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Enviado por Osvaldo Colarusso, 18/12/14 11:04:55 AM
Villa Lobos ao violão

Villa Lobos ao violão

Seguindo os passos da OSESP a excelente Orquestra Filarmônica de Minas Gerais iniciou sua carreira discográfica internacional junto ao selo NAXOS. Este selo, que revolucionou o mercado discográfico há 30 anos, apresentando artistas novos e um repertório inédito, tem se revelado nos últimos anos um selo sobre o qual reina um certo descrédito. Se, por um lado, NAXOS dá sequência a projetos importantes como por exemplo a integral das Sinfonias de Villa-Lobos com a OSESP e os Quartetos de Hindemith com o Quarteto Amar, tem abrigado também artistas de capacidade duvidosa que tenham um bom patrocínio por trás. Dois grandes instrumentistas brasileiros, que já atuaram com o selo NAXOS, me confidenciaram que a gravadora atualmente não se importa em receber tudo prontinho e empresta seu nome para o lançamento do CD, ficando com o eventual lucro, não pagando nada para os artistas. Só isso para se explicar a atuação de um violonista bem mediano como o italiano Andrea Bissoli, “estrela” de uma série de dois CDs da gravadora: “Villa-Lobos: os manuscritos para violão”. O violonista completa obras bem desinteressantes de um Villa-Lobos ainda adolescente, executa transcrições de Pujol, e apesar do subtítulo da série falar de “obras desconhecidas” executa, de forma sofrível, a famosa Aria das Bachianas brasileiras Nº 5 junto a uma cantora italiana (Lia Serafini) que canta num idioma ininteligível. O violonista executa também, de forma escolar e metronômica o” Sexteto Místico”, com um grupo italiano chamado Ensemble Musagete. As coisas melhoram um pouco nas obras para violão e orquestra, não pelo solista que toca tudo “certinho” e de forma aborrecida, e sim pela excelente Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Fico imaginando este acompanhamento orquestral, de nível internacional, junto a violonistas como Fabio Zanon, Edelton Gloeden, Paulo Porto Alegre, Paulo Pedrassoli e muitos outros. Estas execuções do “Concerto para violão” e da “Introdução aos Choros” passam desapercebidas frente aos registros antológicos de Zanon e OSESP (Introdução aos Choros) e Timo Korhonen e Sakari Oramo (Concerto).

A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais tocando em Campos do Jordão

A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais tocando em Campos do Jordão

O nível é completamente outro (muito mais alto) quando ouvimos a única faixa dos dois Cds sem violão. Apesar do título falar de “manuscritos para violão”, no segundo volume há uma excelente versão do “Choros Nº6”, uma das composições orquestrais mais importantes de Villa-Lobos. Ignorando o título da série, por quase meia hora temos um registro sinfônico que faz justiça a esta obra prima. Não me sinto muito à vontade de comentar o trabalho de um colega (o maestro Fabio Mechetti), mas esta maravilhosa versão merecia estar fora desta série. Cumpre dizer que há outra maravilha nestes Cds: a atuação (infelizmente em uma única faixa) da brasileira Gabriela Pace na “Canção de amor” de “A floresta do Amazonas”. Voz linda e dicção maravilhosa.
Esta série, por razões óbvias, passou desapercebida da grande imprensa internacional especializada em música clássica. Nem a Diapason, nem a BBC Music ou a Gramophone comentaram a série. Uma pena. Quem sabe a Filarmônica de Minas Gerais um dia inclui essa linda gravação do “Choros Nº 6” num CD só com obras orquestrais de Villa-Lobos. Esta lapidar leitura merece. Voce pode baixar estes Cds no iTunes ou no site classicsonline.com (U$ 7,99) ou comprar no site www.arlequim.com.br (R$ 48,00 cada disco, uma exploração, já que no site Amazon.com está por volta de U$ 4 ).

Enviado por Osvaldo Colarusso, 06/12/14 3:26:42 PM
Maria Callas, em uma sessão de gravação em Londres, 1962

Maria Callas, em uma sessão de gravação em Londres, 1962

Maria Callas (1923-1977) foi a mais popular cantora lírica do século XX, e sem dúvida nenhuma uma das maiores. Sua carreira teve o auge em meados dos anos 50 e seu desastroso relacionamento com o milionário grego Aristoteles Onassis, a partir de 1958, comprometerá decisivamente a qualidade de sua técnica. Sua carreira como cantora lírica, em óperas encenadas, terminará prematuramente em 1965, e até 1974 ela insistirá em cantar em gravações de estúdio e em desastrosos recitais. Aqui no blog há um texto onde você poderá saber mais detalhes da vida desta grande artista (acesse aqui). O legado discográfico de Maria Callas é um dos mais preciosos de toda a história da gravação, sendo que seus primeiros registros datam de 1949 e os últimos de 1969. A Warner, que comprou em 2013 o selo EMI Classics, acaba de realizar um excelente trabalho de restauro de todas as gravações de estúdio que a cantora realizou. Um trabalho apurado que merece todos os elogios.

O mítico Abbey-road studio, local das novas remasterizações das gravações de Maria Callas

O mítico Abbey-road studio, local das novas remasterizações das gravações de Maria Callas

A segunda remasterização

Há 25 anos, quando surgiu o CD, a EMI, como outras gravadoras, realizou desastrosas remasterizaçoes de gravações que tinham sido lançadas em LP. Um som “achatado” e sem brilho arruinou diversas gravações de referência, e o mesmo se passou com as gravações de Callas. No mítico estúdio da Abbey Road (o local das gravções dos Beatles), em Londres, uma equipe de técnicos – Simon Gibson, Allan Ramsay e Ian Jones, restauraram meticulosamente mais de 60 horas de gravações. O resultado é um álbum com 69 CDs, acompanhados de um CD Rom com todos os textos das obras registradas e um livro de 136 páginas com capa dura, com diversas fotos inéditas. Este álbum no site americano “Amazon.com” aparece pelo notável preço de U$ 165,00 (U$2,50 por cada disco), sendo que lamentavelmente este magnífico preço fica meio que comprometido para nós brasileiros pelos impostos de importação. Já no site brasileiro “cdpoint.com.br” o preço é bem salgado: R$ 1.207,39 (R$17,50 por CD). Mesmo com todos os impostos e o frete o preço do site americano é menos do que a metade do site brasileiro. A boa notícia é que a gravadora a partir deste mês lança os diversos itens separadamente. Desta forma podemos escolher os itens que nos interessa, apesar de perdermos este livro que imagino ser bem interessante.

A coleção completa

A coleção completa

Resultado magnífico

Pude ouvir três itens lançados nesta nova remasterização: Cenas de loucura (Mad scenes), de 1956, Arias líricas e de coloratura (Lyric and Coloratura Arias), de 1954 e a “Tosca” de Puccini gravada em 1953. No primeiro destes itens Callas canta com a Philharmonia Orchestra regida por Nicola Rescigno e interpreta de maneira estonteante cenas de Hamlet de Thomas, Anna Bolena de Donizetti e nos deixa sempre de queixo caído com a cena final de Il Pirata de Bellini. Sempre achei este um dos melhores testemunhos discográficos da cantora, mas ouvi-lo com esta nova roupagem nos deixa ainda mais perplexo. A equipe conseguiu um balanço entre a orquestra e a voz muito próximo do ideal. Em uma palavra: fantástico. O segundo item que ouvi, “Lyric and Coloratura Arias” foi gravado em Londres também com a Philharmonia Orchestra regida por Tulio Serafin. Nele fica demonstrada a versatilidade da cantora que numa mesma sessão canta árias dramáticas como “La mamma morta” de Giordano e uma ária de coloratura como “Ombra leggera” de Meyerbeer. O mito fica aqui ainda mais demonstrado por uma remasterização exemplar. A “Tosca” de 1953 (ela gravaria de novo em 1965, sua última gravação de uma ópera completa) é considerada por muitos a sua melhor gravação de uma obra lírica. Regida pelo grande maestro Victor de Sabata, Callas atua junto a Giuseppe di Stefano e Tito Gobbi. Mais uma vez o resultado desta nova edição nos torna evidente a grandeza desta interpretação.

Callas, para sempre

Este novo lançamento de gravações, com mais de 50 anos de idade, nos mostra a atualidade e a permanência desta grande artista. A única coisa que lamento é a exclusão de uma gravação que não foi realizada em estúdio mas que merecia estar nesta coleção: a Lucia di Lammermoor de Donizetti, gravada ao vivo em 1955 em Berlim, regida por Herbert Von Karajan. Mas mesmo assim a série é fantástica e penso seriamente em adquiri-la completa, mesmo pagando os malfadados impostos. Callas merece.

