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29ª Bienal de São Paulo

Ao invés de pincel, giz e quadro negro

  • Annalice Del Vecchio, enviada especial
Cartazes do educador Paulo Freire foram base para a obra de Jonathas de Andrade |
Cartazes do educador Paulo Freire foram base para a obra de Jonathas de Andrade
 
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Caçula da Bienal, o alagoano radicado em Recife Jonathas de Andrade, de 28 anos, se propôs a ser outra pessoa para realizar o projeto Educação para Adultos, um conjunto de 60 cartazes que atualizam os 21 publicados em 1971 pela Editora Abril, baseados no método de educação de jovens e adultos criado por Paulo Freire (1921-1997).

Tudo começou quando Andrade pegou para si os cartazes que a mãe, uma professora do ensino público recém-aposentada, estava prestes a jogar no lixo em uma faxina. “Fiquei capturado pela relação texto-imagem”, conta o artista, em um dos debates diários que a Bienal promove no terreiro “Eu Sou a Rua”, na última terça-feira.

Decidiu aplicar, ele mesmo, a metodologia inovadora que alfabetizou milhares de brasileiros usando como matéria de ensino o próprio universo daquelas pessoas. Por um mês, se transformou em professor de um grupo de seis costureiras e lavadeiras do bairro Casa Amarela, onde mora, que aceitaram se submeter à experiência de serem ensinadas por um artista.

Mas ele abriu o jogo desde o início. “Disse que trabalho com fotografia e gostaria de criar cartazes novos a partir da série de Paulo Freire. Passou-se um tempo e elas me interrogaram: ‘E o que nós vamos ganhar com isso?’”, conta Andrade. As mu­­lheres sentiam falta de um quadro negro, giz e caderno. e An­­drade se propôs, então, a encarnar o seu papel a sério. Admite, no entanto, que se sentiu desconfortável, “exigindo posturas tão críticas, gerando revoltas ao tratar de temas da realidade delas, sem saber como usá-las como combustível para uma ação transformadora”.

“Vi-me diante de uma imaturidade ética absurda. A arte é meu único modo de lidar com questões políticas, sociais, é onde posso experimentar ser outros, me posicionar no mundo”, conta. No entanto, os progressos das mulheres ao ler e escrever estimularam o artista a encarar, em breve, mais um mês como alfabetizador.

Diariamente, Andrade selecionava palavras retiradas do repertório discutido nas aulas e ia em busca de imagens que dialogassem de alguma forma com elas. O resultado era mostrado para as mulheres que, novamente, muniam o professor com sugestões. Uma delas, Sara, tinha um ponto de vista pe­­cu­­liar a ponto de ajudar a produzir alguns dos cartazes mais interessantes. Sara é modelo do cartaz “riqueza”, em que aparece comendo um diamante; “tapa”, em que é estapeada; e “roupa”, em que está costurando. As mulheres associaram a imagem de homens carregando caixas com a palavra “união”. Sara preferiu “saque”.

“Aí compreendi que essa troca provocava faíscas dos dois lados. Eu não deveria adotar uma postura arrogante, se ela considerava aquilo saque, ou não, só dizia respeito a ela”, diz. A dissonância rendeu dois cartazes que dão sentidos diferentes à mesma imagens.

O artista manteve a estética dos cartazes originais. “Quis que eles ficassem entre ontem e hoje, ou seja, entre a época em que foram difundidos, nos 1970, e o momento em que os recriei”, explica. Andrade misturou imagens de autoria própria com sete cartazes originais de Paulo Freire e cinco fotografias de arquivo – dentre essas últimas, a de Lula, na década de 80, mostrando o umbigo, simbolizando a palavra “Nordeste”.

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