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Para não esquecer: Ane Mari Gubert. Ex-marido vai a júri popular

Ane em uma viagem ao Rio de Janeiro em 2006

Ane em uma viagem ao Rio de Janeiro em 2006

Será julgado por júri popular, nesta segunda-feira (24), o servidor público aposentado Orlando Carlos Genol da Rocha, 57 anos, acusado de matar a esposa, também funcionária pública, Ane Mari Gubert, na época com 51 anos, no dia 11 de setembro de 2010, no apartamento do casal, no bairro Água Verde. Ambos eram funcionários do Teatro Guaíra. O caso de Ane Mari é um entre milhares de casos de mulheres que sofrem violência doméstica – violências físicas, psicológicas, morais e patrimoniais – e que, segundo acredita o Ministério Público do Paraná, terminou em um assassinato frio, com um tiro disparado na nuca. Orlando será julgado no Tribunal do Júri por homicídio duplamente qualificado – motivo fútil e impossibilidade de defesa da vítima, já que ela foi morta pelas costas. A pena pode chegar a 30 anos.

A defesa alega que o tiro foi acidental. Na época, Orlando afirmou que o casal iniciou uma discussão após Ane saber que ele mantinha relacionamentos extraconjugais pela internet. Segundo ele, a esposa teria pegado o revólver e ameaçado se suicidar. Logo em seguida, teria jogado o revólver no lixo, mas voltou a pegá-lo e teria tornado a tentar o suicídio. Orlando afirma que, ao tentar retirar a arma das mãos de Ane Mari, disparou contra ela acidentalmente. O aposentado responde ao processo em liberdade, após a concessão de um Habeas-Corpus, já que ele é réu primário.

A sobrinha de Ane Mari, a dona de casa Anelize Gubert Fernandes de Lima, 40 anos, tem se empenhado, desde 2010, para que a história da tia não caia no esquecimento e para que novas mulheres não sofram o que sua tia passou. Embora Ane nunca tenha reclamado para a família sobre as violências sofridas pelo marido, após sua morte, a polícia encontrou no computador da servidora pública um diário em que ela descreve os tapas que levava do marido, as ameaças e humilhações, o que deixou a família ainda mais abalada, por saber que Ane sofria calada. O diário começou a ser escrito um ano antes da morte dela.

Nesta segunda-feira, às 13h, quando se inicia o julgamento, a família de Ane, que é de Ponta Grossa, nos Campos Gerais, estará presente, assim como membras do movimento feminista, representado pela União Brasileira de Mulheres (UBM) e Marcha das Vadias de Curitiba, que farão um protesto no local para lembrar o caso e também os índices alarmantes de violência contra a mulher no país. Vale lembrar que, segundo o Mapa da Violência do Instituto Sangari, em 2012, ano que concentra as últimas estatísticas, 4.719 mulheres morreram assassinadas no país, cerca de 65% delas dentro de casa, assassinadas por parceiros ou demais familiares.

Embora os homens sejam as maiores vítimas de violência no país, seja em acidentes de trânsito ou com armas brancas e de fogo, vale lembrar que as mulheres são mortas dentro da própria casa, por pessoas em quem confiam, e que se aproveitam dessa relação de proximidade, confiança e poder para coagi-las, ameaçá-las, mantê-las reféns em casa e com receio de denunciar para não magoar os filhos ou os familiares. Ao contrário de mortes violentas no espaço público, que costumam comover a população, a violência doméstica é vista como um problema menor, limitado ao casal. Há até quem culpe a mulher pela própria agressão ou morte.

Vale lembrar que o Paraná é o 3.º estado brasileira onde mais morrem mulheres assassinadas. Curitiba foi a última capital do país a ter uma Secretaria da Mulher, e a cidade só conta com uma Delegacia da Mulher. A cidade de Piraquara, na região metropolitana, é a segunda cidade do Brasil onde mais morrem mulheres vítimas de violência – 24,4 mulheres mortas para um grupo de 100 mil. Só perde para Paragominas, no Pará, com 24,7/100 mil.

Camera 028

Na foto acima, Ane está com a cunhada Cristiane Macedo Gubert. Diz Anelize: “a tia Ane ligou para a tia Cris minutos antes de morrer e não disse nada, mas minha tia viu que era o número dela no visor e quando atendeu, a tia Ane não disse nada. A ria Cristiane apenas escutava muito barulho. Era da briga, e ela ficou ouvindo a briga por 12 minutos, uma briga horrível entre os dois, uma briga muito feia. A tia Cris é testemunha do Júri e o celular dela foi periciado pra comprovar a ligação, mas a tia Cris não conseguiu ficar escutando mais e desligou o telefone porque a briga era muito feia, ela não sabia o que fazia, se ia até o apto ou não, porque estava assustada com o que escutou. Dali a alguns minutos, o Orlando ligou e disse que a tia Ane tinha se matado”.

