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Musa de obras e cartas

Jocy de Oliveira lança livro que compila mais de 100 correspondências suas com compositores como Stravinski, Berio, Santoro e Cage

  • Rafael Rodrigues Costa
A premiada compositora, nascida em Curitiba e radicada no Rio de Janeiro desde criança, é um dos principais nomes da música clássica brasileira |
A premiada compositora, nascida em Curitiba e radicada no Rio de Janeiro desde criança, é um dos principais nomes da música clássica brasileira
 
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Musa de obras e cartas

Um dos principais nomes da música clássica contemporânea no Brasil, a premiada compositora Jocy de Oliveira também foi uma pianista de carreira notável iniciada ainda nos anos 1950, e seguiu uma trilha incomum também em sua trajetória de intérprete. Ao invés de procurar fazer fama tocando o repertório tradicional, tomou uma rota mais tortuosa ao se dedicar à música de seu tempo. E fez isso interpretando os maiores: solou sob regência de Igor Stravinski e estreou obras dedicadas a ela por Iánnis Xenákis, Luciano Berio, Claudio Santoro e John Cage.

Aos 78 anos, Jocy, nascida em Curitiba e radicada no Rio de Janeiro desde pequena, revela que foi também a musa de centenas de correspondências enviadas por estes ícones do século 20 no recém-lançado Diálogo com Cartas. Em ordem mais ou menos cronológica, recheado por textos, fac-símiles e fotografias raras, o livro conta os bastidores da relação intensa que se dá entre intérprete e criadores, e também mostra que a musicista, ainda com seus 20 e poucos anos, estabeleceu um instigante diálogo artístico e afetivo com estes compositores.

De seu acervo de mais de trezentas correspondências, Jocy selecionou mais de uma centena, todas de autoria dos compositores de quem foi mais próxima.

O trabalho começou em 2007, quando a compositora recebeu um prêmio da Rockefeller Foundation para escrever um livro. Jocy xerocou todas as cartas e trabalhou em um jeito de agrupá-las, interligá-las e recuperar as circunstâncias em que foram escritas. “Foi como um labirinto”, conta Jocy, em entrevista para a Gazeta do Povo. “Mas não tinha o direito de deixar este material esquecido”, explica a autora, que diz ter ouvido de musicólogos que as cartas trazem materiais inéditos valiosos para pesquisadores.

O livro, no entanto, ultrapassa o valor acadêmico. Com um texto saboroso e rico em detalhes contados com beleza, o trabalho é também um pequeno ensaio sobre cartas – de acordo com Jocy, “um belo e talvez frustrante meio de comunicação, um meio poético de expressão em um momento de cumplicidade”. Suas páginas resgatam o cenário da música clássica desde os anos 1960 e contam casos divertidos e curiosos dos interlocutores de Jocy, como na passagem de Stravinski pelo Rio de Janeiro e nos episódios que revelam o lado mais intempestivo e imprevisível de Eleazar de Carvalho, com quem foi casada e teve um filho.

Há ainda análises interessantes sobre obras e textos que explicam as ideias da autora sobre sua própria obra de um ponto de vista feminino e do lado de baixo do Equador – ótica fundamental em um campo dominado pelo olhar masculino, europeu e americano. “Ainda está por ser escrita a musicologia brasileira sob a ótica da mulher e da literatura de gênero”, escreve Jocy. Ela diz não se sentir discriminada, já que sua obra segue sendo executada em vários países do mundo. Mas ela precisa lembrar, por exemplo, que foi pioneira ao apresentar a música eletrônica no Brasil. “Sempre tive uma preocupação nesse sentido, inclusive em minhas obras. Evidentemente, não é agora que vou transmitir uma visão contrária a isso. Mas não é a meta do livro”, ressalta.

Olhar íntimo

Confira relatos de Jocy de Oliveira sobre alguns dos compositores presentes em Diálogo com Cartas:

Stravinski (1882-1971)

“O Stravinski que me ficou gravado na memória foi fruto de seu extraordinário carisma e arguta inteligência, um espírito jovem, observador, antenado com tudo e extremamente alerta. Lembro-me de seu sorriso doce, constrangedoramente doce, em contraste ao olhar penetrante e observações agudas.”

Eleazar de Carvalho (1912-1996)

“Eleazar tinha um caráter intempestivo e imprevisível, com uma enorme presença de espírito e sarcástico senso de humor. Era um grande gozador e viveu a vida como se fosse autor de sua própria biografia. Criou o personagem operístico Eleazar de Carvalho e viveu-o intensamente como se estivesse num palco. A imagem que fazia de si mesmo era tão poderosa que já não podia distinguir entre encenar e viver.”

Luciano Berio (1925-2003)

“A revelação da música de Luciano Berio, a sedução de sua maestria e a curiosidade de minha juventude foram tomando forma e, como droga, tomando meu corpo e mente numa empatia que pouco a pouco se transformou numa longa e incandescente relação. Suas qualidades humanas não se igualavam à sua genialidade de músico e artista. Mas, com minha pouca experiência, isso não era visível aos meus olhos.”

Claudio Santoro (1919-1989)

“Um espírito inquieto, que questionava constantemente as amarras do estabelecido. Uma personalidade atuante, com um profundo sentido sociopolítico e de valores éticos. Um verdadeiro transgressor. Santoro foi um artista prolixo que experimentou todas as tendências sem barreiras estéticas ou cronológicas, na ânsia de explorar novos caminhos e com a maestria do artesão que domina totalmente seu ofício.”

Lukas Foss (1922-2009)

“Permeou muitos caminhos e tendências sempre com a mesma desenvoltura. Sentia-se à vontade em qualquer lugar ou tendência. O que o motivou em cada etapa? Curiosidade, influências, intuição, domínio da técnica, desafios, novas descobertas? Ele parecia vagar pelo seu próprio ideário.”

Karlheinz Stockhausen (1928-2007)

“... era um homem excepcional: carismático, detalhista, perfeccionista, e paradoxal. Controvertido, era amado por alguns e detestado por outros. Chamado de autoritário, temperamental, místico... e o resultado foi a genialidade de sua obra. Ele era o tipo de homem que parecia imortal .”

Iánnis Xenákis (1922-2001)

“Xenákis era um homem amável, simples, com um belo perfil do lado direito do rosto e uma profunda cicatriz pelo estilhaço de uma granada no lado esquerdo. (...) tornou-se a coqueluche do público mais avant-garde de Paris (...), embora ainda lutasse com certa dificuldade para divulgar sua obra dentro do establishment.”

Olivier Messiaen (1908-1992)

“Meu encontro com Messiaen foi sempre formal. Ele me falava um pouco sobre a interpretação de sua obra pianística, sua religiosidade e seus mestres – os pássaros. Eu tocava a música dele para ouvir a opinião do próprio compositor e enviava-lhe minhas gravações de sua obra, as quais ele sempre aprovou com entusiasmo. Mas a forte impressão do Messiaen que me ficou gravada não fala – compõe.”

John Cage (1912-1992)

“John Cage era sua própria obra, e sua obra é única. Um homem incomum que respondia a uma pergunta com outra, contava uma história que não contava, era músico, filósofo, poeta, artista, inventor, que importa? Um ser iluminado, isso sim ele era.”

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