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MMA: de renegado a paixão nacional

Popularização dos torneios de artes marciais mistas no Brasil traz à tona uma discussão quanto às causas e consequências do que é definido por muitos como “espetacularização da violência”

Luta entre o brasileiro Junior Cigano e o americano Cain Velasquez registrou audiência recorde em novembro de 2012 |
Luta entre o brasileiro Junior Cigano e o americano Cain Velasquez registrou audiência recorde em novembro de 2012
 
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MMA: de renegado a paixão nacional

A lona manchada de sangue orgulha. É a forma fluida de uma honra ancestral. Tatuada no chão na luta entre dois homens pela necessidade primitiva de provar quem é o melhor. O objetivo é neutralizar o adversário (nocauteá-lo) em um processo que poderia levá-lo à morte se não fosse interrompido. Tudo, é claro, dentro de um conjunto de regras rígidas, valores morais e estratégias de mercado revolucionárias.

Entenda como funciona o MMA

Este combo de filosofia, esporte e negócio transformou o MMA (em inglês, mixed martial arts, ou artes marcias mistas, em português) no esporte que mais provoca paixões no século 21. Uma modalidade que possui uma relação atávica com o Brasil, em especial com Curitiba (leia mais na página ao lado). Graças a um grupo de lutadores brasileiros a modalidade surgiu, se aprimorou e se tornou a febre mundial que movimenta milhões de dólares e pessoas. E o país, definitivamente, parece ter mudado a maneira de encará-la.

Na última quinta-feira, por exemplo, a seleção brasileira de futebol enfrentou a velha rival Inglaterra, no histórico estádio de Wembley, em Londres. Jogo da volta do treinador Luiz Felipe Scolari, escolhido para salvar o projeto da Copa do Mundo em casa, que começa em menos de quinhentos dias.

Ao contrário do que ocorria em outros tempos, o jogo passou quase em branco. Pasmaceira nos bares, redes sociais e no medidor do Ibope.

No último dia 11 de novembro, o lutador brasileiro Junior Cigano enfrentou o americano Cain Velasquez na disputa pelo título mundial do Ultimate Fighting Championship (UFC), o maior campeonato da categoria. Para a luta, bares armaram transmissões especiais e amigos se reuniram fazendo churrasco enquanto a aguardavam. As redes sociais bombaram. A Rede Globo registrou a maior audiência de um evento esportivo naquele mês, justamente o das rodadas decisivas do Campeonato Brasileiro.

Não falte quem, apressado, conclua que o país do futebol parece estar se transformando também no país das lutas. Pode ser que ainda não. Como também não se pode dizer, sem correr o risco da ingenuidade, que o antes marginal e bárbaro MMA se transformou em dos esportes e entretenimentos preferidos de famílias brasileiras de classe média.

Basta ver o número de praticantes do esporte crescendo a cada dia nas academias. Mulheres, homens com mais de 50 anos e adolescentes (veja matéria ao lado). Uma das antenas culturais da nação – para o bem e para o mal –, o compositor Caetano Veloso foi “finalizado” pelo fascínio casca grossa das lutas. Em seu mais recente álbum, Abraçaço, Caê cita o nome de alguns dos principais atletas da atualidade e compara a lenda do MMA brasileiro a outros patrimônios culturais da raça, como o carnaval e a bossa nova. Ele não está só. A atriz e colunista Fernanda Torres, por exemplo, escreve seguidamente sobre o esporte. O ministro do Supremo Tribunal Federal Luis Fux é praticante e entusiasta, só para citar alguns exemplos.

Fetiche

Mesmo com a popularização dos torneios ainda há, contudo, discussões acadêmicas quanto às causas e consequências daquilo que pode ser chamado de “espetacularização da violência” nos eventos de MMA.

“A popularização se deve, em grande medida, ao fato de os promotores destes eventos terem conseguido transformar a violência em espetáculo. A violência é hipnótica, dificilmente ficamos indiferentes a ela”, afirma Elton Frederick, mestre em ciência política pela PUCSP.

Para ele, a grande sacada de mercado dos eventos de MMA foi converter esse fetiche – o sangue dos atletas poeticamente chamado de “suor vermelho” pelos praticantes – em um produto consumível para o grande público.

A ascensão do esporte estaria mais relacionada a um fenômeno de consumo, à capacidade da sociedade de construir ou simplesmente reconhecer uma demanda por um produto que é, aparentemente, pouco aprazível. Para tanto, basta pensar que apesar da “febre” ser algo recente, o esporte não é. “Demorou muito para que o MMA fosse aceito como entretenimento. E, por mais paradoxal que isso possa parecer, sua popularização só foi possível a partir do momento em que houve uma moderação da violência, com o estabelecimento de limites e regras aos competidores.”

Jogo duro

Mesmo assim, ainda há críticos (e políticos e religiosos) que tentam aliar o crescimento da modalidade a um retorno à barbárie, em que a violência é a única linguagem compreensível, uma volta àquilo que há de mais arcaico no homem. “Não se pode negar que há algo de grotesco nesses eventos. Mas merece reflexão a afirmação de que eles denotam o regresso a um estado primitivo ou uma negação da civilização”, afirmou o professor de comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e escritor Muniz Sodré ao Observatório da Imprensa.

