LPs

Algumas gravadoras importantes de música clássica (Deutsche Grammophon, Warner, Universal para citar algumas) vendem atualmente alguns títulos de seu catálogo no formato de LP. Existe a limitação do tempo de gravação comparando-se o CD e o LP, pois enquanto o CD aguenta 80 minutos com tranquilidade, o LP não consegue uma boa qualidade acima dos 50 minutos. Por isso os itens são lançados em LP com menos conteúdo do que o CD equivalente. O que mais salta aos olhos é a diferença de preço. Na campeã de comércio on line, a Amazon (amazon.com), o preço de um LP de música clássica custa de duas a três vezes mais do que o equivalente em CD. Os mais baratos saem por U$ 30 sendo que o envio para o Brasil, por se tratar de um produto mais delicado, custa muito mais caro. A média de preço do site brasileiro cdpoint.com.br cobra em média 280 reais por LP, mais o envio, que também é mais caro do que o envio de CDs. Sair atrás de LPs usados em sebos nem sempre é uma boa saída. Os LPs clássicos prensados no Brasil antes do surgimento do CD tinham uma qualidade sofrível. Os LPs importados em boas condições estão tão valorizados nos nossos sebos que seu preço chega a assustar. Os LPs que vem sendo prensados no exterior apresentam uma qualidade excepcional e pelo que sei não há prensagens novas de LPs clássicos no Brasil. Em resumo, o LP seja ele novo ou usado, quando está em boas condições é um artigo de luxo.

As muitas qualidades e os diversos defeitos do LP

O LP apresenta uma reprodução sonora muito superior ao CD. Fiz uma vez o teste junto a um amigo, quando comparamos três gravações em LP e em CD dos mesmos registros: de Richard Strauss “Assim falou Zarathustra” com a Sinfônica de Chicago regida por Fritz Reiner. De Smetana poemas sinfônicos (Hakon Jarl, Ricardo III, etc.) com a Orquestra da Rádio Bávara regida por Rafael Kubelik. Finalmente de Wagner “O crepúsculo dos deuses” com a Filarmônica de Viena regida por Georg Solti. O resultado foi surpreendente. A gravação de Fritz Reiner soava achatada na versão em CD enquanto que no velho LP (ainda monaural) soava com profundidade, com riqueza e sutilezas. Os poemas de Smetana apresentaram uma diferença ainda maior: em LP uma tomada de som excepcional, com profundidade e equilíbrio. Em CD um som metálico e estridente distorcia a bela execução da orquestra alemã. Mas a surpresa maior veio ainda na ópera de Wagner. Em CD a voz de Birgit Nilsson (grande soprano dramático) e de Wolfgang Windgassen (um dos maiores tenores de sua geração) soavam de maneira indigna quando comparadas à versão em LP, e a Filarmônica de Viena em CD perdia uma parte considerável de suas incontáveis qualidades. Especialmente os sons agudos (violinos, flautas) soam de maneira bem ruim em CDs em geral. Ao que parece há um acerto maior nos sons graves, mas as conduções melódicas nos naipes de violinos soam de forma sofrível. A conclusão foi mesmo de que a qualidade de registro é infinitamente superior no LP do que no CD. No entanto é importante lembrar dos problemas que o LP apresenta: ocupa muito mais espaço do que o CD, risca e suja com facilidade e não é prático em diversas situações. Quando fizemos a comparação entre as gravações em CD e LP meu amigo tinha uma máquina de lavar LPs japonesa (caríssima) sem a qual seria difícil ouvir os exemplares mais antigos. Voltando às questões práticas do LP, ninguém é capaz ouvi-lo no carro por exemplo e no caso de uma ópera existe a necessidade de um “senta levanta” contínuo para virar de lado (sim o LP tem Lado A e Lado B).

Uma máquina de lavar LPs japonesa

Uma máquina de lavar LPs japonesa

CD ou LP: uma solução pessoal

Minha decisão pessoal é continuar no CD. Comprar um bom toca-discos de vinil, uma máquina de lavar LPs e a falta de praticidade do LP em minhas atividades como professor, me levam a esta opção. O preço é uma questão importante também. Sem contar que baixar músicas é algo inevitável nos dias de hoje e passar um download para LP é impraticável. Talvez um dia mude de ideia. Por enquanto me conformo com as limitações do Compact Disc.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 04/06/16 9:00:41 AM
Luigi Nono, Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen em Darmstadt, 1956

Luigi Nono, Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen em Darmstadt, 1956