Aqui vai uma entrevista em inglês com os engenheiros responsáveis pela remasterização

Enviado por Osvaldo Colarusso, 03/12/14 7:52:25 AM
Villa-Lobos ao piano

Villa-Lobos ao piano

Há 20 anos começava uma epopeia

Gravar a obra integral para piano solo de Heitor Villa-Lobos é uma árdua tarefa. São mais de dez horas de música! Já houveram algumas tentativas que acabaram ficando incompletas sendo um lamentável exemplo o da excelente pianista Debora Halasz para o selo BIS, que parou na metade. Coincidentemente as duas únicas pianistas a concluírem este ambicioso projeto para selos internacionais nasceram em Campinas, de famílias de origem judaica, e eram até meio aparentadas. A primeira delas foi Anna Stella Schic (1925-2009), que terminou sua epopeia em Paris em 1980. Ao contrário de Sonia Rubinsky, no entanto, gravou para um selo praticamente desconhecido, Solstice. Naquela época a gravação ocupava mais de dez Lps, e quando a série foi passada para CD lembro que os elogios da crítica especializada foram unânimes, e, como de costume, esta histórica gravação passou desapercebida por aqui. A segunda pianista a concluir este árduo trabalho, como disse, foi Sonia Rubinsky. Há exatos 20 anos ela gravou um CD para o selo NAXOS com obras de Villa-Lobos, gravação esta realizada em Santa Rosa na Califórnia. Pelo que a própria Sonia Rubinsky me contou, este CD não faria parte de nenhuma integral, seria apenas um CD com músicas de Villa-Lobos. Por isso ela escolheu uma obra do primeiro período importante do compositor, a “Prole do bebê” Nº 1, uma obra do segundo período, as “Cirandas”, e uma obra do período final do autor, “Homenagem a Chopin”.

A pianista Sonia Rubinsky

A pianista Sonia Rubinsky

Uma longa espera

Se o CD foi gravado no final de 1994, por problemas administrativos da gravadora, ele só foi lançado no final de 1999, há exatos 15 anos. O sucesso do CD foi tão grande (foi indicado para o Grammy e considerado um dos 5 melhores lançamentos do ano pela revista Gramophone) que a gravadora, a partir dele, resolveu investir numa integral. O segundo volume, gravado em condições técnicas bem melhores no Canada, em abril do ano 2000, incluiu a “Prole do bebê” Nº 2, as “Cirandinhas”, “A Lenda do Caboclo”, “Ondulando” e a “Valsa da dor”. O volume 3 foi gravado no mesmo ano, no mês de setembro, e incluiu a “Suíte Floral”, o “Ciclo Brasileiro”, “Brinquedo de roda”, “Danças Características africanas”, “Tristorosa”, e os “Choros” 1,2, e 5. O quarto volume foi gravado em outubro de 2003, mais uma vez no Canada, e inclui a “Bachianas brasileiras Nº 4”, o “Carnaval das crianças”, “Francette et Piá”, além de pequenas obras como “A fiandeira”, “Simples coletânea”, “Poema Singelo” e “Valsa romântica”. É a partir daí que Sonia Rubinsky percebe que gravar uma integral exaustiva da obra para piano de Villa-Lobos envolveria um esforço que englobava incluir algumas obras que Anna Stella Schic (grande amiga de Sonia Rubinsky) deixara de lado. Por isso em janeiro de 2006, ainda no Canada, ela grava o Volume 5 com 48 peças do “Guia prático”, algumas que Anna Stella não gravou (Anna Stella gravou apenas 21 peças do Guia Prático). Este volume 5 recebeu críticas elogiosíssimas, com destaque para mais uma crítica bem positiva feita pela revista inglesa Gramophone. A gravadora, percebendo o sucesso da série oferece ainda melhores condições para os três últimos volumes. As gravações foram realizadas em Paris, onde a pianista mora atualmente, e um fantástico piano Fazioli, deram condições especiais para a artista. O Volume 6, gravado em março de 2006, que incluiu “Sul américa”, “New York sky line”, “As três marias”, “Saudades das Selvas brasileiras”, também apresenta a mais complexa obra para piano do mestre, o “Rudepoema”, obra que se beneficiou bastante deste excepcional instrumento usado na gravação. Indo além da integral realizada por Anna Stella Schic, este volume 6 realizou duas primeiras gravações mundiais: “Serra da piedade de Belo Horizonte” e “Carnaval de Pierrot” (completada por Amaral Vieira). Em fevereiro de 2007, seguindo os conselhos de Anna Stella Schic, Rubinsky incluiu no Volume 7 os 5 Prelúdios para violão transcritos para piano por José Vieira Brandão. Também aparecem o ballet “Amazonas” e mais algumas primeiras gravações mundiais: “Feijoada sem perigo”, “Cortejo Nupcial”, “Canções de Cordialidade” e “Valsa lenta”. O último volume, o de N° 8, foi gravado em abril de 2007. Neste volume encontramos alguns itens inéditos do “Guia Prático” (39 músicas), “Ibericabe”, “Suíte infantil 1 e 2”, e, em primeira gravação mundial peças escritas como música incidental para o texto teatral “A marquesa de Santos”. Foram mais de 13 anos de um trabalho insano. Villa-Lobos merece !!!

Anna Stella Schic, a primeira a gravar uma integral da obra pianística de Villa-Lobos

Anna Stella Schic, a primeira a gravar uma integral da obra pianística de Villa-Lobos

Um trabalho pra lá de elogiável

Sonia Rubinsky, graduada na Juilliard School de Nova York, é uma pianista muito ligada à música contemporânea. Grande intérprete de Almeida Prado (que lhe dedicou a “Cartas Celestes XII”) tocou obras complicadas como “Night Fantasies” de Elliot Carter (1908-2012), que aliás a conheceu e a orientou na execução desta complicada composição. Por causa disso as complexidades, especialmente rítmicas, da obra de Villa-Lobos são tratadas com um tipo de precisão rara entre os pianistas. Exemplo disso encontramos na “Suíte floral” (que apresenta uma polirritmia bem complicada) e sobretudo no “Rudepoema”. Neste aspecto muitos pianistas são um tanto quanto “aproximativos” quando aparecem problemas quase insolúveis. Não é o caso de Sonia Rubinsky. A precisão também nos encanta na “Prole do bebê” Nº 2, uma coleção que inclui as páginas mais ousadas do autor. Outro ponto bem positivo da pianista é que ela executa a “Prole do bebê” Nº 1 do jeito que Villa-Lobos escreveu, sem os acréscimos que Arthur Rubinstein incluiu e que todos os pianistas adotam. Não fosse somente a excelência musical destas gravações, ainda teríamos mais coisas a elogiar. Sonia Rubinsky escolheu 8 obras primas da pintura brasileira como capa dos 8 CDS. Desta forma o mundo todo pôde conhecer pinturas de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti, Portinari, Lasar Segall, Cícero Dias, Djanira, Guignard e Ismael Nery. E além disso os comentários musicais estiveram a cargo do Professor James Melo, um musicólogo brasileiro que vive há décadas em Nova York. Cheio de informações precisas e úteis, os textos do professor Melo são de uma altíssima qualidade, e são para mim uma enorme fonte de informações. Mantive, há algumas semanas, uma longa conversa com Sonia Rubinsky, isto via Skype (como disse ela mora atualmente em Paris), e muitas das informações que redigi vieram deste longo diálogo. Foi possível perceber que ela trata este seu trabalho, iniciado há 20 anos, como um ponto muito importante para a divulgação internacional da obra de nosso maior compositor. O selo NAXOS já deixou de ser uma referência internacional, e tem até se tornado um “selo de aluguel”, apesar de manter até agora o excelente projeto da integral da Sinfonias de Villa-Lobos com a OSESP. Creio que Sonia Rubinsky gravou esta integral na hora certa e no lugar certo. Alguns itens permanecem uma referência incontestável, sobretudo o “Rudepoema”, a “Prole do bebê” Nº 2, o ballet “Amazonas”, a “Suíte Floral” e a “Homenagem a Chopin”. Para facilitar a vida dos brasileiros esta coleção de CDS foi lançada aqui pela movieplay, mas consegui-los não é tarefa fácil. Possuir estes 8 CDS em casa é quase uma obrigação para todo músico brasileiro, e, por ter sido feita de forma exaustiva (a própria pianista tem severas críticas a algumas obras menos felizes do autor) funciona como uma indispensável fonte de pesquisas.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 01/12/14 11:17:27 AM
A homenageada, Olga Kiun, executando o Quarto Concerto de Beethoven. Fotografia de Cida Demarchi

A homenageada, Olga Kiun, executando o Quarto Concerto de Beethoven. Fotografia de Cida Demarchi

Na edição impressa do último domingo, 30 de novembro, foi publicada na versão impressa deste jornal uma versão bem resumida da crônica que o compositor Harry Crowl escreveu sobre os concertos do Festival Olga Kiun. Reproduzo aqui a versão completa que foi enviada ao jornal.

