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Aventura Hospitalar

Ni Hao,

Um dos meus maiores medos ao vir morar na China era o que fazer quando ficássemos doentes.

Para nossa felicidade, existe uma clínica perto de casa estruturada para atender estrangeiros ( a maioria dos expatriados prefere ir para Hong Kong). Isso significa que a recepcionista e alguns médicos falam inglês e praticam a medicina ocidental. Mas eles não são um hospital e, por isso, possuem diversas restrições.

Quando fizemos nosso check-up anual, o Raio-X de tórax, por exemplo, teve que ser feito num hospital público: Shenzhen Shekou People’s Hospital.

Difícil descrever um hospital sem conhecimento de causa. O que posso dizer é que, do ponto de vista de um paciente brasileiro da classe média alta, acostumado a hospitais como o Copa D’Or no Rio ou Vita em Curitiba, a experiência de entrar num hospital chinês é bastante, digamos, assustadora.

Chris Dumont

Este é o local que me ofereceram para tirar a blusa para poder fazer o Raio-X. Em cima desta coisa, que eu não sei dizer o que é, havia um avental usado. Graças a Deus, estava com minha roupa de yoga na bolsa, se não teria desfilado com os peitos de fora até a sala de Raio-X, pelo meio dos doentes deitados em macas pelos corredores.

Enfim, quando achei que minha cota anual de hospitais tinha acabado, a Mariana me aparece com um pequeno probleminha. Ela fez mais um furo na orelha e, durante a cicatrização, a tarraxa do brinco entrou na pele e o furo fechou com a tarraxa dentro.

E agora? Agora tem que pedir a ajuda de um médico para retirar! Fomos a tal clínica que atende estrangeiros e eles disseram para irmos a um hospital.

Ai, meu Deus, hospital de novo? Liu, socorro!

Sem problemas, disse ela, vamos no… adivinhem…. Shenzhen Shekou People’s Hospital!!!

De novo, senhor? Mas, como diria um amigo meu, melhor um bêbado conhecido do que um alcoólatra anônimo! Meti a Liu e a Mari num taxi e lá fomos nós.

Chris Dumont
Chinês odeia que você tire foto, por isso as minhas sempre parecem meio clandestinas.

Chegamos à recepção, preenchemos um papel com nome e idade da Mari, pagamos 7 RMB e explicamos o problema para atendente.

Ela nos mandou para o terceiro andar onde ficava o otorrinolaringologista. Ops! Ela não enfiou a tarraxa no tímpano! A tarraxa está dentro da pele! Pele… dermatologista… Ai, Jesus, Buda, sei lá!

O tal otorrino usava jaleco branco e a máscara de proteção caída no queixo, deixando de fora uma boca cheia de dentes amontoados e alguns espaços vazios. Mariana começou a entrar em pânico: “eu vou embora, tô indo embora!”

O médico a mandou sentar numa poltrona ao lado que parecia ter sido arrancada de um ônibus velho. Tinha até um rasgo no encosto. Perto da poltrona, estava uma pilha de tesouras, alicates e bisturis amontoados dentro de uma grande caixa de metal.

O médico analisou, grunhiu alguma coisa (tradução do grunhido: “se estiver muito fundo, vamos ter que cortar”) e nos mandou para a sala ao lado desinfetar o local.

Na sala imediatamente ao lado, algumas crianças faziam nebulização e um chinesinho, de mais ou menos 10 anos, segurava dois palitos enfiados no nariz. Na ponta dos palitos, por baixo da pele, dava para ver duas luzes vermelhas que piscavam.

Na sala seguinte, aonde a orelha da Mariana seria desinfetada, um bebê de dias estava deitadinho na maca, levando pontos na cabecinha e chorando como um bebê de dias.

Diante desse episódio da Família Adams (médico cheio de dentes, menino de nariz vermelho e neném suturado), Mariana desestabilizou de vez! Começou a me empurrar dizendo “Como se fala anestesia em chinês? Eu não vou cortar nada sem anestesia! Liga pro meu pai! Liga pro meu pai!”

A Liu saiu para pagar o procedimento
enquanto eu fazia o telefonema. Expliquei o lance da anestesia para o Luiz que falou com nossa amiga chinesa Clair que falou com a enfermeira pelo telefone que passou para o médico que falou com a Liu que já tinha voltado… mas ninguém dizia nada sobre anestesia.

No meio deste telefone sem fio, literalmente, Mariana foi empurrada para dentro da sala e deitada na maca com as lágrimas escorrendo.

Enquanto a Liu passava a mão pelo braço dela tentado acalmá-la, o médico fazia o procedimento e eu narrava os acontecimentos: “agora ele pegou uma pinça, agora outra pinça menor, agora ele está pegando uma gaze por que sangrou um pouquinho… vamos tomar um delicioso Frapuccino no Starbucks depois disso tudo?”

A verdade é que: os instrumentos estavam em sacos esterilizados, o médico de mil dentes era um doce (perguntava o tempo todo se estava doendo) e, acima de tudo, retirou a tarraxa que estava encravada na orelha da Mari com uma delicadeza e competência infinitas.

Todo o procedimento custou 160 RMB (R$ 40,00) incluindo o remédio e levou apenas 20 minutos, desde a chegada até a saída do hospital!

E aí? Onde a gente enfia nossa cara depois de tudo que pensamos sobre eles? Depois de todo um julgamento preconceituoso e elitista? Ou não é nada disso e nós demos sorte de ter dado tudo certo?

Não sei. Só sei que depois disso tudo, fomos direto para o Starbucks, um ambiente 100% ocidental, tomar nosso Frappuccino para nos sentirmos “seguras” novamente.


Sistema de Saúde na China

O sistema de saúde na China é assim. O cidadão paga um parte, que é descontada do seu salário, e a empresa paga a outra. Ele tem um cartão que dá direito a usufruir gratuitamente do serviço médico. Se não tiver emprego, não tem cartão. Se não tiver cartão, tem que pagar. Se não puder pagar, morre.

Pobre e rico frequentam os mesmo hospitais, com exceção daqueles especializados em frescuras como cirurgia plástica, dentista…isso explica os dentes muito feios da maioria da chinesada.

Ou seja, por um lado, o sistema é bem socialista: ricos e pobres frequentam os mesmos hospitais. Por outro, é de um capitalismo extremo: não tem como pagar, sinto muito.

Chris Dumont
ID da Liu e carteira de saúde.