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História Cultural

Enviado por André Egg, 23/08/15 12:17:26 PM
O capital no século XXI - capa da edição brasileira

O capital no século XXI – capa da edição brasileira

Acabei de ler O capital no século XXI, de Thomas Piketty. Está perto de fazer um ano que o livro foi lançado em sua edição brasileira, traduzida do original francês por Monica Baumgarten de Bolle e publicada pela Intrínseca. Ou seja, por critério de atualidade, entra aqui no blog não como “livro recém lançado”, mas vai direto para a categoria “livros clássicos”.

O livro foi escrito com a pretensão de se tornar uma referência em economia política. E acho que atinge fácil o objetivo. As principais qualidades que o colocam no patamar de leitura obrigatória são: a linguagem acessível a leitores não especializados em economia; o amplo diálogo com outras áreas das Ciências Humanas (principalmente História, Sociologia e Ciência Política); a profundidade dos dados utilizados para compor o livro, somada à sabedoria em não encher o livro de tabelas, gráficos e números – os interessados em detalhes podem baixar o anexo técnico no link da editora; a consciência dos limites e do lugar público da economia acadêmica, onde a discussão técnica não pode pretender superar as decisões políticas tomadas de maneira democrática.

Quando lançado em inglês, e ainda em 2014 logo depois da publicação no Brasil, o livro já recebeu muitas resenhas ótimas. Seria desnecessário mais uma, a não ser no meu caso, se eu puder demonstrar a importância da obra como livro de história – foco deste blog.

Se o livro fosse daqueles antigos com títulos longos, que chegavam a ocupar quase uma página inteira, podia ter um assim:

Uma história das desigualdades de estoque de capital, das rendas de capital e das rendas do trabalho na Inglaterra, França e Estados Unidos nos século XIX e XX, com projeções para a desigualdade no século XXI e propostas tributárias para evitar a concentração extrema de riquezas e manter a sustentação financeira do Estado Social criado no pós Segunda Guerra Mundial.

Porque é mais ou menos isso aí que o livro se propõe. O autor evita discutir o assunto para países que não têm dados suficientes ou confiáveis, nem séries suficientemente completas e de longa duração. Assim, a limitação aos três principais países ocidentais é explicada pelos dados disponíveis. Por outro lado, Piketty toma o cuidado de relativizar os números que usa no livro. Segundo o autor, existem inúmeros problemas no cálculo dos dados, de modo que estes devem ser usados como grandezas e proporções aproximadas, que permitem analisar tendências. Mas não podem ser tomados como medidas precisas.

Um livro como esse só foi possível por causa de uma longa tradição de economistas e historiadores franceses, ingleses e norte-americanos que, desde o final do século XIX vêm fazendo pesquisas monumentais para estimar dados de renda, patrimônio, arrecadação fiscal, entre outras informações importantes. Os dados mais recentes usados no livro conseguem ser mais confiáveis devido aos avanços na contabilidade, nos dados públicos e, principalmente, na informática. Vale dizer, Piketty trabalha há décadas com uma rede de dezenas de pesquisadores em vários países do mundo que vêm produzindo uma base de dados sobre desigualdade no mundo.

O principal obstáculo para estudos como o de Piketty, e mesmo para a implantação de um Estado Social de âmbito mundial, capaz de mitigar a pobreza extrema e a desigualdade crescentes (como o autor defende) é a falta de dados e de transparência das informações fiscais produzidas e disponibilizadas pelos governos ao redor do mundo. A justiça social parcamente alcançada nos países centrais e mesmo os dados que permitiram a escrita do livro foram resultado dos esforços fiscais associados à construção do Estado moderno.

De maneira geral, o livro decorre da premissa de que a desigualdade extrema é prejudicial à democracia e à convivência pacífica. Acho difícil discordar, embora isso não seja necessariamente derivado dos dados econômicos que Piketty manuseia. É uma premissa, digamos, moral. Aliás, uma parte muito interessante do livro é justamente a demonstração de como no pós 1945 se construiu na Europa Ocidental e nos EUA um consenso em torno da necessidade de mitigar a desigualdade – o que corresponde ao que se costuma chamar de “anos dourados”, ou “os 30 gloriosos”. O colapso deste consenso ficou evidente por volta de 1980, e desde então existe uma volta da desigualdade em crescimento rápido, chegando hoje aos patamares próximos aos da Belle Epoque, período até hoje mais desigual entre os que se tem medida.

Ênfase no termo “em que se tem medida”. Porque eu acho saudável a preocupação do Piketty em não querer dar palpite sobre coisas que ele não tem dados, mas isso também soa no livro como um outro tipo de premissa: eurocentrismo. A ênfase no que acontece em EUA, Inglaterra e França é por causa dos dados ou é porque são os únicos lugares que o autor considera relevantes para pensar o mundo, ou o único tipo de cultura com a qual ele conseguiu dialogar? Fica difícil separar as coisas, afinal, Piketty gosta de usar outras coisas além da fria base de dados: literatura, por exemplo. Os personagens de Jane Austen ou Balzac, principalmente O pai Goriot – de onde o discurso de Vautrin para Rastignac sai quase como mote para toda a pesquisa de Piketty. Em tal discurso, o personagem reflete sobre a pertinência de buscar a riqueza a partir do trabalho, uma vez que uma vida inteira de dedicação às melhores carreiras existentes no início do século XIX permitiria pouco mais do que uma fração minúscula do que se podia obter da herança conquistada com um casamento adequado.

Vem então a utopia por trás do livro de Piketty, compartilhada entusiasmadamente por este resenhista: um mundo de oportunidades para todos, garantido por um estado social (principalmente educação pública, salário mínimo, aposentadorias, infraestrutura de transportes energia e comunicações) sustentado por impostos progressivos e onde a herança não seja privilegiada em relação ao trabalho e ao empreendedorismo. Ou seja, a definição em si mesma da ideia de social democracia.

Se o título do livro pudesse remeter em algum momento a algum tipo de afinidade com o marxismo ou com o pensamento de Marx, isso fica afastado rapidamente nas primeiras páginas. A obra de Marx fica descartada como carente de qualquer base de dados significativa, e os resultados obtidos por regimes inspirados no marxismo não representam nenhuma simpatia para Piketty.

A preocupação em se desvencilhar de qualquer associação à teoria marxista ou a regimes políticos marxistas é compreensível e salutar. O autor pretende ser respeitado entre os economistas acadêmicos e pretende que suas ideias interfiram na cena pública, afinal, suas propostas de justiça fiscal são factíveis e são uma plataforma política real para o mundo de hoje. Qualquer simpatia com o marxismo poria a perder a validade deste empenho na cena política.

E aí entra a parte mais difícil de engolir como livro de história. Não existe a possibilidade, sabem os historiadores, de abarcar o passado como verdade a partir de dados ou fontes confiáveis. Não existe mais o primado do fato, toda fonte histórica deve ser vista com desconfiança e, o historiador não pode tirar das fontes apenas o que elas dizem mas, principalmente, o que elas não dizem.

Sendo assim, a ausência de dados confiáveis para outros países faz com que Piketty caia no erro de universalizar a experiência histórica de França, Inglaterra e Estados Unidos. Piketty chega a fazer interpretações históricas de longa duração e longo alcance somente com base neste tipo de documentação parcial, e nisso a coisa fica meio frágil. Voltamos a isso mais adiante, pois é preciso entender um pouco mais o argumento histórico de Piketty antes de apontar-lhe falhas ou ausências.

O capital no século XXI traça uma história da economia mundial (tomada como totalidade a partir dos casos específicos de França, Inglaterra e Estados Unidos e extrapolada ou comparada em alguns momentos com casos onde é possível fazer inferência para países como Alemanha, Itália, Suécia, Canadá, Austrália, Argentina) na era contemporânea. Grosso modo, a construção do mundo da Revolução Francesa aos dias atuais. Ou da economia como conhecemos.

Piketty explica, de forma sintetizada para não economistas, os conceitos de renda e de capital, a relação entre as duas variáveis e as formas como isso costuma operar em leis econômicas básicas. Subentende-se aqui o funcionamento de leis econômicas numa economia de mercado como a que existe hoje no mundo. A tentativa de implantar regimes políticos fora dessas premissas é considerada por Piketty como um fracasso completo.

Saio da leitura razoavelmente convencido da existência de algumas “leis” econômicas básicas, que não sei se entendi direito, mas me parecem determinar fatores históricos analisados no livro. Existem as rendas do trabalho e as rendas do capital. Em geral é bem difícil separar as duas coisas, à medida em que no mundo moderno a aplicação de capital exige quantidade razoável de trabalho. Só fica mais fácil demonstrar a diferença à medida em que o estoque de capital aumenta: quanto maior o patrimônio de um sujeito, menor o componente de trabalho na sua renda.

O livro trabalha com o conceito de renda nacional (um pouco diferente de PIB), e calcula proporções desta para os rendimentos do trabalho e do capital. Faz estimativas de quanto da renda nacional fica com cada parcela dos estratos de renda. E de quantos anos de renda nacional correspondem aos estoques de capital.

O livro percebe umas certas constâncias, que pra mim foram muito esclarecedoras. O rendimento do capital tem uma tendência de bastante longo prazo acomodada em torno de 5% ao ano (antes de impostos). O que andou variando muito nos últimos séculos foi o tamanho da renda nacional e das rendas do trabalho.