Festival Olga Kiun

Numa iniciativa muito louvável e pioneira, o Festival Olga Kiun apresentou na semana passada uma série de concertos com ex-alunos da notável mestra russa, que também apresentou tanto um concerto solo na abertura, inteiramente dedicado à obra de Sergei Rachmaninov, uma de suas especialidades, assim como o Concerto no.4, de Beethoven, no encerramento do festival. Nascida ainda durante a 2ª Guerra Mundial, na distante província de Aqmola, no Cazaquistão, parte da URSS, na época, onde seus pais buscaram asilo durante o conflito. Sua formação se iniciou em Kichinau, na atual República da Moldávia, então também parte da URSS, para depois seguir para Moscou e assim poder ingressar no Conservatório Tchaikovsky, com 17 anos, na classe do grande pianista Lev Oborin. Foi laureada com alguns dos mais importantes prêmios internacionais, como o George Enescu, na Romênia. Depois de receber uma sólida formação acadêmica, iniciou uma brilhante carreira dentro de seu país. A dissolução da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1991, e a consequente crise econômica que assolou toda a região, fez com que Olga viesse para Curitiba, após uma turnê latino-americana com a Orquestra Sinfônica da Moldávia. Em 1993, já lecionava na Escola de Música e Belas Artes do Paraná. Foi a partir de lá, principalmente, que formou a maioria de seus inúmeros discípulos. Muito exigente e dedicada com seus alunos, ela foi sempre muito presente e acompanhou a trajetória de todos bem de perto, encaminhando alguns para os grandes mestres em instituições internacionais, para que pudessem desenvolver ao máximo as suas potencialidades.
Ao longo das quatro noites de recitais, foi possível conferir a técnica e as personalidades musicais de alguns dos mais talentosos pianistas de várias gerações que passaram pela orientação de Olga Kiun. Na segunda noite, o recital de piano solo apresentou Luiz Guilherme Pozzi, executando as 32 Variações em dó menor, de Beethoven, com o refinamento que sempre lhe é peculiar. Em seguida, uma absolutamente notável apresentação de Estefan Iatcekiw, de apenas 10 anos de idade, na qual executou obras de Mozart, Schumann e Chopin com impecável técnica e bom gosto. Davi Sartori, que já é um músico estabelecido muito atuante também na música popular, fez a única apresentação de obras de compositores brasileiros do festival: – O Boizinho de Chumbo, um dos mais complexos trechos da suíte “A Prole do Bebê no.2”, de Villa-Lobos e a Dança Negra de Camargo Guarnieri, ambas com fleuma e naturalidade de quem executa as peças mais fáceis. O Duo Palheta ao Piano, formado por Clenice Ortigara, piano e Jairo Wilkens, clarineta, atualmente um dos mais destacados duos camerísticos do país, apresentou as 6 Bagatelas, opus 23, do inglês Gerald Finzi. Paulo Emiliano Piá de Andrade, sempre muito tranquilo e seguro, apresentou um Prelúdio de Rachmaninov, e um Prelúdio e Fuga, de Shostakovitch, repertório no qual se sente muito à vontade. Bruno Theiss, com 19 anos, executou obras muito desafiadoras de Szimanowsky e Prokofiev. Pablo Rossi, que desde muito cedo se revelou como um dos grandes pianistas brasileiros da atualidade encerrou a noite com obras de Chopin.
O ponto alto do festival, porém, foi a primeira apresentação em Curitiba da íntegra dos 5 Concertos de L. van Beethoven. A orquestra, dirigida pelo Maestro Osvaldo Colarusso,foi especialmente formada pelos melhores músicos de Curitiba, provenientes da Orquestra Sinfônica do PR, da Camerata Antiqua, e da Orquestra Filarmônica da UFPR. Na sequência dos concertos apresentados em dois dias, os intérpretes foram Pablo Rossi (no.1), Davi Sartori (no.2), Paulo Emiliano Piá de Andrade (no.3), a própria Olga Kiun (no.4) e Luiz Guilherme Pozzi (no.5). Apesar do extenuante calor na Capela Santa Maria, o público foi muito numeroso, com muitos espectadores assistindo às apresentações de pé, inclusive eu. Segundo falou à plateia o próprio maestro Osvaldo Colarusso, a Orquestra do Festival fez a proeza de tocar num só dia os 5 concertos, já que ensaiara na 6ª.feira à tarde os Concertos de nos. 4 e 5, e à noite, apresentou os de nos. 1, 2 e 3.
O contraste marcado pelas obras é grande e cobre um período que vai de 1787, data do início da criação do 2º. Concerto, na verdade o primeiro da série, até 1810, ano que Beethoven completou o 5º. Concerto. Trata-se porém, do ciclo oficial, pois o compositor escrevera um Concerto em mi bemol maior em 1783, quando tinha apenas 13 anos de idade e, entre 1815 e 16, ocupou-se de um 6º. Concerto em Ré Maior, abandonando-o depois de praticamente completar o primeiro movimento. Há ainda uma versão para piano e orquestra do Concerto em Ré maior para violino, opus 61, de 1806.
Cada um dos pianistas apresentou uma leitura muito pessoal da obra tocada. Pablo Rossi, no 1º Concerto, mostrou uma técnica impecável e muito uniforme como já é de praxe nas suas apresentações. No 2º Concerto, Davi Sartori fez uma inesperada leitura contida e cuidadosa. A cadência do primeiro movimento, uma complexa fuga escrita pelo próprio Beethoven muitos anos depois, foi o ponto alto.
No Concerto no. 3, que foi executado por Paulo Emiliano Piá de Andrade, o desafio proposto foi mais árduo. Uma obra na qual Beethoven dá à orquestra uma importância bem maior e se afasta definitivamente do modelo de seu antigo mestre, F.J.Haydn, para ser ele mesmo. O domínio da execução por parte de ambos, maestro e solista, foi notável. Apesar de problemas como o piano um pouco desregulado e o calor que fustigava os intérpretes ainda mais que a plateia, o resultado foi excelente.
Na última noite, Olga Kiun executou com primor o 4º Concerto. Tal foi o entusiasmo da plateia, que o 3º movimento foi bisado e executado com ainda mais intensidade. Na ocasião, foram prestadas as justas homenagens à grande mestra.
Encerrando o festival, Luiz Guilherme Pozzi interpretou o 5º Concerto, que é o mais complexo de todos. Sua familiaridade com a obra fez com ele trabalhasse cuidadosamente os nuances das várias vozes contidas no discurso do piano. A integração com maestro e a orquestra funcionou muito bem a maior parte do tempo. A Capela não estava tão lotada como na noite anterior, mas mesmo assim tinha toda a sua capacidade de assentos tomada e a vibração da platéia foi igualmente intensa.

Harry Crowl é compositor, professor da EMBAP e diretor artístico da Orquestra da Universidade Federal do Paraná

Enviado por Osvaldo Colarusso, 20/11/14 9:27:15 AM
A vida de Beethoven através de seus concertos para piano e orquestra

A vida de Beethoven através de seus concertos para piano e orquestra

Um ciclo de concertos que homenageia a pianista Olga Kiun

Pela primeira vez em Curitiba será apresentado o ciclo completo dos 5 concertos para piano e orquestra de Ludwig van Beethoven, sendo que possívelmente o Concerto Nº 2 nunca foi executado por aqui. No dia 21, sexta feira, às 20 horas, serão executados os Concertos de Nº 1 (solista – Pablo Rossi), Nº 2 (solista – Davi Sartori) e Nº 3 (solista – Paulo Emiliano Piá de Andrade). No dia 22, sábado, também às 20 horas, serão apresentados os concertos de Nº 4 (solista – Olga Kiun) e Nº 5 (solista -Luiz Guilherme Pozzi). Uma orquestra que reúne a “nata” de instrumentistas curitibanos atuará sob minha regência. As apresentações acontecerão na Capela Santa Maria. Estes concertos fazem parte de um festival que homenageia a grande pianista russa Olga Kiun, excepcional professora que há 20 anos se radicou em Curitiba. Notável profissional, colocou parâmetros altíssimos para os alunos de piano da cidade, e todos os solistas dos 5 concertos, além da grande mestra, tiveram o essencial de sua formação pianística junto à professora russa. Curitiba realmente teve a sorte da escolha que ela fez, e mesmo eu sou eternamente grato a ela, já que seus melhores alunos estudaram comigo Harmonia e Análise musical, visto que ela sempre valorizou bastante a formação completa de um pianista, nos mesmos padrões que ela teve em seu país.

