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O argumento adamantino

Marcos Tavares
Marcos Tavares

Na Ivo Leão, uma moça monta seu escritório na calçada, à sombra de um belo alfeneiro carregado de bagas roxas. Ela também é bela. Tanto quanto a árvore debaixo da qual decidiu trabalhar. Mas árvore e mulher, todos sabem, têm belezas diversas. Para distingui-las, basta olharmos os homens que vêm passando pela rua, a pé, sob o sol de inverno, voltando do almoço à firma.

A beleza da árvore os apazigua; a da mulher os aparvalha. Assim, a visão de uma mulher bonita junto a uma bela árvore condena estes homens a um momento de confusão mental. Desconcertados, observam o quadro sem apreendê-lo direito. É como se temessem a aparição, entre os galhos do alfeneiro, de um terceiro personagem, astuto e sibilante.

Mas é óbvio que na Ivo Leão não há serpentes. Apenas esta moça, sentada a uma mesa sob a árvore, e estes homens que passam por ela. A mesa é branca, de plástico, e faz conjunto com duas cadeiras. Uma delas está vaga, à espera de alguém, qualquer um. A outra, adivinha-se, é ocupada pela própria moça. Ela cruza as pernas de maneira discreta e atraente. Entrelaça as mãos e as abandona sobre o colo. Encolhe os ombros e o pescoço, traindo o friozinho que sente por estar assim, em repouso, à sombra invernal de um alfeneiro.

Os homens, por sua vez, passam ao sol, acalorados. Sobre a mesa, diante da moça, notam uma garrafa de água e dois copos. E esse arranjo — bebida, sombra e mulher — os faz sentir sede, preguiça e desejo, os remete à atmosfera relaxante de um bar no litoral. Conforme já adiantamos, porém, trata-se de um escritório, e não de um bar. Nota-se pela papelada que também se vê na mesinha, folhetos decerto importantes. Se não o fossem, não estariam ali, pois é justo deduzir que ninguém no mundo portaria tantos papéis se estes não lhe parecessem essenciais.

Mas isso não é tudo. Há mais, e não somente a sombra, os folhetos, a água e a moça debaixo do alfeneiro. Há uma placa, pendurada em seu caule. Um anúncio que revela aos homens circundantes as reais intenções da bela mulher. Ela é uma vendedora. E está aqui para vender planos crematórios. Sentar-se com ela, portanto, e beber com ela, e conversar com ela à sombra desta árvore aprazível, é também mostrar-se disposto a encarar a própria morte.

Assim, os homens passam pela Ivo Leão e não param jamais. Sou um homem, e estou entre eles. Tenho vontade, admito, de me sentar na cadeira vaga, diante da moça, e vadiamente discorrer, em sua fresca companhia, sobre a minha mortalidade. Mas, sendo casado, e sobretudo sensato, penso que isso talvez não pegue bem. E se um conhecido me flagra ali, bebericando em horário comercial, discutindo o desnudamento final do meu corpo com uma bela jovem, sob as roxas emanações de um alfeneiro?

Declino da oportunidade e sigo adiante, desejando à moça uma boa tarde. Só não resisto à fantasia de elaborar, enquanto me afasto, uma hipotética transação entre nós. Primeiro, eu pediria à vendedora que me convencesse quanto às vantagens de lhe confiar a incineração completa de minha pessoa. Estou certo de que ela desfiaria diante de mim os seus melhores e mais sedutores argumentos, financeiros, ambientais e até mesmo espirituais. A cremação, ensinaria, elimina as partes inferiores do ser, liberando de forma limpa e imediata o pouco que em nós ainda resta de sublimável e passível de elevação.

Mas nenhuma dessas propostas seria capaz de me comover, e a vendedora partiria para o tudo ou nada: o argumento adamantino. Se me interessasse, diria ela, enchendo pela quarta vez o meu copo, eu poderia ser transformado num diamante azul. E então, é claro, fecharíamos negócio e brindaríamos ao infinito. Para isso, eu juntaria o dinheiro que fosse preciso. Eu seria, no futuro, um diamante azul, uma dura e inútil transparência.