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Teatro

“A tragédia do macaco é a nossa”

O conto “Comunicação a uma Academia”, de Franz Kafka, é recriado no Mini-Guaíra pela companhia Clube Noir, dirigida por Roberto Alvim. Juliana Galdino concorreu ao Shell pelo papel de um símio

  • Luciana Romagnolli
Juliana Galdino: como o símio que se molda à imagem humana, relata sua metamorfose à uma plateia acadêmica |
Juliana Galdino: como o símio que se molda à imagem humana, relata sua metamorfose à uma plateia acadêmica
 
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“A tragédia do macaco é a nossa”

Incumbida de interpretar um macaco e relatar à plateia como foi que se humanizou, a atriz Juliana Galdino preservava as feições femininas durante os ensaios do monólogo Comunicação a uma Academia. Até o dia em que foi posar para as fotos de divulgação e surpreendeu o diretor Roberto Alvim surgindo maquiada como o símio. A força da imagem convenceu e, quase irreconhecível, a atriz apresenta de sexta (14) a domingo (16), no Mini-Guaíra (confira o serviço completo), a peça que estreou no ano passado em São Paulo, e pela qual concorreu ao Prêmio Shell.

Se, em princípio, a caracterização pareceu forçada, depois passou a fazer sentido. Afinal, também na obra de Franz Kafka, o autor do conto, “a coisa mais absurda se presentifica clara e cristalina” – observa Alvim. Como a barata de A Metamorfose. “Na atuação da Juliana, você aceita esse absurdo, posto que ele está ali na sua frente”, diz o diretor, para quem esse é o melhor trabalho da carreira da artista, com quem é casado.

Certamente, é o papel mais difícil já enfrentado pela atriz que saiu debaixo das asas de Antunes Filho em 2006, depois de protagonizar Antígona e duas montagens de Medeia, para com Alvim fundarem a companhia Club Noir. Não contente em ser macaco, seu personagem se metaformoseia em homem – demandando da intérprete uma postura masculina. E não bastasse a semelhança fisionômica, Juliana criou um registro de voz próprio, muito grave, baixo e com acentos ligeiramente guturais, para seu falatório autobiográfico.

“Muita gente tem esperado a hora em que ela entra em cena efetivamente ou tem convicção de que é um ator que faz o papel”, conta o diretor, ilustrando o grau de confusão que a criatura é capaz de provocar no espectador. Enquanto ela construía o personagem, coube a ele ditar as marcações e criar todo o entorno que a envolve – cenografia, iluminação e trilha sonora –, buscando um sentido minimalista até na gestualidade, reduzida para parecer mais significativa quando visível.

Alvim encara a transformação pela qual o macaco passa, imitando humanos para escapar da vida atrás das grades, como a trajetória de alguém que se torna o que não é por sobrevivência. Esforço de adaptação que obviamente não é feito apenas pelo símio: “Abandonamos a nossa singularidade e a nossa visão pessoal do mundo e acolhemos outras perspectivas, às vezes contrárias mesmo àquilo em que acreditamos, para conseguirmos sobreviver num mundo em que se tem que pertencer a algo, e a diferença, por vezes, não é bem aceita ou tolerada.” Ele conclui: “A tragédia do macaco é a nossa tragédia.”

Desvios

Recriar no palco a íntegra do conto contraria o projeto estético da companhia de montar apenas dramaturgia contemporânea – a primeiro foi Anátema, de Roberto Alvim; depois O Homem sem Rumo, do norueguês Arne Lygre; O Quarto, do inglês Harold Pinter; e, mais recentemente, Como se Eu Fosse o Mundo, do curitibano Paulo Zwolinski.

Mas o texto de Kafka se insinuou como um “convite incontornável” quando o casal abriu aleatoriamente o livro para lê-lo em casa, e se impressionou com o conteúdo, a forma como a realidade era construída através da fala, e a síntese em meras 15 páginas, tornadas 50 minutos de espetáculo.

“O texto foi se impondo e pedindo mais do que a gente podia dar, o que levou à ampliação do nosso trabalho. Esse é sempre o objetivo de entrar numa peça de teatro: não o que eu vou fazer com a peça, mas o que a peça vai fazer comigo, como eu vou estar diferente quando terminar”, opina Alvim.

Ao falar do processo de criação do espetáculo, vez ou outra o diretor diz que algo “se impôs” a ele: a caracterização de Juliana, o texto e até a maneira de encená-lo. Na sua concepção inicial, a atriz vestiria calça jeans e camisa branca, e falaria ao microfone enquanto três gigantescas antenas parabólicas desempenhariam movimentos coreografados ao fundo. A motivação era destacar o que chama de “metástase do mesmo”, uma im­­pessoalidade que se prolifera pelos discursos mundo afora.

“Nos primeiros dias, fomos percebendo a grandeza, a complexidade e a beleza do texto, e vendo que não havia a menor condição de competir com aquilo. A questão era justamente permitir que aquele texto soe e seja compreendido”, conclui.

Serviço

Comunicação a uma Academia. Mini-Guaíra (R. Aminthas de Barros, s/nº), (41) 3232 9145. Texto de Franz Kafka. Direção de Roberto Alvim. Com Juliana Galdino e José Geraldo Jr. Dias 14 e 15 às 21 horas e dia 16 às 20 horas. R$ 10 e R$ 5 (meia). Classificação indicativa: 16 anos.

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