Beethoven: compositor e pianista

Ludwig van Beethoven (1770-1827) nasceu na cidade de Bonn, na Alemanha. Criança prodígio teve o azar de ter uma família completamente desajustada. Seus objetivos, quando adolescente, era viver em Viena e estar próximo a Mozart, a quem admirava de forma quase religiosa. Apesar de que o encontro dos dois, em 1787, ser uma fantasia mentirosa do historiador Otto Jahn (1813-1869), a obra de Mozart será importantíssima para o jovem Beethoven. Assim como Mozart, Beethoven era um pianista excepcional, e os concertos para piano e orquestra, do gênio de Salzburg, foram marcantes na sua vida de instrumentista e de compositor. Os concertos para piano e orquestra foram realmente muito marcantes na produção Mozartiana, especialmente os que ele escreveu entre 1784 e 1786 (do 19 º ao 26º). Apesar de Beethoven conhece-los muito bem, a primeira tentativa do compositor de escrever um concerto ocorreu antes dele conhecer os grandes concertos de Mozart, quando tinha 14 anos de idade, um concerto que permaneceu inacabado, e no qual o próprio Beethoven não colocava muita fé.

Mozart: o modelo para os Concertos de Beethoven

Mozart: o modelo para os Concertos de Beethoven

O modelo mozartiano

Em 1787 Beethoven iniciou a composição de seu primeiro Concerto para piano e orquestra completo, erroneamente numerado como Concerto Nº 2 em si bemol maior opus 19. Esta obra juvenil foi composta ainda em Bonn, antes do compositor se fixar em Viena, em 1792, ano em que Beethoven teve acesso às obras primas para pianos e orquestra de Mozart. Coincidentemente ele modificou o final do concerto que trouxera de Bonn: o Finale que hoje conhecemos foi escrito somente em 1795, e possui uma clara alusão ao terceiro movimento do último concerto que Mozart escreveu, o concerto em Si bemol maior IK 595. Foi depois da bem sucedida apresentação em Viena em 29 de março de 1795 (a primeira aparição pública de Beethoven na capital austríaca) que ele escreveu aquele que hoje é conhecido como Concerto Nº 1 em dó maior opus 15. Foi estreado em Praga em 1798. Este concerto, especialmente o primeiro movimento, é calcado no Concerto, também em em Dó maior, IK 503 de Mozart, demonstrando o claro apreço que Beethoven tinha da obra de seu predecessor. O Concerto Nº 3 em dó menor opus 37 é uma composição completada em 1801, e mais uma vez o compositor foi solista da estreia em Viena em abril de 1803. Este, que é o único concerto de Beethoven em modo menor, dá um enorme passo para a frente em termos orquestrais e foi tremendamente influenciado pelo Concerto, também em dó menor, IK 491, de Mozart. A genial criatividade de Beethoven pode ser bem exemplificada no diálogo entre o tímpano e o solista no final do primeiro movimento. Quem, além de Beethoven, poderia imaginar isso naquela época?

Uma afirmação pessoal: os dois últimos concertos para piano e orquestra

A influência de Mozart dará lugar a um posicionamento bem mais pessoal de Beethoven em seus dois últimos concertos sendo que o Concerto Nº 4 em sol maior opus 58, composto em 1806, é uma obra bem distante do modelo mozartiano. A obra começa com um solo de piano, sem acompanhamento da orquestra, cuja visão introspectiva, nos levará a uma linguagem quase romântica. Sem tímpanos e sem trompetes, este movimento é extremamente introspectivo. Outra surpresa: o segundo movimento, escrito apensas para o solista e as cordas da orquestra, é um diálogo entre as forças quase agressivas da orquestra frente a um solista completamente calmo. O piano se assemelha a Orfeu, e a orquestra se assemelha às fúrias, que se acalmam frente o mágico discurso do solista. É só no movimento final, o único com a orquestra completa, que existe uma música que deixa de lado o aspecto introspectivo. A progressiva surdez de Beethoven vai tornando as suas aparições como pianista cada vez mais raras, e por isso a estreia deste concerto será a última aparição do músico como pianista, numa récita privada no palácio do príncipe Lobkowitz. A sala onde ocorreu esta estreia existe até hoje. Minha imaginação voou quando estive lá…
O Concerto Nº 5 em mi bemol Maior opus 73, o último concerto para piano e orquestra que Beethoven compôs, abre os caminhos para uma nova era musical. O mais longo de todos é espetacular pela junção que existe entre o solista e a orquestra, e mesmo a cadenza, aquele trecho improvisado pelo solista no final do primeiro movimento, é substituída por uma improvisação conjunta do piano e da orquestra. Já na época de Beethoven ficou conhecido como “Imperador” por sua grandiosidade e dificuldade técnica, tanto para o solista como para a orquestra. A surdez do compositor o impediu de executar a obra, considerada inexequível na época, sendo a estreia feita pelo pianista e compositor Friedrich Schneider, em Leipzig, no ano de 1811.

A pianista Olga Kiun, fotografada por Cida Demarchi

A pianista Olga Kiun, fotografada por Cida Demarchi

Ouvir o ciclo completo dos Concertos para piano e orquestra de Beethoven é uma experiência marcante, pois além da belíssima música, podemos através deles acompanhar uma sequência da vida do compositor realmente importante. Sempre me impressionou muito a progressiva surdez do mestre, que o levou a um enorme isolamento. Para citar apenas um exemplo dos momentos cruciais deste ciclo, notemos a entrada isolada do solista no Concerto Nº 4. Este isolamento levou a uma profundidade raramente vista em toda a história da música. Realmente, a arte é realmente enriquecedora, disto não tenho dúvida.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 11/11/14 10:05:39 AM
O muro de Berlim, como conheci em 1988. O lado oriental sempre escuro e triste

O muro de Berlim, como conheci em 1988. O lado oriental sempre escuro e triste

25 anos da queda do muro de Berlim. Por que não narrar um experiencia pessoal? Lá vai: em 1988 ganhei uma bolsa do Instituto Goethe para fazer meu KDS (Kleines Deutsches Sprachdiplom) em Berlim. Vivi na então Berlim ocidental alguns memoráveis meses até abril de 1989. A bolsa era excelente, com um curso de altíssimo nível, ajuda de custo para livros, alimentação, e ainda por cima morei num magnifico apartamento alugado pelo próprio Instituto. Aproveitei o que pude para ver concertos e óperas, e cruzei diversas vezes o muro para assistir espetáculos únicos (uma Sinfonia de Berio regida pelo autor por exemplo) e muitas, muitas óperas na Staatsoper, a ópera de Berlim Oriental. Agradeço aos céus por ter vivido em Berlim naquela época pois quem não viu a grotesca separação da cidade pelo muro não faz ideia do que existiu por lá. Berlim oriental, a capital da Alemanha comunista, parecia uma cidade fantasma, vazia e sem turistas. Mas a vida cultural não ficava a dever em nada a Berlim Ocidental. Ir do lado capitalista para o lado comunista não era impossível: tínhamos que apresentar passaporte, enfrentar fila, fazer um câmbio obrigatório bem desvantajoso e podíamos permanecer em Berlim Oriental até a meia noite. Do lado comunista para o lado capitalista a travessia era impossível para a maioria das pessoas. Só podiam atravessar os que tinham pelo menos 70 anos de idade ou privilegiados funcionários do governo. Xereta como sempre fui estive em Supermercados e vi donas de casa disputando cenouras quase podres, prateleiras vazias e muitas latas de sardinha. E Berlim Oriental era a capital. Imagino o que ocorria nas pequenas cidades. As partituras eram baratíssimas, mas tínhamos que comprar o que tinha, pois inexplicavelmente alguns itens sumiam. Meu pai, que falecera em 1987, era um admirador do regime comunista. Sem dúvida ele ficaria muito triste se eu contasse o que vi na Alemanha oriental e na Tchecoslováquia, países que visitei no meu período alemão.
Na minha primeira ida a Berlim Oriental fui na Staatsoper para ver o que seria apresentado até o fim de meu curso. Me interessei por diversas produções, e a primeira que assisti foi um Tristão e Isolda de Wagner, com Ingrid Haubold, Heikki Siukola e Theo Adam. Era um domingo à tarde.