Com uma renda do capital meio constante na faixa dos 4,5 a 5% anuais, crescimentos da renda nacional menores que este patamar tendem a promover concentração de renda e de estoque de capital. A novidade provocada pelas transformações econômicas do século XX foi um raro momento de alto crescimento da renda nacional provocado por aumento fortíssimo da produtividade conjugada com crescimento demográfico. Acho bem demonstrado no livro que esta conjuntura parece esgotada – ou seja, não veremos no século XXI aumentos de produtividade e crescimento demográfico capazes de equilibrar o crescimento da renda nacional com o rendimento do capital. Resumindo: a perspectiva do funcionamento normal da economia no futuro previsível é de uma natural concentração da renda.

O livro aponta para uma tendência de retorno a níveis de concentração semelhantes aos observados na virada dos séculos XIX e XX. Na chamada Belle Epoque a proporção da concentração de renda era tal que em 1910 a Europa via 90% da propriedade pertencer aos 10% mais ricos da população, enquanto o 1% mais rico ficava com cerca de 50%. Ou seja, a divisão era: 1% mais ricos com 50% da propriedade, os 9% seguintes com 40% e os demais 90% com os 10% que sobraram. Ou seja, nada.

A inovação do século XX foi a criação de uma classe média patrimonial. Hoje a parcela dos que não tem nada nos países ricos é de cerca de 50% (nada em termos de patrimônio, mas uma renda do trabalho e serviços públicos capazes de permitir uma existência minimamente digna). Há um grupo de 40% da população que detêm cerca de 35% da propriedade, os 9% acima ficam com outros 35% e o 1% mais rico acumulam 25%. Esta divisão corresponde mais ou menos à da Europa atual. Nos Estados Unidos há uma diferença significativa, pois o 1% concentra 35% da propriedade e os 40% dividem apenas 25%. A menor desigualdade já observada foi nos países escandinavos da década de 1970, que chegou a distribuir 10% da propriedade para a metade mais pobre da população, 40% para as classes médias e “apenas” 50% para o décimo mais rico (divididos em 20% para o primeiro centésimo e 30% para os 9 restantes).

Gráfico feito com dados fornecidos na tabela da página 243

Gráfico feito com dados fornecidos na tabela da página 243 – clique que amplia

O nível de desigualdade média atingido na social-democracia escandinava no passado recente já não existe mais. Caminha-se para níveis de concentração crescentes devido à vantagem do rendimento do capital sobre o crescimento da renda nacional. O primeiro parece estável na casa dos 5% anuais, enquanto o crescimento da renda parece difícil de atingir cifras muito maiores que 1% ao ano para países ricos (taxas maiores só seriam factíveis em países que estejam “tirando o atraso”, como a China em décadas recentes).

O raciocínio político de Piketty é que as tentativas de burlar esse funcionamento normal da economia capitalista se mostraram fracassados. A melhor forma de evitar a desigualdade extrema no mundo do século XXI será com a taxação pesada das altas rendas. Economicamente isto é viável e já foi aplicado. Durante os chamados “30 gloriosos”, no imediato pós-guerra, houve um razoável consenso de que a desigualdade era politicamente indesejável. Isso levou a faixas de tributação de renda que chegaram a 90% de alíquota para os mais ricos, como aplicado nos Estados Unidos a partir do governo Roosevelt (a maior alíquota de Imposto de Renda nos EUA manteve uma média de 81% no período 1932-1980, ou seja, só começou a cair no governo Reagan, e hoje está abaixo dos 40%).

O ideário político da época, completamente perdido no tempo, era o de que não seria justo que o peso da fortuna herdada fosse maior que o do trabalho, da inovação e do empreendedorismo. A justificativa que Piketty busca para o século XXI é semelhante: manter o estado social criado na segunda metade do século XX custa caro, e a melhor maneira de financiá-lo é com impostos confiscatórios sobre as altas rendas. Esse tipo de tributação teria o efeito benéfico de favorecer o trabalho e o empreendedorismo, contribuindo para uma sociedade mais justa e uma economia mais dinâmica.

Para todo mundo que não faz parte do 1%, me parece uma plataforma política bastante razoável. Ou seja, não deveria ser nada difícil de implantar, politicamente falando. Mas porque isso não se verifica na prática? Curioso. O livro traz muitas explicações. Os 1% mais ricos estão longe de ser um grupo estatisticamente desprezível. Nos EUA são algo como 3 milhões de pessoas, um grupo numeroso o suficiente para fazer influência decisiva na política, na cultura, na imprensa. Considerando que neste grupo estão o grosso dos políticos norte-americanos, e toda a classe dos executivos, e somando o fato de que os economistas influentes tendem a estar entre o 1% das mais altas remunerações, tem-se o quadro de que as decisões políticas das últimas décadas estão levando ao crescimento acelerado da concentração de renda e de patrimônio.

É muito interessante a visão que Piketty tem da crise europeia. Ele escreveu o livro antes da crise grega chegar à sua fase mais aguda e ganhar a imprensa mundial com a vitória do “não” no plebiscito convocado por Tsipras. Mas a análise de Piketty já previa o desfecho atual: a união monetária europeia tendia ao fracasso por basear-se numa moeda sem Estado, e sem um sistema unificado de arrecadação capaz de tributar as altas rendas. Piketty demonstra que costuma haver 3 formas básicas de resolver problemas de endividamento público: com inflação (fórmula aplicada por muitos países nas décadas de 1930 a 1970), com austeridade (forma aplicada pela Inglaterra do século XIX, que explica a altíssima concentração de patrimônio e provavelmente a derrocada da sua liderança econômica mundial) e com aumento de impostos.

Para Piketty, a austeridade é indiscutivelmente a pior forma dentre as 3. A inflação tem efeitos colaterais muito nocivos, afetando principalmente os idosos – ele lembra que o principal efeito da inflação generalizada de meados do século XX foi a existência uma geração de idosos extremamente pobres depois da guerra na Europa.

A melhor forma seria através de impostos. Mas ele considera a aplicação de um tipo muito específico de imposto: uma tributação confiscatória sobre patrimônio, aplicada de forma temporária. O exemplo seria aplicar um imposto progressivo sobre patrimônio. Para diminuir 20 pontos do endividamento público (de 90% médios para 70% médios do PIB na Europa), bastaria aplicar um imposto confiscatório excepcional em um único ano, isentando patrimônios inferiores a 1 milhão de Euros, aplicando taxa de 10% sobre a faixa de 1 a 5 milhões de Euros e taxa de 20% sobre a parcela dos patrimônios situada em faixas superiores a 5 milhões de Euros.

A aplicação de impostos progressivos sobre a renda e o patrimônio esbarra na necessidade de coordenação de esforços fiscais em nível internacional (idealmente) ou no mínimo em nível europeu (mais factível). Demanda também uma pressão política sobre os paraísos fiscais que concentram hoje grandes fortunas não declaradas possuídas por cidadão de diversos países. O grande problema dos impostos progressivos já aplicados no passado, para Piketty, é que eles não atingiam o grosso dos maiores patrimônios e rendas. Impostos sobre patrimônio tendem a atingir imóveis e contas bancárias, que hoje representam parcela minoritária das grandes fortunas, diluídas em sofisticados investimentos financeiros.

A necessidade de tributar estes investimentos financeiros é demonstrada por Piketty na medida em que a renda média do capital, estável entre 4,5 e 5% num horizonte histórico considerável, tende a aumentar muito quanto mais alto for o capital aplicado. Aí foi muito interessante o método que Piketty aplicou para demonstrar sua suposição – é muito difícil contar com dados para demonstrar estas diferenças de rendimentos (fáceis de intuir). O único caso que serviu para a demonstração no livro, foi o da aplicação dos fundos das universidades norte-americanas. Por exigência legal, as universidades precisam de total transparência na aplicação dos recursos provenientes de doações.

A partir da página 436 o livro apresenta um estudo dos rendimentos das dotações das universidades, apontando que a média de rendimentos obtidos pelos fundos das mais de 800 universidades esteve em 5,2% ao ano entre 1990 e 2010. Mas tomado para as 3 maiores – Harvard, Yale e Princeton, com fundos somados de cerca de 65 bilhões de dólares, o rendimento médio anual foi de 10% para o período. Ou seja, quanto maior o estoque inicial de capital, maior o seu rendimento, por diversos fatores que reduzem o custo de aplicação e favorecem as aplicações mais rentáveis sem risco patrimonial considerável, bem como pela maior possibilidade de contratar serviços caros de gestão de investimentos. Harvard gasta 100 milhões de dólares anuais para pagar seus gestores de fundos, o que significa 0,3% do seu patrimônio – algo muito favorável para quem obtém 10% ao ano de rendimento real líquido. Mas totalmente impraticável para universidades menores, observando-se que a média das dotações das 800 universidades não supera os 500 milhões de dólares.

A parte de teoria econômica do livro, bem como suas propostas políticas para o século XXI são muito interessantes e convincentes. Eu considero O capital no século XXI como um grande manual clássico de social-democracia. Me parece que traz um conjunto de ideias capaz de exercer influência considerável no debate público, como já se percebe na Europa e nos EUA. No Brasil, deveria servir de ponto programático central para qualquer proposta de centro-esquerda.

Mas ainda preciso falar do que considero as deficiências do livro.

Não sei se as propostas de Piketty não têm sua viabilidade comprometida pela parcialidade da sua visão de mundo. A noção de concentração de patrimônio e de renda desenhada no livro é pensada internamente às rendas nacionais para apenas 3 países com algumas relações estabelecidas com um conjunto de não muito mais que uma dezena de outros. Se tomarmos o conjuntos União Europeia, EUA e Japão, teríamos algo como a soma de 13% da população mundial. E quanto porcento da riqueza?

