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Você vai passar vergonha se discutir política no Face sem ler estes livros antes

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Raízes do Brasil: ainda atual, 80 anos depois | Companhia das Letras/Divulgação
Raízes do Brasil: ainda atual, 80 anos depois Companhia das Letras/Divulgação
 
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Desde sua primeira publicação, em 1936, o livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, passou pela Segunda Guerra Mundial, pela Ditadura Militar e por conturbada redemocratização. Mas, mesmo 80 anos depois, o livro continua explicando muito do Brasil contemporâneo - é considerado, junto de Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr, um dos grandes clássicos da história e das ciências sociais no Brasil.

O livro foi publicado como parte da Coleção Documentos Brasileiros, organizada pelo próprio Gilberto Freyre e publicada pela editora José Olympio. Depois disso, o autor fez quatro edições do texto original, diminuindo ou ampliando determinados trechos e mudando a orientação política geral apresentada pela obra.

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Para comemorar os 80 anos de publicação, a Companhia das Letras lançou uma edição crítica do livro, contendo não só a última versão feita pelo autor em 1969, mas também os trechos que diferem essa das quatro edições anteriores. Além disso, a edição conta com comentários e artigos de pesquisadores sobre a obra e seus desdobramentos.

“O livro vai respondendo a contextos históricos diferentes, e o autor vai ‘correndo atrás’ do seu argumento para reajustá-lo ao momento. Sérgio Buarque não gostava muito do seu livro de estreia. A experiência do leitor, agora, diante da edição crítica, será a de ver um livro em movimento, e um autor que negocia com sua própria juventude”, explica Pedro Meira Monteiro, doutor em teoria literária pela Unicamp, professor de literatura brasileira da Universidade de Princeton e um dos organizadores dessa nova edição.

Na obra, Buarque de Holanda investiga o processo de formação do Brasil, identificando nessas raízes os motivos para várias características da sociedade do país. Abaixo, mostramos como é possível entender o Brasil a partir desse livro:

A colonização portuguesa

A maneira com que os portugueses conduziram a colonização é, para Buarque de Holanda, um dos grandes formadores da sociedade brasileira. As fazendas monocultoras e latifundiárias comuns no período colonial foram um resultado de vários fatores: a falta de interesse e conhecimento dos portugueses pela agricultura, o desejo de ter benefícios dessas terras sem grandes investimentos e a baixa taxa de imigração para a colônia estão entre eles.

Outro fator importante é a questão urbana. Se a Espanha via a fundação de cidades como meio de demonstrar dominação para os povos coloniais, Portugal não se preocupou em formar cidades e trazer para elas uma estrutura de burocracia, exército e controle.

“Essa exploração dos trópicos não se processou, em verdade, por um empreendimento metódico e racional, não emanou de uma vontade construtora e enérgica: fez-se antes com desleixo e certo abandono”, escreve o autor. Assim, nossa sociedade se formou em grupos humanos isolados dentro de suas grandes fazendas - e a consequência desse modelo é a ausência de esforços de cooperação para um crescimento.

O legado da escravidão

“Pode-se dizer que a presença do negro representou sempre fator obrigatório no desenvolvimento dos latifúndios coloniais”, diz Buarque de Holanda. Escravos africanos eram a principal força de trabalho que permitia com que o sistema funcionasse, além de endossar os valores pregados pela sociedade patriarcal e rural.

Assim, quando a escravidão foi abolida em 1888, a vida rural entra em crise e migra, de alguma forma, para os espaços urbanos. Além disso, existe o desconforto social gerado pelo novo papel dos negros na sociedade. O fim da escravidão foi, para Buarque de Holanda, um grande divisor da sociedade brasileira.

O homem cordial

Para Buarque de Holanda, a cordialidade é uma das principais características dos brasileiros: é a hospitalidade e generosidade que se tem com todos. Isso pode até parecer ingênuo, mas mostra uma transferência de ações do âmbito privado para o âmbito público. “O ‘homem cordial’ é justamente aquele que não sabe separar a esfera pública da privada, e não consegue entender que a política não é um problema pessoal, ou familiar”, afirma Monteiro.

A cordialidade é o resultado da influência dos padrões de vida da época colonial, baseados em uma sociedade rural e patriarcal, em que os limites de afeto se impunham de maneira diferente. Depois da urbanização e da ida dessa famílias para ambientes mais populosos, essa característica de tratamento permanece.

Para Buarque de Holanda, essa característica pode se manifestar de diversas maneiras. Um exemplo é a maneira calorosa com que brasileiros lidavam com estrangeiros desconhecidos, fazendo amizades rapidamente. No âmbito público, isso é demonstrado por governantes que operam de acordo com vontades pessoais. Para o autor, deve haver uma “descontinuidade ou até uma oposição” entre o Estado e o circulo familiar.

Para Monteiro, essa característica continua presente na sociedade: “Veja-se, por exemplo, a votação do afastamento de Dilma Rousseff pela Câmara: inúmeros foram os que votaram ‘pelo meu filho, pelo meu neto etc.’, num verdadeiro show de ‘cordialidade’”, explica.

