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Tim Blanning: O triunfo da música

Capa da edição em português
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O livro de Tim Blanning – O triunfo da música deve interessar os professores de História da Música em cursos de música (meu caso), ou apenas os curiosos em geral sobre o assunto (caso de muito mais gente), que lidam com uma carência básica: livros decentes em português. A maior parte dos livros que encontramos em bibliotecas ou livrarias são traduções de manuais antigos e, por isso mesmo superados. Os avanços da pesquisa nas últimas décadas foram tantos que um livro escrito em 1980 ou 1960 já passa por problemas de desatualização. Mas pior do que a desatualização é o erro metodológico puro e simples.

Vários livros tomados como manuais são um apanhado de opiniões do autor sobre compositores e obras, com pouco ou nenhum compromisso com algo próximo a uma verdade histórica. O pensamento que estrutura muitas obras é o de um cânon dos maiores compositores com suas obras mais importantes. E a história da música seria falar disso – um misto de biografias com comentários de obras.

Mas as biografias de compositores ainda estão muito naquela ilusão metodológica que os historiadores já vêm enfrentando há praticamente um século, que era a ideia de escrever a história a partir dos homens ilustres – imperadores, generais, papas, filósofos, etc. Faz tempo que os historiadores trabalham mais interessados na vida do homem comum, na história econômica (clima, demografia, alimentação…), nas mentalidades, nas instituições, entre outros enfoques. E até nas biografias, que ganham mais relevância nos tempos recentes, mas com enfoque metodológico renovado.

Tudo isso pra dizer que pra quem precisava um bom livro de história da música já temos parte dos problemas resolvidos. Sim, estou fazendo “propaganda” de O triunfo da música, publicado no Brasil pela Cia. das Letras em 2011, como um bom livro de história da música. É um dos poucos livros disponíveis que apresenta um bom enfoque metodológico, embora não se proponha ser uma “História da Música” – não no sentido tradicional das obras que vão da Antiguidade ao período contemporâneo.

Capa da edição em português

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Tim Blanning não é professor de música (ainda bem!), como explica na introdução. Ele é professor da Faculdade de História da Universidade de Cambridge, e o livro é o resultado de uma disciplina que ele criou no curso. O objetivo de seu estudo é compreender como a música assumiu um papel tão importante na vida contemporânea, e para fazer isso ele mapeia a trajetória da vida musical nos últimos séculos. Grosso modo, o livro trata de assuntos que vão do Renascimento italiano até os nossos dias, com atenção mais concentrada para os séculos XVIII, XIX e XX.

Entre os muitos méritos do livro, está o de não desenrolar a história da maneira cronológica. Essa leitura das coisas em sequência é meio que um vício da maioria dos professores (eu me incluo nessa). Apesar de não se exatamente a melhor forma de abordar o passado com alunos. Os PCN de História, por exemplo, recomendam desde 1998 uma organização por eixos temáticos. Dois anos para “História das relações sociais, da cultura e do trabalho” e dois anos para “História das representações e das relações de poder”.

O livro de Blanning também faz o recorte por temas, ao invés dos tradicionais capítulos em sucessão cronológica. Seu livro é organizado em 5 seções, cada uma tratando de uma temática e aplicando temporalidades próprias a cada discussão.

A primeira seção trata da posição social dos músicos, e é chamada Prestígio. Nesta seção o autor discute o desejo dos músicos por reconhecimento profissional e autonomia criativa, que vai sendo conquistado paulatinamente. Desde as dificuldades enfrentadas por Monteverdi, passando pela prisão de Bach, até a glória de músicos como Beethoven, Liszt ou Wagner, que não se curvavam sequer perante imperadores. As diferenças geográficas são muito significativas, sendo Londres, por exemplo, uma cidade que produziu poucos músicos importantes a partir do século XVIII, mas que foi o paraíso para a atuação, por exemplo, de músicos germânicos como Haendel ou Haydn. Por ser um livro de síntese histórica, e não o trabalho de historiador, o livro não precisa lidar direto com fontes, e sim com uma vasta bibliografia. Mas como bom manual, ou livro didático, faz aquilo que também nossos PCN recomendam: apresenta fontes históricas e possibilidades de interpretação. Assim, cartas de Monteverdi ou de Mozart são usadas para retratar dificuldades de inserção profissional dos compositores. Mas o melhor exemplo, pra mim, é a comparação entre os retratos de Bach e de Haendel, apresentados às páginas 50 e 51.