Pensando nos 1% mais ricos que detêm 35% da riqueza dos EUA. Eles são proprietários de qual parcela da riqueza mundial? Resolver desigualdades internas nos países ricos é uma proposta moralmente boa e necessária, mas em que medida isso ajuda a resolver desigualdades em âmbito mundial, quase nada tratadas no livro? Que me lembre, a única perspectiva vislumbrada por Piketty diz respeito à emigração como fator de enriquecimento para populações em continentes miseráveis. Aliás, ele vislumbra a presença de imigrantes pobres como um fator que favorece a aceitação da desigualdade crescente nos EUA – afinal, dos 50% que não possuem patrimônio nenhum, a maioria está vivendo melhor, pois vem de situações de extrema pobreza em outros países.

Depois da crise de 2008, pareceu por um breve período de tempo que as chamadas economias emergentes podiam ser o motor do crescimento mundial e diminuir sua distância para os países centrais. O recente mergulho no abismo de economias como as da Rússia, da China e do Brasil colocaram em cheque esta possibilidade. Os EUA continuam sendo a economia mais dinâmica, e sua liderança na divisão da riqueza provavelmente vai se acentuar, o que potencializa o fato de que são hoje um país em acentuado processo de aceleração da desigualdade.

Piketty simplesmente desconsidera fatores históricos de grande magnitude. Faz total sentido que ele descarte o marxismo e as propostas políticas da esquerda comunista como inviáveis e indesejáveis. É difícil que alguma coisa útil para o futuro saia desta caixa conceitual. Mas desprezar o comunismo como fator histórico no século XX é simplesmente impossível. Piketty considera que a fantástica redução de desigualdade experimentada entre 1910 e 1980 deve-se totalmente à destruição dos patrimônios provocada pela guerra, e às ideias igualitárias que movimentaram o capitalismo ocidental no período de reconstrução. O peso da ameaça revolucionária no período 1910-1950 e da concorrência econômica fornecida pelos países comunistas nas décadas de 1950 e 60 é completamente descartado. Me parece impossível pensar a história dos “30 gloriosos” da Europa sem a ameaça do Pacto de Varsóvia. Os EUA teriam assumido tal nível de liderança militar e tecnológica sem a ameaça Soviética? A reconstrução do Japão teria sido tão bem sucedida se não houvesse o perigo da China comunista? A Coréia do Sul teria desenvolvido tão rápido se não estivesse pressionada pela Coréia do Norte?

Uma história da desigualdade no século XX fica muito “poliana” quando desconsidera as terríveis consequências geopolíticas dos regimes que ameaçaram a estabilidade dos países mais ricos, e a força de movimentos internos que pressionaram por mais igualdade. A desintegração da esquerda comunista após a queda do muro de Berlim teve um efeito político benéfico e desejável. É muito bom que não haja mais possibilidades sérias de implantar a “ditadura do proletariado” como utopia política. Mas a inexistência de uma esquerda com possibilidades eleitorais reais de implantar o tipo de proposta defendida por Piketty é consequência direta da falta de concorrência real para a direita que domina a cena desde os tempos Tatcher-Reagan.

A destruição dos sindicatos praticada na era Reagan abriu caminho para a aceleração da desigualdade vista hoje. A industrialização da China feita por outsourcing de empresas norte-americanas funcionou de maneira complementar. E serve para mostrar como a altíssima desigualdade entre países tende a favorecer a apropriação de riqueza por parcela cada vez menor nos países ricos. Quero dizer, Piketty nem pensa na possibilidade de que a aceleração da interdependência econômica em nível mundial provavelmente tornou impraticável o tipo de “social-democracia em um só país” que ele imagina para a Europa e talvez para os EUA.

Mas a pior ausência no livro é que a questão do custo ambiental deste funcionamento econômico “normal” construído nos dois últimos séculos. A economia industrial só consegue funcionar minimamente apoiada no crescimento contínuo. Piketty vislumbra os problemas econômicos que vão se formando a partir de uma estabilidade (baixo crescimento) que favorece a desigualdade e coloca em risco a paz e a democracia. Um pensamento bem previsível para alguém que nasceu na França e circulou intelectualmente entre França, Inglaterra e EUA.

Mas Piketty praticamente desconsidera os problemas muito mais graves decorrentes da impossibilidade de sustentar o crescimento contínuo com recursos limitados. Sequer considera o tamanho do impacto ambiental decorrente da ampliação da capacidade de consumo da classe média patrimonial. Já vivemos problemas ambientais gravíssimos no Brasil, com uma classe média de cerca de 40 milhões de pessoas (20% da população ao invés dos 40% dos países ricos), pior ainda na China. O que aconteceria se países que chegam tarde na festa conseguissem reproduzir a estrutura social de classes médias patrimoniais do tamanho de 40% da população mundial, com os 50% mais pobres atingindo nível de conforto e consumo francês, alemão, inglês ou norte-americano?

Não existe água, comida, combustíveis ou energia suficientes para sustentar esse tipo de utopia. Quer dizer, imaginar que a economia “normal” dos séculos XIX e XX pode continuar sendo aperfeiçoada soa muito ingênua diante do colapso iminente da civilização como conhecemos. Ou vamos contar com a possibilidade surreal de desigualdade controlada e estabilidade política nos níveis atuais, ou teremos que desenvolver a imaginação política e a capacidade de desenhar mudanças mais radicais nas formas de produção, consumo e distribuição dos recursos. Pra quem está fora do mundo de prosperidade e estabilidade no qual Piketty viveu, sua utopia parece pouco factível.

Enviado por André Egg, 21/07/15 10:18:18 AM
Capa da edição da Record

Capa da edição da Record

Número Zero é o último livro de Umberto Eco, que acabou de ser lançado no Brasil pela Record, em tradução de Ivone Benedetti.

Por coincidência foi no início deste ano que li, e comentei aqui no blog, o ótimo Cemitério de Praga. No livro anterior, Eco escreveu uma história da intriga política no século XIX, com inúmeras teorias da conspiração a respeito de complôs judaico maçons para acabar com as sagradas monarquias – todos calcados em documentos forjados e obviamente falsos. Neste livro, como disse na minha resenha, Eco faz magistralmente aquilo que se tornou a marca dos seus romances: escreve livros de história, muito bem feita história, concatenando tudo com personagens de ficção.

Trata-se novamente disso em Número Zero, talvez de maneira não tão aprofundada como no livro anterior. A começar pelo tamanho do texto. Cemitério de Praga eu li em versão kindle, não sei quantas páginas tinha, mas eram muitas. Precisei de mais de uma semana de férias para fazer a leitura. Número Zero é mais curto, e a escrita bem mais fluída. São 207 páginas nesta edição – leitura de um fim de semana.

A história (real) por trás da ficção é a do conluio dos serviços secretos ocidentais para impedir um avanço comunista na Europa do pós-guerra. O braço italiano da operação foi chamado de Operação Gladio. Em toda a Europa, as operações serviram-se dos inestimáveis préstimos de profissionais da repressão nazifascistas remanescentes da guerra, que passaram a atuar como infiltrados e organizando assassinatos e atentados forjados.

No livro de Eco essa história vem embalada no trabalho de um grupo de jornalistas de segunda linha reunidos na redação de um jornal que não seria necessariamente publicado. O Amanhã, seria impresso em alguns exemplares número zero, apenas para mostrar que suas investigações jornalísticas poderiam render constrangimentos a pessoas poderosas. Com essas ameaças, o financiador do jornal esperava obter um lugar melhor entre os poderosos, uma vez que dinheiro para tal ele já possuía, faltava-lhe apenas o status reconhecido.

Com os personagens de ficção, Umberto Eco joga na lama a imprensa moderna, eviscerando suas práticas de manipulação da informação e do público leitor. Quem lê as conversas da redação do falso jornal Amanhã, vê os dilemas da imprensa escrita dos anos 1990, que precisa lidar com a perda de importância diante da televisão (fichinha perto do que aconteceria na era da internet). As maneiras de lidar com isso parecem ter sido as piores possíveis, do ponto de vista da qualidade jornalística.

Em meio a isso, um personagem inusitado, o tal Bragadoccio, revela-se um louco varrido imaginando as piores teorias da conspiração. No fim, tudo que ele conta para seu colega Colonna descobre-se ser a mais pura verdade. Talvez a única exceção seja a suspeição de que o homem morto por partisans em 28 de abril de 1945 não fosse o verdadeiro Mussolini, mas um sósia. Entretanto, todas as intrigas e suspeições lançadas sobre quem fuzilou o Duce e por quais motivos (essas discussões aconteceram realmente na Itália) são bem recuperadas nas falas alucinadas de Bragadoccio.

Em Número Zero temos novamente Umberto Eco mobilizando sua vasta cultura erudita e histórica, lidando com aspectos da teoria da comunicação, da linguagem e da recepção, criticando a cultura de massas e a nossa eterna pretensão de acreditar em falsidades úteis. A Europa que sobra retratada nos livros de Eco não é exatamente o paraíso da civilização e da cultura que querem nos vender, mas um mundo de gente disposta a emprestar sua credulidade às piores mentiras desde que isso sirva para garantir uma certa tranquilidade social.

Talvez a obra de ficção de Umberto Eco possa ser reduzida a um único bordão: a inconveniência da verdade histórica.