A Ópera Estatal de Berlim

A Ópera Estatal de Berlim

Achei estranho ter que usar o passaporte para ver uma ópera na mesma cidade mas lá fui eu. Descobri a coisa mais sensacional de Berlim Oriental: o público. Era uma plateia que vivia o drama dos amantes da ópera de Wagner como se fosse uma experiência de catarse, comparável ao que teria sido o público das tragédias na Grécia antiga (Infelizmente pude constatar que este tipo de público não existe mais por lá). No intervalo do primeiro para o segundo ato desci para conhecer um pouco mais o teatro quando vi um grupo de rapazes brasileiros. Um deles me reconheceu e disse bem alto: “Estamos salvos, este é o maestro Colarusso”, disse um deles que já tinha assistido alguns concertos didáticos que tinha regido por aqui. Era um grupo de engenheiros curitibanos que estavam fazendo uma especialização na Universidade Humboldt. O orientador deles achava que tinham que ver uma ópera e os pobres coitados não tinham entendido nada daquele longo primeiro ato. Bom, expliquei o que tinha acontecido no primeiro ato e adiantei o que se passaria nos atos seguintes. Um jovem alemão (tinha 17 anos) chamado Johann ficou curioso e me perguntou: “Que língua o senhor (Sie) está falando?”. Disse que era português, que eu era brasileiro. Johann se tornou o meu amigo berlinense. Bem “nerd”, extremamente culto (sabia onde ficava Curitiba), era doido por Wagner. Infeliz por não poder ir para Berlim Ocidental, pois sabia das produções wagnerianas que se faziam por lá, não podíamos nem mesmo nos telefonar, cada um morando de um lado diferente do muro. Acabamos nos encontrando todas as vezes que ia a Berlim Oriental. Numa das vezes ele, com inúmeros rodeios, me pediu para trazer uma coisa de Berlim Ocidental que há meses não se encontrava na capital comunista alemã: uma tampa de privada. Eu, que a princípio não entendi bem o que ele estava pedindo, prometi tentar. No dia seguinte, em Berlim Ocidental, depois da aula, fui procurar o que Johann tinha pedido. Comprei a tal da tampa de privada e na minha próxima ida a Berlim Oriental, quando ia assistir Moses und Aron de Schoenberg (com Theo Adam e Reiner Goldberg) pensei em levar a encomenda. Quando a polícia comunista viu aquele embrulho na estação de Friedrichstrasse (onde fazíamos a passagem pro lado comunista) fizeram o maior escândalo. Desfizeram o embrulho e depois de muita conversa deixaram eu passar. Mas como o embrulho estava desfeito, todos na rua viam aquele cobiçado objeto. Me encontrei com o Johann na porta da Staatsoper que ficou vermelho ao ver o mico que eu estava pagando. Mas o mico foi ainda maior: a funcionária do Guarda Roupa (onde deixa-se os casacos no teatro) não aceitou ficar com a tal da tampa. Resultado: assisti Moses und Aron segurando uma tampa de privada, com as pessoas todas me olhando como se eu fosse um ET. Felizmente o espetáculo foi bom demais: que coro e que orquestra maravilhosos, regidos por um maestro fantástico chamado Friedrich Goldmann, um dos melhores maestros que já vi. A encenação (de Ruth Berghaus), bem comunista, fazia que quando Deus falava para Moisés, um orelhão era fortemente iluminado: para os “materialistas dialéticos” a voz de Deus vinha por um cabo telefônico…
Em 1992, três anos depois da queda do muro, voltei a Berlim, e procurei o Johann. Ele não tinha mais nada de “Nerd”. Estava cabeludo, tatuado, e ao invés de Wagner curtia rock pauleira. A queda do muro transformou sua vida…

Enviado por Osvaldo Colarusso, 03/11/14 8:30:17 AM

Fico estarrecido com o desprezo como é tratada a música clássica na imprensa nacional. Mais estarrecido quando tomo conhecimento por veículos de informação estrangeiros sobre o impressionante sucesso de músicos brasileiros no exterior. Não vou falar pela enésima vez do prestígio internacional de Nelson Freire, ao que parece o único nome de um artista brasileiro voltado à música clássica que a imprensa de vez em quando cita (não que ele não seja merecedor disso). Vou citar quatro fatos, que em outro país ocupariam, com certeza, as páginas dedicadas à cultura.

A magnífica Orquestra Jovem da Bahia e seu diretor musical Ricardo Castro

A magnífica Orquestra Jovem da Bahia e seu diretor musical Ricardo Castro

Neojiba na Europa. Sucesso estarrecedor. Você sabia disso?

Muita gente nem sabe o que é NEOJIBA. Pois esta sigla representa um dos mais importantes acontecimentos artísticos dos últimos anos no país. NEOJIBA são as iniciais de “Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia”, a mais bem sucedida experiência de se implantar o “El sistema” venezuelano no Brasil, cuja atividade começou em 2007. O grupo principal do NEOJIBA é uma orquestra jovem, com 120 jovens músicos e que é regida por seu fundador, o maestro e pianista baiano Ricardo Castro. Este conjunto fez uma turnê pela Europa no mês de setembro, se apresentando em salas importantes como o Auditório Santa Cecilia (Roma, Itália), no Auditório Stravinsky (Montreux, Suíça), onde a Juvenil da Bahia foi a primeira orquestra brasileira a ser residente no Festival de Musique Classique de Montreux-Vevey, no Queen Elizabeth Hall em Londres, e muitas outras. Em Montreux a Orquestra teve como solista nada mais nada menos do que Martha Argerich (que foi solista da orquestra em outras etapas da turnê). Pois bem, ao contrário da imprensa tupiniquim que ignorou o fato, uma das mais conceituadas publicações de música clássica do planeta, a francêsa Diapason escreveu, através de seu critico Rémy Louis, uma longa, detalhada e elogiosa crítica aos três concertos que a Orquestra deu na Suíça no mês de setembro. Por esta crítica fiquei sabendo que no primeiro concerto foi tocado o Concerto para dois pianos de Poulenc com Martha Argerich e Alexander Gurning como solistas. Como bis deram a parte final do Scaramouche de Milhaud, baseado na produção musical brasileira. Pois bem: o duo pianístico solicitou um percussionista da orquestra para ajuda-los com um pandeiro. Deve ter sido bem legal !!! A orquestra neste concerto tocou a Primeira Sinfonia de Mahler. Dá para acreditar uma orquestra jovem brasileira tocando uma obra tão difícil? Se os dois primeiros concertos foram regidos por Ricardo Castro, fiquei sabendo que o terceiro foi regido por Yuri Azevedo, um jovem maestro brasileiro (22 anos) que recebeu os maiores elogios do crítico. Grande elogio também para o compositor baiano Wellington Gomes. Sucesso total !!! Casa cheia e público delirante nas três noites. Não resisto a copiar a última frase da crítica: “Urgente: convidar para a França estes demônios brasileiros com um talento único e um sorriso irresistível!”. Esconder este sucesso é sonegar uma informação vital para nós brasileiros, amantes de música clássica ou não.

Paulo Szot em uma cena da ópera "A morte de Klinghoffer"

Paulo Szot em uma cena da ópera “A morte de Klinghoffer”

Paulo Szot: cantor brasileiro torna-se uma grande estrela no Metropolitan Opera

Paulo Szot, barítono brasileiro nascido em São Paulo em 1969 tem atuado com frequência no Metropolitan Opera de Nova York. Em 2010 cantou o papel principal de “O nariz”, ópera de Dimitri Shostakovich. O sucesso foi tão grande que em 2011 cantou no mesmo teatro, o mais importante teatro de ópera do mundo, o papel de Escamilo na Carmen de Bizet. Em 2012 cantou o papel de Lescaut na ópera Manon de Massenet junto a grandes nomes da cena lírica internacional como Anna Netrebko e Piotr Beczala. Neste início de novembro de 2014 ele canta o importante papel do “Capitão” da ópera “A morte de Klighoffer” do compositor americano John Adams. A controvérsia sobre o cancelamento da transmissão desta produção nos cinemas de todo o mundo já foi tratada aqui neste blog. Mas o que importa é que um artista brasileiro vem se tornando uma figura de destaque num teatro de importância mundial.

