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O centenário de Guerra Peixe e a Sinfonia nº 1 com a Filarmônica UFPR

Guerra Peixe em foto publicada em 1948 no Boletim <i>A voz de Londres</i> da BBC
Guerra Peixe em foto publicada em 1948 no Boletim A voz de Londres da BBC
Guerra Peixe em foto publicada em 1948 no Boletim A voz de Londres da BBC

Guerra Peixe em foto publicada em 1948 no Boletim A voz de Londres da BBC

Em 2014 comemoramos o centenário do nascimento de Cesar Guerra Peixe, um dos compositores mais importantes do Brasil. Essas coisas nunca são comemoradas devidamente, pois as orquestras e as instituições culturais vivem à míngua, e não temos nenhuma política decente de preservação da nossa memória artística e institucional. Também não fazemos com que a nossa rica tradição artística seja sequer ensinada nos colégios. Então, as comemorações do centenário do compositor petropolitano foram tímidas e inadequadas – para não dizer quase inexistentes.

Guerra Peixe é no mínimo da mesma estatura artística de outros nomes brasileiros como José Maurício, Carlos Gomes, Alberto Nepomuceno, Villa-Lobos, Camargo Guarnieri, Francisco Mignone, Gilberto Mendes. Carlos Gomes e Villa-Lobos tem museus dedicados à sua pessoa, em Campinas e no Rio de Janeiro. Camargo Guarnieri tem um bom acervo preservado no IEB-USP. Guerra Peixe continua sendo um nome sem preservação institucional de nenhum tipo, seu material espalhado no acervo da Divisão de Música da Biblioteca Nacional, da Rádio Nacional no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, no Acervo Curt Lange da UFMG, no acervo Mozart Araújo do Centro Cultural do Banco do Brasil no Rio de Janeiro, no acervo da Escola de Música da UFMG. Nenhum destes é o acervo de Guerra Peixe: são acervos de amigos que corresponderam com ele e guardaram materiais importantes, ou de instituições nas quais ele atuou e que preservaram a memória desta relação. O acervo pessoal do compositor continua sob a guarda da família, aos cuidados da sobrinha neta Jane Guerra Peixe.

A obra de Guerra Peixe continua pouco tocada e pouco gravada, suas partituras pouco publicadas. O compositor vem sendo tema de pesquisas acadêmicas e de livros. Mas ainda é pouco perto de sua importância.

Neste cenário de desolação, merece destaque a iniciativa da Filarmônica UFPR, que fez um concerto semana passada e executou a Sinfonia nº 1 de Guerra Peixe. Esta obra foi composta em 1946, ganhou destaque internacional, mas depois ficou relegada a um injusto ostracismo.

Apesar de ser a nº 1, não foi a primeira sinfonia que Guerra Peixe escreveu. O compositor tinha produzido várias obras no início da década de 1940, mas decidiu destruir tudo em 1944, quando passou a ser aluno de Koellreutter e integrar o Grupo Música Viva. A atitude intempestiva do artista, tão típica de seu temperamento vulcânico, pode ser lamentada por nós que gostaríamos de ver preservada sua produção, mas simbolizou o descontentamento e o desejo de ruptura com a formação acadêmica nacionalista que Guerra Peixe recebeu no início de sua trajetória como compositor.

A partir de 1944 Guerra Peixe começou a escrever obras dodecafônicas, usando a técnica como um recurso de diferenciação em relação a uma geração de compositores já estabelecidos e então muito ativos e importantes no cenário do Estado Novo varguista: Villa-Lobos, Mignone e Lorenzo Fernandes. Podendo somar à lista o nome de Camargo Guarnieri, residente em São Paulo, que por esta época estava em torno de sua consagração definitiva, que ocorreria com a sua Sinfonia nº 1 em 1945.

A escrita dodecafônica foi um exercício de grande sofrimento para Guerra Peixe. Toda a produção que ele obteve com esta técnica pode ser considerada entre as coisas mais importantes que foram produzidas no mundo, embora houvesse a extrema dificuldade de fazer esta música chegar ao público. Várias obras da fase dodecafônica de Guerra Peixe continuam inéditas até hoje, como o Quarteto nº 1, que chegou a ser ensaiado por um quarteto de Buenos Aires, mas que nunca saiu do papel.

A partir de 1946, Guerra Peixe começou a realizar experiências mais ousadas: resolveu mesclar a técnica dodecafônica com soluções rítmicas derivadas da música popular brasileira, aproveitando sua vasta experiência como arranjador de orquestras de rádio, teatro de revista e cinema, bem como a prática de músico de regional e compositor de choro. Como principais resultados desta experiência, tivemos a Sinfonia nº 1, o Noneto e a Suíte para violão.