Enviado por André Egg, 07/07/15 4:19:58 PM
Jazz em trânsito na América Latina - divulgação do evento

Jazz em trânsito na América Latina – divulgação do evento

Na última quinta-feira eu fui mediador de uma mesa redonda com as professoras Marilia Giller e Berenice Corti, com o título O jazz em trânsito na América Latina: territórios casuais. O evento foi organizado pela professora Marilia Giller, e aconteceu no Conservatório de MPB de Curitiba. Foi uma promoção conjunta do Grupo de Pesquisa em Música, Cultura e Sociedade da UNESPAR (do qual sou líder e a professora Marilia Giller é integrante), do Conservatório de MPB de Curitiba e do Grupo de Trabalho Jazz na América Latina, da Associação Internacional de Estudos da Música Popular (IASPM na sigla em inglês), do qual a professora Berenice Corti é uma das coordenadoras.

A professora Marilia Giller, da UNESPAR Campus Curitiba II (FAP), apresentou suas descobertas sobre um interessante personagem deste “trânsito por territórios casuais”: o músico e dançarino britânico Gordon Stretton. Nascido em Liverpool, descendente de irlandeses e jamaicanos, ele foi acolhido em um lar de meninos e foi visto dançando na rua, o que lhe valeu o convite para trabalhar em uma companhia de espetáculos. Acabou vindo para a América do Sul em 1923, passando alguns meses entre Brasil, Uruguai e Argentina, terminando por fixar residência em Buenos Aires – onde viveu até sua morte em 1982.

Stretton parece ter sido um dos pioneiros do jazz no Brasil e na Argentina, sendo famoso principalmente pelo seu grupo Syncopated Six, com o qual se apresentou algum tempo em Paris, e com o qual veio ao Rio de Janeiro. Trabalhando com as matérias de jornais da época, Marilia Giller conseguiu reconstituir sua passagem pelo Brasil, e notar a importância deste músico que logo passa a atuar também com músicos brasileiros em seu conjunto, levando alguns para Buenos Aires.

Outro músico de trajetória curiosa nos foi apresentado pela professora Berenice Corti, da Universidad de Buenos Aires: Paul Wyer, de uma família de músicos do sul dos EUA (New Orleans e adjacências) que circulava também por Cuba na virada do século. Ele acaba fixando residência e trabalhando em Buenos Aires, onde será uma referência do jazz “hot” a partir da década de 1920.

Muito interessante ouvir as duas pesquisadoras falando sobre o tema, porque as pesquisas que elas empreenderam mostram um cenário muito diversificado da produção de música jazz nas primeiras décadas do século XX. Berenice Corti tem inclusive escrito trabalhos que questionam a fixação das origens do jazz como uma música negra norte-americana nascida em New Orleans. Sendo muito mais provável que seja uma música do trânsito de culturas da diáspora africana entre regiões do Caribe ou mais propriamente do Golfo do México, e não se pode deixar de lembrar da importante circulação desta música jazz pela Grã-Bretanha e por Paris, bem como sua difusão na América do Sul.

O estudo da circulação dos músicos de jazz e das jazz bands é hoje muito prejudicado por preconceitos ou ideologias nacionalistas. Tanto o nacionalismo estadunidense que criou o mito do jazz como uma música de origem norte-americana, como os nacionalismos brasileiro ou argentino que sempre questionaram o jazz como influência estrangeira perniciosa à autêntica música popular de seus países. Falar em jazz brasileiro, por exemplo, faz tanto sentido quanto falar em música clássica brasileira. Ou seja, se não há vergonha em usar partitura e escrever para orquestra sinfônica ou quarteto de cordas procurando uma expressão nacional, qual o problema em fazê-lo com técnicas de improviso e com o formato da jazz band do trio de hot jazz?

No caso da pesquisadora Marilia Giller, seu trabalho com as jazz bands no Paraná vem achando verdadeiras pérolas, como grupos musicais misturando presença de músicos imigrantes alemães, italianos ou poloneses com músicos indígenas e músicos negros. E as pesquisas de Berenice Corti apontaram a dificuldade em maquiar a presença negra na música argentina. Aliás esse foi um dos temas do livro que lançou no evento: Jazz argentino – la música “negra” del país “blanco”.

É claro que eu comprei o livro, estou doido pra ler, e provavelmente vou escrever alguma coisa sobre ele aqui no blog.

Por enquanto fica apenas a bronca em quem não foi (tinha pouco público): perderam. Se liguem nas próximas oportunidades. Esperamos poder trazer outra vez a Berenice a Curitiba para um evento maior e organizado sem os contratempos de greve da UNESPAR e férias da UFPR.

P.S – o post ia sair no sábado, mas por um problema técnico o blog esteve fora do ar.

Enviado por André Egg, 08/06/15 12:19:46 PM
Os personagens do filme Estrada 47

Os personagens do filme Estrada 47

A participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial é cheia de possibilidades interessantes para tratamento cinematográfico ou literário. Na literatura, talvez a melhor experiência seja o livro de Boris Schneidermann - Guerra em surdina, uma ficção com ares de história produzida por um escritor e tradutor que foi pracinha da FEB.

No cinema, incrivelmente o tema era inédito, até a produção de Estrada 47 - filme escrito e dirigido por Vicente Ferraz. Este filme é a estreia do diretor na ficção, pois até o momento ele só tinha dirigido documentários. Talvez a “mão” de documentarista seja bem perceptível na estética deste filme, o que a meu ver valoriza o resultado. Afinal, o filme é totalmente fictício, mas também é bastante verossímil do ponto de vista histórico.

Os personagens são 4 soldados e um jornalista – os 5 da foto que ilustra o post, que partem para uma missão não oficial: desativar as minas da Estrada 47, o que permitiria ao exército norte-americano libertar uma vila nas montanhas.

Ao contrário dos tradicionais filmes norte-americanos sobre a guerra, o forte de Estrada 47 não é o heroísmo ou a cenas de ação. Os brasileiros são, na verdade quase anti-heróis, com poucas condições de enfrentar um conflito em terra estranha e debaixo de neve. Mas acabam praticando um brilhante ato de heroísmo inconsequente. Neste aspecto, ficção e história se entrecruzam de maneira brilhante, pois as informações históricas apontam exatamente para isso: uma FEB despreparada tecnicamente, que mesmo assim teve papel destacado nas missões que lhe couberam. (Aliás, vale a pena consultar o bem elaborado verbete da wikipedia, onde se remete a uma bibliografia razoável)

Os soldados brasileiros pertencem ao Batalhão de Engenharia: Tenente Penha, Sargento Laurindo, Guima e Piauí – da esquerda para a direita na foto acima. O de cigarro na boca é o jornalista Rui. No meio de suas aventuras, o grupo encontra um desertor italiano e captura um oficial alemão, levado junto na missão.

Pra mim, o ponto alto do filme são as tensões entre os personagens. O momento memorável é quando estão os três dentro de um tanque americano explodido: Piauí, Laurindo e o alemão. Piauí pergunta: “Na Alemanha não tem nada interessante pra fazer? Só guerra? Não tem futebol, vocês não namoram?” A cena termina com Laurindo cantando um samba de sua autoria, enquanto os três trocam informações sobre suas famílias e seus times de futebol preferidos.

O que remete a outra sacada muito interessante do filme, que são as referências subliminares. Por exemplo, o nome Laurindo escolhido para o personagem negro no filme, não é um nome abstrato, e remete a referências muito importantes do mundo cultural e político dos anos 40. “Cabo Laurindo” é um célebre personagem de samba de Wilson Batista, “defensor da igualdade” – também chamado de “camarada Laurindo” nas homenagens do morro quando de sua volta. Ou seja, o Laurindo da canção é um dos muitos comunistas que se alistaram como voluntários na FEB – e o retorno dos pracinhas coincidiu com o período de abertura após o Estado Novo e com o breve período de atuação legal do Partido Comunista na política brasileira (até a cassação dos mandatos e suspensão do registro do partido em 1947).

O jornalista Rui adere ao grupo de soldados por acaso, após contrariar ordem do comandante brasileiro que determinava seu retorno ao país por ser excessivamente crítico. No filme ele é fundamental para ajudar os soldados a entenderem as comunicações em diversas línguas, necessárias para sobreviver no front (inglês, italiano, alemão). A participação deste personagem remete às tensões entre a imprensa e o governo Vargas. Afinal, o Brasil convivia com censura prévia à imprensa e a estatização de jornais de oposição (o caso mais célebre foi O Estado de São Paulo, cujos donos se exilaram na Argentina enquanto o jornal foi encampado pelo governo). Assim, os “heróis” brasileiros na guerra viviam o paradoxo de lutar contra uma ditadura em outro continente enquanto sabiam que retornariam para uma ditadura em sua própria pátria.

O desertor italiano é outro personagem que abre feridas históricas profundas. Depois de conviver com os soldados brasileiros por várias horas, de início quase como prisioneiro, depois como colaborador na missão que o grupo tinha se atribuído, o personagem vivido por Sergio Rubini chama os brasileiros de “soldados de merda”. Por que julgava insana a missão, e despreparado o grupo. E despreparados eram mesmo, os soldados brasileiros, que aprenderam as técnicas militares praticamente no teatro de operações, recebendo transporte, comida, treinamento e equipamentos dos americanos.

O modo como a FEB foi desmobilizada antes do retorno, demonstra o quanto a questão era politicamente sensível no Brasil. Minha colega de mestrado Sirlei de Fatima Nass, em sua dissertação, explica a vilania política cometida por Vargas e pelo ministro de Guerra Eurico Gaspar Dutra. O trecho está a partir da página 54, pdf aqui. A ironia é que Dutra era representante da ala filo-nazista do regime varguista, e o retorno da FEB podia significar um potencial desestabilizador considerável para o regime. Assim, os praças já chegaram ao Brasil desmobilizados, e nunca tiveram sua memória respeitada no país. Que hoje, décadas mais tarde tenha alguém preocupado em revisar essa injustiça nacional é bom sinal para nossa democracia, e o filme de Vicente Ferraz acerta na veia, embora nem todas as questões subliminares possam ser captadas pelo público. Mas eu suspeito que o filme vai dar bom uso em muitas aulas de história.