O compositor brasileiro Henrique Oswald

O compositor brasileiro Henrique Oswald

CD com Concerto do brasileiro Henrique Oswald entre os dez mais vendidos na Inglaterra

Mais uma vez fico sabendo algo importante relacionado à música clássica brasileira através da imprensa internacional. A revista BBC Music coloca todos os meses uma lista dos Dez discos de música clássica mais vendidos no Reino Unido numa lista que engloba vendas físicas e downloads. Qual não foi minha surpresa ao ver no último exemplar da publicação que um CD com os concertos para piano de Henrique Oswald (1852-1931) e Alfredo Napoleão (1852-1917) estão nesta lista de mais vendidos (oitavo lugar), à frente mesmo do ciclo de Sinfonias de Brahms com Ricardo Chailly. Oswald, compositor brasileiro. Alfredo Napoleão, compositor português, mas que viveu uma boa parte de sua vida no Brasil. Seu irmão, Arthur Napoleão foi um dos mais importantes editores musicais do Rio de Janeiro. Quem toca é o pianista português Artur Pizzarro. A Orquestra da BBC do país de Gales é regida por Martyn Brabbins. Asseguro que vale a pena conferir. Vale a pena ver também que no libreto que acompanha o CD há uma menção à “Escola de música do Rio de Janeiro” (???). Ao que parece esta instituição (deve ser a Escola de Música da UFRJ) possui o manuscrito do concerto de Oswald. Quem fez a edição foi o musicólogo e compositor minimalista inglês Tim Seddon. Como disse, vale a pena conferir.

Guiomar Novaes. Esquecida aqui, sempre lembrada no exterior

Guiomar Novaes. Esquecida aqui, sempre lembrada no exterior

Guiomar Novaes. Mais uma consagração fora de seu país

A revista francesa Diapason (de novo) acaba de lançar um álbum com 10 cds todos dedicados a obras de Chopin. Para a escolha das gravações já existentes eles mandaram quarenta itens de cada obra sem revelar quem eram os intérpretes para os maiores pianistas da atualidade (de Lugansky a Lang Lang). Sem saber quais eram os escolhidos saiu uma lista de intérpretes notáveis: Martha Argerich, Claudio Arrau, Benedetti Michelangeli, Alfred Cortot, Vladimir Horowitz, William Kapell, Wilhelm Kempff, Dinu Lipatti, Maurizio Pollini, Sergei Rachmaninov, Arthur Rubinstein, Vladimir Sofronitzki, etc. Pois entre tantas estrelas está Guiomar Novaes (1895-1979). Foi escolhido um registro do Segundo Concerto de Chopin que Guiomar gravou em Nova York, com a Filarmônica de lá regida por Georg Szell em 1951. Há quem diga que esta gravação é regida por Leonard Bernstein, mas o pessoal da Diapason tem meios para provar que é mesmo Szell. Mas que é Guiomar, isso ninguém discute. Uma vergonha o Brasil ter tão poucos registros desta grande artista. Não há nenhuma biografia dela e não há mesmo nenhum vídeo dela tocando.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 30/10/14 8:32:01 AM
Karol Szymanowsli: o maior compositor polonês da primeira metade do século XX

Karol Szymanowsli: o maior compositor polonês da primeira metade do século XX

Karol Szymanowski – O maior compositor polonês de seu tempo

Karol Szymanowski nasceu numa região, que hoje em dia pertence à Ucrânia, em 1882, em meio a uma abastada família polonesa, proprietários de terra. De início pensou em se tornar um grande pianista, mas apesar de ser um excelente instrumentista, ele muito cedo vai se dedicar à composição. Suas obras são em geral divididas em três fases. Na primeira delas é evidente a influência do compositor alemão Richard Strauss (1864-1949), sendo que esta influência é facilmente percebida quando ouvimos suas duas primeiras Sinfonias (1906-1909) e sua Abertura de concerto opus 12 (1905). Na sua produção para piano sentimos a influência de Chopin e de Sciabin. Depois de uma viagem pelo sul da Europa e norte da África em 1913 ele mergulha no universo impressionista. Nesta segunda fase temos suas obras mais originais. Se bem que ele sofra muita influência de Debussy, Ravel e Stravinsky, ao contrário das obras da primeira fase composicional em que as influências são bem aparentes, nesta segunda fase encontramos obras extremamente pessoais. A linguagem harmonica, instrumental e formal são completamente originais. Se há uma influência dos grandes compositores franceses da época podemos dizer que ele conseguiu de vez fazer com que as harmonias francesas passassem para o terreno da música atonal. Seus trípticos para piano solo, Métopes opus 29 e Máscaras opus 34, e Mitos opus 30, para piano e violino, todos compostos entre 1916 e 1917, demostram uma solidez estilística só encontrada em grandes mestres. Páginas e páginas sem uma tonalidade definida fazem com que tenhamos aqui composições tão belas e complexas como as de Schoenberg ou Bartók. É nesta época que Szymanowski vai compor sua Terceira Sinfonia – Canção da noite, obra escrita para tenor solo, coro e uma gigantesca orquestra. O texto desta Sinfonia é do poeta persa do século XI Jalāl ad-Dīn Muḥammad Rūmī. A obra é revolucionária em diversos aspectos, mas um deles é facilmente perceptível: a obra não tem nem um início e nem um fim expresso de forma clara. A Sinfonia começa do nada e termina no vazio. Podemos afirmar com segurança que esta terceira Sinfonia de Szymanowski é uma das sinfonias mais importantes compostas em todo o século passado. Também desta riquíssima segunda fase criativa do compositor polonês se inclui o seu lindo Primeiro Concerto para violino e orquestra, obra de 1916. Percebemos que até 1918 a atividade do compositor permanece intensa, tanto pela qualidade quanto pela quantidade de obras primas. E é neste ano que ele compõe outra obra fantástica: a ópera “O rei Rogério”, uma das mais importantes composições líricas do século XX, obra que não fica devendo nada ao “Wozzeck” de Alban Berg ou “O castelo de Barba-Azul” de Bartók. Szymanowski era assumidamente gay, e nesta ópera, que tem libreto do grande escritor polonês Jarosław Iwaszkiewicz (1894-1980), largamente modificado pelo compositor, deixa claro um envolvimento amoroso entre o Rei Rogério e o misterioso Pastor, que na realidade se revela no final ser o Deus Baco. E por falar em temáticas gays é desta época que o compositor deu início a uma empreitada literária bem ousada: Ephebos, um romance com temática homossexual, cujo manuscrito foi parcialmente destruído quando da ocupação nazista da Polônia em 1939.

A ópera "O Rei Rogerio" na controvertida montagem da ópera de Paris

A ópera “O Rei Rogerio” na controvertida montagem da ópera de Paris

Com a revolução comunista russa de 1917 a família de Szymanowski passa a enfrentar sérias dificuldades financeiras, pois todas as suas propriedades foram confiscadas. Com a independência da Polônia em 1918 ele passa a exercer cargos importantes nas instituições musicais de seu país, e é a partir de 1920 que podemos localizar sua terceira fase, ligada à música folclórica polonesa, especialmente da região dos “Goral” e das montanhas “Tatras”. O espirito religioso polonês é facilmente percebido na obra máxima desta última fase de sua vida: “Stabat Mater”, para solistas coro e orquestra, de 1926. Obra elogiada pelo compositor Igor Stravinsky, foi pensada originalmente para ser cantada em polonês, apesar de que a partitura inclui a opção de ser cantada em Latim. Sua última obra importante é sua Sinfonia Nº 4, obra concertante para piano e orquestra, escrita em 1932, uma de suas obras mais acessíveis. Vale a pena lembrar que nesta fase mais nacionalista polonesa o compositor escreveu Mazurkas com uma originalidade rítmica (com mudanças de compasso) e com uma harmonia altamente intrincada, bem distante das Mazurkas de Chopin. Os últimos anos de vida de Szymanowski foram de uma extrema pobreza, e sua luta contra a tuberculose termina com sua morte em 1937.

Szymanowski: um desconhecido no Brasil

Se Szymanowski já é um autor conhecido na Europa e nos Estados Unidos, sua obra permanece quase que completamente ausente em nossos concertos. A única execução de uma obra importante dele por aqui foi num Festival Internacional de Música de Curitiba, em 1977, quando seu Stabat Mater foi brilhantemente executado em primeira audição brasileira (eu, ainda estudante, cantei no coral, e quem regeu foi Roberto Schnorrenberg). Obras essenciais como a Sinfonia Nº3, Mitos, “O Rei Rogério” e muitas outras nunca foram sequer pensadas para serem apresentadas aqui. A mesmice de nossas programações sinfônicas, as limitações de criatividade no repertório de nossos instrumentistas, e a pobreza de nossas temporadas líricas fazem com que um dos maiores compositores do século XX permaneça entre nós um “ilustre desconhecido”.

