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Eliane Brum lança novo livro na Unibrasil

Eliane Brum: “escrever é um processo de liberdade.” |
Eliane Brum: “escrever é um processo de liberdade.”
 
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Eliane Brum lança novo livro na Unibrasil

A jornalista gaúcha Eliane Brum vê seus textos como “criaturas vivas.” Por isso, teve dificuldade para selecionar parte dos que entraram em sua coluna no site da revista Época, publicada todas as segundas-feiras, para compor o livro A Menina Quebrada, que ela lança em Curitiba hoje, na UniBrasil. No total, a obra traz 64 textos, incluindo o que intitula a coletânea.

Ganhadora de mais de 40 prêmios jornalísticos – entre eles o Esso e o Vladimir Herzog – Eliane pode ser considerada um “fenômeno” na internet: provavelmente, você já viu muitas de suas colunas replicadas nas redes sociais. Um de seus textos mais famosos (“Meu filho, você não merece nada”), teve 900 mil visualizações de páginas únicas somente no site da Época. Embora considere a importância da audiência, não é isso o que a move. “Essa é uma prisão que não me interessa”, salientou a jornalista em entrevista por e-mail para a Gazeta do Povo.

Trabalhando com a internet, Eliane descobriu, por exemplo, que as colunas que escreve sobre moradores de rua são as de menor audiência. E isso fez com que ela abordasse ainda mais o tema, e não menos. “Meu papel, como colunista, é perturbar e desacomodar.”

Uma das explicações para o sucesso dos textos de Eliane na rede se deve muito aos temas abordados. Recentemente, no auge da discussão sobre o programa Mais Médicos, a jornalista escreveu sobre o assunto (em texto que não está no livro), e já abordou a perspectiva de Eike Batista como pai após seu filho atropelar um ciclista. “Os temas são muito variados e misturados, essa é uma característica da coluna que quisemos preservar no livro. Meu leitor nunca sabe o que vai encontrar na segunda-feira.” Apesar de aproveitar os assuntos do momento, ela só escreve se for tomada pelo tema. “Essa é a primeira verdade que dou ao leitor.”

Pesquisa

A experiência como repórter (foram 11 anos no jornal Zero Hora e 10 na Época – atualmente, ela se dedica, fora da redação, à coluna e a projetos como livros e documentários), transparece nos textos da coluna. Algumas delas, sobretudo as de entrevistas, levam um mês para serem feitas. A jornalista também anota todas as suas percepções do cotidiano. “Sou uma repórter escrevendo uma coluna de opinião. Toda coluna minha nasce de um espanto e passa por um processo de investigação movido pelas dúvidas.” Fora isso, há o cuidado de Eliane com o texto – no dia da entrega, ela passa cinco horas (das 5h às 10 horas) revisando o material. “Nunca subestimo o leitor. Tento dar a ele minhas melhores palavras, minhas melhores dúvidas.”

A jornalista Eliane Brum respondeu por e-mail entrevista para a Gazeta do Povo, e falou sobre a escolha das colunas para o livro A Menina Quebrada, seu processo de trabalho e a crise no jornalismo. Confira a conversa na íntegra:

Na apresentação do livro, você conta que continua na busca por uma identidade como colunista. Ao selecionar as colunas da revista para os livros, você conseguiu definir essa personalidade?

Acho que não consigo me definir nem como repórter, nem como colunista. Hoje me interesso mais em desinventar-me/ desidentificar-me, do que me interesso por uma identidade fixa. E isso tanto como repórter como colunista como ficcionista como documentarista como qualquer outra coisa que caiba, assim, numa palavra, mas que também escapa da palavra. Foi um processo que aconteceu com a necessidade de me apropriar do meu tempo, a partir da minha experiência de reportagem sobre a morte. Naquele momento, percebi que precisava de outras vozes, que uma só não me bastava, não dava conta, o que resultou no meu primeiro livro de ficção (Uma Duas), e no aumento da importância da coluna na minha atual vida. A coluna, em si, é muito múltipla, tanto em temas como em estilos, já que cada história demanda um jeito de ser contada e descobri-lo é parte do seu desvendamento. A coluna marca também a minha entrada no mundo da internet e acho que esse processo de desinvenção tem a ver com esse corpo fluido e sem fronteiras da internet, que tomou conta de mim. Essa demanda por identidade me interessa pouco, hoje. Quero ser o que sou, mas também o que não sou. Acho que as minhas verdades estão mais nesse jogo de múltiplos. Talvez por isso faça tantas coisas simultâneas. Reportagem, coluna de opinião, ficção, documentário etc.

