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“A sertaneja” de Brasílio Itiberê: a primeira obra de concerto pianística brasileira

O compositor paranaense Brasílio Itiberê
O compositor paranaense Brasílio Itiberê

 

As inúmeras pessoas que passam diariamente na Rua Brasílio Itiberê no bairro Rebouças de Curitiba não fazem a menor ideia de quem foi o homenageado com o nome do logradouro: Brasílio Itiberê foi um compositor nascido em Paranaguá em 1846. A composição musical não foi a única atividade deste notável paranaense: foi também diplomata de carreira, tendo servido em embaixadas brasileiras na Bélgica, Itália, Peru, Paraguai e Alemanha. A carreira diplomática de Brasílio Itiberê foi proposta pelo imperador Dom Pedro II como um meio dele se aperfeiçoar como compositor, sendo que a serviço do Brasil, como ministro plenipotenciário, faleceu na capital alemã em 1913. Reza a história de que no período em que esteve em Roma, entre 1873 e 1882, intensificou sua amizade com o compositor e pianista Franz Liszt, que teria tocado na época sua obra mais conhecida, “A sertaneja”, e que teria também na mesma época profícua amizade com dois dos maiores pianistas da época, Anton Rubinstein e Giovanni Sgambati.

Pela escrita musical pianística de Brasílio Itiberê é possível deduzir que ele era um excelente instrumentista, com técnica muito sofisticada. O pianismo de alta virtuosidade fazia um enorme sucesso em sua época, e ao que parece Itiberê como virtuose do piano tinha a capacidade de magnetizar o público em suas apresentações. Se sua carreira diplomática o impediu a ter um maior domínio composicional não deixa de nos impressionar que no Brasil de meados do século XIX, um artista nascido na periferia do Império, tenha realizado uma atividade musical consistente em nosso país.

Brasílio Itiberê . Ilustração: Carlos Garcia Fernandes

“A sertaneja” e sua forma genial

Composta quando o autor tinha apenas 23 anos de idade, “A sertaneja”, de 1869, acabou se tornando uma obra fundamental na história da música brasileira. Primeiro por ser a mais antiga obra pianística de concerto significativa escrita no país e por ser das mais antigas composições brasileiras a fazer uso de melodias folclóricas. Entre as inúmeras qualidades da obra o que mais chama a atenção é a perfeição formal. Seu esquema formal é o seguinte: Introdução, “A” em lá bemol menor, “B” em lá bemol Maior, “A” novamente em lá bemol menor e uma curta coda.  Mas tanto o “A” como o “B” são também tripartites. Isto quer dizer que a macroestrutura é espelhada na microestrutura. Na parte “B” é que é utilizada a melodia folclórica “Balaio meu bem balaio”, e uma outra melodia, inspirada na mesma fonte popular. Esta parte “B” é um desafio para os pianistas com amplos saltos para a mão direita, e a parte central deste “B” tem uma curiosa utilização de ritmo de Habanera. Ao conhecer outras obras do autor, especialmente no importante CD da pianista paranaense Giséle Rizental, percebemos que “A sertaneja” é, de longe, a única obra prima do compositor. Isto não impede dizer que Brasílio Itiberê é o mais importante compositor nascido no Paraná no século XIX, e que o Estado só veria compositores de alto nível nascidos aqui muitas décadas depois.

 

 

O pianista carioca Arnaldo Estrela

Arnaldo Estrela e o Instituto Piano Brasileiro

 

Entre as inúmeras gravações da obra prima de Brasílio Itiberê há uma que permanece a mais perfeita e impressionante: a do pianista carioca Arnaldo Estrela (1908-1980). Ele tinha uma técnica fulgurante o que permite que ele vença com desenvoltura as inúmeras dificuldades da obra. A maneira como destaca as melodias folclóricas da parte central da obra junto a arpejos arrepiantes da mão direita deve ser ainda mais valorizada pelo fato de que na época da gravação (década de 1950) os recursos para edição ainda não existiam. O importantíssimo “Instituto Piano Brasileiro”, em sua página no youtube, disponibiliza esta bela gravação junto com a partitura da obra. Por falar no “Instituto Piano Brasileiro”, em sua página no youtube ele disponibiliza dezenas de obras brasileiras para piano sincronizadas com suas partituras. Trabalho incansável dos pianistas Alexandre Dias (de Brasília) e Douglas Passoni (de Ponta Grossa) merece todo o nosso apoio. Para ajudar existe um site para crowdfunding (Financiamento coletivo). Clique aqui e colabore. Vale a pena.

Assista o vídeo do Instituto Piano Brasileiro