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Flávia Schiochet

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Crônica

Tango no hortifruti

Sobre empatia

 
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 | Felipe Lima
Felipe Lima

O globo ocular consiste em uma esfera coloidal, córnea, íris, pupila, retina e mais um monte de outras estruturas e espaços delicados metidos no nosso e no crânio de outros bichos. É uma gelatina que se mexe sem parar e, mesmo frágil, movimenta músculos e nervos querendo eles ou não. É o tecido conjuntivo mais sarado depois do abdômen da Pugliesi.

Porque todos os olhos que existem são mais ou menos a mesma coisa fisiologicamente, é natural pensar que eles vejam as coisas da mesma maneira: a cor verde, o fígado à milanesa, o espaço pífio que ocupa a ciclovia em uma cidade. Dilata no escuro, arde quando escorre xampu e deve ter “gostinho de ostra”, como disse aquela participante de um reality show. Mesmo zarolho ou míope, um olho é um olho (é um olho). Mas cada olho sabe o que enxerga e como enxerga.

Se a repulsa é bombeada artéria acima quando a vista bate na língua pendurada no açougue, não há muito o que fazer. Apenas encarar a ironia e tocar um tango argentino: mudar de assunto, de hábitos, de ares. Num compasso de dois por quatro, bailando até encontrar a sessão de hortifruti. São pequenos sinais e muitas experiências que nos fazem decidir o caminho para onde seguir. Ninguém além de si mesmo nesta dança solitária pelo mercado de almas que é o mundo. Uma peça rósea com capa de gordura num gancho: a vida inteira que poderia ter sido e não foi.

O que aconteceu? Há pessoas que de um momento para outro, começam a se incomodar com a visão. É como se uma geleia de brilho fosse aplicada sobre a córnea e nada passasse de um blur: uma incomodação que se sabe bem como resolver, mas se tem preguiça, medo, delírio. Procuram um oftalmologista e pingam colírios, tapam os olhos e leem letras miúdas, saem cegas do consultório e pensam que talvez nunca mais voltarão ao normal, que saber da insufiência da vista será insuportável para o resto da vida. Quando o assombro passa, vê-se com clareza não só o que incomodava, mas o que causou. Algum mau costume, qualquer pequena falha na formação ou manutenção, um desvio que prontamente pode ser corrigido. Além de conforto ótico, espera-se facilitar as coisas, especialmente para o cérebro.

É inútil tentar explicar para alguém que nunca se inquietou com o jeito que enxerga a incerteza que se tem sobre a nitidez da própria visão (e a confusão e desconforto isso proporciona à massa cinzenta). Vão dizer que você ainda não sabe, mas é assim mesmo e que é melhor deixar essa investigação de lado, que a coisa mais fácil é matar logo essa pulga atrás da orelha. E que com o tempo você se acostuma com o incômodo. Eles têm razão. É assim mesmo para alguém que não consegue ver pelos olhos dos outros.

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