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Atriz das companhias Silenciosa e Heliogábalus, Léo Glück não separa arte e vida e leva ao palco sua não-passividade diante do mundo

  • Luciana Romagnolli
“Nascer, ir para a faculdade, cortejar garotas, fazer muito sexo, concluir o curso, casar, fazer pouco sexo, ter filhos, arranjar uma amante, ir engordando... Desse modelo de vida, eu fujo feito louca.” Léo Glück, atriz |
“Nascer, ir para a faculdade, cortejar garotas, fazer muito sexo, concluir o curso, casar, fazer pouco sexo, ter filhos, arranjar uma amante, ir engordando... Desse modelo de vida, eu fujo feito louca.” Léo Glück, atriz
 
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Léo Glück desce do táxi escondendo o vestido colorido sob um casaco preto, mas o dourado da sombra e de alguns cílios postiços ofusca imediatamente quem a vê. Olha as redondezas da Praça Santos Andrade, rejeita um canteiro de flores vermelhas mirradas (“decadente”) e escolhe se deitar na grama para ser fotografada. “Viu o que é a performance?”, pergunta à repórter que ficou com a bolsa e o casaco da atriz entrevistada pendentes no braço, enquanto esperava a sessão de cliques acabar.

Vida ou arte? “Não separo as coisas”, diz.

O primeiro espetáculo que montou com uma de suas companhias teatrais, a Silenciosa, foi o happening Anfetaminas Não Fazem Bem à Saúde, Mas São Ótimas para Adubar o Jardim. A cena se dividia em ações simultâneas como lavar roupa, plantar, tomar café e jogar vôlei, e os espectadores se infiltravam entre elas, realizando as tarefas também. A atriz e diretora acha que “seria incrível” se, como ela, o público fosse capaz de borrar os limites de vida e arte: “Um pouco caótico, sim. Mas é muito triste encarar a arte empresarialmente.”

Não se trata de fazer performances em qualquer tempo e lu­­gar, mas de manter uma postura única diante da arte e da vida. A maquiagem brilhante com que Léo encarou a lente do fotógrafo vai tranquilamente ao café para a conversa com a jornalista, sem menção de uma passada pelo banheiro para lavar o rosto. Menos superficialmente, é no teatro que a curitibana “sublima” problemas e dores pessoais.

Uma tensão sempre presente em suas criações diz respeito às questões de gênero, corpo, sexualidade. “Nasci dentro de um corpo biologicamente masculino, mas, na minha cabeça, eu sou menina”, diz.

Só aos 20 anos, Léo compreendeu a si mesma. E que poderia transformar o próprio corpo para que correspondesse à sua identidade. “Você vai crescendo, por aquela idade dos 16 aos 19, e não entende do que se trata. Acha que é gay ou, no máximo, traveco, porque usa maquiagem. Mas é mais profundo que isso: o que existe é uma insatisfação com o corpo que não foi você quem escolheu. Sua cabeça tem que correr atrás para tentar explicar.”

Talvez a feminista norte-americana Judith Butler, que ela cita, tenha lhe dado a resposta buscada: gêneros e sexos existem tantos quantos são os seres humanos.

O que nunca quis da vida? Nas palavras de Léo: “Nascer, ir para a faculdade, cortejar garotas, fazer muito sexo, concluir o curso, casar, fazer pouco sexo, ter filhos, arranjar uma amante, ir engordando... Desse modelo de vida, eu fujo feito louca.” Deixa claro que não é por falta de amor: namorado tem há três anos. Ricardo Nolasco, ator com quem nutre também uma parceria criativa na companhia Heliogábalus. Juntos, montaram Le Magnifique Nouvelle de La Passion e, no Fringe deste ano, O Último Canto do Bode.

Centauro

Sagitariana do dia 4 de dezembro de 1981, nascida no Hospital Nossa Senhora de Fátima, em Curitiba, Léo se identifica com o signo aventureiro simbolizado por um centauro: “Sou meio humana, meio cavalo mesmo”. As patadas, diz, vêm quando fica desgostosa da vida. Aí, pode até dizer a uma jornalista que discordou de um trabalho seu que ela tem “preguiça mental”.

Contundência é qualidade que demonstra constantemente, do olhar perscrutante e vivaz do dia-a-dia à poderosa presença cênica em peças como Jesus Vem de Hannover ou Los Juegos Provechosos, da Silenciosa.

Nesta última, discursava pendurada por uma corda do alto de um prédio no centro de Curitiba. O teatro “caretinha” não lhe interessa, porque não lhe permite a autonomia para dizer o que ela mesma – e não um autor consagrado – pensa sobre o mundo em que vive, agora.

Mas foi pela cena convencional que Léo primeiro enveredou. Tinha 14 anos quando entrou para o Curso de Atores do Colégio Estadual do Paraná. “Não ensinavam o que é teatro contemporâneo nem instigavam a vontade de criar coisas próprias. Era meio medíocre”, descreve, “pegar o texto de alguém, montar e se realizar como ator”.

A professora veio com uma conversa de que a aluna já havia provado ser capaz de representar mulheres poderosas, deveria então assumir um papel masculino numa montagem de O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues. Fez. Mas não deixou de pensar que ninguém pedia às outras garotas para interpretarem homens nem aos garotos que se passassem por mulheres.

Dali foi para a Faculdade de Artes do Paraná, cursar direção teatral, e percebeu que, no meio universitário (ao menos no curitibano dos primeiros anos 2000), o pensamento em voga não divergia muito do colegial. A noção de teatro ainda se resumia a falar um texto “bom”. Ou seja, um clássico como Pirandello (1867-1936) era acolhido de bom grado. Já diante de alguma das ousadias contemporâneas como as de Heiner Müller (1929-1995) – cujo Hamletmachine, vale lembrar, data de três décadas atrás –, brotava no corpo acadêmico uma sequência de “por quês”?

“Desde o começo, tive muita encrenca com todos os professores e alunos. Eu me interessava por expressão corporal, performance, dizer coisas que os outros não queriam ouvir”. A experiência, contudo, não foi estéril. Havia outros “incompreendidos” pela instituição e deles Léo se aproximou, formando logo no segundo ano a Silenciosa, com Giórgia Conceição e Henrique Seidel. “As nossas lutas são sempre árduas porque a gente luta para melhorar o mundo”, define.

Em Burlescas, por exemplo, um espetáculo performático de seis horas, ouve-se a certa altura um discurso crítico sobre a dominação patriarcal. Ao mesmo tempo, Léo provoca a libido (dos que a assistem e dela mesma) dançando em torno de um poste. Clara a ironia? Pois teve quem entendeu errado e fez propostas financeiras, recusadas: “Não sou prostituta, sou atriz”.

Mais que excitar, quer incitar a reflexão: “Pense como você mesmo caiu direitinho no nosso jogo, como você, público, é manipulado”, provoca. Subestimar sua plateia, afinal, está longe de ser o seu papel. Espalhar suas ideias, sim: “Quem tem microfone, tem poder”, diz.

Convencida disso, Léo colocou a música nos seus planos. Em breve, quer lançar um EP de sonoridade experimental eletrônica, cantando. “É um veículo para a palavra atingir mais pessoas”, argumenta, ela que ainda não publicou seu primeiro livro, mas guarda escritos poéticos e dramáticos em casa, e para quem a literatura tem grande importância.

Com escritores russos e irlandeses, Léo diz ter aprendido o que resume sua postura diante da vida (e da arte). “Uma sensibilidade visivelmente aguçada em relação ao mundo.” E “a não-passividade”.

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