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Literatura

Na cabeça de Malcolm Gladwell

Jornalista da revista New Yorker escreve textos a respeito de tudo que o interessa, do sucesso do catchup Heinz à sensação de pânico

  • Irinêo Baptista Netto
“Quando você tem alguém de fora observando aquilo que você faz, é inevitável que surja uma maneira diferente – ou incomum – de encarar determinados fatos. Eu não faço parte do mundo deles, mas tenho interesse em saber como as coisas funcionam e quero conhecer suas histórias. A minha abordagem é diferente da de um especialista.” Malcolm Gladwell, escritor |
“Quando você tem alguém de fora observando aquilo que você faz, é inevitável que surja uma maneira diferente – ou incomum – de encarar determinados fatos. Eu não faço parte do mundo deles, mas tenho interesse em saber como as coisas funcionam e quero conhecer suas histórias. A minha abordagem é diferente da de um especialista.” Malcolm Gladwell, escritor
 
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O jornalista Malcolm Gladwell tem 47 anos e há 14 escreve para a New Yorker. Com um espectro de interesses que parece não ter fim, ele é autor de quatro livros. O quarto, O Que Se Passa na Cabeça dos Cachorros, é o mais recente a sair pela editora Sextante. Trata-se de uma compilação de textos escritos para a revista nova-iorquina.

No Brasil, Gladwell frequenta as prateleiras de Administração talvez por escrever também sobre o mundo corporativo, mas seus textos são peças incríveis de jornalismo. Perfis, ensaios e re­­portagens sobre assuntos tão di­­versos quanto a fórmula do cat­chup Heinz e a utilidade das en­­trevistas de emprego.

Na última quarta-feira, ele conversou por telefone com a reportagem da Gazeta do Povo do seu escritório em Nova York. A voz parecia um pouco cansada, mas Gladwell foi extremamente atencioso, usando sempre um longo intervalo de silêncio a cada pergunta feita. Ele começava a responder só depois de cinco, sete segundos quieto.

A conversa começou em torno da possibilidade de se colocar no lugar de uma pessoa. Há quem ache isso impossível. Bom, não é. “Eu penso que é, sim, possível você se colocar no lugar de alguém, ou saber exatamente o que alguém pensa ou sente sobre algo específico”, diz Gladwell. Ele exemplifica, citando a conversa que teve com um radiologista, descrita no texto “O Pro­­blema da Imagem”.

“Eu queria explicar para as pessoas o que é que um radiologista vê quando olha para uma radiografia. Isso é perfeitamente possível de se fazer. O que não é possível é saber o que esse mesmo radiologista pensa ou sente em relação ao mundo, a tudo que o cerca”, diz. Delimitando um objeto, diz Gladwell, é possível “analisá-lo de um ponto de vista que não seja o seu”.

Num dos melhores textos de O Que Se Passa na Cabeça dos Ca­­chorros, o autor procura explicar as diferenças entre as pessoas que entram em pânico e as que entram em colapso. Cita a jogadora de tênis Jana Novotna e John-John, filho de John Fitz­­gerald Kennedy. Para provar como pode assumir um ponto de vista que não seja o seu, ele chegou a pagar um piloto profissional para simular num voo o desastre aéreo que matou John-John (que teria entrado em pânico durante uma tempestade).

Sempre que se aproxima de uma fonte, o jornalista britânico criado no Canadá, que hoje mora em Nova York, procura conviver com ela por um tempo, ouvi-la muito e também observá-la. Além de ler tudo o que encontra a respeito do assunto sobre o qual está escrevendo.

Lillian Ross, uma das repórteres famosas da New Yorker (é dela um perfil de Ernest Hemingway que entrou para a história da publicação), dizia não ser possível escrever sobre alguém de quem não se gosta. “Concordo, de certa forma, com Lillian Ross, mas eu não diria que é um gostar da pessoa sobre a qual escrevo. Acho que, mais exatamente, é preciso haver um interesse meu por essa pessoa. É muito difícil escrever um artigo longo e conviver bastante tempo com alguém por quem você não se interessa”, diz Gladwell.

Enquanto figuras da velha escola, como Gay Talese e Truman Capote, abominavam o gravador, que julgavam ser uma forma de inibir a fonte ou de “muleta” para o repórter, Gladwell diz que usa gravador “sempre” e argumenta que é difícil encontrar alguém que ainda se sinta inibido diante do aparelhinho. “E eu não faço um jornalismo agressivo”, diz o escritor. “Não tenho interesse em explorar a vida íntima das pessoas. Ou expô-las de alguma forma. O que elas fazem na intimidade não me interessa e acho que isso as coloca à vontade para conversar comigo e para me contar o que sabem.”

Uma das qualidades mais evidentes de Gladwell é a capacidade de explicar para leigos algo que mesmo um especialista po­­de­­ria ter dificuldades de elucidar. Escrevendo acerca do que um médico vê numa radiografia, Gladwell consegue ser mais claro (aos olhos de um não iniciado) do que um médico seria se tentasse se explicar para alguém que não seja da sua área.

“No fim, claro, existem coisas que você acaba não entendendo, ou que não são acessíveis dentro de uma reportagem”, diz.

Serviço:

O Que Se Passa na Cabeça dos Cachorros, de Malcolm Gladwell. Tradução de Ivo Korytowski. Sextante, 400 págs., R$ 39,90.

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