Apesar de ser um filme de poucos recursos (comparado com a produções holiudianas sobre o tema), Estrada 47 acerta nas escolhas, e faz um filme artisticamente comovente, historicamente confiável e tecnicamente de alto nível. As locações de filmagem são na Itália, na região onde os brasileiros lutaram. As paisagens e cenários são muito bem escolhidos. Os atores são muito bons, aspecto valorizado pela participação de Richard Sammel como o alemão capturado (já conhecido por fazer outros papéis como militar alemão, especialmente o Sargento Rachtmann em Bastardos Inglórios).

A reação do público e da crítica tem sido boa, dentro dos limites do cinema nacional. No Guia da Gazeta o filme é disparado o mais indicado pelo público entre os filmes nacionais. As críticas de imprensa catalogadas pelo site AdoroCinema são injustas com o filme, classificando abaixo do merecido, no meu entender (exceção para o crítico da Folha, que deu nota máxima). A crítica estrangeira parece ter sido mais favorável, segundo se pode perceber no IMDB. O filme foi premiado em alguns festivais importantes (principalmente o de Gramado), e vem bem distribuído pela Europa Filmes.

Estrada 47 ainda está em cartaz, e vale muito a pena ver.

Veja o trailer oficial do filme.

Enviado por André Egg, 29/04/15 11:28:00 AM

Amanhã, dia 30/04, acontece a palestra do prof. André Luiz Joanilho. O título é A história cultural em Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda.

Data e local: 30/04, 14:00 horas. Sala 612 – prédio da General Carneiro da UFPR (Departamento de História).

O evento é uma promovido pela linha de pesquisa Arte, Memória e Narrativa do PPGHIS-UFPR.

Vejam o belo cartaz de divulgação (se clicar amplia):

Convite para o Seminário da linha Arte, Memória e Narrativa

Convite para o Seminário Arte, Memória e Narrativa

Enviado por André Egg, 08/04/15 12:01:43 PM

Entre os dias 18 e 21 de março foi realizado em Campinas o 2º Festival de Música Contemporânea Brasileira. O evento foi organizado pela produtora Sintonize, com direção artística de Thaís Nicolau, uma comissão científica constituída de notáveis, financiamento da CAPES, parceria com o Instituto de Artes da UNICAMP, SESC-Campinas e Orquestra Municipal de Campinas. Assim como na primeira edição, o evento manteve o formato de ter dois compositores como tema: Edino Krieger e Gilberto Mendes. As comunicações de trabalhos acadêmicos, as mesas-redondas, as palestras, o bate-papo, os concertos comentados e os concertos foram todos concentrados na obra destes dois compositores.

O formato do festival é bastante interessante, pois quem participa do evento tem a grande oportunidade de conviver com os compositores durante toda a programação. No caso de Edino Krieger e Gilberto Mendes, ambos valorizam muito esta experiência: são cordatos, gentis, gostam de compartilhar suas experiências, conversam como todo mundo interessado em algum aspecto de suas carreiras ou suas obras, e têm uma humildade espantosa em se tratando de gente da importância de ambos para o cenário da música mundial. Não corre o menor risco de errar quem disser que o 2º FMCB tematizou os dois compositores vivos mais importantes do Brasil. E também não é exagero afirmar que sua importância extrapola a abrangência local e atinge foro mundial.

Assim, quem conseguiu ir a Campinas nestes dias assistiu uma programação com mais de 10 concertos e várias comunicações dos trabalhos acadêmicos mais atuais sobre a obra dos dois compositores. Ou seja, teve uma visão (ou audição) privilegiada de parcelas significativas da produção destes dois gigantes.

Seria impossível escrever sobre o festival em um único post de blog. De modo que ao final coloco alguns links com textos de meu blog pessoal, no qual fiz comentários mais pontuais de algumas partes do evento. Aqui pretendo fazer um balanço geral e uma avaliação do que foi mais marcante.

Em primeiro lugar, saímos marcados pela espontaneidade com que Gilberto Mendes e Edino Krieger expuseram detalhes de seu pensamento musical e de suas influências. No primeiro dia ocorreu um concerto no SESC Campinas, seguido de bate papo com os compositores, onde eles se mostraram muito à vontade. Edino Krieger falou da importância de seu estudo com Koellreutter na década de 1940, do interesse despertado inicialmente pela obra de Paul Hindemith, e do posterior contato com a obra de Penderecki, que o levou a uma reviravolta em sua técnica composicional no final da década de 1960. Comentou um pouco sobre a disputa de posições em torno da Carta aberta de Camargo Guarnieri, e contou da amizade com o compositor na década de 1950.

Gilberto Mendes relatou a dificuldade em estudar música em Santos nas décadas de 1940 e 1950. Falou da admiração pelos clássicos europeus (no primeiro dia insistiu na escola francesa e russa, mas no outro dia falou que gostava mesmo de Schumann e Brahms), do impacto dos modernos como Stravinski, Villa-Lobos (o grande modelo composicional) e Bártok (em lugar separado de todos os demais músicos). Falou da frustração em não ter conseguido estudar com Koellreutter nem com Guarnieri, e da importância de ter estudado com Santoro, embora em tempos de sua fase nacionalista.

No jantar eu perguntei a Gilberto Mendes se ele também não tinha influência de Penderecki, que tivesse levado e certas técnicas de escrita, por exemplo, em Santos football music. A resposta foi: “Não! Penderecki era muito sério, muito trágico. Minha música era uma grande brincadeira.”

As comunicações foram realizadas nas manhãs de quinta (19) e sexta (20), e eu não consegui assistir todas, devido à grande dificuldade de deslocamento em Campinas, afinal a hospedagem era no centro, e a UNICAMP em Barão Geraldo, e o sistema de transporte da cidade é todo feito para carros (o que significa que não anda).

Das comunicações que assisti, destaque para o panorama da obra violonística de Edino Krieger feita por Thiago Kreutz, o trabalho de preparação digital do que eram os “tapes” das obras eletroacústicas de Gilberto Mendes feito por Denise Garcia e Clayton Mendes (o que favorece muito novas execuções destas obras de difícil realização) e a análise da poética de Gilberto Mendes feita por Teresinha Prada. Meu comentário é injusto porque perdi os trabalhos que começavam mais cedo, e acredito que vários deles foram muito interessantes.

Tivemos também as mesas redondas. Na quinta (19) com o tema “Edino Krieger: brasilidade e diversidade composicional” e na sexta (20) com o tema “Gilberto Mendes: do moderno ao pós-moderno”.

A mesa de quinta eu participei junto com João Guilherme Ripper e Achille Picchi. Fiz um panorama histórico da questão da brasilidade e diversidade composicional no Brasil e como vários compositores viveram esses dilemas, terminando com o novo modo como Edino Kriger posicionou a questão a partir da década de 1950, não apenas como compositor, mas também como crítico musical e produtor cultural. João Guilherme Ripper deu um testemunho pessoal da enorme influência que Edino Krieger exerceu sobre sua geração, como exemplo de vida e compositor capaz de superar as dicotomias mais rasas entre nacional e universal, entre o criador artístico e o homem de ação em instituições. Achille Picchi fez uma grande reflexão sobre o problema estético da música brasileira e o modo como Edino Krieger viabilizou uma solução criativa com sua poética. Terminada a mesa o compositor foi nos interpelar de maneira bem-humorada, dizendo que gostaria de conhecer “esse homem de quem vocês falaram”. Eu respondi-lhe dizendo que ele é pra nós um mito, apesar de se comportar como se fosse de carne e osso.

Na mesa de sexta, Carla Delgado de Souza trouxe uma reflexão partindo das Ciências Humanas, abrodando os conceitos de moderno e pós-moderno e como Gilberto Mendes provocou tantas rupturas em relação a isso no Brasil. Trouxe a definição dada pelo próprio compositor: “sou trans moderno”. Antonio Eduardo Santos e Flo Menezes trouxeram também os testemunhos pessoais de músicos e compositores impactados pela presença de Gilberto Mendes e a forma como ele foi significativo em sua formação e em suas carreiras.

Depois do almoço voltávamos para uma palestra. Na quinta (19) Ermelinda Azevedo Paz sintetizou suas pesquisas sobre Edino Krieger, que resultaram no livro em 2 volumes que é hoje a referência incontornável sobre o compositor. Na sexta (20) José Augusto Mannis editou uma fala gravada de um depoimento de Gilberto Mendes intercalando com extratos de suas obras. Ficou melhor do que poderia ter sido uma palestra tradicional.

Após as palestras, aconteceram os recitais comentados. Ouvimos grupos e/ou solistas apresentando uma seleção de obras dos compositores, e logo em seguida à apresentação de cada obra, ouvimos os comentários do compositor, presente no palco. Ali tivemos grandes indicações dos processos de criação e dos contextos em que as obras foram encomendadas ou estreadas, e mesmo valiosas dicas sobre o valor emocional destas obras para o próprio compositor.