A segunda seção do livro é sobre a importância das práticas musicais na cena pública, com o título de Propósito. Começando pela corte de Versalhes nos tempos de Luís XIV, onde podemos identificar o surgimento de uma “música clássica” mais ou menos nos padrões que conhecemos até hoje, passa pelas dificuldades em estabelecer a música como arte a ser contemplada intelectualmente, e não como mero divertimento aristocrático e demonstração de poder de casas dinásticas. É interessante  nessa parte a descrição do processo invertido que ocorre com a perda de influência da religião na cena pública (dessacralização) e o processo de sacralização da música – quando as apresentações artísticas passam a exigir uma audição respeitosa e devotada em ambientes “sagrados” silenciosos e apropriados. O auge desse processo pode ser identificado na construção do Festspielhaus por Wagner em Bayreuth.

A terceira parte é sobre os lugares onde as apresentações musicais se desenvolveram. Esse processo foi mais tardio do que se costuma imaginar, sendo notável que as primeiras salas de concerto europeias (ao longo do século XVIII) não tinham nada de públicas, mas eram locais privados em palácios aristocráticos. As primeiras apresentações públicas não eram nada elegantes, aconteciam em lugares periféricos e com ingressos baratos, preferencialmente música para dançar. Os concertos realmente públicos são uma coisa do século XIX já bem avançado, e mesmo assim, sendo um tipo de evento de natureza muito restrita.

A primeira sala de concertos a estabelecer uma reputação sólida em música sinfônica foi a sala do Conservatório de Paris, cuja orquestra reunia os melhores professores do mundo, e foi regida por décadas por François-Antoine Habeneck. Blanning demonstra que a Orquestra do Conservatório foi responsável, por exemplo, pelo estabelecimento da reputação das Sinfonias de Beethoven, tocadas 280 vezes pela orquestra nos 30 anos após a morte do compositor. Mas a sala de concertos do Conservatório, de acústica perfeita, tinha menos de 1000 lugares, e era praticamente impossível conseguir um ingresso. Wagner só assistiu a orquestra porque obteve um ingresso de cortesia do maestro. As assinaturas consumiam todos os assentos, e não havia venda avulsa.

A demanda excedia a oferta a ponto de as assinaturas de concertos se esgotarem com meses de antecedência. Em 1830, um melômano parisiense revoltado reclamou à Revue Musicale que, no mês de dezembro anterior, tentara adquirir a assinatura dos concertos do ano seguinte, mas foi informado de que os bilhetes estavam esgotados. Solicitou então os bilhetes para o ano subsequente, recebendo a mesma resposta. Conclusão: um lugar na lista de assinaturas se tornara uma espécie de relíquia, conservada pela família e transmitida de geração para geração. O jeito era se contentar com os concertos da rue de la Harpe organizados pela deplorável Société des Amateurs, onde qualquer um podia trazer seu instrumento e tocar. Os resultados eram previsivelmente “sinistros”. (p. 171)

A seção 4 – Tecnologia: do Stradivarius ao stratocaster, tem o mérito, além de incluir este tema como o assunto importante que realmente é na história da música, de não considerar as tecnologias de áudio do século XX como panacéias. O assunto tecnologias em difusão da música recebe a devida importância no livro já no século XIX, com a construção dos instrumentos de bocal ou palheta com chaves, com a fabricação de pianos, e com o consequente mercado de massas de música impressa. Provavelmente o fonograma e o mercado de música gravada, que tiveram importância preponderante no século XX, sequer teriam existido sem essa base do mercado de partituras para piano construída no século XIX. O ápice do fenômeno tecnológico, na forma como Blanning apresenta, esteve na formação de uma cultura jovem difundida por meios de comunicação, cuja expressão musical foi o Rock.

A última seção, com o título Libertação: nação, povo, sexo mostra a força que a música assumiu como forma de engajamento político em vários momentos históricos. Blanning faz aquilo que Benedict Anderson não conseguiu fazer em Comunidades imaginadas e atribui papel preponderante para a música no imaginário de construção da nacionalidade, acompanhando as histórias, por exemplo, de canções como a Marselhesa, ou o papel da ópera italiana na unificação do país, entre outros temas. Termina com uma leitura muito interessante da importância da música negra norte-americana na luta pelos direitos civis e do papel dos músicos do show business na consolidação de uma liberação dos costumes sexuais a partir da década de 1960.

O livro não consegue, nem seria o caso, dar conta de todos os assuntos importantes. Mas a organização temática traz o mérito de conduzir leituras da história, de modo que não corremos o risco boboca de pensar que a música fosse uma atividade à parte da vida humana, e que os grandes compositores fossem heróis míticos, santos, gênios, trabalhando solitários em papel pautado, esperando ser descobertos pela posteridade. Assim, soa como ótimo epigrama a frase que abre a seção 2 do livro, na página 87, porque tem a capacidade de desmerecer as construções do idealismo alemão que tanto mal fizeram para nosso entendimento do que seja história da música:

Por que compor música? Por que tocar música? Por que ouvir música? As respostas óbvias são, respectivamente, por dinheiro, por dinheiro e por prazer.

 
 
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