Depois da morte do compositor Pierre Boulez (1925-2016) no início do ano, praticamente se encerrou uma dinastia de compositores que no final da Segunda guerra mundial pretendia reinventar a linguagem musical. Um grupo de criadores musicais que, pela primeira vez na história da música, tinha um sério propósito de serem compositores de vanguarda. Eles tinham consciência de que uma revolução musical aconteceu no início do século XX, antes da Primeira guerra mundial, aquela cujos protagonistas eram Debussy, Schoenberg, Bartók, Stravinsky, Webern, Berg, e em outro contexto Varése e Charles Ives. Mas esta revolução do início do século foi “engolida” por uma visão muito mais conservadora a partir dos anos 1920, que viu o domínio de correntes ecléticas e passadistas: o neoclassicismo, o Grupo dos Seis, o Retorno a Bach, etc. Esta nova vanguarda, que surge por volta de 1948, tinha o sério propósito de repelir qualquer traço de ligação com o passado. Seus ídolos maiores eram o compositor austríaco Anton Webern (1883-1945) e o compositor francês Olivier Messiaen (1908-1992), e o interesse maior estava em novas maneiras de se expandir o serialismo proposto por Schoenberg. A obra para piano de Messiaen “Modos de intensidade e valores” de 1949, se tornou a bússola destes novos autores. Por mais de dez anos, a partir de 1950, um grupo de compositores, de diversas nacionalidades, se reuniam durante o verão no Instituto Kranichstein em Darmstadt (Alemanha) para refletir, discutir e praticar soluções novas. Além de Pierre Boulez o grupo era formado pelos italianos Luigi Nono (1924-1990), Bruno Maderna (1920-1973) e Luciano Berio (1925-2003), pelo compositor alemão Karlheinz Stockhausen (1928-2017), pelo belga Henri Pousseur (1929-2009) e pelo argentino Mauricio Kagel (1931-2008). Posteriormente (1956) se reuniria ao grupo o húngaro Györgi Ligeti (1923-2006) e o grego, naturalizado francês Iannis Xenakis (1922- 2001). A produção musical deles era tão radical que era executada para públicos específicos (festival de Donaueschingen na Alemanha por exemplo) e por instrumentistas e maestros também específicos (o duo pianístico dos irmãos Kontarsky , o violoncelista Siegfried Palm, o violinista Saschko Gawriloff, e os maestros Hans Rosbaud e Hermann Scherchen). É deste período que surgem obras primas como “Kontrapunkte” e “Zeitmasse” de Stokhausen, “Le marteau sans maître” de Boulez e as primeiras obras da série “Sequenza” de Berio. A ideia de uma vanguarda radical se expandirá para novas fontes sonoras: a música eletrônica (praticada por Stockhausen e Nono entre outros) e a música concreta (sons captados e manipulados pelos franceses Pierre Schaeffer (1910-1995) e Pierre Henry, nascido em 1927). Muitas obras vinham atreladas com uma novidade tecnológica que hoje já está obsoleta: a fita magnética.