A questão da democracia

O crescimento urbano eventualmente aconteceu, ainda que as cidades fossem completamente dependentes de domínios agrários. Quando o meio rural entra em crise, principalmente depois da Abolição, e com a ausência de uma burguesia urbana independente, os senhores rurais começam a ocupar cargos administrativos na ordem do país, modelo que se repete depois da criação da democracia. Assim, as características atreladas ao mundo rural - como a cordialidade - começam a fazer parte da política brasileira.

Buarque de Holanda tem, porém, um tom otimista. Para ele, a democracia poderia significar o fim do controle oligárquico e o começo de uma revolução. Acabar com as estruturas do passado e permitir a entrada das camadas oprimidas seria a maneira de revitalizar a política e tirar os antigos vícios da sociedade. Mas finaliza: “Não é impossível, porém, que (a resistência desses grupos) se traduza diretamente em formas de expressão social capazes de restringir ou comprometer as esperanças de qualquer transformação profunda”.

“Estou convencido de que, lido no nosso presente, o livro é também, embora não exclusivamente, uma pergunta sobre a permanência macabra do espírito oligárquico no Brasil, e a sua reemergência agora, no quadro do impeachment da presidenta Dilma Rousseff. A rearticulação oligárquica e o fato de que a ‘legalidade’ possa justificar um atentado contra a democracia podem ser encontrados no livro de Sérgio Buarque de Holanda. Nunca a frase ‘a democracia sempre foi um mal-entendido entre nós’ foi tão atual”, acrescenta Monteiro.

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Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre (Editora Global, R$110)

Em seu prefácio para a quinta edição de Raízes do Brasil, Antonio Candido diz que foram três “os livros que podemos considerar chaves, os que parecem exprimir a mentalidade ligada ao sopro de radicalismo intelectual e análise social que eclodiu depois da Revolução de 1930”. São eles o próprio Raízes do Brasil, o Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre e o Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr.

O primeiro deles a ser publicado foi o Casa-Grande & Senzala, em 1933. A obra teve um sucesso imediato. No livro, Freyre foca o papel do negro na história brasileira, exaltando a miscigenação racial presente no país - uma opinião polêmica para uma época que via o crescimento do nazismo na Europa (movimento que institucionalizou ideias como “a raça superior ariana” e eugenia). Para Candido, o livro mostra com franqueza “o tratamento da vida sexual do patriarcalismo” e mostra a importância do escravo na “formação do nosso modo de ser mais íntimo”.

Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr. (Companhia das Letras, R$ 54,90)

Já o Formação do Brasil Contemporâneo foi publicado em 1942, em pleno Estado Novo. No livro, Prado Jr. situa o Brasil colonial em um contexto mais amplo, como parte da expansão ultramarina europeia, principalmente de países como Portugal e Espanha, e o capitalismo mercantil, que buscava aumentar as vendas com a importação de artigos exóticos para o antigo continente. O território brasileiro era apenas mais um empreendimento para outros países e seu desenvolvimento, considerando o que era produzido e para onde era distribuído, era voltado para os interesses da metrópole. Para Prado Jr., essa característica explica a maneira com que o sistema capitalista se instaurou no país e como o objetivo de lucro sempre esteve atrelado ao poder político.

Coronelismo, enxada e voto - O município e o regime representativo no Brasil, de Vitor Nunes Leal (Companhia das Letras, R$54,90)

Publicado em 1948, o livro de Vitor Nunes Leal investiga o colonialismo, sistema político que sustentou a República Velha (1889-1930). Nesse sistema as posições de poder político foram ocupadas principalmente pelos senhores de engenho, que replicaram a estrutura de classes que existia antes do início da democracia. Para o autor, essa característica perpetuou a desigualdade social e encontra reflexos principalmente na distribuição fundiária do país e no atraso de criação de leis trabalhistas.

Os Donos do Poder - Formação do patronato político brasileiro, de Raymundo Faoro (Biblioteca Azul, R$ 75)

O livro, publicado em 1958, é uma investigação política do Brasil entre suas origens portuguesas e a Revolução de 1930. Para ele, a herança dos portugueses foi o patrimonialismo, característica normalmente atrelada a regimes absolutistas de misturar o bem público com o patrimônio pessoal do governante. Aliada ao capitalismo de exploração vigente no país, essa característica teria resultado na burocracia e corrupção presentes no governo democrático.

O Povo Brasileiro - A formação e o sentido do Brasil, de Darcy Ribeiro (Global Editora, R$49)

Publicado em 1995, essa é a obra final do cientista social e antropólogo Darcy Ribeiro. O livro aborda a formação étnica e cultural do país, incluindo a luta indígena e o sofrimento dos negros escravizados. O autor questiona principalmente a formação da identidade brasileira, construída ao mesmo tempo pela sobreposição e pela anulação de identidades anteriores - a portuguesa, a indígena e as africanas. Para o autor, o resultado foi um país sem identidade definida e, assim, sem um grande projeto definido - para ele, um dos motivos pelos quais o Brasil não deu certo.

Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasilerio, de Roberto DaMatta (Rocco, R$ 47,50)

Publicado em 1997, o livro apresenta uma investigação de questões culturais da sociedade que expliquem o jeitinho brasileiro e as frases como “você sabe com que está falando?”. Para isso, DaMatta recupera mitos e ritos criados para refletir socialmente os dilemas básicos de uma sociedade fundada em grandes dificuldades.

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