Na quinta (19) o recital comentado foi dedicado a Edino Krieger. Começou com 3 miniaturas (1947) para flauta e piano, apresentadas por Brielle Frost e Thais Nicolau. Obra da fase dodecafônica, quando Edino Krieger era um jovem aprendiz de composição estudando com Koellreutter (tinha 19 anos então). Estas obras fazem parte de um dos períodos mais ricos e dinâmicos da composição no Brasil, quando um grupo de compositores adotou o mesmo princípio de exercitar uma criação mais abstracionista, ao mesmo tempo dialogando de forma intensa com o imaginário musical que o país já tinha construído até então. São sempre obras para pequenos conjuntos, sem dificuldades técnicas extremas, de modo a viablizar a execução pelos próprios integrantes do Grupo Música Viva na época. Hoje formam algumas das pérolas do repertório camerístico brasileiro – mostrando como a música dodecafônica pode ser singela, poética e agradável. Talvez estas peças de Edino Krieger estejam entre as mais felizes experiências da época.

Depois foi apresentado o Quarteto de cordas nº 1 (1955), por um conjunto formado por Esdras Rodrigues e Luiz Amato (violinos), Emerson de Biaggi (viola) e Lars Hoef (violoncelo). Parêntese: estou listando os músicos conforme o programa impresso, mas lembro que em um dos concertos teve um músico que foi substituído. Como não anotei no momento a informação anunciada no microfone, estou agora cometendo alguma injustiça que não saberei informar. Este quarteto foi concluído por Edino Krieger em Londres, quando estava como bolsista do Britisch Council, estudando com Lenox Berkeley. É uma obra neoclássica, muito bem escrita, explorando bastante os efeitos rítmicos. Talvez seja a obra mais equilibrada e bem escrita do repertório nacional para quarteto de cordas – o que a torna quase obrigatória nos portfólios dos conjuntos com esta formação no Brasil.

Ouvimos ainda a Brasiliana (1960) para viola e piano, com Emerson de Biaggi e Mauricy Martin, Sonâncias II (1975) para violino e piano, com Luiz Amato e Achille Picchi e o Trio Tocata (2011) interpretado por Esdras Rodrigues (violino), Lars Hoef (violoncelo) e Achille Picchi (piano).

Sonâncias II talvez tenha sido a obra mais impactante de todo o festival. Extremamente ousada, executada de forma brilhante pelos intérpretes, representa Edino Krieger em sua grande fase, conjugando maturidade estética, segurança técnica e posicionamento avançado em termos de atualização universal. E o Trio Tocata é uma das obras mais recentes do compositor, num período em que procurou consolidar toda sua experiência, sem medo de usar técnicas neoclássicas, mas sem desprezar o experimentalismo realizado em anos anteriores e os ganhos trazidos. Esta obra foi encomendada por um trio europeu (holandês, se não me equivoco), com o indicativo de que usasse tema musical representativo do Brasil. Edino Krieger escolheu um delicioso baião, quase como se fosse um Egberto Gismonti ou Hermeto Pascoal, soando meio jazz brasileiro, obviamente incrementado pela escrita camerística magistral que Edino domina como ninguém. Ter Achille Picchi ao piano deu um brilho especial a esta peça, porque o professor tocou com muita garra, perfeição técnica, ritmo exuberante e sonoridade cheia.

Na sexta (20) tivemos o recital comentado com obras de Gilberto Mendes. As obras foram bem escolhidas e muito bem tocadas, mas o melhor de tudo foram os impagáveis comentários do compositor. Com 92 anos, talvez não haja outro compositor no Brasil que esbanje tanta vitalidade artística, e seu compromisso com o futuro e com o novo são realmente contagiantes. Blirium C9 (1965) é uma não-obra, no dizer do próprio compositor. Porque corresponde apenas a instruções que levam o instrumentista a improvisar com elementos aleatórios. Assistimos uma interpretação de Fernando Hashimoto com vibrafone e tape (e mais tarde a mesma obra, mas na verdade outra completamente diferente, foi executada por Teresinha Prada em violão e tape). Gilberto Mendes nos confessa que com esta obra matou a curiosidade que tinha de fazer música aleatória, e que nunca mais fez este tipo de composição. Embora esta informação possa ser imparcial, pois o uso de certa aleatoriedade continuou presente em muita coisa do compositor. Também contou que o nome da peça foi obtido trocando as letras de um remédio que ele tomava por causa do pânico de viajar de avião.

Meu amigo Koellreutter (1984) foi executada por Ana Carolina Sacco (voz), Fernando Hashimoto (marimba) e Thais Nicolau (piano). Bela homenagem de Gilberto Mendes a Koellreutter, encomendada para as homenagens aos 70 anos do professor alemão que tanto impactou a música brasileira. Urubuqueçaba (2003) executada por Brielle Frost (flauta) e Thais Nicolau (piano) é uma obra bem neoclássica, usando ritmos de música popular brasileira e uma harmonia jazzística ou bossanovística.

Após os recitais comentados, o dia terminava com apresentações artísticas, que funcionaram em modalidade semelhante à das comunicações de trabalhos realizadas pela manhã. O que ouvimos nesta parte foram os grupos que se inscreveram para apresentações artísticas no evento, e a seleção foi feita pela comissão científica. Tivemos então um panorama das obras dos dois compositores sob a visão dos músicos ou grupos musicais que estão fazendo a necessária conjugação entre produção musical e reflexão acadêmica dentro das universidades. Vale notar que esse é um direcionamento da CAPES para as áreas de Artes – fazendo equiparar a importância das produções bibliográfica e artística.

Na quinta (19) assistimos apresentações de obras de Edino Krieger, mas algumas obras de Gilberto Mendes foram também intercaladas nestes recitais. O primeiro concerto teve obras para percussão executadas por Rubens de Oliviera – Quasi un Rondó para vibrafone (1995), de Gilberto Mendes e Variações carnavalescas para marimba (2004), de Edino Krieger. Seguiu o recital de Thiago Kreutz com a obra completa para violão solo de Edino Krieger, a respeito do qual fiz um comentário mais detalhado em outro post. Tivemos também a apresentação de Ingrid Barancoski, com estudos para piano dos dois compositores: Etude de sinthèse (2004) de Gilberto Mendes, Estudos intervalares de Edino Krieger (Das terças, de 2001, e Das sétimas e Das oitavas, de 2013) e Estudo magno (1992) de Gilberto Mendes.

Finalizando o dia de quinta-feira, o Duo Cancionâncias apresentou obras de Edino Krieger para canto e violão. Foi o grupo musical que mais me impressionou no Festival. Acho que foi o único momento em que os intérpretes chamaram a atenção tanto quanto a obra. Primeiro porque houve aí um trabalho criativo sobre as peças, uma vez que foram escritas originalmente para voz e piano, e ouvimos transcrições para voz e violão de Cyro Delvizio. Quem é violonista sabe as dificuldades técnicas de se transcrever música de piano, dado que o violão tem limitações de tessitura e quantidade de notas e combinações possíveis entre elas, que tornam o instrumento mais restrito que o piano. Transcrever já é difícil, tocar as peças pior ainda. Não sei como, mas Cyro Delvizio realizou isso de forma brilhante – pareceu que não tirou nenhuma nota, e sabe-se lá que malabarismos conseguiu com aqueles dedos para que tudo estivesse ali: contraponto, harmonia, ritmos sobrepostos. Manuelai Camargo deu também uma interpretação muito convincente encarnando de tal forma a persona de cada canção que nos levou para dentro dos universos imaginados pelos poetas e traduzidos em música por Edino Krieger. As canções executadas foram Balada do desesperado (1954) de Edino Krieger sobre poesia de Castro Alves, Desafio (1955), sobre poesia de Manuel Bandeira e Três sonetos de Drummond, sobre obras de publicação póstuma do poeta (Os poderes infernais, Carta e Legado). O repertório de canções construídas pelos compositores modernistas brasileiros, sobre os nossos grandes poetas representa uma das coisas mais interessantes da cultura brasileira, e acho que podemos dizer que essas peças de Edino Krieger estão entre as melhores desse repertório – valorizadas e muito pelas transcrições de Cyro Delvizio e pela realização do Duo Cancionâncias.

O último ciclo de apresentações artísticas foi na sexta (20), no final da tarde. O que talvez fosse o ponto alto do Festival – o concerto do Grupo PIAP tocando Concerto para tímpanos, caixa militar e percussões (1991) de Gilberto Mendes, não aconteceu. Parece que a ida do grupo dependia de algum financiamento, provavelmente da UNESP ou outra instituição de fomento, e a verba não foi conseguida, inviabilizando o transporte do grupo e dos instrumentos. Foi lamentável. Também não tivemos a apresentação, prevista no programa, de Beatriz Alessio.

Ficamos então apenas com dois recitais: de Teresinha Prada com obras para violão de Gilberto Mendes e de Sabrina Schulz com dois estudos para piano. Dois ótimos recitas, com obras muito bem executadas, e não deixaram a gente lamentar tanto as ausências do dia.

Depois disso, a programação do Festival deixou um buraco no dia de sábado (durante o qual escrevi parte dos textos que estou publicando sobre o evento) – serviu para o necessário descanso depois de uma programação tão intensa, mas também deve ter servido para muita gente ir embora, coisa que eu quase fiz. Na verdade eu já estava com as passagens aéreas, então tinha de ficar. No entanto, o concerto de sábado à noite, realizado pela Orquestra Sinfônica Municipal de Campinas, regida por Victor Hugo Toro, fez valer a espera. Depois de grande quantidade de apresentações solo ou em grupos camerísticos, ouvir obras sinfônicas dos compositores foi muito interessante. Aliás, é sempre mais fácil montar pequenos grupos para executar obras, e os compositores brasileiros acabam meio esquecidos na programação das nossas poucas orquestras, apesar de termos um repertório sinfônico brasileiro muito significativo. O concerto de encerramento também mereceu um texto à parte.

