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As mulheres esquecidas da Ditadura

ísis Dias de Oliveira, desaparecida em 1972

ísis Dias de Oliveira, desaparecida em 1972 (Foto: Arquivo Pessoal)

Hoje, quando o país relembra os 50 anos do Golpe Civil-Militar que sufocou o Brasil por 21 anos, este blog relembra e reverencia as mulheres que lutaram contra a Ditadura Civil-Militar. Porque mesmo entre as vítimas, igualmente dignas de respeito e de admiração, há algumas mais invisibilizadas do que outras.

Sã as mulheres, que assim como na Revolução Francesa, foram esquecidas pela História. As que não apenas eram torturadas, mas também assediadas e estupradas pelos militares – muitas delas grávidas ou no puerpério – caso de Ieda Seixas, Ana Maria Aratangy e Amélia Teles. Que sofriam abortos ou ficavam estéreis após dias e meses de espancamento e tortura, como Nádia Nascimento. Que padeciam de tortura psicológica com as ameaças de desaparecimento, tortura e morte de seus filhos, tal como Criméia de Almeida. Que muitas vezes foram reduzidas a “musas”, “companheiras” e “amantes” dos militantes de esquerda, e não como protagonistas da resistência, em todas as suas fases, caso de Iara Iavelberg e Clara Charf, entre tantas outras. Que foram até o fim pelo direito de saber onde estavam enterrados seus filhos, familiares e amigos – com algumas, inclusive, morrendo em decorrência disso, tal como Esmeraldina Carvalho Cunha, mãe de Nilda Cunha, e Zuzu Angel, mãe de Stuart Angel Jones. Que foram protagonistas da luta pela anistia, quando havia passeatas exclusivamente femininas nas ruas das capitais. Mesmo entre as mulheres, há as que são mais sub-representadas ainda. Onde está devidamente documentada e reconhecida a luta das mulheres negras – como Helenira Rezende de Souza Nazareth, Alceri Maria Gomes da Silva e Ieda Santos Delgado – durante a Ditadura?

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Amélia Teles, Ana Maria Aratangy e Criméia de Almeida (Foto: Fábio Braga e Tadeu Brunelli/Marie Claire/Reprodução)

Amélia Teles, Ana Maria Aratangy e Criméia de Almeida (Foto: Fábio Braga e Tadeu Brunelli/Marie Claire/Reprodução)

Hoje, 50 anos depois, quando tanto se fala em democracia, estado de Direito e luta pela liberdade e pela dignidade, é importante não esquecer que a mulher brasileira ainda não goza desses direitos em sua integralidade. Ainda acham que merecemos ser estupradas por conta de uma roupa. Ainda somos sub-representadas na política. Ainda ganhamos 73% do que ganham os homens pela mesma função e serviço. Pra nós, a democracia ainda não é plena. E falta reconhecimento.

Alceri Maria Gomes da Silva, morta em 1970 (Foto: Arquivo Pessoal)

Alceri Maria Gomes da Silva, morta em 1970 (Foto: Arquivo Pessoal)

Não permita que apaguem nossa luta.

Para saber mais sobre as mulheres que lutaram contra o regime, sugiro esta reportagem da revista Marie Claire, publicada em 2013. Um trecho da reportagem demonstra como era a violência cometida contra as mulheres nas prisões:

“Depois de nos colocarem nuas, eles comentavam a gordura ou a magreza dos nossos corpos. Zombavam da menstruação e do leite materno. Diziam ‘você é puta mesmo, vagabunda’”, afirma Ana Mércia. As violências que seguiam incluíam, em geral, choques nas genitálias, palmatórias no rosto, sessões de espancamento no pau de arara, afogamentos ou torturas na cadeira do dragão, cujo assento era uma placa de metal que dava descargas elétricas no corpo amarrado do prisioneiro. Mas com as mulheres era diferente. “Havia uma voracidade do torturador sobre o corpo da torturada”, afirma a psicóloga Maria Auxiliadora Arantes, cuja tese de doutorado sobre tortura no Brasil será publicada este ano. “O corpo nu da mulher desencadeia reações no torturador, que quer fazer desse corpo um objeto de prazer.”

Também deixo aqui o nome das mulheres mortas e/ou desaparecidas durante o período, de acordo com a lista oficial da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos. Se algum nome ficou de fora, por favor, forneça a informação nos comentários.

Alceri Maria Gomes da Silva

Ana Maria Nacinovic Corrêa

Ana Rosa Kucinski Silva

Anatália de Souza Melo Alves

Áurea Eliza Pereira Valadão

Aurora Maria Nascimento Furtado

Carmem Jacomini

Catarina Abi-Eçab

Dinaelza Soares Santana Coqueiro

Dinalva Oliveira Teixeira

Esmeraldina Carvalho Cunha

Gastone Lúcia Carvalho Beltrão

Gerosina Silva Pereira

Helenira Rezende de Souza Nazareth

Heleny Telles Ferreira Guariba

Iara Iavelberg

Ieda Santos Delgado

Íris Amaral

Ísis Dias de Oliveira

Jana Moroni Barroso

Jane Vanini

Lígia Maria Salgado Nóbrega

Lúcia Maria de Souza

Luíza Augusta Garlippe

Lyda Monteiro da Silva

Margarida Maria Alves

Maria Ângela Ribeiro

Maria Augusta Thomaz

Maria Auxiliadora Lara Barcelos

Maria Célia Corrêa

Maria Lúcia Petit da Silva

Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo

Maria Regina Marcondes Pinto

Marilena Villas Boas

Míriam Lopes Verbena

Neide Alves dos Santos

Nilda Carvalho Cunha

Pauline Reichstul

Ranúsia Alves Rodrigues

Soledad Barret Viedma

Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones

Suely Yumiko Kanayama

Telma Regina Cordeiro Corrêa

Therezinha Viana de Assis

Walkíria Afonso Costa

Zuleika Angel Jones