No total, são 64 textos. Como foi a seleção, você sofreu por deixar alguns para trás?

Eu vejo os textos como criaturas vivas, então, não escolhê-los é uma espécie de traição. Tive várias noites de insônia depois que a seleção fechou. Do tipo: “Ah, esse deveria ter entrado no lugar daquele.” Ou: “Como pude deixar este texto de fora?” Coisas assim. Sou meio dramática. A princípio, seriam 40 colunas no livro. Convenci o editor, Tito Montenegro, que 50 era um número muito mais bonito, redondo e chamativo. Acabaram entrando 64...

E a escolha de “A Menina Quebrada” para intitular o livro, foi sua?

Foi uma sugestão do João, meu marido. Eu e o Tito tínhamos passado uma tarde tomando chimarrão e quebrando a cabeça atrás de um título que daria conta do todo. Todas as ideias que tínhamos pareciam muito acadêmicas ou grandiloquentes. Aí o João sugeriu “A Menina Quebrada”, mesmo sendo o nome de uma das colunas. E aí a gente começou a gostar da ideia. Acho que foi uma escolha bacana, porque, para além desta coluna específica, da qual eu gosto bastante, eu acho que esse título dá conta do que o livro é, um percurso de quebradeiras ou um diálogo entre quebrados. Eu sou uma menina quebrada, todos nós somos meninas quebradas, minha coluna (a vertebral e esta, escrita) é quebrada, na medida em que é uma coluna afetada pela vida.

Os temas discutidos na coluna se relacionam em sua maioria com algum assunto “quente” do momento. Como você decide a temática?

Acho que os temas são muito variados e misturados, essa é uma característica da coluna que quisemos preservar no livro. Meu leitor nunca sabe o que vai encontrar na segunda-feira. Algumas colunas levam um mês para ser feitas, especialmente as de entrevistas, mas não só. Vou anotando o que vai me tomando no cotidiano, minhas percepções. Mas só escrevo se for tomada por um tema. Essa é a primeira verdade que dou ao leitor. Se não estiver tomada, pode ser o tema do momento que eu não me interesso por escrever sobre ele. Para mim, escrever precisa ser um exercício de liberdade. Mas ser tomada é só o ponto de partida. No percurso da investigação preciso constantemente duvidar de mim para poder ir mais longe. Quando escrevo, meu objetivo é desacomodar o leitor para que ele possa ver o mundo, a vida, a si mesmo de outras maneiras. Para conseguir fazer isso, primeiro eu preciso desacomodar a mim mesma. O percurso da coluna, a cada semana, é este, de desacomodação. Sempre parto de um espanto sobre algo. Mesmo que seja um “tema quente”, como você diz, um assunto da semana, só escrevo se há algo que está nas sombras, algo que ainda não foi dito, com o qual eu possa colaborar para ampliar o debate. Um desacontecimento dentro do acontecimento. Mas, assim como escrevo sobre temas que estão no noticiário, também escrevo sobre meus interiores, sobre livros e filmes, sobre pessoas anônimas.

E como é o seu modo de produção das colunas, você traz a sua experiência como repórter?

Quando escrevo a coluna eu sou uma repórter escrevendo uma coluna de opinião. Isso faz com que eu repita na coluna uma parte essencial do processo da reportagem. Toda coluna minha nasce de um espanto e passa por um processo de investigação movido pelas dúvidas.

Hoje, você não atua mais diretamente dentro de uma redação. Sente falta?

Em 2010, escolhi não ter emprego, por conta desta questão da reapropriação do tempo. Ter emprego ou não nada tem a ver com ser repórter ou não. Repórter é o que sou, não o lugar em que trabalho. Continuo fazendo reportagens. Acabo, inclusive, de voltar de uma grande, que me deixou incomunicável por duas semanas. Não sinto falta do dia a dia da redação, sinto falta de algumas pessoas com as quais convivia, mas posso vê-las em outros espaços. Gostava da vida em redações e talvez um dia volte a ela. Mas, no momento, estou experimentando viver de um outro jeito. Mas isso não tem nada a ver com ser repórter ou não – e sim com ter emprego ou não. Deixar de ser repórter nunca sequer passou pela minha cabeça. Eu sempre quero me ampliar, não me reduzir.