Acredito que o Festival de Música Contemporânea Brasileira deve continuar. Assim esperamos. A equipe da Sintonize, que fez o ótimo trabalho de organização, já deve ter entregado os relatórios para as agências de fomento. Talvez nem tiveram tempo de descansar e já estão começando a organizar o próximo. O que já nos deixa curiosos. O espaço para a música contemporânea brasileira é pequeno, mas essa é uma área estratégica, pelo potencial de inovação que ela carrega. Por isso esse evento já marca seu lugar no circuito de eventos acadêmicos e musicais.

Veja também:

Bate-papo com Edino Krieger e Gilberto Mendes no FMCB

Thiago Kreutz e a obra para violão de Edino Krieger

Victor Hugo Toro e a Sinfônica de Campinas: o concerto de encerramento do FMCB

Enviado por André Egg, 01/04/15 5:26:21 PM

Imperdível.

Na próxima segunda-feira, dia 06 de abril, às 19:00 horas, no Anfiteatro 100 do Edifício D. Pedro I da UFPR, será realizada palestra de Marcos Napolitano, professor da FFLCH-USP e antigo professor do DEHIS-UFPR.

Napolitano é autor do livro recém lançado 1964: História do regime militar brasileiro, já comentado aqui neste blog. O título de sua palestra é “Arte e política no Brasil: nacionalismo, radicalismo ou revolução?”, e o evento é uma promoção da Linha de Pesquisa Arte, Memória e Narrativa do PPGHIS-UFPR, conjuntamente com o Grupo de Pesquisa Núcleo de Arte Visuais e com o Grupo de Pesquisa em Música, Cultura e Sociedade.

Conjuntamente com a palestra, ocorre o lançamento do livro coletivo Arte e política no Brasil: modernidades, do qual sou um dos organizadores, e sobre o qual escrevi um pouco neste texto em meu blog pessoal. O lançamento contará com a presença de alguns dos autores incluídos no volume.

Os dados completos estão de forma mais bonita no material de divulgação abaixo (se clicar na imagem amplia):

flyer da palestra e do lançamento do livro

flyer da palestra e do lançamento do livro

Enviado por André Egg, 08/03/15 2:46:06 PM
Umberto Eco, O cemitério de Praga (capa da edição da Record)

Umberto Eco, O cemitério de Praga (capa da edição da Record)

Acho que existem dois possíveis enfoques para pensar uma relação entre história e literatura. Uma delas, talvez a mais óbvia e que vem sendo praticada por muitos historiadores, é ler literatura de ficção como testemunho de uma época. É por exemplo o Piketty dizendo que Jane Austen é melhor que Marx para entender questões de patrimônio e rendimento do capital no fim do século XVIII. Ou é o Sidney Chalhoub falando de um Machado de Assis historiador.

Outro enfoque possível, e esse é mais difícil de fazer, é o que o Umberto Eco faz em muitos dos seus romances (não digo todos porque não os li). Dizem que Jacques LeGoff, o grande historiador do medievo, afirmou que O nome da rosa era o melhor livro de história que ele conhecia. Sim, um romance de Umberto Eco, ambientado num mosteiro no fim da Idade Média, com discussões teológicas e filosóficas da época (que o sábio italiano conhece como poucos). Ali ele imaginou personagens fictícios para reconstruir um mundo histórico. Afinal, não é todo dia que um historiador consegue documentação para reconstituir a vida e as ideias de um Menocchio.

Então, O cemitério de Praga é exatamente isso. Ótima literatura, mas na verdade um livro de história. Já contando o fim do livro (não, não é spoiler): tem ali um aviso de que todos os personagens, exceto o Sr. Simonini protagonista fictício, são personagens históricos reais.

Ou seja, o livro é praticamente uma história da espionagem política e da prática disseminada de forjar documentos falsos para incriminar judeus e maçons e tentar defender o casto mundo dominado por “igreja e rei”, que estava ruindo de maneira inevitável.

Umberto Eco inventa um personagem que nasceu e viveu a juventude em Turim, filho de um carbonário mas neto de um senhor de terras. Mortos, primeiro o pai depois o avô, Simonini se vê obrigado a ganhar a vida, e o fará trabalhando no tabelionato que forjou os documentos que efetivaram a ruína de seu avô e o fim de sua herança. Torna-se então um exímio falsário, que prestará serviços para a polícia local, embarcando numa aventura como espião entre as tropas de Garibaldi que fizeram anexar todo o sul da penísula ao reino do Piemonte, criando a Itália moderna.

O que se vê ali não é uma história de heroísmo militar, mas de vitórias compradas com apoio financeiro de gente que prefere ver um reino do Piemonte unificando a Itália do que correr o risco de uma revolução engendrar uma República italiana. Uma batalha de espiões, falsários, traições e subornos.

Comprometido por sua ação na campanha dos vermelhos de Garibaldi, Simonini acaba tendo que se transferir para a capital francesa. Em Paris Simonini monta um tabelionato bem sucedido e presta serviços à polícia de Napoleão III. Convive com a Comuna de Paris e forja os documentos que resultarão na condenação do Marechal Dreyfuss.

Mas sua grande obra prima, trabalho de uma vida, é a cena dos rabinos reunidos no Cemitério de Praga, em um ritual macabro. Com adaptações e histórias coletadas ao longo de toda sua experiência como falsário, o documento termina por ser um dos mais influentes da história política moderna. (Deixo para o leitor descobrir do que se trata lendo o livro).

Então, está aí uma grande dica. Quer ter uma visão panorâmica da história política do século XIX, e não terá paciência para ler livros de história? (Recomendo neste caso A era das revoluções, A era do capital e A era dos impérios, trilogia inescapável de Eric Hobsbawm) Então fique com um romance de ficção, classificável como “histórias de espionagem”. Fique com O cemitério de Praga.

Enviado por André Egg, 25/01/15 2:50:42 PM
Capa do livro publicado no Brasil pela Zahar

Capa do livro publicado no Brasil pela Zahar

O livro foi escrito por um pesquisador acadêmico americano, e traduzido no Brasil pela editora Zahar. Saiu no final de 2013, e eu descobri por causa de uma promoção na loja Kindle. Quando comprei, o livro não estava nas prioridades imediatas, e a leitura acabou ficando para as férias. Depois que terminei de ler, e vim pesquisar para escrever este post, descobri umas coisas interessantes.

O autor conta sobre sua relação com a religião no início do livro. De família muçulmana, converteu-se a uma igreja evangélica na adolescência e abandonou a religião quando foi desenvolver seus estudos acadêmicos (tornando-se pesquisador de história do período do Novo Testamento).

Acontece que o livro “viralizou”, e tornou-se um dos mais vendidos nos EUA depois que o autor foi entrevistado pelo canal conservador Fox, passando os 10 minutos da entrevista tendo que defender suas credenciais como pesquisador, porque a entrevistadora questionava a autoridade de um muçulmano para escrever sobre a vida de Jesus. O vídeo da entrevista está aqui (em inglês).

Este e outros pontos são abordados na excelente entrevista feita no Brasil por Diego Viana para o jornal Valor Econômico, na época do lançamento do livro. A editora fez um clipping, que está aqui.

Dito isto, ao conteúdo do livro.

A busca pelo Jesus histórico começou provavelmente com o livro de David Frederich Strauss, Das leben Jesu, publicado em 1835. Desde então, existe um esforço dos estudiosos por encontrar a “verdade histórica” sobre o deus-homem dos cristãos.

A primeira grade qualidade do livro de Reza Aslam é a postura inteligente que ele assume em relação a este conflito. Muito do que a ciência histórica fez sobre este assunto foi tentar contrapor “verdade factual” a “mito religioso”. Reza Aslam tem o cuidado de demonstrar que as duas coisas são inseparáveis. Este aspecto é muito bem explicado pelo autor do livro na entrevista para Diego Viana (linkada acima).

Assim, de início o autor informa que existem historiadores que consideram que não existiu um Jesus real, dada a quase impossibilidade de encontrar documentação histórica confiável. Por documentação histórica confiável entende-se fontes e documentos de época, excluindo-se os Evangelhos. Por se tratarem de documentação apologética, ou seja, livros escritos pelos cristãos, para fundamentar, provar e defender sua fé, a narrativa histórica perderia sua confiabilidade.

Aslam adota outro princípio: afirma não ser possível provar documentalmente a existência de Jesus, mas considera que as evidências são suficientes para acreditar que sua existência foi real. Parte deste pressuposto para escrever o livro, e faz o exercício de checar o relato dos evangelhos com o que está apresentado em outros tipos de documentação.

O livro começa pelas fontes romanas. As primeiras páginas traçam uma história da Judéia como província romana, seus governadores, intervenções militares, revoltas, os diversos messias que apareceram, a relação com o judaísmo do Templo, etc.

Pra mim essa foi a parte mais interessante do livro, porque simplesmente era o que eu nunca tinha visto reunido em outro livro em português.

Só depois de fazer o panorama das fontes romanas, Aslam entra na narrativa dos evangelhos. Esta parte também achei muito interessante, porque foi a melhor explicação histórica que já li. Já tinha visto muita coisa sobre os evangelhos como documento histórico em outros livros, mas uma explicação fundamentada e bem organizada como essa não tem em outro livro que eu conheça. Pra resumir, por ordem de época em que foram escritos, os evangelhos são: Marcos, Mateus, Lucas e João – produzidos a partir da década de 70 do primeiro século até perto do ano 120. A documentação comum aos quatro evangelhos é considerada como sendo originada de um documento mais antigo, que os estudiosos chamam de fonte Q. Este documento não existe fisicamente, é hipotético, e pode ser um conjunto de informações transmitidas oralmente.