Ouvindo e vendo Szymanowski

Felizmente a obra de Karol Szymanowski tem sido gravada em áudio e vídeo com grandes intérpretes. Sua obra orquestral mais importante (Sinfonias 3 e 4), seus concertos para violino e o Stabat Mater foram magistralmente registrados por Sir Simon Rattle, um grande divulgador da obra do compositor polonês. Da obra pianística destaco o CD de Piotr Anderszewski, apesar de adorar as gravações de Mikhail Rudy e Cédric Tiberghien. O trítico Mitos para violino e piano é magistralemte interpretado pelos conterrâneos do compositor Kaja Danczowska (violino) e Krystian Zimerman (piano). Em DVD existe um vídeo com as Sinfonias 3 e 4 regidos pelo grande maestro polonês Antoni Wit. Da ópera Król Roger (O Rei Rogerio) existe um DVD muito bom gravado no Festival de Bregenz regido por Sir Mark Elder. Um bom livro a respeito de Szymanowski não é algo fácil de encontrar. Em inglês recomendo o curto estudo de Christopher Palmer (Um compositor numa encruzilhada de caminhos). No entanto é em francês que existe o mais profundo estudo do compositor: Karol Szymanowski, escrito por Didier Van Moere, editado pela Fayard. Um trabalho biográfico excelente. Em português, esqueça…..

Szymanowski no Youtube

Existem itens fantásticos no youtube. Vale a pena baixar. Do concerto Nº 1 para violino e orquestra existe um vídeo em HD com a maravilhosa Janine Jansen. A Sinfônica de Londres é regida por Valery Gergiev. Fortemente recomendado.

Com a mesma violinista outro vídeo em HD. Mitos. Ela atua com o excelente pianista Itamar Golan

Num vídeo bem ruinzinho, mas com um som correto o Stabat Mater regido pelo finlandês Esa-Pekka Salonen. Se a imagem é ruim, vale a pena pelas legendas (em inglês) e pela estonteante execução.

Enviado por Osvaldo Colarusso, 10/10/14 7:57:32 PM
Mozart: compositor clássico ou erudito?

Mozart: compositor clássico ou erudito?

O grande compositor italiano Gioachino Rossini (1792-1868) dizia que existem dois tipos de música: a boa e a ruim. No entanto nos sentimos forçados, em diversas ocasiões, a separar as composições musicais em dois tipos, dois estilos. O mais usual é chamar um tipo de música de “música popular”, e outro tipo de “música clássica”. Mas, visto que a palavra “clássica” tem lá suas desvantagens (que explicarei mais abaixo), ela tem sido substituída por diversos termos, que muitas vezes se revelam piores do que o termo “música clássica”.
Um deles é “música de concerto”, algo bem inexato pois, por exemplo, uma apresentação de um pianista de jazz (jazz é música clássica ou popular???) como Keith Jarrett é um concerto. Prova disso é que sua gravação mais famosa chama-se “O Concerto de Colônia” (The Köln Concert). Pois bem, “Música de concerto”, fica bem claro, é um termo impreciso.
O jornalista J. Jota de Moraes (1943-2012), que escrevia sobre música clássica no extinto Jornal da tarde de São Paulo, usava um termo que é ainda mais impreciso: música de linguagem. Este termo pode soar bem preconceituoso (aliás todos ao que parecem são) porque pressupõe que nenhuma composição popular tenha “linguagem”. Apesar de ter sido amigo do Jota, nunca concordei com este termo.
Uma criação da língua portuguesa é ainda pior: “música erudita”. Não encontramos o termo em outro idioma, pelo menos nos idiomas que conheço. A erudição pretendida no termo, além de ter um efeito danoso em relação à popularização do tipo de música em pauta, pressupõe que a erudição é um privilégio de um tipo de música. Daí a coisa fica bem injusta, pois, por exemplo, uma composição como “Construção” de Chico Buarque ou “Ces Gens Là” de Jacques Brel possuem uma erudição poética e musical (os dois escreveram a música e a poesia) que não pode ser desprezada.
O melhor termo que encontro, nesta malfadada divisão, é mesmo “música clássica”, mas mesmo este termo tem seus inconvenientes, que agora explicarei. O termo “clássico” pode ser confundido com um período da história da música que é conhecido como “classicismo musical”, aquele que coincide com a segunda metade do século XVIII. Daí chamar Stravinsky (1882-1971) de um compositor clássico é uma incongruência. E Mozart (1756-1791), seria um compositor clássico do período clássico?
O que percebemos é que no afã de se separar estilos artísticos usamos irremediavelmente termos problemáticos, e muitas vezes temos que consertar as coisas de forma que inúmeras vezes a “emenda sai pior que o soneto”. Por uma questão de redação, para se excluir a repetição de um termo, que já tem lá suas desvantagens, usamos outro que é pior ainda. Mesmo eu, em meus programas que produzo na Rádio Educativa do Paraná, tive que usar o malfadado termo “erudito” na apresentação de um programa. Este programa tem o título de “Os grandes ciclos da história da música” (vai ao ar às terças às 20 horas). Para não se pensar que o programa só trata de produções do período clássico, na segunda frase de apresentação o locutor diz, “a produção musical erudita em ciclos completos”. Levei a maior espinafrada de um amigo por causa disso, mas não vi solução melhor.
Nos dias de hoje a divisão entre “clássico” e “popular”, em termos musicais, está cada vez mais tênue. “Erudito” é mesmo de matar. “Música clássica”, apesar de bem melhor, é algo historicamente impreciso. O melhor mesmo seria ficarmos com Rossini: música boa e música ruim. Esta divisão, que respeita unicamente o gosto pessoal, não tem nenhuma contra indicação.

Videos

“Ces Gens Là”, de Jacques Brel, não é uma composição repleta de erudição?

Construção,de Chico Buarque, uma obra prima da poesia e música, não é uma “música de linguagem”?

“Uma pequena serenata noturna” de Mozart não é uma música popular?

Enviado por Osvaldo Colarusso, 28/09/14 8:55:23 PM
Marcelo Marchioro em meio ao seu imenso acervo

Marcelo Marchioro em meio ao seu imenso acervo

Tarefa muito penosa escrever um texto sobre Marcelo Marchioro. Penosa pela atroz doença (esclerose múltipla) que o matou aos poucos nos últimos 15 anos. Ao falecer no último dia 24 Marcelo tinha 62 anos de idade e completaria 63 anos no próximo dia 11. Marcelo foi um grande amigo pessoal, e mesmo doente nunca esqueceu a minha data de aniversário e me telefonava anualmente, cada vez com a voz mais alquebrada. Ele foi um excepcional Diretor de Teatro, com uma enorme versatilidade, encenou dezenas de peças, sendo que se tivesse que citar uma destacaria a excepcional montagem que ele fez de “As bruxas de Salem” de Arthur Miller no Guarinha em 1990, a melhor montagem teatral que assisti nestes 29 (quase 30) anos de Curitiba. Mas ao mesmo tempo Marcelo foi um dos melhores diretores cênicos de ópera que o Brasil já pode ver. Ele amava música, e fazia todas as marcações cênicas em uma partitura, respeitando de forma impecável todas as necessidades musicais do texto.
Se por um lado esta tarefa (a de escrever um texto sobre o Marcelo) é penosa, por outro lado me sinto privilegiado por ter trabalhado junto a este gigante das artes cênicas em algumas históricas montagens de ópera na capital paranaense. Como, involuntariamente ou propositadamente, a história artística desta cidade é esquecida, e os personagens que a fizeram são desprezados, pretendo aqui deixar de forma bem clara e contundente os trabalhos que Marchioro, como diretor cênico e eu, como maestro, fizemos juntos.

Desde que cheguei em Curitiba em 1985, atuando como maestro da Orquestra Sinfônica do Paraná, estabeleci rapidamente uma ligação de amizade com Marcelo. Quando em 1989 o então secretário de cultura, René Dotti, resolveu apoiar e profissionalizar as montagens de ópera o primeiro título escolhido foi “Don Giovanni” de Mozart. Estava tudo certo para eu e Marcelo fazermos nosso primeiro trabalho junto, até que o nome dele foi barrado e em seu lugar convidado alguém com mais “glamour”, um cineasta que prefiro não declinar o nome, cujo trabalho esteve próximo a uma piada de péssimo gosto. Na segunda ópera pensada em termos profissionais Marchioro encenou Tosca de Puccini, que foi regida por Alceo Bocchino. Um grande sucesso. Só no ano seguinte, quando a pessoa que insistiu no tal do cineasta foi afastada, é que finalmente pudemos colocar em prática nossas afinidades.