Stockhausen em Darmstadt, 1954

Stockhausen em Darmstadt, 1954

Esta arte radical, distante da vida musical corriqueira, fez com que a maioria destes compositores se tornasse hoje ilustres desconhecidos. Algumas posturas se tornaram tão datadas que hoje quase se tornam caricatas. Luigi Nono, por exemplo, vai associar uma linguagem musical bem radical a uma ideologia política muitas vezes histérica em obras comprometidas com causas revolucionárias como “A floresta é jovem e cheja de vida” que usa texto de guerrilheiros africanos contra a guerra do Vietnam e “Como una ola di fuerza y luz” que exalta um operário morto pelas tropas de Pinochet no Chile. Não há dúvida que Nono foi um grande compositor, e prova disso é sua obra para piano e fita magnética “…Sofferte onde serene…”, uma belíssima e poética partitura, mas a maior parte da produção dele permanece esquecida. Percebemos que poucos compositores deste grupo, que ficou conhecida como “Escola de Darmstadt”, conseguiram ultrapassar o correr do tempo. Quem conseguiu? Em primeiro lugar citaria Györgi Ligeti, cujas obras vêm sendo executadas e gravadas regularmente. Seguem Luciano Berio, cuja Sinfonia de 1968 já foi gravada mais de dez vezes e que já foi apresentada em todo o mundo (inclusive no Brasil, em Manaus, São Paulo e Rio de Janeiro) e que foi autor de uma série fundamental para a música instrumental moderna, as 14 “Sequenza” para instrumentos solo. Pierre Boulez conseguiu impor suas obras principalmente pela defesa que fazia delas como maestro excepcional que era. “Marteau Sans Maître”, “Sur Incises” e “Répons” são obras maravilhosas, mas só a primeira, junto com as duas primeiras Sonatas para piano que são executadas com frequência. Pouco a pouco as “Klavierstücke” de Stockhausen encontram uma receptividade nos repertórios dos pianistas, mas seus gigantescos painéis sonoros (com horas de duração) como “Sirius” (inspirados nos planetas), “Licht” (inspirados nos dias da semana) e “Klang” (enorme partitura inspirada nas horas do dia), apesar de terem sido festejados em suas estreias, tornaram-se rapidamente esquecidos. Pousseur, Kagel, Xenakis e Maderna não possuem nenhuma obra que permaneceu no repertório ou que seja regularmente executada. Devemos lembrar que no ocaso da “Escola de Darmstadt” aparece outra corrente vanguardista na Polônia, dominada por dois grandes compositores: Witold Lutosławski (1913-1994) e Krzysztof Penderecki (nascido em 1933). O último mudou radicalmente de estilo nas últimas décadas, tornando-se extremamente conservador, mas suas obras escritas por volta de 1960 parecem mesmo reacender o espírito iconoclasta de Darmstadt.
Negar a importância desta “Escola de Darmstadt” seria algo completamente errôneo. Mesmo com a questão da dúvida da permanência esta corrente, com seu ideal de ruptura e de reconstrução, aparece hoje como algo extremamente importante e necessário, frente a uma tendência cada vez mais frequente de valorizar o já visto, passar por caminhos já traçados, de uma produção musical que, lamentavelmente, ignora que já houve um espírito inovador. Ser de vanguarda está decididamente fora de moda.

Vídeos relacionados:

De Messiaen “Modos de valores e intensidades” Segundo de seus estudos de ritmo numa bela versão de Elina Christova

Kontrapunkte de Stockhausen na bela execução regida por Jean-Philippe Wurtz

Uma obra afastada das preocupações políticas de Luigi Nono: …. sofferte onde serene … para piano e fita magnética

Enviado por Osvaldo Colarusso, 23/05/16 11:13:17 AM

A grande pianista argentina Martha Argerich completa 75 anos de idade no próximo dia 4 de junho. Para festejar a data o selo Deutscge Grammophon acaba de lançar um CD duplo com gravações teste da pianista efetuadas no ano de 1960, isto é, quando a artista tinha apenas 19 anos de idade, 5 anos antes dela ganhar o Concurso Chopin de Varsóvia. Algumas obras que estão incluídas nestas gravações a pianista gravará de novo 14 anos depois, mas algumas obras aparecem aqui pela primeira vez numa gravação comercial e com um som excelente.
Entre as obras que Martha Argerich gravaria posteriormente temos duas de Maurice Ravel: Sonatine e Gaspard de la nuit. Em 1974 Martha Argerich gravou estas obras de forma tão arrebatadora que os registros permanecem como referência absoluta até hoje entre as inúmeras gravações que existem destas obras. Mas é muito interessante ouvir Marta Argerich executá-las 14 anos antes, em 1960. Sem dúvida há uma selvageria e uma impetuosidade que devem ter assustado os executivos da gravadora (talvez a razão destas gravações não terem sido lançadas na época), mas não podemos ignorar a genialidade da então jovem pianista. Sim, há mais controle na gravação de 1974, mas talvez haja mais genialidade nesta gravação que permaneceu inédita por 56 anos.
As obras que nunca apareceram em gravações comerciais da pianista convertem-se em itens absolutamente valiosos. Inicialmente duas obras do classicismo musical, também gravadas em 1960: de Beethoven a Sonata Nº 7 em Ré maior opus 10 Nº 3 e de Mozart a Sonata Nº 18 em ré maior IK 576. Versões rápidas, leves e ao mesmo tempo expressivas, sobretudo no andamento lento da Sonata de Beethoven. Do compositor russo Sergei Prokofiev aparecem três obras primas, mais uma vez em gravações inéditas: a Tocatta opus 11 (numa gravação anterior daquela lançada comercialmente), e duas obras nunca antes lançadas comercialmente: a Sonata Nº 3 e a Sonata Nº 7 (a única gravação de 1967 no álbum).