Reza Aslam confronta as informações dos evangelhos com a documentação romana, e é capaz de chegar a um relato histórico razoavelmente verossímil. O Jesus histórico seria então um discípulo de João Batista que começa o seu próprio ministério após a morte de seu mestre. Apresenta-se como “o filho do homem” e prega o Reino de Deus. Realiza milagres de graça e propõe uma religião judaica que dispensa a cara e corrupta casta sacerdotal.

Bem interessante o enfoque histórico de Reza Aslam sobre os milagres de Jesus. Comparando com outras fontes de época, ele diz que os milagres são aceitos como fato nas diversas sociedades antigas. Não cabe à nossa mente racional moderna a autoridade de questionar a existência dos mesmos. Para o homem antigo eles eram um fato, em qualquer país e qualquer religião. A principal diferença trazida por Jesus de Nazaré foi realizar milagres de graça – o que era uma total novidade, tanto no judaísmo como nas outras religiões antigas.

Deste modo, o evangelho mais histórico de todos seria o de Marcos: não fala nada sobre o nascimento e a infância, nem a ressurreição. (O último capítulo do livro não existe nos primeiros originais, e parece ter sido escrito posteriormente a partir de uma compilação dos outros evangelhos). Começa com o ministério de João Batista e segue com o ministério de Jesus.

Com esse trabalho em cima dos evagelhos, cotejando com as fontes romanas, mais Josefo, Hegésipo, e outros cronistas primitivos. Reza Aslam também dá um tratamento muito interessante ao papel do apóstolo Paulo. Que ele tenha sido o “apóstolo dos gentios”, cujo trabalho foi fundamental para levar a fé cristã para além de uma mera seita judaica e espalhá-la pelo mundo romano já é sabido de todos. Mas Reza Aslam vai além, ao apresentar Paulo como um herege em confronto com a comunidade de Jerusalém liderada por Tiago, irmão de Jesus. Justamente por não ter convivido com Jesus de Nazaré ele teria sido o principal artífice da operação que transformou o Jesus histórico no ser mítico da fé cristã.

Ou seja, são duas coisas bem diferentes, como demonstra esse trabalho, o Jesus da fé e do dogma, e o Jesus histórico. Assim, para Aslam, os Evangelhos foram construindo suas narrativas de fé à medida que o Jesus histórico ia ficando no passado, e a comunidade de culto ia sedimentando questões como divindade, nascimento virginal, conflito com o judaísmo do templo, julgamento por Pilatos, ressurreição.

O que o livro demonstra, de maneira muito bem documentada (quase a metade do livro são as notas de erudição, deixadas à parte no fim do livro para não incomodar o leitor que queira prestar atenção apenas na narrativa – como eu fiz), é que o Jesus do cristianismo foi construído posteriormente pela comunidade de fé, e que só foi possível de ser plenamente desenvolvido na medida em que a comunidade de Jerusalém foi desbaratada pelos exércitos romanos, e acabou prevalecendo o cristianismo paulino, aquele dos judeus/cristãos helenizados e romanizados da diáspora, aos quais se somaram os gentios conversos.

Como se trata de um assunto de difícil abordagem no Brasil, uma vez que estamos longe das fontes históricas e as universidades brasileiras não tem centros capazes de desenvolver pesquisa arqueológica na Palestina, o livro traduzido para o português vem cumprir um papel fundamental. É o estado da arte dos estudos acadêmicos sobre a história do tempo de Jesus e dos primeiros discípulos. Torna-se leitura obrigatória para quem quer saber mais sobre o tema.

Veja também, outros livros sobre assuntos parecidos, que já andei comentando por aí:

Karen Armstrong, Uma história de Deus

Karl Kaustsky, A origem do cristianismo

Paul Veyne, Quando nosso mundo se tornou cristão

José Saramago, O evangelho segundo Jesus Cristo

Xabier Basurko, O canto cristão na tradição primitiva

 

Enviado por André Egg, 13/01/15 4:23:55 PM
Capa do disco gravado pelo Collegium Cantorum

Capa do disco gravado pelo Collegium Cantorum

No último domingo, o grupo vocal feminino Collegium Cantorum fez sua apresentação dentro da programação da Oficina de Música de Curitiba, em evento de lançamento do disco em que gravou a Missa de São Sebastião, de Heitor Villa-Lobos.

Algumas fotos da apresentação, de autoria de Cido Marques, podem ser vistas no Flickr da Fundação Cultural de Curitiba (por este link). A foto que ilustra este post foi digitalizada da capa do CD.

Apesar de ser nosso compositor de concerto mais conhecido e reconhecido, Villa-Lobos é bem menos executado do que merece. O trabalho do Collegium Cantorum merece destaque já por causa disso. Some-se o fato de que a obra é belíssima, de grande dificuldade de execução, e que o grupo é amador (no sentido de que seus integrantes trabalham por “amor à camisa” e não recebem remuneração), e temos um panorama da dimensão da empreitada que foi a preparação e a gravação desta obra.

Villa-Lobos escreveu sua Missa de São Sebastião em 1937, no momento em que trabalhava no projeto do Canto Orfeônico no período Vargas. Inicialmente Villa-Lobos implantou seu projeto de Educação Musical na prefeitura do Distrito Federal, quando era prefeito Pedro Ernesto, e secretário da educação Anísio Teixeira. Do sucesso do projeto no âmbito da então capital federal surgiu a proposta de ampliação para todo o país, passando Villa-Lobos a ter um cargo federal no Estado Novo.

Durante este período de atuação como burocrata, o trabalho composicional de Villa-Lobos ficou em segundo plano, pois ele precisou dedicar muito tempo à gestão de seu ambicioso projeto, e aos trabalhos de professor e regente que se tornaram suas principais atividades. A composição musical foi praticada apenas à medida em que pudesse fornecer material útil para os ideais que o moviam. Desta época saíram da pena do ídolo da música nacional obras como o ciclo das Bachianas Brasileiras e o ciclo do Guia Prático.

A Missa de São Sebastião entra neste pacote das obras vocais (à capela ou com acompanhamento), que procuravam mesclar religiosidade, culto à pátria, civismo e disciplina, bem como promover a aproximação entre a música brasileira e os clássicos europeus (Bach como modelo nas Bachianas, as missas de Palestrina como modelo para a Missa de São Sebastião). À parte o caráter conservador e autoritário do projeto, Villa-Lobos conseguiu imprimir uma notável qualidade musical às obras deste período, e exatamente por isso ele é um clássico: podemos esquecer a mesquinhez de sua atuação política e ouvir as obras deste período como grandes produtos do espírito humano e da cultura brasileira.

São Sebastião é o padroeiro da então capital federal (cujo nome completo muitas vezes é apresentado como a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro), e foi um mártir cristão do século III. Como todas as Missas tradicionalmente são desde os tempos de Guillaume de MachautVilla-Lobos mantém os movimentos tradicionais e o texto sacro em latim: KyrieGloria - Credo – Sanctus – BenedictusAgnus Dei (em muitas missas o Sanctus e o Benedictus integram o mesmo trecho musical). Para cada parte, Villa-Lobos acrescentou uma referência ao caráter de São Sebastião: “O virtuoso”, “Soldado romano”,”Defensor da igreja”, “O mártir”, “O santo”, “Protetor do Brasil”.

A beleza da obra você precisa conferir ouvindo-a. A qualidade da execução do Collegium Cantorum pode ser atestada por quem foi ao concerto ou quem comprou ou comprará o CD. Fazem jus à obra de Villa-Lobos e à tradição quase milenar das missas polifônicas cantadas. É impressionante o trabalho de preparação desenvolvido por Helma Haller, que obtém do seu conjunto um som perfeito, afinação exata, leveza nos agudos, pronúncia cuidadosa, dicção completamente inteligível (nem sempre fácil nas obras de Villa-Lobos), e boa timbragem dos três naipes em que o compositor dividiu o conjunto vocal.

Estão de parabéns as meninas que empenham considerável esforço e muitas vezes recursos próprios, para ensaiar, viajar com o grupo e participar das gravações. A Missa de São Sebastião soma às várias realizações anteriores do grupo Collegium Cantorum e coloca o grupo entre o seleto time dos cerca de meia dúzia de conjuntos vocais que dão significativa contribuição ao desenvolvimento da música brasileira de concerto (gravando, estreando e apresentando obras de compositores brasileiros no país e no exterior). Helma Haller coloca também seu nome entre os poucos regentes capazes de desenvolver trabalho tão esmerado, por tão longo tempo e com tão poucos recursos (financeiros e mesmo humanos).

Atesta para isso o fato de que a provavelmente única gravação anterior feita no Brasil foi aquela realizada em 1963 pela Associação de Canto Coral do Rio de Janeiro, regida por Cleofe Person de Mattos, a maior maestrina da História da Música Brasileira. (Veja sobre este disco aqui.)

Além destas gravações brasileiras, há uma realizada pelo grupo britânico Corydon Singers (veja aqui). Villa-Lobos conseguiu essa façanha de ser o único compositor brasileiro a conseguir lugar permanente na programação dos grupos musicais e no catálogo das gravadoras dos países centrais da indústria da música clássica.

Aliás, prestem atenção na programação da Oficina de Música, porque é uma rara oportunidade para ouvir os melhores músicos do mundo em Curitiba, e uma excelente programação para quem fica na (ou vem para a) cidade em janeiro.

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