Praticante de artes marciais, ele crê que a agressividade atribuída ao MMA decorre de uma falsa impressão dos primórdios do esporte, “quando não havia limites”, antes que a modalidade passasse a ter regras claras. “Você vê dois sujeitos enormes, terríveis, se agredirem e depois se abraçarem. Um ajuda o outro a levantar. Então, é um jogo. É um jogo duro, mas é um jogo”, defendeu.

Doutor em sociologia e história americana, o professor havaiano David Mayeda, um dos principais estudiosos do fenômeno MMA no mundo, afirma que a modalidade não pode ser vista como uma instituição que promove a violência na sociedade. “Eu acho que o esporte leva a violência social para uma outra escala, um grau menor. Um fã de MMA não briga na rua, não usa armas. Acho que o MMA não incentiva a violência tanto quanto a guerra e as decisões políticas que causam a miséria.”

Curitiba é referência mundial da luta

Fernando Rudnick

O conceito é tão simples quanto lógico. Se toda luta começa em pé, leva vantagem o lutador que mais domina a técnica de combate em pé. Por mais inocente que talvez possa parecer, essa regra está diretamente atrelada ao sucesso de Curitiba no mundo das artes marciais mistas (MMA).

Não fosse o desenvolvimento do muay thai – centenária arte marcial tailandesa – na capital paranaense no final da década de 1970, a cidade celeiro de campeões como Anderson Silva, Wanderlei Silva e Maurício Shogun Rua não seria nem de longe a referência mundial que é hoje.

O estilo que privilegia golpes com as chamadas oito armas (punhos, cotovelos, joelhos, canelas e pés) foi introduzido no país por Nélio Borges, o Nélio Naja, justamente em Curitiba. Mesmo sem viajar à Tailândia, ele se apaixonou pelo esporte após aprender as noções básicas com um professor tailandês. Depois, passou a ensinar os movimentos no Círculo Militar e em sua academia, na Rua Dr. Carlos de Carvalho.

Naja, que já era faixa-preta em taekwondo, fez adaptações e acabou criando sua própria versão do boxe tailandês. “O muay thai curitibano”, crava Fábio Noguchi, 46 anos, aluno de Nélio Naja em meados da década de 80. “Ali foi onde começou tudo. Mas pouca gente treinava, porque era meio rústico, sem proteção”, emenda ele, que anos mais tarde deu a faixa-preta para um então jovem atleta chamado Anderson Silva.

“Lutadores que são tops hoje no UFC e eram no Pride [extinto evento japonês de vale-tudo] como Wanderlei, Anderson, Pelé, Shogun e vários outros, começaram com o muay thai. Isso deu experiência a eles na luta em pé, mais agressiva e completa”, atesta Noguchi.

A era Chute Boxe

Com a excelência na ‘trocação’ proporcionada pelo boxe tailandês, dois outros fatores foram fundamentais para que o cenário se tornasse propício para o fortalecimento do vale-tudo em Curitiba.

Assim como no Rio de Janeiro, berço do jiu-jítsu brasileiro, onde a acirrada rivalidade com praticantes de luta-livre resultou em um boom de popularidade – e também de brigas –, em Curitiba aconteceu algo semelhante na virada para os anos 1990. Os adversários, no entanto, eram praticantes da capoeira.

Pouco tempo depois, na segunda metade da década, enquanto a academia Chute Boxe despontava e revelava sua primeira geração de atletas, o vale-tudo ainda estava longe de ter as regras e a fiscalização atuais. Também foi nesse período que aconteceu a segunda crucial decisão para a capital se tornar uma fábrica de campeões.

“A gente fez uma fusão do muay thai com o jiu-jítsu, que é uma luta de chão. No nosso entendimento, isso foi perfeito para o MMA. Saber lutar de pé e se virar no chão era o ideal para o esporte”, lembra Rudimar Fedrigo, líder da Chute Boxe, que formou uma das melhores equipes do mundo durante anos.

No início dos anos 2000, a rivalidade era com a Brazilian Top Team (BTT), do Rio. “E isso impulsionou ainda mais [o esporte], porque os próprios japoneses já queriam ver lutas de brasileiro da Chute Boxe contra brasileiro da BTT no Pride. Eles entendiam que existia a rivalidade. Sempre havia um respeito, uma cordialidade, mas a disputa muito grande sempre existiu”, descreve Fedrigo.

Eleito o melhor técnico de MMA de 2012 pelo World MMA Awards, Rafael Cordeiro fez parte da história da Chute Boxe como lutador e treinador. Para ele, Curitiba não é só apenas a cidade do muay thai ou do MMA. O tempo a transformou na cidade da luta.

“Você fala de Curitiba no Japão e todo mundo conhece por causa da Chute Boxe. Fala de Curitiba nos Estados Unidos e a resposta é Wanderlei, Shogun, Anderson. Eles sabem que aqui é um polo de lutadores”, conclui Cordeiro, que hoje ensina a luta em pé desenvolvida em Curitiba nos Estados Unidos.

Clique aqui e confira o infográfico em tamanho maior

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