O Barbeiro de Sevilha – Temporadas de 1990 e 1992

Ao imaginarmos juntos uma montagem de “Il Barbieri di Siviglia” imediatamente fomos em busca da edição de Alberto Zedda, muito mais próxima do texto original de Rossini. Marchioro percebeu sozinho as vantagens desta edição, que foi executada no Brasil pela primeira vez nesta montagem. Milimétricamente colocamos a música junto com a ação, e como eu próprio tocava no cravo os recitativos, cada acorde, cada escala, tinha um equivalente cênico. Marcelo concebeu a ópera de tal forma que cada personagem tinha um “duplo” feito por um ator ou acrobata ligado à “Commedia dell’arte”. Como detalhe histórico interessante o “duplo de Rosina” (a Colombina), magnificamente interpretada por Denise Sartori, era a até então desconhecida Letícia Sabatella. Foi nesta montagem que ela foi descoberta por um homem responsável pelo “casting” da Rede Globo (Emílio di Biase). Junto ao genial cenário de Felipe Crescenti e dos figurinos estonteantes de Leda Senise, a música parecia fluir de maneira mágica. Vale acrescentar que na temporada de 1990 descobrimos três grandes talentos paranaenses no campo do canto lírico: a já citada Denise Sartori, Pepes do Vale e Divonei Scorzato. Quem fazia o Fígaro era o excelente barítono de Brasília Francisco Frias, e dois “monstros sagrados” fizeram parte do elenco: Carmo Barbosa, no papel de Bartolo e Wilson Carrara no papel de Basílio. O sucesso foi tão grande que toda a produção foi reposta em 1992. Mais uma vez interferências indevidas vetaram o nome de Frias, e recomendaram alguém que não deu conta do recado. Felicidade: Fígaro então foi interpretado magistralmente pelo grande barítono Sebastião Teixeira. Nesta segunda temporada de “Il Barbieri di Siviglia” o êxito foi ainda maior e esta produção foi apresentada também no Teatro Municipal de São Paulo.

Elencos:

Temporada 1990 – de 14 a 19 de agosto

Rosina: Denise Sartori
Conde de Almaviva: Ivo Lessa
Figaro: Francisco Frias
Bartolo: Carmo Barbosa
Basílio: Wilson Carrara
Berta: Elizabeth Campos
Fiorello: Pepes do Vale
Oficial: Divonei Scorzato
Ambrogio: Mário Schoemberger (sim, o grande ator)

Temporada 1992 – de 18 a 22 de novembro
Rosina: Denise Sartori
Conde de Almaviva: Paulo Mandarino
Figaro: Sebastião Teixeira
Bartolo: Sandro Christopher
Basílio: Jeller Felipe
Berta: Márcia Degani
Fiorello: Pepes do Vale
Oficial: João César Peceggini
Ambrogio: Eneas Lour

Segundo ato de La Bohéme na encenação de Marchioro. Claudia Riccitelli no papel de Musetta

Segundo ato de La Bohéme na encenação de Marchioro. Claudia Riccitelli no papel de Musetta

La Bohéme – Temporada de 1994

Eu e Marcelo sonhávamos alto. Chegamos a pensar em montar Lulu de Alban Berg, mas constatamos que nossa estrutura era muito limitada para tal empreitada. Mas como resultado de nosso estudo sobre a obra Marcelo montou o díptico de Wedekind, Lulu (A caixa de Pandora e O espírito da terra), numa montagem teatral soberba. De Lulu passamos a algo mais factível: La Bohéme de Puccini. De início pensamos que se tínhamos que montar algo tão popular tínhamos que fazê-lo de forma exemplar. O elenco deveria ser perfeito, e conseguimos um verdadeiro espírito de “companhia”. Com pouquíssimo dinheiro conseguimos, por amizade, trazer, além do elenco, um dos melhores cenógrafos da época, Hélio Eichbauer. Nesta produção alguns nomes não podem ser esquecidos, inclusive por sua incisiva observação do gestual frente À música. Falo de Sandra Zugman, que junto a Marcelo deram toda a leveza e fluência ao espetáculo. A emoção estava à flor da pele. Marcelo aprofundava os sentimentos, a ponto de ter que me vigiar para não embarcar na pura emoção e esquecer da minha função de regente. Em duas récitas lembro que segurei as lágrimas em mais de um ponto da partitura. Marcelo fez de La Bohéme um lindo hino Às relações humanas. Uma direção mais do que impecável: impecavelmente humana. O elenco, formado pela nata dos cantores líricos brasileiros, soube absorver cada momento desta montagem, desde as semanas de preparação até as apresentações. Isto tudo com um orçamento que somava aparentemente um quinto do custo de qualquer produção em São Paulo ou no Rio de Janeiro.

Elenco: temporada de 1994 – de 24 de setembro a 2 de outubro

Marcelo: Sandro Christopher
Rodolfo: Fernando Portari
Colline: Pepes do Vale
Schaunard: Sebastião Teixeira
Benoit/Alcindoro: Caio Ferraz
Mimi: Mônica Martins
Musetta: Cláudia Riccitelli
Parpignol: Ivan Moraes

La Cenerentola – Temporada de 1997

Apesar dos anos que separam as produções este espírito de “companhia” se aprimorou ainda mais nesta montagem de La Cenerentola de Rossini. Marcelo me perguntou mais uma vez se havia uma edição de Alberto Zedda, e com enorme esforço conseguimos alugar as partituras. Mas valeu a pena!!! Marcelo imaginou uma comédia refinada e certas cenas beiravam o virtuosismo em termos cênicos. Quando falo disso lembro das marcações que ele fez para o dueto dos barítonos, Dandini e Don Mangifico, interpretado de forma soberba por Pepes do Vale e Sandro Christopher. Os papéis que geralmente são considerados menores, os das irmãs da Cinderela, foram arrebatados por um gestual fantástico inventado por ele, e que foram muito bem compreendidos por Simone Foltran e Sivia Suss. Silvia Tessuto e Fernando Portari, que interpretaram Angelina (a Cenetrentola) e Dom Ramiro, souberam seguir as marcações de Marchioro, mais uma vez assessorado por Sandra Zugman. Vale lembrar que esta foi a primeira montagem da ópera feita por um elenco inteiramente brasileiro. Leda Senise demonstrou um virtuosismo (pouquíssimo dinheiro) em seus figurinos e cenários e até uma animação foi feita por Valencio Xavier para ser exibida durante a abertura “na faixa”.

Elenco: Temporada 1997 – de 23 a 29 de abril

Angelina (La Cenerentola): Silvia Tessuto
Dom Ramiro: Fernando Portari
Dandini: Sandro Christopher
Don Mgnifico: Pepes do Vale
Clorinda: Simone Foltran
Tisbe: Silvia Suss
Alidoro: Lukas D’Oro

Curitiba e sua decadência cultural

O excepcional trabalho de Marchioro como diretor cênico de óperas em Curitiba não se limitou a estas três produções que eu regi. Como disse acima ele encenou Tosca de Puccini em 1989, junto ao maestro Alceo Bocchino, a “Ópera dos três vinténs” de Kurt Weill em 1994 (direção musical de Guga Petri) e Gianni Schicchi de Puccini em 2005 (direção musical de Alessandro Sangiorgi). De forma triste vemos que Curitiba em termos culturais não tem mais capacidade de reeditar tudo o que foi explanado acima simplesmente por absoluta falta de recursos e incentivo. O Coro Teatro Guaíra, peça chave em todas as óperas, e que atuava com uma disposição incomum dirigido por Emanuel Martinez, foi extinto. O TCP, Teatro de comédia do Paraná, também foi extinto. Sim, este TCP, que colocou em cena dezenas de trabalhos maravilhosos como “New York, Por Will Eisner” dirigido por Edson Bueno e “A Vida de Galileu Galilei” dirigido por Celso Nunes (com Paulo Autran) não existe mais. Tudo extinto, tudo pobre. Neste aspecto a doença de Marcelo coincidiu com este desolador cenário. Sim, vejo a morte de Marcelo Marchioro como mais um duro golpe na combalida cultura paranaense.

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