Martha Argerich no início dos anos 1960

Martha Argerich no início dos anos 1960

Decididamente Martha Argerich é uma das maiores pianistas de sua geração, e podemos constatar que ela já era uma musicista excepcional aos 19 anos de idade. Nas obras de Mozart e Beethoven o “humor clássico”, citado pelo pianista e musicólogo Charles Rosen, surge de forma clara e espontânea. Os mistérios da escrita de Ravel se aproximam da loucura e do frenesi na visão da então jovem pianista, e raramente as ideias magicamente articuladas de Prokofiev foram tão valorizadas e evidenciadas. A pianista faz aniversário, mas quem ganha um presente somos nós: quase citando James Joyce, um belíssimo “Retrato de uma pianista quando jovem”.

Serviço: Martha Argerich – Early recordings. Obras de Mozart, Beethoven, Ravel e Prokofiev. Selo Deutsche Grammophon.2 Cds. Lançamento internacional no último dia 16 de maio. Para baixar em mp 3 (com o libreto incluso) no iTunes: U$ 7,99. No site Presto Classical (http://www.prestoclassical.co.uk/) em MP 3 U$ 5,25 e em flac U$ 6,50 (com libreto incluso nos dois formatos). Para quem quer o disco físico é encontrável no site brasileiro CD Point (www.cdpoint.com.br), e você deverá desembolsar R$ 148,39.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 16/05/16 3:35:54 PM
A pianista e professora Henriqueta Garcez Duarte

A pianista e professora Henriqueta Garcez Duarte

A pianista e professora Henriqueta Garcez Duarte realizou um trabalho que qualifico como dos mais importantes já realizados entre nós. Discípula de Magda Tagliaferro, depois de um período vivendo na Europa iniciou seu trabalho pedagógico em Curitiba no início da década de 1960. A revolução que ela operou no ensino de piano foi radical: novas edições das partituras que eram trabalhadas (versões urtext, na época uma novidade no Brasil), amplitude do repertório e excelência técnica. Posteriormente foi Diretora da EMBAP (Escola de Música e Belas Artes do Paraná) quando expandiu sensivelmente o quadro de professores e quando, pela primeira vez por aqui, foram oferecidos cursos da maior parte dos instrumentos de orquestra. Toda uma geração de instrumentistas paranaenses, não apenas pianistas, se originou neste trabalho estafante e vitorioso que ela realizou à frente da mais tradicional Escola de Música do Paraná. Como professora de piano é impressionante a quantidade e a qualidade de seus discípulos que, infelizmente, pouco se apresentam aqui em Curitiba. Poder revê-los e escutá-los é uma das principais razões para que se prestigie o Concerto em homenagem aos 90 anos de Henriqueta Garcez Duarte, que acontecerá nesta terça feira, 17 de maio às 20 horas na Capela Santa Maria em Curitiba. Na realidade a Professora Henriqueta completou 90 anos no último mês de novembro (eu dediquei a ela um concerto que estava regendo frente à Camerata Antiqua exatamente no dia) mas os afazeres de seus discípulos espalhados pelo mundo só permitiram uma homenagem agora.
Destaco três artistas que muito estranhamente não se apresentam há muitos anos por aqui e que participarão deste concerto:

Vania Pimentel

Vania Pimentel,

Vania Pimentel, esta extraordinária artista que hoje em dia vive no Estados Unidos, Roberto Domingos,solista e camerista excepcional que é professor na Hochschule für Musik de Karlsruhe na Alemanha
e José Henrique Martins, instrumentista de técnica fulgurante, atual professor na Universidade Federal da Paraíba.

Roberto Domingos

Roberto Domingos

Eles atuarão junto a outros discípulos da Professora Henriqueta e que têm uma intensa atividade por aqui: Carmen Celia Fregoneze, Daniela Tsi Gerber, Larissa Boruschenko, Alexander Ribeiro de Lara, Renata Bittencourt, Carlos Assis e Eduardo Knob. Haverá ainda uma divertida surpresa da pianista Doris Warrentin. No programa só música de alta qualidade: Debussy, Schubert, Liszt entre outros e considero um destaque no repertório uma obra do compositor brasileiro Liduíno Pitombeira dedicada ao pianista José Henrique Martins.

José Henrique Martins

José Henrique Martins

Para quem conhece as agruras pelas quais passa atualmente a EMBAP é importante se aquilatar um trabalho que foi vitorioso naquela instituição. Muitos dos seguidores da Professora Henriqueta, e que estarão se apresentando neste concerto, lutam incessantemente para que a instituição não morra. Não tenho dúvida que esta apresentação, que se aproveita do magnífico piano que está na Capela Santa Maria, será um marco na vida musical da cidade.

Serviço: Concerto em Homenagem à pianista e professora Henriqueta Garcez Duarte. Capela Santa Maria. Dia 17 de maio de 2016. 20 horas. Entrada franca

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