Guerra Peixe iria abandonar a técnica dodecafônica em 1948, recusando um convite para morar na Europa, e aceitando o emprego de arranjador na Rádio Jornal do Comércio em Recife, onde ficou por cerca de 4 anos, realizando pesquisas que resultaram no livro Maracatus do Recife, publicado em 1956 e até hoje uma referência absoluta para a musicologia e a etnomusicologia.

Incorporado à corrente folclorista, Guerra Peixe passava a ter seu nome elencado nos livros de História da Música Brasileira, merecendo capítulo próprio e tornando-se mais um dos heróis do nosso panteão.

Entretanto, a sua fase dodecafônica continua mal digerida até hoje.

Mas não era assim na segunda metade da década de 1940. Contando com a divulgação do professor Koellreutter entre seus contatos europeus (principalmente o regente Herman Scherchen, de quem tinha sido aluno), a música de Guerra Peixe atravessou o Atlântico e mereceu destaque no ambiente cultural do pós-guerra, quando a derrota do nazismo acendeu uma curiosidade ímpar pela vanguarda que tinha sido reprimida na última década pelos regimes totalitários.

A música de Guerra Peixe mereceu destaque neste cenário, especialmente a Sinfonia nº 1, que foi estreada pela Sinfônica da BBC, com regência de Maurice Miles e transmissão radiofônica internacional. A obra ganhou destaque e reconhecimento, sendo excecutada mais três vezes na Europa por esta época, mas logo caiu no esquecimento. Talvez com a própria colaboração do compositor, que desistiu dos esforços necessários para difundir sua obra deste período (mas pelo menos desta vez não destruiu a produção depois de uma mudança de orientação estética).

A única execução que se tem notícia depois do período de estreia foi feita em 1967 por Eleazar de Carvalho com a OSB no 1º Festival Interamericano de Música do Rio de Janeiro.

A obra nunca foi editada, estando até hoje em manuscrito. E as cartas de Guerra Peixe revelam que o compositor teve grande dificuldade em produzir o material de orquestra para mandar a Londres (parece que pagou copista do próprio bolso, mas mesmo assim não conseguia alguém disponível para o trabalho no prazo exigido).

A execução feita nos últimos dias 24 e 25 de setembro pela Filarmônica UFPR foi possível pela colaboração de Jane Guerra Peixe, que se empenhou na realização e providenciou as partituras do acervo pessoal do compositor. Ela esteve presente no concerto, que foi, no meu entendimento, a maior homenagem feita ao compositor no seu centenário.

Sim, porque trazer de novo à vida sua obra mais importante, mais difícil e uma das mais esquecidas era uma tarefa mais do que necessária, mas para a qual poucos estavam preparados.

A execução regida por Márcio Steuernagel revelou uma partitura consistente, que consegue intercalar a profundidade harmônica do dodecafonismo (uma técnica que pretendia simplesmente articular a totalidade dos sons da gama temperada em temas musicais de 12 notas diferentes) com uma vivacidade rítmica e um uso da orquestração como se vê em poucas obras.

A Sinfonia nº 1 deve ser colocada ao lado das melhores obras orquestrais dodecafônicas, comparável a um Concerto para violino de Berg, por exemplo, tanto pela ousadia vanguardística como pela habilidade em fazer a música comunicar com o público.

Não podemos deixar de notar o quanto a execução da obra nas condições em que foi feita tem de pioneirismo. Steuernagel trabalha com uma orquestra de voluntários e bolsistas, todos bem jovens, cuja remuneração não atinge o salário mínimo. Alguém vai dizer “mas como exigir de uma orquestra nestas condições que toque uma obra tão complexa”?

Podíamos colocar por outro prisma: sendo um espaço de formação (tanto dos músicos, como da exeperiência estética do público) a Filarmônica UFPR cumpriu magistralmente seu papel. Sob a batuta de Márcio Steuernagel (ele regeu sem batuta, mas isso é um detalhe) o conjunto mostrou consistência e maturidade, como dificilmente se vê nos grupos profissionais. Em geral os músicos de orquestra no Brasil tem considerável má vontade com repertórios exigentes deste nível, sendo que o próprio gosto conservador dos músicos muitas vezes é um empecilho. Neste sentido, Márcio Steuernagel transformou o que poderia ser uma desvantagem (a inexperiência do grupo) numa vantagem considerável: o desejo e a potência de ousar ser significativo – atirar-se no risco e colher a consagração.

Para quem esteve em uma das duas apresentações, a certeza de ter presenciado um momento marcante e único. Quem sabe um ponto de virada, que simboliza uma nova geração de músicos, maestros e pesquisadores que vem marcada pelo desejo de acertar as contas com a memória da cultura brasileira, com as grandes experiências que podiam ter colocado o Brasil no mapa, se tivéssemos feito a lição de casa da criação de instituições competentes de preservação desta memória e do uso dela na formação das novas gerações.

Nunca é tarde para pagar os tributos necessários a quem merece, e agora a memória de Guerra Peixe recebeu uma homenagem à altura. Esperemos que seja a primeira de muitas.