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Agora, é a vez da Rua São Francisco

Incidente no fim de semana passado reacende debate sobre a ocupação espontânea de espaços públicos na cidade

Se essa rua fosse minha: carro da Polícia Militar circula no meio da multidão que ocupa a Rua São Francisco |
Se essa rua fosse minha: carro da Polícia Militar circula no meio da multidão que ocupa a Rua São Francisco
 
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Agora, é a vez da Rua São Francisco

No início da madrugada do último domingo (11), o designer Henrique Martins, de 34 anos, tomava uma cerveja com uma amiga na Rua São Francisco, entre a Presidente Faria e a Rua Riachuelo.

De repente, um estouro. Nuvens de fumaça e uma correria danada. Henrique e sua amiga também fugiram. “Não havia o que fazer”, diz, já que a Polícia Militar (PM) usou bombas e balas de borracha para dispersar aquelas centenas de pessoas. “Não houve aviso e nenhum diálogo”, afirma Martins. O depoimento é sintomático.

No momento, ninguém sabia que a Setran e a PM realizavam uma operação na região (leia mais sobre o caso nesta página), cujo desfecho fez a ruela se transformar numa confusão instantaneamente, lembrando o ocorrido no pré-carnaval de 2012, no Largo da Ordem. O quiproquó suscita novas questões sobre a ocupação espontânea de ruas do Centro de Curitiba, cidade que sai da toca no verão e parece, ainda, não saber lidar muito bem com isso.

A São Francisco começou a virar moda em abril de 2014, quando um grupo de voluntários iniciou a construção da Praça de Bolso do Ciclista, na esquina com a Presidente Faria. Não demorou e bares e restaurantes se instalaram ali um após o outro.

O boca a boca funcionou, e a estreita viela de paralelepípedo, então, tornou-se uma “nova Trajano” e fez a alegria dos que querem viver a cidade numa noite quente; fomentou certo desespero em alguns moradores, que reclamam do barulho todo – inevitável --; e tornou-se novo foco de atenção da polícia, que volta e meia dá “batidas” em busca de usuários de drogas. É pano para manga, mas não é de hoje.

Já faz algum tempo que Curitiba vê pipocar eventos espontâneos e a céu aberto – pense no ano-novo fora de época, na Quadra Cultural (que depois de anos no São Francisco e alguns rounds judiciais irá se mudar para a Pedreira Paulo Leminski) e na vida noturna da Rua Trajano Reis. É uma nova forma de entender a cidade e de se relacionar com ela. Os incidentes recentes, entretanto, indicam que tudo ainda está verde, mesmo nas questões básicas. “Esse processo está em andamento e é irreversível. Por isso é preciso reflexão e atitudes mais coerentes. Se há crimes por ali, a PM precisa ser assertiva e não repressora,” diz Jorge Brand, o Goura, coordenador da Associação de Ciclistas do Alto Iguaçu (CicloIguaçu), responsável pela construção da pracinha. Parece ser também um momento de provação: a CicloIguaçu criou uma petição on-line para o fechamento daquela quadra da rua para automóveis. Até agora, 1,8 mil pessoas assinaram o documento.

Para além do cabo de guerra, o fato é que a São Francisco está, ao que tudo indica, mais segura. “As pessoas transformaram o espírito da rua. Conheço moradores que tinham medo de ir para casa ou passar por ali durante a noite e hoje fazem isso com prazer”, diz Goura.

A princípio, pessoas nas ruas não deveriam ser um problema. Mas há quem tenha se debruçado sobre o tema e levantado questões interessantes. Como a escritora Jane Jacobs (1916-2006), autora de Morte e Vida de Grandes Cidades (Martins Fontes), livro de cabeceira de arquitetos humanistas e urbanistas de plantão. “O problema da insegurança não pode ser solucionado por meio da dispersão das pessoas”, sentenciou a norte-americana. Em 1961.

Entrevista

“Temos medo da multidão”, diz arquiteto

Nos últimos anos, o arquiteto Fábio Domingos Batista acompanhou os eventos que reuniram pessoas nas ruas de Curitiba. O resultado foi o livro A Cidade como Cenário (Grifo, R$ 30), que faz um panorama da ocupação recente de locais públicos. “Estamos nos apropriando da cidade”, diz quem entende do riscado.

Como entende o que ocorreu na Rua São Francisco?

Eu moro perto e ouvi o barulho. Primeiro é preciso dizer que a rua, em si, não é atrativa, e mudou depois que as pessoas a assumiram. Isso está acontecendo com frequência. O melhor exemplo é o [bar do] Torto. Mas há falta de compreensão porque temos medo da multidão. Esses eventos quebram a ordem e a rotina da cidade. Muitos não os entendem bem, e aí surgem as inabilidades todas, da polícia inclusive.

O livro faz um panorama sobre a ocupação de espaços públicos. Estamos indo bem?

O mais difícil e complexo em uma cidade é as pessoas se apropriarem de coisas públicas. A violência existe quando um grupo se apropria de um espaço com intenções não naturais. A São Francisco era muito mais perigosa do que é hoje. Estamos de fato nos apropriando da cidade. Nos anos 1990, o Centro era mais degradado. Hoje, vemos um comércio pulsante. O shopping deixou de ser a única possibilidade. Talvez esse movimento de vivência da cidade seja uma tendência a se dispersar nos bairros, inclusive.

O que faz uma rua ser segura?

A única maneira de conter a violência é ter pessoas na rua. Pense numa rua cheia de muros. Ela é escura porque nada acontece. Não há pessoas passando. Se a rua tem comércio e gente, é viva, mais segura.

Como lidar com o consumo e o tráfico de drogas na região?

Na rua, é bem possível que você encontre um ou outro usuário. Mas, se o caso se tornar um problema de ordem pública, existem maneiras para fazer a abordagem. Se há uma pessoa criminosa na multidão, é preciso preparo para lidar com isso. Porque todos são inocentes até que se prove o contrário. É, de novo, a inabilidade, também no âmbito político.

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