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De rapaz do interior a mito entre os ricaços, a história do Rei do Ecstasy no Brasil

Aos 18 anos saiu de casa; aos 20 estava preso por tráfico de drogas, e aos 24 havia largado tudo

  • Agência O Globo
Ecstasy: droga bancou vida de luxo ao traficante Gabriel Godoy | Jonathan Campos/Gazeta do Povo
Ecstasy: droga bancou vida de luxo ao traficante Gabriel Godoy Jonathan Campos/Gazeta do Povo
 
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Aos 18 anos, ele saiu de casa e pouco depois estava traficando ecstasy em festas no litoral de São Paulo (e não tardaria a chegar à capital). Aos 20, foi preso e inovou ao comercializar drogas sintéticas dentro da cadeia. Aos 21, cumprida a pena, ele expandiu seus negócios: além de abastecer clientes de classe alta das boates e festas, levou o ecstasy para as favelas e, mais tarde, se aventurou em fabricar suas próprias pílulas e produzir festas de música eletrônica. Aos 24, porém, havia largado tudo.

A incrível história de Gabriel Godoy preenche as 210 páginas de “Baladas proibidas”, livro que ele escreveu com o repórter de O GLOBO Bolívar Torres.

“Vivi muita coisa num curto período de tempo. Para mim, tudo foi experiência. E a melhor coisa que aconteceu comigo foi descobrir que tudo é possível - diz Gabriel, que se define como “um cara do interior em quem ninguém acreditava” (ele nasceu na cidade paulista de Serra Negra), que virou uma espécie de mito em festas VIP, cheias de milionários e celebridades de todos os níveis, como o Rei do Ecstasy (no auge, chegou a vender mais de 100 mil pílulas por mês em São Paulo).

A trajetória do rapaz, hoje com 28 anos, esbarrou não só com as de seus clientes (alguns bem famosos) e as de DJs e produtores de festas, mas com as de policiais corruptos (com quem fez sociedade), bandidos encarcerados, traficantes da favela e, por fim, fiéis da Igreja de Cristo Brasil-Japão, na qual teve uma revelação, em 2014.

“Resolvi escrever “Baladas proibidas” porque me converti e vi que alguns dos meus projetos sociais dentro da igreja estavam dando certo. Por que não contar a minha história num livro, para que as pessoas soubessem pelo que passei?”, explica.

“Mas não podia contar a história como um arrependido, o livro não poderia ser o relato de um religioso. Eu tinha que contar a verdade do que vivi e do que eu achava do mundo em cada momento. Naquela época (em que traficava), eu não queria estar em outro lugar.”

De mão em mão, os textos do ex-traficante chegaram às mãos da agente literária Lucia Riff, que os confiou a Bolívar Torres para que os transformasse num livro. A narrativa, inevitavelmente romanceada em algumas partes, foi formada ao longo de nove meses de entrevistas.

“De cara percebi que essa história tinha que ser contada na primeira pessoa, pelos olhos do próprio Gabriel. Tem alguns capítulos na terceira pessoa para dar uma contextualizada na história, mas 90% do texto é uma tentativa de recriar a voz do protagonista”, conta Bolívar, para quem o livro “fala muito sobre uma geração e também sobre um momento do Brasil”.

“A ascensão do Gabriel coincide com um crescimento econômico ilusório: commodities bombando e um deslumbre com as novas possibilidades de consumo. Ele é o cara simples do interior que, de uma hora para outra, se vê ganhando centenas de milhares de reais e gastando tudo em relógio, prostitutas e uísque inflacionado em camarote VIP.”

Hoje, na nova vida, dedicada a trabalhos sociais e a uma firma de reformas, Gabriel não se afastou da música eletrônica - ele ainda planeja produzir com uma grande festa “sem droga”.

“A festa eletrônica, ao contrário do que acontece no sertanejo e no samba, quase não tem briga. É paz, harmonia e felicidade. Tem gente que se converte e começa a achar que é pecado, mas eu acho a cultura da música eletrônica uma coisa muito bonita, existe muito respeito nela”, garante ele, que chegou a iniciar negociações para a realização de um filme e uma série de TV com a sua história. “Agora quero esperar o livro fazer ruído.”

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