Como você enxerga a ampla leitura de seus textos e o compartilhamento deles nas redes sociais?

Nunca subestimo o leitor. Tento dar a ele minhas melhores palavras, minhas melhores dúvidas. Depois de escrever a coluna, na segunda-feira pela manhã, passo cinco horas – das 5h às 10h – só revisando o texto, para entregar o melhor que pude fazer a cada semana. Espero que o compartilhamento e a audiência se devam a esse respeito pelo tempo do leitor. Como o tempo é uma questão vital na minha vida – o que faço com o meu tempo, a quem dou o meu tempo –, me preocupo muito com o tempo dos leitores. Não posso oferecer qualquer coisa, tenho de oferecer algo que ele não tenha lido em outro lugar ou pelo menos não tenha lido da maneira que eu posso contar. Acho que essa pode ser uma das explicações possíveis, não sei, só os leitores podem dizer. Embora a audiência seja muito importante, e a minha se deva muito ao compartilhamento nas redes sociais, eu não me movo pela audiência. Essa é uma prisão que não me interessa. Entre as muitas coisas que descobri trabalhando na internet está o fato de que as colunas sobre moradores de rua são as de menor audiência. Parece que as pessoas não querem ver os moradores de rua em lugar nenhum, são invisíveis em toda parte, até quando viram texto. Isso faz com que eu escreva mais sobre moradores de rua – e não menos. Meu papel, como colunista, é perturbar e desacomodar.

O jornalismo passa por um momento de crise, com enxugamento de equipes e encerramento de publicações. Por outro lado, há casos como o seu, de muito interesse dos leitores. Qual a sua análise sobre esse momento pelo qual a imprensa passa?

Eu não vejo as crises como algo ruim. Gosto de crises. Acho um privilégio viver num momento em que a internet muda o mundo e desafia todo um jeito de estar nele. E acho um privilégio também viver este momento tendo vivido o momento anterior, ainda tendo enviado cartas e esperado um mês por elas, encomendando livros no livreiro que demoravam a chegar, coisas assim. Desde especialmente o século 20, a imprensa foi quem documentou a história cotidiana, a história em movimento. Quem não era contado pela imprensa não existia, o que sempre teve um efeito brutal sobre a vida da maioria dos homens e mulheres que construíam o país, o mundo ou sua aldeia, mas não eram contados na história. Hoje, isso acabou. Qualquer um pode contar a sua história, as narrativas são múltiplas, o que trouxe maior complexidade e desafios ao fazer jornalístico. Acho isso muito bom. Mas, se todos podem contar sua história, nem todos são lidos/escutados. Para ser lido/escutado, e isso vale para jornalistas e não jornalistas, para veículos tradicionais e para os novos, vale para todos, é preciso ter algo relevante a dizer, é preciso antes ter vivido, ter construído conhecimento que as pessoas achem relevante compartilhar. Neste sentido, acho que a reportagem sai fortalecida. A boa reportagem, que contempla o contraditório, as nuances, o contexto, a complexidade do que é contado, só pode sair fortalecida desse processo. Os leitores tornaram-se cada vez mais exigentes, porque tem grande quantidade de oferta de informação. Acho que isso fará muito bem ao jornalismo. É claro que há grandes incógnitas, como há em qualquer grande mudança – e esta é uma das grandes. A questão do financiamento é uma delas. E há muita gente tentando construir respostas. Hoje, mais do que nunca, ser jornalista é um processo de construção. Não está dado como as coisas vão acontecer, é preciso participar da construção do presente/futuro. É preciso ter a coragem de ser protagonista. É mais complicado? É. Mas é muito mais interessante. Acho que vamos passar alguns anos difíceis, mas sou otimista com o futuro. Sou imensamente curiosa com o mundo e é fascinante a quantidade de novidades que andam por aí nos virando do avesso. Pra mim, viver é isso, ser o tempo todo virada e desvirada.

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