O blog conversou com Anelize sobre a história de sua tia e reproduz aqui a entrevista:

– Você poderia falar, de forma resumida, sobre todo o processo empreendido pela família, desde o registro do crime até a confirmação do júri popular? Quais dificuldades que enfrentaram para levar o caso à Justiça?

Anelize: Não tivemos dificuldade em levar o processo à Justiça, visto que se trata de Ação Pública, que independe de representação da família, pois trata-se de homicídio duplamente qualificado. As dificuldades foram devido à Justiça ser muito morosa, foram 4 anos de espera, de sofrimento e tendo que rebater aos inúmeros recursos impetrados pela defesa, que a todo tempo tentava provar o contrário, mas, finalmente, chegamos ao Júri e estamos confiantes.

– É muito comum que casos de violência doméstica comecem com ameaças e violências verbais e psicológicas, até passarem para a física. Como foi no caso da tua tia? Você pode falar sobre o diário que ela mantinha?

Anelize: Não era do nosso conhecimento que a tia Ane sofria essas agressões, mas durante as investigações, foi encontrado no notebook dela uma espécie de “diário” e vários e-mails enviados ao réu, onde ela relatava os maus tratos que vinha sofrendo, dados registrados desde 1 ano antes do crime. Ali ela descrevia todo o cotidiano dos dois, desde o café da manhã até o deitar, e descrevia as agressões físicas e verbais que sofria, como “nunca apanhei na cara nem do meu pai nem da minha mãe”, “nunca minhas roupas foram rasgadas”, “quando você percebeu que eu estou chorando no quarto, você foi até a cozinha e quebrou tudo”, “vejo que você não me suporta mais”, “até de eu ir à Igreja você implica”, e descreve também xingamentos com palavras de baixo calão proferidas por ele. Esses relatos são provas contundentes de que ela vinha sendo abusada física e psicologicamente pelo marido. Constam também e-mails enviados por ela ao réu, tentando uma conversa, um diálogo, um acordo, visto que ele mantinha relacionamentos extraconjugais pela internet e não fazia questão nenhuma de esconder isso, expondo-a a uma situação de total humilhação. Não há respostas por parte do réu registradas no notebook, de nenhum e-mail enviado, o que nos parece é que ela usava o computador para tentar se comunicar com ele, porque pessoalmente não conseguia mais.

– Qual é o grande desafio para sensibilizar as pessoas a respeito da violência contra a mulher? Antes dessa violência contra a tua tia, como era tua percepção sobre o assunto? O que mudou?

Anelize: O maior desafio é que as mulheres realmente tomem consciência que isso pode acontecer com quem permite a primeira violência, com quem não denuncia, como minha tia, com quem se cala. Porque nunca achamos que um homem vai chegar a uma violência extrema a ponto de nos tirar a própria vida, e vamos tentando, tentando, achando que ele poderá mudar. Nossa, eu nunca na minha vida achava que uma coisa dessas ia acontecer na minha família, nunca tivemos um caso de violência na família, nunca lidamos com isso, foi muito difícil para acreditarmos e para perceber que isso é mais comum do que imaginávamos e que esse problema assola milhares de mulheres todo dia.

– Quais as expectativas da família sobre o julgamento? Qual a mensagem que você gostaria de deixar às pessoas?

Anelize: Estamos com muita confiança, esperança e fé de que sairemos vitoriosos desse julgamento. O maior bem já nos foi tirado e nada nem ninguém trará ela de volta, minha avó tem 88 anos e a dor que ela sente nada poderá mudar, mas somente a Justiça é que poderá nos dar um alento, uma resposta… Essa resposta a Justiça deve à sociedade como um todo, porque quando um homem chega a uma violência extrema a ponto de ceifar a vida da mulher, ele atinge toda a sociedade e não pode ficar impune. Você, mulher que sofre violência, não se cale, denuncie, ah se minha tia tivesse denunciado, hoje ela estaria aqui, viva, alegre, feliz, com toda a família reunida, ah se ela tivesse conseguido escapar, como nossos dias teriam um colorido diferente que nos foi arrancado, assim, do nada.