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“Da infância, somos todos sobreviventes”

Entrevista com Eliane Brum, jornalista, escritora e documentarista

  • Paulo Camargo
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“Da infância, somos todos sobreviventes”

Eliane Brum necessita das palavras como precisa do ar que respira. Sem elas, talvez não existisse, sucumbisse ao mundo. Desde a infância, vivida no município de Ijuí, noroeste do Rio Grande do Sul, descobriu o fascínio da observação e da escuta, ferramentas que lhe seriam fundamentais no exercício da profissão de jornalista, na produção dos perfis e reportagens que dela fizeram uma referência na imprensa brasileira. Lá, também apaixonou-se irremediavelmente pela leitura, que a salvou da solidão, e nela despertou a pulsão, bem mais do que um desejo, de escrever.

Em entrevista concedida à Gazeta do Povo, por e-mail, Eliane, 48 anos, fala sobre seu novo livro Meus Desacontecimentos – A História da Minha Vida com as Palavras (Editora Leya), uma obra confessional, escrita em primeira pessoa, que não é uma autobiografia convencional, mas uma espécie de inventário. Nela, a escritora, hoje colunista do site brasileiro do jornal espanhol El País, resgata sua relação com as palavras. Leia a seguir trechos da entrevista.

Seu novo livro não é exatamente uma autobiografia, mas não deixa de ser um livro de memórias, nas quais a ideia da sua relação com a palavra, em suas várias possibilidades, é quase sempre central. Como e por que surgiu a ideia de escrevê-lo?

O desejo que me move neste livro é escrever sobre a minha história com as palavras. A infância é o território onde encontro as pistas para um duplo desafio: decifrar a palavra na minha vida e, ao mesmo tempo, usá-la para dar novos sentidos à minha trajetória. Não é um livro sobre a infância, mas busco nas memórias de infância desvendar por quais caminhos a palavra escrita me deu um corpo que me permitiu viver para viver – e não para morrer. Um livro sempre parte de um desejo muito vital ou não conseguimos escrevê-lo, já que é difícil se manter por tanto tempo nesse lugar de escrita.

E qual foi esse momento vital que impulsionou a escrita de Meus Desacontecimentos?

Nesse livro, há pelo menos dois movimentos diferentes. Num primeiro momento, escrevi sobre as pessoas anônimas que, com seus pequenos grandes gestos, fizeram de mim o que sou. Como a Lili da livraria [que deixou Eliane, então menina, ler o que desejasse e, depois, passou a contar com ela como “consultora” na aquisição de obras infantis para a loja] ou Luzia, a professora do meu pai, que nunca conheci, mas que é uma das pessoas mais importantes da minha vida. Eu tinha sido convidada a pensar nos autores que tinham me influenciado, mas não consegui. Embora muitos tivessem me influenciado, o que tinha sido mais determinante para ter me tornado escritora eram essas pessoas, e eu queria contar sobre elas, mostrar essa delicadeza nem sempre percebida que vai construindo um outro tipo de DNA para nós.

As histórias sobre sua família são muito tocantes, íntimas, e algumas bastante dolorosas,. Em algum momento você hesitou em contá-las? Como seus pais e parentes reagiram? Essa foi uma preocupação sua?

Não foi um livro fácil de escrever, embora me pareça que nenhum é. Mas eu tinha de parar, muitas vezes, e fazer outra coisa, porque sofria muito. Ao mesmo tempo me deu também muito prazer de escrever, porque fazia muito sentido me interrogar sobre os sentidos da palavra na minha vida. Na minha família não há idealização da infância. Não até a minha geração, pelo menos. Tenho uma relação muito boa com os meus pais na minha vida adulta, conversamos muito, sabemos que falar sobre aquilo que é doloroso pode ser libertador – e o que fica preso nas sombras interiores de cada um, por supostamente não poder ser dito, nos corrói aos poucos. Há que se lidar com a memória, a pública e a pessoal. Cada um lida de um jeito, eu me expresso pela escrita.

Qual a diferença entre a Eliane Brum repórter, que se dedica a ouvir e a contar histórias de vida de outras pessoas, a cronista/comentarista e a escritora de textos de ficção? Em qual dessas categorias se encaixa a autora de Meus Desacontecimentos?

Eu não me encaixo. Escrever, inclusive, é minha tentativa mais contundente de não me encaixar nem ter de me definir. Todas essas formas de escrita cabem em mim e espero me ampliar para outras, ainda por descobrir e experimentar. A demanda por identidade cada vez me interessa menos. Tenho vários eus convivendo dentro de mim, várias vozes que se expressam pela escrita. Meu pacto com o leitor é estar inteira em cada livro, em cada texto, nas palavras. Tão inteira quanto posso estar, já que me sei faltante, como todos.

Nos capítulos sobre a sua infância, você parece estar disposta a desmitificar essa fase da vida, tirando-lhe a aura de magia e felicidade. Fale um pouco sobre isso.

Da infância, somos todos sobreviventes. Acho que perdemos possibilidades quando idealizamos a infância, essa criação da modernidade, dando a ela adjetivos como “pura” ou “inocente”, adjetivos estendidos a todas as crianças, que não teriam nenhuma “maldade”, muito menos sexualidade. Sabemos que isso está bem longe das verdades, no plural, e sabemos também porque lembramos. Mas esse mito da infância – e da infância feliz – é bem forte. E nos faz muito mal, porque recalca tudo aquilo que não cabe nessa vida em cor de rosa.

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